30/05/05

A Traição Francesa, por J Monet

Ver e ouvir fascistas, comunistas, nacionalistas, trotskystas, socialistas desiludidos, xenófobos e outros egoístas a cantarem em coro afinado a Marselhesa fez-me mal. Mas como é que o Le Pen pode cantar «Aux armes citoyens / Formez vos bataillons / Marchons, marchons» - em coro com os comunistas? É incrível. Como é que a Marselhesa se transformou num hino nacionalista? A Marselhesa é o hino de todos os que acreditam no progresso da Humanidade, no valor da Fraternidade e na universalidade dos princípios. Por isso, o Non do referendo foi a traição histórica da França relativamente ao seu maior legado civilizacional: a herança de 1789. Sem França não há Europa e a França veio dizer que troca a ideia de uma Europa unida por causa de uma comichão no umbigo! A comichão é o nacionalismo, é o particular a impor-se ao universal, é o imediato a toldar a visão do horizonte longínquo, é a conveniência, é o egoísmo, é o mesquinho a ditar regras à história. A França está com comichão e acha que a Europa deve pagar por isso.
O nacionalismo foi a principal causa de morte na Europa e no Mundo durante o século XX. Desde a guerra franco-prussiana, ainda no século XIX, até à guerra da Bósnia, milhões, dezenas de milhões, porventura centenas de milhões de europeus morreram em nome da causa mais estúpida e idiota que imaginar se pode: o amor da Pátria! Não contentes com esta burrice, a maior burrice da história, exportámos esta causa de morte para todo o Mundo. Na Ásia, na África, na América Latina e um pouco por todo o planeta, durante um século morreu-se à europeia: em nome da Pátria! Esta burrice tinha que acabar. Após a 2ª Guerra Mundial, a Europa lança-se no esforço de reconstrução e Jean Monet teve uma visão histórica: «Nous ne coalisons pas des Etats, nous unissons des hommes.» Monet foi um dos pais da ideia de Europa. O nacionalismo romântico, em parte herdeiro e em parte degeneração dos ideais revolucionários de 1789, era assim recolocado na sua justa direcção ao apontar o destino histórico da Europa. Relançar a utopia e, em nome de um ideal, construir uma Europa nova, a Europa dos cidadãos, unida do Atlântico aos Urais.
Não me venham dizer que a França disse Non em nome deste ideal! Não, a França disse Non porque tem medo do turco que diabolizou, porque é xenófoba e quer correr com os magrebinos, porque está farta de portugueses e polacos (o canalizador polaco, como disse a comentadora Teresa de Sousa na TV2 foi o símbolo da demagogia propagandista na campanha pelo Non), porque quer proteccionismo aduaneiro (onde já vai o laissez faire, laissez passer?), porque quer fazer da Europa uma cidadela de conforto isolada da ameça comercial dos chineses, da invasão de polacos e magrebinos, porque não quer que os seus netos tenham apelidos esquisitos.
A França, de motor porgressista da Europa, tornou-se na pátria do reaccionarismo. Isto já se adivinhava quando as multidões diziam que Noah e Zidane não eram franceses, quando subsidiaram artificialmente uma cultura oficiosa, quando quiseram impor que todas as palavras e frases, escritas ou ditas, fossem traduzidas para francês, quando quiseram combater Hollywood com filmes medíocres mas franceses quando, em suma, a França se tornou anti-americana. Jean François Revel já tinha mostrado como este anti-americanismo primário era sinal de uma decadência e de um espírito xenófobo latente. Em torno da demagogia simplória e da propaganda anti-americana, combatia-se pela mesma medida Bush e Hollywood, a Mcdonald's e o Texas, metendo no mesmo saco e agregando tudo contra a América. Ser anti-americano era ser contra a globalização, a globalização era a causa de todos os males e combatê-la era um acto de nacionalismo e devoção patriótica que unia esquerda e direita, ateus e agnósticos, católicos e marxistas, fascistas e gaullistas. Chirac foi a imagem polida desta idiotice histórica. Morreu agora, vítima da sua estupidez! Ele devia saber que a história não se decide nas ruas. Se queria Oui, fazia como a Alemanha e ratificava o tratado constitucional no Parlamento. Se queria Non referendava. Chirac queria Oui e referendou! Nunca me pareceu muito inteligente. A mim, nunca me enganou! Por isso, deixo a minha homenagem a Monet.

PS - Mas há esperança, porque houve 45% de franceses que disseram Oui! Os urbanos. As cidades votaram Oui.
Muito gostaria eu que a esquerda radical aplicasse os mesmos critériios que aplica quando os resultados referendários lhe não são favoráveis:
a) Repete-se o referendo daqui a um ano.
b) Até lá gastam-se milhões em propaganda oficial a favor do sim (lembram-se da Dinamarca?)
c) Associa-se o Non à rusticidade, fazendo passar a ideia de que o Non é provinciano, rural e retrógado, enquanto o Oui é progressista, vanguardista, urbano e intelectual
d) De preferência ratifica-se o tratado constitucional no Parlamento.

26/05/05

A lista dos 100, por João Bénard da Costa, by Mangas

I. OS GIGANTES
(por ordem alfabética de realizadores)
DREYER, Cari T - DU SKAL AERE DIN HUSTRU ; LA PASSION DE JEANNE D'ARC ; ORDFT ; GERTRUD
GODARD, Jean-Luc - VIVRE SA VIE ; LE MEPRIS ; SAUVE QUI PEUT (LA VIE) ; NOUVELEE VAGUE
LANG, Fritz - DER MUDE TOD ; M ; LILIOM ; DER TIGER VON ESCHNAPUR/DAS INDISCHE GRABMAL
RENOIR, Jean - LA NUIT DU CARREFOUR ; LA RÈGLE DU JEU ; LE CARROSSE D'OR ; ELENA ET LES HOMMES
ROSSELLINI, Roberto - GERMANIA, ANNO ZERO; EUROPA 51; VIAGGIO IN ITALIA; DIE ANGST (LA PAURA)
II . OS MUITO AMADOS
(por ordem alfabética de realizadores)

BERGMAN, Ingmar – SOMMARLEK ; PERSONA ; AUS DEM LEBEN DER
MARIONETTEN
BRESSON, Robert – PICKPOCKET ; AU HASARD, BALTHASAR ; LE DIABLE
PROBABLEMENT
BUÑUEL, Luis - BELLE DE JOUR; TRISTANA ; CET OBSCUR OBJET DU DÉSIR
DEMY, Jacques - LOLA ; LA BAIE DES ANGES ; LES PARAPLUIES DE CHERBOURG
MURNAU, Friedrich-Wilhelm - NOSFERATU; TARTÜFF; FAUST
OLIVEIRA, Manoel de – FRANCISCA; LE SOULIER DE SATIN; VALE ABRAÃO
OPHULS, Max – LIEBELEI; LA RONDE; LOLA MONTÊS
POWELL, Michael e PRESSBURGER, Emeric - I KNOW WHERE I'M GOING; A MATTER OF LIFE AND DEATH; GONE TO EARTH
ROHMER, Eric - LOUIS LUMIÈRE; LE BEAU MARIAGE ; LE RAYON VERT
SCHROETER, Werner - PALERMO ODER WOLFSBURG; DER ROSENKÓNIG; MALINA
SYBERBERG, Hans-Jurgen - HITLER, EIN FILM AUS DEUTSCHLAND ; PARSIFAL ; DIE NACHT
VISCONTI, Luchino – SENSO ; LE NOTTI BIANCHE; L`INNOCENTE
III . ALGUNS DOS OUTROS
(por ordem alfabética de realizadores)
ANTONIONI, Michelangelo - IL MISTERO DI OBERWALD
ARLISS, Leslie - THE MAN IN GREY
BAKY, Josef von - MUNCHHAUSEN
BARNET, Boris - U SAMOGO SINEVO MORIA
BECKER, Jacques - CASQUE D'OR ; LE TROU
COCTEAU, Jean - LA BELLE ET LA BETE
DOVJENKO, Aleksandr - ZEMLIA ; AEROGRAD
EISENSTEIN, Sergei Mikhailovich - IVAN GROZNY
ELEK, Judit - VIZGALATS MARTINOVICS IGNAC - SZASZVARI AP AT ES TACSAI UGYEBEN
ERICE, Victor - EL SOL DEL MEMBRILLO
EUSTACHE, Jean - LA MAMAN ET LA PUTAIN
GAD, Urban - DIE ARME JENNY
GARREL, Philippe - LA CICATRICE INTÉRIEURE
GENINA, Augusto - IL CIELO SULLA PALLUDE
GREVILLE, Edmond T. - BRIEF ECSTASY
GUITRY, Sacha - LA POISON
HARTL, Karl - DIE GRAFFIN VON MONTE-CRISTO
HITCHCOCK, Alfred - YOUNG AND INNOCENT
LORRE, Peter -DER VERLORENE
MONTEIRO, João César - RECORDAÇÕES DA CASA AMARELA
MUNK, Andrzej - PASAZERKA
MUR OTI, Manuel - CIELO NEGRO
PARADJANOV, Sergei - SAYAT NOVA
PASOLINI, Pier Paolo - UCCELLACCI E UCCELLINT; SALO O LE 120 GIORNATE DI SODOMA
REINHARDT, Max - DIE INSEL DER SEELIGEN
REIS, António e CORDEIRO, Margarida - TRÁS-OS-MONTES
RIEFENSTAHL, Leni - TRIUMPH DES WILLENS
RIVETTE, Jacques - LA RELIGIEUSE
ROCHA, Paulo - A ILHA DOS AMORES
ROZIER, Jacques - MAINE- OCÉAN
SCHMID, Daniel - IL BACIO DI TOSCA
SJOSTROM, Victor - BERG- EJVIND OCH HANS HUSTRU; UNDER THE RED ROBE
SKOLIMOWSKI, Jerzy - MOONLIGHTING
STERNBERG, Josef von - DER BLAUE ENGEL
STILLER, Mauritz - HERR ARNES PENGAR
STRAUB, Jean-Marie e HUILLET, Danièle - CHRONIK DER ANNA MAGDALENA BACH
TRUFFAUT, François – JULES ET JIM ; LES DEUX ANGLAISES ET LE CONTI NENT
VIGO, Jean - L`ATALANTE
WILDER, Billy - MAUVAISE GRAINE

