22/02/11

Dia 12 de Março, Todos Prá Rua!, por Parvalhão

Porque é que uma música, um quadro, um edifício que foram ignorados durante algum tempo, subitamente, se transformam em peças de um valor inquestionável? Os exemplos são às dezenas, todos conhecemos o caso do pintor maldito - Van Gogh, Gauguin, os impressionistas - que passou a vida a fazer obras primas que os seus contemporâneos ignoraram. Porque que é que só os vindouros, muito tempo depois lhes reconheceram - áqueles e a tantos e tantos outros - a genialidade tardia? Será o génio um rastilho que só se pode consumir muito lentamente?

Acontece que em arte, como em qualquer outro acto de comunicação, há um factor de capital importância que os gregos baptizaram com o nome de Kayrós. Kayrós, o tempo da oportunidade, não Kronos, o tempo cronológico que devora os próprios filhos, mas o tempo exacto, o momento certo. É por isso que há grandes obras que não o são enquanto não chega o seu tempo, o Kayrós em que elas se revelam em toda a sua profundidade. E, ás vezes, acontece mesmo que obras que não são assim tão geniais acabam por ganhar um valor acrescido, precisamente, porque se revelaram no seu tempo, no tempo certo. Parece-me ser o caso evidente da canção Que Parva que Sou dos Deolinda.

Não sou um grande fã dos Deolinda nem me vou pronunciar sobre a qualidade musical da canção. Mas há uma coisa que reconheço áquela música: ela foi capaz, na sua singeleza profunda, de captar o espírito do tempo. E isso é, de facto, algo que roça a genialidade. Aquela música capta o espírito revoltado e indignado de uma geração humilhada e explorada por uma década de políticos corruptos. Os Deolinda expressam o lodo fedorento em que se tornou o portugal xuxa de zé socas. Está lá tudo, é uma música e uma letra que expressam o sintoma, o sentimento de decadência, da indignação e da revolta de milhares e milhares de jovens ultrajados. Que Parva que Sou é a denúncia do pântano, o anúncio de qualquer coisa que cheira já a fim de regime. E por isso é tão emocionante ver aquele vídeo em que milhares de jovens «quinhentos euristas» se levantam em peso e aplaudem os Deolinda, comovidos e arrepiados. Na mouche!

Os sintomas estavam aí - a intervenção artística mostra-se sempre especialmente capaz quando se trata de anteciparos sinais do tempo, como aconteceu agora. Sentia-se nos concertos do Sérgio Godinho, por exemplo: de repente, as velhas canções revolucionárias do antigo cantor de protesto ganharam actualidade. Mas ele escreveu aquilo em 1974? Sobre o fascismo?
Sentia-se na súbita vontade de re-ouvirmos o Zeca, o Fausto, o Zé Mário. As velhas músicas de protesto, para quem reparou, tornaram-se actuais, ganharam, estupendo!, de novo, o seu Kayrós. O Charlatão, Que Força é Essa, Uns Vão Bem e Outros Mal, Liberdade, etc, etc, dizem tanto hoje no portugal socretino, como disseram no tempo do portugal salazarista.

Infelizmente, os cantores da geração dos actuais políticos, os Xutos arrependidos e o abrunhosa mudo, não souberam estar à altura das suas responsabilidades (como não recordar o lamentável acto de contrição do zé pedro dos xutos a propósito da célebre canção do engenheiro, essa que foi um quase ícone e que, de repente, se esfumou em nada com a vergonha do seu autor?). Felizmente os Deolinda souberam estar à altura, foram eles a dar forma à raiva, ao desespero e à revolta da «geração à rasca».

Dia 12 de Março vamos todos prá rua porque, sejamos ou não desta geração, todos (bem, quase todos...) somos vítimas da podridão instalada. Ou como dizia o Zeca, venham mais cinco...

5 comentários:

J disse...

A «geração à rasca» foi a anterior a esta. E antes dessa era a «geração rasca». Agora é «geração parva». A geração dos meus pais (estou nos 40, como tal serei mais da rasca) era a «geração enrascada». E a dos meus avós a «geração desenrascada».

Se andarmos para trás no kronos, temos no país uma longa linhagem de gerações fodidas e mal pagas. Ao menos estes têm a emigração mais facilitada, já não vão lá para fora sem saber ler nem escrever, têm pais com rendimentos suficientes para os amparar e um Estado social que, mal ou bem, lá os vai sustentando. O que é muito mais do que tinham anteriores gerações, ainda que seja pouco.

