31/05/06

A insustentável leveza dos inquilinos do Ministério da Educação, por Bigotsky

Este Ministério da Educação é uma rábula. Não pára de surpreender tudo e todos. Entre inúmeras medidas destituídas de sentido, agora dita-se o caos supremo: os
professores vão ser avaliados pelos Encarregados de Educação! Como? Importa-se de repetir?

Fugindo à adjectivação que esta medida suscita, fiquemos pelo óbvio (pelos vistos não): qual o saber, a autoridade, a competência que os Encarregados de Educação detêm para tal acto? Onde granjearam esta habilitação?! E, tirando alguns que pertencem a instituições de pressão, será que querem desempenhar esse papel? Com que fundamento? Baseado em quê?
E este não é um protesto corporativista ou assente nalgum receio de ser avaliado: a avaliação é e deve ser feita - mas com bom senso, competência, rigor, saber. É preciso sapiência, perceber a realidade que é e em que se situa o processo educativo e desenvolver os mecanismos necessários para que tal aconteça (e isto não é verborreia: pode efectivar-se esta avaliação, de forma simples, através dos grupos, departamentos, conselhos
pedagógicos, adequadas acções de formação, avaliação externa através de exames nacionais - mas com as directrizes perfeitamente definidas e não baseadas em incompetentes informações que ora dizem, ora desdizem, porque não se sabe adequadamente em que consistem os programas, como se leccionam e o que é importante avaliar).

Depois também é interessante saber e perceber qual a realidade da escola: um Director de Turma, com sorte, recebe a visita, ao longo do ano lectivo, de cinco, seis Encarregados de Educação. Mas como são todos que avaliam, obrigam-se os ditos a ir à Escola? Quais as medidas de coacção? E vão oferecer-se acções de formação para poderem avaliar os docentes? E, por
argumento análogo, serão os juízes avaliados pelos condenados (esta pena não é lá grande coisa...)? Os médicos pelos pacientes (cum raio, então dá-me voltaren quando eu precisava de viagra)? E podia continuar-se o delírio...

Curioso é dizer-se que, «enfim, esta avaliação não é muito importante, dilui-se num processo mais vasto». Bom, a ser assim então qual o sentido? Para que é que se faz? Com que intuito?
Procurando calar a indignação, só expressar que isto é uma medida, clara, de pressão, despropositada e ridícula. Quer-se sucesso à força (o Sequeira dizia, com alguma pertinência, que as suas notas iam passar a ser de dez a vinte)?
Como compaginar, por exemplo, a disciplina com a possibilidade do catraio dizer lá em casa que o professor é austero? Que é rigoroso? Que exige trabalho? Como se avalia a simpatia? Ou, então, de que estamos a falar? Já agora, ninguém avalia o desempenho deste Ministério? Alguém pensa?
Porque se precisamos de avaliação, não precisamos, certamente, de medidas avulsas, que descredibilizam e desacreditam as pessoas competentes e empenhadas que fazem mais pela educação do país do que os efémeros funcionários sedentos de protagonismo.

Yann Tiersen, por Xeko

Apesar de já conhecer "Les Retrouvailles", que é a sua última obra, achei que seria curioso vê-lo ao vivo. Foi o que fiz, no passado dia 19 de Maio, na inauguração do Centro de Artes e Espectáculos de Portalegre. A sala estava repleta, atraída, por certo, pela banda sonora do filme de Jean-Pierre Jeunet, "Le Fabuleux Destin d'Amélie Poulain". Da minha parte, as expectativas eram grandes, mas fiquei entusiasmado com o que vi e ouvi.

Impressionou-me a maneira como Tiersen explora cada instrumento, a intensidade com que o faz. Além da sua versatilidade, o experimentalismo na forma de associar sons antagónicos. Como seria de esperar, Yann Tiersen percorreu a sua obra, iniciada em 1995, mas fez mais do que isso. Foi ousado, pois não se limitou à reprodução dos sons dos seus registos, tal como são conhecidos.

Interpretou-os de forma bem diferente, com arranjos inusitados e luzes insinuantes, de tal modo que não foi fácil reconhecê-los, pois tomaram uma textura sonora diversa. Proporcionou momentos de quietude, soturnos e sombrios, com abordagens explosivas, dinâmicas e enérgicas, abrangendo um vasto espectro musical.

Apesar deste último trabalho contar com a presença de Elizabeth Fraser (Cocteau Twins), de Jane Birkin e de Stuart Staples (Tindersticks), o imaginário sonoro de Yann Tiersen perdura, destacando-se pela sua originalidade. A sua música é, de facto, única e inconfundível. Mas o concerto, esse, foi mesmo sublime...

29/05/06

A Epopeia Americana, Epílogo: O Regresso à Simplicidade Pós-Apocalíptica. Por David Relincho

A epopeia é um processo narrativo de colectivização da memória. Pela narrativa épica se consagra a superioridade do colectivo sobre o individual, do universal sobre o particular. Daqui nasce a ideia de Estado como a forma mais sofisticada de organização das sociedades, sacrificando o indivíduo aos interesses do grupo. A vontade e o imperativo moral sobrepõem-se à ordem natural, à lei da força e ao arbítrio. A razão da superioridade do social sobre o particular justifica-se na presunção de que a morte é vencível. Pela acção épica, pela edificação de uma identidade supra individual, se tende para a consumação do fim histórico da humanidade: a superação da morte. Somos mortais enquanto indivíduos, imortais, porém, enquanto participantes de uma colmeia. Da linhagem ao clã, da ideia tribal ao ecumenismo cristão, da fraternidade revolucionária ao humanismo universalista, todas estas realizações visam a superação da morte e do esquecimento. Institui-se para isso uma condição e um método: a subalternização do particular e a narrativa histórica. A História é uma produção ideológica. A memória de uma gesta garante uma dinâmica perpetuadora que se impõe à amnésia, ao atomismo individualista, à anarquia e ao olvidável. Contra o caos amnésico, a narrativa épica. A História, mitológica e narrada oralmente como nos primórdios, ou objecto de teorização e produção científica, como na actualidade, cumpre o objectivo máximo de alicerçar uma identidade que se desenvolve pelo tempo, percebido como experiência colectiva e progressiva. A construção da memória e da identidade é um acto demiúrgico, inaugurador de um novo tempo para um novo protagonista colectivo. Implica uma ruptura com os tempos antecedentes, ou, quando se assinala uma continuidade, exige-se um salto qualitativo que diferencie a epopeia do seu prelúdio. Como um organismo que se desenvolve de acordo com as suas próprias leis internas, também as sociedades com História, em nome de uma missão histórica e civilizacional que cantam e propagam em decassílabo, se arrogam ao direito de conquista e extermínio, sem que daí extraiam qualquer remorso moral, pois que o Estado supõe o Império, do mesmo modo que a semente só se justifica em função de uma consumação que lhe é exterior. É esta a raiz da ocidentalidade. É por isso que Sven Lindqvist pode afirmar, sem que o possam contradizer, que «Auschwitz foi a aplicação industrial de uma política de extermínio sobre a qual há muito assentava o domínio europeu do mundo».

Quando a cavalaria americana investe sobre os índios no filme de John Ford, A Cavalgada Heróica no deserto de Monument Valley, há uma barbárie que se expia: o primitivismo índio, sociedade tribal sem escrita e sem História, sem Estado e sem Império, sem finalidade e sem função orgânica. À luz do modelo ocidental, entenda-se. E só à luz do modelo ocidental. Por outro lado, há um poder novo que se anuncia: a cavalaria, isto é, a América. E um espaço que se torna palco de uma epopeia. Um espaço até então amnésico, simbolicamente desértico porque pré-histórico, anterior ao advento do momento épico. Sem dólmenes e sem catedrais. Monument Valley, já repararam, é de uma ironia contraditória. Mas que monumentos? Os que resultam da acção natural. Só. Montanhas e desfiladeiros, rochedos talhados pelo vento, bizarrias devidas ao arbítrio das intempéries. O topónimo é ocidental, claro. A carga de cavalaria em Monument Valley prenuncia que o espaço virgem do deserto se abre agora à acção civilizadora. Que é naturalmente expansionista, tende para um domínio que é não só exterminador, mas universalista.

O Apocalypse Now mostra a dimensão desmedida dessa força avassaladora e missionária que era a América de Ford. A amnésia original de Monument Valley era genesíaca e dá agora lugar ao horror apocalíptico. O Apocalypse Now é a epopeia falhada da América. A América buscava a hegemonia mundial e acabou por se confrontar com os seus próprios fantasmas interiores. Brando é a América gorda, sem ideal, sem futuro, sem dignidade e sem moral. É um modelo civilizacional que está em causa. Um novo deserto se anuncia. Apocalíptico.

Quando Travis (Harry Dean Stanton) regressa amnésico do deserto, no filme de Wim Wenders Paris Texas (1984), é toda uma tradição épica e narrativa que é abandonada. O deserto, genesíaco e objecto da conquista em Monument Valley, é agora pós-traumático, pós Coppola e anti-Ford. Travis tem uma identidade para refazer, uma memória a reconstruir. Não tem memória, sobreviveu ao deserto e busca agora a sobrevivência individual e a reconstrução de uma identidade que não é épica nem colectiva, de uma missão que já não é imperial nem grandiosa. Procura a mulher (Natassja Kinski) e a recomposição familiar. Encontra o apoio e a compreensão do irmão (Dean Stockwell). O tempo não é histórico, torna-se psicológico e íntimo. A missão não é grandiosa, a felicidade não resulta de um domínio. Nesta viagem equívoca, pois que o título supõe, falsamente, uma rota do Velho ao Novo Mundo, da cidade luz símbolo da velha matriz europeia ao Texas onde a América começou por erguer a sua grandeza, não se apresentam sequer personagens que sejam exemplos de virtudes morais. Contrariamente ao herói homérico que é modelo de virtude, ou a outros heróis épicos, impolutos, que ilustram uma indissolúvel relação entre a integridade moral, a robustez física e a acção triunfante, as personagens de Wenders são vulgares. A esposa procurada, Jane, não tem as virtudes de Penélope. Trabalha num peep-show em Houston. Abandonou o filho que agora a procura, por razões próprias. Não são razões de Estado, são caprichos individuais. Redescobre-se, neste filme de Wenders, a força da razão íntima, as fraquezas quotidianas, as arbitrariedades pessoais, os vícios e as fraquezas. Reversíveis, todavia. Pois se a história se corrige e se regenera, se há vida para além do Vietnam e de Kurtz, porque razão não podemos ser arquitectos do nosso quotidiano. A vida é uma coisa simples afinal. É esta redescoberta que Wenders oferece à América.

David Lynch, em 2001 realizará a mais perturbante desconstrução do modelo épico-narrativo em Mulholand Drive, denunciando o alicerce profundo da ideologia civilizacional do Ocidente assente sobre o modelo heróico, épico, narrativo e historicista, narrando simplesmente uma história absurda. Lynch produzira anteriormente, em 1999, uma história simples. The Straight Story, justamente traduzida para português como Um História Simples, é isso mesmo, uma história simples, uma anti-epopeia. Um idoso sabe que o seu irmão sofreu um ataque. Não o via há muitos anos. Pressentindo a morte, desafia todos os conselhos, supera todos os obstáculos e empreende uma viagem final, como quem cumpre uma missão pessoal e de consciência. Atravessa a América num cortador de relva adaptado, sobrevive a todas as dificuldades e a todas as intempéries, à doença e à velhice, à crítica e ao ridículo e chega à cabana do irmão. Aí, cumpre-se. Não é uma finalidade imperial nem grandiosa. Sentam-se na varanda, reunidos finalmente, em paz, e aguardam a morte. Alvin, o irmão procurado, é Harry Dean Stanton! O buscador de Paris Texas é agora obuscado. A América redescobre, neste filme de Lynch, a simplicidade da vivência quotidiana. Numa história que é baseada em factos reais. O que é extraordinário e significa que a América se redescobre na essência que nunca perdeu. Doravante, qualquer arremesso épico será ridículo. Assim o entendesse Georges W. Bush.

