29/09/06

A Terra, o Ventre e a Urna, por Falópio

Foi só em 1923 que o anatomista americano Edgar Allen estudou o processo de formação e desenvolvimento do óvulo feminino, o que o conduziria à descoberta do estrogénio. Um século antes, já Karl Ernst von Baer estudara os óvulos dos mamíferos não humanos e, desde o Renascimento, cientistas como Gabriele Fallopio, Bartolomeo Eustachi ou Andreas Vesalius, estudavam a anatomia humana, com especial atenção para os órgãos reprodutores onde procuravam iluminar com a luz da razão o mistério da vida, tornando mecânico um encantamento. Dissecavam cadáveres que roubavam dos cemitérios, justificando o pecado com a curiosidade científica, fenómeno mental que inaugura a modernidade e que tem nos estudos anatómicos de Leonardo, especialmente nos que têm como objecto o embrião humano, o manifesto mais emblemático.
Até então, e antes da descoberta do óvulo, a contribuição feminina para o processo reprodutivo era encarada como sendo um receptáculo que albergava a semente masculina e a fazia germinar. Como a terra. Geneticamente, assim como a terra nada acrescenta de constitutivo à essência da planta, também o ventre não participa na formação do novo ser que perpetua somente a natureza paterna. Como a terra se deseja fértil, porque da fertilidade depende o desenvolvimento da semente, também o ventre feminino se quer fecundo. Que a mulher seja úbere e boa parideira, tal como a terra produtiva. A mãe não detinha qualquer direito sobre as crias, tal como, pela lei sálica nos espaços onde foi adoptada, a terra não podia ser propriedade feminina. A mulher e a terra eram bens possuídos, equiparáveis em condição e, mais importante, a imagem da mulher reproduzia esta concepção agrária.
O prazer era indesejado para a mulher e a dor do parto era o justo castigo que resultava do pecado original, pelo que, naturalmente, o clítoris foi o mais desconhecido e desprestigiado órgão do corpo humano, tal como as dores do parto eram dadas como suportáveis. Além disso, conta-nos ainda Gilbert Durand, o sangue menstrual, associado à água e às marés porque ambos os fenómenos relacionáveis com as fases lunares, não sendo entendido como parte do ciclo da ovulação, era antes visto como marca de uma sujidade, de uma queda simbolizada na mulher que assim adquire um estatuto subalterno e disposto para o mal. Em suma, a imagem da mulher faz-se por associação à concepção da fertilidade da terra e sentenciada por uma moral masculina. Por isso, durante milénios, a história foi uma história de homens.
Só recentemente, a partir do século XIX, se iniciou um processo de emancipação feminina que ainda está longe de concluído. Já não falo das sociedades islâmicas, refiro-me mesmo à nossa realidade ocidental. De facto, e apesar de alguns exemplos de uma precocidade assinalável, como é o caso da Marquesa de Alorna cujo exemplo não deve ser dissociado do iluminismo racionalista, a verdade é que foi só a partir dos finais de oitocentos e nas primeiras décadas do século XX, que as mulheres se emanciparam verdadeiramente de uma opressão milenar.
O que é muito curioso, e depois de a ciência demonstrar, pela descoberta do óvulo, a influência da mulher no processo reprodutivo em plano de equidade ao homem, é como tal descoberta científica encontra no plano político-social o seu correspondente no movimento sufragista. Ou seja, à igualdade reconhecida fisiologicamente deve corresponder uma igualdade cívica. Porque, e isto é muito significativo, quando os arautos da igualdade, da Revolução Francesa aos republicanos portugueses, falavam de igualdade, eles falavam da igualdade masculina, da igualdade entre homens, desprezando ou combatendo, por razões circunstanciais, o reconhecimento da Igualdade entre os sexos. Este direito foi conquistado pelas mulheres. O que é muito interessante é que as mulheres, organizadas em movimentos mais ou menos radicais e primeiramente no mundo anglo-saxónico, elegeram como campo de batalha e de reivindicação o domínio político e do sufrágio. Reclamam um poder, um direito de participação cívica. A ranhura onde as mulheres querem introduzir o seu voto na urna das eleições é o correspondente antinómico do sulco da terra onde nos primórdios da civilização se introduzia a semente para germinar. Se este gesto definiu um estatuto de subordinação natural para a mulher, o direito de voto, como exercício de um direito político e não como um gesto de submissão à regra da natureza, faz com que o ventre feminino não seja um receptáculo natural mas um espaço de soberania da vontade, em face do qual a mulher pode hoje dizer, porventura de forma até algo hiperbolizada, o corpo é meu. Se antes o ventre era como um sulco de terra fértil, sem direitos e simples objecto de posse confinado a uma função reprodutiva, agora o seu ventre é regulado por uma vontade soberana e política, simbolizada na urna do voto e não no sulco da terra. São milénios de humilhação que se resgatam nesta exigência.


Foto: www.oxfam.org.uk

27/09/06

Mais Depressa Se Apanha Um Cão Que Um Buendía, por Melquíades


O Cão é sem dúvida o Porco que mais lê. O Cão leu o Ulisses (não a bagatela do Homero, mas sim o calhamação de 842 páginas do Joyce), leu o Proust e não deu o tempo como perdido e, desconfio eu que até os 3 volumes do Homem Sem Qualidades do Musil, o homem leu. Já era assim no liceu, o Cão. Não só era o que mais lia, mas o que lia com mais qualidade. Mais avant gard. Quando aí, eu me aventurava ainda pelos juvenis Steinbeck e Hemingway, já o Cão se abalançava a um Cem Anos de Solidão e a um Retrato do Artista Quando Jovem Cão.

Um dia, ainda no Liceu, disse mal ao Cão do Cem Anos. Como diz o nosso Mister, que marra com o excesso de personagens, achei que aquilo era gente a mais logo na primeira página e um gajo via-se à nora pra memorizar tanto Buendía. Com tanto galo o disse, que nesse dia levava na mão um Morris West. Tragédia. O Cão ria e saltava. Ondé que já se viu um nabo com West na mão a marrar com o Gabo. A partir do West, já o Cão impante de gozo se espojava pelo chão, berrando contra a Sidney Sheldon (sim, sim confesso que também li), o Harold Robbins, Fast e quejanda americanice best-selleriana.

Nunca mais me livrei da sarna do Cão. E eu que tanto gostava de discutir leituras com ele, levava sempre e logo de entrada nas fuças, com o gozo da escumalhada aventurosa e adjectivante. E tanto fazia como não, tentar defender que o West inicial ainda fez a obra-prima do Advogado do Diabo, ou que o Michener ainda se excedeu no Chesapeak e que o Fast foi inultrapassável na Paixão de Sacco e Vanzetti. Népias. O Cão quando ferra, não há maneira de lhe fazer largar o osso. Ainda hoje, nos reencontros vínicos, meia volta lá vem do fundo da sala um berro pleno de auto-satisfação: Ken Follet! Jefrey Archer! Desmond Bagley! Ganda besta apocalíptica!

Mas, a vingança tarda mas não falha. E é um prato que se come frio. No caso, geladinho, mesmo. É que aqui há dias, fomos tascar com o Cão lá na serra profunda. Pró fim, e porque a conversa estava melhor que boa, lá fomos até casa do Cão. Entrámos, mais conversa, bitaites e vistas magníficas sobre a beira lá em baixo. Pelo meio vou de casa de banho e ali, logo ali no corredor de acesso, reparo em novas e esconsas rimas de livralhada. Paro, olho, corro as lombadas e ó deuses, ó supremo gozo, bem aventurados os anjos da guarda. Ali, em casa do Cão, arrumadinhos, cuidados e aprumados, ali, vejo eu três Konsalik, não um nem dois, mas três Konsalik. E mais quatro Robert Ludlum. E Steel, meu deus, eu juro que havia lá um Danielle Steel. Allende era mato. Berrei que nem um desalmado e a malta veio da sala a pensar que me tinha dado uma coisa má.

O Cão viu logo a coisa toda. Virou-se para a cara-metade e abandonou-se a um desalento profundo: “ - Eu não te disse!?, eu não te avisei que isto já devia ter ido embora, que não podia aqui ficar!?, à vista de qualquer um?, olha o que foste fazer!”

Não é fácil apanhar um Cão, mas como os coxos, com paciência também se lá chega. Com que então, Konsalik, ein Kão!?, e Steel, e Sparks e Nora Roberts e Paulo Coelho. Isto vai dar pra Cem Anos. Sem Solidão.

“Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Buendía Cão haveria de recordar aquela noite remota em que a cara-metade se esqueceu de esconder o gelo.”

26/09/06

A Moral do Porco em Poucas Palavras, por Stygmata Martyr

«Prefiro perder um amigo a perder uma boa piada».

E é. Um amigo que não percebe ou que não aguenta uma boa piada não interessa ao menino Jesus. Não aprecio mesmo nada aquele estilo jarrão Ming que se leva muito a sério e, meia volta, afina com uma bocarra afiada. No Porco não somos nada assim, não há cá porcelanas... Quem nos vê diz que nos odiamos uns aos outros. Não é verdade. Só que gramamos ainda ainda mais o prazer de amandar umas bocas uns aos outros. Não tem nada que agradecer. Os amigos são para isso mesmo.
foto de Nicholas Nixon

25/09/06

Filhos da Região de Turismo do Oeste: guião para um episódio de uma série juvenil, por Manoel Bacoco

[A acção começa à porta principal da Escola Básica do 2º e 3º Ciclos numa cidade da região Oeste, nos arredores de Lisboa. Personagens: Professora de Biologia, Marta, João, Bernardo e Carolina. As duas raparigas saem do portão escola. Espera-as o Bernardo]

CENA 1

Carolina (para a Marta): Olha, não é o Bernardo?

Marta: Sim, parece. O que é que está ali a fazer? Será que faltou às aulas?

[Aproximam-se do Bernardo]

Carolina e Marta: Olá, Bernardo!

Bernardo (com um ar triste, o capacete debaixo do braço, encostado à mota. Veste roupa de marca. Fala com uma voz baixa]: Olá, Carolina, olá Marta…

Carolina: Passa-se alguma coisa?

Bernardo: Não, nada...

Marta: Faltaste às aulas.

Bernardo: ….

Carolina: E logo hoje que tivemos uma aula muito fixe de Biologia. Estivemos a estudar como se deve prevenir a SIDA.

Marta: Pois foi. A professora de Biologia é muito fixe. Hoje aprendi muita coisa.

Carolina: Deixa lá isso. Ó Bernardo, desculpa lá mas estás com um ar um bocado esquisito. O que é que se passa?

Bernardo: Nada, nada. Olha, tenho que me ir embora. Xau!

[Bernardo sai de cena, de mota. A câmara filma o Bernardo a desaparecer ao fundo da estrada]

Carolina [para a Marta]: Não achaste o Bernardo muito…

Marta: (responde afirmativamente com um aceno de cabeça) Isto é muito estranho…

CENA 2:

[No Centro Comercial, depois de almoço]

Marta: Olha, Carolina, aquele não é o João? É muito giro, não achas?

Carolina: Deixa-te de disparates, Marta, agora não é a altura ideal para esse tipo de comentários. ‘Bora falar com ele. Ele é a pessoa ideal para nos ajudar a descobrir o que anda a atormentar o Bernardo.

Marta: Pois é. João, João, aqui, somos nós…

João: Oi, olá miúdas, que surpresa. Estão porreiras?

Marta e Carolina: Nós estamos, e tu.

João: Eu estou óptimo, vim agora do treino de judo, vou almoçar com o meu pai e depois vou para as aulas de violino.

Marta: Sempre o mesmo João, muito atarefado, de um lado para o outro. Mas, será que nos podias dar um momento?

João: Porquê? Há algum problema?

Carolina: Não…

Marta (interrompendo): Há… pode ser que não, mas achamos que algo se passa com o Bernardo.

João: O Quê? O Bernardo? O que é que lhe aconteceu? Ele é um gajo bué de fixe… Digam-me, por favor, aconteceu alguma coisa?

Marta: Não sei, mas ele estava esquisito hoje ao fim da manhã. Queríamos falar contigo por causa disso.