in, “100 Dias 100 Filmes”, edição da Cinemateca Portuguesa - Museu do Cinema, 1994.

25/05/05

100 Filmes, por João Bénard da Costa & Mangas

A propósito de listas de filmes, preferências e da subjectividade que lhes é inerente, não resisti a publicar o texto que João Bénard da Costa escreveu para “100 Dias 100 Filmes”, catálogo publicado pela Cinemateca Portuguesa e integrado no programa de “Lisboa 94 – Capital Europeia da Cultura”.

«PRELÚDIO E POST SCRIPTUM AOS MEUS 100 MELHORES FILMES EUROPEUS.
“Um peru” - disse um gourmet célebre – “é um animal execrável. Pequeno demais para dois, grande demais para um”. Cem é um número igualmente execrável, quando se trata de uma lista destas. Parece que nos vamos poder servir à vontade e no fim verifica-se que ficamos cheios de fome. Não dá para o rigor mortal da escolha de “10” ou “20” ou “50”, mas também não permite qualquer esbanjamento. Dá-nos uma falsa ilusão de abundância, mas depressa lhe descobrimos a escassez.

A minha primeira lista (feita “à vontade”) quadruplicou o número de possibilidades. Na segunda, comecei a economizar e cheguei aos 200 títulos. Reduzi-os a 100, demorou-me meses e obrigou-me a opções penosas. Para o conseguir, tive de estabelecer uma regra para o meu jogo. Essa regra veio direitinha da “politique des auteurs” e da minha velha fidelidade a ela.

Na primeira jogada, perguntei-me quem eram, indiscutivelmente, os gigantes do cinema europeu, os maiores dos maiores. Dreyer, Godard, Lang, Renoir e Rossellini foi a resposta que ouvi no meu espelho mágico. Perguntei-lhe por Hitchcock e o espelho respondeu-me que Hitchcock só é Hitchcock por causa da sua fase americana. Com má consciência - miséria a quanto obrigas – deixei-me convencer. Obediente à hierarquia, escolhi cinco filmes de cada um desses cinco. Descobri, no fim de mais uma lista, que ainda ultrapassava os 100. Reduzi para quatro, o que me obrigou a sacrificar Mikael de Dreyer, À Bout de Souffle de Godard, Das Testament des Dr. Mabuse de Lang e La Bête Humaine de Renoir. Arranquei esses filmes – cinco dos meus filmes preferidos – como arranquei alguns dentes.

Depois, perguntei-me (segunda jogada), quem eram, indiscutivelmente, os autores que, além dos cinco citados, eu mais amava. Obtive 12 nomes, a que não podia fugir sem renegar pai e mãe: Bergman, Bresson, Buñuel, Demy, Murnau, Oliveira, Ophuls, Powell, Rohmer, Schroeter, Syberberg e Visconti. Escolhi, em primeira instância, quatro filmes de cada um. A consequência dessa verdade, fez-me ultrapassar, de novo, os 100. E reduzi para três, o que me obrigava a sacrificar Vargtimmen de Bergman, Les Dames de Bois de Boulogne de Bresson, La Voie Lactée de Buñuel, Trois Places pour le 26 de Demy, Der Letzte Mann de Murnau, Amor de Perdição de Oliveira, La Signora di Tutti de Ophuls, The Thief of Bagdad de Powell, Ma Muit Chez Maud de Rohmer, Der Tod des Maria Malibran de Schroeder, Ludwig de Syberberg e Vaghe Stelle dell`Orse de Visconti. Ou seja, menos doze dentes.

Com a boca tão desdentada, tinha já 56 filmes. Ficavam-me menos de 50 (menos de 50%) para as apostas simples, ou seja as não obrigadas a autor. Pelo caminho, foram desaparecendo os dezanove dentes que me restavam: Amphytrion de Schunzel, Fortini-Cani e Nicht Versohnt dos Straub, Aerograd de Dovjenko, Repulsion de Polanski, Desiré de Sacha Guitry, Le Rideau Cramoisi de Astruc, Un Soir... Un Train... de Delvaux, La Tête Contre les Murs de Franju, 1860 de Blasetti, L`Amour Fou de Rivette, Muriel de Resnais, Et La Lumière Fut de Iosseliani, La Chute de la Mison de Usher de Epstein, Hintertreppe de Jessner, Aguiree de Herzog, Die Buchse der Pandora de Pabst, San Toit ni Loi de Agnés Varda, Dorogoi Tsenoi de Donskoi, El Sur de Victor Erice e Poema o More de Yulia Solntseva.

Com as gengivas descarnadas, já engoli que Under Capricorn de Hitchcock e Pandora de Lewin eram filmes americanos, que Douglas Sirk nunca se chamou Detlef Sierk e que Muratova ainda está por provar.

Só no fim reparei – lapsus calami – que na minha lista não figura nenhum filme de Tati. Mas é verdade que me esqueci dele e, com tanta penúria e tanta miséria, aceitei a voz do meu inconsciente.

Se me tivessem deixado escolher 150 filmes, ainda tinha juntado aos 42 a menos (Tati figuraria com Playtime e Mon Oncle), Le Peti Théatre de Jean Renoir, Vredens Dag de Dreyer, Ansikte mit Ansikte de Bergman, Frenzy de Hitchcock, Madame De... de Ophuls, Der Tod des Empedokles de Straub-Huillet, Une Sale Histoire de Eustache, Les Enfants Désaccordés de Garrel, e Frankenstein Created Woman de Terence Fisher.
Mas o facto é que não deixaram e os cinquenta filmes que cito aqui são a homenagem que o vício presta à virtude. Demais se eu que para efeitos de contas, e para contas de efeitos, de nada me serve citá-los.
Os 100 são os 100. E, de acordo com os critérios explicados, vão a seguir.»

Bénard da Costa termina com uma lista de 100 filmes dividida em três partes:
I. Os Gigantes
II. Os Muito Amados
III. Alguns dos Outros

Confesso que nunca vi muitos dos títulos escolhidos pelo autor. E o que me ocorre de imediato, após ler esta catalogada incursão pelos filmes de uma vida, é a complexidade da escolha, a dor decorrente do sacrifício e a vastíssima celebração que o cinema pode proporcionar a quem o contempla. Amanhã vou ver o Episódio III da Saga. O fim de um ciclo que começou há 28 anos atrás. Amanhã vai ser dia de celebração.

24/05/05

Safoda a Bola, por J Trineto

São sempre uma delícia, as listas dos “melhores de”. Melhores do ano, melhores do mês, melhores do século, melhores da cantadeira, etc. Quando não se concorda, então, melhor ainda. São uns óptimos pretextos para desopilar a bilis , estes “rankings”. Desta vez são os «100 melhores filmes da história do cinema», e foram escolhidos pela última edição da prestigiada revista norte-americana Time. Não aparece nenhum português, mas os tipos, definitivamente, não foram facciosos. Grande parte das fitas até são “estrangeiras”, sobretudo europeias. À cabeça, destaco o facto de terem eleito o fabuloso e inesquecível Hable com Ella, do espanhol Pedro Almodóvar, como o melhor desta década. Bom prenúncio, portanto, para esta lista, onde os críticos de cinema Richard Schickel e Richard Corliss escolheram «nove grandes filmes para nove décadas», assinalando desta forma igualmente os 90 anos de existência da publicação.
Eis então, para a Time, os melhores filmes de cada decénio:
Anos 20 - Metropolis (1927), de Fritz Lang
Anos 30 - Dodsworth (1936), de William Wyler
Anos 40 - Citizen Kane (1941), de Orson Welles
Anos 50 - Ikuru (1952), de Akira Kurosawa
Anos 60 - Persona (1966), de Ingmar Bergman
Anos 70 - Chinatown (1974), de Romam Polanski
Anos 80 - Decalogue (1988), de Krysztof Kielowski
Anos 90 - Pulp Fiction (1994), de Quentin Tarantino
Anos 2000 - Hable com ella (2002), de Pedro Almodôvar.

