21/02/11

E uma jihad atómica? por J

Com o mundo muçulmano em ebulição e sem sabermos muito bem onde tudo isto vai parar - ainda que desconfie que não irá propriamente parar a um destino de radiosa liberdade e democracia - outras forças se movem nas entranhas do Médio Oriente. Bem ali no meio do intestino grosso, temos a República Islâmica do Irão, uma potência regional governada por fanáticos religiosos com tendências apocalípticas, cheio de ganas de nos dar cabo do canastro (aos americanos em particular e a todos os ocidentais infiéis em geral) e que não tarda muito tem a Bomba.

Isto enquanto o resto do mundo assobia para o ar. Uns, como a Rússia e a China, porque negócio é negócio e há muito negócio envolvido - petróleo para um lado, armas para o outro, etc.. Outros, como a generalidade dos países ocidentais, porque achamos que Israel irá tratar do assunto mais cedo ou mais tarde e que esse é um assunto existencial que lhes diz sobretudo respeito a eles, israelitas, que estão ali quase ao lado e que já estão cercados de hezbolla e hamas por todo o lado. A cereja no topo do bolo será, sem dúvida, a irmandade Muçulmana a dar cartas no Egito e a escancarar as fronteiras com Gaza. Aliás, muitos de nós, sobretudo as gentis e mui tolerantes almas esquerdistas, até pensarão que é bem feito, que o Irão tem direito à sua Bomba e que Israel não está senão a pedi-las. Como se não houvesse resto.

Enquanto isso, a "jihad iraniana" estende os seus tentáculos e prossegue impávida e serena na rota nuclear. Um cenário preocupante que este documentário retrata, fazendo um pouco de história e talvez exagerando um pouco na influência internacional do regime iraniano. Mas é de ver. Iranium.

2 comentários:

Anónimo disse...

Pois tens toda a razão. Eu pasmo quando vejo alguns optimistas aqui do nosso lado ocidental a congratularem-se pela queda dos regimes ditatoriais da tunísia, do egipto, da líbia e o mais que aí vem. Ok,e sempre bom que as ditaduras vão à vida, também me congratulo, mas o que não partilho, pelo contrário é do optimismo daqueles que acham que estas revoltas vão no sentido de uma maior abertura política daqueles países, como se estivessem em transição para qualquer coisa de parecido com democracias ocidentais. Pois aí sou pessimista: creio que é mais provável que a tendência de mudança nos países árabes seja mais no sentido do acentuar do radicalismo islâmico. Ou seja, não sei se o que aí vem é melhor do que as ditaduras que vigoravam, pelo contrário, desconfio que as coisas vão piorar. E registo alguns sinais nesse sentido: na tunísia, a moderada tunísia da revolução de jasmim, um padre polaco foi assassinado por grupos radicais, no egipto há quela coisa da violação da americana do 60 minute que é muito mais que um aproveitamento de uns debochados, dois navios iranianos preparam-se para passar o canal do Suez pela primeira vez nos últimos 30 anos devidametne autorizados pelas autoridades militares egípcias; o discurso anti-israel intensifica-se nesses países. Ná, a coisa tá preta para nós também...
Mau Mé Mé

J disse...

Pois, é isso tudo. Mas se um gajo assume esse discurso, aqui d'el rei que é reaccionário! Olha, ainda hoje trocava impressões com um amigo sul-africano e escrevi-lhe mais ou menos o mesmo que tu que foi isto:

«Quanto ao resto, não sei, está montado um circo complicadíssimo. As revoluções têm tido este efeito de contágio no mundo islâmico, mas penso que cada caso é um caso e penso que vão vingar sobretudo as forças no terreno com algum nível de organização. Ou seja: a tropa e os mullahs... venha o diabo e escolha. Mas estou um pouco pessimista, a massa de revoltosos é muito heterogénea e nem todos querem as mesmas coisas. Na Tunísia, aliás, já começam a ganhar força as facções dos fanáticos. Mas acho que esta é a hora certa para o ocidente apoiar sem reservas qualquer tipo de solução alternativa, financiando por exemplo os (frágeis) protagonistas seculares e democráticos e ajudando a organizá-los.

O problema é que as alternativas democráticas praticamente não existem. Mesmo Portugal, em 1974, tinha não só um Partido Comunista forte e no terreno há décadas, como alternativas organizadas como o PS ou a Ala Liberal (Sá Carneiro, Balsemão, etc.) prontas para pegar no poder. No mundo islâmico, as ditaduras não são tão "meigas" como o era o Estado Novo e a oposição política é muito mais reprimida. Resta a oposição religiosa, que está entranhadíssima na sociedade muçulmana e que, ao contrário do catolicismo romano, também é uma oposição política, já que o Islão, além de ser uma religião, é antes de mais uma ideologia. Uma ideologia totalitária, ainda por cima...

Não sei, deixa-os poisar. No Egipto, ao contrário de outros locais como o Bahrein ou a Líbia (onde a tropa é fidelíssima ao palhaço), penso que os militares (mais ocidentalizados) vão permitir uma transição para um governo mais democrático, até porque sem o apoio financeiro dos EUA, o poderio militar egípcio desmorona. O pior é se aquilo vai a votos entretanto e os irmãos muçulmanos arrasam nas urnas...

ps. os produtores do documentário, que está no circuito comercial e querem vender mais uns DVD's, entretanto mandaram retirar aquilo do Vimeo. Mas está aqui um excerto: http://www.iraniumthemovie.com/