João: Claro. Deixa-me só dar um toque ao meu pai. (Tira o telemóvel do bolso): ‘tou, pai, olha, passou-se agora aqui uma cena, não vou poder ir almoçar contigo, desculpa lá… eu sei pai… eu sei. Não te importas? De certeza? Pronto, obrigado, és um porreiro.

Carolina: O teu pai é mesmo fixe, quem me dera ter uma relação assim com o meu pai.

Marta: Estas relações constroem-se com base no diálogo e na confiança, Carolina.

João: Vá, meninas, deixem lá a psicologia agora. O que é que se passa com o Bernardo?

CENA 3:

[Na esplanada do Centro Comercial. Marta e Carolina colocam João a par da situação. João baixa a cabeça pensativo à medida que se vai inteirando da situação. De repente, avistam a professora de Biologia]

João: Olha, aquela não é a setôra de Biologia?

Marta: É.

Carolina: A setôra é bué de fixe. Fala connosco sobre todos os problemas que nos afligem. Olha, tive uma ideia, vocês não acham que é a pessoa ideal para nos ajudar a resolver o problema do Bernardo?

João e Marta: Isso, excelente ideia, Carolina. Setôra, setôra…!

Professora de Biologia: Olá, meninos, por aqui? Mas que agradável surpresa… Passa-se alguma coisa?

João: Bom…

Professora de Biologia: Vá, andem lá, já sabem que comigo podem contar sempre.

Marta: É o Bernardo, setôra…

Professora de Biologia: Pois é, então vocês também repararam que ele anda esquisito.

Carolina: Pois foi, setôra. Será que a setôra podia ver o que é que se passa?

Professora de Biologia: Vou tentar, deixem comigo.

CENA 4:

[No outro dia, à entrada da escola]

Bernardo: Olá, Marta. Olá Carolina, olá João.

Marta, Carolina e João: Olá, Bernardo. Estás muito mais alegre do que ontem. O que é que se passou.

Bernardo: Eh pá, vocês nem imaginam. Vocês são mesmo uns amigões. Tenho que vos agradecer.

Carolina: Então? Conta, não nos deixes assim… Vá lá.

Bernardo: Ontem, a professora de Biologia foi a minha casa falar comigo. Ela contou-me tudo. perguntou-me o que é que eu tinha, disse que eu andava estranho e que vocês tinham reparado.

Marta: pois foi…

Bernardo: Fui um palerma.

João: Anda lá, pá, conta

Bernardo: Vocês conhecem o Tó Jó, aquele tipo estranho do 9º H?

Todos: Sim, claro, o gajo é completamente passado.

Bernardo: Pois, ontem o gajo desafiou-me para faltar à aula de Biologia. Eu fui burro e aceitei. Depois fomos para o salão de jogos…

Carolina: Uiii… isso é cá um ambiente

Bernardo: E o Tó Jó desafiou-me a fumar um charro. Eu primeiro disse que não, mas depois…

Marta: Ah! Por isso é que tu estavas com aquele ar meio esquisito?

Bernardo: Pois foi. Mas a professora de Biologia já me explicou os malefícios da droga. E disse-me que eu tinha muita sorte em ter amigos como vocês.

João: Lá isso é verdade.

Bernardo (abraçando todos): Obrigado, meus amigos, vocês são os melhores amigos do Mundo.

João: Tens que vir para o judo comigo, para te manteres afastado desses perigos.

FIM

Foto

24/09/06

Memória de Porco, por Porco Solidário

Dobrei o cabo meridiano da vida. Duvido que viva tanto como já vivi. É altura de pensar nas memórias. Um gajo olha para trás e só vê merda. Por isso, o melhor é continuar a olhar em frente. Isto significa que esta página inaugural é já, também e ainda no primeiro parágrafo, a última página das minhas memórias. Isto traz-me uma grande responsabilidade. É importante que estas memórias, ou melhor, memória, não deixe má impressão. Não pode ser uma memória de merda. Esforçar-me-ei.
Estava aqui a desfolhar os papéis quando me veio à lembrança um confrade que anda arredio. Foi meu colega desde o primeiro do Ciclo Preparatório ao último da Faculdade. Foi um dos confrades mais entusiastas aqui do Porco. Organizava jantares, escrevia reportagens, tirava fotografias, enchia-nos o correio electrónico com mensagens inúteis, telefonava, jantava connosco, etc. Há dois anos que anda desaparecido, ninguém o vê a não ser acidentalmente. A amizade continua inalterada e fortíssima. Ele há-de aparecer. É o Galgo.
Estava aqui a ver uma «licença militar» de 1985 quando fui passar o Verão a Inglaterra. Lembro-me dessas férias. Tirei passaporte, paguei uma taxa de 1000$00 para me poder ausentar do país, levava pesetas, francos e libras e uma licença militar passada pelo DRM a dizer que eu tinha a situação regularizada e me encontrava na «Reserva Territorial». Nunca soube o que era isso. O papel, já amarelado, recordou-me as inspecções, a minha única memória da caserna. Eu fui com o Galgo às inspecções militares. Éramos da mesma idade e vizinhos. Lá fomos ao mosteiro de Santa-Clara-a-Nova. O Galgo tinha metido uma cunha. O pai dele, entenda-se. Tinha um capitão amigo, pagou umas notas, e ia seguro de que não pagaria à Pátria o que ela reclamava. Eu juro que não movi uma palha para evitar o cumprimento dessa obrigação. Não porque tivesse vontade de servir a dita, mas porque acreditava que não me queriam lá para nada. Pobre Pátria que precisa de um gajo como eu para a defender. Quando isso acontecer, quer dizer que já 'tá fodida! Lá fomos. O Galgo ia confiante, eu também. Por razões distintas, como se viu. Fizémos muitos testes. Psicotécnicos com cruzinhas e a contar cubos postos em estruturas de aparência tridimensional, um ditado porque nos esquecemos do diploma de estudos, uma consulta médica em que o doutor nos perguntou se sofríamos de alguma coisa, um raio-X, um teste à audição, mais outro à visão, etc. Foi um dia inteiro a andar daqui para ali e dali para aqui. Intenso. A certa altura, lá para o final da manhã, pedem-nos para mijar para um copinho de plástico. Era para fazer o teste às diabetes. Punham lá uma palhinha que, depois de bem humedecida, se tingia numa gama de cores que indicaria o nosso estado. Eu portei-me bem. O resto da malta mostrou uma secura repentina, intimidada pelo facto de estarmos ali uns à frente dos outros com o copo na mão e a pila de fora da braguilha a fazer shhhhhhh. Quanto mais shhhhhhhh fazíamos, mais inibidos se mostravam todos e mais se retraíam as bexigas. Todos menos eu. Aquilo foi um consolo. Posso dizer que foi o melhor serviço que prestei à Pátria. Orgulho-me disso, devo dizer. Se a Pátria dependesse da minha disponibilidade mictória, a Pátria seria uma Potência. A Pátria pedia-me mijo e eu dava, abundantemente. Não era como aqueles que por ali andavam em círculos com o copo na mão a fazer shhhhh. Vai daí, o Galgo disse-me assim:
- Ó Luís, tu não precisas de tanto, carago. Dá aí um bocado.
E estendeu-me o copo. Eu, fraternalmente, e porque gosto de partilhar, dei-lhe metade da minha colheita. Vendo isto, os circunstantes venceram a timidez e fizeram pedidos idênticos. Não multiplicámos o líquido, mas dividimo-lo por tantas porções quantas as necessárias. Ninguém ficou sem o seu quinhão. Cada um ficou com um golezito, salvo seja, pequenino mas o suficiente para embeber a palhinha da diabetes e para que se pudesse colorir conforme a densidade dos meus açúcares. Claro que, nesse dia, ninguém acusou diabetes. Fiquei satisfeito. Ficámos todos satisfeitos. Todos menos o Galgo que, apesar da cunha, seria chamado para cumprir serviço militar. Eu não, eu passei à reserva territorial.

Foto: http://www.fawley-hants.co.uk/Council/Council-News/November_2003/Imagefurniture/A-Pint-of-Beer.jpg

22/09/06

Crónica Oportuna e Memorável da Conquista de Lisboa, para Informação do Leitor que a Lerá Como Lhe Convir, por J. Relativo

Foi nos inícios da Primavera do ano de 1147 a. D. que, no Porto de Darmouth, se concentraram cerca de 13000 homens embarcados em cerca de 200 naus. Vinham de muitos lugares, falavam muitas línguas e eram muito diferentes na aparência. De tal forma se diferenciavam em tudo que estranho parecia que se ajuntassem para uma empresa comum. Unia-os a fé em Cristo e o empenho na Cruzada.

A fim de se evitarem altercações e violências, acordaram os comandos entre si, ainda antes da partida, em juras de concórdia e amizade, consentindo na aplicação da pena de talião como princípio penal, banindo os luxos e proibindo a circulação das mulheres em público. Além disso, todos se confessariam semanalmente e comungariam ao Domingo. Assim se faria, publicamente pela comunhão e sigilosamente pela confissão, o escrutínio e controle da virtude de cada um.

Fizeram-se ao mar, percorrendo as costas da Bretanha, passando ao largo de Biscaia, dos Pirenéus asturianos, Gijon, Corunha, a costa galega, aportando à cidade do Porto. Aí, D. Pedro Pitões, bispo local, dirigiu-se-lhes em latim para que todos entendessem, pois que cada grupo tinha quem traduzisse para o vernáculo a prédica do bispo. O rei estava ausente e parece que contava já com a chegada dos Cruzados, deixando instruções para a negociação. O orador apela à colaboração da soldadesca, lembrando porém que devem lutar não movidos pela cobiça dos bens materiais mas com o objectivo de reerguer a prostrada Igreja de Espanha, apelando às armas dos expedicionários para exterminarem os «ímpios da face da terra». Não devem temer o juízo divino, pois que as mortes assim causadas não são homicídios, nem o saque será roubo. A guerra é justa, diz o bispo, pois faz reaver o que é nosso: «Quem mata os maus só no que eles são maus, e o faz com justo motivo, é ministro do Senhor.» Defende ainda que para ganhar os favores da Divindade, escusado é ir tão longe à Terra Santa quando se pode praticar a cruzada aqui na Espanha ocupada. Condena a inveja, a carne, a gula e o desejo da guerra pelo saque, precavendo desde logo mais do que adivinháveis excessos.

Chegados ao Tejo, as crónicas louvam a abundância do rio e das terras. Lisboa era «o mais opulento centro comercial de toda a África e duma grande parte da Europa», devendo África entender-se não no sentido geográfico actual, mas a terra ocupada pelos seguidores de Maomé neste ocidente mediterrânico. 60 000 famílias na cidade e arrabaldes, cerca de 154 000 homens, havendo a somar as mulheres e crianças. Solos férteis, éguas emprenhadas pelo vento, caça variada e abundante, a pesca que ocupava 1/3 do caudal do Tejo, limões, figos, vinhas, pomares, pastagens vicejantes, ares saudáveis, banhos quentes, vistas largas, clima ameno. Na cidade, cada um tinha a religião que queria, havia inclusivamente um bispo cristão, o comércio era intensíssimo e a cidade era também um «viveiro de toda a licenciosidade e imundície».

As chefias reúnem-se com o rei, muito desconfiando dele, não o tomando por pessoa séria. Por muito que nos custe macular o nosso fundador mitificado, e a mim nada custa, a verdade é que Afonso I era um homem que faltara à palavra quando da secessão, que quebrara todos os códigos da honra medieval, que arrenegara à linhagem, que desobedecera e fugira aos deveres de vassalo, que abdicara do propósito da unidade que deveria orientar os cristãos peninsulares, que desafiara a autoridade papal, que violara os códigos da guerra ao assaltar Santarém como um simples ladrão. Era pois um homem em quem não se devia confiar, um senhor da guerra, um proscrito, um chefe de milícia sem reconhecimento das autoridades diplomáticas e sem qualquer prestígio internacional. Os cruzados recusam-se a participar na conquista, não se querem desviar do seu projecto inicial, nem comprometer a expedição logo ali. Foi então que, muito a custo, de entre eles assoma um, Herveo de Glanvill, que apela à unidade dos cristãos. Comove a audiência ao falar da solidariedade sob a Cruz e das «gentes tão diversas vinculadas sob a lei da união jurada». Lembra ainda que os que se recusarem à empresa, serão lembrados no futuro e em caso de sucesso, com grande desonra. Posto isto, chega-se a um acordo. O rei concede-lhes o saque, os resgates a cobrar e futuras isenções no trato marítimo.

