31/10/05

Reflexões de um fascista, por Kzar

A minha filha, nos seus quinze anitos, foi hoje fazer um teste de Língua Portuguesa (ainda se chama assim?) do 10.º ano. Como não sabe nada sobre a matéria, ou o que sabe não é conforme com a posição oficial do ministério, temo que venha por aí má nota. Nada de mais, dir-se-ia. Alunos arredios do programa e fulminados com os "rr" habituais é coisa que vem da noite dos tempos. Tudo isto deve estar para acabar, que hoje em dia já ninguém quer que hajam más notas, mas por ora ainda é normal.

O problema não tem porém essa simplicidade e os meus receios paternais advêm, no fundo, da persistente e irrita preponderância que a esquerda mais descerebrada ainda exerce sobre as coisas da educação e da cultura. Lá vem este facho com cenas anti-comunas, pode pensar algum leitor mais ligeiro. Apresso-me por isso a esclarecer que a minha infanta é razoavelmente proficiente em assuntos gramaticais e literários - tanto que por esse lado jamais eu temeria insucesso escolar dela. O que a baralha, e a mim me preocupa, é a temática em que as ditas questões gramaticais e linguísticas são contextuadas.

Em conversa matinal com a stressada miúda, fiquei sabendo que ultimamente têm sido tratados, nas aulas da disciplina em questão, temas como a "igualdade", a "paz", a "cooperação", atc., etc. A última vez que a mestra comandou aos pequenos que apresentassem uma redacção (parece que agora tem o título pomposo de "dissertação"), os temas alvitrados, de que os jovens escritores por força haviam de escolher um, eram, por esta ordem, (1) as minas terrestres, (2) o trabalho infantil 3 (3) os mitos. Uau!- Então e o que escolheste, filhota? - Foi "os mitos", respondeu. Se falasse das minas, queria-se que dissesse mal do Bush e dos americanos; ou correspondia a essa expectativa, coisa que não me apetecia mesmo nada, ou não dizia mal do Bush e dos americanos, hipótese que agravaria a minha já estafada imagem de facha, racista e indiferente ao sofrimento dos povos ('tá de moda imperativa um gajo preocupar-semuito com o sofrimento dos povos e gritar contra o racismo a torto e a direito). Caso falasse do trabalho infantil, bom, aí nem consigo explicar-te o chorrilho de lugares comuns que se esperava de mim. Não tive para isso. - Tá bem pá. E isso dos mitos, o que é que escreveste afinal?- Umas merditas sobre a princesa Diana, era o que os gajos sugeriam...

Ocorreu-me então lembrar-lhe que podia ter fundido os três temas num só: inventava qualquer coisa sobre a Santa Princesa Diana, a fazer desminagem algures em áfrica, com as próprias mãos, mas auxiliada por uma data de pequenitos em regime de trabalho escravo, tudo denunciado por repórter de um jornal oficial cubano! - Ó pai, queres que eu tenha alguma negativa!? Foi o que a pequena logo me respondeu, com aquela cara de desprezo que fazem os putos quando confrontados com a incompreensão paterna pelo mundo actual. Bom, faz lá o que entenderes, repliquei eu, em exercício de confiança no juvenil juízo crítico da rapariga. Mas, em todo o caso, explica-me o que é que o Português tem a ver com essas merdas todas. A tua prof anda avariada? A explicação é a de que a prof. é de facto um bocado comunoide, tipo Bloco, "no global" e essas cenas, mas no essencial a coisa jorra do próprio livro de texto adoptado. Este explica minuciosamente aos nossos filhos como o Bush e a América são maus, como a América é que produz as minas todas com que os pretinhos em África são mutilados, que a América também é má por subsidiar programas de erradicação de cultivo de coca e papoila em países do terceiro mundo quando devia era ser intervencionada para fecho das fábricas de armas, e pérolas desse género...

Também me foi explicado que isto não é nada. Que o livro de Geologia (Geologia, senhores!) traz, entre outras coisas, um exercício sobre a igualdade em Portugal, cujo objectivo é todos os meninos ficarem cientes de que o nosso país é racista e que as medidas existentes para resolver o problema são insuficientes...Enfim, fiquei a saber que o jorro de asneiras é de pôr um cristão em estado de choque, e que a militância da pequenada no papaguear de semelhantes cavalidades, tomadas como verdades absolutas, é fortemente estimulada e com efeito generalizadamente adoptada - excepto por aqueles dois ou três alunos (quando muito) que em cada turma são um pouquinho mais espertos do que o suficiente para juntar duas letras. estes últimos, como se esperaria, cagam de alto no livro e no professor, fingem que aturam aquela merda e até que concordam e, claro, suspiram pelo dia de irem para a Universidade e virarem as costas ao resto da cambada.

Optimista impenitente que sou, penso de tudo isto que afinal ainda há alguma esperança. A miúda lá há-de desenrascar-se com o teste e a longo prazo dois ou três por turma hão-de vir a ser engenheiros, médicos, arquitectos, advogados, juízes, investigadores, empresários e, claro, dirigentes políticos. E é o que é preciso: os outros, que se lixem; em todos os países modernos faz falta uma massa acéfala de criaturas que comprem as revistas onde se diz tudo sobre a Santa Diana, as minas dos maus dos americanos, votem no Bloco, etc., etc., etc... Pelo caminho, ainda assim, pergunto: mas porque é que existe uma cáfila que se acha no direito, que se arroga a preponderância moral, de levar para as escolas (supostamente templos do ensino) as parvoíces costumeiras do bloco e do Mário Soares? E já agora, sem que seja relevante mas a crédito da exactidão, quanto a esse assunto das minas por que não focaram o pequeno e porventura incómodo dado de que são pela larguíssima maioria forças do terceiro mundo, estatais ou outras e em geral esquerdistas, quem as semeia por aí, sendo a larguíssima maioria delas fabricadas e vendidas por recomendáveis países como a China, a Índia, a Checoslováquia e a Bulgária de antes do fim da comunice, e tantos outros semelhantes? Enfim, reflexões de um fascista

Ginas, Parte 2, O Episódio Armandinho, por Rodox

O Armandinho era um rapaz magro, baixito, cabelo encaracolado e pose de menino da mamã, que era. Obviamente foi baptizado de Armandinho e era motivo de tal chacota pelas indumentárias que até metia dó. À mãe do Armandinho só lhe faltava obrigá-lo a vir pró liceu com fatito de marinheiro. Fora isso, o gajo vestia e obedecia, sem jamais lhe passar pela cabeça que o big brother não estava no liceu e que se ele quisesse podia andar com a fralda de fora.

A certa altura, o Armandinho vê-nos a trocar Ginas no bar e pede-me que lhas empreste. Fiquei na dúvida. Ó Armandinho, olha lá, não te desgraces, pá. Mas prontos, lá cedi emprestei ao engomadinho um maço de Ginas jeitoso.

Dois dias depois, no meio do corredor do liceu, o Armandinho logo no primeiro tempo vem ter comigo e de cabeça baixa e voz sussurrante, estende-me um embrulho de papel almaço, atado com cordel em nó de dupla orelha, e diz:
“ – Olha toma lá isto que minha mãe mandou para te entregar e ela diz que tem um bilhete lá dentro…”
“ – Tem o quê? Um bilhete? Mas o que é isto, ó Armandinho?”
“ – São as Ginas, pá, a minha mãe apanhou-mas…”

Lá abri o embrulho certinho de papel almaço, onde vinha o maço de Ginas embrulhado. Estavam todas e não faltava nenhuma, nem estavam danificadas. Ao cimo vinha um bilhetinho tipo cartão de apresentação com o nome da Senhora sua mãe, a morada e no verso e a caligrafia de luxo, lá vinha a mensagem: “Meu caro Senhor, agradeço-lhe que não mais volte a facultar ao meu filho este tipo de revistas, na certeza de que em contrário, saberei tomar as devidas providências penalizadoras.”

Até me caíram os tomates. “As devidas providências penalizadoras” Chiça! Passei meio dia de volta do dicionário e ainda hoje é uma frase que me mete medo. Percebi o temor e o terror do Armandinho. E não lhe voltei a emprestar Ginas. Nem Patinhas, quanto mais.

28/10/05

As Minhas Aventuras no Mundo Bárbaro da TV Cabo, por Homem Verde

A TV cabo, é sabido, é a empresa portuguesa que pior trata os seus clientes. Não é novidade para ninguém e eu até acho que é por causa disso que há milhares de indivíduos que pirateiam os serviços dos gajos. Não porque não os possam pagar, mas porque se querem vingar. Fundamentalmente é isso: reclamam vingança, estão enraivecidos pela forma como são tratados pela TV cabo! E pirateiam. Compreende-se, há até algo de justo nessa atitude…
Eu já sabia isto tudo, mas nos últimos tempos senti-me tratado com o mais absoluto desprezo com que alguma vez uma empresa me tratou. Eu conto:

O meu aparelho de recepção de imagens por satélite, vulgo Power Box - este nome é fantástico, parece o nome de um super-herói – começou a boicotar o azul. Sim o azul, a cor azul. Na minha TV, passei a ver, de há um mês a esta parte, apenas o verde e o vermelho. Os programas pareciam aquelas filmagens das tropas americanas no Iraque durante a noite. Com o tempo habituei-me e, no caso do futebol, até achei uma certa piada em ver o porto a equipar de listas brancas e verdes enquanto mamava os dois secos do Nuno Gomes. E o Chelsea também era verde e o Super – Homem já não vestia as irritantes cores da bandeira americana (vermelho e azul), mas equipava à portuguesa de verde e vermelho. Claro que também foi um pouco esquisito ver o filme Swimming Pool, passado à beira de uma piscina cuja água devia ser azul, mas era tão verde, tão verde que parecia o caldo homónimo.

Logo no primeiro dia - faz hoje mais ou menos um mês - em que detectei o problema liguei para o número de apoio ao cliente. Atende-me uma gravação - um clássico, pensei – que me manda discar um número qualquer para resolver o problema. Disco o número e atende-me uma outra gravação que me informa que há muita gente em linha de espera e que até ser atendido pode demorar «mais que 5 minutos». «Mais que 5 minutos», é uma indicação preciosa… Podem ser 6, 20 minutos, um dia, uma semana, mas o mais certo é que não nos atendam nunca, como aconteceu comigo. Começa aqui a desconsideração para o com cliente – seria muito mais honesto que nos informassem logo que não atendem por telefone e sempre evitávamos passar uns dias a tentar, como eu fiz ingenuamente. Entretanto, o mundo televisivo continuava verde.

