31/03/10

O que aconteceu a Vercingetorix?


A Esfinge de Ouro (1971), segundo álbum da série de BD Alix, da autoria do Francês Jacques Martin, levanta um problema interessante. Martin procura em A esfinge de Ouro fazer uma homenagem de contornos nacionalistas à origem gaulesa de Alix. A saga de Vercingetorix, herói mítico da Gália na resistência contra as legiões invasores de Júlio César é uma figura incontornável. Martin não lhe resiste e promove, neste álbum, o encontro de Alix com o grande chefe gaulês. Isto não tem nada de estranho: Goscinny e Uderzo, segundo reza a lenda, ter-se-hão inspirado, precisamente, em Vercingetorix, para criarem Asterix…
No entanto, um problema depara-se a Martin que quer conservar o respeito que nutre por uma figura como Júlio César. Se Goscinny não teve qualquer problema em ridicularizar César – vide o pic deste post – já em Martin sentimos uma admiração óbvia pelo conquistador. O dilema é este: como ser elogioso para com o grande Vercingetorix sem denegrir César?
Há um momento histórico particularmente relevante na história destes dois grandes líderes. Trata-se da rendição de Vercingetorix. A história é conhecida – estamos na fase terminal do cerco de Alésia. Vercingetorix resiste em desespero aos romanos, até que chega um momento em que a rendição se torna imperiosa. Vercingetoriz decide então entregar-se aos romanos, tentando assim, poupar a vida dos seus homens. Plutarco narra-nos este momento:
«Vercingétorix não esperou que os centuriões romanos o arrastassem de pés e punhos atados até os joelhos de César. Montando um cavalo ajaezado como para um dia de batalha, vestindo ele próprio sua mais rica armadura, saiu da cidade e atravessou a galope a distância entre os dois acampamentos, até o lugar onde estava o procônsul. Fosse pois que a rapidez da corrida o levasse muito longe, fosse porque estivesse cumprindo apenas um cerimonial antiquado, ele girou em círculo em volta do tribunal, saltou do cavalo e tomando a espada, o dardo e o capacete, lançou-os aos pés do romano, sem pronunciar uma palavra. Esse gesto de Vercingétorix, seu brusco aparecimento, seu porte elevado, seu rosto orgulhoso e marcial causaram entre os espectadores uma comoção involuntária. César ficou surpreso e quase assustado. Guardou o silêncio por alguns instantes. Mas em seguida, explodindo em acusações e invectivas, censurou o gaulês por "sua antiga amizade, por seus benefícios que ele havia retribuído tão mal". Depois, fez um sinal a seus lictores para que o atassem e o arrastassem pelo acampamento. Vercingétorix sofreu em silêncio. Os lugares-tenentes, os tribunos, os centuriões que cercavam o procônsul, mesmo os soldados, pareciam vivamente comovidos. O espetáculo de um tão grande e nobre infortúnio falava a todas as almas. Somente César permaneceu frio e cruel. »
Adrian Galsworthy, um dos melhores biógrafos contemporâneos de César, confirma que o Romano se descontrolou em vez de manter a fleuma devida à nobreza do gesto do gaulês. O mesmo dizem a velhinha história de C. Cantu e o historiador contemporâneo Simon Baker («Roma - Ascensão e Queda de Um Império»). Segundo as várias versões, César estava «passado» pelo tempo improvável (10 anos!) que a campanha da Gália tinha durado, afastando-o assim dos seus interesses vitais em Roma. E, desde logo, fez pagar bem caro a Vercingetorix a sua ousadia, como admite Plutarco («Depois, fez um sinal a seus lictores para que o atassem e o arrastassem pelo acampamento»).
Ora bem, Jacques Martin, no seu Alix, contorna completamente esta visão dos factos. Em Alix César reconhece a nobreza do guerreiro gaulês e apenas lhe diz, cito, «devido à coragem excepcional deste homem (…) não me quero deixar arrastar pelo ressentimento. Tratem-no com todas as honras devidas à sua categoria. Vai, podes retirar-te.»
Na última tira deste episódio vemos um Vercingetórix imponente a afastar-se de César, numa pose de grande dignidade. E a seguir César preocupa-se com Alexandria que a Gália está conquistada…