Depois, D. João Peculiar, Arcebispo de Braga e que era assim como o ministro dos Negócios Estrangeiros, sela o acordo, lembrando a «inata benignidade dos cristãos» que, longe de roubarem, reivindicam o que é deles, a posse da cidade, fraudulentamente usurpada pelos muçulmanos. Invoca assim um direito histórico que legitima a guerra. Lembra o Apóstolo Santiago e os seus seguidores, lembra a memória dos mártires que padeceram no passado e apela aos mouros para que pacificamente devolvam a cidade. Os mouros recusam e apontam o dedo à «inata instabilidade de ânimo dos cristãos». Não reconhecem os direitos históricos, invocam o seu domínio prolongado e depositam o desfecho futuro nas mãos de Alá. O bispo do Porto responde inflamado, lançando as palavras de guerra. Lamenta a obstinação, defende que a confiança mourisca não assenta no valor e na força própria e que os cristãos, quantas mais vezes virem um empreendimento frustrar-se, quanto mais empenhados se tornam. É a guerra, o cerco começa a 1 de Julho.

Após umas primeiras escaramuças, constroem-se cemitérios para sepultar os mortos e inicia-se um longo cerco. Trocam-se insultos. Os sitiados acusam os cristãos de serem movidos pela cobiça, falam do adultério que as suas mulheres praticam enquanto eles ali estão, insultam a Virgem Maria, acusam-nos de idolatria por adorarem a Trindade, e acham blasfémico e imperdoável que se possa restringir a um corpo figurado uma «tão alta divindade». Depois, pegavam em cruzes, cuspiam-lhes, limpavam com elas o cu, mijavam-nas e atiravam-nas para o acampamento.

Do lado cristão, espantavam-se com os milagres que pareciam assinalar a protecção divina. Mudos recuperavam a fala, um pão que se ensopava em sangue como se fora carne. Porém, e apesar dos sinais, preparavam as máquinas de guerra, da mais alta tecnologia militar de então. Torres de assalto que atingiam 25 m de altura, aríetes e catapultas. Cavavam-se túneis para minar os alicerces das muralhas.

Os mouros pedem reforços aos seus correligionários de fé, apelando às cidades de Évora e Palmela. Porém, as divisões intestinas tornam uma quimera a esperança na unidade. Muitos tinham aceitado tréguas com Afonso Henriques que preparara diplomaticamente a guerra. Antes do assalto final, os cristãos saquearam Almada, a pretexto de um ajuste de contas, e de lá trouxeram muitos prisioneiros, decapitando-os às dezenas e empalando as cabeças às portas de Lisboa, numa estratégia de guerra psicológica. O espectáculo, visto como «feito notável», causou «grande alegria» aos cristãos e «tristeza nos inimigos» que suplicavam por entre lágrimas que lhes devolvessem as cabeças. As catapultas lançam pedras sobre a cidade, à razão de 500 por hora. A fome instala-se, comem-se cães e gatos, alguns mais ousados e torturados pela fome ousam sair das muralhas catando figos que os cruzados plantam estrategicamente como iscos ao longo do caminhos para os atraírem a ratoeiras montadas com redes, sendo este entretenimento motivo de grande gozo.

No dia 16 de Outubro dá-se a grande ofensiva. À mina, escavada sob os alicerces da muralha, lança-se o fogo à estrutura de madeira que sustinha o túnel, causando o incêndio a derrocada final. Os mouros entram em pânico, adivinhado o mísero desfecho, enquanto os sapadores rejubilam de satisfação, antecipando o saque. Logo ali, ao local do desabamento, acorre uma turba de cristãos, desejando eles também engrossar o caudal dos salteadores que, como uma torrente, se preparava para se internar na cidade pela brecha da muralha. Mas logo os autores da brecha a reivindicaram como sua, reclamando que a fizeram para si e que fossem os outros arranjar o seu modo de se internarem. Assim fizeram, construindo uma torre de assalto. Quando pronta, solicitaram a benzedura. As autoridades eclesiásticas benzeram a terrível máquina, borrifando-a com água-benta, exibindo a sagrada, e pretensa, relíquia do Santo Lenho e sermonando. Lembraram o anjo da guarda que por cada um zela, que não temessem a morte, pois que ela é libertadora, que morrer ali seria um «lucro», maior do que a glória de ali somente lutar. Apelou à disciplina e classificou o inimigo: «bandidos, salteadores fracos e tímidos» Ergueu novamente a relíquia sagrada, a soldadesca ajoelhou-se, gemeu e chorou de comoção, foi benzida e depois foram empurrar a torre para o assalto derradeiro.

Os besteiros e frecheiros despejaram uma saraivada de flechas com o fim de afastar da muralha os defensores, para que a tenebrosa máquina pudesse encostar. Os sitiados respondem com bombas incendiárias e uma chuva de pedras. O dramatismo desesperado mostra como se joga o lance decisivo. O fogo de lá para cá, feito em madeira embebida em pez, estopa e azeite, é correspondido com o fogo de cá para lá. O cenário é apocalíptico. Cavam-se covas de abrigo, regam-se os escudos protectores feitos com cabedais tensos. Do lado de cá, contam-se só uns feridos, dos de lá, «morreu a maior parte dos mouros», o que, a ser verdade é milagroso e a ser falso mostra como a mentira também faz os seus milagres. Verdade é que os cercados percebem que estão perdidos e pedem tréguas para negociar a rendição, poupar algumas vidas, evitar a destruição e atenuar o saque. É dia 21 de Outubro, a cidade capitula.

A tarefa agora, entre os cristãos, é combinar a estratégia do saque. Por isso, afloram as desconfianças. Há tumultos e conspirações. Por fim, após árduas conversações entre as facções, chega-se a um acordo. Uma delegação constituída por algumas centenas de representantes dos diversos grupos do exército de Cruzados seria enviada dentro da cidade. Aí chegados, os vencidos deporiam os seus bens, jurando solenemente entregarem a totalidade dos seus haveres. Caso se viesse a verificar o incumprimento da jura, seriam condenados à morte. Caso contrário, poderiam abandonar as muralhas. Assim se fez, o grupo entrou e hasteou o estandarte cristão, por entre a euforia das tropas. Depois, o planeado saque disciplinado não foi cumprido. Todo o acordado se desrespeitou e a multidão de saqueadores entrou em tropel desenfreado e louco pelas muralhas de Lisboa. Arrombaram as portas, mataram, violaram, quebraram todas as juras e esqueceram todos os sermões, desrespeitaram todos os tratos e violaram todos os códigos. Foi uma orgia de loucura e violência, derramaram-se rios de sangue inocente e até o bispo cristão da Lisboa muçulmana foi degolado e decapitado. Era já nonagenário e o seu nome foi esquecido. Donzelas foram desfloradas e mortas, casas arrombadas e incendiadas, injúrias e violências inauditas foram cometidas por entre uma algazarra incontrolável, caótica e desonrosa. Saciados, consentiram por fim que os habitantes saíssem da cidade, o que demorou 5 dias: «uma tão grande multidão de gente como se toda a Espanha houvesse vindo ali». Depois «purificaram» o templo. Na mesquita encontraram cadáveres depostos e centenas de moribundos, num espectáculo que ao cronista pareceu uma «imundície horrorosa». Foi alçado bispo Gilberto de Hastings, e glorificado o nome dos cruzados em toda a Espanha. A peste caiu sobre os derrotados e tal foi visto como castigo. Alguns mouros, «vivos, mas semelhantes a cadáveres», rastejavam cadaverosos e abraçavam a cruz, suplicando misericórdia. Recebiam indiferença e desprezo, considerando a conversão oportunista, esquecendo que se tratavam afinal de cristãos moçárabes, isto é, adeptos da fé de Cristo vivendo sob domínio árabe. Lisboa torna-se cristã. Assim, deste modo. Dão-se graças ao Criador, apela-se à Sua misericórdia e à conversão dos derrotados, controlam-se os excessos de vaidade e glória e no fim tenta aplacar-se a Ira de Deus: «Pare a Vossa mão! Basta, Senhor! Já é bastante o ter até aqui combatido por nós contra estes! Mas converta-se antes (…) o seu luto em alegria, para que Vos reconheçam como Deus vivo e verdadeiro, e Aquele que enviastes, Vosso filho Jesus Cristo, que vive e reina por todos os séculos dos séculos. Ámen!»

Foto: http://www.enterprisemission.com/moon.htm

Adaptado a partir de Conquista de Lisboa aos Mouros em 1147. Carta de um Cruzado Inglês que Participou nos Acontecimentos; Lisboa; Livros Horizonte; 2ª edição; 2004. Apresentação e notas de José da Felicidade Alves.

21/09/06

As Músicas do Porco – Brass in Pocket, The Pretenders, por Pop Eye

A New Wave rebentou nos anos 70/ início dos 80. É difícil defini-la devido à ausência de uma unidade estética. Mas se nos restringirmos humildemente à música, a onda é devedora do Punk e afasta-se quer do Rock progressivo quer do Disco Sound, consideradas as pragas da época (como podemos ser injustos e cegos quer dizer surdos).

A New Wave ultrapassou a anarquia estética e o primarismo musical dos punks que se gabavam de não saberem mais que três ou quatro notas por oposição aos virtuosos do rock sinfónico: Rick Wakeman vs Sid Vicious… É mais melódica e cuidada que o punk mas sem se aproximar, nem de perto, das pretensões das super bandas sinfónicas como os Pink Floyd, os Génesis ou Yes com as suas faixas de 20 minutos e álbuns de apenas quatro composições. A N.W. significou pois o triunfo, o eterno triunfo, da Pop Music.

Mas ao mesmo tempo manteve algo da frescura e da rebeldia dos Punks. No visual, na recuperação da simplicidade e do paradigma duas/três guitarras, bateria e voz e muita electricidade e energia. Houve grupos que nunca se renderam e nunca deixaram de ser punks, como os Sex Pistols, os Damned ou os Ramones. Mas outros houve que fizeram a transição do Punk para a New Wave, como os Stranglers ou o Ian Dury e os seus Blockheads. O Joe Jackson, os próprios The Police ou os Talking Heads, quanto a mim, nunca foram Punks. Foram sempre new waves… E depois ainda havia umas quantas bandas efémeras que lançaram um disco e morreram como pirilampos, mas que eram componentes essenciais da onda: alguém se lembra dos Knack, dos Undertones ou dos The Vapors? Pois, mas se eu falar em músicas como Turning Japanese, My perfect Cousin e My sharona há muita gente a lembrar-se.

Eu gostava muito das bandas New Wave. Depois passei a achá-las demasiado Pop. Na altura achei que faltava a estas bandas a energia do Rock que encontrava nos Led Zeppellin, nos eternos Stones ou nos jovens – à data – The Clash… Mas agora recuperei outra vez as velhas canções new wave como All this useless things de Elvis Costello … Mas sobretudo re-descobri Brass in Pocket dos Pretenders – uma música fantástica, um clássico dos anos 80. Ainda por cima recuperada por Sofia Coppolla em versão karaoke no brilhante Lost in Translation. Brass in Pocket realiza, como poucas músicas da altura, a síntese entre a energia do punk e a elegância pop da new wave. É uma música melódica, versátil e, ao mesmo tempo, delicada. E é uma sorte que tenham inventado o you tube e que Brass in Pocket se possa ouvir nas colunas do vosso computador. Ora ouçam:

20/09/06

Redacção Nacional por Amor da Pátria, por Cão

A gente ama o nosso país
O nosso país suporta-nos
O litoral refrigera a demora
A serra oblitera a hora
E isto está bem assim

Nenhum de nós vai muito a Lisboa
Nas aldeias do Norte há caçadeiras
Velhas preservativam chouriças
Padres escrevem boletins
Macacos comem amendoins

E isto está bem assim

Eu amo a nossa gente o país nosso
Sou fraco de carnes e débil de osso
Ouço aqui repito ali
Ser culto é ser possesso

Raparigas de trincadeira parreiram à sombra
Rapazes delicodoces amargam caramelos
O inverno não é frio e no estio
Os dias torram lânguidos e belos

E é assim que isto está bem

Eu por acaso tenho ainda mãe
Avós não mas esses
São mesmo p’ra perder sem dar luta
Não os ter é ser quase filho-da-puta
A gente ama os nossos avós

Também os nossos defuntos defumamos
Insensatos incensos incensamos
Magnos mognos lhes dedicamos
E é pelos mortos sonhos que vamos

É ou não é ó Sebastião da Gama
Poeta que a gente também ama?