Esgotados os primeiros dias na vã esperança de falar com alguém que não uma máquina do outro lado do telefone, pensei, «que se lixem estes gajos, chamo cá um técnico directamente e prontos». Chamei mas o técnico não me resolveu o problema e indicou-me uma casa de reparações.

No dia seguinte fui com a minha Power Box – adoro este nome – à loja indicada. Disseram-me que não estava lá o especialista em boxes e que tinha de deixá-la. Talvez daqui a uns dias estivesse pronta e até lá ficava sem ver TV. Esqueça.

Voltei com a box para casa e mandei um primeiro ou segundo mail para a tv cabo a expor a situação e a queixar-me de que não conseguia contactar com eles. Até hoje não recebi qualquer resposta a estes mails, apesar de reclamar que estava a pagar por um serviço que não me era prestado em condições e que exigia uma indemnização por tanto dia verde. Nada, estiveram-se nas tintas, pura e simplesmente!!! Eu começava a ficar verde, também…

No dia seguinte ou no outro tirei uma manhã e fui pessoalmente à loja oficial da TV Cabo em Coimbra. Um Inferno! Aquilo é surrealista – a loja estava cheia de povo a refilar e a berrar com as meninas do lado de lá do balcão que têm a missão única e exclusiva de acalmarem uma multidão de vítimas como eu. Não decidem nada, não podem decidir nada, não sabem nada e, acima de tudo, estão proibidas de chamar o chefe que está sempre «ausente em serviço exterior»… Outra incompetência! Em vez de nos fazerem perder tempo com meninas que depois de horas de espera nos informam que não têm poder para resolver o que quer que seja e cuja missão é, quase unicamente, acalmar o cliente-vítima, mais valia oferecerem-nos uns bolinhos e um chá e mandarem-nos logo embora! Ouvi gente a chamar-lhes «incompetentes», «bandidos», «vocês são uma vergonha», para ficar apenas no limite do publicável… A minha senha da fila era a oitenta e picos e quando reparei que ainda só ia no quarenta, pus-me a andar dali para fora, resignado em passar mais uns tempos a ver tudo a verde.

Voltei a telefonar e a mandar mais mails para a tv cabo mas nada… Contactei outro técnico que se mostrou muito esquivo e, uns dias depois, fiz berraria no telefone geral da tv cabo e lá consegui que a telefonista (!!!!) me desse uma preciosa informação: se passasse lá a meio da tarde, antes das 5, tá a ver, o tempo de espera talvez seja só de uma hora, mais ou menos… Achei isto absurdo, mas lá me enchi de coragem fui prá fila no dia seguinte. Não passei lá uma, mas duas horas!

Quando chegou a minha vez de ser atendido, esforcei-me para manter a compostura, mas não pude evitar atirar para cima da menina que me atendeu com toda a raiva cumulada nos últimos tempos em virtude de estar privado das minhas doses normais de azul diário..Comecei por lhe chamar – a ela não, mas à empresa que ela representa – os nomes que ela merece ouvir e que deve estar farta de ouvir, é profissional disso, e prossegui por ali acima em roda mais ou menos livre. A tudo a menina me disse que sim, que tinha toda a razão, que sabia como era, que lamentava muito... E que não podia fazer nada. Não estava habilitada para me vender uma nova box e eu tinha de aguardar que um técnico me contactasse para depois ir lá a minha casa substituir o aparelho por cerca de 180 euros+50 de deslocação!!! Foi então que me transformei no Incrível Hulk! Já nem falo da exorbitância do valor do aparelho e da deslocação, mas, foda-se, disse eu, então eu passo aqui duas horas depois de já ter perdido uma manhã, de ter tentado contactar-vos telefonicamente, de ter mandado mails sem resposta, de ter ido a lojas e de ter conhecido metade dos técnicos de boxes deste lado do hemisfério norte, e, depois disto tudo, a única coisa que você pode fazer é mandar um mail sei lá para onde, para Lisboa, mas porquê Lisboa, meu Deus, a dizer o que eu lhe disse???!!!. Foda-se, refoda-se e contra-refoda-se, voltei eu à carga. Mas eu já mandei mails… «Mas este é interno, tem outra prioridade, por isso vai ser mais rápido, volte lá para casa e aguarde a chamada do técnico que ele amanhã contacta-o», disse ela. Que havia eu de fazer? Por momentos pensei em ir comprar dinamite e fazer-me explodir dentro da loja, mas depois achei que era capaz de ser exagerado e, enfim, o fcp de verde até tem a sua piada…

No dia seguinte esperei que o técnico da tv cabo me contactasse – «no dia seguinte, sem falta», dissera a menina – mas até hoje esse D. Sebastião ainda não deu notícias… Desesperado, contactei outro técnico que me informou que me resolvia o problema por 200 euros incluindo a deslocação dele e a substituição da box por uma nova. Comecei a achar que, a inépcia da tv cabo, já me estava a sair cara, mas que havia de fazer, riscar o azul da panóplia de cores existentes? Seria pior se fosse o vermelho, não gostava nada de ver o Glorioso a equipar de verde… Concordei em mudar de aparelho. Mas este novo técnico, também nunca mais disse mais nada.

Até que ontem, enfim, me apareceu em casa um Génio, indicado por um amigo, que me resolveu o problema em 15 minutos. Simples. Em 15-minutos-15! Agora está tudo normal e já vejo os azuis outra vez. Mas até chegar a este ponto, passou-se quase um mês e foi verdadeiramente desesperante a forma como a TV Cabo lidou comigo.

Moral da história: passei um mês a pagar por um serviço prestado em condições deficientes, perdi tempo e quase gastei uma nota preta evitadamente, perdi tardes, irritei-me e da tv cabo, nada. A incompetência devia ter limites! Tudo isto ainda é mais irónico tratando-se de uma empresa de COMUNICAÇÃO que devia ser muito mais ágil que as empresas normais – honestos devem ser todos – nos contactos com os seus clientes. Nas raras vezes em que me esqueci por um dia de pagar a mensalidade, ligaram-me imediatamente a ameaçar que me cortavam o serviço; agora foi o que foi e simplesmente, não é possível comunicar com esta gente. Será isto normal? Só nos resta a resignação? Não temos meio de pedir responsabilidades a estes senhores da tv cabo? O que é que podemos fazer para os lembrar das normas básicas da educação e da lisura de procedimentos para com os seus clientes? Uma queixa à DECO – claro que vou mandar. Mas será eficaz? E porque é que não se podem comprar boxes nas Worten e nas Rádio Populares? E faz algum sentido o monopólio da TV Cabo? Porque é que não há outras empresas a operar nesta área? Os monopólios sempre fizeram mal, é tão boa a concorrência… O pior é que agora a minha televisão já não dá só verdes, mas eu transformei-me, definitivamente, no Incrível Hulk.

Oprah, Faulkner e o Dr Sousa Martins, por Patagão

Hoje de manhã na leva de carro para a escola, a minha filha veio-me perguntar se eu conhecia o escritor William Faulkner e se tinha lá livros dele. Vindo de quem habitualmente só devora Harry Potters, Tolkien, Julliet Marillier e quejandos fiquei admirado com a pergunta e antes de responder, questionei.

Segundo parece, a cachopa viu ontem no programa da Oprah que passa na TvCabo, que a ex-gorda mais bem paga a oeste de Pecos, tinha feito uma grande e profusa invocação de Faulkner e revelado ao bom povo americano que afinal até havia um conterrâneo que escrevia umas coisas jeitosas como “As I Lay Dying”, “The Sound and The Fury” e “Light In August”, e que convinha ler o artista.

Obtida a resposta, lá expliquei à curiosa, que sem o ver já conhecia esse programa e que na altura em que passou na Tv americana motivou uma corrida desenfreada às livrarias do tio sam, colocou Faulkner como o autor mais vendido nos tops todos e motivou uma espiral de Faulkner nos média americanos, que até deu notícia na Europa. Eu, por cá, li no “Público” a notícia da avalancha e da redescoberta americana.

Faulkner, apesar de genial e apesar de Nobel (coisa tão ao gosto americano) caiu no esquecimento geral por lá, ao invés da reverência e importância que sempre lhe deram a América Latina e a Europa. A Oprah recolocou-o na América de onde nunca devia ter saído.

Por cá, também temos um programa com algumas semelhanças com o da Oprah, que é o do Herman. Segundo parece, o gajo meia volta leva lá uma tal bruxa de nome Linda qualquer coisa que se despe, guincha e proclama um livrinho de um certo Dr Sousa Martins, que também parece que está a vender bem. Um dia destes ainda leio o bom do Dr.

26/10/05

E Para Terminar Em Beleza, Rousseau, por Sagrado Pulmão

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E.H. Gombrich é o autor da famosa obra “A História Da Arte”, obra de referência para muitos entendidos e estudiosos do ramo. Ao invés de Cornélia Stabenow, autora do volume da Taschen sobre o Henri Rousseau, Gombrich nada refere das “petits histoires” de Rousseau (a sua obra é de âmbito e interesse diferente também) e nada refere das dúvidas ou polémicas suscitadas pela obra do artista. E em dois parágrafos memoráveis despacha para a o Panteão da Eternidade o Aduaneiro. Leia-se que vale a pena:

“(…) Também foi essa mudança de gosto que levou os jovens pintores em Paris, no início do século XX, a descobrirem a arte de um pintor amador, um funcionário aduaneiro que levava uma vida tranquila e modesta nos subúrbios. Esse pintor, Henry Rousseau (1844-1910), provou-lhes que, longe de ser um caminho para a salvação, a formação do pintor profissional pode arruinar as suas oportunidades. Pois Rousseau nada sabia de desenho correcto, ignorava todos os truques do impressionismo. Pintava com cores simples e puras, com contornos nítidos, cada folha de uma árvore e cada hastezinha de relva num prado. E, no entanto, há nos seus quadros, por mais desgraciosos que possam parecer aos espíritos requintados, algo de tão vigoroso, simples e poético, que não pode deixar de se reconhecer nele um mestre.”
(…)
“A admiração por Rousseau e a maneira ingénua e autodidacta dos “pintores de domingo” levaram outros artistas a renunciar às complicadas teorias do expressionismo e do cubismo como um lastro desnecessário. Queriam ajustar-se ao ideal do “homem de rua” e pintar quadros claros e sóbrios, em que as folhas nas árvores e os sulcos nos campos lavrados pudessem ser contados um por um.”

