31/10/06

The Big Crash, por Piçágoras

Quase passou despercebida a notícia bombástica da semana passada: o Tribunal Administrativo e Fiscal de Coimbra deu razão a uma aluna que recorreu da invenção da espantosa ministra da educação que decidira repetir os exames de Química e Física do 12º ano. Conhece-se o enredo: foi criada, com esta estapafúrdia invenção ministerial, uma situação de excepção que beneficiou apenas os alunos de Física/Química e dentre estes, apenas os que haviam feito o exame na primeira fase. Houve logo vários recursos em tribunal e agora uma aluna de Coimbra viu a sua razão ser reconhecida: o Tribunal Administrativo e Fiscal de Coimbra considerou e bem quea aluna não podia ser prejudicada e ordenou que tivesse acesso a um segundo exame. Era óbvio, só para Maria Lurdes é que não…

A reacção de Lurdes Rodrigues a esta decisão do tribunal é fantástica e ninguém parece ter-se apercebido da gravidade das suas afirmações. A senhora diz que respeita a decisão do tribunal e cumpri-la-á, ordenando, portanto, um exame especial para a aluna em causa. Como? Terei lido bem?

Em primeiro lugar creio que não passaria pela cabeça nem ao diabo que a senhora não cumprisse a decisão do tribunal. Era o que faltava. Mas cumprindo-a e reconhecendo-lhe razão, a ministra reconhece assim o erro da sua decisão original: a da repetição dos exames. Isto já é grave e devia merecer consequências políticas. Como estamos em Portugal, seria de esperar pelo menos a demissão de um porteiro do Ministério da educação. Mas não. Parece que «no pasa nada»…

Mas o pior é que a dona Maria de Lurdes ficou-se pelas meias tintas. Não, ela não se deveria limitar a mandar fazer um exame apenas para a aluna em causa. Devia, isso sim, como Ministra da Educação que é suposto ser, MANDAR REPETIR TODOS OS EXAMES DE TODOS OS ALUNOS EM IGUALDADE DE CIRCUNSTÂNCIAS COM A ALUNA QUE GANHOU O RECURSO. Mais: com todos os alunos – não só os de química – que ficaram prejudicados em relação aos seus colegas que usufruíram de um regime escandaloso de excepção. De outro modo o que Maria de Lurdes está a admitir é que a justiça só vale para quem tem dinheiro para mandar meter recursos. E os milhares de alunos que, infelizmente, não têm possibilidades monetárias para fazer idênticos recursos? Esses ficam na mesma, discriminados e tratados como cidadãos de segunda só porque não têm meios económicos para meter recursos. E a ministra esquece quem é, esquece que é ministra e que é da educação e deixa-os assim, como se nada fosse com ela, como se não tivesse qualquer obrigação, ética, cívica, meramente profissional, que seja, para com eles… É triste!

É claro que se isto se passasse num país a sério e não nesta África ocidental onde vivemos, a indignação das pessoas far-se-ia sentir. Mas o pessoal quer é bola, floribela e morangos. Batatas! E os políticos do governo que estão sempre a atirar-nos à cara com a superioridade das sociedades nórdicas perdem aqui uma boa oportunidade para lhes seguirem o exemplo. Já que o enfadonho e apático povo português não se indigna como deveria e não pede em uníssono a demissão desta ministra, porque razão não se porta Sua Excelência como uma sua congénere Sueca ou Finlandesa e segue o único caminho que, em coerência lhe restaria num país culto e civilizado, que é como quem diz, o caminho do olho da rua?

30/10/06

A Culpa é do Dedão!, por Dédalo

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Para assumirmos uma bipedia permanente, abdicámos da oponibilidade do polegar dos membros inferiores e da capacidade de preensão característica dos restantes primatas. O dedo grande do pé é essencial à locomoção bípede. Experimentem andar descalços e sem tocar com o dedão no chão. Tornam-se lentos e pesados, andam aos pulos como crianças que aprendem a andar. Na aurora dos tempos, nas savanas africanas, isso significava, para os muitos predadores, uma só coisa: sobremesa fácil! O dedão autonomizou-se e os predadores tiveram que procurar outros manjares. Com o dedão requalificado e dispensado da oponibilidade, podemos correr e fugir, dar o impulso final do salto que nos permite alcançar o galho da árvore e assim salvar a vida, mudar de direcção bruscamente e iludir os perseguidores, verticalizarmo-nos e elevar o ângulo de visão, melhorando a capacidade de percepção do perigo, pois podemos pôr-nos de pé e ver mais longe. Foi uma mudança decisiva. O desvio do dedão relativamente à sua função natural teve um preço: o dedo grande do pé já não serve para agarrar. Esta novidade, incorporada geneticamente nas características da espécie, dificultou-nos a acoplagem ao corpo materno. Um orangotango bebé agarra-se ao corpo quadrúpede e peludo da mãe com os 4 membros. Uma cria humana tem uma mãe bípede e sem pêlos e só dispõe de dois membros para se segurar. A bipedia inutilizou-lhe os pés para este fim específico. Tal facto exige que a mãe lhe empreste os seus dois membros superiores e o ampare ao colo. A mãe emprega os membros inferiores na locomoção e os superiores a segurar a cria. Torna-se inútil além da maternidade. Incapaz de lutar, está indefesa. Incapaz de colher alimentos, carece do auxílio dos machos. Cria-se uma relação de dependência da fêmea que exige a protecção do macho. Há quem veja aqui o início da monogamia. As relações sofisticam-se e requerem a linguagem e há quem especule que a origem da fala decorre assim desta vulnerabilidade das crias. Tudo começou com um dedo desviado do fim natural e que deixou de se opôr aos restantes! Incrível! Terá toda a história da Humanidade resultado de uma correcção tão ínfima? Fascinantes reflexões a propósito de um artigo da National Geographic sobre a «Menina de Dikika», fóssil de uma criança de 3 anos de idade achado no deserto da Etiópia e datado de há 3,3 milhões de anos! Artigo disponível na edição portuguesa que hoje saiu com um preço de promoção: 1 euro! A comprar já. Disponível on-line também.