Se isto não estiver bem assim
Vou ali a Espanha e só volto se for doidinho.

(foto de Henri Cartier-Bresson)

19/09/06

Vivam as magras, por Hardy

Agora até os espanhóis! Logo eles, que são o povo mais politicamente incorrecto que conheço… Eles que falam alto e tarde nos cafés e restaurantes, que comem de tudo o que faz mal e é proporcionalmente bom, que adoram as touradas e os touros de morte, que organizam a tomatina em Buñol numa rua onde estão comprimidas 40 mil pessoas a correrem alegremente o risco de holocausto, que se perfilam bêbedos à frente de manadas de touros em Pamplona, eles, nuestros hermanos, acabam de aderir ao fundamentalismo higienista que, pelos vistos, está condenado a vingar nesta Europa cada vez mais asséptica. Os espanhóis acabam de publicar uma lei que proíbe o desfile de manequins magricelas, parece impossível... As modelos que não tenham determinada altura e peso correspondente, pura e simplesmente, são afastadas do mercado de trabalho… Não podem trabalhar em moda.

Isto é uma discriminação laboral ilegítima de pessoas por razões estritamente físicas. Ainda por cima quando as empresas de moda e desfiles são privadas, não se entende porque raio tem o estado de meter o nariz naquilo que é risco e iniciativa privadas. Diz-se que as modelos têm a obrigação de ser exemplos de saúde para os jovens admiradores. O tanas, não têm nada. E que se forem muito magrinhas as adolescentes copiam-lhes a pinta e tornam-se anoréxicas! É de loucos… Pela mesma razão deviam expulsar das respectivas profissões, médicos gordos ou excessivamente magros, professores obesos e ministros fumadores. Porque é que só as desgraçadas das modelos é que têm que ser exemplos de (aparente) saúde?

Mas o que mais me repugna nisto tudo é a standardização implícita de um ideal de beleza subjacente à legislação. Fica definido, por decreto, que uma pessoa bela é a que cumpre requisitos mensuráveis. A legislação espanhola resolveu finalmente o maior problema da estética tradicional. Respondeu objectivamente: basta medir, basta pesar e não haverá disputas entre nós. A beleza mede-se com um metro e pesa-se numa balança. Doravante é este padrão social de beleza o único admissível com direito a deslize na passarela. Beleza = saúde.

E quem acha que a beleza tem algo de decadente, de sombrio ou de sinistro? Kate Moss nunca seria modelo nem os exemplos junkies da Calvin Klein… E as gordinhas que as há e bem boas? Também não podem desfilar? Os gordos correm risco de saúde, é sabido… Não as podemos admirar, nós que gostamos de outras belezas que não só as convencionais? Em nome do higienismo estamos a ir longe de mais. Por causa do modo como as miúdas com tendências anoxéricas interpretam as modelos magrinhas, proíbem-se as próprias. Isto não é só perigoso: é uma barbaridade. Sejam coerentes e proíbam a Bíblia: por causa das interpretações que dela fizeram morreram milhões e milhões de pessoas. Espanha caiu. Salvemos a Europa do higienismo fundamentalista. Não sei é como…

18/09/06

Somos Todos Católicos?, por Constantino

Há uns meses atrás, um jornal nacionalista dinamarquês, num exercício livre de xenofobia dissimulada e (bem) consentida pelas leis ocidentais de liberdade de expressão e imprensa, publicava uma série de caricaturas que desafiava o maior tabu religioso e cultural das centenas de milhões de crentes islâmicos espalhados por todo o Mundo: dava rosto a Maomé! Todos se recordam do escândalo e das reacções dos fanáticos muçulmanos. Todos se recordam dos excessos e das pressões inimagináveis exercidas sobre o director do jornal e sobre a diplomacia dinamarquesa que se recusou (bem) a pedir desculpa, argumentando que o poder político é separado da imprensa e que a liberdade de expressão é sagrada no Ocidente. Todos se lembram das manipulações das multidões e da guerra de informação. Na altura, nos jornais e na blogosfera houve muitos que se solidarizaram com a diplomacia dinamarquesa e, retomando Kennedy, gritaram inflamados: «Somos todos dinamarqueses!»
Agora, há uns dias atrás, o papa Bento XVI proferiu uma lição numa universidade alemã onde (bem) citou um imperador bizantino para demonstrar, a propósito da recusa deste em se converter ao Islão a pretexto da violência da Jihad, como a guerra é contrária ao sentimento religioso. O papa, não tão inflexível quanto a diplomacia dinamarquesa, até porque o seu múnus assim o determina, esclareceu e pediu desculpas por eventuais ofensas. A verdade é que, apesar disso, as reacções dos fanáticos aí estão. O primeiro-ministro turco reagiu solidarizando-se com o Islão ofendido, contrariamente ao governo dinamarquês que se demarcara de tomar uma posição sobre assunto religioso, na Somália mataram uma freira italiana, na Índia queimam efígies de Bento XVI, apedrejam igrejas e manifestam-se na praça pública. «Somos todos católicos?» - pergunto eu.

foto: http://news.bbc.co.uk/2/hi/europe/4495835.stm

17/09/06

O Que é um burro?, por James William N. Horse III

Ontem, o Sr. Necare publicou no seu blog um textozito inofensivo que intitulou «Etiquetagem». Trata-se de uma brincadeira ingénua pela qual o autor se pretende retratar, manifestando uma série de preferências e aversões. A brincadeira funciona como uma corrente, devendo o autor indicar um conjunto de amigos que continuará a série, sendo que foi ele próprio indicado por outros. Na minha adolescência eu também via os mariquinhas da minha turma com este tipo de jogos. Em princípio, estas brincadeiras são idiotas e inofensivas, em princípio, pelo menos enquanto não maculadas por afirmações despropositadas.

Apresentando as suas etiquetas, o Sr. Necare profere umas banalidades irrelevantes: que gosta da Suécia, gosta de música, cinema, literatura e não gosta de calor. Pelo meio, afirma despudoradamente que não gosta de espanhóis. Sem vergonha e sem justificação plausível, porque a não há, proclama-se xenófobo e argumenta que os espanhóis são expansivos e barulhentos e que andam sempre a lixar-nos. Depois reafirma a convicção: «Pode parecer estúpido mas é a realidade.»

Se o Sr. Necare afirmasse não gostar de pretos porque são muito qualquer-coisa, ou de judeus porque são muito não-sei-o-quê, o sr. Necare seria racista e incorreria em crítica séria e pena grave. Mas o Sr. Necare refere-se aos espanhóis e por isso se acha isento de responsabilidade, deve achar que tem piada e que xenofobia não é acusação grave quando aplicada a um povo inteiro. O Sr. Necare, como se pode ver, é burro.

Comentando esta inanidade, e sob o pseudónimo Pata Negra, eu chamei burro ao Sr. Necare. O Sr. Necare sentiu-se com o epíteto, justíssimo diga-se, e veio aqui ao Tapor verter a sua bílis. E disse:

«@Pata Negra: Se queres insultos, vamos a isso.
Sua besta do caralho, com uma merda de um nick tirado dos presuntos, julgas-te muito esperto, não é? Tiraste algum curso de psicologia por correspondência e queres aplicar os teus conhecimentos, mas é melhor ires para a tua vizinhança de parolos, pois deve ser o único sítio onde fazes um brilharete.
Deves ser descendente de espanhóis, não é cabrão? Andas vestidinho de andaluza, a dançar flamenco e a tocar castanholas. Volta lá para a merda da pocilga de onde saíste que a tua opinião não vale um bocado de merda de porco.»

Como se vê, e como já se havia suspeitado da leitura do post das etiquetas, o estilo não é recomendável, aliás tal como a sintaxe e o conteúdo.

O objectivo deste post é provar que o Sr. Necare é burro. É fácil. Não me dirijo ao Sr. Necare, ele lerá o post porque o post é público, mas ele não é o destinatário. Até porque, como burro que é, não entenderá a argumentação aqui expendida.

Comecemos por perguntar o que é um burro? Não no sentido zoológico, claro está, mas quando a expressão, como ofensa, é aplicada a um indigno representante do género humano. Neste caso, um burro é um indivíduo que, incapaz de interpretar e entender as evidências com que se depara e a partir daí produzir um discurso racional, insiste presunçosamente e com base na ignorância dogmática, em avaliar a realidade que não entende com base nas suas limitações. Isto é um burro. O Mundo visto pelos olhos de um burro é um mundo distorcido. Acho que a definição é boa.

A seguir, trata-se de reputar como completamente falsas as afirmações do sr. Necare relativamente à Espanha. O Sr. Necare não conhece a Espanha. Contrariamente ao que o Sr. Necare diz, a Espanha não está nem nunca esteve preocupada em nos lixar. É errado do ponto de vista histórico e político. É errado, seja qual for o ângulo e a óptica de análise. Revela ignorância completa e gritante. Poupo-me à demonstração, porque a evidência é do tamanho do universo e em sentido contrário.

Em segundo lugar, o Sr. Necare revela uma ignorância total acerca da importância da Espanha, da sua história e da sua cultura. De Goya ao presunto Pata Negra, de Altamira a Tapiés, de Almodovar a Cervantes, de Machado a Lorca, de Alonso ao Real Madrid, de Pau Gasol a Angel Nieto, de Penélope Cruz a Juan Miró, De Stª Teresa de Ávila a Cervantes, podia dar milhões, dezenas de milhões de exemplos em todos os sectores de actividade, do desporto à literatura, da poesia ao cinema, da pintura à política, da religião à sociedade, de figuras e factos marcantes na história da humanidade de origem espanhola. Em face desta evidência esmagadora, merecedora de admiração sincera, o senhor Necare diz que não gosta. Que são barulhentos e expansivos. Tece umas considerações generalistas, racistas, xenófobas e inaceitáveis.

Por outro lado, o senhor Necare fala dos nossos vizinhos como se fossem estranhos. Desconhece que a hispanidade é um pilar essencial, ainda que recalcado pelo discurso de muitos burros, da identidade portuguesa. Falar mal dos espanhóis é falar mal de nós.

Só um burro o não vê, como é o caso do Sr. Neacre. Tal só se explica se dermos por demonstrado que o Sr. Necare é burro. Esta é a etiqueta que melhor o serve, poisde contrário, ter-se-ia que considerar o Sr. Necare como racista e xenófobo. A burrice torna o Sr. Necare inimputável. Ofereço-lhe o direito a usar a coroa que ilustra o post. Mereceu-a!

foto: http://www.1ofakindstuff.com/Shrek-Donkey-Ears.html

15/09/06

Good Bye Gerês, por Pirotécnico

Este Verão o país ardeu alegremente e nós mal demos por isso. Graças ao governo – não porque tenha evitado os incêndios, mas porque conseguiu que as notícias da sua ocorrência não nos chegassem.