Toujours, Le Grand Maître Rousseau, por Sagrado Estômago

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Depois de ali por baixo se ter discutido aquilo que é tido pela fase menos conseguida do Henry Rousseau, é tempo de trazer à colação a obra que é tida pela generalidade dos críticos como a melhor obra do Rousseau.

Falamos obviamente do quadro acima reproduzido que é o “Cigana a Dormir”, ou “La Bohémienne endormie” ou ainda o mais googlemente conhecido por “The Sleeping Gipsy”. Trata-se de uma tela de 1897, e foi doada ao MoMa – The Museum Of Modern Art – de Nova Iorque, pela Colecção de Mrs Simon Guggenheim, e mede 129,5 cm por 200,7 cm, gigantesca portanto. Para além da pequena reprodução supra, podem ver a coisa mais em pormenor no link seguinte : http://www.insecula.com/us/oeuvre/photo_ME0000067863.html , com os cumprimentos do Leãozinho.

Este quadro, que Rousseau apresentou no “Salão dos Independentes” de 1897, tinha como subtítulo do próprio a seguinte inscrição: “O animal selvagem, apesar de faminto, hesita em atirar-se à vítima que, extenuada, caiu num sono profundo.”

Uns anos depois de ter sido exposto e já depois da morte de Rousseau, este quadro gerou uma violenta polémica que ainda hoje divide alguns experts. É que há quem diga e defenda que este quadro não seria da autoria de Rousseau, mas que se tratava de uma falsificação e de que teria sido não Rousseau, mas sim o seu grande amigo Picasso a pintar esta tela. Há até quem veja no jarro, no bandolim e na bengala, uma antecipação do cubismo que haveria de vir logo a seguir.

Por mim limito-me a pedir-vos que vejam o quadro da seguinte maneira: tapem com uma folha a parte de cima do leão e vejam e entrem apenas na cigana a dormir. Depois façam o inverso e vejam só a parte de cima com o Leão. Vejam então o quadro todo junto. Eu, por mim, quando olho aquele olhinho do Leão fico alucinado de riso e certo que pelo menos o leão é sem dúvida do Rousseau.

25/10/05

Ainda Rousseau, por Sagrado Fígado

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O quadro de cima foi pintado por Henry Rousseau que lhe deu o seguinte título: "Os Representantes dos Poderes Estrangeiros saúdam a República como Símbolo da Paz” (Les representants des puissances étrangères venant saluer La Republique en signe de paix.)
O quadro pertence à Fundação Picasso de Paris e está entregue ao Museu do Louvre, segundo o volume sobre Rousseau da Taschen. Mede 1,30 metros por 1,61 metros. Em grande que o homem nunca se achou pequeno.

E agora gostava que se pronunciassem sobre o quadro. Groinks com ele e em força. Do que li há quem diga muito mal e ria e há quem diga muito bem e ajoelhe.

Sócrates e o Porco, por Mau

O José Sócrates e o seu motorista viajavam no campo, por estrada, quando subitamente apareceu um porco e sem poder evitar atropelaram o animal, matando-o instantaneamente.

Sócrates disse ao seu motorista para localizar a quinta a que pertencia o porco e para explicar ao dono o que se tinha passado.
Três horas depois, regressa o motorista cambaleando, com uma garrafa de vinho numa mão e uma caixa de charutos noutra, e o cabelo e a roupa totalmente desarranjado.
- O que aconteceu?... perguntou o 1º ministro ao motorista.- ao que este respondeu:
- Bem, o agricultor dono do porco ofereceu-me esta garrafa de vinho, os charutos e a boazona da sua filha fez amor comigo 3 vezes duma maneira selvagem.
- Mas o que lhes disseste?
- Disse-lhes: Sou o motorista do Engenheiro José Sócrates e acabo de matar o porco!!!

Não só quem nos odeia ou nos inveja


Não só quem nos odeia ou nos inveja
Nos limita e oprime; quem nos ama
Não menos nos limita.
Que os deuses me concedam que, despido

De afetos, tenha a fria liberdade
Dos píncaros sem nada.
Quem quer pouco, tem tudo; quem quer nada
É livre; quem não tem, e não deseja,
Homem, é igual aos deuses.

Ricardo Reis

24/10/05

Um Palhonço No Panteão Da Eternidade, por Sagrado Coração

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Comece-se por dizer que o Palhonço conseguiu e realizou o seu grande sonho, que era ser tido como um pintor famoso e gravar para sempre o seu nome no panteão dos grandes. O artista foi famoso em vida e continua na mesma depois de mal enterrado. Os seus quadros, embora não pertencendo à esfera dos colossos, dizem presente nos mesmos sítios onde aqueles estão. Tais quadros tornaram-se mesmo ícones de uma certa forma de pintar (naif) e de retratar alguns ambientes selváticos, aparecendo muitas reproduções das suas pinturas em capas de Gabriel Garcia Marquez, Luís Sepúlveda e de outros autores que agora não recordo.

O mais engraçado é que o artista famoso sabia de tudo menos de pintura que era a única coisa que fazia. O homem não teve qualquer treino, não assistiu ou acompanhou qualquer mestre, não estudou nada de pintura, não tinha qualquer noção de perspectiva, nem qualquer noção das mais elementares regras da pintura, assim como não sabia desenhar, etc, etc, mas teimava em ser pintor e pintava. E pintor ficou. Falo como é evidente do palhonço Henri Rousseau, O Aduaneiro como ficou conhecido.

Henry Rousseau foi um pequeno funcionário da alfândega de Paris durante 22 anos e até aos 41 anos. Nessa idade e a certa altura meteu na cabeça que queria pintar e ser um pintor famoso. Rousseau nada sabia de pintura para além de saber que a coisa se traduzia basicamente em esfregar pincéis com tinta numa tela. Mas sabia como se meter no meio. Afivelou um jeito de palhonço, de coitadinho, desgraçado e engraçado e lá foi para as tascas parisienses do milieu. E a pintura, a verdadeira pintura, engraçou com ele.

Por conta de copos, piadas e boutades, o bom do Rousseau tornou-se “compagnon de route” de Picasso, Gauguin, Signac, Matisse, Pissarro, Redon, Cézanne e outros, que o acolheram e protegeram, fazendo-o inclusive participar nos seus salões de pintura. É certo que algumas vezes o tentaram meter nas salas das artes decorativas, mas Rousseau desculpava-lhes esses lapsos e acartava os seus quadros para as salas de Picasso e Cézanne. A chacota geral prosseguia nas costas do nabo, mas certo certo, é que ele lá estava lado a lado e ninguém tinha coragem de o tirar dali. E de tanto ali estar, ali ficou. No panteão, ao lado dos grandes, que apenas o receberam como bobo ingénuo e como afronta à pintura oficial e institucional.

Apollinaire, então, adorava o homem e defendia a sua pintura contra tudo e todos. Hoje, o Aduaneiro lá consta em qualquer livro ou compêndio de arte como sendo o expoente da pintura naif e a prova provada de que se pode pintar a realidade “sem a intervenção da razão critica e disciplinadora”. Que de facto, Rousseau não tinha. Mas tem quadros no Louvre, no Hermitage, National Gallery, etc.

Apesar de não saber pintar, Rousseau, homenzinho ridículo e pretensioso, envolvia-se a si próprio numa aura de grandeza que de tão atroz se tornava cómica e apreciada. A certa altura numa das jantas com Picasso e outros, Rousseau vira-se para este e diz-lhe: “ – Nós os dois somos os maiores pintores da nossa época, tu no estilo egípcio e eu no moderno.”. Nem mais.

Mas Rousseau levava-se a sério, tão a sério que distribuía cartões de visita, onde mandou imprimir por debaixo do nome a referência de “Pintor de Arte”. Os seus quadros que mais não querem do que imitar os mestres da época, são na sua maioria de um ridículo alucinado. As figuras são mal desenhadas, não há qualquer noção de perspectiva ou jogo com ela. Há figuras copiadas de caixas de chocolates e mesmo a sua famosa série das pinturas na selva era decalcada por projecção de fotografias. A sensação de mistério e de intranquilidade que transmitem mais não resulta do que da obsessão de Rousseau de acabar e encher os seus quadros até ao limite do insuportável. Cézanne por exemplo fazia-lhe confusão. A certa altura vira-se para Cézanne e diz-lhe: “ – Como sabe, eu podia acabar todos estes quadros.”
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19/10/05

Gondomar 2005 e o Declínio da Civilização Ocidental, por Teseu

Em meados do século XX soou o alarme. Em países como os EUA praticamente erradicou-se o analfabetismo. Mas apesar de saberem juntar as letras, chegou-se à conclusão que, muitas pessoas, não sabiam interpretar aquilo que juntavam. Começou-se a falar em iliteracia. Incrementaram-se os estudos acerca do tema. Num deles, concluiu-se que uma percentagem elevada de alunos do ensino universitário americano, quando confrontada com discursos políticos de Abraham Lincoln, pura e simplesmente, não os sabia interpretar! Perante isto, seria lógico que os políticos subissem o nível geral dos seus discursos e intervenções públicas e que apostassem mais na instrução dos seus concidadãos. Mas infelizmente não foi isso o que se passou. Nos EUA como na Europa, como em Portugal…

Pelo contrário, em vez de aumentar o nível de instrução e de cultura das pessoas, o que se passou foi que os discursos em geral e o discurso político em particular, começaram a baixar até níveis verdadeiramente subterrâneos. Se as pessoas não tinham cultura para compreender discursos elaborados, então eram os discursos que tinham que se adaptar – descer – ao nível mediano do cidadão comum, e não este a ter que subir a novos patamares culturais que lhe permitissem entender propostas mais elaboradas.

Eu creio que nesta tendência vertiginosa da descida do nível do discurso político, Portugal atingiu, hoje, um estatuto invulgar. Entre nós, vemos casos de políticos de grande sucesso, cujos discursos são verdadeiros insultos à inteligência, autênticas manifestações de indigência mental. Os discursos de alguns políticos atingiram a fronteira do psiquiátrico, da falta de sanidade mental. Podia citar centenas, milhares de exemplos: há discursos do piorio! Desde o primeiro-ministro Sócrates, um protótipo da vacuidade mental, passando pelo presidente Sampaio com as suas generalidades non sense, até ao bokassa madeirense, um especialista na boçalidade, há muito por onde escolher… Mas o discurso de Valentim Loureiro nas últimas autárquicas faz de Gondomar 2005 um ex-libris da incultura. Gondomar 2005 é um ponto de chegada, o desembocar decepcionante e horroroso de cerca de 25 séculos de evolução da cultura ocidental.