Mas como reconhecem os historiadores, o que se passou foi exactamente o contrário: infelizmente, César deixou-se mesmo levar pelo ressentimento e castigou o gaulês. Martin resolveu assim o seu dilema, apresentando os dois adversários como dois dignos e nobres adversários. E, em particular, deixou-nos a imagem de um César magnânimo… Era bom, era...
Martin é ainda por cima omisso numa outra questão: o que foi feito de Vercingetorix a partir daqui? Que tratamento lhe deram os romanos? Muito se passou depois disto. Vercingetorix vive ainda mais seis anos e é conduzido a Roma, mas o criador de Alix, foge deste tema e prefere deixar os seus jovens leitores de Tintin com a versão «descafeinada» dos factos. Mas a crueldade de César, que Martin parece querer ocultar, vai muito mais longe.
A literatura a este respeito é unânime quanto aos aspectos gerais e, mais uma vez, Plutarco resume os factos:
«Vercingétorix foi conduzido a Roma e lançado num cárcere infecto, onde esperou durante seis anos que o vencedor viesse exibir no Capitólio o orgulho de seu triunfo. Pois somente nesse dia o patriota gaulês haveria de encontrar, sob o machado do carrasco, o fim de sua humilhação e de seus sofrimentos. »
O desgraçado Gaulês era para ser exibido como troféu em Roma e passou os seis derradeiros anos da sua vida numa prisão romana. Sobre a forma como foi morto, a versão de Plutarco («sob o machado») não é unânime. Galsworthy, por exemplo, diz que ele foi morto por estrangulamento, o que faz sentido pois era uma espécie de morte ritual que os romanos davam aos seus presos de guerra mais ilustres.
O que é certo é que Martin, preso da sua ideia de César e do facto de ser um autor de uma série juvenil, fugiu destas matérias mais hard. Mas entre o episódio da rendição de Vercingetorix e a sua morte em Roma, muito mais se passou. Porém é sobre esse período de tempo que me tem sido muito difícil encontrar informação. O único escritor, que não historiador, que li que diz alguma coisa sobre este período de tempo é o francês Max Gallo na sua biografia romanceada de César. Segundo ele, Vercingetorix terá sido obrigado a passar pelas linhas perfiladas das legiões romanas, para ser golpeado por cada romano. Terá sobrevivido – não sei quanto tempo terá demorado esta tortura. Depois, ainda segundo Gallo, ter-lhe-ão quebrado os braços e as pernas e tê-lo-ão atirado para uma gaiola minúscula. Vercingetorix foi assim conduzido a Roma, neste estado, numa gaiola que seguia na retaguarda das legiões. Durante a viagem terá sido do vítima do escárnio e da crueldade dos romanos. Não li esta versão dos factos em mais nenhum livro e Gallo é assumidamente um romancista e não um historiador. Mas terá inventado? Afinal o que aconteceu realmente a Vercingetorix?
P.S. Vercingetorix foi vítima da crueldade romana. Mas também estava longe de ser um santo. Uma das histórias mais impressionantes a seu respeito narra a sua cruel decisão de, em desespero de causa, é certo, ter obrigado todas as mulheres, velhos e crianças a abandonarem Alésia cercada para pedirem acolhimento aos Romanos. Já não havia mantimentos para aquela gente inútil e Vercingetorix tentou que ela se tornasse um fardo para César. Só não contou com a frieza glacial deste. César impediu os romanos de acolherem aqueles desgraçados que foram obrigados a voltar para Alésia. Como Vercingetorix também não os acolheu de volta, para ali ficaram entre os dois exércitos a morrerem ao frio e de fome. Tanto César como o chefe Gaulês assistiram a tudo numa espécie de braço de ferro cruel. Martin também nunca nos apresenta, em Alix, este lado lunar de Vecingetorix…

2 comentários:

Anónimo disse...

Excelente post! É também para isto que serve o porco. Só um pequeno reparo: não fazes menção ao testemunho directo do próprio Júlio Cesar, no seu A Conquista da Gália. É tendensioso, já se sabe, mas talvez fosse interessante.


Tulius Detritus

Anónimo disse...

Obrigado pela sugestão Tulius. Não sou especialista em história, não passo de um curioso e ainda não li a obra que referes. Mas vou procurar e ver o que ele diz. Gratias pela indicação...