11/05/05

Subtilezas, por Ó Jóta Arrendonda a Saia Ó Jóta Arrendonda-a Bem da Imaculada Conceição

Há pouco tempo falou-se aqui da relação entre o cliente/cidadão/consumidor e o trinómio instituições/comércio/serviços. Mestre Mangas trouxe para este fórum suino a sua gratificante experiência com uma cadeia de hamburgarias dos States, que trata os clientes nas palminhas e atende, de facto, às reclamações, por mais ridículas que pareçam. Em contraponto, claro está, ao panorama terceiro-mundista e relaxado do nosso país. Pelo meio, aconteceu-me um caso que pode ser encarado como uma excepção exemplar, além de remeter para a polémica da “arte útil” no que respeita à sinalização pública.
Há algum tempo fui a Serralves, aos jardins, ao Siza, etc., corri aquilo tudo. No fim, à saída do Museu de Arte Contemporânea, dei com a caixa de reclamações e sugestões, um grande cubo transparente, vazia e a pedir estreia. Peguei no papelito, elogiei o que havia para elogiar e fiz um reparo, relativamente à sinalética, designadamente aos símbolos abstractos que diferenciam os sexos nos sanitários, bonitos, talvez, mas incompreensíveis para o comum dos cidadãos. Por mais de uma vez passei perto dos wc’s e o panorama era sempre o mesmo: Senhoras e senhores, meninos e meninas, completamente baralhados, a olhar para os bonecos nas portas como bois para um palácio e a fazer complexas equações de cabeça para descobrir a qual pertenciam. Muitos, obviamente, arriscavam às “cegas” e entravam numa qualquer. Não raro, iam ao engano e saíam a fugir aos gritinhos, “ái que me enganei!”. Enfim, uma bonecada completamente abstrusa e nada prática ou informativa. Afinfei no papelito e sai dali satisfeito.
Passado cerca de um mês recebi via correio electrónico a seguinte carta, assinada nem mais que pela excelentíssima senhora doutora Directora Geral, Odete Patrício:

Exm. Senhor,

Gostaríamos, antes de mais, de agradecer a visita que efectuou à Fundação de Serralves, bem como a comunicação que nos endereçou e que mereceu toda a nossa atenção.
É para nós fundamental dispor das opiniões e apreciações dos nossos visitantes, para que possamos implementar acções que visem a constante melhoria dos serviços que prestamos. O nosso objectivo primordial é transformar cada visita efectuada à Fundação de Serralves numa experiência única e muito agradável.
Relativamente ao comentário que formalizou aquando da sua visita, não queríamos deixar de lhe referir o quanto o mesmo nos deixa satisfeitos por se traduzir na confirmação dos nossos objectivos diários. Quanto à sinalética dos sanitários estamos cientes que é bastante subtil mas faz parte integrante do projecto do Arq. Álvaro Siza, pelo que não a podemos alterar.
Aproveitamos para informar que no próximo dia 7 de Maio vamos inaugurar 3 exposições dedicadas às obras de Paulo Nozolino e Gregor Schneider no Museu e Ana Jota na Casa de Serralves, as quais, estamos certos, merecerão uma visita especial. Para mais informações acerca das nossas actividades, sugerimos uma consulta ao site www.serralves.pt, o qual é actualizado regularmente ou tornar-se AMIGO de Serralves usufruindo assim dos benefícios previstos para este núcleo de visitantes.
Agradecendo a disponibilidade em nos ter contactado, ficamos ao seu inteiro dispor para qualquer informação adicional através da DG – Relações Públicas – Assunção Cálem (22 615 65 28).

Com os nossos melhores cumprimentos,

tal e tal,

08/05/05

Vigor da Mocidade, 75 anos de... vida! , por Mangas

O fiel leitor do Porco que nos perdoe, mas todos nós somos animais de paixões e por elas nos debatemos, sobre elas teorizamos, com elas andamos ao sol, porque a sombra é boa para os pálidos de pele que lhes pica o suor, como cantava o Júlio Iglesias. Quer isto dizer que por aqui, ama-se um filme, como se ama um filho; relê-se um livro, vezes sem conta, porque o Porco é um animal de imaginário e nele viaja ao sabor dos vagalhões. O vinho que demoradamente se saboreia, a caldeirada que se mastiga e o charuto que se esvai na cinza da madrugada, são rituais de ardente religiosidade e inigualável apetite. O deporto em geral, e o futebol em particular, são práticas generalizadas por estas bandas e também fazem parte da lista desse debate ideológico. Como tal, o fiel leitor que nos perdoe a ousadia de encher o chouriço do Tapor com coisas da bola.

Mas, para terminar este ciclo de sapientes dissertações à volta do fenómeno futebolístico e desanuviar o ambiente, contar-vos-ei uma história que se passou comigo. Descansem: não vos trago a análise detalhada do jogo sustentado, tão pouco a observação in loco da pré-época do poderoso Chelsea ou do gigante A.C. Milan. O que compartilho com vocês é a face copo&bucha do amadorismo na Divisão Distrital. A grande diferença está no poder do negócio, no dinheiro envolvido, nas infra-estruturas, e enfim, em tudo o resto do qual a poderosa máquina do profissionalismo suporta e sustenta. Asseguro-vos porém que durante um jogo dos Distritais, o apoio dos sócios, vizinhos ou simpatizantes, namoradas, esposas, filhos e enteados, patrões ou colegas da fábrica, vale o mesmo que os cânticos de uma claque organizada nas bancadas do Cam Nou! E um derby entre equipas de terras vizinhas ou da mesma freguesia, não tenham dúvidas, é a doer! No seio de qualquer equipa, é limpinho que as faltas ou atrasos aos treinos são penalizadas com multas para um saco comum que revertem numa jantarada no final de época; quando os desafios são decisivos e podem ditar uma subida ao escalão superior, fazem-se pequenos estágios antes dos jogos, quase sempre em tasco patrocinador a designar pelo presidente ou na sede do clube onde o rancho, os matrecos e uma suecada antes da palestra do Mister, ajudam a relaxar os mais calmeirões antes da refrega e a fortalecer o espírito de grupo. É assim que pelas Distritais deste país se vive a paixão pelo futebol. Devo dizer-vos também, e por uma questão de justiça, que não são raros os casos em que clubes são veículos genuínos na prestação de bons serviços à comunidade, quer pela organização de iniciativas desportivas e recreativas, quer pelas Secções criados no seu seio de apoio a modalidades e ocupação de tempos livres para rapaziada mais nova.

Esta aconteceu-me a mim, que durante alguns anos dividi os ossos do ofício entre os crónicos do hospital e os cromos do Grupo Recreativo Vigor da Mocidade, esse Clube baluarte de Fala, que este ano comemora o 75º aniversário e ao qual se presta, com esta narrativa verídica, uma homenagem saudosista desses bons velhos tempos. O Vigor jogava nessa época 98-99 na 1ª Divisão dos distritais de Coimbra e o treinador, apologista dos jogos-treino a meio da semana com outras equipas, marcou a quinta-feira para irmos ao campo do Mirandense. Era Fevereiro e chegámos a Miranda debaixo de temporal! Chuva intensa, frio, fortíssimas rajadas de vento, trovoada. O único abrigo resguardado de toda aquela tempestade medonha era dentro do balneário. Um bom balneário, devo acrescentar, ao contrário dos muitos que apanhei, como em Gavinhos, onde havia apenas três chuveiros alimentados por uma caldeira ferrugenta lá fora, na parede esburacada junto ao solo barrento que escoava as mijadelas lá de dentro. O do Mirandense, não. Era grande, asseado, azulejos brancos, duches com saboneteira, tudo impecável. O jogo-treino em si foi uma desgraça! Campo completamente alagado a dificultar a progressão da bola, vento traiçoeiro, lama, aos suplentes nem havia coragem para lhes pedir que fossem aquecendo - ficavam-se nas imediações do balneário, enroscados nos impermeáveis como pintos, debaixo dos telheiros contíguos. Foi um alívio geral quando aquilo acabou e um duche quente era um prémio mais do que merecido a todos aqueles bravos que tinham para ali andado a saltar obstáculos 90 minutos como andorinhas na borrasca.