29/10/06

Texto sem Título, por Mangas

Recordo-me agora de como tudo aconteceu: o meu pai meteu-me no autocarro e levou-me com ele a visitar uns amigos de infância, refugiados como nós, que se instalaram num lar abandonado, por empréstimo. Entrámos num corredor estreito encimado por janelas de vidro baço através das quais o sol diluía a penumbra. No quarto onde viviam as duas famílias dos amigos do meu pai havia malas abertas, caixotes empilhados, tábuas de madeira, cobertores a servir de colchão e outros de palha alinhados pela parede. Todos os cantos estavam ocupados. O meu pai sentou-se num banco improvisado e trocou recordações com os amigos. Eu sentei-me no chão e troquei bolachas Maria pelo fascínio da contemplação silenciosa daquele caos habitado. Os filhos comiam carne enlatada e bebiam leite Nido por malgas de barro sem ligarem nenhuma a que eu estivesse por perto. Uma mulher entrou, acenou ao meu pai e trouxe-lhe café a fumegar. Passou-me a mão pela cabeça, mas na realidade não creio que me tivesse tocado sequer, que me tivesse sentido ou dado pela minha presença entre os volumes encaixotados que lhe sobreviveram à fuga. Num dos caixotes que serviam de mesinha de cabeceira estavam alguns livros do Major Alvega e do Príncipe Valente o que atraiu fixou a minha atenção - as capas eram a preto e branco; tudo o resto que sobrava da realidade estranha e desordenada à minha volta era um mosaico colorido, um retalho amarrotado de objectos e pessoas. O Major Alvega voava no seu Spitfire sobre as nuvens de um céu manchado pela cera de uma vela. O do Príncipe Valente estava encoberto e eu só conseguia distinguir-lhe a espada. Os miúdos acabaram a ração de combate e foram brincar com pistolas de cartão, enquanto eu fiquei sentado a tentar folhear a primeira página do Major com o olhar. Existiam outras famílias nos outros quartos. Os homens foram chegando e cumprimentaram-se com abraços. Alguns riam, outros lamentavam. Por ordem de chegada. Era assim: se os últimos lamentavam, os que lhes chegavam a seguir, não sorriam, e vice-versa. Todos eles tinham em comum sentarem-se muito direitos, mas com pesar, posturas erectas, mas com esforço. Parecia-me a mim. O café da mulher não chegou para todos e eles recusaram por cortesia...

Quando o meu pai se despediu, um dos amigos que me tinha topado desde o início, agarrou nos livros e ofereceu-mos, o meu pai perguntou como é que se diz?, eu disse, e mais tarde, enquanto descia as escadas, olhei para uma das janelas igual às outras e pensei que, apesar de tudo, todos eles deviam ser felizes porque não tendo nada, tinham muitas coisas e estavam juntos, não precisavam de arrumar as tralhas enquanto liam livros do Major Alvega e do Príncipe Valente, os putos até podiam brincar com pistolas quase verdadeiras e almoçar enlatados, e eu naquele quarto até podia ser invisível. Nessa tarde choveu até anoitecer. Uma tempestade imensa varreu as montanhas. Quando trovejou as velhas rezaram e os homens esconderam-se a coberto do perigo. As traseiras da casa onde morávamos alagaram-se até ao joelho e o colchão onde eu dormia parecia uma ilha ensopada. O meu pai teve de fazer um buraco na parede de modo a escoar a água para a horta do vizinho. As roupas misturadas com batatas na lama, caixotes empilhados, chávenas de casquinha e álbuns de fotografias arrastados pela torrente das águas. Lembro-me do choro silencioso da minha mãe, e do meu pai encostado a um canto ancorado num cigarro, o olhar fixo e carregado, sem dizer uma única palavra. Lembro-me também de ter pensado que, vistas bem as coisas, os refugiados do lar talvez não fossem tão felizes quanto isso..

27/10/06

Pequena História de Portugal, por Revisor

O Marquês de Pombal foi um déspota sanguinário – basta lembrar o cruel e insidioso processo aos Távora e as mortes horríveis que o Marquês lhes decretou. Pombal, acusou-os – num processo forjado e sem provas concludentes – de terem tentado assassinar o rei, D. José. Desse processo, habilmente controlado pelo Marquês do Reino, resultou a condenação de toda (!) a família Távora a uma morte horrível num palanque erguido na zona do Estoril para gáudio da populaça.

A família condenada foi obrigada a assistir ao horrendo fim dos seus entes queridos. Os mais afortunados começaram por ser enforcados ou decapitados. Mas como as torturas deviam obedecer a um critério de variedade para entreter o povo, outros não tiveram tanta sorte. Os mais desgraçados foram queimados vivos, outros ainda foram degolados ou esmagados pelas marretas dos carrascos. Nem os apelos de piedade de gente distinta do reino, como a própria princesa Dona Maria, futura rainha Maria Pia, demoveram Pombal do seu desígnio tenebroso. E nem vale a pena falar da horrenda perseguição aos Jesuítas.

Hoje querem que recordemos este homem como um modernizador, como um ser culto e avançado que fez o país andar para a frente. É de doidos! Pombal merecia ser lembrado como um dos maiores facínoras da nossa história, estou-me nas tintas se fez a reforma da educação e da indústria e se reconstruiu Lisboa. Ao pé da sua crueldade isso são pormenores irrelevantes. Repuga-me ver os putos a aprenderem na escola a admirar um indivíduo destes. Espanta-me o branqueamento que lhe fazem os professores de história (pelo menos alguns). Salazar também recuperou a economia e nem por isso as suas estátuas lhe sobreviveram. O Marquês devia ser lembrado, isso sim, pela sua inusitada crueldade. Jamis deveria ter estátuas e avenidas com o seu nome na capital do país. E já estava na hora do ridículo rei D. José ser apeado do cavalo. Parecemos os Mongóis a venerarem o Gengis Kahn, caramba, que espécie de povo somos nós?