Reparem na riqueza (?) lógica, literária, ideológica e retórica do seguinte discurso de Valentim Loureiro nas últimas autárquicas e respondam à questão: é ele – valentim - que está perturbado mentalmente? Ou o público-alvo a quem se dirige? Estará Valentim a falar para crianças de dois anos? Ou para um hospício de doidos varridos? Depois disto, até onde poderá descer, ainda, o nível do discurso político em Portugal? O discurso rezava assim:

Caro Gondomarense:

Infelizmente não me foi possível falar consigo como tanto desejava. Você tem o Cartão Idade Mais. Com este cartão pode participar nos programas que, como presidente da câmara mandei fazer para todos os gondomarenses com mais de 62 anos de idade:

- Gondomar Douro Acima

- Avós de Gondomar a Voar

- Conhecer Gondomar

Sei que estes programs têm sido muito bem aceites pelos gondomarenses.

Estes programas proporcionam a todos os que neles participam agradáveis dias de férias, dias de muita alegria, muita felicidade, muito convívio e bem-estar. (…)

Pois bem, se quer no futuro, ter tudo isto e, se possível, ainda muito mais.

Então, caro amigo (a):

VOTE

VALENTIM LOUREIRO - «GONDOMAR NO CORAÇÃO – VALENTIM II

MAS NÃO SE ENGANE A VOTAR. Eu, desta vez, não sou candidato pelo PSD. O doutor Marques Mendes obrigou-me a ir a votos como candidato independente.

Ao votar não se engane. NÃO VOTE PSD. NÃO VOTE na coligação. NÃO VOTE nas «setinhas». Não vote nas «chaminés», como se costuma dizer.

Vote no Valentim. Ponha a «cruzinha» no boletim de voto «verde» e no boletim de voto «amarelo». NO ÚLTIMO QUADRADINHO, CÁ EM BAIXO.

Eu sei que vai votar em mim. Tenho a certeza. Você é minha (meu) amiga (o).

Obrigado pelo seu voto.

E já sabe, CONTE SEMPRE COMIGO. MAS CONTE MESMO!!!

Um abraço

Ao que chegámos! Depois de séculos e séculos de aprimoramento da cultura literária ocidental, eis-nos no fundo de um enorme buraco. Foi então isto que fizemos do «milagre grego» que haveria de lançar as bases da nossa civilização… Pobre Cícero, pobre Aristóteles, pobre Platão (e Vieira e Eça e Sérgio, já agora) …

Patagónia Express, de Luis Sepúlveda, por Jíbaro do Nangaritza

“O bilhete para lado nenhum foi uma oferta do meu avô.
O meu avô. Um ser insólito e terrível. Penso que acabara de fazer onze anos quando me entregou o bilhete.
Caminhávamos por Santiago numa manhã de Verão. O velho já me tinha oferecido seis gasosas e outros tantos gelados, já muito liquefeitos na minha barriga, e eu sabia que esperava o aviso da minha vontade de urinar. Talvez se preocupasse verdadeiramente com os meus rins ao perguntar-me:
- Então? Não queres mijar? Bolas, meu filho. Com o que tu bebeste…
A minha resposta natural e habitual devia soar dramaticamente afirmativa, com junção de pernas a acompanhar as palavras. Então ele, tirando o resto do charuto que sempre lhe pendia dos lábios, suspiraria antes de exclamar com o mais didáctico dos seus tons:
- Espere, meu menino. Espere e aguente até encontrarmos a igreja adequada.
Mas naquela manhã eu ia decidido a molhar as calças antes de suportar mais uma vez as reprimendas de algum padre. A brincadeira de me encher de gelados e gasosas para depois me fazer urinar à porta das igrejas vínhamo-la a repetir desde o dia em que comecei a caminhar e o velho me transformou em seu camarada de correrias, pequeno cúmplice das suas velhacarias de ácrata reformado.
Quantas portas de igreja terei mijado! Quantos padres, quantas beatas me terão insultado!
- Miúdo porco! Não tens casa de banho em casa?! – era a coisa mais suave que me chamavam.
- Atreves-te a insultar o meu neto, que é um homem livre! Parasita! Escória! Assassino da consciência social! – desferia-lhes o meu avô enquanto eu deixava cair até à última gota jurando para mim que no próximo domingo não aceitaria dele nem uma Papaia, nem uma Blitz, nem uma Orange Crush, os refrescos que ele me pagava com mais generosidade.
Naquela manhã pus-me firme com o velho.
- Sim. Estou a mijar-me, Vô. Mas quero ir a uma casa de banho.
O velho mordeu o resto do charuto antes de cuspi-lo. A seguir murmurou uma “raistapartissem”, afastou-se uns passos, mas regressou imediatamente para me acariciar a cabeça.
- É por causa daquilo do domingo passado? – consultou, tirando outro charuto de um bolso.
- Claro, avô. Aquele padre queria matá-lo.
- É que esses filhos da puta são perigosos, meu menino.”



Excerto do livro “Patagónia Express” do chileno Luís Sepúlveda. Recomenda-se também o livro “O Velho que lia romances de Amor” e deixa-se o aviso de o “Diário de Um Killer Sentimental” não vale um caracol.

18/10/05

Os Negalhos, Uma Saga Em Busca Do Santo Graal, por CavaleiroInexistente

Todos nós temos memórias de sabores inesquecíveis. Das profundezas dos armários imensos que nos guardam os sabores e os aromas, alguns há que voltam regularmente à superfície e nos fazem salivar. Vindos de mãos carinhosas e de infâncias perdidas, mas perfumadas, eles regressam sempre com uma força tal, que por vezes nos deixam de rastos pela saudade e distância. Reviver alguns desses sabores e aromas constitui uma busca interminável, uma autêntica procura do Santo Graal. Uma busca do mito, do paraíso perdido.

Para mim, um desses sabores sublimes e sublimados, eram e são os Negalhos. Para quem não sabe o que é, aqui fica a explicação. Os Negalhos são feitos com as paredes do estômago de uma Cabra avantajada (não pode ser cabrito, nem pode ser cabra muito velha), cujo interior se recheia com chouriços de carne e vinho, salpicão, com linguiças picantes, com bocados de toucinho de porco, entremeada, aparas e algumas febras mesmo, tudo cortado em bocadinhos pequenos. Um misto de Cabra e Porco, portantos. Pelo meio a coisa leva ervas que muitas vezes ficam no segredo dos deuses, mas em que entra sempre alguma hortelã, salsa e muito Serpão (erva das beiras parecida em sabor e intensidade com o cravinho), algum colorau e pimenta q.b. ou mesmo malaguetas. E claro cebola a gosto. Depois de recheado, o bucho é enrolado em forma oval, com o tamanho aproximado de um punho pequeno e atado em guita de chouriço. Feito um conjunto destes negalhos, estes são metidos em caçoilas de barro com farta cama de bom vinho tinto, com muito Serpão, louro, alho, banha de porco, azeite, louro, algumas malaguetas e mais umas herbáceas que agora me escapam (por vezes metem alecrim), após o que vai tudo por umas horas largas (4 ou 5 horas) ao forno de assar, tal como se faz com a carne assada.

A raridade dos Negalhos – ao contrário da vulgar e semelhante carne assada (pelo menos na forma de fazer) - resulta de tudo aquilo dar uma trabalheira descomunal. E uma despesa enorme. E como dá uma trabalheira descomunal, há por aí alguns artistas a aldrabar, no que resulta uma merdunça nojenta de que as pessoas se arrepiam ao comê-los. E é essa a memória com que ficam dos negalhos. Uma merdunça mal-saborosa. Só que isso não são Negalhos.

Imagine-se que se está a comer umas boas tripas à moda do Porto, sendo que na boca explodem ao mesmo tempo os sabores adocicados da tripa, com os sabores e aromas picantes e especiados de bons enchidos. Somem-lhe agora os sabores da carne de cabra assada em vinho tinto e terão uma aproximação aos sabores dos negalhos.

Já corri seca e Meca à procura deste mito e dei sempre com a cavalgadura na água. Na maioria dos tascos, aldrabam por completo as horas necessárias de sucessivas lavagens e raspagens do bucho e aquilo sai para a mesa com um misto de sabor a podre com pitadas de lodo. Noutras vezes aldrabam ao mesmo tempo no recheio, que cortam por completo e fazem tripas com tripas, numa bola sensaborona que não tem nada da riqueza dos negalhos. É obvio que meter um bom vinho prá caçoila custa, e meter bom chouriço e salpicão caseiro e saboroso para dentro do bucho custa mais dinheiro ainda. E conhecer o Serpão e a medida certa, custa mais ainda.

Até hoje e das fartas desilusões que tive ainda não dei com nada de semelhante às memórias de infância, mas há dias no Confrade de Poiares, deparei-me com uma muito boa aproximação a esse mito negalheiro. No Confrade fazem os Negalhos muito pequenos para o meu gosto e para a possibilidade de lá encafuar um bom e substancial recheio, mas não fogem do recheio – ainda que pequeno e pouco variado -, que apresenta riqueza de sabor e aroma, com serpão, picante e hortelã. Não atingindo a excelência que conto um dia descobrir nalgum lado, são negalhos saborosíssimos, sem aromas parasitas e sem aldrabices. Comi-os como quem se afoga num manjar de deuses. Disse ao meu pessoal e propus expedição punitiva. Que não, que isso não presta, que não tem gosto, que é preferível sandes de fiambre. A modos que vamos comer Arroz de Paelha. Perdoai-lhes Senhor, Que Eles Não Sabem O Que Fazem!

O Triunfo Das Galinhas, por Faisão

A propósito da crise galinácea que se aproxima e se adivinha funesta, os jornais, rádio e tv, meia volta soltam para aí uns números um bocado pró esquisitos. A verificar-se que a coisa das galinhas, perus e demais capoeiral viaje para pandemia, esta gente e alguns supostos experts, falam de 10 a 13.000 mortos em Portugal e de 2 a 3 milhões de mortos nos EUA por exemplo.

