30/08/06

Encruzilhada, por José Clérigo

Há momentos decisivos na vida de um homem em que a consciência nos impõe o confronto com o destino. É altura de parar e, cara a cara, olhos nos olhos, colocar a questão primordial: que é feito do Ezequiel Canário?

29/08/06

A Sesta, por Mangas

Ontem fiz a sesta, como sempre faço aos sábados, depois do almoço. Resumi os sentidos, e o mundo em geral, à penumbra envolvente do quarto, depois ao eclipse gradual das vozes humanas que me chegavam lá de fora, até alcançar o silêncio perfeito. Durmo sempre quando faço a sesta. Quer dizer, podia sonhar ou criar monólogos introspectivos comigo próprio naquele estado de torpor semi-acordado, mas nunca fui bom conversador e, quando sonho, tenho uma tendência compulsiva para prever o passado. E para isso basta-me estar acordado.

Não tenho nenhum método para adormecer mais depressa; é apenas um jogo de antecipação. Tento chegar ao sono primeiro do que qualquer pensamento que implique uma perda de tempo e energia. Antigamente, quando fazia a sesta, costumava deixar uma fresta aberta na persiana de uma das janelas. Achava eu que, dessa forma, um traço umbilical entre mim e as vozes que me chegavam lá de fora seria preservado pela luz de baixo volume no quarto. De forma discreta, mas o suficiente para me fazer adormecer e acordar sem me sentir deslocado da espécie. Gesto inútil. Os risos e as vozes rastejantes são verdadeiras fracturas no isolamento absoluto e voluntário de quem se dispõe a fazer uma boa sesta, ou seja, a abdicar temporariamente de si mesmo e dos outros vários em seu redor. Além disso, nunca me sossegaram mais do que o vazio completo de sons ruidosos e claridades luminosas. Mas, quem é que raios necessita da companhia quando se prepara para fazer uma viagem sozinho?

Fazer a sesta é como um mergulho seguro na cor suprimida. Não há tonalidades, influências ou estímulos sensoriais no solitário conforto do vácuo. E a sesta tem sexo: é fêmea. É uma fêmea que nos espera para embalar no colo e apaziguar os males despertos. É como aquelas receitas caseiras de Vick Vaporub que inalávamos no vapor quente quando éramos miúdos, com uma toalha sobre a cabeça: respirávamos logo melhor a seguir e a gripe esmorecia nessa noite. É necessário algum egoísmo e ser cínico o suficiente para se apreciar a sesta e este processo de exílio que lhe é inerente. A brancura serena de tecto quando é tomada de assalto pela escuridão conquistada a um final de tarde. Um lento desmaio em hora de digestão prolongada. A mansidão deste conceito de não-existência pelo adormecimento pleno de corpo e mente. Verbo: desligar. Verbo: abdicar. Ausência, do género: vou ali, já venho, mas não sigam os meus passos nem me aguardem. Não há nada de anti-social aqui: quem treinar a sesta, primeiro como um namoro, depois como a complementaridade viciosa de quem não consegue viver sem o outro, um dia a sesta dir-lhe-á: “És tudo o que tenho. Vá lá, paga-me um jantar e vem dormir comigo.”

28/08/06

Pop-Golf, por Madeira 3

Na última quinta feira uma delegação do D.G. T. (Departamento Golfista do Tapor) dirigiu-se ao Campo Real, próximo de Torres Vedras, para mais uma missão de reconhecimento e expedição punitiva gastronómica. Por unanimidade e aclamação a jornada mereceu os mais rasgados elogios da comitiva.

O Campo Real oferece alguns dos melhores buracos que já jogámos, como o 17, um par 5 de 460 metros que apresenta um tee de saída que é um verdadeiro miradouro. Aí fizemos os melhores drives de que temos memória. Os fairways do campo estão tratados de forma irrepreensível . Os greens impecáveis. Acima de tudo, ressalta à vista o profissionalismo, a cortesia e a simpatia de todo o pessoal do campo, empregados do restaurante incluídos. Ficámos admirados: a excelência não é hábito.

O serviço do campo inclui o transfert gratuito em buggie do buraco 2 para o 3, uma vez que se trata de escalar um verdadeiro mini himalaia, tarefa inacessível a alguns golfistas menos pujantes. É inacreditável que, durante este mês de Agosto e do próximo de Setembro, o green fee continue a custar a irrisória quantia de 10 euros, mesmo para não sócios! Por este andar ainda nos pagam para jogarmos golf. É em momentos como este que me lembro que, numa das últimas vezes que fui ao futebol, paguei 25 euros para ver um Beira-Mar/Académica. E depois o golf é que não sei quê..

O campo tem, no entanto, erros claros de concepção. Nota-se perfeitamente que foi feito de acordo com uma lógica urbanística e não golfística. Isto é, como o campo faz parte de um condomínio fechado com casas de luxo e apartamentos à venda, percebe-se que a perspectiva de quem o desenhou foi o de valorizar as casas. Por isso é que o campo segue um traçado de grande exigência física, com distâncias enormes entre os vários tees de saída. Mas é claro que a vista para o campo valoriza cada casa. Quem o desenhou deve ter pensado: que se lixem os golfistas – aluguem um buggie se quiserem (a propósito a promção green fee + buggie só custa uns incríveis 15 euros)!