Olha, a mim preocupa-me mais o kairós pós-salazarista que também vejo por aí cada vez mais a instalar-se, um saudosismo larvar e perigoso de um antigamente autoritário e idílico que nunca foi. Isso, sim, é preocupante.

M disse...

Da geração rasca que, ainda assim, tinha emprego.

Se pensares bem, como José Manuel Fernandes (bem) escreveu (http://blasfemias.net/2011/02/04/tudo-o-que-espoliamos-a-%E2%80%9Cgeracao-sem-remuneracao%E2%80%9D/):

""Já reparaste como, apesar de todos os actuais problemas, a nossa geração vive melhor do que as dos nossos pais? Tenta lembrar-te de como era quando eras miúdo…”

Era verdade: a minha geração viveu e vive muito melhor do que a dos seus pais. E eles já viveram melhor do que os pais deles. Mas quando olho para a geração dos meus filhos, e dos que são mais novos do que eles, sinto, sei, que já não vai ser assim. "


E que bom argumento é esse de que que se as gerações anteriores sofreram as actuais também têm de o fazer. Se a anterior era rasca esta que seja parva! A culpa é dos miúdos que agora queriam começar a mostrar o que valem e que não o podem fazer, por certo. Ou talvez seja a simples vontade de não ver que talvez o problema seja esse mesmo que indicaste: serem os actuais membros da outrora denominada "gerações rasca" a estarem no poder.

Anónimo disse...

Ó j, tu desculpa lá mas o teu argumento é o mesmísssimo «no meu tempo é que era, isto agora são todos uns rotos» mas em versão ao contrário (no meu tempo era pior... Mas nós éramos bons e não nos fomos abaixo). Eu acho isto muito pobrezinho, desculpa lá.
Além disso se levares o teu argumento às últimas consequências deves defender que o pessoal jovem do paleolítico estava muito pior e que as cavernas tinham muito más condições e não havia segurança social e a malta aguentou-se etc e tal portanto estes agora não têm nada que se queixar têm é que estar caladinhos e alegretes...
E finalmente nem sequer o teu diagnóstico da situação dos jovens em portugal é correcto e objectivo: vivemos a maior taxa de desemprego de sempre desde que o ingenheiro subiu ao poder e uma taxa de desemprego jovem como nunca existiu (isto segundo os dados do própprio ministério do valter trapalhão lemos que são, obviamente mentirosos, senão era pior). Portanto nem sequer aquele argumento do «no meu tempo era pior e a malta aguentou-se» é correcto.
Tu desculpa lá, mais uma vez, mas acho muita fraquinha a tua argumentação.

E então o teu remate final, «preocupa-me é o saudosismo salazarista» é a cereja no topo do bolo estragado. E porque não dizeres que o que nos deve preocupar mesmo é a ameaça nuclear, o terrorismo ou o preço dos remédios? Ora abóboras...

J disse...

«o pessoal jovem do paleolítico estava muito pior e que as cavernas tinham muito más condições e não havia segurança social e a malta aguentou-se etc»: Certíssimo.

«estes agora não têm nada que se queixar têm é que estar caladinhos e alegretes...»: Erradíssimo.

Epá, pronto, admito que seja frágil o meu ponto de vista, e concordo que quem está em dificuldades, jovens ou velhos, tenha legitimidade para se queixar e manifestar. Só queria avacalhar isto um bocado, que o porco anda a precisar de vida e só não alinho nesta conversa das «gerações». Há contextos, conjunturas e circunstâncias e não penso que seja correto generalizar dessa maneira. Muito menos correto será responsabilizar uma geração em particular (a «rasca») pelo estado das coisas.

Sendo certo que o desemprego jovem está altíssimo, também não deixa de ser certo que as condições nunca foram tão favoráveis a certo tipo de soluções, desde emigrar a ser empreendedor. Peço desculpa por não me juntar ao coro das lamentações.

A solução para quem está em dificuldades, por outro lado, não passa tanto por manifs com agendas irrealistas ou por mega-abstenções eleitorais, que só pioram a merda que existe, mas por mais participação, desde logo na política. Não no sentido clássico da caça ao tacho e à cunha, mas no sentido de dar corpo e força a alternativas viáveis de governo.

J disse...

E tomem lá para alegrar as hostes: http://www.youtube.com/watch?v=IQQ73yZ5zqQ