Mas, já alguém atentou devidamente na enormidade destes números? Se houver Pandemia e um terço destes números se verificar, por mais rede hospitalar e médica que haja, isto significa um colapso social completo nas zonas ou cidades mais fortemente atingidas. Os medicamentos não chegarão, os hospitais não chegarão, as farmácias serão assaltadas, os bloqueios e barragens de quarentena não serão respeitados e muito mais gente morrerá em motins, roubos e pilhagens.

Qual Tsunami, qual Katrina qual carapuça. A haver alguma verosimilhança na possibilidade de ocorrer a pandemia e nos números adiantados, a maltosa governante e o malta governada estão a levar isto na desportiva a ver o que dá e ninguém parece afirmar-se bem na enormidade dos números que estão na mesa. Dizem os experts que são extrapolações a partir do última pandemia de gripe espanhola do final da primeira guerra mundial. Esquecem-se que nesse tempo o pessoal ainda se resignava a morrer e a ver morrer pelos cantos sem incomodar o vizinho e as estruturas. Hoje isso já não existe. O objectivo é a felicidade e a vida até cair de podridão e velhice. Hoje ninguém se resigna a morrer e a ver morrer os seus. No colapso, colapsa tudo.

16/10/05

Anti Top Cartaz Eleitoral 2005 - Fundo de Catálogo, por Olho Vivo

Na última série Anti Top Cartaz Eleitoral 2005 aqui do Porco chegaram à nossa redacção , milhares senão mesmo milhões de cartas de leitores a pedirem encarecidamente para fazermos um Especial Carolina Amélia. Fomos ver e achámos que, realmente, o cartaz era verdadeiramente cabalístico e merecia a honra de figurar no Porco. A pedido de várias famílias, aqui deixamos, pois, o muito reclamado post dedicado à autarca mais in das útimas autárquicas.

O slogan da Carolina é talvez o melhor destas eleições: afectivo, ternurento, feminino. Mas ficamos a pensar: como «debaixo dos nossos tectos», carolina? Então a política não se dirige ao espaço público e não nos deixa o privado para a nossa intimidade? E o PSD mudou o logotipo para dois corações, um grande e outro pequenininho?

A não ser que a candidata esteja trocada… Deve ser isso … A julgar pelo decote generoso e pela pose sexy que apresenta, só pode ser isso: trocaram a foto. Esta é outra carolina, uma rapariga que é decoradora de interiores que trabalha ao domícilio. A candidata verdadeira é gorda e feia mas a firma de publicidade trocou-lhes as campanhas. Seja como for, deixo aqui um apelo à carolina: carolina, eu também quero o teu afecto debaixo do meu tecto (olha versejei e tudo, tiha sido uma boa palavra de ordem para gritar nos comícios lá da terra)!

14/10/05

Toque Vil, por Cão

Eu queria falar-vos sobremaneira e matosamente do pensamento social de Tocqueville, mas não sou capaz porque a minha colecção da Europa-América ficou em casa de um dos meus naufrágios matrimoniais.

Também gostaria de elucidar-vos sobre como afervento agriões em calda de batata acebolada, mas não vejo o praquê da coisa.

A verdade é que hoje é uma feira por acaso sexta. Ganhei alguns instantes matinais antecedendo os vossos fins-de-semana. Imaginei-vos bem, a braços com as vossas mãos.

De modo que, para a próxima, talvez Espinosa.

Ou Pauleta.

Gina – A Verdadeira Trombeta Da Revolução (Gina – Parte 1), por Rodox

Nos dias seguintes à doideira televisiva do pós-25 de Abril, vim para a rua e para a cidade, expectante da novidade e mudança. Afinal e contudo, prós meus olhos de puto de ciclo nada tinha mudado. Ao contrário da Tv, aqui por Coimbra não havia soldados pelas ruas, chaimites nas praças, ou cravos nas lapelas. Os prédios estavam na mesma, as pessoas passavam na mesma a caminho dos empregos e demais destinos, cafés normais, aulas normais, autocarros normais, jornais normais. Ora, porra, mas afinal o que mudou agora que caiu a recém descoberta ditadura e que se vai fazer o homem novo? Frustração total. O “anormal”, o “revolucionário” estavam escondidos na Tv ou em Lisboa, ou então reservados ao mundo adulto. Que se lixe a revolução!, tudo na mesma comá lesma!

De repente, poucos dias a seguir, tropecei na revolução! Nos quiosques e bancas de jornais, apareceram as Ginas. E não eram fechadas, mas abertas e escancaradas. Cenas hard de enrabadelas, esporradelas e canzanas, não a posição, mas mesmo com canzanas enormes e uivantes. A doideira pornográfica explodiu e as Ginas - suprema bandeira e vanguarda -, apareciam agora pelas ruas a fora, com pompa e muita gosma. Viva Revolução! Mas mais, não só a coisa era escancarada, como toda a gente se estava nas tintas para os putos ranhosos, que descaradamente gastavam em Ginas a féria da refeição da cantina e do bilhete de troley!

Foi aí e só aí que me apercebi da mudança revolucionária. Agora sim havia revolução, abertura e liberdade. Pouco depois já se viam os cartazes a anunciar o Último Tango Em Paris e liberdade das liberdades, o Garganta Funda começou a passar no Avenida. Os cartazes de cinema que anunciavam a onda porno eram explícitos e duros. A horda moralista andava de bola baixa e só alguns anos depois é que se começaram a ouvir as primeiras vozes contra o desparrame. Quais cravos, quais chaimites, quais cabeludos, quais carapuças, Gina, meus caros, a Gina é que foi a trombeta anunciadora da revolução e a grande viragem em relação à antiga senhora. Que aderiu ao porno também, vintage, claro!

13/10/05

Mudanças, por Camões da Silva

Ando em mudanças. A minha vida cabe numa garagem!

12/10/05

Os erros clamorosos da (In) Justiça Judicial. Por Trauliteiro Haddock

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Ainda as eleições.

O porco anda entretido com voos intelectuais, mas surgiu-me uma preocupação muito terra a terra. A canalhada votante já reparou que o Valentim L., A Fátima Felgueiras, o Avelino Torres, o Isaltino e a Isabel Damasceno têm uma coisa em comum? São alvo de processos judiciais. Todos.

Destes só o Avelino não ganhou as eleições. Os outros ganharam quase todos com larga diferença sobre os seus concorrentes. Ou seja, os candidatos que andam a contas com a justiça ganharam as eleições.

Ora, tendo em conta que o povo é quem mais ordena, este facto quer dizer apenas que o povo não reconhece que a Justiça tenha alguma razão ao processar tais pessoas.

Os juízes são nomeados. Os autarcas são eleitos.

Há muito mais força e legitimidade na eleição de um autarca do que na nomeação de um juiz.

Nos states aqueles autarcas tinham de ser submetidos ao crivo de um promotor publico, eleito pelo povo. O que quer dizer que em princípio não seriam acusados de nada porque o povo não reconhecia legitimidade para acusação a tais autarcas “modelo” que ganham com larga diferença de votos!!!

Ora, vistas as coisas à luz desta crua realidade, que é a real, a justiça está a acusar autarcas modelo e dignos representantes do povo.

A justiça está a agir mal, o povo é quem mais ordena.

Ora analisem isto e digam o que pensam porque eu estou a pensar em ir para a Antártida, antes que derreta.

Histeria da Literatura Portuguesa (ou então, Porra Porra Porra Foda-se) , por Cão

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o goucha escreveu o em banho-manel
e o doces sem açúcar
ganhou a aposta aparece muito mais na tv
que o quitério
o lobantunes sofre muito e coça-se muito mais
é mais querido em israel do que o saramago
aquele cujo avô abraçava as árvores
vejam-me lá se isso é coisa que se faça
o herberto helder está desaparecido
desde que nasceu com a cabeça entre as mãos
no café gelo
aparado pelo lacinho-braboleta do baptista bastos
o abelaira escreve em falsetto
assim com dois tês parece apartamento
da ttorraltta não parece
mas a cidade das flores nem está mal
lisboa à italiana
com casais que mal copulavam
desatavam logo a falar de política
como nos pá-lopes
o problema é a mania que eles têm de morrer
o cardoso pires sempre muito scotch-bruto
a ver as letras escritas ao contrário de propósito
e lidas do avesso de profundis
o sttau monteiro com garrafas e garrafas de
óleo fula para o jantar
mas felizmente há luar
o bernardo santareno de grossas hastes
e cigarro chutado para canto
da boca
o ruy belo em queluz naquele verão
do mundial da argentina
o assis pacheco a almoçarar meia-desfeita
e a deixar-se escorrer ventinhos melífluos
de cós de calças na livraria
o torga sempre muita chateado
com as homenagens nunca bastantes
o eugénio de andrade sempre
a pensar nas cabras caiadas de cal
e nos rapazes brancos litorais de sol
e sul e etc e sal
o pessoa triste mas a gozar a um canto da arcada
a aguardente que bebi foi o campos que a bebeu
o cesariny que eu saiba está vivo mas
não é fácil
o luiz pacheco está arrumado num albergue
agora já não faz filhos nem deixa que lhos
façam
o camões recebe da segurança social
uma carta registada
que diz a sua tença está atrasada
favor verificar domicílio de
dom sebastião
os espanhóis gozam c'a gente como mouros pretos
de ceuta e melilla
uns são filhos-da-puta
outros têm uma puta-por-filha
a gente aqui c'o possidónio cachapa
e eles lá com o montalbán
a gente aqui c'o peixoto
e eles lá com o javier marías
a gente aqui c'as marias
judite
horta
velho
palla
Santíssima
e eles lá com a rodoreda e a rosalía
a gente aqui com o grass-moura
e eles lá com o rivas
foda-se foda-se foda-se foda-se
ca malha
mas enfim
havia o carlos de oliveira
que esteve em febres-cantanhede
como o meu amigo tó-mané que vive
e um rapaz chamado fernando que morreu
o carlos de oliveira desespartilhou-se
do neo-realismo
e amandou-se-nos com aquele trabalho poético todo
o manuel da fonseca deu-nos o largo
a larga seara de vento
que antigamente se estudava aos 13 anos
nas escolas oficiais
agora não agora nunca mais
agora não tarda nada é o agualusa
contra moscas melgas e mosquitos
é o joão a guiar o pedro paixão para NY
sobram o joão de melo em lágrimas de engatar gajas
e o mário de carvalho em pura graça
qu'é feito do zambujal do domingo desportivo
o dinis machado rebentou tudo c'o molero
o namora plagiava o vergílio
o vergílio destilava pus a conta-corrente mas era bom
a agustina porra porra porra porra
quem me cala a mulher
ca cheiro a mijo de gato
a pedrosa a dar instrução aos amantes
e o melga ferreira a dar-lhe o título
as manas pinto correia o glamour o drama o horror a tragédia
a batata assada em papel de prata
o NYTimes embrulhando chicharro de cacharel
só falta o represas escrever poemas para o
vítor de sousa ler no elevador
o júdice que queria ser gastão
aqueles telerapazespivôs das oito da noite que escrevem romances-próteses
o sousa tavares é co'a dor
de corno talvez
1-2-3-macaquinho-do-chinês
afinal o roberto carneiro foi ministro da inducação no
intervalo de fazer filhos
o deus pinheiro também no
intervalo dos 18 buracos
a ferreira leite também não
se sabe porquê
e depois é isto
é o carlitos pinto coelho fotógrafo de casamentos corrido
do acon(a)tece pelo
mogais sagmento
é o frágil esteve-cardoso a orelhar romances
inacreditável comóque a sírialvim foi na conversa
mas infim
cada um é pó cu-lhe-dá
esporremos que não volte a acon(a)tecer
o jorge de sena tinha bué de razão e razões
o rodrigues miguéis esse excelente rapaz
teve de readersdigestar para digerir
ninguém sabe nem conhece h. silva letra
o d'a palavra fascinante editorial inova porto
n. em 1927 em vieira de leiria
ninguém s'apercebe de que o antónio osório
é um bem maior do que
a ignorância da morte
a ignorância da vida
qualquer dia até o herman josé escreve um livro
o quê
ai já escreveu
qual é que é
ah
é o herman josé saraiva
aquele das anedotas da história
o fialho de almeida e o pinheiro chagas e o camilo muito
ressabiados c'o eça
por causa de o eça ser melhor
que vinho do porto em umbigo de shania twain
o ferreira de castro absoluto n'a lã e a neve
o soeiro tão certo nos esteiros
o redol tão dos-passos nos gaibéus
mas nisto tudo acabei por ouvir o castrim
em casa dele mesmo
avenida luís bívar lx
uma vez que lá fui levar-lhe um livro
a dizer bem do goucha
de modo que não sei
porra porra porra porra.