Em 2005 houve 300 mil hectares de área ardida. Este ano, 60 000. O governo apresentou os números como se de uma vitória se tratasse. Não é, longe disso. Em primeiro lugar porque, dada a devastação gigantesca do ano passado, este ano já não havia tanta área «útil» (para os interessados) para arder. A queima do ano anterior ainda rende… Logo é normal que os números baixem. E neste contexto 60 mil hectares é uma brutalidade. Principalmente se uma parte dessa área ardida tiver sido, como foi, o Gerês, o maior tesouro ecológico do país. Como é que alguém pode vir dizer que este ano correu muito bem, quando ardeu precisamente aquilo que nunca poderia ter ardido, a jóia da coroa, o Parque Nacional Peneda-Gerês? Eu preferia que tivessem ardido 300 mil hectares de eucaliptais a ter perdido o Gerês… O Gerês era o sítio mais bonito de Portugal. Mas o Governo acha que não e que fez uma grande figura este ano no combate aos incêndios! Valha-nos Deus…

Enquanto o país ardia, ao contrário do que se passou noutros anos, nós não soubemos de nada porque este ano a forma de passar a informação relativa aos incêndios mudou substancialmente. Nem vale a pena falar no branqueamento levado a cabo pela televisão do estado: parecia que estávamos no Ártico. Uma referência de rodapé e siga pás notícias da bola, raio de país este em que os telejornais abrem e fecham com futebol... Por outro lado, este ano, por imposição ds organismos governamentais competentes a forma de transmitir as ocorrências relativas a incêndios mudou substancialmente. Até aqui as instituições regionais ou locais faziam ao fim do dia o balanço da situação e havia informação quer local quer nacional para se saber exactamente qual a área que tinha ardido em cada dia e ao longo dos meses de Verão. Informação completa e detalhada, portanto.

Mas este ano o governo mudou esta forma transparente de informar: a lista de incêndios era publicada num site e desaparecia 10 minutos depois, em muitos casos. Conclusão: não era possível uma visão global nem detalhada da situação a não ser que houvesse um maluquinho permanentemente a retirar os dados publicados no site oficial. E assim fizeram com que não se desse pela gravidade da situação. Este verdadeiro buraco negro informativo é o sonho de qualquer pirómano que faz o seu trabalhinho discretamente sem se dar por ele. Se o Nero, o maior pirómano da história, tivesse uma equipa destas a trabalhar para ele, não tinha incendiado Roma uma só vez, mas 5 ou 10. No mínimo…

Pic de A.J. Smuskiewicz

14/09/06

E No Irão? Obviamente, Ameixa!, por Rasputin

E agora temos o Irão. Um regime radical e fanático, gordo de tantos biliões de petrodólares, que investe o que pode e quer na obtenção da bomba nuclear. Avança com as centrais, as fábricas de água pesada e as instalações de enriquecimento de urânio. A França em primeiro e a Rússia agora, refastelam-se nos petrodólares que conseguem sacar de volta. O Irão quer, o Irão vai ter. Porque a Rússia vende o kit-mãos-livres completo e porque a China veta o que for preciso alimentada pelos contratos fabulosos de super potência económica.

Agora imagine-se um Irão nuclear. O mesmo que faz politica com reféns, atentados e terrorismo, que paga biliões pelo Hezbohlá e pelo Hamas. O mesmo que defende a varredura de Israel como começo de negociações, que aspira a fazer do golfo o seu “mare nostrum” e que mantém conflitos territoriais com a Turquia, o Iraque, o Paquistão e Omã. E importa não esquecer que esta gente prega, defende e por incrível que possa parecer faz, a sujeição da realização individual ao interesse colectivo, o martírio e o sacrifício último como forma de suprema realização. O Paraíso das 72 virgens está para eles à mão de semear de uma bomba suja em Londres, Paris ou Roma.

E esta gente vai ter a bomba nuclear. E depois é impossível negá-la ao Egipto, à Turquia e à Arábia Saudita. Mais cedo ou mais tarde um de nós ou se calhar todos, vamos levar com o ameixão. Parece-me que seria prudente largar umas ameixas das boas sobre as instalações nucleares iranianas. Antes que seja tarde.

No País dos Tachos, por Manuel Cunha



12/09/06

Benfiquita, por Marcão

Pá, eu tou farto de dizer isto, mas ninguém me dá ouvidos: o mal do Benfica é a política de aquisições. De há uns anos para cá começámos a comprar gajos com nomes acabados em ito e foi o fim. Primeiro foi um Carlitos que veio do Gil Vicente. Desgraça! Depois veio outro Carlitos do Setúbal. Desgraça de novo. Agora é um tal de Miguelito. Catástofre! Não dá.

Qualquer pessoa que perceba de futebol sabe que, desde os primórdios dos tempos, nunca, apareceu um bom jogador cujo nome acabasse em ito. Os craques brasileiros como é que se chamam? Robito? Não, Robinho. Cicito? Népias, Cicinho. A selecção do mundial de Espanha tinha o Edinho, o Luisinho e o Toninho (Cerezo), o craque do Barça é o Ronaldinho, etc, etc. E a própria selecção é canarinha. Canarinha e não canarita, não é por acaso... Faz toda a diferença. Já imaginaram uma equipa a alinhar com Ronaldito, Cicito, Luisito, Tonito e Edito? Não ganhavam a ninguém, pá, quem é que lhes tinha respeito?

No Glorioso, pelo contrário, parece que estão todos a dormir e ninguém aprende estas coisas básicas da bola. Um jogador ou é Carlos ou é Carlinhos. Ou então Carlão, como o Carlos Manuel dos bons velhos tempos ou como o actual Luisão. Ou é Miguel ou Miguelão ou Miguelinho. Um gajo chamado Miguelito soa a rapazito traquinas, estilo, porta-te bem ó coisito. Dá assim uns ares de insignificância, sei lá. Mas Miguelinho soa a ratice, a manha, a astúcia. E Miguelão, é óbvio, dá a sensação de que estamos perante um gajo rijo, como deve ser, perante um fortalhuço que parte tudo quando arranca pró esférico. Estas coisas dos nomes parece que não têm importância nenhuma mas têm, pá, há gajos que são logo meia pessoa só por causa do nome. O nome faz o homem, faz o jogador e quem diz o contrário mente.

Depois dos Carlitos, amandam-nos com o Miguelito! Não há pachorra, pá, o Fernandito (Santitos) não vê um boi de bola, carago…

Foto de Elliot Erwitt

As Duas Mortes de Kashmir “O Gato” Santiago, por Mangas

O que restava de Kashmir “O Gato” Santiago, O Argumentista, o corpo morno, quase apagado, olhos cerrados e, num canto mal iluminado da sala, a ventoinha propagava o seu último suspiro. Que estranho caminho teve ele de percorrer para encontrar um momento sem vozes. A autópsia do cadáver revelou partículas de queijo e bolachas nas unhas. Vestígios de tinta azul no estômago. Presume-se que a sua alma tenha morrido tranquila. Provavelmente teria sucumbido de madrugada, vencida pelo cansaço, sobre uma resma de folhas escritas à mão, após uma longa sessão de sexo oral com a caneta de tinta permanente Monte Blanc. Mas nunca se soube ao certo. O que se veio a descobrir mais tarde foi que naquela noite derradeira tentara ainda acabar uma história na qual fosse protagonista principal, porque lhe faltava falar com autoridade sobre uma sensação genuína, daquelas que conhecesse desde o dia em que vira a luz pela primeira vez. Porém, de todas as sensações autênticas, apenas os cheiros familiares da terra sulcada pela chuva lhe provocaram alguma derivação nas palavras. E isso, deduz-se, foi antes de ter morrido a primeira vez.

As últimas palavras que O Gato Santiago argumentou foram sobre o sul. A caminho de lá. Com meio maço de cigarros no bolso, um saco com alguns livros, um pente, uma escova de dentes e o endereço dela escrita num papel amarrotado. Promete a si mesmo escrever-lhe um postal. Dir-lhe-á, em duas ou três frases, como é a rua principal de uma cidade no deserto ao entardecer onde a luz tropeça nas sombras. O sol, corpos escondidos do calor e da poeira, os cães sonolentos devorados por carraças, as putas à beira das estradas que se cruzaram no seu caminho. Sente latejar o golpe na arcada supra-ciliar. Dói-lhe quando contrai a testa ou fecha o olho desse lado. As gotas de suor que descem pelo rosto até ao peito, lavram minúsculas sensações na pele aquecida. Parece que o ar condicionado do carro se está a lixar para ele, para a situação em si e o deixou completamente exposto ao bafo do inferno. Aspira a ser algo mais do que apaixonado e inútil, como um cadáver segurando um ramo de rosas na banheira. Esquece a dor no sobrolho que começa agora a sangrar, olhos bem abertos para a tempestade que galopava no horizonte. Flores de cacto vergam-se à chuva e cheiram-lhe a ela. Bem que ainda tentou caminhar sobre as águas sem molhar os pés, mas perdeu o poder de argumentação e ficou-se pela intenção das palavras.

Foi por essa altura que o levou a segunda morte, de esguelha sobre a secretária desordenada de folhas escritas à mão, e com o crédito de ainda outras cinco.

11/09/06

A Desgraça Nacional Tem Causa e Tem Nome, por Silver Bullet

Em 1871, o Sr. Antero de Quental, ainda movido pelo desvelo esperançoso de regenerar a nação portuguesa, ilusão que uma vez esvaída contribuiria para o desânimo que faria dele um suicidário simbólico, tentava diagnosticar as Causas da Decadência dos Povos Peninsulares. Como muitos antes dele e muitos outros após, o Sr. Antero de Quental tinha como preocupação a ressurgência da Nação. A contemporaneidade nacional teve esta obsessão: regenerar, ressurgir, ressuscitar, recuperar, modernizar, renascer. Hoje, devemos a Vasco Pulido Valente, o maior analista da portucalidade que tem em Eduardo Lourenço o seu digno anverso, esse favor de nos recordar todos os dias uma verdade evidentíssima: Isto é irregenerável!

Tivesse o Sr. Antero de Quental atingido esta verdade claríssima e muita tragédia se tinha poupado, a começar pela sua. Mas não, o Sr. Antero considerou como causas da miséria ibérica o absolutismo, o jesuitismo, o catolicismo tridentino e mais outras observações próprias do romantismo oitocentista. Sendo as causas comuns ao espaço peninsular, tal justificava a decadência comum, daí que o plural hispânico usado pelo açoriano, sendo relevante, escondesse um equívoco. Antero buscou as causas a partir do presente, em vez de haver estudado as causas como tal. A prová-lo, o facto de, actualmente, a Espanha trilhar um progressivo e continuado rumo, o que não se verifica a Oeste de Vilar Formoso. Daí que, as causas devem ser outras.

Pois bem, caros leitores, 136 anos após a célebre conferência anteriana, cumpro o grato e histórico dever de informar que a decadência nacional tem causa e tem nome: Pedro Machado!

Pedro Machado é o novel presidente da Região de Turismo do Centro. Na edição Local Centro do «Público» de ontem, é-lhe traçado o perfil. Vale a pena recapitular: O Senhor Presidente tem 39 anos. Em miúdo agarrou nas bandeiras laranjas do PSD porque gostava da cor. A precocidade, enfeitada com a futilidade das razões, deixa antever o pior: uma carreira política! Licenciou-se em Filosofia, na Vetusta e nada, absolutamente nada do que seria minimamente exigível a um estudante de Filosofia, mesmo que da Vetusta, transparece no licenciado Machado. Não há vestígio de crítica, reflexão, especulação, cultura ou erudição. O homem é um fenómeno de vacuidade! Durante os tempos da juventude, seguiu a carreira normal: fez parte das listas para a Direcção-Geral. Perdeu, mas enrobusteceu-se na derrota. Dirigiu, a nível distrital, não concelhio note-se, várias campanhas eleitorais e, findo o curso, ei-lo revigorado no outro antro onde se geram estas espécies: as autarquias locais. Foi membro da Comissão Política Concelhia de Montemor-o-Velho, ascendendo à Comissão Distrital de Coimbra. Depois, galgará uma escadaria ascendente que, de membro da Assembleia Municipal de Montemor, passando pelo executivo autárquico onde chegará à vice-presidência, atingirá os cumes olímpicos: vogal da Comissão Política Nacional! Pelo caminho, foi ainda adjunto de um obscuro secretário de estado (a minúscula é de propósito). Este percurso deu-lhe «traquejo» e encheu-lhe o telemóvel de contactos importantes. O homem cita-os: Fernando Nogueira, o Desaparecido; Santana Lopes, o Inefável, Zita, a Convertida, e Cavaco, o austero. Acima de todos, Marques Mendes, que ocupa um lugar especial na lista telefónica do Sr. Pedro Machado.

A docência, essa, exerceu-a durante dois anos e não se mostra disponível para regressar. «Não o seduz», justifica-se. O Sr. Pedro Machado orgulha-se da sua carreira e não lhe passa pela cabeça extinguir a Região de Turismo do Centro para cuja presidência acaba de ser nomeado. Chorem comigo, caros concidadãos! Entendem agora o cinismo do grande Vasco Pulido Valente? Entendem porque razão Antero acabou por dar um tiro nos cornos?