27/05/06

O Anti-Cristo?, por Gore

Teria sido o grande filósofo Friedrich Nietzsche um precursor do nazismo? Reza a lenda maldita que o Anti Cristo, obra seminal do escritor alemão era uma das referências de Adolf Hitler. Hitler, de resto, apreciava imenso as sinfonias de Beethoveen e as óperas de Wagner de quem nunca li terem sido simpatizantes avant la lettre do nacional socialismo.

Estive a ler umas partes da primeira obra publicada por Nietzsche, A Origem da Tragédia. Neste livro, o filósofo alemão, apresenta uma concepção muito própria da mitologia. Segundo ele a lenda de Prometeu é «propriedade original da comunidade inteira dos povos arianos». Sim, leram bem: Nietzsche diz expressamente que Prometeu é um mito ariano; ao passo que o mito da Queda (de Adão e Eva) é um mito dos «povos semitas». Um gajo lê isto e pensa até onde é que ele irá…
Nietzsche, porém, descansa-nos logo a seguir, ao dizer que estes mitos são equivalentes («irmão e irmã») e, de facto são-no, porque em ambos existe uma desobediência expressa à ordem divina e uma expiação do crime (bem mais terrível, contudo, no mito prometaico).

Mas, depois, acrescenta o autor, há entre eles diferenças abissais: Prometeu, o mito ariano, «contrasta estranhamente com o mito semita da queda do homem onde a curiosidade, a mentira, a sedução, a lascívia, em suma, um cortejo de sentimentos mais propriamente femininos são tidos por origem do mal.»
Pelo contrário, «o que caracteriza a concepção ariana é a ideia sublime do pecado eficaz considerado como a virtude prometaica por excelência». Ou seja, para o ariano temos o «crime masculino», enquanto que para o semita temos o «pecado feminino».
Percebe-se que esta associação feminino/semita VS masculino/ariano tem subjacente a exaltação do ariano e o desdém pelo semita. Nietzsche parece-nos aqui, não apenas racista, mas também machista…

O filósofo chega ao ponto de citar um verso do Fausto de Goethe onde a glorificação da virtude masculina em contraste com o atavismo feminino é bem claro:

«Não vemos as coisas tão de perto:
O que a mulher vai fazendo em mil passos,
Por mais que proceda de forma ágil,
Logo o homem o completa num salto.»

Em suma, o crime masculino é o contrário do pecado feminino, é a maré incontrolável, a torrente que arrasta todos os limites à sua frente e não receia as consequências terríveis da Moira. É essa vontade poderosa e ariana- vontade prometaica e dionísiaca – que caracteriza o génio ariano e que o distingue da mentalidade da medida – apolínea e racionalista - do povo semita.

Eu leio isto e continuo a achar que não podemos acusar Nietzsche da interpretação monstruosa que Hitler fez das suas palavras. Muito menos do Holocausto! Mas que estas coisas têm potência para virarem a cabeça a qualquer serial killer acabado de chegar a Kaiser, lá isso têm. Não diria que Nietzsche foi um precursor do nazismo – acho até a ideia monstruosa – mas admito que Hitler viu aqui um filão que explorou como justificação sinuosa dos seus crimes.

26/05/06

Deixem Arder Que O Meu Pai É Madeireiro, por Nero

Verão, calor, praia, gelados, calções de banho, enfim um grupo de palavras que associamos de imediato com o primeiro calor primaveril em corrida final para o Verão e o mergulho no mar. Só que a associação de palavras vai aumentando e ultimamente surge uma actualização: incêndio.

Claro, já estamos na época dos incêndios, tal como na dos Morangos. O que ocorreu nos últimos anos não foi lição para nenhum dos reles políticos e ministros que empurram esta nau de forma medíocre, e lido o “espesso” deste último sábado, e confiando, ficamos a saber que temos uma feroz acção fiscalizadora de umas dezenas de senhores da GNR que andam de arma à cintura para matar os fogos… os GIPS.

Eles são a redenção salvadora, aptos a enfrentar o stress e a pressão. No entanto, a par com esta novidade, as matas continuam sem ser limpas, as dos particulares e sobretudo as do Estado, os PROF (Planos Regionais de Ordenamento Florestal) e os Planos Municipais de Defesa da Floresta ainda não foram aprovados, quanto mais implementados no terreno…

Enfim, este ano em Coimbra vaticino que vai arder a mata da Sereia, O Jardim Botânico, o Jardim da Rua Sá da Bandeira e o Jardim da Manga, creio que os Jacarandás se salvam, isto enquanto Bombeiros Municipais e Protecção Civil discutem qual deles é que deve salvar os Patos da Sá da Bandeira e os peixes do Botânico.

Mas para além de tais pormenores sem importância, estou convicto que a Sra Maria de Bom Velho de Baixo quando acender o fogareiro para assar as sardinhas ao marido vai ser surpreendida com um GIPS espadaúdo a apontar o cano da arma matando o fogo com três disparos e com a outra mão a passar o auto para a Coima da ordem.

Isto baralha-me, em geral há leis e não há fiscalização, agora aprenderam, temos fiscalização e assim nem é necessário quem apague fogos e quem os evite… Deixem arder que o meu pai é madeireiro.

24/05/06

A Epopeia Americana, parte 5ª: «Apocalypse Now», ou The End. Por Mangas

Introdução - O livro de referência ao filme de Francis Ford Coppola é o Coração das Trevas do escritor Joseph Conrad. O argumento foi escrito em parceria por John Milius e o próprio Coppola. Entre o projecto inicial e a obra acabada, ocorreu uma documentada saga de factos e lendas que asseguraram ao realizador a sua conta de inferno privado e transformaram a experiência limite da rodagem do filme num verdadeiro apocalipse dentro de outro. Tal não é para aqui chamado. Até porque à imagem do conceito original, um e outro, já fizeram correr rios de tinta e foram tema de profundas e exaustivas análises. Arrisco-me a dizer que cada sequência ou personagem dariam leit-motif para outros tantos textos iguais a este. A nós, e perante o sagrado, cumpre-nos tão-somente sublimar a paixão e fechar um ciclo – perdoai-nos, desde já, a extensão da prosa. Para tal, alternaremos a interpretação de cariz pessoal entre o livro e o filme com base em Kurtz e Marlow/Willard, porque os entendemos de relevância central no desenrolar da história. A América deve ser vista como cenário de fundo e simultaneamente personagem principal. Poderá ser lido ao som de Run Through the Jungle, dos Creedence Clearwater Revival.

Kilgore: Se eu digo que é seguro surfar nesta praia, é porque é seguro surfar nesta praia! Eu não tenho medo de surfar aqui e vou surfar nesta merda deste lugar todo! Apocalypse Now é um filme de helicópteros. O zumbido metálico das hélices em slow-motion sonora são o palpitar angustiado de um coração que perdeu o rumo, prestes a desferir um ataque mortal que nos tira dali para fora, do inferno para os céus, dos corpos esfacelados para o azul sobre os arrozais vulneráveis e pacíficos. É um filme sobre a América dos símbolos, desde as coelhinhas Play Boy ao surf, passando pelos The Doors à marijuana. A bestialidade colectiva e individual inerente a um campo de batalha, os abismos da alma humana e, a selva, são paradoxos, contemplações estéticas e analíticas em torno de um rio e o barco que o percorre naquela que é a mais perturbadora viagem ao fulcro da esventrada nação Americana no auge da guerra do Vietname.

Marlow: Mas a selva acabou por denunciá-lo e vingar-se terrivelmente dele e da invasão fantástica. (...) Ecoou muito fundo, porque o sr. Kurtz estava oco... O Coração das Trevas é um grande livro. Um dos melhores! De escrita delicada, bela e visceral. Quando estamos perante ele a primeira vez e não sabemos em que direcção nos empurra a corrente das palavras, a suspeita de que algo não bate certo com Kurtz instala-se logo na pág. 22 ao lermos: «Só ele manda mais marfim do que todos os outros juntos...» Há ali método. Compulsão. Obsessão. Génio. Não é apenas mais investimento do que os outros, não. Na África profunda daquele tempo, tamanha produtividade só poderia render dividendos se sustentada por processos, lógica e determinação, logo, a filosofia de Kurtz deveria obedecer a um plano para além da subjugação pela força, pelo poder. A explicação é-nos concedida muito mais tarde pelo próprio Marlow: «A questão estava em ele ser um homem de qualidade, e entre todos os seus dotes predominar um, ligado ao sentido de efectiva presença, que era o talento de falar, eram as suas palavras – o perturbante dote de expressão, o estonteante, o iluminante, mais exaltado e também o mais miserável, a palpitante corrente de luz ou o ilusório fluxo extraído ao coração de uma indevassável treva.» O Kurtz de Joseph Conrad, é um indivíduo ambíguo, complexo, dotado para as artes, líder nato, íntegro mas perigoso o suficiente para se auto-exilar das convenções colonialistas do Império. Por isso tomba e no ponto de ruptura, toca o abismo sem remissão.

Fotojornalista sobre Kurtz: O homem tem uma mente lúcida, mas a sua alma está louca! Noutro paralelo, a primeira imagem que nos é dada a testemunhar sobre o Kurtz de Coppola, é a sua voz. «Vi um caracol a arrastar-se sobre o fio de uma navalha. É esse o meu sonho. É esse o meu pesadelo. A deslizar, a escorregar no fio de uma navalha... e sobreviver...» A gutural nasalação de Brando gravada numa cassete. Pausada. Sonâmbula. Num arrastado timbre de lucidez demencial e convicção trágica. Willard (Martin Sheen), apercebe-se que aquele não é um homem qualquer. Em nós espectadores, cresce a suspeita convicção de que a ténue linha que enjaulava a loucura, foi violada – o fascínio é completo! Se confrontado, por exemplo, com Ringo Kid, o herói onde Ford sustenta o nascimento da nação, e assumindo as convicções diametralmente opostas de ambos, sobra-nos a esperança de um e a desilusão de outro. De comum, ambos são produtos da mesma pátria, a América mãe democrática da ilusão e do desencanto, da construção e da destruição inapelável de homens e sonhos, do nascimento à morte. Equação trágica esta a de uma nação que alimenta filhos e, de forma voraz, se alimenta dos irmãos dos filhos como se fossem bastardos. Será este Kurtz/Buda/Brando a América gorda, sem ideal, sem futuro, sem dignidade e sem moral, ou o único a possuir terrível esclarecimento e pragmática lucidez no meio de toda aquela insanidade?