As Organizações Para A Produção De Obras Literárias Homogeneizadas, por Harold Robbins

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No meus tempos de liceu e nesse tempo mítico em que das olheiras nos escorriam constantemente as obras trepidantes e aceleradas, descobri um autor que era o rei da coisa. Falo de Paul Loup-Sulitzer. Na altura, em edição agora esgotada da Romano Torres, devorei o “Money”, o “Cash” e o “Fortune”, uma trilogia de “western” financeiro, que li e reli em milhentas leituras de puro prazer.

Essa trilogia, dos anos 80 e 82, foi um sucesso internacional fabuloso. O Sulitzer ganhou rios de dinheiro e viu que afinal se podiam vender livros como coca-colas ou hamburgueres. E ganhar tanto ou mais dinheiro. Ora isto, num autor que mais do que escritor era um financeiro, vindo do mundo da alta finança, foi uma descoberta extraordinária. E uma oportunidade a não perder.

Sulitzer montou então a sua fábrica. Uma fábrica de fazer livros, isto é, de fazer “best-sellers”. E a coisa atingiu uma dimensão que pouca gente imagina. Italo Calvino no livro “Se Numa Noite De Inverno Um Viajante”, afinfa umas tremendas bicadas no seu conterrâneo e encaixa lá pelo meio do livro, o miolo de um romance em que fustiga “As Organizações Para A Produção de Obras Literárias Homogeneizadas”. E eu repesco: “Uma equipa de escritores-fantasma, peritos na imitação do estilo do mestre em todas as suas cambiantes e maneirismos, mantém-se pronta a intervir a fim de tapar os buracos, concluir e completar os textos semi-elaborados de modo que nenhum leitor possa distinguir partes escritas por uma mão ou por outra...(...)...estes romances em que as marcas dos licores bebidos pelas personagens, as localidades turísticas frequentadas, os fornecimentos de modelos de alta costura, de mobiliário, de gadgets, já fixados por contratos através de agências publicitárias especializadas(...).

E se acham que isto é mais um delírio de um escritor delirante, eu repesco novamente. Aqui vai um excerto logo do início do romance financeiro “Popov” do Sulitzer – o best-seller dele de 1984:

“Paul começou a vestir-se, hesitou entre uma camisa de Charvet e uma de Bardelli, e depois, entre um fato de Huntsman e um “pied-de-poule” de Cifonelli, e optou finalmente por um conjunto franco-italiano; quanto aos sapatos, calcou uns John Lobb – sete meses de espera a partir da data de encomenda.”

Estas referências as marcas concretas, reais e pagantes, são largadas ao longo dos romances com conta peso e medida e a coisa é feita de tal maneira que nós passamos por ali sem nos apercebermos de que estamos a engolir a isca. Esta codícia nojenta pegou de tal maneira, que até nos filmes de cinema que vemos hoje a coisa é reinante. Há cidades que pagam para a acção ser lá, as marcas de automóveis pagam, os perfumes pagam, as lojas pagam, tudo paga para aparecer na tela. E toda esta gente devia era pagar royalties ao Sulitzer. E se calhar, pagam que o homem não é conhecido por dormir em serviço.

Contudo reconheça-se uma coisa, que é a honestidade da besta. A fábrica dele foi anunciada e tem visitas guiadas lá na Suiça (salvo erro em Genebra) onde funciona. Sulitzer não esconde, antes anuncia com orgulho o modo homogeneizado e higienizado com que fabrica e vende os seus hamburgueres. O que parecendo pouco ou fácil, é muito mais do que aquilo que fazem dezenas de outros autores de best-sellers que editam à razão de um ou dois romances por ano, numa repetição ad nauseam da mesma fórmula que lhes deu o sucesso inicial. Eles não o dizem, mas a mim cheira-me a fábrica clandestina ao ver a profusão inContinente das obras de Isabel Allende, Nicholas Sparks, Anne Rice, Paulo Coelho e quejandos.

Se Nesta Hora Perdida Me Apetecesse Fazer Um Post Decente..., por Morris West

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Se nesta hora perdida me apetecesse fazer um post decente, terminava já aqui esta escrita e deixava ao cuidado do incauto leitor a continuação do post, obrigando-o a puxar pelo lóbulo imaginativo, normalmente ocupado a desenvolver evoluções com putedo electrónico, então, outro galo cantaria e eventualmente dessa efabulação delirante sairia aqui alguma coisa de jeito...

Li há tempos num lado qualquer que os italianos não gostam de Italo Calvino e não percebem o sucesso que este seu conterrâneo goza fora da bota. Vergando-me à penitência do pecado capital em que estas generalizações sempre incorrem, dou por mim a pensar que há qualquer coisa que me escapa nos Italianos. E de caminho as Italianas escapam-se-me também. Autênticas enguias.

Acabei há pouco o “Se Numa Noite de Inverno Um Viajante” e reli o “Cidades Invisíveis”. Duas obras primas de puro génio, desconcertantes, inquietas, intrincadas. Quem vem à procura de romances ou de histórias com princípio meio e fim, fuja já daqui. Calvino gozá-lo-á como um doido, com um gozo ainda mais forte do que aquele que se adivinha que teve ao escrever estas obras.

No “Cidades Invisíveis”, Calvino descreve-nos mil e uma cidades (na esteira do Mil e Uma Noites, em que a estrutura de fábulas contadas noite após noite é aqui reposta), mas todas as cidades do Calvino são no fundo uma única cidade, a Nossa. As cidades que nós não vemos, aqui nesta onde gastamos os calcantes, porque apressados, porque fechados, porque medrosos, porque cuidadosos, são todas as maravilhosas cidades do Calvino que nos passam ao lado e nas quais devíamos parar, atentar e mergulhar. O livro do Calvino é uma declaração de amor à Cidade, a mais perfeita e fabulosa das criações. Agora troquem tudo e releiam este parágrafo trocando a palavra Cidade pela palavra Mulher. Foi isso que viu Harold Bloom e que me levou a reler o “Cidades Invisíveis”.

O “Se Numa Noite De Inverno Um Viajante” não é um livro. São dezenas de livros dentro de outro livro. E nós também estamos lá. Neste livro, o autor puxa-nos para dentro e obriga-nos a mergulhar no desenvolvimento da obra, dando-nos pelo meio, o tutano de dezenas de romances que dariam excelentes obras, mas não dão porque de facto só está lá o tutano. O resto em falta, isto é, o princípio, o meio e o fim, ficam para nós imaginarmos, que o Calvino não os mete lá. E goza quando os procuramos. A certa altura, a coisa irrita que se farta e o Calvino que o sabe, espoja-se em interpelação directa ao leitor.

No fim da coisa, damos por nós a pensar: que diabo, mas além do tutano, e daquela molhaca densa e saborosa que nos escorre das beiças, o que é que nos interessa mais num romance? Saboreada que está mensagem espessa, de amor, guerra, revolução, traição ou morte, para que diabo temos nós de ter a coisa toda arrumadinha no armário imenso dos princípios, meios e fins. Calvino desarruma tudo, reinventa e contradiz o que acabou de dizer e perante as nossas dúvidas levanta outras maiores. O labirinto de Creta deveria ser alguma coisa de parecido com isto e nos alicerces da Torre de Babel, Calvino andou lá de certeza de talocha na mão.

Com Calvino a desarrumação é total. Se nunca leram nada de Calvino deixem estes dois para uma segunda volta e entrem no mestre pelo magnífico, hilariante e desconcertante: “O Cavaleiro Inexistente”. Esse valerá sozinho um outro post. Brevemente num Porco perto de si.

11/10/05

IDEIAS SEM FIM, por Indiota

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No princípio deste ano e numa rua onde passo diariamente, colocaram uns dizeres curiosos na parede de um rés-de-chão recém construído. A coisa, com ar de escritório sofisticado e aparelhos de ar condicionado a condizer, rezava assim: IDEIAS SEM FIM. Nem mais. Na parede perpendicular à rua, em letras de um palmo de altura e logo antes da entrada do dito escritório, o metal dourado em times new roman reluzia com o provocador e enigmático: IDEIAS SEM FIM. Assim mesmo, em maiúsculas e metal tipo patine, olha lá o luxo. Adivinhava coisa pensada, marketing de task force alto lá com ela.