Bebamos, meus caros, bebamos muito, porque o cheiro a pólvora faz-me dores de cabeça e este país faz-me mal à úlcera!


foto: digitalizada a partir da edição do jornal «Público» de 10.Set.2006

08/09/06

É Preciso Um Porco Para Apanhar Outro, por Porco de Serviço

Porque o Porco é também um Blog de utilidades e miudezas, aqui ficam alguns conselhos. Perderam a vontade de continuar? Não percam, continuem, esta posta é pequenina e de extrema utilidade. E poupadora de alvíssaras, neste caso as vossas. Agora que o interesse do leitor está preso, vamos à chicha.

O meu caro leitor porcino é certamente condutor de popó e utilizador das nossas belas estradas. Ora, tal actividade encontra-se sujeita a cerco e infestada de suínos dispostos a estragarem-lhe a vida. O mais chato, é que na sua maioria, o incauto nem sequer sabe a boa merda que fez ou que anda a fazer. Esta posta vai por aí e vai-lhe dar jeito.

Primeira: Saque o caro leitor da sua carta verde do seguro. Tá na mão? Confira lá ao fundo, se a mesma está por si assinada. Não está? Pois são 50€ de coima meu caro. Logo em baixo é avisado de que o seguro só é válido se a carta verde estiver assinada, não está, não tem seguro válido, não tem seguro válido, lerpa 50€ pagos no acto. Uma suínice?, concorco, mas paga à mesma.

Segunda: O meu caro amigo pegue agora no seu Bilhete de Identidade e veja a freguesia de residência que lá vem declarada. Agora pegue na sua carta de condução e veja se coincide. Não coincide? Tss, Tss, são 90€ eurinhos pagos logo ali. Corrija se faz favor!

Terceira: O amigo quando ultrapassa assinala com o pisca o início da ultrapassagem? E faz o pisca inverso no final? Pois faz muito bem! Contudo, quando vai na via da esquerda em via rápida ou na auto-estrada durante dois ou três quilómetros a ultrapassar camions ou nabos de fim de semana, também leva o pisca ligado? Não usa? Pois são 60€ a 300€ e sanção acessória de inibição de conduzir pelo mínimo de dois meses. Saiba V. Exª que a circulação se faz sempre pela hemifaixa da direita, só vai à esquerda para ultrapassar e aí leva o sinal ligado sempre. Se não vai a ultrapassar não tem nada que ir na esquerda e aí são mais 300€. Nem eu sejam 20 km pela esquerda, ou em terceira faixa, LEVE O PISCA LIGADO!

Quarta: E o amigo quando vê uma lomba incómoda, banda sonora ou ganda buraco na via da direita, também tem o viciozito de virar o volante e contornar a coisa pela esquerda? Eia, eia, ganda fartote, leva com 300€ pela falta de pisca, mais 300€ pela indevida circulação pela esquerda sem ser em ultrapassagem ou mudança de direcção e leva com mais um mês de inibição de condução! Pise o buraco s.f.f.

Quem É Amigo Quem É?

07/09/06

Axé Toi, por Bossa

Uma das coisas mais pedagógicas das viagens é a possibilidade que elas nos dão de nos confrontarmos com os clichés. Uma pessoa sai da santa terrinha e tem sempre na cabeça aqueles estereótipos que passam de geração em geração sobre a personalidade base dos nativos dos países que visitamos. É sempre assim e é inevitável. No entanto, tenho verificado que os estereótipos raramente se confirmam na realidade. Aliás, é curioso notar que são precisamente as pessoas menos viajadas as que mais estereótipos têm na cabeça. Pelo contrário, quanto mais viajamos mais nos apercebemos da fragilidade dessas ideias feitas.

Quando viajei para Berlim, por exemplo, confesso que ia de pé atrás. Tinha a ideia de que os alemães eram uma espécie de nazis arrependidos, racistas e arrogantes. O cliché fora alimentado durante anos por relatos de pessoas que me garantiam que estava lixado num pais como a Alemanha, devido ao meu tom de pele meio «marroquino». Acontece que me senti muito confortável em Berlim. As pessoas eram educadas e afáveis, de um modo geral, e acabei por rever completamente o cliché do alemão arrogante.

E, para aqueles que acham que os holandeses são uns debochados do caraças, há de tudo. É certo que Amesterdão tem os coffee shops e o red light district, mas são tipicidades. Desengane-se quem pensa que basta pôr os pés em Central Station para ser logo assediado por amazonas louras descontroladas e freaks a venderem hash barato.

E os Espanhóis? O medo que eu tinha dos espanhóis, os nossos inimigos de estimação segundo os manuais da escola primária e os clichés do portuga comum. Afinal não são nada disso, nuestros hermanos. São até um exemplo para nós, com a sua paixão, a sua alegria de vida, o seu frenesim…

Estas férias viajei para o Brasil. Um dos clichés mais associados ao povo brasileiro é o de que se trata de um povo alegre, feliz, sempre em euforia. De entre os brasileiros o Baiano é o mais brasileiro de todos… Mas é curioso: uma pessoa chega à Baía e sente imediatamente que os baianos fazem um esforço para confirmar essa imagem. Digo bem: um esforço, porque mais que alegria genuína, o que senti foi o esforço que eles faziam para confirmar essa alegria.

O baiano tem qualquer coisa de artificial, aquela alegria é exagerada… Imaginem que acabam de chegar a Porto Seguro (no sul da Baía) às quatro da manhã, horas portuguesas, depois de uma viagem de 8 horas mais quatro de atraso do voo. Obviamente, o que querem é dormir. No entanto isso não é tão claro para os nossos anfitriões. Sou metido numa camioneta que faz o transfert do aeroporto para o hotel e ligam a aparelhagem que berra uma música intoleravelmente frenética: axé! Este tipo de música haveria de se me tornar familiar. O guia grita:
- Alegria, alegria, galera. Tá todo mundo triste, coméqué, galera? Alegria. Estamos no Brasil, aqui não tem tristeza, não…
Isto é normal? Estes mesmos guias, seu Anderson e seu Dorival, soube-o depois, vêm de uma directa, uma vez que tiveram que trazer um grupo de turistas ao aeroporto para recolher o novo grupo – onde me incluo - que acaba de chegar. Evidentemente, tudo isto é alegria plastificada, de conserva, para alimentar clichés na cabeça de turistas europeus. Plastificada e burra, já agora, não era preciso ser muito inteligente para entender que àquela hora, depois de um voo cansativo, o que uma pessoa quer é que o deixem sossegado.

Ao longo da minha estadia no Brasil, principalmente em Porto Seguro, fui-me apercebendo que o comportamento artificial dos guias turísticos vendedores de alegria, não é assim tão excepcional. O baiano parece estar sempre em pleno estado de euforia. Ora, acontece que eu não acredito na alegria perpétua. Não que seja um pessimista nem um deprimido, pelo contrário, mas desconfio de gente tipo merche romero, sempre a gargalhar por tudo e por nada. Ninguém está sempre a rir às gargalhadas, que diabo, não dá… Por isso perguntei-me muitas vezes a mim próprio o que se esconde por detrás daquela alegria… Faltou-me ver, ou vi muito raramente, o espaço intermédio entre a euforia excessiva e a pobreza triste ou agressiva do baiano. Não há nada no meio? Desconhecerá o brasileiro comum a serenidade que encontramos nas canções dos seus conterrâneos, do Caetano e do Chico, ou na bossa nova do João Gilberto e do Vinícius? É estranho… Eu chego às praias fantásticas de Caraíva ou às florestas da Coroa Vermelha e aquilo é lindo e dá-me uma sensação de tranquilidade absolutamente fantástica…. Mas contacto com o nativo e apanho com uma injecção de axé que não me aguento. Nem os vendedores de cds piratas da praia têm Caetano, raramente têm Chico e bossa nova nem vê-la. O que eles ouvem é axé. Axé por todo o lado, para meu desespero.

O axé é a música que melhor exprime esta falsidade existencial. Tem excesso de ritmo, excesso de movimento, não chega a ser uma dança, é mais ginástica aeróbica que outra coisa qualquer. As letras apelam invariavelmente à euforia: «Sou guerreiro, sou brasileiro, sou praieiro, sou solteiro. Que mais quero?», canta uma mulata, qual Shakira tropical em versão axé, num Luau na Ilha dos Aquários. Como se a felicidade fosse uma dádiva caída do céu… Oferecida e não conquistada. Se calhar até é, em algum grau, mas estas letras, este ritmo frenético do axé, soam a falso. Isto é feito para esquecer a realidade, para provocar uma embriaguez virtual. Eu vejo nesta alegria demencial, precisamente o seu oposto, algum desespero. Vejo na alegria eufórica e permanente do baiano, um lado desesperado, aflito. Não que a alegria seja má. Mas quando ela é uma máscara… Que esconde o baiano? Que se esconde por detrás das cores fortes dos trópicos? S. Paulo? Rio de Janeiro? Cidade de Deus?

Pic: http://www.grupoaxebahia.com/graphics/fotos/67.jpg

05/09/06

O Sorriso Do Bogart, por Mangas

Para além da gabardina, Bogart era um tipo a quem assentava um belo fato cinzento como uma luva de pelica. E um relógio de bolso com corrente em ouro, no bolso do colete, como no Falcão de Malta. Mas, quando Bogart sorri, contrai apenas as bochechas até metade da amplitude normal. Não é um meio sorriso - é um aviso cínico que não está ali para brincadeiras porque ninguém lhe paga para fazer comédia, que a qualquer momento o céu pode chover, da mesma forma que um punho crispado pode desenculatrar um maxilar. Quem observar com atenção verá que, quando sorri, Bogart fixa o olhar de predador sem paixão e não procura mais nada, não evidencia sinais de baixar a guarda, não vai atrás de mexer em coisa alguma que não seja o lábio inferior onde habitualmente encaixa um Chesterfield. Nesse instante, fugaz como a nota surda de um piano calejado, ele olha sem pestanejar. Com alguma dose de sorte e bourbon, esse olhar mortiço e o sorriso, em conjunto, podem ser a manifestação mais exuberante do seu sincero calor humano. No final, tudo é feito em três tempos e com mortífera honestidade: primeiro as bochechas, depois o olhar não conformista e finalmente o golpe suspeito do lábio. A voz ciciada completa a ameaça. É preciso estar muito atento para não se perder nada desta linguagem corporal que se exprime movida por um código moral inabalável porque, logo a seguir, ele fecha-se de novo, vira costas e desaparece. Se pudéssemos chamar àquilo tudo alguma coisa, seria integridade.

Bacalhau, Sem Espinhas Quer Alho, por Kzar

Evocando a Noruega, de onde preferencialmente deve provir, o Gadus Mohrua (atenção, que comerciantes sem escrúpulos vêm vendendo um peixe do pacífico, aparentado com o fiel amigo, como se fosse o propriamente dito! Felizmente há legislação recente que obriga a identificar a espécie) sugere que o comamos como faríamos a uma jovem norueguesa de aspecto saudável e convidativo: lourinha, limpinha, sem espinhas nem aditivos dispensáveis e, sobretudo, com o seu aroma natural (aspecto importante em ambos os casos).

Com isto em mente, tomam-se algumas postas, apenas medianamente demolhadas e de boa espessura, cortando-as em tiras algo longas, com cerca de 2 cm de largura, firmes e rijas como as coxas da compatriota humana do bicho.

Deitam-se apenas sobre a frigideira, em azeite puro e bem quente, com as peles para baixo, até que pelo lado de cima as lascas começam a destacar-se umas das outras, nunca virando. Por baixo, a pele há-de estar um tanto tostada, rijinha, como se a tal norueguesa tivesse estado tempo demasiado ao sol da Costa Vicentina.

Empratam-se as apetitosas tirinhas e lança-se-lhes por cima alho que foi previamente picado e tostado no gratinador, até ficar entre o amarelo e o já levemente castanho. Em companhia, virão umas quantas batatas enfoladas e isto, senhores, é um segredo só por si, embora simples e que não custa revelar.

