
Assim de
memória lembro-me de alguns jogos de futebol absolutamente seminais: o Brasil –
Itália do mundial de 82, o França- Alemanha, creio que do mesmo mundial, o
célebre jogo em que o carniceiro Shumacher manda o Batistton para o hospital, o
Portugal-França do euro francês, com o Chalana e o Jordão a arrasarem, o
Benfica- Bayer Leverkussen do 4-3, o Holanda - Rússia, alguns Reais Madrid-Barcelonas
do passado e do presente (o da «manita» no Nou Camp com o dream team de Guardiola
e Messi), o Dínamo de Kiev- Atlético de Madrid numa final da taça das taças, o Alemanha –Itália
com o Bekenbauer a jogar de braço ao peito, etc, etc. Todos estes e muitos
outros foram jogos magníficos que marcaram a história do futebol. A última
final do euro da nossa consagração não fica na história dessa maneira; mas fica
na minha história não só pelo facto de Portugal se ter sagrado campeão europeu.
Este jogo teve uma virtualidade fantástica que nem todos têm: teve enredo.
O jogo
parece ter sido escrito por um grande realizador de cinema: o melhor jogador
português, logo de início, é abalroado por um francês, o vilão Payet, e é
obrigado a sair. Ronaldo chora, os portugueses ficam aterrorizados e o sonho
parece estar desfeito. Quem senão Ronaldo poderia salvar a pátria? Há um
pormenor de realização notável, quando uma traça vem pousar nas lagrimas de
Ronaldo. O filme está tão bem realizado que até símbolos tem…
Mas, contra
todas as expectativas, em vez do colapso que receamos, os jogadores unem-se
ainda mais. Quaresma entra para o lugar de Sebastião Ronaldo, Renato deriva da
direita para uma posição mais central e, de repente, a França que estava a ser
avassaladora, até então, perde a iniciativa de jogo. Portugal sacode a pressão
e começa a controlar a bola. Sem Ronaldo, afinal, melhoramos…
Depois de
mais algumas peripécias menores – como a dualidade de critérios de um árbitro
habilidoso, outro vilão no enredo – dá-se um novo momento crucial quando
Fernando Santos, um treinador geralmente conservador, decide arriscar e mete o
Éder. Éder é o anti herói, quase podíamos dizer, o anti-ronaldo: é preto quando
o outro é branco, humilde quando o outro tem
rei na barriga, discreto e não espalhafatoso, etc, etc, etc. E é este
herói improvável que foi alvo de chacota e de desconfiança da população de
adeptos portugueses, quem resolve o jogo num remate fantástico digno de figurar
na lista os melhores golos do Euro 2016. Éder vem da Adémia, do Tourizense, do colégio
Girassol, de um orfanato, da Guiné... Teve problemas familiares graves. Foi
treinado por um mister que jogou à bola comigo. É um tipo às direitas e tem uma
força mental do outro mundo. E é bom jogador, não é nenhum tosco, ao contrário
do que disseram tantos pseudo-mourinhos.
Se
repararmos bem, este jogo tem uma história do caraças, é uma espécie de conto
moral, acerca da força do colectivo sobre a individualidade, da vitória
daqueles que nunca desistem, mesmo quando ninguém neles acredita, uma parábola
sobre um herói improvável. É uma história bem urdida e tem, obviamente, um herói
principal, entre outros: Éderzito, o menino da Adémia.
Se eu fosse presidente
da junta da terra mandava fazer,
imediatamente, uma estátua do Éder de 3 metros na rotunda da Adémia com umas
bolas ainda maiores que as da estátua do Cristiano no Funchal. Mas no dia
seguinte, as primeiras páginas dos nosso jornais tinham todas o Ronaldo, apesar
deste Euro ter sido uma vitória do colectivo e do peso de cada individualidade
estar perfeitamente diluído na equipa. Uma excepção: a primeira página do
Público, uma obra prima gráfica por todo o simbolismo que carrega. Já que não
se pode ter uma estátua do Éder com uma bolas muita grandes na rotunda da
Adémia…
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