É aqui que a drama se precipita. Já com os jogadores todos debaixo do banho temperado, num ambiente característico de descompressão e espuma, entre a discussão calorosa daquele livre que podias ter dado para o lado e uma densa neblina de vapor condensado que tornava a coisa próxima de uma sauna colectiva, ouve-se um estrondoso relâmpago e falta a luz. Fica tudo às escuras. A primeira reacção foi uma assobiadela monumental, protestos, caralhadas, e quem é o filho da puta que me tirou a toalha! Passou-se um minuto, dois, o coro de protestos aumenta, a confusão é tão geral como o apagão, alguns jogadores apanhados a meio da secagem não conseguem localizar as roupas e berram com frio, o desconforto é cada vez maior. E é aqui que eu entro. Iluminado por uma ideia simples e armado em McGyver com moleirinha de Prof. Pardal, lembro-me que o no meu saco está a luz que iluminará as trevas. É que os vulgares sprays milagrosos têm na sua composição cloreto de etílico que em contacto com a atmosfera cria uma reacção de baixa temperatura que actua instantaneamente sobre a dor. Daí o lendário epíteto de spays milagrosos. Porém, esta composição é altamente inflamável e enquanto estudante, raros foram os estágios fora de casa em que um frasco não desse para assar, pelo menos, meia dúzia de chouriças. Os frascos que trazia naquela noite, ainda por cima, eram munidos de um dispositivo protector da natureza, sem SFC adicionado, logo sem pulverização, logo, mistura pura e líquida, logo, mais chama, mais luz. Brilhante! Desnecessário será descrever-vos os breves segundos que se seguiram à primeira esguichadela de cloreto de etílico no chão do balneário e ao resultado do fósforo que lhe deu vida: uma chama bonita, azulada e bem definida que resgatou das trevas e do frio aqueles rapazes. Pobres almas... Soubessem eles o que os esperava a seguir e não teriam aplaudido, cantado e sacudido os corpos nus à volta da fogueira, como demónios ressuscitadas.

Aquilo encheu-me a alma, caralho! Era o meu golo de penálti! Os cânticos saudavam o meu nome com o mesmo frenesim que o Profeta teria sido aclamado, alguns até dançavam como índios em homenagem ao grande Manitou. No espaço de um minuto, fiz outra fogueira, e outra, e outra, multipliquei a luz, era o Senhor das Fogueiras, o Feiticeiro das Labaredas que excomunga o medo da noite. Nem no Paleolítico os gajos celebraram tanto, acreditem-me! Mas a química não joga aos dados e os Deuses iraram-se com a minha cagança de alquimista distrital: o vapor circundante dos banhos impediu a propagação no ar do gás tóxico resultante das várias combustões e este condensou-se na atmosfera. Factor “X”: the unexpected. Nunca tinha visto, nem cheirado coisa semelhante àquela malina fétida e mortal, garanto-vos! Awschvitz devia ter começado assim. Rapidamente, uma onda gasosa impossível de respirar entranhou-se-nos nas gargantas, como cactos pela goela abaixo. Era como aspirar um veneno ácido que bloqueava os pulmões. Imaginai-vos a inalar uma espécie de água tónica sulfurada no estado gasoso, numa tarde quente de verão, dentro de uma sauna escura: assim era o tormento! Alguém tosse, ouço gritos de pânico e pressinto os primeiros sinais de perigo! Começo a apagar os pequenos infernos, (o que não foi fácil, como calculam!) e a encaminhar os rapazes para a porta. Por nesta altura, vários tossem em simultâneo e distingo claramente os berros de vários jogadores misturados pelos quatro cantos do balneário à procura da porta de saída. A visibilidade era quase nula, as tosses sufocadas multiplicam-se, e apercebo-me então que alguns conseguiram escapar e andam lá fora como Nosso Senhor os trouxe ao mundo, à procura de oxigénio como do pão para a boca, debaixo da chuva gelada batida a vento. Rapidamente e aos encontrões, seguiram-se-lhes os restantes com a ajuda de alguns directores que vieram em auxílio. Eu continuei lá dentro, já sem os anéis de pirotécnico iluminado e com uma toalha húmida no rosto para continuar a respirar, tentando desesperadamente certificar-me que não tinha ficado para trás nenhum defesa central latagão com perda de consciência. A cada passo, prometia ao Todo Poderoso um donativo generoso as bombeiros se, no final da tragédia, só sobrassem risos. Tentava gritar: “Está aí alguém?”, mas cada vez que abria a boca, a mistura pestilenta invadia-me os pulmões e bloqueava a respiração. Era escusado. Quando saí, os olhos ardiam-me e os brônquios ameaçavam saltar-me pela boca a cada inspiração. Tão célere foi o salvamento, como fugaz tinha sido o triunfo.

E só sobraram os risos. Felizmente. A luz veio logo a seguir e acabámos a noite a comer umas sandochas, a beber uns tintos para desentupir as goelas e a rirmo-nos do incidente. Não houve vítimas nem constipações, pois que no Vigor as gentes e os atletas são como o aço! Gente boa e generosa que ao longo dos anos sempre me privilegiou com amizade e afecto.

Mas ainda hoje, quando algum dos sobreviventes da noite mais tenebrosa dessa época gloriosa em que subimos à Honra, me procura para lhe tratar o joelho, enfrenta-me com um sorriso malandro a bailar-lhe nos olhos e atira-me, à procura da cumplicidade daqueles breves segundos que pareceram uma eternidade:
“- E naquela noite em que você nos ia assando a todos como a leitões nos fornos? Lembra-se...? AHAHAHAHA!”

Eu vou atrás da gargalhada, mas humildemente e num gesto discreto, levo a mão ao peito para tocar o crucifixo e lembro-me de dar outro donativo aos Bombeiros.

03/05/05

Coisas de Traduções - Primeira Parte, por Automotora


The Lady in the Lake, de Raymond Chandler

Tendo eu lá em casa duas edições diferentes da obra acima referida, nem perguntem porquê, e apanhando-me desocupado, pus-me a comparar as respectivas traduções. Para ver o que o escritor afinal queria, fui à net e a custo lá encontrei um bocado do original. Conclui então que são insondáveis e solitários os mistérios da cabeça dos tradutores. Reparem:

The Treloar Building was, and is, on Olive Street, near Sixth Avenue, on the west side. The sidewalk in front of it had been built of black and white rubber blocks. They were taking them up now to give to the government, and a hatless pale man with a face like a building superintendent was watching the work and looking as if it was breaking is heart.
(No original)

O edifício Treloar ficava e ainda fica na Olive Street, perto da Sexta Avenida, do lado poente. Por requisição do governo, andavam a levantar os ladrilhos da calçada, feitos em borracha preta e branca. Um homem macilento, de cabeça descoberta e aspecto de fiscal, vigiava a obra, que parecia despedaçar-lhe o coração.
(Tradução de Ruth Belger para Livros do Brasil, Colecção Vampiro)

Perto da Sexta Avenida, do seu lado oeste, situava-se o edifício Treloar. O passeio em frente fora construído em ladrilho de borracha preta e branca que, por ordem do governo, estavam agora a ser levantados. Um fiscal, de ar macilento e cabeça destapada, vigiava a obra, com a qual parecia não concordar.
(Tradução de Jorge Pinheiro para Biblioteca Visão, Colecção Lipton)

Chamou-me logo a atenção o facto de ambos os tradutores terem acordado tacitamente que o homem que vigiava, por ser pálido, devia ter um ar macilento. Ficou adoentado, talvez até tuberculoso, quando o problema se resumiria a alguma prolongada falta de sol ou a um recente desgosto. Ou talvez fosse simplesmente sueco. Ambos concordam também sobre as coordenadas do edifício, embora o primeiro, mais romântico, se sinta na necessidade de informar que esse é o lado onde o sol se pôe todos os dias. O segundo diz, no entanto, que o edifício “situava-se”, simplesmente, o que faz supôr que já não se situa. Terá entretanto sido demolido, ardeu, caiu, kaput. A narrativa foi empurrada para um futuro longinquo de grandes transformações imobiliárias. O narrador, o próprio Marlowe, coitado, terá também assim envelhecido cinquenta anos desde o original à segunda tradução. A tal rua é a Olive Street, como nos informa o escritor, mas o segundo tradutor, estranhamente, não lhe faz qualquer referência. Terá achado, talvez, que já não precisavamos de saber o nome da rua onde se situava o edifício defunto. Aliás, este tradutor é mesmo bastante avarento nas informações. Vejamos: enquanto no original e na primeira tradução os ladrilhos eram levantados para serem dados ao governo, na segunda eram levantados simplesmente por ordem do governo, sem se revelar se o seu destino imediato seria um armazém do governo ou o joe sucateiro. Não sabemos igualmente, nesta versão livre, qual o estado de espírito do homem que assistia à obra. Enquanto na primeira, mais fiel ao original, se informa que o pobre do homem ficou com o coração despedaçado, na segunda apenas se diz que o homem não concorda com o que vê. O leitor fica assim impedido de verter uma lagrimazinha pelo desgosto do homem. Convém ainda assinalar que nem no original nem na primeira tradução se informa qual a profissão do homem. Apenas se diz que tinha cara de fiscal de obras, seja lá o que isso for. Ora o segundo tradutor parece ter achado que se o homem tinha cara de fiscal de obras, era forçosamente fiscal de obras. Teriamos então que numa adaptação cinematográfica desta versão, o homem talvez aparecesse com farda de fiscal de obras. O pobre coitado, talvez já a gozar a reforma, que talvez tivesse ali parado por acaso, a caminho do Central Park para ir dar comida aos pombos, ficou assim nomeado para uma tarefa bem chata. Pensando bem, talvez o homem nem aparecesse de todo em qualquer filme. Não me lembro já bem do resto do livro, mas acho que o papel do homem se resume a estar parado naquele parágrafo com cara de parvo. A última vez que ninguém o viu, passada uma hora e meia hora, estava ele a ser comido por pombos no Central Park. Desconfio mesmo que nunca se falou tanto nele quanto neste pobre e efémero post. Ou talvez o homem seja uma breve aparição do próprio Raymond Chandler na sua obra, ao estilo do Hitchcok nos seus filmes.

