
Trata-se de um cenário extra terrestre, de um resto de estrela a
poucos metros de nós. A lava mexe-se como se fosse um pequeno mar de fogo a
querer sair da terra. A cor é indizível. Fumos castanhos e cinzentos invadem o
ar. Há ruídos crepitantes de fogueiras a arderem debaixo da terra. De que cor é
esta lava? Nem vermelha (é mais forte que vermelho) nem laranja (é mais forte
que laranja). É mar mas de fogo, é gravidade materializada e fervente. Lá em
baixo, na orla do vulcão há rochas negras como breu, um cenário infernal saído
dos quadros de Bosch.
Bobadilla e os seus conquistadores espanhóis ficaram
siderados quando viram o que eu vejo agora! Pensaram estar perante uma das
portas do inferno, julgaram ver ali o começo do reino dos demónios. Chamaram a
este sítio las puertas del inferno (hoje,
em globês, gates of hell), mas em
sentido literal, não era nenhuma metáfora. A designação é a tradução fiel da
mentalidade quinhentista para quem o inferno era bem real, isto é, ocupava, de
facto, um lugar, um topos, situava-se
algures, não era uma u-topia. E sabia-se até que ficava em baixo, no fundo de
um abismo sem fim por onde os anjos revoltosos de Lúcifer levaram 999 (?) dias
a cair. Para Bobadilla e os seus guerreiros espanhóis aquelas ondas de fogo
fervente só podiam ser a face visível desse mundo ígneo.
Mas não foram apenas os conquistadores espanhóis a associarem
este espectáculo a forças maléficas. As tribos indígenas pré-colombianas usavam
esta mesma cratera de fogo como uma espécie de rocha tarpeia romana mas em
versão escaldante. Este local foi um palco de sacrifícios humanos e os deuses
lhes valessem, às vítimas, para que morressem na queda antes de serem engolidas
por esta enorme boca de fogo. Era o preço a pagar para apaziguar os demónios
que habitam no interior das profundezas. Talvez assim eles não se enfureçam e
não vomitem a lava que cobre as montanhas em redor

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