04/04/11

De Volta às Férias Grandes no Começo da Primavera, por Tructesindo

Ainda se chamavam «as férias grandes»... Foi numas férias grandes, não sei exactamente quais, que eu descobri o grande Eça de Queirós! Essas férias, já lá vai tempo, passei-as a ler tudo o que dele me chegou às mãos. Li de enfiada Os Maias, o Mandarim, O Crime do Padre Amaro, o Primo Basílio, A Cidade e as Serras, os Contos, as Prosas, enfim, literalmente, tudo o que apanhei.

Eça sobrevivera até ao Liceu pois era certo e sabido que autor dado nos bancos da escola tornava-se, não só para mim, inimigo mortal. Ainda hoje me interrogo sobre a inteligência do critério que decide que miúdos de 15-16 anos comecem a ler Eça de Queirós pela sua obra mais complexa, Os Maias. Não faria mais sentido começar com algo mais acessível aos putos? O Mandarim, por exemplo, seria uma excelente introdução e poderia servir de porta de entrada para a restante obra. Assim com Os Maias logo a abrir, a maioria dos miúdos cria logo uma aversão insanável. Foi o que se passou comigo, mas felizmente a minha professora de Português do 11º ano era simplesmente FABULOSA (chamava-se Lívia Múrias) e alguma coisa me ficou do Eça e do gosto pela literatura porque nessas férias grandes, devorei a obra toda que apanhei do grande escritor português.

Mas felizmente não li todo o Eça, sobraram-me alguns - A Relíquia que li à coisa de dois meses; e A Ilustre Casa de Ramires que acabei ontem! A sensação é incrível, não quero falar de mais que isso, da sensação, do gozo literário que há em ler Eça. Não quero fazer um post de análise literária para a qual me faltaria talento. Venho aqui apenas dar conta da sensação fabulosa que é re-descobrir a magia de Eça de Queirós.

Não conheço mais nenhum escritor com aquele subtil sentido de humor, não vejo ninguém que melhor domine a língua portuguesa, não conheço muitos mais escritores que me transportem literalmente para outros tempos, outros espaços e outros costumes sem sequer sair de casa. Os livros de Eça são a invenção humana mais parecida com a máquina de tele transporte do Star Treck! E, acima de tudo, foi um prazer voltar a ter contacto com aquilo que a crítica rotula de «ironia» mas que é muito mais que isso. O texto de Eça vive sempre, pelo menos, em dois planos - um visível e expresso e outro inaudito que eu não descortino como é que lá está mas está. Eça diz mais nesta dimensão inaudita do seu texto no que no texto propriamente dito. É como se as personagens estivessem realmente ali à nossa frente, como se as pudéssemos ver e perceber que estão a mentir ou a dizer o contrário do que querem ou a sublimar ou a racionalizar... Mas o mais incrível é que Eça faz isto de forma tão indelével, jogando nas entre-linhas, que eu nem percebo como é que apanho essa outra camada do seu texto. Mas apanho porque ela está lá graças ao imenso talento do seu criador. Nesta misteriosa tessitura do não dito está muito do interesse de Eça e da sua contemporaneidade. Ele é quase psicanalítico.

Quem é o melhor escritor português de todos os tempos? Não sei e esta pergunta, possivelmente, nem tem resposta. Mas martela-me a cabeça quando leio Eça. Eu já quase a tinha esquecido e agora ela voltou. Felizmente ainda me faltavam A Relíquia e a Ilustre Casa de Ramires para eu voltar de novo àquelas férias grandes do meu liceu. Já imaginaram o que era se nunca tivessem lido Eça e se agora, assim de repente, começassem a ler os seus romances? Ou, ao menos, dois ou três deles? Não seria um assombro absoluto? A boa notícia é que ainda me sobra O Conde de Abranhos que também me escapou à voracidade literária daquelas férias de verão. Felizmente...

9 comentários:

Anónimo disse...

Ainda tens o Conde d'Abranhos para ler? Que sorte! Prepara-te para te deliciares. Lê também A Capital, uma excelente crónica de costumes, sempre actual. Depos percebes.
Não sei qual o melhor escritor português de todos os tempos, ou sé é possivel fazer essa classificação. Olha, quando acabares o Eça, começa a ler o Aquilino e o Camilo (para além das mais óbvias, como o Amor de Perdição), por exemplo. Depois diz alguma coisa. Boas leituras.

tinoni

Anónimo disse...

A professora pode ter sido fabulosa, a ortografia é que continua defeituosa.

Anónimo disse...
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Anónimo disse...

A ortografia da professora, ó anónimo? Por mais defeituosa que seja a minha ortografia - a da professora era excelente - não é certamente tão má como a tua. É que eu arrisco um blog inteiro de posts mas tu, numa só frase com meia dúzia de palavras, consegues insultar a semântica. Ainda por cima quando o que pretendias era corrigir-me. É obra! E de bronco! LOL LOl LOL

Anónimo disse...

Pois é verdade tinó, ainda tenho o Conde... E quanto ao Aquilino e ao camilo são, certamente, mais dois maioriais. Por acaso estou agora a reler o Amor de Perdição a que não dei o devido valor na altura em que o li...

Anónimo disse...

Podes estar uma vida inteira a ler Camilo. Também gostei muito do A Queda de um Anjo, a Brazileira de Prazins, Eusébio Macário, Novelas do Minho, etc,. Para além do gozo literário, aprende-se imenso sobre a história daqueles tempos, o quotidiano, os costumes. Se quiseres, empresto-tos. O Aquilino tem a Casa Grande de Romarigães que, para mim, é tão grande como Os Maias, ou até maior.
Não me recordo muito bem das aulas da professora Múrias, Lembro-me de uma cena com o mancamulas, de que já aqui se falou. Mas tenho ideia de que percebia muito de literatura portuguesa. Gostava de saber o que é feito do filho, o Múrias, um tipo porreiro que foi da nossa turma e que jogava muito bem à bola, para além de ser excelente aluno.
ps. ó anónimo, tu com essas cenas da ortografia davas um personagem picaresco do Camilo. Eu acho piada a que alguém venha perder aqui tempo com correcções ortográficas.

tinoni

Anónimo disse...

Tinó, mene, A Casa Grande... do Aquilino marchou o ano passado e também a considero uma obra prima.
Quanto aos Camilos, adorei A Queda de um Anjo, certeiro e actual parece que estou a ver os politiqueiros de hoje e os outros não li, mas anoto as sugestões e um dia destes vou à biblioteca municipal de vilela e trago uma resma de camilos...
Ah e não me lembrava de ter sido colega de um múrias e muito menos que o gajo era bom de bola. Acho que estás a fazer confuão com o pilas que, ese sim, era bom nos matraquilhos...

Anónimo disse...

Se gostaste do A Queda de Um Anjo, pede lá na biblioteca, já agora, A Capital, do Eça. Tem muitas semelhanças (o tipo que vai para a capital cheio de ilusões, etc)
Não te lembras do Múrias no liceu? Acho que era Paulo, mas só o conheciamos como Múrias. Um gajo pequenino, caixa dóculos, porreiraço, muita esperto, que a jogar futebol parecia o Chalana? Pergunta à malta. Só se o apanhei antes de vocês, prái no 8º ou 9º ano... Uma vez, levou uma lambadona de uma tipa no corredor, porque algum a apalpou e ela pensou que tinha sido o pobre do Múrias (tenho uma vaga ideia que foi o Cão que a apalpou e depois não disse nada;))

tinoni

Anónimo disse...

É pá já me lembro dessa lambada. Foi o cão que apalpou a gaja, claro...