Staline também reconstruiu a Rússia e não me consta que haja nenhuma estátua do facínora na Praça Vermelha, nem nenhuma Avenida Josef Staline em Moscovo. E os chilenos estão agora a ajustar contas com o pilantra do Pinochet, tal como os argentinos já fizeram com os seus generais. Os espanhóis também fizeram justiça ao seu ditador e removerem a presença de Franco do seu quotidiano. Só nós continuamos a conviver impavidamente com esta vergonha quando, como os outros, já tivemos mais que tempo para rever a nossa história. A estátua do marquês devia ser dinamitada e em seu lugar erguer-se uma estátua à rainha D. Maria Pia que afastou Pombal e, pela primeira vez na Europa, decretou a abolição da pena de morte, isso sim um exemplo de civilização que a nossa história oficial remete para o estatuto de nota de rodapé! E aquela enorme avenida que tem o nome do marquês devia passar a chamar-se Avenida dos Távoras. Era o mínimo, se a memória dos homens não fosse uma triste anedota.

26/10/06

Um Bocadinho Mais de Profissionalismo, s. f. f., por Amoleilinha (Defesa Latelal Dileito)

Venho pelo presente trazer a Vossas Excelências as razões da minha indignação. Ando indignado, sim senhor, como consumidor. Eu acho que tenho direitos e é como utente que reclamo veementemente contra uma situação que passo a expor. Aqui há dias, estava eu a surfar na net por uns sítios manhosos e encontrei um porreiro. Umas gajas a levar na peidola com categoria. As fotos eram boas, o grafismo era excelente, o texto era atractivo, estava muito bem escrito, tinha um menu diversificado capaz de agradar a todos os públicos, pelo menos à maioria, se descontarmos aquela malta esquisita dos chicotes, da mijadela e etc. Enfim, aquilo era uma coisa bem feita, como cá não se faz. Vai daí, estava lá no menu uma opção a dizer que tinha «close ups» de bundas. E foi aí que eu me indignei, foi o que aí vi que me impeliu a trazer até aqui o meu protesto. É que os cus estavam cheios de borbulhas e pêlos encravados! Está mal, é falta de profissionalismo e de brio profissional. Quem mete o cu na net tem que ter cuidado com a imagem. Isto está-se a abandalhar. Antigamente a gente comprava uma Gina e não encontrava lá disto. Os recursos tecnológicos eram muito menores, não havia photoshop nem tratamento digital da imagem, mas havia pó-de-arroz, havia o que se perdeu: sentido de serviço público! Dedicação! Empenho! Espírito de missão! Nem mais. As moças estavam ali para servir a malta e esforçavam-se, apresentavam-se como deve ser. Não havia cá borbulhas. Ou punham maquilhage, ou fotografavam de outro ângulo, ou não faziam grandes planos, eu sei lá! O que eu sei é que não havia borbulhas nas nalgas! Dá mau aspecto, falta de deontologia profissional. Hoje qualquer gaja pode ser puta sem esforço absolutamente nehum e depois dá nisto. E até têm estudos, pois têm, mas não têm brio profissional nem deontologia!E a questão é tanto mais grave quanto um tubinho de Clearasil custa uma ninharia! É que nem sequer há a desculpa de ser caro ou de necessitar de receita médica. É simplesmente inaceitável! Intolerável! Bastaria um dedalzinho de Clerasil nas nalgas, 24 horas antes da sessão fotográfica, e tudo ficava muito mais apresentável.A não ser que o Clerasil não resulte nas nalgas. Mas, mesmo assim, eu pergunto: porque é que não há um Clerasil-Cu? Hein? Sim, é que há Clerasil para o queixo, Clerasil para o nariz, Clerasil pomada, loção Clerasil, creme, creme nocturno, compressas, nha nha nha e não sei que mais. E Clerasil-Cu? Custa assim tanto inventar uma merda para acabar com as borbulhas nas nalgas? Ou é má vontade? Incompetência? E os meus direitos de consumidor? Por isso, por estas e por outras é que isto está como está. Muito obrigado e boa noite.

25/10/06

Lágrimas Negras, por Mangas

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Foi um mero acaso que me fez tropeçar neste cd. Peça única em fundo de saco, fotos de Bebo y Cigala en un ensayo, a chancela sempre de qualidade da Calle54 Records, Fernando Trueba produtor - razões mais do que suficientes para que eu o resgatasse do exílio.

Lágrimas Negras já me era familiar – era uma faixa do “Calle54”, esse duplo lendário que reúne alguns dos principais pesos-pesados do jazz latino por gerações, desde Chano Domínguez a Tito Puente, passando pelas congas de Jerry González ao sax tenor de Gato Berbieri, ao piano indomável de Chucho, filho de Bebo Valdéz. Calle54 é a celebração dos ritmos big band, a explosão do mambo, os arranjos swing, a alternância de um Samba Triste no piano de Eliane Elias com a euforia merengada no piano de Michel Camilo em From Within. Estão lá todos, com Trueba na sala de misturas. Só lá falta o trompete incendiado de Arturo Sandoval. Nunca percebi a razão. Dei-me sempre por feliz que a obra tivesse sido feita, deu-me sempre imenso prazer ouvi-la e partilha-la com os amigos.

Mas este Lágrimas Negras é outra música. Trueba, sempre ele, encurtou o hiato de cinquenta anos entre Bebo e Dieguito “El Cigala” e juntou-os em estúdio. A lenda e o flamenco lado-a-lado, mas de olhos nos olhos. O mestre e a voz. São nove clássicos populares, nove pérolas reinterpretadas com arranjos de Bebo Valdéz. El Cigala envolve-se e empresta-lhes a dor e a pureza da alma gitana. Nieblas de Riachuelo ou o bolero Inolvidable são peças carregadas de intimismo onde a voz de Cigala percorre a saudade e a emoção do poema com as ganas e a paixão própria de um cantor de flamenco. Não há ali competição ou desgarradas, pelo contrário, os dois complementam-se, aproximam-se, voam o mesmo destino e as canções respiram um profundo respeito mútuo e a admiração de Cigala nos poucos e discretos olés aos solos de Bebo.

