13/10/09

Amália, por Jacinto


As comemorações geralmente chateiam-me. Mas no caso da actual comemoração dos não sei quantos anos da morte de Amália Rodrigues eu abro uma excepção. Graças a estas comemorações, os adoradores de Amália (entre os quais me incluo) podem ver na tv reposições de programas e gravações antigas da Diva, filmes, reedições da discografia oficial, enfim, um forró. Considero Amália Rodrigues uma das maiores personalidades artísticas de todos os tempos e, portanto, comemorações como esta vêm sempre a calhar a ainda sabem a pouco.

Penso, por vezes, nas razões do meu fascínio pela Amália. Não sei porque é que gosto tanto dela e se calhar nem quero saber. Sei que há algo naquela voz e naquela música que me atinge proundamente e isso chega. Acho que a Amália tem uma seriedade e uma gravidade muito especiais e a forma como poderei explicar melhor esse sentimento é uma recordação que tenho de criança:

Lembro-me, ou melhor, nunca me esqueci, de uma noite, era eu miúdo, em que a Amália foi cantar numa terra perto da minha. Eu não fui vê-la cantar (era mesmo muito miúdo) mas lembro-me da pessoas da minha terra a juntarem-se para irem ouvi-la. De repente, a praça central estava cheia de mulheres vestidas de preto, de lenços escuros à cabeça, gente que vinha da faina agrícola, que parecia ter saído de um outro tempo muito antigo. Também havia homens mas eu lembro-me sobretudo das mulheres pela gravidade das suas vestes.
Estas pessoas iam subindo para reboques de tratores e de camionetas agrícolas que partiam apinhadas. Todos queriam ver e ouvir a Amália, a grande cantora do povo! Mas o que eu retenho, ainda hoje, é que aquela gente não parecia ir para uma festa. As pessoas estavam sérias, graves, dir-se-ia que iam para uma missa ou para a celebração de um acto religioso. Parece que se preparavam para um ritual sagrado. o clima era muito diferente dessoutro que eu também conhecia e que era o ambiente das festas e dos arraiais aos quais nunca achei qualquer piada. Não havia euforia, nem alegria nem sequer tristeza: simplesmente um monumental sentimento de religiosidade. E era assim que os carros e os tratores apinhados de povo partiam para ver a Amália Rodrigues. Nunca esqueci aquele espectáculo e nem consigo imaginar o quão extraordinário seria assitir áquele concerto da Amália e do seu povo. Hoje, quando a ouço, é aquele mesmo sentimento dessa noite que reencontro na sua voz. E é por isso que eu gosto tanto da Amália Rodrigues.

6 comentários:

daniel.abrunheiro@gmail.com disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Anónimo disse...

é uma questão de fé. aceita-se. há quem goste de paulo de carvalho. e de toy. e tudo se justifica.

presidente da junta

Anónimo disse...

O mais espantoso é que é mesmo isso, PJ: uma questão de fé...
Jacinto

Anónimo disse...

Isso parece-me muito as missas em latim pré Concílio Vatiano II. Eu gosto mais daquelas missas com tudo de mãos no ar e a cantar e a dançar em transe, como nas igrejas baptistas americanas do sul ou nos concertos dos Stones. Pró ano, vamos cá ter o pastor Bono e seus ajudantes da eucaristia. Thank You Lord! Let's praise the Almighty, brothers and Sisters!

Ray Charles

Anónimo disse...

E eis quando não e surge uma nova crença: A Seita Cabalística da Amália.

A ver vamos se o Sumo Sacerdote se aguenta com um quizz amaliano, um dia destes in a theater near you.

Derbicho

Cão disse...

quero ver isso