Chef: Eu sou de New Orleans e fui criado para ser um grande saucier! Internamente, na década de 60, a América geria a questão racial, os confrontos étnicos nas grandes cidades, os sucessivos ataques de corda e archote do KKK aos activistas dos direitos humanos no Mississipi. E quando Lyndon Johnson acalentava o sonho das reformas sociais capazes de construir a Grande Sociedade, o confronto armado no Vietname rebentou-lhe nas mãos – a guitarra de Hendrix não sangrava o Star Spangled Banner apenas fora de casa. Longo caminho tiveram de percorrer Ringo e Dallas na diligência da esperança, os Jods na velha camioneta do desencanto, Dennis Hopper e duas gerações dos Fonda nas Harleys ao vento, o Capt. Kilgore nos helicópteros todos poderosos sobre a guerra do absurdo. A cavalaria que dominou o deserto do Arizona com carabinas de repetição, levou um século a conquistar os céus do Vietname com napalm, naquela que foi a maior derrota da história expansionista americana. Do Monument Valley à terra queimada de Saigão. Das raízes à epopeia fracassada da América no Mundo exterior

Willard: Uma parte de mim tinha medo do que iria encontrar e o que iria fazer quando lá chegasse. Eu conhecia os riscos, ou imaginava que os conhecia. Mas o que eu senti com maior intensidade, e se sobrepunha ao medo, foi o desejo de o confrontar. Mas há sempre uma metáfora. A própria América é uma metáfora poderosa de estrelas azul cintilante e listas cor de sangue. Cinco homens num barco subindo o rio Nung em busca da ovelha tresmalhada do rebanho. Neste tempo de matança, quer os perigos inerentes à viagem, quer as deambulações em torno da (ir)racionalidade da operação e da máquina que a sustém, são sinais claros das trevas em vigília e do seu território, físico/material e emocional/espiritual - a selva e o coração, o corpo e a mente. Kilgore (Robert Duvall), é provocação externa às manifestações pacifistas de Washington, o belicismo devastador do Uncle Sam unido por laços de afecto com a Morte com a qual não faz concessões nem prisioneiros. «Chalie don`t surf!» e Wagner são personal statements de patriotismo absolutista e grandiloquência psicopata. No mercy! e estilo, de mãos dadas na vingança de Custer. “Kill” em “gore” operático. Por oposição, Willard é a consciência do Capitão, ou o que resta dela e da sua contrição de pecado. E é a descoberta de si mesmo ao encontrar Kurtz – o rosto da loucura comum – o que transcende a personagem de Willard. Na realidade, ele foi porque o empurraram, porque lhe deram o treino e a prática da caça ao homem, porque se ficasse a única coisa que tinha como adquirida era um lar que já não lhe pertencia na América que perdera, um punho cortado contra o seu próprio fantasma reflectido e... «Saigon... Shit... Im still in Saigon...». Quanto a Kurtz, à sua maneira, foi um David Livingstone green barret que lia T. S. Eliott, o missionário filmado na penumbra que superou a Bíblia pela M-16, destruiu os inimigos pelo culto da guerrilha e difundiu o evangelho da aniquilação como factor imprescindível de sobrevivência, adiantando-se, pelo processo, à História com a qual aprendera que a força mobilizadora que adora a um Deus é tão mais eficaz quanto sangrenta; Willard que lhe foi no encalço, confere-lhe a revelação ao mundo, como Henry Stanley antes dele na busca pessoal de um objecto, o espelho e a metamorfose, o encontro e a resolução, o carrasco e o assassino, na essência, a mesma América unida pelo mesmo destino – a obrigação de matar!

Kurtz: Se eu tivesse dez divisões daqueles homens, os nossos problemas aqui desapareceriam num instante. A abordagem de Coppola ao romance de Conrad, é em muitos aspectos, tremendamente fidedigna e de transcrição, como o retrato do primitivismo nativo no ataque com setas ao barco. O desenlace final, contudo, é proposto de forma estruturalmente diferente pelo cineasta americano. O Marlow de Conrad subiu o rio com a intenção de trazer Kurtz de volta a casa. Tal propósito revelou-se impossível de concretizar e empurrado pela força dos acontecimentos que o ultrapassaram desde o primeiro encontro entre ambos, regressa à «cidade sepulcral» com uma maço de cartas e a fotografia da Prometida. De tudo o que ficou após esse encontro emocional entre Marlow e a rapariga, prevalece a imortalização de Kurtz após a morte, «Por isso permaneci fiel a Kurtz até ao último instante, ou para além dele (...)»; e perante a insistência dela em lhe repetir as suas últimas palavras, Marlow, por instantes breves, domesticou «O horror! O horror!» - as verdadeiras últimas palavras de Kurtz que ainda lhe ecoavam na mente - e fabricou a memória: «- A última palavra que ele disse foi – o seu nome.» Por sua vez Willard, ao contrário de Marlow, subiu o rio com o propósito específico de eliminar Kurtz. Em Apocalypse Now, Coppola subjuga a imortalização de Kurtz ao ritual do sacrifício. A entrega sem resistência aos golpes de machete, a queda digna do soldado às mãos de outro soldado, «Tu não tens o direito de me julgar... Tens o direito de me matar...», dir-lhe-á Kurtz. West Point tombada por terra às mãos de um ex-operacional da CIA. A casa dividida. Abel e Caim. Ou o inimigo interno quando há algo de poder no meu Reino. Missão cumprida para ambos. Dessa forma, a solução encontrada por Coppola para o final do filme... é nenhuma. Quer dizer, o factual é tragicamente harmonioso e, o após, é de múltiplas leituras. A sucessão no trono não tem retorno quando após o abate de Kurtz, Willard lança por terra o machete e é prontamente imitado pelos nativos – os pacifistas de Washington teriam rejubilado!

Willard: Um dia esta guerra vai acabar. E isso vai ser óptimo para estes rapazes do barco. Não procuram nada mais do que um caminho para casa. O problema é que eu estive lá e sei que esse lugar já não existe. Willard, como a América dos veteranos, não será nunca um integrado social, como tão pouco foi soldado de pelotão. Nunca assistimos ao seu regresso ao lar divorciado, mas talvez o encontremos nas canções de Bruce Springsteen sobre os desempregados das fábricas de aço na Pennsylvania ou os homeless de New Jersey. Jamais o reencontraremos na pele de super-herói Rambo na cruzada dos mísseis de Reagan sobre a Líbia, dando voz ao “America Is Back!”; mas talvez voltemos por ele com O Caçador, de Michael Cimmino. Com o testamento de Kurtz numa mão e Lance o surfista na outra, como se conduzisse uma criança a quem mostra um novo rumo após a expiação do Mal, o ecrã fecha-se com a sua partida pelo rio que o trouxe. Para trás fica o fim e o começo da última viagem. São sons surrealistas de sintetizadores metálicos, frios, arrepiantes e desconexos que completam o final da banda sonora no desaparecimento de Willard por entre a chuva e a bruma do rio. O mergulho final nas trevas, sucede à abertura explosiva de verde, azul, luz e chamas com que começou o filme. Quase nos apetece ir em busca, outra vez, da voz de Jim Morrison para atenuar o desconforto na cadeira.

This is the end, beautiful friend. This is the end, my only friend, the end. Of our elaborate plans, the end. Of everything that stands, the end. No safety or surprise, the end. I'll never look into your eyes...again.

23/05/06

Jorge (23 de Maio de 1986 – 2006)


Há vinte anos, o meu irmão Jorge morreu.
Tinha 31 anos. Deixou de usar sabão, comer frango, ir à tarde ao cinema, ensinar desenho e cerâmica, poupar a roupa até ao fio, comprar livros em segunda mão no quiosque da Sereia.
Não sei que lhe diga. Estou vivo. Cito de cor Camilo José Cela: “Do irmão, nem a glória nem a morte.” Não quero saber da glória. Há quem queira. Eu não quero. Sei da morte. É um jogo muito praticado. Quando no-lo fazem jogar, lesiona.
Tenho duas idades: 42 e vinte anos.
A um canto da casa, voluminhos esquecidos de Pierre Loti e de Guy de Maupassant. Bilhetes de cinema, também. Desenhos tipo BD em fragmentos de papel. Cassetes de som roçagado, arenoso. Foram dele.
Herdei dele umas botas que calcei no inverno 1986/87 de Peniche. As calças, muito limpas e coçadas, ficavam-me grandes. Tive de desistir delas como dele.
À esquina da Farmácia Donato, em Coimbra, deixou de aparecer.
Fui logo que pude para Peniche. Ia ver a Nau dos Corvos. Dediquei-me a tempo inteiro à literatura e ao alcoolismo. Escorei a morte dele com essas duas dimensões tão humanas. Não me arrependo: o meu umbigo é irrelevante.
Uma vez, não muito tempo depois de ele ter morrido, encontrei uma das mulheres que o amaram. Ela parecia ter naufragado: toda molhada em plena rua urbana, toda coberta de limos, a roupa rasgada de farpas de madeira náutica. Falámos alguma coisa. O meu corpo (alguns gestos involuntários) poderá ter-lhe acordado a volumetria do corpo dele. As minhas palavras também. Despedimo-nos com o coração para obras de restauro: nunca mais a vi.
Pierre Loti e Guy de Maupassant, que ele não leu, pouco importam.
Tenho dois projectos que me fazem sorrir, pois que me lembram os dele. No meu caso, aprender a tocar acordeão e a falar alemão. Ele tinha projectos destes. O homem é irmão do homem: duas tristezas geminadas pelo sangue e pelo leite.
Nestas duas décadas exactas sem ele, prossegui o escândalo de sobreviver. Fiz duas filhas e dois livros: não é mau. As filhas são muito boas e muito honestas; os livros são honestos e esquecíveis. Já não me lembro dele todos os dias. A dor, ela própria, anestesia-se. Mantenho a minha estratégia: leio e escrevo, escrevo e leio. Quando levanto a cabeça, sucede que uma inclinação da luz mo recupera, a ele: as botas bem ensebadas, a ganga coçada e limpa, o bigode viril, a boca comedora de mulheres e frangos.
Na fotografia da sala da nossa mãe, o olhar continua-lhe apreensivo. Não sei se foi tirada antes ou depois da ida a Veneza.
Nunca fui a Veneza. Talvez nunca vá. Isso não tem importância. Uma pessoa perde importância: com os anos, com a morte de um irmão.
À sombra do desastre irreparável da morte do Jorge, pratiquei amores eróticos sem entrega: como se fodesse vestido. Depois, abandonava essas camas frias e ia beber.
Sucederam-se-me cidades também irreparáveis: Peniche, Coimbra, Figueira da Foz, Leiria, Aveiro, Marinha Grande, Pombal, Viseu, Porto, Lisboa, Praia, Bruxelas. E mil aldeias e vilas mais, onde matriculei a insensatez hepática da minha língua portuguesa.
Não posso cobrar-lhe isso. Sou hoje bem mais idoso que ele. Sei mais coisas que ele: internet, cinema, clarinete, literatura espanhola, whisky irlandês.
Uma vez, lá na infância, um rapaz da minha rua puxou-me o cabelo. Magoou-me muito. O rapaz era mais velho do que eu. Chamava-se Guilherme. Já morreu, também. Desatei a chorar. O Jorge estava em casa. Perguntou-me. Eu disse-lhe. Ele saiu de casa. O Guilherme estava na rua. O Jorge abrasou-o com duas lambadas sonoras. Senti-me protegido para o resto da vida. Não estava.
Fui ao velório do Guilherme, tantos anos depois, numa noite de há quinze anos. Era um cadáver bonito: um busto francês. Desatei a chorar outra vez. Escrevi sobre ele uma crónica, publicada depois num jornal da cidade. Não adiantou: o Guilherme não regressaria.
A filha do Jorge está viva. É muito alta e muito formosa. Estuda, joga voleibol. Imagino que lhe repita determinada luz, certa sombra, um jeito de repor os ombros à largueza do tronco. O lábio de baixo, nutrido e sensual, acamará frases lentas, como as dele.
Acontece-me voltar à cidade natal e passar ao número 210 da última das ruas dele. A rua tem nome de suicida: Antero de Quental, o santo de Eça. Destruíram o Teatro Avenida. Digo-vos que visitei com ele os camarins desse teatro-cine. Foi há muitos anos. Tinham guardado lá os despojos de uma escola secundária. Lembro-me sobretudo dos répteis conservados em frascos.
A churrascaria onde comemos frango está viva. Situei nela um dos textos de Noite de Homens-Cantores, aquele que tem o cantor Art Garfunkel.
Um homem sobrevive. Eu faço isso. Faço como toda a gente: o dia amanhece, entardece e anoitece. Vinte anos disto.
Tenho lido umas coisas e bebido outras. Ele não voltará a Veneza, mas eu voltarei a Peniche. Tenho outras botas. Aprender acordeão não é, como o Jorge é, nada do outro mundo.