No tema Lágrimas Negras, o saxofone de Paquito D’Rivera entra de mansinho. Depois revolta-se. Cala-se para o solo do piano, para as palavras de Cigala e acaba perfilado com ambos a cantar a sua versão da história. A encerrar o disco, Cigala interpreta num portunhol escorreito e sensato o clássico Eu Sei Que Vou-te Amar da dupla Vinícius/Jobim. A meio da faixa a voz rende-se e, à solitude do piano de Bebo, junta-se Caetano Veloso que recita o poema Coração Vagabundo. Escreve Fernando Trueba - no pequeno diário de produção, paellas colectivas e ensaios no estúdio que acompanha o disco -, que foi um momento final de ojos húmedos. Antes disso, Bebo terá dito: “Yo soy un viejo. Mi cuerpo ya no funciona bien. Pero mi espíritu tiene veinte años”. Olé!

24/10/06

São Bagas, Senhor!, por Rainha Santa Isabel

Entre a enorme variedade de castas vínicas usadas em Portugal, há uma que se destaca pelo seu carácter indomável: falo da casta Baga, uma coisa terrível, um pesadelo para qualquer produtor, principalmente, pela sua adstringência radical. A Baga é uma casta típica da região da Bairrada. Durante muitos anos, quando a velhice dos vinhos ainda era considerada um factor de prestígio, a Baga era bem vista. Os taninos suavizavam com o tempo e, passados uns anos, valia a pena abrir uma garrafa bairradina. Ficaram famosos e ainda hoje são verdadeiras peças de culto, os tintos do Bussaco e, digo-vos eu, com inteira justiça.

Mas os vinhos não são uma excepção entre as coisas da vida. Vivemos numa sociedade apressada, que não tem tempo para deixar o vinho envelhecer serenamente. Instalou-se o culto do novo, nos vinhos como nas restantes coisas da vida. Na era da produção em série, não dá lucro produzir vinhos para envelhecerem. Agora os vinhos bebem-se novos, com um ou dois anos, feitos de castas macias, quentes, aveludadas, como os Shiraz ou os alentejanos Aragonês… Em matéria de vinhos, a pedofilia não é criminosa, muito pelo contrário.

Foi por isso que a casta Baga caiu nas ruas da amargura. Sem tempo para envelhecer as várias tentativas de produzir Bagas novos ficaram condenadas ao fracasso. Provei alguns mono varietais da casta, feitos na Bairrada, e só vos digo que aquilo era imbebível. Felizmente tiveram o bom senso de os retirar do mercado. Os produtores nunca conseguiram resolver o problema: ou se deixava envelhecer o Baga ou mais valia desistir de produzir vinhos novos com esta casta. Não fui o único a tirar esta conclusão. Os produtores Bairradinos também assim pensaram e, nos últimos anos, o Baga praticamente desapareceu da circulação. Declarada maldita, associal e indomável, a casta praticamente foi banida. Toda a Bairrada se rendeu. Toda? Não. Num pontozinho do reino, um produtor resistiu e continuou a produzir mono-varietais de casta Baga. E ainda bem que o fez.

Falo do produtor Luís Pato e, principalmente, do seu Baga 2005. Trata-se de uma ousadia e de um acto de resistência notáveis nos dias que correm. O Baga 2005 consegue o feito extraordinário – vá-se lá saber por que artes, mas eu não sou enólogo – de socializar, de domar a casta. Ainda por cima o preço, para o consumidor, é de uns incríveis 5 euros. O vinho mantém a agressividade e a adstringência típica dos Baga, mas controlada, equilibrada pelo corpo pujante. É uma óptima escolha que, imagino, se deve bater magnificamente com um prato forte. O Inverno está aí e este Baga 2005 apetece.

Com este excelente Baga 2005, resolve-se, enfim, a quadratura do círculo da Bairrada vinícola: o Baga mostra-se domável e sem precisar dos tradicionais anos de estágio. O de 2005, mais novito, uma criança, portanto, é o melhor, o de 2003 revela um estado ainda incipiente. Não sei se o produtor de uma tal maravilha, não deveria merecer o título de domador. A mim, parece-me que sim. Sempre gostei daqueles indivíduos que enfrentam leões armados com uma simples cadeira e com um chicote

23/10/06

As minhas leituras, por Jean Báljan

Há uns meses, mais ou menos, que quase não consigo ler nenhum livro até ao fim. Começo-os mas, miséria das misérias, não lhes consigo dar vazão suficiente: Não os acabo com a velocidade de outros tempos. Depois vão-se empilhando na mesinha de cabeceira. O Assis Pacheco em cima do Sepulveda, este por cima do Gao Xingjian, este por seu turno por cima do Krishnamurti por seu turno em cima do Olivier Rolin, por seu turno em cima do Abrunheiro por seu turno sobre um livrinho antigo e já amarelado sobre Ocultismo de um cavalheiro de que agora não me lembra a graça, etc., até quase esconder o candeeiro. E em cima disso tudo, uma Time (edição europeia) de há dois meses, uma Pública de há três semanas e uma National Geographic de há um ano e picos. Em contrapartida leio o Público todos os dias e revistas com fartura. Se bem que o Público também é leitura incompleta, já que passo à frente as páginas do futebol por ser alérgico ao desporto escrito e falado. Aliás, nas revistas também não leio tudo. Nos cafés leio o Diário de Coimbra, As Beiras, O Figueirense e, quando os há, o Correio da Figueira e a Voz da Figueira. Depois, farto-me de ler coisas na Internet, aderi ao vício das newsletters e recebo correio com novidades diárias, semanais ou quinzenais de coisas como o NY Times; a Maxideia; a Sapo Saúde; o What Doctors Don’t Tell You; a Foreign Policy; o boletim informativo da ONU (que tem um excelente serviço noticioso para assinantes); as Informações de Segurança do Millenium; as efemérides diárias (excelentes) do Canal História; os boletins do Ciência Hoje; os alertas do Google News sobre Portugal, Coimbra e Figueira da Foz; notícias da NASA sobre ocorrências e “inventos” no espaço; a news-letter do Health World Online; a news-letter da New Scientist; da BBC Science&Nature; a news-letter do Figueira.net; a da Human Rights Watch. E mais umas quantas de mais uns quantos temas e umas quantas geografias que ficam aqui de fora em nome do fastio. Tudo isto não substitui, obviamente, a leitura de livros, que se tornou prática eminentemente nocturna e de almofada: todas as noites um bocadinho obrigatório antes de cerrar a pestana. Já a leitura electrónica é para ir lendo ao longo do dia durante a jorna, se a jorna permitir. Além disto há os sites, os portais, o correio electrónico pessoal e os blogues, a que também vou dando uma pestanada, quando posso. Bem como as legendas dos filmes, dos documentários e das séries de ficção/estimação como os Sopranos, que de resto, tem argumentos/textos fabulosos. No elevador dou ainda uma vista de olhos ao Dicas e aos folhetos publicitários com que me enchem a caixa do correio e que às vezes trazem umas promoções catitas. Antes de jantar leio o correio postal mais sério e personalizado, quando o há. Na cagadeira gosto mais de revistas de informação geral e do Courrier Internacional. No caminho de casa para o trabalho e vice-versa, que faço a pé ou de bicicleta, não deixo ainda de ler os cartazes, os folhetos, as faixas e os mupis que me aparecem à frente. Quando me interessa, paro e leio tudo antes de reprosseguir. Também dedico uma parte dos meus dias a ler SMS’s e Messenger’s (ultimamente também leio as mensagens dos meus amigos que descobriram que o Gmail também tem um serviço de chat). Como entre outros ofícios, também sou agora editor de uma revista mensal, pelo menos uma semana por mês leio (e corrijo) todos os artigos a publicar. Além disto, quando vou às compras, leio os rótulos dos produtos. Por razão que adiante perceberão, também leio catálogos de editoras. Por mor de compor o orçamento, também leio transcrições de julgamentos. Leio ainda capas e brochuras de CD’s e DVD’s, bem como os ditados, graças e provérbios nos pacotes de açúcar. Às vezes, durante o dia, para desenjoar e como também trabalho numa livraria, pego num livro e leio um bocado. Quando aquele é de feição a agarrar-me pelos tomates, levo-o para casa e junto-o à pilha da mesinha de cabeceira para ir lendo mais devagarinho, umas linhas por noite até se me cansarem as pestanas.

