
Se a Filosofia não se interessou pelas massagens, já o cinema, em particular a produção americana, não foi alheia ao problema. Um dos episódios da melhor série humorística da história, o magistral Seinfeld, chama-se, precisamente, A Massagista. Neste episódio Jerry namora com uma massagista profissional que, naturalmente, passa a dia a fazer massagens aos seus pacientes. Quando chega à noite, ela só quer...sexo. Mas o sexo é mau? Não, é óptimo, fazemos tudo, confessa Jerry... mas eu quero massagens. Jerry não consegue realizar esse sonho: namora com uma especialista em massagens - o sonho de qualquer macho, segundo Constanza - mas esta recusa-se a fazer-lhas, só quer sexo, puro e duro, nada mais que sexo. É como estarmos esfomeados e passarem-nos petiscos deliciosos que não podemos comer. Suplício de Tântalo!
Para a massagista, as massagens são trabalho; para Jerry representam um fetiche, o supremo fetiche. Tanto mais poderoso quanto mais fala com Constanza e com Kramer. Este acaba por espicaçar Jerry ainda mais quando contrata a massagista. Nem sabes o que estás a perder, aquilo é o céu, aquelas mãos suaves e sábias, os músculos descontraídos, a música new age a preparar o ambiente... Jerry reage muito mal, como se a namorada tivesse andado a fazer as coisas mais abjectas com Kramer. Enerva-se, protesta, mas Kramer defende-se com um ainda mais aviltante «tive-as mas paguei-as». Jerry responde-lhe irado que ele não pode falar dessa maneira da sua namorada. Proíbe-o de voltar a ter massagens com ela, como se aquilo, mais uma vez, não fosse estritamente profissional.
Esta confusão é magistral e nela compreendemos a tremenda ambiguidade erótica das massagens. Se trocarmos o termo massagens por uma daquelas categorias porno mais extremas, toda a reacção de Jerry é compreensível. Ele vive, de facto, o problema da ambiguidade erótica das massagens, algo que Kramer só aparentemente não alcança. E digo aparentemente porque Kramer - e isso é coerente com o personagem - está a provocar, percebe-se o registo irónico e provocador da sua apologia da massagista. Como quem diz: ela é tua namorada mas é comigo que faz as coisas mais porcas! No fundo tanto Jerry como Kramer estão de acordo: para eles, massagens são sexo. E do melhor! Veremos que também a própria massagista acaba por estar de acordo com eles...
Na parte final do episódio Jerry, desesperado, quer forçar a massagista e arrisca tudo: prepara o ambiente com música new age e sons naturais, desmonta a cama de massagens dela, pega nas mãos da massagista e coloca-as nos seus ombros. Depois deita-se de costas e quer obrigá-la a massajá-lo mas ela recusa, gritando «não posso fazer isto». Como se o namorado a quisesse obrigar a uma prática completamente depravada que estaria para lá dos seus padrões morais. A relação termina com ambos chateados. Não me telefones mais, tarado. Podes crer, santinha. A massagista vê Jerry como uma espécie de depravado que a quer forçar a um acto inadmissível, Jerry comporta-se como tal, perdendo o controle, humilhando-se, desesperando pela não consumação do seu desejo. E no fim, desesperado, acaba a relação.
Jerry e Kramer são, pois, partidários de que as massagens são sexo e do bom.E a massagista também acaba por reconhecê-lo à sua maneira, pela sua recusa. Ao recusar, ela acaba por associar a massagem a uma perversão sexual que não está disposta a realizar, mesmo que isso lhe custe o fim da relação com o homem de quem gosta. Mas nos três a noção de que massagens são sexo, e do mais abjecto, é comum: a diferença é que Jerry e Kramer são suficientemente perversos para entrarem nesse jogo enquanto que ela se porta como um donzela púdica que jamais faria tal coisa. Como diz o Woody Allen: se o sexo é porco? Só quando é bem feito...
A segunda referência cinematográfica às massagens aparece em Pulp Fiction, a obra prima de Quentin Tarantino. mas isso fica para o próximo post...
P.S. Há ainda outro episódio de seinfeld em que o tema é abordado. Nele é George quem vai ter massagens mas de um homem. O fantasma homo está aqui presente. Esse episódio merece uma revisão. Não queres pegar no tema, grunfo?
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