Caramulo, manhã exacta de 23 de Maio de 2006

Sushi, Sashimi, Tempura & Wasabi, por Kzar

Então agora nessa parvónia conimbricense um cidadão já pode alambazar-se num bar de sushi? A coisa vai-se compondo...

Tenho todavia a dizer a Vexas que muito melhor do que ir morfar makimonos mal amanhados numa tasca ordinária é aprender a fazer a coisa bem feita.

Em casa é muito melhor, posto que se disponha dos ingredientes, e isso é que duvido que se possa localizar na cidade do Mondego.

Segue um programa:
1) Tempura (pimentos verdes, vermelhos e amarelos e feijão verde);
3) Sashimi de salmão e de cavala
4) Bolinhos moldados à mão com cobertura de a) camarão b) robalo c) salmão) d) atum (na falta do dificílimo Rabilo, a que nunca deitei o dente fora de casas da especialidade, o Patudo vale muito bem...);
5) Rolinhos de ovo e pimento amarelo;
6) Rolinhos de salmão e pepino;
7) Rolinhos de cavala;
8) Rolinhos de ovo com cobertura de ovas de salmão;

Notas:
Ingredientes de rigorosíssima frescura são essenciais - o peixe há-de ser do dia, mas do dia mesmo. Bom, o salmão e o atum consentem tergiversações com a frescura sem vir daí desgraça, mas no caso da cavala não há a menor hipótese.

No que respeita ao atum e ao salmão, deve atribuir-se preferência à carne da barriga - raiada de gordura esbranquiçada (marmoreada) no caso do salmão. Já no que respeita ao robalo, aconselha-se vivamente que seja fatiado no sentido longitudinal, sendo melhores os pedaços mais próximos da espinha. Finalmente, quanto à cavala, não há que hesitar: escolhê-las com tamanho mediano e dar preferência aos lombos, sendo o melhor o mais próximo da cabeça. É importantíssimo reparar que o bicho possui uma fina película que imperativamente cabe remover, sem com ela levar a pigmentação que lhe subjaz.

Quanto ao camarão, coze-se com um palito introduzido ao longo do plano inferior, desde a inserção da cabeça e até à cauda. Fá-lo ficar direito e, depois de descascado (mantendo-se a cauda, que é apenas aparada), abre-se com uma faca ao longo do ventre, longitudinalmente, fazendo-o ficar com a forma de um pequeno bacalhau. O nori deve ser aberto no dia (o mais escuro é o melhor) e se necessário tostado previamente.

É essencial empregar arroz japonês (de bago curto e relativamente gordo) e aromatizá-lo com uma folha de kombu durante a cozedura. O vinagre tem que ser de arroz (proscrevam-se substitutos de ocasião, como o de cidra, que lixa tudo).

Nunca, mas nunca, usar wasabi de tubinhos (argh). Na falta dele fresco, o melhor é em pó (vem numas latinhas, é só juntar água, e prepara-se a quantidade que vai ser usada).
Gengibre de conserva, rosadinho, é da marca Blue Dragon (a sério, não é só por eu ser do FCPorto!).

Primeiro faz-se o sushi, que é o que se come no fim. Depois prepara-se o sashimi e o que se faz por último é o que se come primeiro, imediatamente após a confecção: o tempura. Tirando esta regra do tempura, imposta por razões óbvias, nada impede que se vá cruzando o sushi e o sashimi, embora concorde que se vá dos peixes menos gordos para os mais gordos, dizia.

Estes cruzamentos reclamam um uso inteligente do gengibre e do wasabi, que vão preparando o paladar - pessoalmente, gosto de plantar uns rabanetes nas travessas. A acompanhar, os puristas reclamam chá verde à temperatura ambiente e sakê (quente ou frio), mas eu quero que os puristas se fodam, e vai daí sirva-se um branco muito seco, de excelente qualidade, fresquinho, ou melhor ainda um bom espumante (bruto, tá claro!), quase gelado, ou mesmo as duas coisas, tudo sem dispensar uns golinhos de sakê.

Morfar é de pauzinhos, à mão, com o caralho, como o mastigante preferir desde que não meta nojo aos convivas - mas sim, os pedaços marcham inteiros, que é para isso que se fazem com dimensão adequada, aquela merda não é nenhum pastel!

Todos os ingredientes estão disponíveis em supermercado decente, sendo o melhor o do Corte Inglès - no caso das ovas de salmão é requerida deslocação ao Clube do Gourmet, havendo-as ali da marca Amaliona (é mesmo assim!), um prodígio de relação qualidade/preço.

Fora uma faca afiadíssima (imprescindível), as alfaias necessárias são exíguas e simples: a esteira de bambu pode substituir-se (e com vantagem, digo eu) por um pano de algodão de espessura média e bem passado a ferro. Para sushi prensado, uma caixinha de pinho com dois tampos amovíveis e de 25 X 7 X 5 cm.

Nunca esquecer:
a caixa é previamente embebida em água com vinagre de arroz, na mesma solução se limpando a faca quando do corte dos rolos (a fazer antes de servir). O arroz, depois de cozido (330 gr. de arroz com 350 ml de água, tacho sempre tapado, folha de kombu lá dentro e lume brando) tem de arrefecer, coloca-se solto em taça e envolve-se progressivamente com a mistura seguinte:

oito colheres de sopa de vinagre de arroz, três colheres de chá de sal e duas colheres de café de açúcar, tudo diluído em lume muito fraco, sem deixar ferver. Depois de descansar um pouco, então, e só então, pode trabalhar-se o arroz. Para os bolinhos moldados à mão, vai-se molhando o membro em água avinagrada, para não peganhar tudo e os bolos ficarem soltos (a mão deve apertar com firmeza).

Quem é amigo, quem é?

22/05/06

Sushi-Boys, por Kamikaze

Aqui no Porco somos animais de rotinas. Agora aos sábados ao fim da tarde acabamos sempre na esplanada do novo Fórum de Coimbra. Aquilo tem uma vista espectacular sobre a cidade.

Normalmente, passamos a toda a velocidade pelas corredores para evitarmos encontros inconvenientes com os chatos do costume, enfiamo-nos na Fnac onde treinamos o consumismo ascético durante cerca de meia hora e vamos rapidamente para o piso da restauração. Aí chegados, dividimo-nos. O Zebu lá vai às carnes dele. Eu e o Dinis Maria vamos buscar sushi.

Houve um ministro japonês que disse um dia que o sushi fez mais pelo Japão que décadas e décadas de campanhas publicitárias. Compreende-se porquê. O sushi é mais que uma simples iguaria à base de arroz envinagrado e peixe cru. Aprende-se a apreciá-lo, não se vai lá à primeira e, depois, é como tudo, há do muito bom e do muito mau.

Para ser comido como deve ser é preciso respeitar um conjunto de regras de etiqueta que transformam o momento num verdadeiro ritual. Começa pelos pauzinhos. Um gajo tem que aprender a dominá-los, não faz sentido comer uma coisa tão delicada como o sushi de faca e garfo. Lembro-me uma vez de entrar num restaurante japonês em Paris e pedir faca e garfo. Trouxeram-mos mas perdi imediatamente o respeito daquela gente….

E logo aí uma pessoa pensa que isto é sério: sim, se agora vou passar a comer de pauzinhos, é porque a minha vida não vai mais ser a mesma. Aconselho quem não domina a arte – como eu – a trazer um par daqueles coisos para casa e praticar, praticar muito… Ao princípio a família protesta. Depois acaba por se habituar.

Outra coisa importante é a ordem pela qual se come. Ao contrário do que estamos habituados na nossa cultura gastronómica, o sushi não deve ser misturado. Se comemos primeiro um peixe de carne branca, a seguir um de tom vermelho e voltamos ao branco, estragamos tudo. O vermelho anula o branco. O truque é comê-los na ordem ascendente, primeiro os mais brancos e os vermelhos depois.

Também há que ter cuidado com o molho de soja. Sushi seco é do pior, mas afogado em molho de soja perde toda a riqueza do seu paladar. Deve molhar-se o sushi no molho de soja, mas só um pouquinho, numa das extremidades e depois levar tudo à boca.Os especialistas dizem que não se deve parti-o mas eu confesso que acho isso muito difícil porque alguns bocados são demasiado grandes.

Um pouco de wasabi também vai bem, mas é essencial, mais uma vez, não exagerar. Não se pode deixar cair o sushi dentro do molho de soja. Para lá de inestético, fica uma mistura anti-japonesa, com tudo a saber ao mesmo: soja. Claro que, numa fase inicial, isto é quase impossível, mas com o tempo um gajo chega lá. Aconselha-se o iniciado, numa primeira fase, a molhar o sushi à mão (não esqueçamos que inicialmente o sushi comia-se à mão). É perfeitamente admissível segundo a etiqueta japonesa e não estraga a delicadeza do ritual.

Finalmente não convém confundir o sushi (servido por norma em rolinhos de arroz envinagrado) com o sashimi. O sashimi segundo a wikipedia «é uma iguaria da culinária do Japão primariamente consistindo de frutos do mar muito frescos, fatiados em fatias finas e servidos com apenas um molho de mergulhar (como molho de soja com wasabi, ou molho ponzu), e um simples acompanhamento como shiso e daikon ralado».

Num jantar formal japonês o sashimi é servido antes do sushi. É geralmente associado ao peixe cru. Há vários tipos de sashimi mas o Ikezukuri merece uma referência. Trata-se de um tipo que requer um peixe ou um crustáceo vivos. Nalguns restaurantes os desgraçados dos peixes são mantidos vivinhos da silva num tanque e escolhidos pelo cliente. A carne é removida de um lado da espinha do peixe, que é cortado em fatias finas, e arranjado ainda vivo. O peixe é depois colocado no prato do cliente segundo a ordem pela qual foi cortado. Claro que esta é uma prática cruel que foi, pura e simplesmente, proibida em alguns países como a Alemanha (os alemães são grandes apreciadores de sushi) ou a Austrália. Os peixes agradecem.
Por enquanto, no Fórum de Coimbra, ainda não abriu nenhum restaurante de sashimi. Resta-nos esperar.