22/10/06

Delibes, por Urko

A passada noite lia uma entrevista a Miguel Delibes, e confessava este que “"Antaño, todo hombre nacido de mujer se consideraba portador de cosas positivas, de algo digno, algo noble, unos valores, en suma. Pero la descendencia de Caín pesaba sobre nosotros, y el hombre que era portador de reservas morales se convirtió en un ser peligroso, maligno, de difícil definición. Ahora, el hombre miente, ataca, mata, hiere, viola y su presencia lógicamente engendra desconfianza. El hecho de ser parido por mujer no lo dignifica ni quiere decir nada".

Miguel Delibes é um dos melhores escritores de língua castelhana da segunda metade do século XX. Ainda hoje com 87 anos continua assistindo as tertúlias no café Continental e trata de corresponder aos seus conterrâneos que o cumprimentam durante o seu habitual passeio matinal no Campo Grande da cidade de Valladolid – berço e vida do seu quotidiano.

Don Miguel fazia esta confissão, quando se referia ao grave problema da imigração dos países africanos, que forma já parte do noticiário habitual no pais de al lado. O cenário dantesco se banaliza, é uma noticia diária, umas vezes cruel e outras vezes pior. Africanos adultos, adolescentes, crianças e grávidas, morrem o sobrevivem numa aventura para um destino aparentemente paradisíaco, vem desde as costas da Guiné, Gâmbia, Senegal ou Mauritânia, traçando uma travessia quilométrica em condições extremamente desumana, inenarráveis. Durante o percurso vão encontrando cadáveres - o mar também cobra a sua quota -, não desistem, antes a morte. Assistidos nas costas españolas uma maioria são repatriados -já são 76.000 os repatriados neste ano - outros sem identificação possível ficam em centros de acolhimento, a espera de não se sabem bem o quê, centros de portas abertas que os deixam soltos como se fossem cães vadios, – eles se crêem afortunados, pensam que assim é melhor, tal vez, uma boa oportunidade surja. No entanto, o pior só acaba de começar. À espera há policias e funcionários corruptos que prometem documentos em troca duma enorme suma de dinheiro, o simplesmente se apoderam de suas roupas, o favores sexuais em troca de nada, o são escravizados por salários inexistentes para mais tarde ser expulsos ou simplesmente denunciados. É este tipo de podridão que o nosso amigo Don Miguel, vê tristemente emergir nesta sociedade do bem-estar.

19/10/06

Marx e os Duendes, por Robin Wood

O marxismo, como todas as ortodoxias, tem as suas variantes, os seus subprodutos, as suas derivações, interpretações desviantes e até mesmo heterodoxias.

Não é como ideologia política que agora o marxismo me interessa, mas sim num sentido não menos ideológico, embora mais vasto, enquanto filosofia da História. O marxismo, como cientismo que é, julgou ter captado a lei e o sentido da História, tendo circunscrito esse entendimento a um enunciado racional e científico. A luta de classes e o materialismo histórico supunham a subalternização dos factores espirituais no desenvolvimento das sociedades. A religião era uma superstrutura ideológica usada como instrumento de repressão, segundo as teorizações de Louis Althusser, no sentido de manter os privilégios das classes dominantes, obstando aos ritmos de dinâmica, transformação e progresso da sociedade. Assim, por este mecanismo repressivo, se retardava o rumo e o sentido da História, mantendo privilégios de classe e reforçando a repressão.

Dentro desta concepção, o feudalismo medieval seria um estádio de transição entre o período esclavagista e o capitalismo moderno. O longo milénio de obscurantismo entre a queda do Império e a Renascença prolongou-se graças ao domínio despótico das classes senhoriais que, na defesa dos seus privilégios de classe usaram de todos os meios para retardar os ritmos do progresso e da mudança. A estaticidade medieval demonstrava quão despótica havia sido. As formas jurídicas de organização do Estado e da Sociedade, os regimes de propriedade senhorial, os mecanismos de controlo e produção cultural, as instituições e os discursos religiosos, tudo, a um nível ou a outro, de uma forma mais explícita ou subliminar, contribuía para o contrariar do sentido da História.