E é tudo. Agora aceitam-se novas traduções fantasiosas, comentários críticos e manifestações de carinho sobre a lendária Colecção Vampiro. Da outra não vale muito a pena falar. Já agora, algum porco quer continuar com outras duplas ou triplas traduções?

27/04/05

"O cliente em sempre razão, made in USA. Por Mangas

A propósito do post do Manelinho veio-me à memória uma situação semelhante pela qual passei no verão de 94, em Flint, Michigan. Devo dizer que neste aspecto das reclamações em estabelecimentos comerciais, sejam eles restaurantes, lojas de vestuário ou animais decorativos, os americanos, (de acordo com a minha experiência), têm uma concepção muito pragmática de resolver as situações com o mínimo desgaste possível para o cliente e sempre na perspectiva de evitar males maiores para a loja – processos judiciais que, para além de serem péssima publicidade, podem acarretar grossas indemnizações. Por isso, deitam-se ao chão, literalmente! Têm, atrevo-me a dizer e sem excepção, em cada loja, um departamento vocacionado para atender as reclamações dos clientes e fazem-no não como se nos estivessem a prestar um favor, mas com aquele sorriso colgate para amansar os espíritos reclamantes mais incendiados.

Assisti a várias situações destas. Não há ali trombas, ou “o senhor não se soube explicar no pedido que efectuou”, ou “não podemos trocar porque o produto já foi usado”, ou desculpas burocráticas de quem quer salvar uns cobres ao patrão. Nada disso. Vê-se que aquele pessoal sabe o que está a fazer, tem a lição bem estudada porque certamente teve formação específica, sabe de relações humanas, tem meios para accionar com a maior brevidade possível os mecanismos que compensem o prejuízo de quem reclama, salvaguardem a credibilidade do estabelecimento e devolvam a satisfação ao cliente. O cliente tem sempre razão, nunca me pareceu mais verdade do que ali.

Penso que muitos factores estarão subjacentes a esta filosofia de transacção/assistência que não se esgota quando o produto ou bem é vendido. Ocorrem-me dois: a competição feroz do mercado americano e o quanto ele é fértil em exemplos de avultadas indemnizações, porque sim, porque o cliente tinha legitimidade na sua reclamação e a razão estava do seu lado, ou por toma lá aquele palha, e afinal o manual de instruções do micro-ondas não dizia nada sobre os efeitos da sua utilização em gatos vivos ou porque a Philip Morris não advertiu por escrito que o Marlboro pode provocar cancro da laringe.

A minha única experiência. Uma bela tarde a caminho de casa, paro no Rally`s Hamburger, - os melhores hamburgers americanos! -, peço um combinado com batatas fritas e coca-cola, instalo-me confortavelmente no sofá para ver o Brasil-Suécia na televisão para o campeonato do mundo 94, dou a primeira trincadela no hamburger e sabe-me a sal. Excessivamente salgado. Porra! Dou o benefício da dúvida, abocanho mais uma vez e sabe-me a salgado novamente! Na América sê americano, pensei, agarro no cupão que vinha dentro do saco, ligo o número grátis de reclamações, atendem-me de Kentucky, explico o que se passou à operadora de serviço, esta ouve-me até ao fim, desfaz-se em amabilidades e desculpas, pergunta-me que pedido tinha eu feito, pede-me a minha direcção e a localização do Rally`s onde fiz a compra. Diz-me que iria imediatamente entrar em contacto com a loja e em breve receberia notícias. Ponto final. Não dei mais importância ao assunto, era só um hamburgeur afinal de contas, mas passados exactamente dois dias recebo uma carta no correio que guardo até hoje e passo a transcrever:

« To :Mr. F.
Endereço, Flint, Michigan

Dear Mr. F:
Obrigado por ter despendido do seu tempo para telefonar para o nosso Courtesy Department com os seus comentários. Sem sombra de dúvida, a parte mais frustrante do meu trabalho é quando ouço que um Cliente teve uma experiência menos que perfeita num dos nossos restaurantes.

A filosofia do Rally`s é servir os nossos Clientes sempre com a mais elevada qualidade, produtos frescos, de forma rápida e cortês. Graças aos nossos altos standards de exigência, tornamo-nos no #1 na indústria do fast food, em três áreas que são as mais críticas para o nosso sucesso: valor, qualidade e serviço.

Por favor, permita-me endereçar-lhe as minhas mais sinceras desculpas pelo pedido insatisfatório que recebeu. Ainda que a sua chamada tenha sido atendida pela Connie do nosso Courtesy Dept., posso assegurar-lhe que cada um e todos os níveis responsáveis pela gestão do nosso restaurante em Flint, já receberam uma cópia com os seus comentários. Quando receber esta carta, todos esses níveis de gestão já tomaram medidas para corrigir os problemas que o senhor encontrou.

Quando regressar ao nosso restaurante em Flint, se a sua visita não estiver ao nível das suas exigências, por favor telefone-nos novamente. Sem este tipo de feedback, muitos “serious issues”, não seriam detectáveis. Obrigado pela sua preocupação e por ser uma parte grande e importante do nosso sucesso!

Sincerely,
David Peterman, Executive Vice President Operations
Endereço, Louisville, Ky, 40223, (502) 245-8900 »

Resta acrescentar que junto vinha um cheque-vale para o Rally`s no valor do pedido que eu tinha feito dois dias antes. Simpático, breve, eficaz. E nunca deixei de ir ao Rally`s que tinha umas óptimas batatas fritas com pele. Nesta conjuntura de reclamações e atendimento, ficavas tu sem escrever um único Tratado Taurino, Chibanga...!

21/04/05

A Abominação, por J Panhanganana

Respondendo então à vaga de fundo que foi gerada nesse sentido, avanço então com o meu elo para a tal “cadeia de literatura” que nos foi transmitida pelo estimado cliente e amigo riacho). Acho que a ideia é falar um bocado de livros, a propósito de um inquérito do tipo dos que são feitos pelos «jornais em Agosto quando não têm assunto nenhum». De resto e para voltar a citar o irmão dervixe rodopiante (1), cognominado “O boé da giro” (2), que afirmou em sede própria «abominar» tal prática, visto que «as perguntas são incongruentes e simplistas e as respostas só podem ser a condizer». A opinião do mestre, no entanto, é plena de duplicidade, sinal da sua imensa sabedoria e complexidade. Assim, não só pactuou naquela outra instância com a abominação (3), como incentivou à sua multiplicação (4) e, já nesta instância, à sua descentralização (5). Assim se cumpre aqui o seu misterioso desígnio.:

Não podendo sair do Fahrenheit 451, que livro quererias ser?
– A resposta gira seria o próprio Fahrenheit 451, que não é de todo descabido pela mensagem e qualidade da obra. Mas a sério, se tivesse que me tornar um livro encornava a última edição da Enciclopédia Britânica.
Já alguma vez ficaste apanhadinha(o) por um personagem de ficção?
– Apanhadinho, apanhadinho, acho que não. O mais próximo talvez seja o Corto Maltese, esse herói carismático, aventureiro, místico e Cavalheiro da Fortuna, eterno romântico galante dos sete mares. Por outro lado perturbaram-me, durante algum tempo, personagens estranhos como Mersault ou Gregor Samsa Em miúdo sim, aí fiquei apanhadinho por muitos, do Conan ao Vickie, o Tarzan, o Robin dos Bosques (Errol Flyn), o David Crocket, etc..
Qual foi o último livro que compraste?
- “Aventuras do Capitão Hatteras”. Último volume da colecção Júlio Verne do Público.
Qual o último livro que leste?
– Até ao fim, “The historical figure of Jesus”, de EP Sanders.
Que livros estás a ler?
– Nos intervalos dos jornais e das revistas, releio “O Nome da Rosa”, Umberto Eco. Em ritmo mais lento um livro sobre o Caravaggio, de Gilles Lambert. E, a propósito de poste recente no tapor, atirei-me finalmente ao calhamaço “Os Criadores” (Uma história dos Heróis da Imaginação), de Daniel J. Boorstin.
Que livros (5) levarias para uma ilha deserta?
- Aquelas opções práticas que o irmão dervixe rodopiante mencionou na tasca do riacho (obras sobre carpintaria, técnicas de sobrevivência, etc). Mas levava o D. Quixote, sim senhor, e mais alguns que ainda não li, como o sempre referido Ulisses, a Íliada e a Odisseia numa tradução decente (parece que a última em português é muito boa), O Livro do Desassossego, o USA do John dos Passos, e talvez uma coisa mais espiritual, tipo Siddharta do Herman Hesse, que tenho mas nunca calhou ler.
A quem vais passar este testemunho (3 pessoas) e porquê?
- Não sei.