Ah é verdade, para os que são absolutamente ignorantes da arte do sushi, convém dizer que aqueles pacotinhos com umas letras japonesas têm dentro uma pasta verde picante que se chama wasabi. Não são nem toalhetes nem nenhum gel especial japonês para limpar as mãos! Ouviste Vermeer?, tou a falar contigo. Os gajos estavam a gozar-te, Hulk do caraças…

20/05/06

A Epopeia Americana, parte 4ª: «Easy Rider» ou a Fuga do Paraíso. Por Dinis Maria

A Mãe Joad tinha razão. A América sobreviveu à Grande Depressão. Foram muitas as agruras, mas o caminho esperançoso conduziu à prosperidade. A partir dos anos 50, a América viveu o maior período de prosperidade e optimismo da sua história. Era a concretização do sonho dos pioneiros. Foi o tempo da alegria e da abundância. As famílias eram felizes. Compravam carros enormes, cromados, e viajavam pelas grandes paisagens da América, visitavam o Grand Canyon e o Parque de Yellowstone. Compravam aparelhos de TV, bebiam refrigerantes. As meninas namoram, ouvem os ritmos novos e juntam-se todos no Dia de Acção de Graças. Comemoram a independência, cumprem as suas obrigações religiosas, penteiam-se muito bem, estudam e trabalham. A América está feliz. Vejam as pinturas de Norman Rockwell (1894-1978), o pintor que, dos pioneiros a Nixon, melhor retratou a América real, e reparem como a América vulgar está feliz. Virão depois os tempos da rebeldia e da insatisfação, dos rebeldes sem causa e do inconformismo. Dean, Brando, Elvis. A geração que passou as dificuldades dos anos 30 e 40 declara-se incapaz de entender os excessos, a sensualidade e a revolta que, no entanto, está apenas a começar.

Em 1969, Dennis Hopper retoma a narrativa de John Ford, no célebre filme de culto que ele protagoniza e realiza, «Easy Rider». A cooperação entre géneros artísticos já não se faz agora entre um romance e um filme mas, sinal dos tempos, entre a celulóide e a banda sonora. Apesar de a gesta dos Joads ter inspirado Woody Guthrie, o jogral da América autêntica, e o «Easy Rider» se poder confrontar com o livro de Kerouac, o filme de Hopper compila uma série de sucessos que se tornaram símbolos de uma geração: The Byrds, The Band, Jimi Hendrix e Bob Dylan ente outros, mas, acima de todos, os Steppenwolf com o hino «Born to be Wilde». Não por acaso, juro eu, mas com uma pontaria certeira, Hopper protagoniza o filme com Peter Fonda. Quase que diria que esta história exigia o filho de Henry Fonda. A personagem outrora representada por Henry Fonda, Tom Joad, desaparece no filme de 1940 com um discurso grandiloquente e reaparece agora na estrada encarnado no filho que se tornaria símbolo de uma geração com o seu blusão de cabedal negro, com a bandeira da América pintada nas costas, no capacete e no depósito da sua Harley Davidson e com um nome simbólico, que remete para as origens: Wyatt. É o Capitão América, a América recuperada da depressão e da guerra. Após o New Deal e a Guerra Mundial, temos a América dos Babby Boomers. A epopeia americana prossegue com Peter Fonda, o símbolo da Grande Depressão superada e da prosperidade dos anos 60. Os Joads, isto é, a América, sobreviveram a todas as provações, apesar daquele nado-morto. Instalaram-se na Califórnia e aí prosperaram. É agora da Califórnia, de L.A., que Peter Fonda protagoniza, com Dennis Hopper, uma nova viagem épica que ajudará a definir a identidade da América.

Num brilhante ensaio publicado recentemente, Georges Steiner defende que a Europa se fez na distância percorrida a pé. Se a Europa adquiriu noção da sua identidade geográfica na peregrinação pedestre, a América fez-se a cavalo, como John Ford tão bem filmou nas suas películas. A conquista do Oeste fez do Cowboy um herói com dimensão épica nas epopeias filmadas de Ford. Por sua vez, os Joads, pela rota da 66, fizeram o caminho sob o signo do automóvel. No «Easy Rider» serão as míticas choppers que atravessam os grandes open spaces da viagem. As silhuetas em contraluz, à bela maneira de John Ford, e os vastos horizontes em ocasos de cores vibrantes, anunciam o final psicadélico sob o estímulo dos alucinogénios. A distância vence-se ao volante das Harleys cromadas, assim se faz a viagem e constrói o espaço. Já não a cavalo. Wyatt e Billy são os modernos heróis, tal como os nomes reclamam a continuidade com os míticos heróis das origens. O paralelismo é explícito quando numa das cenas do filme o realizador coloca em simultâneo os dois motards a remendarem um pneu da Harley enquanto, no primeiro plano, um velho cowboy, descendente desses pioneiros do Oeste, católico e hispânico, ferra o seu cavalo. Fonda e Hopper não têm família, aquela família hispânica cheia de filhos seriam os Joads, se nunca tivessem sido forçados ao abandono da terra mãe.

Os dois motards não buscam a terra prometida nem as riquezas da Califórnia. Não, eles saem da Califórnia, de Los Angeles, depois de angariarem o dinheiro suficiente para a viagem. Não são pobres, não têm uma relação existencial com a terra. Vivem do dinheiro que ganharam a traficar droga. Fonda lança ao chão o relógio de pulso, num gesto de libertação perante as obrigações de um quotidiano que lhe desagrada e parte em viagem. O gesto recorda, pelo contraste, quando os comandados do capitão Nathan Brittles (John Wayne) lhe oferecem no dia em que se reforma no filme de Ford «She Wore a Yellow Ribbon» (1949) um relógio de prata que ele nunca abandona. Wayne continuará ao serviço da Cavalaria Americana após a reforma, guardando o seu relógio.

Fonda e Hopper, pelo contrário, retiram-se antecipadamente. Fazem a rota pelo caminho inverso dos pioneiros e dos Joads, do Oeste para New Orleans, com planos e paisagens do Novo México a lembrar as fotografias de Robert Frank. É a América profunda. Encontram-na nas paisagens, na estrada sem fim, nas pequenas cidades perdidas no interior americano, no provincianismo, na violência absurda das comunidades rurais. Encontram uma comunidade hippie, onde se torna inevitável o confronto, mais uma vez, com os acampamentos dos Joads. No filme de Ford, o acampamaneto do governo, com água canalizada e louças sanitárias, é uma espécie de comunidade auto-suficiente, patrocinada pelo governo federal e administrada comunitariamente. É um manifesto político que se deve opor, como alternativa, ao liberalismo selvático, à prepotência dos proprietários agrícolas que se aproveitam da miséria causada pela Grande Depressão para oferecerem salários de miséria. Apesar de este manifesto ter foros de utopia política, no filme de Hopper o acampamento hippie, anarquista, onde não há autoridade, há apenas amor livre, droga abundante e trabalho improdutivo. Os dois amigos decidem pois prosseguir caminho, após um banho em que a nudez, ainda que não exibida, contrasta com o banho dos Joads nas águas do Colorado. É inevitável: o banho de Fonda lembra Woodstock, o dos Joads recorda Mark Twain. Pelo caminho, voltando a Hopper e Fonda, vão ter à prisão, aí encontrando um advogado, George Hanson, num papel desempenhado pelo jovem Jack Nicholson. Hanson, filho de uma proeminente família de uma provinciana cidadezinha, liberta-se do alcoolismo e da opressão social ao embarcar na aventura. São agora três amigos. Pelo caminho, Hanson inicia-se no consumo de droga e acabará, tal como o pastor Casey no «Vinhas da Ira», morto à paulada por uma milícia de camponeses locais que vê com maus olhos a chegada destes forasteiros. É um prenúncio do que acontecerá aos dois motards, mas não é um martírio. Já que, no filme de Ford, a morte de Casey desperta a consciência salvífica de Tom Joad, e Casey pode ser entendido como um mártir pois a sua morte tem consequência histórica. No filme de Hopper não, aqui a morte do advogado é uma simples morte bárbara que preanuncia destino idêntico para as outras personagens.
Chegam finalmente ao fim da viagem. Não o paraíso redentor, nem a Califórnia dos laranjais abundantes, mas a New Orleans do vício, do Mardis Gras, do excesso carnavalesco. A cidade do álcool, do jazz, da prostituição e do jogo. Instalam-se num bordel, contratando os serviços de duas prostitutas O bordel é o novo paraíso alcançado no termo da viagem, com os tectos pintados com cenas religiosas numa blasfémia que parece perturbar Wyatt que prefere a rua para celebrar a chegada. Deambulam depois pela noite do Mardi Gras, numa experiência psicadélica causada pelo consumo de LSD. A viagem é alucinante, já não há epopeia, não há caminho, nem 66. “We blew it” declara Peter Fonda. Na verdade, não houve redenção. Este «we blew it» contrasta amargamente com o discurso esperançoso de Henry Fonda do filme de Ford. Resta o regresso, ou a deambulação. Mas o regresso é tornado impossível quando uma velha carrinha, saída dos anos da grande depressão, com dois rednecks ao volante, como que saídos do filme de Ford, se atravessam ao caminho dos dois amigos. Um dos rednecks, podiam ser oakies, dispara um tiro, bárbaro, gratuito, causando a morte de Hopper. Fonda vai em busca de auxílio. É atingido também. A Harley voa pelos ares, como um anjo fulminado. Acabou-se a viagem. A câmara sobe, mostra a estrada com o rio ao lado. Não há mais epopeias. Não há viagem, nem regresso. A América perdeu a inocência do Flower Power. Estamos em 1969. Luther King e Bob Kennedy foram assassinados no ano anterior. Hendrix toca nesse ano no mítico Woodstock. Morre no ano seguinte. Recrudesce o conflito do Vietname. Jim Morrison choca a América, canta «The End»: Father / Yes son? / I want to kill you / Mother, I want to fuck you» Pobre Mãe Joad… É o tempo da indignação, do regresso à moralidae que fez a América grande. É o tempo de Richard Nixon e da reacção moralista. É o tempo de todas as hipocrisias. É o tempo da América cínica. Esta nova fase da história da América terá também ela a sua epopeia, contada para uma guerra sem propósito: o Vietnam. Será a viagem ao reino do horror e do absurdo, protagonizada por Marlon Brando, o louco Kurtz, na mais fantástica viagem da história do cinema, filmada por Francis F. Coppola no Apocalypse Now. Assunto para o Mangas.

19/05/06

O Ornitorrinco, por Automotora

Eu tive um sonho. Sonhei que os porcos eram um só. Misturados e fundidos num penico-vomitório. O Porco. Enfim, um ornitorrinco. Chamava-se adérito, era careca e gordo, de biceps salientes e belo com um apolo à custa de paelha diária regada com esfoliante; exímio no golfe e no matraquilho, assim poupando nas bolas. Durante o dia a emprestar dinheiro a juros e pela noite fora a insultar o capital e a pedir emprestado aos arrumadores, a quem adorava contrariar, sobre tudo e sobretudo sobre nada. Sempre de fato, gravata engomada e um cachecol que não lhe largava o pescoço desde tenra idade, indumentária com que se apresentava ao almoço, no fim do qual insultava o empregado de mesa porque os bagos de arroz, ainda por cima com cara de charrocos, insistiam em contar-lhe anedotas sem graça. Findo o almoço, por ali ficava a beber coca-cola, mergulhando o nariz no copo de cinco em cinco minutos e tomando apontamentos. Até ao jantar. Durante o jantar chamava o cozinheiro para lhe pedir desculpa porque sem querer tinha entalado nos dentes uma pobre lula moribunda. Devotadamente levava-a para casa e casava com ela. Aos domingos, ia com ela dançar tango, dizendo-lhe ao ouvido, ai cariño, que es una lulita muy guapa. Finalmente, completamente apavorado, consegui beliscar-me e acordei.