Georges Duby (1919–1996), apesar de haver desenvolvido os seus trabalhos entre a herança do estruturalismo e do marxismo, procurou sempre uma abordagem cultural e crítica do passado. Por isso, nunca foi um ortodoxo, nunca se limitou aos modelos de análise histórica, nem sequer renunciou à dimensão literária da produção historiográfica. O seu grande sucesso junto do grande público entende-se em relação com o trabalho de renovação historiográfica, descobrindo novas perspectivas, sempre muito enriquecedoras e fascinantes, na abordagem do passado histórico.

Partindo de uma formação marxista e de uma concepção estruturalista, Duby escreveu a mais marxista das suas obras, segundo os seus biógrafos, em 1973: Guerreiros e Camponeses. Logo o título deixa supor o que a obra analisa, isto é, as relações sociais na Idade Média de acordo com as concepções marxistas. O despotismo senhorial, ao apropriar-se do trabalho camponês, impede os ritmos da mudança e perpetua as desigualdades.

Todavia, Duby confronta-se com um problema. É que o surto de progresso e transformação nas sociedades medievais a partir dos finais do século XI, incontestável e surpreendente sob todos os ângulos de análise, mesmo na perspectiva da análise estruturalista, coincide com uma era de apogeu do poder senhorial. Isto é, a transformação observada não se compatibiliza com o interesse senhorial embora promovida pelo seu investimento. Duby atinge uma conclusão surpreendente: a circulação dos bens promovida pelos senhores feudais através de esmolas e generosas doações contribuiu de forma decisiva para o dinamismo económico, para a mudança social e para a desestruturação da sociedade medieval, sem que se possa afirmar ser essa atitude movida por um interesse material. Ou seja, não é um investimento.

Posto neste beco, Duby, na vez de torcer a realidade, como o faria um ortodoxo (aqueles por exemplo que olham para a revolução de 1383-85 como uma manifestação da luta de classes) recorre a outro prisma de análise. Encara então o despesismo nobiliárquico, não numa visão economicista, mas, seguindo pistas deixadas por outros historiadores, como uma generosidade caritativa, necessariamente exibicionista, como uma prodigalidade que contribui para a manutenção do prestígio social dos dadores. A riqueza assim posta a circular, e é este o magnífico golpe de asa de Duby, é encarada não num sentido produtivo, não como um investimento, mas como uma atitude mental. Ou seja, a análise económica do modelo marxista é preterida, ou complementada heterodoxamente, pela consideração de um factor cultural e mental. Isto abrirá rumos inteiramente novos no estudo e compreensão dos fenómenos históricos. Por exemplo, nessa altura, assiste-se a um enorme dinamismo no mundo rural. Um dos sinais desse dinamismo é o arroteamento de novas terras. Florestas são derrubadas, pântanos são drenados, encostas até então incultas são lavradas, terrenos arenosos são cultivados e a área arável aumenta consideravelmente. Logicamente, numa perspectiva estruturalista, tal se deve relacionar com o aumento demográfico que, por sua vez, resulta da melhoria material das condições de vida. Mas Duby encontra uma nova explicação, fascinante e surpreendente. A floresta é o espaço maravilhoso do mundo pagão. É onde habitam os duendes e as bruxas, os ogres e todos os seres fantásticos de uma mentalidade pagã. É o universo obscurantista prévio ao advento da Luz civilizadora do Cristianismo. Portanto «quando a floresta recua, é também o paganismo que regride» – refere o biógrafo de Georges Duby, Patrick Boucheron, que tenho vindo a seguir, concluindo: «e a conquista dos solos avança ao mesmo ritmo da cristianização da sociedade».

Desta perspectiva, a metáfora bíblica do semeador, do verbo e da terra, adquire um novo significado. A agricultura não é só uma actividade económica, adquire agora uma nova dimensão, cultural, mental e religiosa. O mosteiro medieval, não é apenas um símbolo de organização e estruturação social e religiosa, um centro de produção cultural e espiritual. O mosteiro e o convento, de Alcobaça, ou do Lorvão, de Arouca ou Santa Cruz, são autênticos colonatos, centros de difusão religiosa e espiritual, núcleos de conquista civilizacional que entendem o espaço como antro aberto à cristianização pelo arado. A agricultura é uma forma de evangelização, de submissão do mundo pagão e mágico às condições da refundação civilizacional promovida pelo Cristianismo. Trabalhar o campo é um acto cultural e civilizacional. Imaginem agora as novas possibilidades interpretativas que esta análise consente, ainda que só aqui desfolhada em termos superficiais. Quando D. Dinis planta o pinhal de Leiria, é uma natureza domesticada e saneada que ele promove, depois justamente de seu pai, Afonso III, ter concluído a reconquista do território e de haver expulsado os mouros. D. Dinis é o Lavrador, além do mais mestre na arte da palavra. E quando, por exemplo, D. Fernando promove a construção do Palácio da Pena em Sintra com aquele enquadramento paisagístico, teremos que ver nesta sensibilidade do príncipe alemão um traço que deve ser compaginado com o romantismo germânico que recupera toda a mitologia pagã de nibelungos e valquírias que tanto inspirarão, por exemplo, as ópera de Wagner, a epopeia germânica e o neopaganismo estético e ideológico do nacionalismo romântico. Da mesma maneira quando D. João V manda construir a tapada de Mafra. È uma natureza domesticada, hedonista, edénica, destinada ao prazer barroco. As expedições bandeirantes no Brasil amazónico são actos fundadores, tal como as viagens de exploração no interior da floresta africana. David Livingstone era um missionário e um desbravador, naturalmente, obviamente e não por coincidência. Tal como os jesuítas que penetraram no Brasil amazónico. Por outro lado, o regresso à floresta é sempre um gesto simbólico de exílio ou recusa da civilização e das normas sociais. Seja quando Rambo se isola na floresta e aí luta contra tudo e contra todos, seja quando Robin Wood e os seus amigos se escondem nas frondosas matas de Sherwood. E quando a mãe do Capuchinho Vermelho lhe diz para ter cuidado, para não seguir o caminho da floresta?

foto: http://www.forestserviceni.gov.uk/our_forests/forests/east%20district/Belvoir.htm

16/10/06

"Ligações Perigosas", por Le Chevalier

Ovídio, na «Arte de Amar», recomenda aos amantes o orgasmo simultâneo:

«Mas não deixes para trás a tua parceira, desfraldando mais largas velas,nem seja mais rápido o ritmo dela que o teu; avançai para a meta ao mesmo tempo, então, será pleno o prazer, quando, par a par, jazerem, vencidos, a mulher e o homem.»