De modo que é assim.

(1) «Ó Riacho este teu desafio ao Tapor acho que não vai surtir grande efeito por lá. Não sei se algum de nós tem vontade de postar com isto. Eu por mim abomino este tipo de coisas. Isto fazem os jornais em Agosto quando não têm assunto nenhum. As perguntas são incongruentes e simplistas e as respostas só podem ser a condizer. Perguntar por exemplo quais eram os cinco livros que levaria para uma ilha deserta só me levaria a responder que levaria os seguintes:1º- Manual do Escuteiro Mirim de Como fazer Fogo a partir de paus e pedras.2º- Guia de Sobrevivência do soldado ou de como pescar com as mãos e caçar com paus.3º- Elucidário botânico de como identificar as bagas, plantas e frutos comestíveis.4º- A Carpintaria prática em 10 lições ou de como fazer uma barracas com paus e folhas.5º- Simposium de farmacologia natural a partir das plantas.E se me fosse permitido um sexto livrito ainda seguia o fabuloso: Faça a Sua própria jangada em 5 lições.DervixeRodopiante (in http://alfa-e-omega.blogspot.com/ aos 04.21.05 - 6:52 am

(2) «Este Dervixe é boé da giro...Mefi»Anonymous (in
http://alfa-e-omega.blogspot.com/ aos04.21.05 - 12:52 pm)

(3) «Agora se para uma estância de férias de luxo na praia, com comida e bebida ao lado e um serviçal atento para o resto da vida onde iria penar durante 1 anito por exemplo e só me fosse permitido levar 5 livros então acho que levaria os seguintes:1º- Ulisses, de James Joyce2º- Cem Anos de Solidão, de Gabriel García-Marquez,3º- Viagem ao Fim da Noite, de Céline4º- Conversa na Catedral, de Mário Vargas-Lhosa5º- Dom Quixote de La Mancha, de Cervantes»DervixeRodopiante (in
http://alfa-e-omega.blogspot.com/, aos 04.21.05 - 6:58 am»

(4) «Ó Simplesmente Nhanha vai é lá ao Tapor cumprir a corrente da Riacho. E mal por mal, sempre se fala de livros que é sempre bem.E agora que falo nisso há dois outros fundamentais que também tinham que ir: A Bíblia e o Paraíso Perdido do John Milton.»Dervixe (in
http://alfa-e-omega.blogspot.com/ aos 04.21.05 - 12:00 pm)

(5) «Ó Panahanahgnaha tu é que eras gajo catita para responder ao desafio da Riacho. Mete poste sobre isto, que eu no blog dela já respondi por mim.»Dervixe (in http://www.tapornumporco.blogspot.com/ aos 04.21.05 - 12:13 pm

16/04/05

Prosa Pós Profes, por Profe (Jocta) Panhanha phd em reportáge

Movido por um misto de curiosidade pessoal e profissional, ontem ao fim da tarde fui ouvir o profe Marcelo Rebelo de Sousa, ao Casino da Figueira da Foz. O homem veio encerrar umas jornadas da Associação de Jovens Advogados do Centro e do Arquivo da UC. Veio falar das suas memórias de professor universitário de Direito, sobretudo na alma mater Universidade de Lisboa (UL), onde se formou a rebentar a escala, se doutorou em Ciências Jurídico-Políticas e é hoje professor catedrático. Não dei o tempo por perdido. O profe, perito em sínteses e em cativar audiências, discorreu durante cerca de uma hora em grande aceleração verbal pelo seu passado de, precisamente: profe. Desde os princípios dos anos 70, passando por uma revolução («tive a felicidade de ter podido viver uma revolução aos 23 anos, é a melhor altura da vida para se viver uma revolução», disse Marcelo com saudades) e atravessando estas três décadas democráticas. Não se falou de política (pelo menos directamente), não se falou do Expresso nem das dezenas de livros que produziu, nem das obras jurídicas. Foi sobretudo em torno da sua experiência enquanto professor, professor e comunicador por vocação e distinção. Uma aula que o magnífico gongórico Rui de Alarcão apelidou, extasiado, de «magnificente» no final. A sério. Fez uma breve regressão a um passado mais fundo da vida, no início, para dar contexto familiar à vocação, e ao convívio íntimo do pai com Marcelo Caetano, que já em criança lhe despertava a vontade de ser quando fosse grande «professor catedrático».
Fait divers: Marcelo Caetano não foi padrinho de baptismo do profe, apesar de convidado pelo pai Baltazar, invocando uma questão de princípio para recusar: Os padrinhos não devem ser mais velhos que os pais, para poderem estar lá em apoio do afilhado quando os pais falecerem, em princípio mais cedo. A sério.
Marcelo, liberal e pró-democrata apesar das simpatias familiares, foi sintomaticamente dos poucos profes, na altura assistente, a não ser saneado pelos comités revolucionários, sobretudo estudantis, que tomaram conta do poder nas universidades após o 25 de Abril. Se a de Coimbra foi tomada pelos comunistas, apesar de tudo uma malta mais “soft”, da UEC, na UL venceram os radicais maoistas do MRPP, gente de gadelha sebenta até aos mamilos adepta do livrinho vermelho chinês, como Durão Barroso ou Ana Gomes na vanguarda em Direito. Na UL foi quase tudo varrido dos corpos docentes, já que eram raros os que não tinham colaborado com o regime anterior, seja como membros de governos, seja como procuradores das câmaras corporativas, etc. Em Direito só ficaram três, um deles Marcelo. O outro, Marcelo, foi para o Brasil. Em suma, o profe saiu também por solidariedade para com os saneados, mas achou, ou pelo menos é assim que hoje sente esse passado, aquilo tudo uma grande excitação! O homem é de facto uma força da natureza e faz lembrar uma mosca, atenta e rapidíssima, sem perder a compostura, o charme e a simpatia. Depois é enciclopédico, e até as maiores banalidades lhe saem com brilho e graça. Um predestinado da docência com um currículo de 350 páginas. «Os fins de regime são sempre esteticamente bonitos», esta frase foi uma das poucas que acabei por registar no bloco, a velocidade do discurso tornava quase impossível a tarefa e a partir de um certo ponto deixou de me interessar a caneta e o bloco, fiquei absorto e tentei registar com a memória. Aqui vos deixo um cheirinho, só para dar nota da análise que o profe faz, nestes trinta anos de ensino, às diferentes gerações de alunos que lhe têm passado pelas salas de aula. A partir dos anos 90 foi sempre a descer. Primeiro, ao contrário do espírito mais solidário que se vivia entre os estudantes nos anos 70 ou 80, começou a imperar a parir daí o individualismo feroz, fruto de uma concorrência que já se fazia antever de um mercado de trabalho cada vez mais esgotado, começaram aí os principais e primeiros problemas de acesso de licenciados ao emprego. «Cada qual por si e Deus por todos e, para os não católicos, ninguém por ninguém», seria genericamente o lema. Depois começou a instalar-se rapidamente a mancha negra da ignorância, boi que o profe não quis chamar pelo nome, relativizando o fenómeno com o excesso de informação que lhes entra hoje nas cabecinhas: «Não têm tempo para gerir tanta informação, há menos qualidade». Por um lado uma crescente incapacidade de perceberem um conceito abstracto, que tem de ser explicado tim tim por tim tim como se explicam coisas às crianças, e acima de tudo como se toda a anterior escolaridade tivesse desaparecido por um vórtex ao fundo do cerebelo, por outro graves lacunas culturais e educacionais de base. «Grandes buracos formativos de base», nas palavras do profe, que ainda não se habituou ao tratamento de polé que é dado, mesmo pelos melhores alunos do curso, à língua portuguesa. Isso, ou um confrangedor desconhecimento sobre história, em localizar e explicar factos e pessoas no passado. «Não têm, por exemplo, noção do que era o país antes do 25 de Abril, não percebem, é outro mundo (…) Passámos a ter de explicar coisas óbvias, têm uma dificuldade enorme de conceptualizar, não sabem lidar com conceitos. Mesmo os melhores alunos têm lacunas em coisas muito sérias», admite Marcelo num lamento, mais sofrido pela crescente falta de respeito pelos mais velhos e pelos profes em geral. Incluindo as instituições. Comparou a esse propósito visitas que faz com alunos a Belém, e as respectivas atitudes, com gerações anteriores. Estas últimas compostas, curiosas e respeitosas. Hoje em dia entram em cena num perfeito circo infantil e desbocado, espalhando-se de imediato, qual bando de pardais à solta, pelos recantos mais sombrios dos jardins do palácio cor-de-rosa para «namorar». Depois de muita trabalheira a arrebanhar os quase “doutores” de Direito, explica o profe, lá entram, e por regra ignoram completamente as prelecções (algumas interessantíssimas, garante o profe, sobretudo com Soares) do Presidente, e alguns até vão remexer na secretária de trabalho do PR virando decretos para promulgar e objectos pessoais. Retive, enfim, uma frase do profe a propósito da degradação do ambiente familiar neste país stressado, citando o desabafo de uma aluna, a quem aconselhava apoio entre a família: «Sabe sôtor, a casa é um bocadinho uma paragem de autocarro, temos todos horários diferentes e falamos pouco». Não há tempo. Os pais e os profes têm cada vez menos tempo, interesse ou autoridade e estamos a fazer um país de idiotas funcionais.