Meses a fio, aquela frase intrigou-me e matutei ideias sem fim sobre o que raio era aquilo: uma firma de publicidade? consultores empresariais? mais um estaminé de festas e eventos? criadores de rendas e bordados? Fiquei sempre com o enigma e nunca o consegui esclarecer. É que aquilo além do IDEIAS SEM FIM, nada mais diz, nem telefone, nem Lda, nem serviços prestados. Nada, nada de nada. Só as ideias infindáveis numa provocação curiosa, mas certamente empresarial.

O enigma e a força da frase, deixava-me sempre com um sorriso na cara, de cada vez que a caminho de casa ali passava. Contudo, os corajosos empreendedores tiveram um galo. É que nas redondezas há um tasco que na altura da Queima regurgita de estudantada febril. E como é da praxe, a maltosa do fato morcego embicou naquilo e zás, afinfou-lhe. Mas afinfou-lhe com subtileza e génio a condizer. Limitou-se a arrancar o “S” do SEM. Ficou assim: IDEIAS EM FIM. O que dá um trocadilho admirável e até um duplo trocadilho, porque o passante ou se afirmava bem na coisa e via que faltava uma letra, ou lia uma frase diferente conforme o ângulo em que passasse. Sem o referido “S” e dada a posição da parede e do eventual leitor passante, aquilo tanto dava: IDEIAS EM FIM, como também IDEIAS EMFIM. Genial. Cada vez que ali passava vinha-me um sorriso aos lábios.

O “S” caiu em Abril ou Maio passado com a Queima da altura e o pessoal daquele escritório manteve aquilo assim todos estes meses, até que na semana passada lá conseguiram repor o “S”. Não sei se o “S” foi difícil de arranjar ou se gostaram da provocação, mas a coisa agora está reposta, e ali brilha de novo o enigmático e fortíssimo: IDEIAS SEM FIM. Eu nem quero investigar muito. Prefiro o enigma e a incógnita que me soltam a imaginação. E passo sorrindo e esperando pela próxima pulsão académica a ver que letra levam desta vez.

10/10/05

E no entanto, move-se! por Assessor para a Publicação de Análises

O porco venceu em quase toda a linha, nestas eleições. Essa é de resto uma das conclusões mais importantes a retirar destas autárquicas, em que tudo mudou para tudo ficar na mesma. De facto, foram certeiras as escolhas do tapor na série especial “Anti Top Cartaz Eleitoral 2005”. À excepção de Felgueiras, que ficará para outros fóruns de reflexão e espanto, e da estrondosa vitória de Mata Cáceres em Portalegre, o tal da cidade que não podia parar, foi completa a derrocada dos cromos seleccionados, comprovando a importância do marketing político de out-dors.
Assim, o amigo Tito Evangelista, em Esposende, perdeu com metade dos votos do vencedor; a senhora que o Bloco de Esquerda desencantou para a Trafaria perdeu, mas perdeu honradamente, quase triplicando a votação no BE relativamente a 2001; Em Tavira, o socialista Fialho também levou nas trombas (apesar de ter subido o score do PS em 49 votos); Mais humilhante foi a porrada da pistoleira popular de Porto de Mós, nem um mandato e quase reduziu para metade o eleitorado do CDS naquele concelho. Outra enorme porrada foi a do Faustino em Santa Maria da Feira, que também conseguiu o feito de descer o score do CDS-PP de 3800 para 2300 votos; Já o senhor Hemetério, socialista de Alter do Chão, perdeu mas ficou a vereador (não obstante ter perdido um mandato relativamente a 2001); Verdadeiramente desastroso foi o Vitorino, independente pelo PSD em Faro, que apesar das mãos à mostra perdeu a câmara para o PS em contra-ciclo nacional; Os simpáticos do BE de Estremoz (Assembleia Municipal) também levaram forte e feio: Ficaram em último, atrás do partido do táxi, sem mandatos e descendo a votação no BE de 282 para 196 votos; No Porto com o eléctrico Assis, foi o que todos sabem, com a malha estrondosa do Rio no PS, que desceu de 6 para 5 vereadores.

09/10/05

Anti Top Cartaz Eleitoral 2005, por Olho Vivo

Se ainda se podem compreender as falhas de comunicação e a falta de cultura visual em cartazes feitos por amadores, este, certamente feito por uma equipa profissional, é incompreensível. Aquela imagem da voltagem é tudo menos positiva. Não encontraram outra forma de transmitir a ideia de energia? É que assim dá a impressão que o candidato está a apanhar um choque e não que é ele a fonte da energia. Até lhe cortaram o pescoço ao meio, coitado do assis, já não lhe chegou ter sido agredido em Felgueiras. Uma vez mártir…


… E por falar em Felgueiras… Bom aqui não é que o cartaz seja assim muito mau, mas o slogan secundário, valha-os Deus: «Sempre presente»?! Como é que é? Importam-se de repetir? É que se houve alguma coisa que esta senhora Felgueiras não esteve, foi… Presente. E o que quererá dizer a enigmática numeração romana XVII? Possivelmente é uma mensagem cifrada só acessível àqueles que trataram de assegurar a presença da senhora durante a sua ausência no brasil.


Este é óptimo! Os candidatos são fabulosos pela heterogeneidade, pela desconexão, pela anarquia visual. Não há nada em comum entre eles e o fundo onde foram colados a martelo. Eles próprios, os candidatos, também não têm nada em comum - nem as cores, nem a roupa, nem o estilo, nada. Parece que juntaram uma tia da terra, o senhor silva que se vestiu de Domingo e o adérito que é o delegado ao jogo do clube lá da terra e lhes disseram para virem ali tirar uma fotografia… Os três parecem saídos de um filme cómico – o do meio parece um dos irmãos Marx e são do BE e tudo comó Marx - e não fazem a mínima ideia de como devem vestir-se. Um está de camisa desabotoada até ao quinto botão, a senhora tem uns óculos escuros (!!!) que herdou da avó e o senhor do meio, que é amputado, coitado, é o melhor dos três e ainda por cima tem a estrela dos reis magos em cima da cabeça, o que lhe dá uma aura mística considerável numas eleições autárquicas. Será ele o Novo Messias dos Judeus? Ou uma reencarnação comunista do Buda Sagrado? Eu acho que eles já ganharam.

Sofismas, por Cão

1. Se eu voltasse a casar, tenho a certeza de que me sairia uma das enculadas do Taveira.

2. Portugal vai perder as próximas eleições autárquicas. E vai manter o Scolari.

3. Não é Avelino que está do avesso. Nem Jardim. Nem a ladra de Felgueiras. Nem o surrealizado major. É o País.

4. O País está em eclipse anular desde 1143. E só agora é que toparam.

5. PS e PSD configuram, juntos, o mesmo que o Partido Revolucionário Institucional, ou lá como é, no México.

6. A 5 de Outubro de 1910, foi mau derrubar a monarquia. O que deveria ter sido derrubado era Portugal. Coisa que entretanto, aliás, aconteceu.

7. Salazar tocava ao bicho mas não o confessava nem ao Cerejeira, a quem também tocava.

8. A Bárbara Guimarães não é boa. Se fosse boa, não mijava ossos do Carrilho.

9. Acho que o Herman José é um bocado maricas.

10. Votar no Bloco de Esquerda é a mesma coisa que fazer um minete a um frango, mas não sei porquê.

08/10/05

Anti Top Cartaz Eleitoral 2005, por Olho Vivo

Outra pérola! Um tratado de contradições visuais. Como é que um cartaz que apela ao dinamismo («Portalegre não pode parar»), consegue recolher tantos elementos visuais contraditórios com o apelo do slogan? Os candidatos são fotografados num fundo em que predominam a pedra e as árvores, símbolos arcaicos da imobilidade. Mas pior que isso, eles próprios deixam-se fotografar numa pose inexpressiva e amorfa: os cinco homens têm todos as mãos à frente das partes baixas, devem ser todos tímidos, coitados, e as senhoras, uma está de mãos nos bolsos e a outra esconde-as atrás das costas. Esconder as mãos é a sugestão mais contrária ao dinamismo que pode haver . E todos tão parados, tão alinhadinhos… Têm a certeza que não são estátuas? E que querem mesmo que Portalegre não pare?

Este é o contrário doanterior. Tanta mão, as mãos tão presentes, parece que o senhor nos quer estrangular: está lá «consolidar a mudança», mas uma pessoa não consegue deixar de ler «se não votam em mim fodo-vos com estas que a terra há-de comer»! Um gajo fica com vontade de dizer tudo: «Ok confesso, fui eu que lhe andei a pintar o nariz de vermelho nos cartazes, sr. Vitorino, mas não me mate por favor».A imagem é ameaçadora, este homem mete medo, quando devia inspirar-nos confiança. E em mangas de camisa e tudo, fónix, não se metam com ele! Be afraid, be very afraid…



Insípido, inodoro e indolor. Mas é, pelo menos, coerente. O que é que se pode dizer de um senhor que se chama Hemetério, veste uma camisa cinzenta às riscas, tem um ar lavadinho, igualzinho a mais uns quantos milhões de anónimos portugueses, quer gerir o presente e preparar o futuro (faltou «respeitando o passado») e escolheu um fundo branco, insonso, como côr dominante pró cartaz? Nada. O cartaz diz tudo. O senhor Hemetério é funcionário da secretaria da 3ª repartição da terra e promete que, com ele, fica tudo na mesma…

07/10/05

Anti Top Cartaz Eleitoral 2005, por Olho Vivo

Simples, suave, sem pretensões… E no entanto desastroso. O candidato é míope, vê-se bem, como pode mandar-nos abrir os olhos? E ainda por cima tira os óculos? Mas se um míope tira os óculos ainda vê pior…Ele devia estar a pôr os óculos e não a tirá-los, só assim o cartaz fazia um mínimo de sentido. Tal como está, o slogan diz-nos para abrirmos os olhos e a imagem para os fecharmos! Um desastre, o cartaz do senhor Faustino…



And the winner is… - esta mulher de armas do CDS de Porto de Mós! Tudo nela é força, tudo no cartaz sugere essa ideia (até demais): o castelo atrás da candidata, a pose e o ar machão da candidata, ela própria… Mas sobretudo, a pistola, sim a pistola, que, inadvertidamente, quero crer, ela se esqueceu de tirar de cima da secretária. O slogan é que é fraco: ficava muito melhor «Uma mulher de armas». Este cartaz é, sem dúvida, a melhor pérola destas autárquicas. Para mais tarde recordar.