Em todo o poema de Ovídio se detectará o espírito barroco. Os jogos de sedução, o elogio da mentira, o engano, o disfarce, a máscara, a traição, as aparências e os espelhos, os ambientes cortesãos, o culto do prazer, as intrigas palacianas, enfim, tudo o que se reencontrará no tardo-barroco às vésperas da Revolução. Nenhum filme o mostra tão bem como o "Ligações Perigosas" (1988) de Stephen Frears, baseado na novela de Choderlos de Laclos. A cena final em que Glen Close (Marquesa de Merteuil) retira a maquilhagem simboliza, como já muitos notaram, o fim do Antigo Regime. Como a morte em duelo de John Malkovic (Visconde de Valmont), às mãos do impulsivo Keanu Reeves (Chevalier Raphael Danceny) é uma metáfora da Revolução e um anúncio do espírito romântico. O fim de Malkovich, esvaído em sangue sobre a alva e álgida neve, é o fim de um tempo que será dado como vicioso e corrupto pelo puritanismo revolucionário. Mas, a morte de Malkovich implicará a morte de Michelle Pfeiffer, por desgosto de amor, incapaz de viver sem o amor pecaminoso que se impõe à sua vontade e a domina completamente. A paixão que Malkovich alimentara por Pfeiffer, e que julgara dentro do jogo calculista da perfídia barroca orientada para a intriga e para o prazer, revela-se afinal fora do controlo da vontade e da previsibilidade do cálculo. Malkovich, moribundo, confessa-se apaixonado na presença do seu jovem carrasco, Reeves, uma personagem já romântica. Desfalece logo após, no que é acompanhado pelo desfalecimento de Pfeiffer. Isto é, anuncia-se a Revolução quando Glen Close limpa o rosto, mas outra revolução se anuncia na morte simultânea dos dois amantes: o nascimento do amor romântico, decalcado já não de Ovídio mas do modelo shaekespeareano, um amor impossível e trágico. Não é o orgasmo que é simultâneo, é a morte simultânea dos amantes. Por amor.

08/10/06

Leituras – 1996, por Cão

A pedido de várias famílias e de outros tantos polemistas do nosso chiqueiro, aqui vai uma súmula “pró-goto” das leituras que me aconteceram em 1996.

Janeiro

Comecei a refrega com sete adaptações BD de outros tantos clássicos da literatura corrida. Nomes bons e grandes: O. Henry, Melville, Stevenson, Dumas (o papá), Shakespeare, Hawthorne e Rostand.

Depois, dei-me ao delíquio impressionista de um dos mais formosos prosadores da língua portuguesa: Wenceslau de Moraes (“Traços do Extremo Oriente”). Segui com Carlos Fuentes. A páginas tantas, estava de volta dos “Contos de Nick Adams” (muito bem escritos) de Hemingway. E Janeiro não acabou sem Borges (“Os Conjurados”) e um livro do meu amigo Joaquim Jorge Carvalho, “Zarco à Vela”.

Fevereiro

Fevereiro entrou com Bloch e o divino Ray Bradbury. Vai-não-vai, na noite de 14 acabei “Giulietta”, de Fellini. Houve o espanhol Javier Tomeo? Houve. Li as “Onze Histórias de Futebol”, do CJ Cela, e dois Woody Allen, “Não Bebas dessa Água” e “Annie Hall” (lembram-se do filme, claro).

Março

Em Março, li pouca coisa. Mas não deixo em claro “The Best of Saki”, um escritor inglês de princípios do XX que é de um humor perfeitamente corrosivo.

Abril

Abril foi melhor: o mágico Hammett, o mágico Poe e o mágico Lovecraft, entre outros de mediana magia. Também li uma coisa de que me esqueci: “Para uma Arqueologia do Discurso Imperial (elementos)”, de Fernando Gandra.

Maio

Em Maio, fiz 32 anos. Safoda. Li Camilo, Kundera, Tolstoi, Sylvia Plath (divinal “A Campânula de Vidro”) e Carpentier. E ainda um voluminho porreiraço: “Outstanding Short Stories”. Topem-me só os gajos (maila gaja) antologiados: HG Wells, O. Wilde, PG Wodehouse, Katherine Mansfield (esta é a gaja, ó Grunfo Sapock), EA Poe, Anthony Trollope e WS Maugham.

Junho

Junho e o carago, e aqui vai disto: a 18, uma obra-absolutamente-prima: “Winesburg, Ohio” do gigante Sherwood Anderson. Li uns portugueses muito fraquitos, ah pois li. Safodam. E li Thomas Mann, que não é português nem fraquito. Mais PJ Farmer (boa ficção científica).

Julho

Zinga-zinga, Julho. Entre outras merdas, espetei-lhe com “El Olor de la Guyaba” (o Gabo em conversa com Plinio Apuleyo Mendoza) e “A Festa de Mrs. Dalloway)” da maravilhosa louca que viveu sob o nome de Virginia Woolf. Lá mais para diante, o comovente “Adeus, Mr. Chips”, de James Hilton (todo o professor deveria ler este livrinho). Para o fim do mês, Carson McCullers (é gaja, ó Grunfo!) e Deus-em-Pessoa, isto é: Julio Cortázar (“Octaedro”).

Agosto

Foi um rico mês: li 18 coisas. Destaco: Javier Marías (“Vidas Escritas”), Calvino (“Porquê Ler os Clássicos?”), Erasmo (“Elogio da Loucura”) e um livrinho que muito poderia ser útil ao Grunfo: “As Onomatopeias e o Problema da Origem da Linguagem”, de Rodrigo de Sá Nogueira. Houve ainda tempo para Strindberg, Maruja Torres (gaja, espanhola), um Maigret (nº 585 da Vampiro) e mais umas tretas esquecíveis e esquecidas.