21/03/05

A Honra dos Padrinhos - Ascensão e Queda de Michael Corleone, por Mangas

Michael Corleone acabou sozinho numa cadeira de baloiço, com uma manta sobre as pernas, entregue ao abandono de uma Sicília impiedosa. O pai, o primeiro Padrinho, morreu à sombra dos tomateiros enquanto brincava com o neto, numa das mais memoráveis sequências do cinema contemporâneo. A morte veio por ele sem sofrimento nem angústia. Esse espontâneo e definitivo momento de alegria é o que perdurará, depois de tudo o resto. É o Rosebud póstumo de Don Vito Corleone. Michael não teve direito a requiem, morreu rodeado de montanhas áridas, ao sol e com os ossos gelados. Também árido era o deserto de Las Vegas de onde um dia tirou um irmão mais velho para muitos anos mais tarde o matar. Nestas coisas, as construções da natureza, têm memória. As dos homens, como a Máfia, também.

Essa Sicília assassina onde o azeite fruto da terra e verde como os dólares fora o começo de tudo, não se fez barata e cobrou-se com sangue, ficou-lhe com a vida, mas já antes lhe tinha roubado outras que lhe pertenciam, a da primeira mulher e a da filha. Talvez por isso Michael tivesse regressado às origens férteis onde nasceu o pai. Para morrer perto da morte.

Michael morreu várias vezes então e, no processo, transformou-se num monstro impiedoso e brutal capaz de destruir, directa ou indirectamente, quem quer que lhe fizesse oposição ou ameaçasse a família corporativa – fosse ele uma esposa, um parceiro de negócios ou um irmão. Se a história nos ensinou alguma coisa, é que podemos matar qualquer um, disse-o certa vez a Tom Hagen. Don Vito morreu apenas uma vez, à sombra de uma horta, com um esguicho de água aos pés, a correr atrás do neto que era o filho de Michael. Apenas uma vez porque se salvou das outras duas. Na primeira sobreviveu às balas a mando de Don Barzini, na segunda enquanto convalescia na cama do hospital. O plano fora descoberto por... Michael.

O simbolismo deliberado das laranjas também jogou sempre a favor do velho Don. A primeira vez que vemos o jovem Vito a ser agraciado por um favor que fizera a alguém, é enquanto escolhe laranjas na rua para levar para os filhos e a mulher. O vendedor não lhe quer dinheiro e mete-as num saco de papel como oferenda. Na tarde em que foi quase mortalmente atingido, deteve-se a comprar laranjas antes de entrar no carro conduzido por Fredo, e são os frutos que primeiro atingem a terra, depois das balas. Ao Michael nunca o vi trincar uma maçã sequer, talvez por isso também tenha sido castigado.

Para Michael a família e a Família são apenas uma. Não há distinções morais ou diferenças de tratamento. As leis são as mesmas, as regras convergem, os castigos aplicados de forma inapelável. Nada de complacências. Para Don Vito, a família está antes da Família. A unidade é primeiro mantida internamente dentro de casa e a procura constante de união do sangue começa, se calhar, quando em miúdo viu os pais serem abatidas como coelhos por D. Cicio. Vito conseguiu sempre manter o núcleo familiar indivisível. Um homem que não passe tempo com a sua família, nunca será um homem verdadeiro, dirá mais tarde a Johnny Fontane, alter-ego de Frank Sinatra.

Michael nunca chegou aos calcanhares do pai como gangster honrado nem como pai, marido ou irmão. Por várias razões. Primeiro porque nunca teve um Sonny ao seu lado: o irmão primogénito morreu pela espada porque tinha uma personalidade irascível, não hesitava em distribuir porrada sem piedade quando necessário, mas apesar de ser um putanheiro incorrigível, estava sempre presente quando era necessário, impunha-se nas ruas com a mesma facilidade com que se fazia obedecer no lar. Esse lugar tenente, Michael só o teve em Tom Hagen, o filho adoptivo e fiel Consiglieri até final. Hagen talvez fosse o cérebro, mas faltou o músculo de Sonny, a sua capacidade de acção e resolução imediata para evitar males maiores. A grande questão é saber se não tem sido assassinado, teria sido Sonny o natural sucessor do pai? Coppola metralhou-o porque quer contar a história de Michael? Ou teria Don Vito legado o poder ao filho mais novo? Sim, porque Fredo é patologicamente uma carta fora do baralho.

A segunda das razões que podem explicar a vida e os actos de Michael Corleone prende-se com o facto de os tempos serem outros. Em 1908 quando Don Vito se casa, é o ano em que a Ford Motor Company produz o primeiro modelo Ford T e os irmãos Wright fazem a demonstração do seu aeroplano para o governo americano; Anthony, o filho mais velho de Michael, faz a sua estreia no canto em 79, ano em que são feitos reféns os americanos na embaixada em Teerão, Tatcher é a primeira mulher a ser eleita Primeiro Ministro em Inglaterra e a Rússia invade o Afeganistão. O negócio com o Vaticano vem a seguir e no sucessor emergente corre o sangue de Sonny Santino. A ascensão e queda dos Corleone atravessa um século de história e uma enormidade de transformações sociais, culturais, políticas e de mentalidades. Michael aprendeu hostilidade com o mundo e consegui sempre manter-se na linha da frente da Mafia modernizada que, à sua conta, encomendou um número generoso de coroas fúnebres para distribuir pelos seus filhos e enteados.

A terceira, e talvez, mais importante razão é que Michael era geneticamente frio, calculista, cerebral e desprovido de compaixão. O senso e algum pudor sempre estiveram na base das decisões de Don Vito enquanto Padrinho. Nunca vender ou comprar drogas, nunca trair nenhuma das outras Famílias, tomar sempre conta da nossa! Michael foi sempre um solitário e mais ainda quando a solidão física e moral se apoderou dele – o remorso viria depois e até ao fim. Ter-se alistado no exército, contra a vontade do pai que o podia ter safo, quando nada tinha a ver com os negócios da família, é a primeira decisão individualista de um homem íntegro, ainda. Michael regressaria como herói de guerra para posteriormente ser sugado inexoravelmente para os negócios da família quando o pai é abatido. Um clima de suspeição, vingança e chorudos lucros com o novo negócio das drogas rapidamente monopolizaram as operações por si chefiadas dando espaço a uma rápida perda de códigos de honra e a uma emergente espiral de violência. Michael é a besta negra que detém o poder e o usa sem contemplações morais - abandonou Kay sem explicações e no exílio forçado decidiu casar com Apollonia sem nunca com ela ter trocado uma palavra sequer; regressou viúvo e arrastou Kay para uma relação de mentira, encobrimento e fachada; abraçou os lucros chorudos do mercado de drogas; fez de cada rival um inimigo, depois achou por bem acautelar o futuro com as suas execuções; cometeu perjúrio na Comissão; renunciou ao pecado e executou a Avé Maria do irmão Fredo aos peixes, mentiu aos filhos, tentou comprar a absolvição do Vaticano, branquear os crimes e legitimizar os negócios, escapou das balas que lhe eram destinadas e limparam a filha, e acabou aconchegado à mais familiar presença do seu reinado - a solidão.

Naquela noite em que procurou visitar o pai no hospital e se apercebeu da tramóia para acabar com ele, acontece um pormenor, pequeno mas essencial, que o fez constatar a ele sobre a dimensão das suas reais capacidades, e a nós sobre a sua verdadeira vocação. Enquanto esperava com Enzo, nas escadas do hospital, simulando dois pistoleiros em guarda, um carro parou em frente com os carrascos de Don Vito que vinham acabar o trabalho. Michael pediu a Enzo que metesse a mão no bolso do casaco, como se estivesse a acariciar uma seis tiros. Enzo, o padeiro, assim fez, Michael também, os gorilas no interior do carro engoliram a encenação, convenceram-se do potencial risco e afastaram-se. Enzo sacou de um maço de cigarros amarrotado pelos nervos e tentou acender um cigarro com um Zippo, mas tremia como varas verdes e, após várias tentativas, não conseguiu sequer fazer chama. Então, Michael agarrou no isqueiro, acendeu-o à primeira, como se nada tivesse acontecido, os dedos não lhe tremiam, o rosto impávido e tranquilo, olhou as mãos que seguravam o isqueiro e atirou-lhe um olhar que demorou três segundos, os bastantes para perceber quem era dentro de si e como estava predestinado para aquilo. Quando os olhos de réptil enroscado regressaram daquela breve viagem ao entendimento da sua alma, já vinham resignados porque sabiam que não lhes seria possível escapar a um destino traçado.

The Godfather é uma cronologia glorificada do crime organizado na sociedade americana e a mais fascinante história de homens. De trono e sucessão, poder e intriga. Michael Corleone foi quem a escreveu e lhe carregou a cruz. Tombou, apenas, pela força imensa e brutal desse poder que sempre dominou.



