
Cheguei ao Dubai na madrugada de ontem, depois
de um voo de 9 horas e sem dormir. Estranhamente, as
lojas, restaurantes e cafés estão fechadas. Dou por mim no maior centro
comercial do mundo – o mastodôntico Dubai Mall – deserto. Ainda deve ser cedo,
penso, para os padrões locais. Espero uma, duas horas mas o maior e um dos mais
luxuosos centros comerciais do mundo continua a parecer um shopping fantasma de
primeira geração da margem sul de Lisboa. Dirijo-me a um segurança que me
informa que estamos em pleno Ramadão. As lojas e restaurantes não abrem antes
do pôr do sol. Ok, tudo bem, respondo, mas não sou muçulmano, a lei islâmica
não vale para mim, hei-de poder comprar comida nalgum lado, não me diz onde...
Está enganado, sir, aqui a lei é para todos, se comer ou beber, do nascer ao
pôr do sol, comete um crime punido por lei. Penso que é gozo, mas não é. Consigo
encontrar um supermercado aberto no rés do chão do Dubai Mall onde me abasteço
com umas peças de frango, alguma fruta e umas garrafas de água. Para comer à
noite, justifico não sei se a Alá… Ingiro (é o termo) o pequeno almoço,
imediatamente, numa cabine da casa de banho, o restaurante mais exíguo onde
alguma vez entrei, com a sensação de estar a cometer um crime hediondo, sem
fazer barulho, discretamente, sentado na sanita, como se estivesse num filme de
Luis Buñuel.
Alimentar-me
no Dubai, em pleno Ramadão, foi uma aventura durante todo o tempo que ali
passei. Almocei no quarto do hotel, ainda assim receoso, comprei discretos
frutos secos – curiosa qualidade para um fruto, a discrição - com que fui
enganando a fome no meio dos passeios sob um sol abrasador. E estive sempre a
pensar que, precisamente, a diferença entre «nós» e «eles» é que, a «nós», não
nos passa pela cabeça impôr-«lhes» os nossos preceitos, como eles nos impõem a
nós. Mas aqui, Alá akbá ou coiso, todos, muçulmanos ou não, têm que se sujeitar
à lei divina. Coisas tão inócuas como beber ou comer são transformadas em
enormes ofensas e de nada valem as lógicas terrenas perante a força coerciva
dos céus. Não se percebe como é que um jejum absurdo pode ajudar alguém a
atingir a salvação eterna e um bónus de sete virgens. Será o paraíso dos
muçulmanos um sítio onde não são permitidos gordos, gerido por um Alá
nutricionista ocupado a manter as pessoas magrinhas?