Setembro

Rica coisa, mamã: comecei Setembro com o meu adorado Nicholas Freeling (“Herança de um Inferno”, Vampiro nº 289). Também li aquela brincadeira do gordo brasileiro Jô Soares, “O Xangô de Baker Street”. Li um José Gil: “Salazar: a Retórica da Invisibilidade”. E “Infernos”, de “São” Genet.

Outubro

Dez livros em princípios desse outono acabado. Entre os quais, coisas mundiais: “Arte Poética – O Meridiano e Outros Textos” (Paul Celan), “Sob o Sol Jaguar” (I. Calvino), “A Era do Vazio” (G. Lipovetsky – leste, Baice?), “O Ministério do Medo” (G. Greene), “O Som e a Fúria” (outro Deus-na-Terra: W. Faulkner) e aquela coisa muito hippy & etc, “Siddharta” (H. Hesse). Também uma coisinha didáctica sobre as maçonarias, “As Sociedades Secretas”, de Serge Hutin.

Novembro

Uma coisa fantástica: “Amanhã na Batalha Pensa em Mim”, de Javier Marías. E foi o único em todo o mês. Devia ter mais que fazer.

Dezembro

Li dois Simenon em Dezembro, um dos quais fica aqui: “O Homem que Via Passar os Comboios”. Obra-primíssima: “Autobiografia do General Franco”, de Deus-Catalão: MV Montalbán. Mais um Cela esquecível. E, então, uma obra que relerei: “A Montanha Mágica”, de Thomas Mann – merece a fama. Li “A Boa Viúva”, do José Vilhena, e acabei com uma coisa extraordinária: de Marguerite Yourcenar (gaja, Grunfo, e fufa), “Peregrino e Estrangeiro”.

Não li Morris West.

05/10/06

Batiti, por Tatonas

O Batiti é um sem-abrigo aqui do meu bairro. Cheira mal, está todo esfarrapado, é doente mental, trata toda a gente por doutor, tem um cordel a servir de cinto, dorme debaixo de uns cartões, recusa ir para um lar, passa os dias a mendigar migalhas e a peregrinar de um lado para o outro. Bebe cerveja e come o que lhe dão. O Batiti acha que eu sou médico e cada vez que me vê chama-me doutor, mostra-me a perna toda esfolada e diz que lhe dói ali e pergunta-me se eu não lhe passo uma receita. Eu digo que não sou médico e o gajo não acredita. É doido. Hoje encontrei o Batiti à porta do centro comercial aqui do bairro. Uma coisa moderna. O Batiti chamou-me:
- Ó doutor, ó doutor, chegue aqui.
Eu lá lhe dei a resposta habitual: que não era médico, não lhe passava a receita, não lhe via a perna, não lhe dava dinheiro para os copos, etc. Mas o Batiti pediu-me se eu lhe podia comprar um pão do supermercado da cave do Centro Comercial e deu-me uma moeda de 50 cêntimos. O Batiti disse-me que o vigilante do centro não o deixava entrar.
Eu acho esta merda estrondoso, inaceitável, incrível e fascista! Nazi! Por todas as razões e mais algumas especiais. O Centro Comercial Dolce Vita, em Coimbra, foi construído em cima de um espaço público, que era de TODOS, que era a Praça Heróis do Ultramar. A Comunidade viu-se privada do espaço que tinha para aí se construir um centro comercial. E agora, os senhores vigilantes, que nem sequer são autoridade pública, impedem o acesso ao centro comercial do Batiti! Isto é pior do que no tempo do sr. prof. A.de O.S. Nesse tempo, de miséria e pobreza, escondia-se a pobreza proibindo-se a mendicidade por decreto. A obsessão higienista e a propaganda impunham-nos a ilusão de uma sociedade limpa. Agora, estamos pior: não há decretos, há usurpação do espaço público e vigilantes a cumprir ordens de administrações cegas e sem rosto, proibindo um CIDADÃO de comprar pão! Vamos escondê-los? Exterminá-los? Interná-los? Enxotá-los?

Foto: http://www.bized.ac.uk/images/homeless.jpg

03/10/06

Leituras – 1995, por Cão

No dia 3 de Janeiro de 1995, iniciei um registo de leituras. Fi-lo para mais tarde poder relacionar as coisas lidas com as vividas. Ainda bem que o fiz. Só tenho pena de não ter começado a fazê-lo mais cedo.
O mês de arranque foi muito bom: entre outros, Simenon (o autor de quem mais li até hoje), Eisner (BD) e o primeiro Chico Buarque (“Estorvo”). Andava sobretudo a curtir os policiais da Vampiro, então. Saltando no tempo, fez-se Março: na tarde do dia 14, acabei a leitura de “Pigmalión y Otros Relatos”, do grande M.V. Montalbán (até o Grunfo sabe que sim). Seguiram-se, salpicando aqui e ali, Mendoza, Goodis, Mosley, Böll, Vilhena. Também li merda: a série 08/15, do Kirst. Recuperei com Cucurull e, sobretudo, com o grande único maravilhoso genial Nicholas Freeling. Li Barthes, que me sobrava na estante desde a faculdade. Li vários Grimberg da História Universal (digestivos, fraquinhos, agradáveis). E então, na noite de 29 de Julho, a minha vida suspendeu-se, quiçá para sempre, com o fechar d’ “Os “Cadernos de Malte Laurids Brigge”, do colossal Rilke.
Seguiram-se Lodge, Chesterton, mais e mais Montalbán, Rendell (para descansar), London, Rulfo, Greene, Maupassant, Stoker, Pynn (fenómeno luso atraentíssimo), Helder, Highsmith, Twain, Hasek, Aymé, muita Agatha Christie e o divino Ítalo Calvino. O último livro que li esse ano foi uma antologia poética de Octavio Paz editada pelo Círculo de Leitores. Foi, realmente, terminar em paz. E em beleza, naturalmente.
E que tem o povo do Tapor a ver com isto? Tem tudo a ver: como o sacana do Grunfo Spock Grão me acicatou as vísceras, digo que, sinceramente, não consigo perder tempo com advogados do diabo. Isto não desfazendo, é claro.
Para a próxima, 1996.
Hasta la vista, baby. No problema.