04/02/09

DO PATRIOTISMO E ARREDORES, por Cão

O patriotismo é a fórmula que o inconsciente colectivo encontrou para amar a merda.
Posso dizê-lo de outra maneira – e tenho-o feito – mas fica esta: amar a merda.
O inesgotável filão de imbecis desta puta-pátria tem o seu quê de transcendente, de quase divino, por tão humano e imanente e imbecil.
Eu deste país de merda só queria meia dúzia de oliveiras, talvez nem tanto.
Manhãs rentes ao mar, ele há muitas noutros países.
Isto é tudo tão merdoso, que nem me cansa.
Para me cansar, teria de correr – e estes paços não merecem um passo sequer.
Falo a sério, chiça.

Os insuficientes mentais da rádio-televisão, a quadrilha dos bancos, as seitas evangélicas, os poetas, os de Braga, os actores, os engenheiros, os anais e os menstruais, os cancerosos, os que alugam barcos, os à esquerda da direita e os do avesso da esquerda, os solícitos solicitadores, os abstémios, os não-fumadores, os de Setúbal, os filhos-da-puta em geral e as mães deles em particular, os sindicalistas que não fazem boi e os bois que vão para sindicalistas, os bulímicos, os químicos, os de Abrantes, os que usam cachecol, os que usam o Estado, o estado do uso, o estudo do abuso, os coimbrinhas, os que só dão o cu mas aparecem de piça à lapela, os tónico-capilares, os bic-laranjas, os rosa-cristal, os ciganos e os cigmeses e os cigsemanas e os cigdias e os cigminuto-a-minuto,, os lopes, os palopes, os motores, os promotores, os disto e os daquilo, os reformados, os reformistas, os reformadores, os formadores, os dores, os de Beja, os taxistas, os utentes, os entes, os doentes, os hirsutos, os mansos e os brutos, os anémicos, os da Pampilhosa, os que tossem, os que rumorejam, os do cinema de produção nacional, os nacionais de produção teatral, os que cortam árvores, os que rotundam, os que se arredondam, os que vendem a salvação em brasilês, os que dizem é-assim de cinco-em-5 segundos, os que dão aulas e os que faltam às aulas, os que superbockam, os que acham bem tant’auto’strada entre nenhures e sítio algum, os que amocham com o andor nas procissões, os que mesmo não sendo mulheres não têm colhões, os que tendo mulheres as deixam ir a pé a Fátima ou sabe-se lá aonde, os de Leiria, os cabeleireiros mais fêmeos do que o elástico dos soutiens, os que já redigem sutiãs, os que se pudessem não deixariam ninguém poder, os suinicultores, os que mexem nas partes dos netinhos, os netinhos, os de Tavira, os que mordem a haste dos óculos, os que bebem o vermute com o mínimo esticadinho até à unhaca de tirar cerume dos pavilhões capiloso-auditivos, os dentistas, os aut(omobil)istas, os que têm o cu virado para África, os que nos venderam a Bruxelas, os que estão em Bruxelas a vender-nos ao resto da Bélgica, os que estão em Bruxelas mas voltam, os que rogam por-obséquio, os que pedem tenhamos-a-fineza, os que nunca leram o Nuno Bragança, os que lêem o Torga, os que vomitam, os que crocitam, os que caganitam, os que gritam, os que se vêm mas não se vêem, os que compram nos chineses camisolas para levar à manifestação contra o desemprego, os secredromedários de Estado, os mais altos camelos da Nação, os do Porto, os do FC do Porto, os que têm cataratas no olho-do-cu, os que têm dois-olhos-do-cu na cara, os que fumam mentol, os que dizem cagalhão com boquinha francesa, os que estão sempre a falar no exílio de Argel, os que expectoram pescada, os das poupanças-reformas, os pais-natais, os meninos-jesuses, os das rifas, os do vê-mazé-se-te-abifas, os do torrão-de-Alicante, os de Nelas, os da tropa, os da Europa, os que põem as filhas no ballet ao dispor dos pedófilos que dão Religião & Moral, os que põem os filhos na heroa, os que dolcegabanam e os que só abanam, os que confundem os canhões de Navarone com a ponte do rio Kwai, os que são mágicos, os trágicos, os que são marítimos, os histamínicos, os cómicos, os noz-vómicos, os da Covilhã, os que trocam a rata da mãe por duas embalagens de bacalhau pré-demolhado, os que são trocados pelas mães, os de Bragança, os de Silves, os do Funchal, os do Pico, os de Cantanhede, os de Viseu, os de Peniche, os de Évora, os de Aveiro, os de Pinhel, os de Newark, os de Portalegre, os de Goa, os da Trofa, os de Sacavém, os de Berna, os só-de-taberna, os de S. Paulo, os de S. Paulo de Frades, os de Oliveira de Azeméis do Hospital de Frades do Bairro, os que paulocoelham, os que siddhartam, os que se peidam que nunca se fartam, os que dizem ámen e os que amenizam, os que vertem e os que entornam, os que tornam, os que se encornam, os que se autorretratam e os que nunca se retractam, os que vêem o telejornal, os que já viram ovnis chamados ufos, os bufos, os tartufos, os alecrínicos e os manjerónicos, os que blogueiam, os que bloqueiam, os que manoeldoliveiram no pátio das cantigas, os que nunca se movem, os que se comovem, os que bradam, os que ladram, os que votaram neste cabrão mas agora juram que não, os não foram eles, os que são outros em vez deles por não ter sido o pai deles a foder a mãe deles, os que mandam nas urgências, os médicos, os que têm tétano por profissão, os que fazem do tédio negócio e os do ódio ócio, os ósseos, os seminais, os seminaristas, os sacerdotais e os chupistas, os que foram às urgências para morrer em casa, os que nascem em ambulâncias, os que nem casa têm onde cair mortos, os de Alenquer, os sibaritas, os hermafroditas, os foditas, os jesuítas, os juristas, os naturistas, os que chupam cabeças, os da bandadalém e os que ficam sempre aquém, os de Sintra, os da Madragoa, os porteiros, os parteiros, os excêntricos, os teocêntricos, os dos amanhãs-que-cantam-quando-a-galinha-tiver-cáries, os de Pombal, os que anoitecem de manhã, os que tonycarreiram, os que encarreiram, os que encarneiram, os do poder local, os do foder boçal, os que vendem meias a paraplégicos, os que ladram Deus ao domingo, os que arrolam testemunhas na esquadra de Jeová, os holocáusticos de David, os do tremoço e os da pevide, os que não comem carne de porco sabe Deus porquê, os que dão sangue mas só o do fim da borbulha, os do Estoril e eu também – tudo merda.