18/05/06

Jornalismo, isto? por Valhamedeus

O nacional-parolismo não cessa de surpreender. Agora, atingiu novos cumes esquizofrénicos: o Barça, ontem, sagrou-se pela 2ª vez na história campeão europeu. Um grande jogo, com grandes exibições e muita emoção. os jornais portugueses: A BOLA: 1ª página a toda a largura com a eventual vinda de Eriksson para o SLB. RECORD: 1ª página com o balneário (sic!) a dizer que quer o Rui Costa no SLB aos 34 anos!! O JOGO especula com o novo treinador do SLB. Num cantinho, metem uma chamada discreta: Deco (sic. Meu Deus, não é o Barça, não é Ronaldinho, é o discretíssimo Deco) campeão pela 2ª vez! Não há vergonha nos jornais? Não há limites? Qualquer burro pode fazer 1ªs páginas?

17/05/06

Morra o jacarandá, morra, pim!, por Adérito

Ai, cum catano! Como eu detesto jacarandás! Olhó jacarandá, tão lindo e tal… viesse mas é um furacão que levasse os jacarandás pra piratininga! Um dia pego numa moto-serra e corto-os rentinhos! Ai corto! Mas devagarinho, devagarinho… Ai que lindo jacarandá e não sei quê… O jacarandá é o dantas da botânica! O jacarandá é o quim barreiros da natureza! O jacarandá, se tivesse vergonha na cara, cobria-se com um pano preto até à raiz! Cidadãos, olhai que lindos são os jacarandás! Ide, ide a eles e cortai-lhes os raminhos e levai para casa e ponde num jarrinho. Mas na varanda não, que se estragam com o sol! E a chuva e o tempo assim assim, também não lhe fazem bem, coitados. E a lenhinha do jacarandá é boa para arder na lareira, é pois. E eles gostam de arder, até chiam. Vá lá, já fizeram hoje a vossa boa acção? Não? Já? De qualquer maneira, façam lá favor de cortar um jacarandá. Ou dois. Então?

Jacarandás de Coimbra, por Pretória

Hoje e após acompanhamento quase diário, verifiquei que o Jacarandá da Solum já floriu em dois ou três ramos. Todos os anos por esta altura de meados a final de Maio, este Jacarandá é sempre o primeiro a florir cá em Coimbra. Depois deste, incandescia o Jacarandá da Mondorel. Incandescia, porque já o não fará mais. A construção da avenida de acesso ao Fórum Coimbra limpou o sebo ao maior e mais bonito Jacarandá de Coimbra, que quando em plena floração variava - conforme a luz do dia -, de um mar de azul intenso a uma bola de fogo de roxo incendiário. Paciência, perdeu-se um Jacarandá, ganhou-se uma Fnac, e nestas coisas não se pode ter tudo. Pena é que nas novas árvores, a Câmara não aposte em Jacarandás e teime nos insossos e asmáticos Plátanos, com uma pitada de Albizzias quando lhe dá para o tropical.

Depois e pela velha ordem, florirá em pleno “azul estonteante” o Jacarandá do Trianon de Celas, a que se segue o do Penedo da Meditação e por último a velha guarda da rua lateral da Sereia, que hoje, de tão velhos, apenas apresentarão uma pequena amostra daquilo que noutro tempo era um mar imenso de azul intenso.

O velho Jacarandá do Botânico fechará então o ciclo de floração destes gigantes tropicais, que alegram a vista e demarcam para mim, a transição de ano. Mais do que o oficial ano novo, infelizmente colado à pessegada do natal, a floração primaveril dos Jacarandás marca o advento de uma nova cor, novo calor, nova luz e nova vida.

Coimbra, infelizmente e fora dos magníficos exemplares que mencionei, não tem muitos mais Jacarandás, ao invés de Lisboa que nesta altura se transforma numa quase Sevilla, cidade-raínha desse “azul estonteante”. Não passem distraídos, olhem à vossa volta e vejam com olhos de ver os Jacarandás.

15/05/06

Os meus 23, por Toni

Faltam 15 minutos para sair a lista dos convocados de Scolari para o mundial de futebol. Neste momento há apenas dois nomes em dúvida nesta lista: o do defesa central (Tonel, Nunes ou Ricardo Costa) e o de guarda-redes (Bruno Vale ou Paulo Santos). Espero que os escolhidos para estes lugares sejam o Bruno Vale o Nunes. O Bruno Vale foi apenas o melhor guarda-redes do campeonato e, neste momento, talvez seja mesmo melhor que o próprio Baía. O Nunes é um central possante de quase dois metros, um especialista na marcação. Creio que a selecção precisa de um jogador assim, atlético e eficiente. Artistas já temos, felizmente, mas falta quem faça de carraça. A seguir ao Jorge Andrade o Nunes é melhor jogador português neste particular. Por mim tava lá.

Parece que o Scolari vai convocar o Ricardo Costa, o que é um disparate enorme. O Costa nem sequer é o quarto, nem o quinto melhor central português disponível. Além dos três que já citei, ainda há o Ricardo Rocha e o Pedro Emanuel, qualquer um bem melhor que o Ricardo Rocha. Parece-me que ele só irá, se for, para não se dar o escândalo de não haver nenhum jogador do Porto na selecção. Mas pra isso mais valia levar o Emanuel…

Quanto aos restantes jogadores, a maior polémica é com o Quaresma. Por mim, fica de fora e fica bem. É verdade que o «cigano» é um grande jogador, um artista da bola. Mas acontece que o lugar em que Portugal está melhor servido é nos extremos: Figo, Ronaldo, Simão, todos indiscutíveis e, ainda, Boa Morte. Entre Quaresma e Boa Morte, eu prefiro Boa Morte. É mais eficaz, aparece nos jogos grandes, ao contrário de Quaresma e é polivalente, sendo uma alternativa óptima para lateral esquerdo. Para além do mais, é o único canhoto ofensivo da selecção. Portanto, se o Quaresma jogasse em qualquer dos 10 outros lugares, não tenho dúvida, devia ir. Mas, azar do caraças, joga nas alas. Vai ter que aguardar a retirada de Figo.

Quanto a mim há outros casos bem mais discutíveis: um é o Hugo Viana, um suplentíssimo do Valência. Teria sido mais razoável ter chateado o Rui Costa como alternativa a Deco. Mas admitindo que essa seria uma solução idealista, pessoalmente, preferia o Manel Fernandes ou o João Moutinho. O Viana é ridículo. No limite até acho que o Quaresma podia entrar aqui, não no lugar do Boa Morte mas do Viana. Em caso de substituição do Deco, creio que o Ronaldo, o Figo ou o Nuno Gomes podiam fazer perfeitamente de médios ofensivos…

O outro caso, do meu ponto de vista, é a ausência do João Tomás. É alto, rápido e eficaz. Não creio que o Postiga esteja melhor, mas lá está, era mais lógico ficar o Viana e ir o Tomás. Ou o Quaresma. Tenho a certeza que em caso de desespero, se fosse preciso um futebol directo, mais virado para a área, o Tomás ainda entrava nos minutos finais. Enquanto que o Viana é pra andar a passear no meio campo. E pronto, não falo do Baía que também devia lá estar, mas há já muito tempo e, até, quiçá, a titular.
Os meus 23 seriam:

Ricardo (SP), Baía (FCP) e Bruno Vale (FCP); Miguel (V), Paulo Ferreira (CH), Carvalho (Ch), Nunes (M), Meira (ST), Caneira (sp), Valente (Ev); Figo (I), Ronaldo (MU), Simão (Ben), Boa Morte (F), Maniche (Ch), Tiago (L), Costinha, Petit (Ben), Deco (Bar), Rui Costa (M), Nuno Gomes (B), Pauleta (PSG) e Tomás (Br).

No caso de não se conseguir levar Rui Costa, então sim, ia o Quaresma…

14/05/06

A Epopeia Americana - Parte 3ª: «As Vinhas da Ira», de John Ford. Por Henry Bond

Depois d’ A Cavalgada Heróica (1939) e após a realização de uns filmes menores, John Ford adaptará em 1940 o romance de John Steinbeck, As Vinhas da Ira, convidando Henry Fonda para o protagonizar. Fonda, sendo juntamente com Wayne um dos preferidos de Ford, não deixa de ser o contraponto do herói épico americano, estatuto que Wayne assumiria a partir d' A Cavalgada Heróica. Mas, também do ponto de vista ideológico, o conservadorismo de Wayne se pode contrapor às preocupações sociais e ao intervencionismo político de Henry Fonda. Por estas razões, quando Ford adapta a obra de Steinbeck, Wayne está naturalmente fora de questão. Henry Fonda é a escolha acertadíssima, depois de no ano anterior ter desempenhado o papel de Abraham Lincoln (bíblico e épico nome este para um fundador da América) num filme realizado também por John Ford.

A família Joad busca os laranjais da Califórnia no épico de John Steinbeck, de claras ressonâncias bíblicas. Os Joads são um clã, à maneira das tribos de Israel, vivem na terra, possuem uma identidade construída sobre a ideia de territorialidade. Estamos nos anos da Grande Depressão, os bulldozers, ao serviço das grandes companhias financeiras, executam as hipotecas e tomam conta da terra. Desfaz-se a relação telúrica, vital, entre o homem e a terra, o que causa a tragédia maior: o abandono da casa e o desagregamento da família. A razão do abandono é forçada. Não se trata de um imperativo ético, ou de um esforço de conquista. Não é um resgate por razão de honra, nem uma cavalgada heróica. Fonda não é Ulisses nem Ringo Kid. N' As Vinhas da Ira o abandono da terra resulta de uma situação de necessidade extrema. O clã Joad é expulso do Oaklahoma, como tantos outros – oakies –, olhados com desprezo e desconfiança por onde quer que passem, como miseráveis sem terra e sem futuro, despojados do seu passado, com a identidade perdida. O pai Joad não assume o papel abraâmico de patriarca que lhe competiria. Essa função é desempenhada pela mãe. A mãe é uma fantástica personagem que lembra Brecht ou Gorki, o que fará Steinbeck um dos alvos do McCartismo. Steinbeck logra nesta personagem uma admirável síntese entre o paganismo primitivo matriarcal e pré-bíblico, a evocação de um poderoso símbolo de referências comunistas e o marianismo cristão. Para lá da ideologia e da fé, para além até da blasfémia e da política, a Mãe Joad cuida da família, alimenta-a e mantém-na unida, protege-a e compreende-a. Ainda que Rose of Sharon, a filha, esteja grávida e a redenção pelo nascimento anunciador de um tempo novo na Califórnia da abundância se adivinhe desde o início na protecção que a Mãe Joad constantemente lhe reserva, a verdade é que o final desilude completamente essa promessa messiânica. Não é um Nascimento que salvará os Joads, pois do ventre de Rose brotará um nado-morto. Um cadáver na Califórnia da desilusão, a família desagregada pela morte, pela deserção e pelo desespero. Sem casa e sem carro. Os Joads, desesperados e destroçados são uma metáfora cruel de uma civilização ameaçada. A América, depois de conquistado o Oeste, depois de se afirmar com Estado, confronta-se agora com a maior crise da sua História. Se Ford deu à América o seu herói épico, John Wayne, dar-lhe-á agora, o seu reverso necessário, Henry Fonda no papel de Tom Joad. De facto, é a este que caberá a missão redentora. Ford já mostrara, na Cavalgada Heróica, que a redenção não é messiânica. A criança que nasce durante a viagem através de Monument Valley é uma menina, um anti-messias portanto. Símbolo prospectivo é certo, mas sem qualquer valor salvífico. Agora, n’ As Vinhas da Ira, Tom, apesar de homicida, conserva a integridade moral, como é próprio das personagens de Ford. Como a prostituta, o Ringo Kid, o jogador ou o médico bêbedo. Tom, contrariamente a Ringo Kid que logo se assumiu como centro da narrativa, permanece num registo secundário mas que se adivinha de importância fundamental e eminente numa tensão narrativa que se desenvolverá até ao célebre monólogo que antecede a sua despedida. Tom é o portador da via da redenção. Pela revolta, pela ânsia de justiça, pela sublevação.

