
Da única vez que estive antes num tribunal fiquei com uma ideia bastante razoável acerca da dignidade da função da magistratura. As togas, a linguagem técnico-jurídica, a minúcia dos interrogatórios, a deferência daquela gente que passa o tempo a chamar-se «sôtor» pa trás, «sôtor» pá frente, em suma, o aparato do circo impressionou-me. Foi por isso que entrei a medo na sala de audiências número dois da comarca de alcarraques. Empurrei a porta a medo, como quem pede desculpa, verifiquei bem se não estava enganado, disse um bom dia hesitante, com medo de perturbar a solenidade do acto e escutei atentamente as instruções de uma senhora - que mais tarde percebi ser a funcionária e chamar-se dona Joana - coberta com uma vetusta capa preta e que me ordenou que desligasse o telemóvel e me sentasse no fundo da sala. Sossegado! Até aqui tudo bem, estava tudo em conformidade com a ideia que eu tinha de um tribunal.
Sentei-me ao fundo da sala, apertei o botão da camisa - tinha uma vaga reminiscência de um amigo causídico me ter dito que os juízes, às vezes, mandam os assistentes abotoar os botões das camisas -, desliguei o telemóvel e pus-me a observar. Como, além de mim, estavam lá três pessoas conhecidas - dois advogados mais o arguido - a que se acrescentou, posteriormente, uma quarta, também amigalhaço, fiquei com a estranha sensação de estar numa jantarada da Confraria Enófila a que todos pertencemos. Mas, desta vez, em vez do Grão, estava uma outra pessoa desconhecida a dirigir as cerimónias - a ilustríssima e digníssima doutora juíza! Passou-me pela cabeça que iam começar a distribuir as notas de prova e que alguém ia pedir o vinho nº 6... Mas porque raio estavam eles vestidos de togas? Foi preciso um pouco de esforço para me relembrar a mim mesmo que não estava em plena janta da Confraria mas no tribunal e que, portanto, não me podia pôr a disparatar e a mandar bocas ao Pilas, qua aliás não estava presente.
Durante a audiência, a informalidade e o tom jocoso estiveram sempre presentes. Por uma questão de respeito para com as pessoas envolvidas não posso entrar aqui em detalhes. Mas a pintura foi definitivamente borrada quando entrou para depôr como testemunha da defesa, sua Eminência, o nosso Altíssimo Grão! No dia anterior, aliás na semana anterior, eu já tinha dito que, possivelmente, ia assistir à audiência e ele passou a semana a avisar-me para não me «armar em bardanas» e para não me pôr com risinhos parvos no tribunal. Também por isso entrei a medo.
Mas às tantas o gajo saiu-se com esta pérola: a juiza perguntou-lhe se o nosso amigo L... é, habitualmente, um moço seguro a conduzir, uma vez que se trata de um processo em que está em causa um acidente rodoviário em que ele esteve envolvido. Ao que o Grão respondeu:
- Concerteza sra doutora juiza. Muito seguro mesmo. Aliás, no nosso grupo de amigos, nunca ninguém colocou qualquer reticência em ser conduzido pelo L..., que sempre nos habituou a uma condução à prova de qualquer crítica. Ao contrário de outras pessoas do grupo, não é?, como o Tó Marsapo, por exemplo. Esse é uma verdadeira aflição a conduzir. Com esse é que ninguém se arrisca a entrar num carro.
Não havia necessidade, claro, mas ele justificou mais tarde que o improviso fora espontâneo, não resistiu, prontos... Eu estava ali sossegadinho, a juiza não faz a mínima ideia de quem eu sou e o certo é que na acta redigida pela diligente D. Joana fica lavrado que o Tó Marsapo é uma «aflição ao volante». Não estrebuchei porque, enfim, ainda há em mim um resto de respeito pela solenidade de um tribunal. Mas lá que me apeteceu, apeteceu.
A audiência acabou pouco depois com a juiza a sair da sala nº 3 do tribunal da comarca de alcarraques à procura da dona Joana que, entretanto, se tinha ausentado, até porque já estava a passar da sua hora de almoço. Não chegou ao fim a audição das testemunhas e amanhã há mais. Mas eu é que não volto a pôr ali os pés. Para ser insultado já chega quando discutimos futebol.
12 comentários:
danger is everywhere
Esse dr. Grão é um porco. Sempre a enterrar os amigos. Faltava lá o Pilas. O Pilas dizia-lhe. sim, que o Pilas não é menino para aguentar bojardas calado. Ele até passa a vida no Choupal a espreitar as cópulas alheias. E manda bocas durante. Do Pilas não fala esse porco do Dr, Grão não, é o falas.
Pois, o pilas é que era ali preciso. Eu nem percebo porque é que o pilas não foi chamado a depor. e o xeko. O xeko também não foi porquê? E se ele levasse vinho, já podia não é? O dr Grão é sempre a mesma merda é qo que é.
Togo
devo dizer que foi um julgamento SÓBRIO... lol. Só visto
o único... sóbrio (sim, até no julgamento)
Dava o dito e dois tostões para ter ouvido a Sr.ª Dr.ª Juíza a dizer ao Grão (de forma maternal) "- Olhe, acabou o seu depoimento. Pode ir à sua vidinha..."
Também debia-de-ser engraçado ver e ouvir o Báice em tribunal a falar de Câmus e de Aideguér à sonsa da juíza. E o Mangas a mostrar vídeos do falecido Bénard a dizer bem do Manoel dOlibeira.
E os desenhos choupalenses do Pilas afixados ao pé dos documentos cá fora. Issé quéra.
...e bem andou o sr dr grão quando no seu depoimento, sentido e verdadeiro como poucos, identificou claramente esse perigo ambulante, essa verdadeira bomba da estrada, que dá pelo nome de Vaice, autêntica aflição sobre rodas. tenho dito.
grave-se, registe-se e comunique-se superiormente para que sejam tomadas as medidas adequadas.
escriba
Tu davas o quê, medalhinha?
O Baice é um schumacher ao contrário, de facto. Até comprou o malraux por engano; como vê mal, pensou que se chamava A Condução Humana. Ora, por aqui se vê que o Grão, doutor, tem razão.
Ora nem mais. O Cão quando fala, ladra bem.
Doutor Grão
PS: Ontem tivemos aqui na máfia do dallas a excelsa visita do Grande Tinó. Confirma-se. Está vivo e mexe.
É verdade, foi uma visita muito agradável. O Doutor Grão abriu uma garrafa de vinho do porto feito com uvas pisadas pela Dona Antónia Ferreira, comemos umas trufas e foi ainda servido um bolo de onde saltou uma coelhinha da playboy. E depois saltámos lá de cima de paraquedas sobre a pastelaria, onde comemos uns jesuitas, que nem ofereceram muita resistência. Eu até me mudava para lá de vez, se não fosse o risco do cholesterol.
Tinó 8 e Meio
Olhó Tinó! Saudades, carago. O Tinó aparecer é como o Baice ter cabelo. Pouco mas rijo, portantos.
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