Os tubérculos hão-de ser de raça adequada à fritura (deve perguntar-se a merceeiro competente e honesto) e de tamanho médio. Descascados e lavados, cortam-se em rodelas de 5 mm de espessura, que se salgam e põem a fritar, em óleo bem quente, durante pouco mais de um minuto, até que adquiram cor semelhante à das horríveis congéneres pré-fritas. Por essa altura, retira-se a cesta da fritadeira e deixam-se as rodelas de ouro a descansar, esfriando, pelo menos quatro minutos e sempre tendo cuidado de as destacar umas das outras, para que se não colem. Finalmente, vão de novo à fritura, tendo-se mantido a temperatura do meio gorduroso, sendo coisa muito de ver e espantar como incham, enfolando a película, que se deve deixar quase queimar, marco da confecção perfeita.

Temos então em cada prato tirinhas de bacalhau, encimadas por alho tostado e acompanhadas de batatas enfoladas, completando-se a comandita com um vinho de estalo, que possa certificar uma jantarada em condições, mas não demasiado elegante nem tão forte que desequilibre a nórdica. Sugiro um Quinta de Foz de Arouce.

Exeunt

E como é preciso morigerar um pouco as agruras deste vale de lágrimas em que arrastamos nossos sofrimentos, mas o bom Deus dispõe que nisso sempre usemos de alguma frugalidade, passamos sem sobremesas e acabamos em meditação sobre uma garrafinha de Porto. Ouso dizer que o Quinta do Noval, LBV 98, Unfiltered, é uma escolha exactíssima. Beba-se à fartazana, em copázios e que se lixem os velhos e minúsculos cálices ou o maldito merchandising do Siza Vieira.

Insisto: quem é amigo, quem é?

Porcos em Cuecas, por Pig Klein

Sacrifíco a modéstia à verdade e afirmo: aqui, entre a malta do Tapornumporco, eu sou o gajo que veste as cuecas mais bonitas. No Sábado, nos balneários de Montebelo, após mais uma jogatana, banho tomado, estava a malta toda nua a esfregar-se nas toalhas de turco. Garanto-vos que o espectáculo é lastimável. Mas pronto, aquilo também não é uma passagem de modelos, a malta está lá é para tomar banho e, embora desagradável, não dói nada e passa depressa. O estranho é que o espectáculo piora quando a nudez se cobre. Devia ser ao contrário, isto é, quanto mais e mais depressa se encobrisse a fealdade, menos desagradável se tornaria a contemplação. Sucede que a inversão desta regra se deve à deplorável qualidade das cuecas usadas. Esteticamente, os trousses confradais são deploráveis e, assim, quando os confrades os vestem o espectáculo deteriora-se.
Eu não, eu joguei com uns modernos boxers Throttleman de puro algodão, com umas cornucópias douradas sobre fundo azul-esverdeado. Depois do banho, optei por uma mudança de estilo, mantendo todavia a classe, vestindo uns slips com meia-perna, de um branco imaculado, cintado com um elástico negro. Assim tipo Calvin Klein. Este modelo acondiciona melhor os aparelhos viris, dando uma maior sensação de segurança e conforto. Está tudo pensado, com categoria. Classe pura.
Agora, o resto da malta ainda não percebeu que a beleza interior também conta. E até dói ver aquelas cuecas antiquadas. Um deles, o Vice, usava umas axadrezadas, com dois tons de verde. Lamentável. Pareciam sobras de um cortinado comprado nos saldos da Moviflor. O outro, o Grunfo, usava umas cuecas azuis, modelo antigo, tipo Jotex ou coisa que o valha, fabricadas no Vale do Ave seguindo modelos de mil-nove-e-cinquenta-e-tal, apertadíssimas e com a fruta mal acondicionada a sufocar. É certo que a cor escura tem sempre a vantagem de disfarçar as distrações. Mas está mal. O Santo Sudário também não era azul escuro. Quando eu esperava que o último elemento do grupo, o Mau, desse o exemplo contrastante, eis que a minha decepção se torna total. O Mau, que é o homem que afirma que os botões de uma camisa devem ser da cor do tecido e insiste para que a regra seja observada, revelava agora o seu lado parolo. O homem veste cuecas negras, banalíssimas, daqueles modelos em V, antiquadíssimos e completamente out.
Há que mudar, inovar e modernizar. Isto não pode continuar assim. Na Europa já não é assim. Vistam-se como deve ser. Ou então, andem nus que não é pior!

04/09/06

André, por Pajuçara

Este é o André. Quer dizer, não é, mas podia ser. É igual a outros tantos Andrés que eu conheci nas praias do Nordeste brasileiro. O André tem 16 anos, disse-me ele, mas parece ter 13. Todos os dias apanha caronas nos jipes que percorrem os cerca de 10 quilómetros da praia do Carro Quebrado, Maceió, e tenta ganhar umas gorjas dos turistas. O André foi meu companheiro durante a viagem de jipe. Dei-lhe uma gorja, claro, ele era simpático e acertou em cheio quando me disse que o Simão era o melhor jogador do Benfica.

O André vai e vem nos jipes. Chegados ao ponto de partida, salta em andamento e apanha o próximo. Os guias não se importam, conhecem-no bem. Passa assim o dia, pra cá e pra lá. Com um bocado de sorte talvez saque mais um real ao próximo grupo de turistas e consiga fazer 5 ou 6 reais no fim do dia. Às 19 30, disse-me ele, tem que estar na escola. Ouviu-me com atenção sincera quando lhe disse que devia estudar e tirar um curso técnico, de electricista talvez, que, ouvi dizer, ganha 50 reais por problema de electricidade resolvido.

Há quem goste do André e dos muitos Andrés mais novos e mais velhos que povoam as praias do Nordeste. Há quem não imagine o Brasil sem eles… E há quem os deteste, como detesta mosquitos. É verdade que são muitos e chegam a ser chatos. Ouvi uma portuguesa a queixar-se: que esta gente não trabalha, mas é!, que com estas condições deviam ver o que os portugueses não fariam aqui, nós que somos um povo trabalhador, eles, uns mandriões, vão trabalhar, caraças, sempre a chatearem as pessoas... É verdade que aquela malta às vezes incomoda, nem sempre me apetece comprar artesanato «genuíno», nem água de coco, nem ostras a metade de um euro… Mas em conversa com o André fiquei a pensar que se fosse um deles talvez também eu andasse na praia, não sei…

O estado de Alagoas é um dos maiores produtores de cana do açúcar do Brasil. Percorrendo os 136 quilómetros que separam Maceió de Maragogi, a paisagem é quase na sua totalidade preenchida por fazendas de cana do açúcar a perder de vista. Propriedade de duas ou três famílias, apesar dos inestéticos Sem Terra nos seus bairros de colmo e de barro à beira da estrada. Pergunto ao André o que é que o pai faz: trabalhava na cana, agora vende suco de abacaxi na Ilha da Coroa. Percebo porquê, aprendo com ele: um bom apanhador de cana ganha por dia entre 10 a 30 reais (1 real=2,75 euros) e levanta-se às 3, 4 da manhã para cumprir a jorna que dura até à noitinha. O André tem 16 anos e ganha cerca de 5 reais por dia em gorjetas dos turistas que lhe pagam para sorrir. Um suco de abacaxi, com o respectivo abacaxi, custa 7 reais. Talvez isto explique porque é que há tantos Andrés, novos e velhos, no negócio do «turismo» e não no da apanha da cana. A mim também não me apanhavam na cana, isso é tão certo como o Simão ser o melhor jogador do Benfica…

01/09/06

Meteorologistas e Coleccionadores, por Pig Colector

O boletim meteorológico em Espanha é a coisa mais ridícula que existe. Não só em matéria meteorológica e não só para um português. Para um espanhol, ou para outro qualquer extrapeninsular que livremente viaje pela Península aproveitando a liberdade, o boletim é inexplicável. Imaginem um belga em Salamanca a lobrigar, acaso sobreviva ao IP5, molhar os pés na praia da Claridade lá pelo fim da tarde. Após as tapas, e já na Plaza Mayor, espreguiça-se e pede um café solo. Abre o jornal, busca a página da meteorologia para saber como está o tempo no litoral atlântico e…

- Merde! Portugal a disparu! Où est-il? – No caso de ser um belga francófono, claro, senão, imaginem merde em valão. A surpresa entende-se, seja qual for a língua. Portugal não é o Titanic, porra! O Copperfield quando fizer desaparecer um país será certamente a Síria, o Irão ou outro qualquer. Não vejo razão para riscar do mapa a Pasmaceira. Isto está mal, é certo que o futuro é cinzento, mas bolas, o Sol quando nasce é para todos. E se há coisa boa que a gente tem é o Sol. Porque não chegamos lá para estragar, nem com escadote. Senão fazíamos lá uma Quarteira, com Tê-zeros em time share e escorrega na piscina para os putos racharem os cornos. E também não custa nada dizer ao belga que na Figueira da Foz está vento como o caraças e a água é fria como o caraças.

Aceito que os luxemburgueses ignorem quem os rodeia. Pegam no zoom, aumentam mil vezes a Paróquia e desfocam a Alemanha, a França e a Bélgica. É ridículo mas compreende-se, pois o Luxemburgo é uma teimosia que nem aos luxemburgueses interessa. No máximo, é um bom local para sedear um banco, para lavar dinheiro, para fugir ao fisco, ou para resolver questões diplomáticas. O maior problema do Luxemburgo é que não tem luxemburgueses. Um país que tem este problema pode fazer tudo. Aceito também que o boletim meteorológico dos franceses ignore a vizinhança. O Hexágono é uma plataforma assoberbada por isso o francocentrismo é estatutário e tudo o mais é periferia. O mesmo se dirá da Alemanha. Já a Bota fá-lo naturalmente, pois logrou impor a lógica geográfica como condição para o desenho fronteiriço apesar de S. Marino e do Vaticano, minudiências tão microscópicas que nem corpo têm para levar com uma nuvem cinzenta em cima. A Inglaterra é um caso à parte. É célebre aquela anedota em que o apresentador da BBC anuncia um nevoeiro cerrado na Mancha e lamenta que o Continente fique isolado da Ilha. Que Portugal mostre o rectângulo destacado do todo peninsular, também se compreende. Portugal é uma exclusão. É como um médico especialista das doenças do pé que não quer saber o que é que se passa no nariz ou atrás da orelha. Exibe a radiografia ao pé enquanto coça o queixo e pensa na solução. Agora, o Todo é um generalista, não pode dizer que o que se passa no fígado não lhe interessa. A Espanha é generalista. Ou melhor, é um colégio de especialidades distintas que, juntas, formam um mosaico generalista. Lá iremos. Mesmo que Portugal seja um filho birrento e ingrato que, vai quase para um milénio, abandonou o lar, à mãe compete o seu dever irrenunciável, o qual é manter a porta aberta. Se um Nobel não se retira, a condição hispânica de Portugal não pode ser ela também sonegada. A Espanha pode não gostar do filho renegado, mas pariu-o e contra isso não há nada a fazer. Pode deserdá-lo e dizer que o não conhece, pode bater-lhe no rabo, pode virar-lhe as costas, não pode é dizer que não existe. É ilegal, em face do tribunal da História. Seria como se uma parturiente exigisse do obstreta a devolução do nado-vivo à condição pré-natalícia. A Espanha não pode fazer isso. Além do mais, fica-lhe mal. Vamos então à raiz do problema.