06/10/05

Anti Top Cartaz Eleitoral 2005, por Olho Vivo

E quem será o Fialho? O de Évora? Deve ter financiado o PS que agora aproveita os fundos da campanha eleitoral para pagar o favor. Diz quem sabe que o Fialho é mesmo de confiança, tem uns pézinhos de coentrada que são qualquer coisa!, e óptimos doces.. Mas, para não sairmos do Alentejo, eu até prefiro o Grémio, logo ali ao lado…

Pois! A diferença desta candidata é óbvia. Ela não é feia nem é bonita, diz a CDU. É diferente, simplesmente. Pois, digo eu…


O fundo vermelho sensual é completamente ruinoso. Acrescenta-se ainda a imagem da rosa, do botão de rosa, símbolos de paixão e fertilidade. Com este fundo, vemos o Tito a tirar os óculos e a dizer, com ar malandreco, que «Chegou o momento» e ficamos a pensar em quê? Em política não. Ficamos à espera é que ele tire a gravata, a seguir o casaco e que depois desabotoe a camisa e vá por aí adiante… Chegou o momento?! «Finalmente!», deve ter pensado a maria quando viu o cartaz, depois de tanto mês em jejum…

Com as eleições autárquicas vivemos um momento privilegiado para compreendermos um pouco melhor o país. Os candidatos a presidentes das câmaras e das juntas e afins são, afinal, genuínos ícones de Portugal. Os outdoors que enchem este país de norte a sul são uma manifestação insana da piroseira nacional, um testemunho eloquente de mau gosto e da total ausência de cultura estética que nos caracteriza. Em Barcelona ouve-se Mozart no Metro, por aqui curtimos cartazes indíziveis nas rotundas. A partir do excelente trabalho de recolha do blog http://blogautarquicas.blogs.sapo.pt/ , o Porco decidiu eleger os 11 piores cartazes das actuais eleições autárquicas, uma vez que, a julgar pela amostra, eleger os melhores é tarefa impossível. Nos próximos posts publicaremos regularmente o Anti-Top Cartaz Eleitoral 2005 com o respectivo comentário do nosso júri. Hoje foram estes três. Outros lhes seguirão.

05/10/05

As Músicas do Porco: Spanish Key de Miles Davis, por Aduraratejazz

Há já algum tempo que me interesso pela música Jazz, e isto talvez tenha um pouco a ver com a tendência desportiva que me atingiu desde cedo. O jazz, como o futebol, são das poucas artes, se não únicas, que permitem a convivência entre disciplina colectiva e liberdade individual. Por outro lado, também não consigo perceber porque é que uma música tão aprazível para muitas pessoas é marginalizada nas rádios. Depois de ter ouvido muito jazz, principalmente fora de concertos, surgiu-me há pouco tempo uma música dos electric years de Miles Davis que me assoberbou até às profundezas. Trata-se de Spanish Key. Pode encontrar-se no álbum Bitches Brew que é todo ele de uma sumptuosidade e perfeita confluência da arte do individualismo com o poder do colectivismo.

É uma música de 17, 34 min com um balanço de rock and roll que nos acorda com um drum swingado de bateria e percussão de Lenny White e Jack Dejonnette seguido dum fraseado despertador do trompete do Miles. Três pianos eléctricos tocados por Larry Young rolam quase continuamente em conjunto com a guitarra de John McLaughlin.

O clarinete de Bennie Maupin aparece pelo meio da manhã, seguido pelo saxofone de Wayne Shorter e, progressivamente, Miles Davis vai prolongando o seu fraseado de Scat. Por vezes, todos juntos, parece que nos vão rebentar com tanta vibração.

Lá mais para o entardecer, o saxofone de Wayne, seguido pelos scats de Miles, parece que nos vai outra vez adormecer, mas o swing da percussão deixa-nos outra vez expectantes.

Finalmente, já noite dentro, e sempre com a bateria presente, o trompete leva-nos para a reflexão de uma longa jornada, entremeando com uns acordes de guitarra, anunciando a proximidade dos encontros da noite e todos, bateria, trompete e guitarra, deixam-nos adivinhar um luar escuro junto à baía com ela entrelaçada mas sempre pujante. O saxofone reaparece anunciando o desfecho, mas o scat de Miles, bateria, pianos e todos, novamente juntos, revigoram-nos até ao êxtase completo. Depois, simplesmente, fumo um cigarro…

E Cona, por O Jóia da Bóia Dois

Orgasmo Trifásico (Millôr Fernandes)

Orgasmo feminino é coisa da qual as mulheres entendem muito pouco e os homens, muito menos.
Pelo fato de ser uma reação endócrina que se dá sem expelir nada, não apresenta nenhuma prova evidente de que aconteceu ou se foi simulado.
Orgasmo masculino não! É aquela coisa que todo mundo vê. Deixa o maior flagrante por onde passa.
Diante desse mistério, as investigações continuam e muitas pesquisas são feitas e centenas de livros escritos para esclarecer este gostoso e excitante assunto. Acompanho de perto, aliás, juntinho, este latejante tema.
Vi, outro dia, no programa do Jô Soares, uma sexóloga sergipana dando uma entrevista sobre orgasmo feminino. A mulher, que mais parecia a gerente comercial da Walita, falava do corpo como quem apresenta o desempenho de uma nova cafeteira doméstica. Apresentou uma pesquisa que foi feita nos Estados Unidos para medir a descarga elétrica emitida pela "Periquita" na hora do orgasmo, e chegou à incrível conclusão de que, na hora "H", a "perseguida" dispara uma descarga de 250.000 microvolts.
Ou seja, cinco "pererecas" juntas ligadas na hora do "aimeudeus!" seriam suficientes para acender uma lâmpada. Uma dúzia, então, é capaz de dar partida num Fusca com a bateria arriada. Uma amiga me contou que está treinando para carregar a bateria do telefone celular. Disse que gozou e, tcham, carregou. É preciso ter cuidado porque isso não é mais "xibiu", é torradeira elétrica!
E se der um curto circuito na hora de "virar o zoinho", além de vesgo, a gente sai com mal de Parkinson e com a linguiça torrada. Pensei: camisinha agora é pouco, tem de mandar encapar na Pirelli ou enrolar com fita isolante. E na hora "H", não tire o tênis nem pise no chão molhado... Pode ser pior! É recomendável, meu amigo, na hora que você for molhar o seu "biscoito" lá na canequinha de sua namorada, perguntar: - É 110 ou 220 volts? Se não, meu xará, depois do que essa moça falou lá no Jô, pode dar "ovo frito no café da manhã."
Esse país não melhora por absoluta falta de criatividade... São as mulheres, a solução contra o apagão.

Vinho, por O Jóia da Bóia Um

Nem tudo é merda neste território lusitano. Alvissaras! Sárává! Motiva esta entrada de rompante uma excelente notícia para a economia nacional, nos capítulos import/export e auto-estima. Pode não parecer, mas quer-me cá parecer que é de facto uma óptima notícia, quando um jornal global prestigiado como o New Yok Times, publica, como hoje o faz (aqui, e também, presumo, na edição em papel), um extenso artigo extremamente encomiástico sobre o vinho português. O cronista, Eric Asimov, "O" especialista em vinhos do Times, discorre com abundância e grande entusiasmo sobre os néctares báquicos nacionais, num texto sintomaticamente intitulado: "For the next big thing, Look to Portugal". Nem é preciso dizer mais nada por estas bandas... O resto é ler o que lá está e suspirar um bocadinho de orgulho. Para quem goste de vinhos portugueses e para quem goste de ver um importante sector económico nacional em alta em termos mundiais. Esta peça do Times é ouro. Pronto, achei só que esta maralha que aqui chafurda, gostasse de saber estas novidades.

03/10/05

Aforismos, por Equécrates

Ontem fomos jantar. Durante o repasto tivemos que aturar os berros abomináveis de uma criancinha a quem a estúpida da avó torturou durante uma inteira e imensa meia hora, enfiando-lhe sopa com uma colher-funil pelas goelas abaixo. A cabra da velha não parava e a criança guinchava, gemia, suava, esperneava e voltava a espernear e a suar e a guinchar e a gemer e nós quase, também… Foi então que o Tiger, filósofo oficial de serviço da Real Confraria Esseponto do Tinto (nós), retirou do episódio a lição/aforismo que Pascal não desdenharia assinar. E assim disse e aqui fica lavrado:

- «A fronteira entre a inteligência e a estupidez pode ser medida por uma colher de sopa».

É verdade! E eu que nunca tinha pensado que a colher de sopa, muito mais que qualquer teste psicotécnico, podia ser declarada metro fidedigno e oficial do quociente intelectual das pessoas…

02/10/05

Uma Gaja Boa, por Cão

Uma mulher longa como uma armação gradeada – vertical até à cintura, horizontal até onde as
rótulas cedem verticalidade às tíbias, que desistem no chão em prol dos pés horizontais também longos.
Uma cabeleira frondosa é o mais do cartaz. Farta cabeleira, que sobe dos ombros até à zona onde se emaranham o olhar e os pensamentos, passada que foi a linha diagonal da boca que pensa, por mordaz.
Lábios finos, dentes largos. O sol da tarde, que as cortinas prensam como a uma torrada, legitima a blusa rarefeita, de onde pomam os dois lácteos hemisférios à sorrelfa entrevistos em convívio de renda elástica.
Boas pernas separáveis: longitudinais, ossudas sem excesso de magreza, tudo tendão, gordura nenhuma. Unhas fortes, que o verniz visitou de branco, sobre a mesa como na ponta das sandálias de perfumado couro.
(Deixam-nas andar assim, e depois elas incandescem o ar da respiração, tornando oftalmológica a dificuldade de viver. Um homem olha, uma mulher vê.)
Levanta-se sem esforço, por pura articulação de planos. A pele, muito ginástica, ginga o esqueleto fibroso no sentido, mais ainda, da altura. Condescende moedas no balcão, mulher de contado consumo.
Mineral, aduanária, pontuda, capital, frutívora – sai de cena, deixa nódoas de luz no soalhado, respiga centelhas de ouro à porta de vidro e deixa a preto-e-branco o cartaz dos gelados, qu’inda até há poucochinho vos juro que era a cores.