No filme de Ford, Tom vinga a morte à paulada de Jim Casey, um antigo pastor desencantado que retoma a esperança quando se envolve na defesa dos trabalhadores braçais. Casey é um profeta da justiça social, o seu novo múnus é político, depois de desiludido com a função pastoral. A sua morte é vingada biblicamente por Tom Joad que mata à paulada o assassino de Casey. Olho por olho. Mas o crime de Tom não lhe fere a dignidade, pois não se move por vingança. É justo, mata em nome de um ideal e o crime adquire legitimidade moral. Tom tem que fugir. Separa-se da mãe Joad num parto doloroso e de um simbolismo poderosíssimo. A Mãe oferece o filho à missão redentora. Este momento, em que Tom finalmente assume o protagonismo adivinhado desde o início e se descobre na sua missão redentora é, no filme de Ford, o momento chave em que Fonda profere as palavras épicas: “I'll be ever'where - wherever you look. Wherever there's a fight so hungry people can eat, I'll be there. Wherever there's a cop beatin' up a guy, I'll be there. I'll be in the way guys yell when they're mad - an' I'll be in the way kids laugh when they're hungry an' they know supper's ready. An' when our people eat the stuff they raise, an' live in the houses they build, why, I'll be there too.”

Volvendo ao livro de Steinbeck, o que resta da família, já sem a velha camioneta, essa espécie de nau dos argonautas da Route 66, deambula pela estrada até que a intempérie os obriga a procurar abrigo num velho palheiro. Aí, desenrola-se a polémica cena final, em que Rose of Sharon, lactante após a perda do bebé, amamenta um velho moribundo, salvando-o assim da morte por inanição. É uma cena patética, facilmente comparável a uma Pietá profanada. O leite, metáfora da abundância bíblica, brota dos seios de uma personagem até então inútil mas que agora se assume como símbolo de fertilidade, depois de frustrada a redenção messiânica.

John Ford, por seu lado, não se limitando a uma adaptação da novela e muito mais consciente do valor épico da gesta dos Joads, deixa partir Henry Fonda na sua cruzada justiceira, e recentra a narrativa na Mãe. Vão os Joads, os que restam, refeitos sob o comando esperançoso da Mãe. Al Joad conduz a carrinha, ambos recuperados por John Ford, pois que no livro, Al vai-se embora e a carrinha imobiliza-se definitivamente avariada na berma da estrada. Ford não quer os Joads a pé pelas estradas da Califórnia. A Mãe profere então a tirada final. Por maiores que sejam as adversidades, “We'll go on forever, Pa. We're the people.” E os Joads operam então o tal salto qualitativo, eles já não são um clã familiar, são um símbolo colectivo, as famílias americanas que, sobrevivendo a todas as provações, vêem agora a estrada esperançosa à sua frente. Ford fecha depois o filme, com a velha camioneta a ir pela estrada fora. É um final à Ford, esperançoso, de sentido oposto ao patetismo bíblico, frustrante e blasfémico de Steinbeck. A América de John Ford é indestrutível, alimentada de um idealismo personificado em Henry Fonda.

12/05/06

A Guerra dos Sexos, por T.S.

O meu amigo Saraiva tem um amigo habilidoso e bem relacionado que conhece um vizinho que sabe de electrónica e de computadores à brava. E foi assim que o Saraiva instalou a tv cabo lá em casa…

Uma das coisas mais interessantes do serviço cabo em sinal aberto é a grande quantidade de canais porno que passam a estar disponíveis 24 por 24 horas ao dia. Deve ser giroligarmos a televisão e vermos as pessoas naquilo durante todo o santo dia! O Saraiva diz que há lá de tudo o que se possa imaginar e eu acredito. Mas para além do seu incomensurável valor instrutivo, pelos vistos, o porno em excesso também suscita a reflexão ético-socio-antropológico. Dizia-me o Saraiva, um destes dias:
- Ó pá, aquilo não se percebe como é que gajas tão lindas e tão boas andam naquela vida… São autênticos modelos e, se quisessem podiam ter os gajos que lhes apetecesse!

Esta reflexão está longe de ser original, mas é reveladora do habitual preconceito machista associado ao porno e à prostituição. Porque é que ninguém pensa, dos actores e não das actrizes, que «os gajos são tão giros, tão musculados, tão fortes e podiam ter as gajas que quisessem sem necessidade de andarem naquela vida?». Ninguém olha para o Nacho Vidal nem para o Roco Sifredi nem para os gigolos de «alto standing» como vítimas perdidas no caminho ínvio da prostituição. Pelo contrário, a maioria dos machos latinos gostava era de lhes estar na pele. Literalmente.

Eu cheguei mesmo a ter um colega na faculdade que estabeleceu contactos para entrar no mundo do porno. Foi à Holanda e tudo, mas a coisa falhou e ele acabou numa miserável carreira de professor universitário (não digo onde, para não ferir susceptibilidades). Agora as meninas… Tão giras, tão queridas, tão elegantes… Naquela vida de sofrimento atroz a levarem com um, dois ou mesmo três matulões por todo o lado, coitaditas, quando podiam ter uma óptima carreira num emprego, serem boas donas de casa, sei lá… Como é possível, pensa um verdadeiro macho?

Deixemo-nos de tretas e de preconceitos marialvas. A razão pela qual, elas, as meninas tão lindas, andam na prostituição – não me refiro à prostituição de beira de estrada nem à escravidão sexual que são coisas bem diferentes -, ou pelo menos, a razão que move muitas delas, é igualzinha à que os move a eles: a oportunidade de ganhar uma boa pipa de massa e até de enriquecerem ao fim de uns poucos anos de trabalho, fazendo uma actividade que, para a maioria, nem é assim tão desagradável quanto isso. Simples! As grandes estrelas do porno não andam lá forçadas: andam porque gostam e porque ganham carradas de dinheiro a fazerem o que fazem! Nós é que continuamos com a irreprimível tendência de as tomarmos como vítimas da perversão alheia. Mas eu só pergunto: quanto é que o meu amigo Saraiva não daria para estar no lugar de um indefeso macho violado por duas mulheres? Porque é que o macho nunca é a vítima inocente da luxúria de duas devassas? Mesmo em minoria, num ménage a trois, o vilão é sempre o homem e as raparigas as donzelas indefesas. Alguma coisa está errada!

De Fátima a Coimbra: uma breve trajectória pela parolice nacional. Por Pequeno Burguês (PBatatum)

Andam as estradas portugueses cheias de peregrinos. Vão para Fátima. Com um prudente e fosforescente colete verde, caminham imprudentemente pelas estradas de Portugal. Pessoalmente, e sem que daí se retire qualquer ofensa, acho lamentável. Primeiro porque é perigoso. A peregrinação atenta contra a integridade física dos próprios e dos utentes da estrada. Segundo, porque é improdutivo. Nenhum bem vem daqui à sociedade. Terceiro, porque entendo a religião na sua dimensão íntima e espiritual. Acho que a fé, ainda que possa e deva ter expressão institucional e social, é essencialmente uma vivência interior que dispensa o suplício exibicionista e a auto-punição corporal. Finalmente, porque acho estas manifestações típicas de uma mentalidade pré-moderna em que a vontade humana se submete ao desígnio da Providência e se torna, desse modo, comprometedor da livre iniciativa e do livre arbítrio, do mérito e da criatividade. Foi contra estes condicionalismos que se fez a modernidade. O mérito individual e a soberania da vontade em vez da subordinação a um desígnio transcendente, o empreendedorismo contra o estaticismo orgânico de uma sociedade sacralizada, o trabalho como via de ascensão social. De preferência o trabalho intelectual, pois que o ofício mecânico era visto como vil. A lavoura era sinal de uma sujeição ao dono da terra. O ofício artesanal era sujo. As artes liberais permitiam as mãos limpas e facultavam a ascensão social, para além de promoverem a mobilidade ascendente pelo exercício do mérito e do trabalho. O mérito individual, bem como a dignidade de um trabalho que já é intelectual e não manual são dois valores que caracterizam sociologicamente a mentalidade burguesa. O desprezo para com a ordem nobiliárquica é outro traço desta mentalidade. Além disso, verberam o clero e a religião que consideram manifestações de obscurantismo, instrumentos de domínio social e obstáculos ao progresso. Encaram a exibição da fé como sinal de atraso e dependência. Este vanguardismo burguês, radical, ateu e jacobino, não tardará a moderar os seu discurso. A razão é política e cultural. Prende-se com aquilo a que os revolucionários chamaram a "traição burguesa". Ou seja, as classes médias, na sua esmagadora maioria provenientes dos estratos médios do campesinato e do operariado suburbano, viram na escola e no estudo universitário um irrecusável processo de ascensão e afirmação social. Almejavam um emprego na administração pública ou nas profissões liberais. Buscavam um ofício que lhes conferisse prestígio social e dignidade intelectual que os diferenciasse do grosso popular. Por isso, ao ódio inicial que endossavam à nobreza e ao corpo clerical, dirigem agora o desprezo e a sobranceria para as classes populares. Ao mesmo tempo, nas esferas mais elevadas, buscam título de nobreza e elegem as virtudes cristãs como modelo de conduta social. Uma nobreza reformada e um idealismo cristão anti-ultramontano. É neste contexto que a Universidade de Coimbra se torna um dos principais meios de ascensão social desta pequena burguesia que procura desesperadamente a realização pessoal pela ascensão social. Basta ler os livros de Camilo e de Eça para se perceber como aos intelectuais este tipo social causava repugnância e era alvo das maiores ironias. O bacharel de Direito é, para Eça mas também para Torga, o exemplo mais ridicularizado de uma mentalidade mesquinha e ensimesmada.
A partir dos anos 60, apesar do Estado Novo, a Universidade iniciou um processo de massificação que encontraria o seu auge nos anos dourados do cavaquismo. Floresceram universidades em todas as esquinas. Este facto, aliado ao crescimento económico, permitiu que as famílias possuíssem os meios financeiros para enviar os filhos para a Universidade. Em Coimbra, retomaram-se as tradições académicas, nas restantes universidades, órfãs de tradição, copiou-se o modelo conimbricense. Os trajes, as praxes e as festividades académicas que antes eram prática de grupos minoritários massificam-se agora a todas as cidades e a todas as instituições. Públicas ou privadas, universitárias ou politécnicas. Podemos dizer que se consumou um processo iniciado a partir da 2ª metade do século XIX, acelerado na República e irremediavelmente confirmado a partir da década de 60.
Estes jovens estudantes, naturalmente, não escondem o orgulho. Eles resgataram séculos de submissão. Eles são a razão de ser do sacrifício das famílias. Os pais não regateiam recompensas. É o carro, os livros, a mesada, a capa e batina, o computador portátil e o que mais calhe. Que a contenção não comprometa o futuro dos filhos. E os pais vão ao Cortejo da Queima, quando a estadia coimbrã se aproxima do final, largar uma lágrima de comoção. Os jovens quartanistas vêm para o espaço público alardear o novo estatuto. Distanciam-se da proveniência social de origem, demarcam-se relativamente ao gosto popular, exibem erudição, mostram os livros e as sebentas, encaixilham o diploma, encadernam as fotografias, mitificam a juventude num culto geracional que os auto-engrandece e auto-glorifica. Constroem uma memória triunfante. Vão ao baile de gala, cópia abastardada dos ambientes dos salões aristocratas. Deixam-se fotografar abraçados a moças trigueiras enfiadas em tules espalhafatosos e que não conseguem ocultar o seu digno estatuto de origem. Basta ver o «Diário de Coimbra» de hoje com o seu suplemento social dedicado ao evento. Fazem álbuns fotográficos que um dia mostrarão aos filhos, bem como os versos e as anedotas. Rir-se-ão, um dia, todos à lareira. O avô, o filho e o neto, uma dinastia de bacharéis por Coimbra! Que lindo é sonhar! O Cortejo é a ocasião para todos os excessos. É uma celebração colectiva, orgíaca, que, pelo excesso etílico e já não pelo excesso místico, como em Fátima, conduz a um êxtase, um adormecer da conscência que torna a experiência única e marcante.
O sonho é que os filhos ingressem na mesma Academia, que triunfem igualmente, numa estratégia de sucessão geracional equiparável à dos burgueses que deixam a presidência do conselho de administração ao filho dilecto. Assim se vence a morte e se conquista um espaço na memória futura. Pelo caminho, dão a mão às meninas da casa Elísio de Moura, numa muito digna e cristã prática pública da caridade, mostrando deste modo que o jacobinismo burguês está ultrapassado e que a síntese com os velhos alicerces da sociedade está retomado. Mesmo que abdiquem das práticas dominicais, das confissões e das devoções mais maçadoras, continuarão a casar pela igreja com cerimónias de arromba devidamente documentadas para a posteridade e a baptizar os pequerruchos.
O Cortejo da Queima das Fitas, visto muitos anos depois, alimenta as saudades. «Saudades de Coimbra»... Ó Meu Deus, as saudades de Coimbra, o Choupal e o Penedo da Saudade... Tornam-se estes lugares-comuns, de um sentimentalismo pacóvio, num traço de identidade desta mentalidade pequeno-burguesa. Perdoam-se os excessos da juventude de uma forma paternalista e condescendente. «São jovens, como nós fomos». Eu acho isto, mais uma vez, lamentável. Que me perdoem os adeptos da farra. Eu não gosto! Gosto da genuinidade do S. João do Porto, ou das sardinhas assadas na rua do Stª António de Lisboa. Gosto da Tomatina despretenciosa e excessiva, embora lá nunca tenha ido. Isso eu gosto.

