20/02/11

O tapor, um regresso e um filme com vikings de barba rija e fraca alma, por J

A propósito de um apelo de um membro/sobrevivente deste blog, no sentido de vir aqui arranjar uma avaria nas entranhas do Tapor, voltou-me a vontade de voltar a postar por aqui de vez em quando. Isto depois de um longo interregno sem postar ou intervir, por razões endógenas e exógenas, mas sobretudo das últimas. E como eu, pelo que fui verificando, outros tapores foram dando outras prioridades às suas vidas.

O facto é que, afastamentos à parte, o tapor continua vivo, ainda que mantido praticamente apenas por um ou dois colaboradores, que guardam o forte quais indefectíveis gauleses ou texanos. E o facto é que sete anos depois, se me não falha a aritmética, o tapor continua a gróinkar e a atrair multidões (cerca de 11 mil visitas no último mês).

É certo que a maioria vem atraída pelo sexo, por alguns posts antigos de antologia sobre o universo porno. Os posts mais visitados são, de longe, os da saga da Monica Rocaforte, o da Little Oral Annie, The Queen Of Deepthroat, seguidos de perto pelo da Nigella qualquer coisa que é cozinheira e não se sabe se é ou não gorda. Ou seja, muitos aterram aqui, efectivamente, por acidente. Sendo que o grosso da coluna de visitantes é oriunda do Brasil, de longe. Mas isso não interessa, o que interessa é que no meio de tantos milhares de turistas, há certamente umas dezenas deles que perdem tempo a ficar um pouco mais por aqui, de molde a conhecer os hábitos e os costumes e a ler este vastíssimo espólio da mais pura cultura blogosférica, feita de momentos inspirados, idiotas (eu fiz a minha dose deles), bem humorados, informativos, conhecimento, opinião e debate e tudo. Sobre tudo e às vezes até demais. Em Português de quatrocentas calhoadas ao minuto, que era por onde o Assis Pacheco respirava. Essoutro coimbrinha ilustríssimo.

Isto tudo para dizer duas coisas. Que acho muitíssimo bem que o Tapor, este monumento ao saber e ao sentir popular (raiando mesmo por vezes o erudito) contemporâneo não morra, que volto com novas ideias e formas de pensar. E que (re)começo com uma pequena nota sobre cinema, um dos temas caros a este blog desde a sua Fundação, sendo sempre de homenagear aqui o Mangas, o nosso cinéfilo-mor, que tem para aí para trás muitas pérolas de crítica cinematográfica.

O filme que vos trago aqui hoje, por outro lado, vem (inconscientemente, só me lembrei dessa coincidência quando estava a escrever isto) um pouco na sequência de uma série de posts que fiz há uns anos para aqui, sobre a temática fitas de ménes, se não me engano. Lembro-me que escrevi na altura sobre o Dersu Uzala do Kurosawa e sobre o Lawrence da Arábia do Lean. E acontece que a fita do presente post também é sem tirar nem por fita de ménes, um filme masculino e viril dos pés à cabeça. E acontece que é também dos filmes mais (injustamente) esquecidos/ignorados de 2010. Sendo certo que não é propriamente um filme comercial, que é dinamarquês (co-produção com a Grã Bretanha) e que cerca de noventa por cento do filme não tem diálogos. Falo de

Valhala Rising, Nicolas Winding Refn

Há muito tempo que um filme não me surpreendia de maneira tão profunda. E isto é o mínimo que posso dizer desta obra. O que é bastante. E é daqueles a que nem arrisco dar estrelas, para cima ou para baixo, cada um que tire as suas conclusões. Trata-se de uma experiência cinematográfica um pouco desconcertante (sobretudo para quem tiver a expectativa de filme de aventuras com vikings) e que não será de todo consensual.

Eu achei este um filme marcante e, melhor ainda, um objecto estranho, singular, diferente, algo do tipo "novo", o que vai sendo cada vez mais raro no mundo do cinema. O que é sempre emocionante. Sobretudo se é uma produção modesta e sem grande aparato high-tech.

Em traços muitos gerais, estamos na Idade Média, ano 1000 DC, e acompanhamos parte do percurso de um escravo mudo e zarolho chamado One Eye, um guerreiro cativo de um clã de brutamontes escoceses. Grande parte do filme, como tal, é passado no cenário granítico e desolador das High Lands. O homem acaba por fugir e por se associar, relutantemente, a um bando de normandos (enfim, vikings) que assolavam a zona, cruzados em preparação para a grande viagem à Palestina, onde aguardava fortuna e redenção. Que foi exatamente o que não encontraram - ainda que não todos.

Em termos de trama isto basta (ou se não basta podem ir aqui), até porque este é daqueles filmes realmente de poucas palavras, de onde se sai também mudo e um pouco zarolho. Um filme de um realismo tão brutal que raia o gore, em certas cenas de extrema violência, em sintonia com a dureza daquela paisagem e daquelas vidas, mas que ostenta ao mesmo tempo uma beleza plástica, fotográfica e poética simplesmente arrebatadora, quase espiritual.

E a música e os actores. Superlativos. Tudo no seu estranho mas inevitável sítio.

Por ser um objecto algo bizarro, é difícil de catalogar, mas para dar uma referência, lembrei-me por exemplo ao ver o filme do universo do Terrence Malick. Outros entusiastas viram por ali o Dreyer. Eu continuo sobretudo a pensar que é uma injustiça ser tão pouco conhecido e falado. Vejam que vale a pena. E já agora completamente a despropósito, dos oscarizáveis aconselho vivamente o True Grit. Outro Senhor Filme.

2 comentários:

Anónimo disse...

O Porco não morre! Bom apontamento histórico, jota, sobre a história porcina... E eu ainda nem me tinha parecebido da longevidade da coisa: somos dinosssauros da blogosfera, o porco é um dos mais antigos blogs que por aqui andam. Um dia destes posto sobre a história do porco e os seus grandes ( e pequenos) momentos...
Quanto ao filme, nem sequer tinha ouvido falar em tal coisa. Fica a referência, vou ver se o o arranjo.
Marsapo

J disse...

Ainda por aí anda muita malta jurássica, olha vê aqui: http://apdeites2.cedilha.net/?p=1409.

Mas o tapor já merecia uma resenha histórica, sim senhor.