Recentemente, aquando da discussão e aprovação do estatuto autonómico da Catalunha, discutiu-se se a Espanha era uma Nação ou não. É um pormenor essencial. O Estatuto Autonómico, aprovado e referendado em meados de Junho de 2006, fala em povo, país, diversidade, energia de muitas gerações, tradição histórica, autogoverno, instituições próprias, liberdade colectiva, comunidade, posição singular, bla bla bla… Quanto ao essencial, o preâmbulo diz: «Cataluña, a través del Estado, participa en la construcción del proyecto político de la Unión Europea, cuyos valores y objetivos comparte.» Ou seja, além da Catalunha, declara-se um Estado que é a Espanha, naturalmente, o que faz da Catalunha uma nação subsidiária e dependente do Estado espanhol. Depois, adianta-se que «El Parlamento de Cataluña, recogiendo el sentimiento y la voluntad de la ciudadanía de Cataluña, ha definido de forma ampliamente mayoritaria a Cataluña como nación.» Quer dizer, o Parlamento democrático da Catalunha interpretou a vontade cidadã e votou maioritariamente a Catalunha como Nação, remetendo depois para o artigo 2º da Constituição espanhola que, segundo o estatuto autonómico «reconoce la realidad nacional de Cataluña como nacionalidad.» Leiamos pois o citado artigo 2º : «La Constitución se fundamenta en la indisoluble unidad de la Nación española, patria común e indivisible de todos los españoles, y reconoce y garantiza el derecho a la autonomía de las nacionalidades y regiones que la integran y la solidaridad entre todas ellas.» Atentemos aos pormenores e subtilezas, que é a única coisa que interessa. Em primeiro lugar, evita-se cuidadosamente a palavra Estado para definir a Espanha. Entende-se, pois tal faria da Espanha uma superstrutura estatal aglutinadora de várias nações. O risco é que, como toda a História ilustra, as nações são soberanas, logo, autonomizáveis. A História contemporânea tem milhões de mortos e rios de sangue a comprová-lo. Depois, apresenta-se a Nação espanhola como Pátria Comum. Não o Estado, conceito racional, jurídico-constitucional, fundador de toda a ordem política, base de toda a sociedade organizada e princípio de toda a história narrada. Mas a Pátria, esse vínculo afectivo com o solo telúrico que nos define a condição. É um conceito apolítico por definição, pois remete para a ordem natural. Tem-se uma Pátria como se tem uma mãe. Ama-se. Não se renuncia a ela, morre-se por ela. Ninguém morre pelo Estado. Esfrangalham-se sim pela Pátria. Pois que também eu sou capaz de ir aos cornos ao primeiro filho da puta que falar mal da minha mãe. Que é uma santa. Já do Administrador do Condomínio, ou do próprio Condomínio podem dizer o que quiserem. A mãe é a Pátria, o condomínio é o Estado. Assim posto, o que se diz após é supérfluo: indissolúvel e indivisível. Claro! Com três letrinhas apenas bla bla bla bla. No artigo 2º reconhece-se ainda o direito à autonomia das nacionalidades e regiões. E aqui, que é para onde nos remete o estatuto autonómico da Catalunha, há uma subtileza preciosa, quase cínica, que contrasta com o frustrado «amplamente» com que a lei Catalã qualifica a votação da maioria parlamentar que votou a Catalunha como Nação. A Lei Fundamental usa um plural – nacionalidades e regiões – que equipara em subalternidade todas as nacionalidades e até faz acompanhar o conceito de uma menção apoucadora, mesmo diminutiva, às regiones. Mais valia dizer nacionalidadezinhas, pois que assim dito a Catlunha é uma paróquia, ainda por cima obrigada ao dever de solidariedade com as restantes. A Catalunha até pode ser o coração da Espanha, mas como o coração é importante, mas não é autónomizável. Nenhuma parte renuncia ao Todo. Entende-se pois, e estipula-se, que Nação é a Espanha.

É aliás este o título de uma obra publicada pela Real Academia de la Historia em 2000: La España como Nación. Aqui, para além de nos apercebermos como a História, sob convocatória, é subsidiária da política, os sábios académicos forneceram aos políticos o fundamento teórico para o seu ensejo. Discute-se, discute-se e no fim apresenta-se a Espanha como Nação. Não como uma confederação de nações, ou uma Nação de Nações mas, simplesmente e sem mais, uma Nação. O que faz das partes isso mesmo: partes!

Mas há um mas. Há sempre um mas. E o mas é: Portugal! Os catalães até podiam dizer, queixando-se à mãe espanhola e apontando para o irmão português:

- Se ele pode eu também posso!

O que é dizer, se Portugal é uma Nação, a Catalunha, obviamente, também é. E o País Basco. E a Galiza. E quem não é pode vir a ser, aceitando para tanto a evidência que impossibilita que as nações sejam tidas como factos da Natureza. Se o passado quase milenar alicerça o estatuto português, o futuro sustenta as ambições catalãs. Senão mesmo o presente. Tal equivale a dizer que estes factos são da ordem da política, como é óbvio, apesar de historicamente se haver negado esta evidência. Não há nenhum estatuto natural, nenhum jugo impositivo. Tudo é política e a política radica na vontade dos homens.

Num capítulo interessante dessa obra, D. José Alcalá-Zamora Y Queipo De Llano, catedrático de História Moderna, declara a dificuldade em delimitar o conceito de Nação, chegando a falar de «labirintos intermináveis». Apesar disso, e sem qualquer intuito classificador, seja qual for o fundamento que as baseia, reconhece a existência de nações. Cita-as: Grã-Bretanha, França, Alemanha, Itália, Espanha, Estados Unidos, Rússia, China, Índia, Japão, Brasil, Canadá, México, Grécia, Egipto. Nem perco tempo a questionar a lista com a Tchetchénia e outros que tais. Prossigamos. O autor fala depois de Nações medianas, estabelecendo uma diferença que agora não me calha aprofundar: Bulgária, Roménia, Marrocos, Hungria, Suíça, Equador. Refere ainda países aos quais não cabe a designação de nações, são os pequenos estados: Andorra, San Marino, Mónaco, Vaticano, ou «os estadículos antillhanos» E, no meio de todo o rol, não se menciona Portugal! Não é um estadículo, convenhamos. É até uma nação, e um Estado, um dos mais antigos do Mundo, muitíssimo mais influente, considerando a linha diacrónica da História, do que a Bulgária ou o Equador, para só citar dois. O Real Académico, cita Portugal, algumas linhas após, apenas para ilustrar, baseado num dicionário de 1732, como se falava de «nação portuguesa» ou «nação andaluza» para referir o lugar de origem e nascimento. Ora, há aqui um equívoco inaceitável num catedrático e ainda por cima membro da Academia. Qualquer estudante de História argumentará que houve uma evolução semântica óbvia de forma tal que onde o dicionário de 1732 dizia «Nação», nós hoje diremos «Pátria». Porque Nação é um conceito romântico e oitocentista. Quando em 1812 a Constituição de Cádiz, que depois foi copiada pelos liberais portugueses de 1822, referia que a «soberania reside na Nação», atribuía ao conceito um significado diametralmente distinto do de 1732. Como é óbvio. Ora, se o catedrático não é ignorante, que não é, denuncia assim que a Academia iniciou uma investigação histórica comprometida ab initio, procurando fundamento para uma ambição política que consiste em declarar constitucionalmente a unidade da Espanha, submetendo para isso o rigor ao desejo. Em verdade, a conclusão estava estabelecida a priori. Isso mesmo o autor declara, com toda a razão do Mundo é certo, quando sentencia que Espanha é o todo Peninsular. Tudo o resto são partes, com Estado ou sem ele. E inclui Portugal. Naturalmente. Além das Astúrias, País Basco, Catalunha, os arquipélagos, Valência, Andaluzia, Estremadura, Navarra, Aragão, Madrid, Galiza, Múrcia, Leão, as Castelas e Rioja. Francisco Franco, o Caudillo, assim o entendia também. Pedro Teotónio Pereira, no prelúdio da Guerra Civil embaixador em Madrid, chegou a protestar diplomaticamente contra um cartaz da propaganda falangista que apresentava a Península sob a águia imperial de Carlos V sem o desenho da fronteira. E Salazar sabia, como revela Franco Nogueira, que o Caudillo, enquanto cadete da Academia de Toledo havia defendido uma tese que propunha uma estratégia para anexar militarmente Portugal em duas ou três semanas. Mas, voltando à questão das partes, caberia perguntar ao catedrático se, ao incluir Portugal e os arquipélagos (suponho que as Canárias e as Baleares), inclui também os Açores e a Madeira? E Melilla? Ceuta? E, já agora, Timor? Goa? Cabinda? A colónia de Sacramento? Macau? Dadrá e Nagar-Aveli? Enfim, tantas perguntas. Irresolúveis todas, porque a resposta será sempre escrava da condição, a qual é: defender aprioristicamente a unicidade da Espanha. Mas o rol anexador do catedrático, apesar de teoricamente intocável, não é declarável com facilidade. Pois se até Franco se viu forçado a assinar um Pacto Ibérico com Salazar no qual reconhecia a paridade estatutária! Só Filipe o logrou, pois que até os Reis Católicos, naturalmente, sempre se escusaram ao uso do título de reis de Espanha.

Por isso, se a declaração da unicidade é inconveniente, resta fazer como os meteorologistas, despreza-se Portugal. Não existe e pronto! Querem saber se chove, comprem o «Diário de Notícias». Esta via, a que chamo «meteorológica», é a seguida pelas universidades, pelos Estados, pelos governos, pelos estudiosos de ambos os países ao desprezarem-se mutuamente. Há, é certo, intelectuais como Eduardo Lourenço ou Valentín Cabero Diéguez, catedrático salamantino, que vêem a questão de forma descomplexada, sem que a hispanidade das partes conduza ao monolitismo do todo. A unidade hispânica deve ser granítica, devendo associar-se ao simbolismo robusto da rocha, a sua natureza compósita. Mas, apesar destes, e outros, o facto é que não há uma única história da Península Ibérica. Não há muitas mais regiões da Europa que tenham uma tão rica e tão vasta história comum, que participem de um passado tão próximo, que comunguem de uma identidade tão afim e, todavia, ainda ninguém se lembrou de escrever uma História Geral das Nações Ibéricas! Isto é incrível. A única obra que eu conheço é do grande historiador, Hipólito de la Torre Gómez que em 1998 coordenou uma obra em 400 páginas com a participação de diversos historiadores de diversas proveniências, intitulada España y Portugal. Siglos IX-XX. Vivências Históricas. Curiosamente, quase dez anos volvidos, ainda não há tradução portuguesa. Muito significativo é que o título mencione a expressão «Vivências históricas» É esta a condição para se escrever uma história da Península. Ver a história como uma vivência e como uma memória construída, partilhada, cheia de conflitos explicáveis e enquadráveis, repleta de desentendimentos igualmente explicáveis e enquadráveis. Sem qualquer reserva apriorística, livre de todos os propósitos político-ideológicos, sem subserviências e sem proselitismos, entendendo que a identidade se funda em interpretações históricas e elaborações culturais e que a história se constrói e reconstrói conforme a vontade dos homens e não conforme os condicionalismos da Natureza. Assim, entender-se-á a Península como um todo, mas como um todo que é um mosaico com várias tonalidades. Sendo que o passado é plural, as Espanhas como se dizia nos tempos suevo-góticos, e a unidade exigirá sempre o respeito pelas especificidades locais, regionais e nacionais. Assim nos declararemos, como Fernando Savater, contra todas as pátrias, decretando falido o modelo a que Fernando Catroga alude e pelo qual o Estado-Nação impôs um «conceito unicitário de soberania» sintetizável na forma do regalismo francês: «une foi, une loi, un roi», supondo-se que qualquer divisão era uma rebelião contra o Estado, constituindo esse o crime supremo, mais do que qualquer blasfémia.

A solução está pois em renegar esta «mentalidade excludente», usando a expressão de Savater para qualificar os fanáticos que achavam que não se pode ser basco e espanhol e basco e francês ao mesmo tempo. Contra isto, Savater escreve: «Pode-se e deve-se ser não duas coisas, mas muitas outras, todas as que nos permitirem conviver em harmonia e liberdade com o maior número possível de seres humanos. Abaixo os regimentos e a sua uniformidade idêntica! Criemos sociedades civis, onde as pessoas vistam à civil e sentindo-se bem, onde não haja nenhuma obrigação de nos parecermos a nenhum estereótipo de identidade nacional e onde as efectivas similitudes, que sem dúvida continuarão a verificar-se, sejam afinidades electivas do coração e não imposições burocráticas dos sargentos que se propõem administrá-las». Concordo! Letra por letra. Assim, veremos como desnecessária é a presunção da lei autonómica da Catalunha, da constituição espanhola, das conclusões das academias ou das verdades dos académicos comprometidos. Tudo é vão. Enriqueçamo-nos. Coleccionemos identidades como uma criança colecciona cromos de uma colecção interminável.