Mercado Burguês Do Peixe – Uma Lança Pequeno-Burguesa Em África!, por PBatatoon

A amesendação em restaurantes sempre foi uma manifestação pequeno-burguesa. Agora, além disso, é uma orgia colectiva de vinho, sexo e excessos de toda a ordem, uma espécie de carnaval. Antes, era o anúncio do que é agora e nada mais. No início, era a elite burguesa a exibir no espaço público um estatuto de exclusividade e superioridade em relação aos esfomeados das tascas. Agora a restauração superior massificou-se, os esfomeados foram para as cantinas e tornaram-se gordos e agora bebem e fodem todos juntos. Passados 20 ano dizem que estão cheios de saudades, o que tb faz parte do culto geracional próprio da mentalidade pequeno-burguesa.

As provas de pratos são tão duras que no final, os mastigantes que a elas se submeteram, podem dizer que pertencem a outra esfera, mais restrita, diferente dos outros. Assim, podem orgulhosamente afirmar-se no inner circle para o resto da vida. É assim que invocam a litrosa e o velho copo de três. Como os sargentos pançudos que vão às comemorações do 10 de Junho, na Praça do Império, com a boina verde cheia de traça metida na cabeça rala e enrugada.

Vejo isto como mais um sinal de aburguesamento que lembra que o acesso à restauração foi um dos principais meios de mobilidade ascendente que as classes populares encontraram para se aburguesarem, com um banquito nos restaurantes e casas de luxo, sem necessidade de sujar as mãos nas artesanais tascas ou casas de pasto. Basta ler Eça e Camilo. Nós somos justamente o resultado desse processo acelerado a partir dos anos 60 e massificado nos anos 80 e 90 na era dourada do Cavaco. Ignorar este facto é típico da mentalidade pequeno-burguesa (não, não é um insulto, é um conceito de análise sociológica).

Como prova desde ensimesmamento social, lembro como o Quim Barreiros se tornou um must da restauração com o seu popular restaurante Albergaria de Vila Praia de Âncora. A malta convidava o Quim com o propósito declarado de o gozarem nas noites de alambazança. Lembro-me como os mastigantes rebolavam de gozo com os pratos populares e ordinários do Quim Barreiros. Julgavam que quanto mais gozassem com o homem de Vila Praia de Âncora mais afirmavam publicamente o seu distanciamento relativamente ao que o restaurador representava: o tasco rude. Acontece que o Quim Barreiros, como outrora o Zé Povinho do Bordalo, de caricatura tornou-se símbolo, de toureado tornou-se primeira figura de cartaz e hoje é um must da restauração.

Voltemos ao essencial, que é afinal o que séculos de romanização, cristianização e educação promovida pelo estado, nunca deixou de ser o verdadeiro interesse da nação, por mais que estude: comida à fartazana e vinhaça!

11/05/06

Mercado Do Peixe - Uma Lança Em África!, por Armários Imensos


Julgo que já todos se confrontaram com a imensa roubalheira que grassa nos restaurantes portugueses na venda de vinhos. Tinto, branco ou espumante, não há estalajadeiro que resista a aplicar 100, 200 ou mesmo 300% sobre o preço de supermercado da botelha. Por um mísero Porta da Ravessa branco, já me foi pedida a enormidade de 12€ em tasco que não revelo o nome para não dar publicidade à besta imunda. Preço médio de supermercado, 3€! Vão roubar pró catano! Mesmo em tascos comedidos, dói na alma e na carteira pedirem 8,50€, por um Quinta de Cabriz Colheita Seleccionada, quando o conhecemos do supermercado a cerca de 3,50€. E prontos, lá vai cervejola. Lixam-nos a alma, o estômago e arrebentam com o vinho português!

Contudo, há tempos no Restaurante Mercado do Peixe, em Aveiro, no Largo da Praça do Peixe (telef. 234.383.511), tive um vislumbre do que podiam ser os nossos restaurantes e o mercado do vinho português. Quando veio a carta de vinhos fiquei banzado! Ali à mão de semear espalhava-se a vinha portuguesa a estes preços: Tintos: Esteva, 4,25€; Quinta de Cabriz Colheita Seleccionada, 3,45€; Quinta da Dona, 15,55€; Quinta da Terrugem, 12,60€; Herdade do Esporão, Trincadeira, 11,85€; Quinta da Bacalhôa, 15,30€; Brancos: Galeria, Bical, 4,15€; Esporão, Reserva, 8,05€; Muralhas, 3,45€; Espumantes: Campolargo, 4,90€; Aliança Particular Reserva Bruto, 9,10€; e Aliança Bruto Tinto, 4,15€. Seleccionei aqui só os nomes mais conhecidos da nossa praça, que a carta era mais completa. Como devem ter reparado todos estes preços são inferiores aos de garrafeira e vários são mesmo inferiores aos de supermercado.

Embora o serviço de vinhos seja excelente e a carta de vinhos já conte com umas dezenas deles, não deixa de ser curta e de manter o pecadilho tradicional, que é não ter os anos das colheitas. Mas com estes preços relevei a falta e não fiz a lide habitual de os pôr a ir à despensa ver os anos das colheitas por 4 ou 5 vezes.

Falei com os responsáveis sobre os preços, não fosse haver ali armadilha de ser ao copo ou coisa que o valha - com os tascos portugueses todo o cuidado é pouco -, e os simpáticos que não, que é mesmo assim, é politica da casa e fazemos questão de os vender exactamente ao preço de custo! Benditos!

Resta aconselhar que quando lá forem reservem uma mesa com vistas para o canal que bate na Praça do Peixe, em cujo primeiro andar o Restaurante se situa. Para saborear, recomendo o Lombo de Tamboril com Gambas (12€) ou a Caldeirada de Enguias (25€) para duas pessoas, ambos excelentes. Evitem as Lulas Grelhadas (8,50€) que a dose é mínima, e sem ter provado pareceu-me muito bem o Ensopado de Rodovalho que na mesa ao lado dava para três (33€). Regalem o olho, espojem-se no peixe e afinfem na vinhaça que ali vale a pena!

10/05/06

Melissa Melendez, A Única Mulher Que Dormiu Com John Holmes, por Nacho Vital

Melissa Melendez, also Known as, Melissa Mendez, Melissa Melon, Melissa Gee or Stephanie Stone, é uma actriz porno que iniciou a sua carreira em 1975, em plena Golden Age do porno. Era uma hispânica de ar sonolento e ausente, que assumia essa mesma pose nos filmes. Melissa nunca foi um dos ícones da indústria, sendo que só muito raramente foi cabeça de cartaz de algum filme. Mas ficou famosa e será para sempre lembrada, muito depois de grandes starlets terem já sido esquecidas!

Lá pró meio da sua carreira de hispânica secundária e de enchimento, a nossa menina aceitou contracenar pela sua primeira vez, com o mítico John Holmes no filme “Marina Vice” de 1985. Avisada pelas colegas do descomunal da coisa e do sacrifício necessário, a Melissa lá entendeu que se devia sacrificar a outros deuses que não aquele e vai de tomar uma boa dose de relaxante muscular.

Contudo, enganou-se na quantidade do relaxante e tomou dose cavalar. Relaxada a menina, andava o John Holms lá pelo meio do filme a dar o litro, e a boa da Melissa roncava a sono solto, no género, - ó Jarbas traz-me mais tremoços, que o gajo demora-se! O Holmes bem se esforçava em afiambrar com força e a fundo na dita, mas não havia maneira de a miúda acordar.

E depois é claro que um gajo fica chateado, pois num é?! O John lá berrava para a produção que a gaja estava a dormir e que assim o artista se recusava a continuar e a produção lá lhe respondia que a Melissa era mesmo assim e o público já lhe conhecia o seu ar sonolento e ausente, que acabasse a função que o filme seguia em frente. E seguiu e ficou assim. Mas o seu visionamento posterior não enganava e não engana. Melissa Melendez dorme a sono ferrado nada incomodada com o esforço dos 34 cm lá por baixo. Não ganhou Óscar, mas ganhou o título eterno de ser a única mulher que realmente dormiu com John Holmes!