
Agora a Nicarágua do progressista Daniel Ortega resolveu
fechar-lhes a fronteira e, em consequência, acumulam-se milhares de refugiados
africanos do lado de cá, da Costa Rica. Têm a cor da pele a identificar-lhes o
desespero, são distintos e receados pelos nativos costa riquenhos que alertam
nos telejornais contra a insegurança. Têm razão, claro, mas poucos lembram que
os africanos são, também eles, vítimas de exploração desenfreada
A decisão da Nicarágua de travar esta gente na fronteira é
pouco compreensível porque os refugiados não querem ficar na Nicarágua – que já
tem problemas de sobra – mas apenas atravessar o país para chegar aos Estados
Unidos. O resultado é dramático para os africanos e para as populações costa
riquinhas fronteiriças. Como esta zona é uma selva tropical mais ou menos
cerrada, o cenário não é parecido com o que vemos na europa onde os campos de
refugiados estão situados em espaços abertos (e inóspitos) e perfeitamente
demarcados por vedações (de arame farpado). Mas o problema não é estético: a
segurança é, simplesmente, mais difícil de assegurar assim, com tanta gente
espalhada por extensões enormes de selva. Compreende-se o receio sentido pelas
populações locais, pequenas aldeias ou mesmo barracas isoladas, quando se vêm,
subitamente, cercadas por milhares de desesperados. Naturalmente que há roubos,
se eu estivesse na pele dos africanos, claro que roubaria umas galinhas para
comer. Mas também compreendo a hostilidade de alguns «ticos», basta um simples
exercício de empatia, coloquemo-nos no seu lugar… Marvin, um costa riquenho que
conheci, diz-me que as populações tentam ajudar os refugiados: um banho hoje,
comida amanhã, mas isto é possível por um, dois, três dias e insustentável ao
quarto.
Por outro lado, pouco se fala da situação desesperada dos
africanos. Não apenas da sua saga insana, mas do facto de, também eles, aqui
chegados, serem vítimas de exploração de máfias organizadas e de assaltos
perpetrados por bandidos locais que lhes roubam o nada que possuem. Como
entender, então, a decisão do presidente Ortega, os destacamentos de polícia de
choque na fronteira da Nicarágua, armaduras medievais couraçadas e AK 47 a
tiracolo? Eleições, explica-me Marvin. Seguro: quando há eleições na Nicarágua,
Ortega arranja uma complicação com a Costa Rica. A estratégia é universal, da
América à Ásia – unir os seus apontando um inimigo comum. O inimigo comum une -
nicos contra ticos
Os mais prejudicados são os refugiados africanos que apenas
pedem que os deixem passar. E ainda não vão nem a meio na sua longa e
impensável viagem, de rastos pela África desolada, de cargueiro clandestino até
ao Brasil ou ao canal do Panamá, a pé pelas florestas da Colômbia, da Venezuela
ou da Costa Rica, enfrentando feras não apenas humanas... Se passarem a
fronteira da Nicarágua, se conseguirem fintar Ortega e os seus «nicos» armados até
aos dentes, ainda têm pela frente El Salvador, as Honduras, a Guatemala ou o
infinito México até chegarem ao el dorado
norte americano… Para esbarrarem, enfim, nos muros visíveis e invisíveis dos
Trump. A saga desta gente, afinal, ainda mal começou.
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