Tudo.

8 comentários:

Anónimo disse...

Grande texto, Dog! Pode haver literatura-jazz? Pode. Tá aí no post.
Miles

Anónimo disse...

foda-se. tudo

almada negreiros

Anónimo disse...

começou bem, muito bem. perdeu-se num autismo histriónico. glosar as palavras, pode ser. mas num rolo de papel...é um longo bocejo

obama

Cão disse...

Aqui o Obama tem razão, coitado. Isto de andar para aqui a glosar as palavras em papel ao rolo, fogo, dá para bocejar. Imagino aliás que seja o que mais o faz bocejar, ler.
Ler boceja uma pessoa toda.
Uma pessoa obama-e toda quando lê.
E quando não lê, por ser "muito", ainda boceja mais, porque os gajos que lêem não dormem.
Um dia até a "baracka" abana. Ou obama.
Ou o penico debaixo da cama.
Vai-te mazé pôr num porco.
Leva rolo.

Anónimo disse...

óLHA LÁ Ó PÁ, ESSA D`"os juristas", é pra mim, é??

Vamos lá a ver se o caldo não se entorna!

ass: DantasDeCacilhasNegrelos

PS: só me saem Duques!

Anónimo disse...

os de pombal, não!!! dassse
Ganda cão!!! BOTA MAIS LENHA

Cão disse...

Esqueci-me de botar os de Moimenta da Beira.

Anónimo disse...

ó cão, ler é bom, mastigar... só outras coisas. gosto dos teus trocadalhos do carilho. eu até ia pôr-me num porco...quando estiveres disponível avisa. continuo a gostar de ler-te. força aí. com ou sem rolo. e sim, foda-se tudo.

oba a ama