Referências:
The Godfather I, II e III de Francis Ford Coppola
The World Almanac and Book of Facts

20/03/05

Por uma crioulização da Europa, por Tó Preto

Foi a melhor notícia que eu ouvi nos últimos meses. No passado dia 16, na Sociedade de Geografia de Lisboa, Adriano Moreira sugeriu a integração da República de Cabo Verde na União Europeia. Logo depois, Mário Soares manifestou a sua concordância. Começo por notar um primeiro pormenor que não me parece casual: um antigo ministro do Ultramar de Salazar em 1961 e o antigo ministro dos Negócios Estrangeiros logo após a revolução de 74, convergem neste ponto. É bom sinal. Para além de ser uma espécie de expiação de culpa, mesmo que os dois homens não transportem responsabilidades pessoais, acabam por representar as duas principais causas da desgraça africana, pelo menos no que respeita às antigas colónias portuguesas, a saber: a obstinação salazarista e a inconsciência revolucionária. Eu não sou nacionalista, acho até que o espaço estratégico em que Portugal se deve inserir é a Europa e deve até promover uma estratégia de cooperação ibérica com vista a transformar o pilar hispânico num eixo primordial da política europeia. Mas acho também que a independência de nada valeu aos povos africanos. E os factos são estes: a geração que agora anda pelos 30 anos de idade, foi a primeira geração de portugueses, nos últimos seis séculos, que nasceu e cresceu num país limitado às suas dimensões continentais. E, apesar das crises económicas, das queixas permanentes e dos muitos e variados problemas, esta é a geração de portugueses, na nossa história quase milenar, que vive mais e melhor, com mais conforto, mais comodamente, em paz e liberdade, com mais qualidade, saúde, educação, e tudo o mais que queiram arrolar. Sob todos os índices e considerando qualquer ângulo, pode-se dizer que nunca os portugueses viveram tão bem como agora! Quanto aos cidadãos das antigas colónias, e lamentavelmente, só se pode dizer o contrário. De Timor à Guiné, de Moçambique a Angola, de Goa a Cabinda, vive-se pior, com menos liberdade, morre-se mais, há tortura, violações sistemáticas dos direitos humanos, atraso económico, há fome, doença, opressão, tirania, etc. E por isso, sem complexos, podemos dizer que a a independência das colónias beneficiou mais a antiga metrópole do que os povos libertados!
Porém, a missão histórica de Portugal não se esgota nesta constatação. Há Estados que nasceram para engordar. Olham a história como uma vaca olha a manjedoura e o futuro é para eles uma massa de proteínas. Constroem o futuro tal como um felino contempla a presa. É o caso da Suíça, da Bélgica, Dinamarca e outras nações deste género. E depois há povos que contribuem para o progresso da civilização. De entre estes, não há nenhum, com a dimensão que nós temos, que tenha contribuido de maneira tão decisiva e marcado tão profundamente a nossa civilização comum. Só encontro paralelo na antiga Fenícia. O nosso destino não é engordar. Não pode ser. Os problemas do nosso quotidiano político não podem ser coisas como discutir traçados de auto-estradas, ou a localização de mais uma ponte sobre o Tejo, ou a organização de um Europeu de Futebol. Não! A situação no continente africano é dramática demais para que nos possamos fechar nestas questões. Há doença, fome, guerra, tirania e a Europa pensa fechar as portas e constituir-se numa cidadela de velhos ricos e barrigudos? Não! Portugal, e os restantes países que contribuiram para a construção da ideia de Europa e civilização ocidental (a saber, Itália, Grécia, França e Espanha e vá lá, a Inglaterra e a Alemanha um bocadito) são a única esperança do continente africano. A Alemanha quer que a Europa se alargue a leste por questões de mercado. A pujança alemã exige o alargamento a leste. Como um pançudo que necessita de umas calças XXL para poder continuar a emborcar cerveja. A Inglaterra não está, nem nunca estará, interessada na universalização da estratégia europeia se não for para reganhar um domínio que, na sua mente delirante, ainda acha possível. A França, arrenega a sua identidade humanista e alia-se à Alemanha, discute a integração da Turquia e a questão da laicidade do Estado. Adriano Moreira lançou, com duas palavras, um novo rumo estratégico para a Europa: Cabo Verde. Naturalmente, uma ponte para África. Cabo Verde é muito mais Europa do que a Turquia. Cabo Verde foi durante 500 anos, política e administrativamente, uma região europeia. Culturalmente, do ponto de vista linguístico e religioso, Cabo Verde é uma Nação Europeia. O Direito que vigora em Cabo Verde é de matriz europeia. os valores morais e culturais também. A adesão de Cabo Verde abriria uma via para a criação de uma identidade europeia que superasse, definitivamente, a ideia de uma identidade fundada na raça. A mestiçagem caboverdiana contribuiria então para uma das mais importantes aquisições civilizacionais: a negritude e mestiçagem da Europa. Abriria novos horizontes estratégicos, abertos para o Atlântico, seria uma ponte para a cooperação euroafricana e latinoamericana. Cabo Verde pode ser, justamente, a capital futura de um espaço euro-afro-americano. Eu sonho com um mundo mestiço e acho que o embrião está em Cabo Verde. É preciso que germine.

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13/03/05

Ainda há Tinocos!, por Inspector Martelada

Parece que querem construir um condomínio de luxo na antiga sede da PIDE, em Lisboa. Sinal dos tempos. Há quem se insurja e, como estratégia de insurreição, convidam um insígne da Paróquia, chamam uns amigos da imprensa e alardeiam as memórias da luta antifascista. Desta vez, foi a Drª Maria José Morgado. A senhora acedeu ao convite e, em frente ao edifício em ruínas, por entre protestos contra os interesses imobiliários que ali se querem instalar, não hesitou em lembrar as suas memórias mais íntimas quando, entre os fins de 73 e os inícios de 74 foi presa e esbofeteada pelo agente Tinoco da Polícia Política. Barbaramente. Todos admiramos reconhecidos o esforço e o sacrifício de todos os que deram a vida e viram a dignidade ofendida na luta contra a ditadura salazarista. Os métodos usados pela PIDE eram bárbaros e não têm justificação possível. Posto isto, digamos umas verdades: a tortura sofrida não é coisa que se propagandeie. Haja pudor. Ter sido preso, interrogado, torturado pela polícia política não confere nenhuma dignidade pública, não dá direito a um estatuto especial. Haja humildade. A Drª Maria José Morgado não é Jesus Cristo. Todos sabemos muito bem que um dos sinais do provincianismo salazarista era o respeito pelos senhores doutores. Todos sabemos muito bem que os estudantezecos levavam umas bofetadas e uns encostos enquanto os operários, os filhos de ninguém , sem padrinhos e sem conhecidos, esses sim, eram torturados sadicamente até à morte. Eram desterrados e executados sumariamente. Os comunistas foram os que sofreram na pele a mais bárbara tortura dos mais sádicos carrascos.
Por tudo isto, fica muito mal à Drª Mª José Morgado vir para a televisão, com um aquele ar de superioridade moral, lembrar as bofetadas que levava. Dispensa-se aquele indisfarçável sorriso que denuncia o ensimesmamento jacobino da esquerda radical e que eu já ouso adjectivar de louciano. Acham-se donos de uma superioridade cívica que lhes confere o dom da crítica. Vejo esse sorriso no Rosas do cachimbo, na arrogância blasée do Boaventura ou na vacuidade chic da Joana Dias. Vi-o também quando a Procuradora da República dava conta do irritamento que sentia, durante as sessões de bofetada, por ser magrinha e andar de parede em parede com a rota ditada pelo impulso dos estalos, dizendo, no final, como gostaria de ser gorda para não voar. A Senhora Procuradora não é Santa Catarina de Alexandria. Nem quanto à sabedoria, nem quanto ao martírio, nem quanto à humildade. A Senhora Procuradora não é mártir, nem é gorda. Mas é Procuradora da República. Os Procuradores têm dignidade e estatuto especial, não porque levaram uns chapos de um qualquer Tinoco, mas para que evitem que floresçam por aí mais Tinocos a destilar recalcamentos e frustrações íntimas. A uma Procuradora da República pede-se que denuncie o espancamento de Leonor Cipriano. Foi ontem, não foi há 30 anos. Não foi a PIDE, foi a PJ, instituição onde a senhora teve responsabilidades de dirigente ao mais alto nível. Não foi em Lisboa, na António Maria Cardoso, foi em Faro. Leonor Cipriano não é magrinha, é gorda e ficou no estado que a foto ilustra. Não é doutora, nem filha de doutores, nem esposa de doutores. Espancaram-na barbaramente. Pela calada da noite, sem mandato, foram à prisão onde está detida preventivamente e "interrogaram-na". Duvido que alguma vez a gorda Leonor que não voa se venha a ufanar desta má memória, ou um dos muitos presos que em Portugal têm tendência para o suicídio, ou ainda um dos muitos manifestantes que em Portugal chocam de cabeça com uma bala perdida. É que em Portugal, ainda há Tinocos!