Mas enfim, estes óbvios defeitos não impedem que estejamos perante um campo muito interessante que coloca muitos desafios e recompensas ao fanático golfista. É um bom campo e merece nova visita assim que o Mau estiver disponível.

Mas há quem diga que o melhor do golf é o buraco 19. Nesse aspecto, uma grande virtude do campo Real é a sua proximidade do restaurante Trás D`Orelha, uma surpresa absoluta que, positivamente, nos arrasou com a sua qualidade. O gerente não faz a coisa por menos e, sem falsas modéstias, quando vem à mesa vender os seus produtos, adjectiva sem qualquer receio as suas criações:
- Temos um ensopado de safio fabuloso, uma sopa de cação extraordinária…
E por aí além… Com tanta confiança convenceu-nos logo. Ninguém dá a cara desta maneira sem uma inabalável confiança no que está a fazer.

Não me vou pôr aqui a elogiar a excelência dos pratos, nem vou dizer que a gastronmia nestes casos é uma verdadeira arte. Já o disse. Vão lá e prontos. Digo-vos só que o banquete incluiu as seguintes iguarias:
- pimentos de pádron – nem em Espanha comi melhores!
- camembert derretido com ervas aromáticas – um novo sabor, uma nova memória…
- ovas de cherne – uau!
- sopa do mar – honesta.
- sopas de cação – uma obra prima!
- massinha de cherne – bateu-se bem.
- ensopado de safio – oh my god!
- cabidela de pica no chão – yes, yes, yes…
- gelado de bauninha com passas de ameixa – a arte do contraste. Expressionismo puro!

Bebeu-se um vinho branco ao qual, confesso, não dei a atenção devida porque era eu que ia conduzir, mas sobretudo porque, foi escolhido sem convicção (os melhores vinhos estavam a preços proibitivos). O serviço foi inexcedível.
Um dia de férias assim, em que tudo está no limiar da perfeição, vale por uma semana ou duas no gelo da praia da figueira. E o preço acaba por ser muito inferior. Viva o 19º buraco do Campo Real! Viva!

25/08/06

O idiota, por Abd al-Malik

O idiota que aqui vedes retratado pelo pincel de Cristóvão de Morais deu nome a um mito idiota. E mais não fez. Há já muito que me dedico a estudar e a tentar perceber, sem sucesso diga-se, com uma profundidade que julgo inigualável, as razões da admiração que alguns dirigem a este idiota. E não me refiro a figuras de segundo plano: Pessoa basta. Mas há muitos outros. Romantizado ou mitificado, a verdade é que o idiota tem na memória colectiva portuguesa um lugar que não devia ter. É certo que muitos houve também, com António Sérgio à cabeça, que não perdoaram a idiotice ao idiota. Mas ainda assim, apesar de todas as evidências e contra toda a razoabilidade há quem continue a condescender com o idiota e a apresentá-lo como exemplo de espiritualidade sonhadora, grandiosidade e idealismo.

Há pouco, António Villacorta Baños-Garcia, um estudioso espanhol, publicou uma nova biografia do idiota. Deve dizer-se que o livro, apesar de correcto e bem escrito, fazendo um retrato isento do idiota, ao justamente considerá-lo um idiota irresponsável, não traz nada de novo. Excepção feita a uma sugestão desnecessária: que se colham amostras do túmulo do idiota para análise laboratorial do ADN para saber se realmente ali se encontram depositados os restos mortais do idiota. Assim se esclareceria uma dúvida que, em grande medida, foi a razão do mito. Eu, por mim, acho desnecessário. O idiota será sempre o idiota, quer os seus restos jazam, incógnitos no areal africano, quer sejam os autênticos depositados nos Jerónimos.

Muitas razões há para consagrar o idiota não só como o maior idiota da história de Portugal como um dos maiores idiotas da história da Europa. Esta basta: no dia 4 de Agosto de 1578, em apenas 3 horas, contra todos os avisos e conselhos, contra toda a prudência, sem nenhuma necessidade, com uma táctica militar completamente idiota, o idiota afundou-se juntamente com milhares e milhares de soldados. Não apenas portugueses, porque sob o seu comando combatiam castelhanos, alemães, italianos e mouros aliados. Foi a maior carnificina da história portuguesa e uma das maiores tragédias militares da história da Europa. Em apenas 3 horas, repito, soçobraram milhares e milhares de combatentes, de forma inglória, depois de haverem sido conduzidos para a desgraça mais do que adivinhável de forma absolutamente inconsciente e irresponsável. Gente bisonha, arrancada ao arado, incapaz de pagar o suborno que os isentaria da morte. Outros, cavaleiros irresponsáveis, aduladores do idiota, sedentos de glória. Os «últimos cruzados medievais», lhe chamam os admiradores contemporâneos, «o primeiro pateta moderno» lhe chamou acertadamente António Sérgio. Não se sabe ao certo quantos ali pereceram. Baños-Garcia fala em 14 000 sem especificar se contabiliza o total ou apenas os caídos no exército do idiota. Julgo tratar-se do total e que a fonte é Queiroz Velloso. Os números variam muito, todavia. Por exemplo, Aquilino Ribeiro, citando fontes árabes que não identifica, classifica a batalha de Alcácer como «uma carnificina cruel e despiedosa» onde terão perecido 6000 portugueses e apenas 18 mouros!? Noutra versão, José de Esaguy afiança, citando também «cronistas árabes nos seus escritos», que foi maior o número de mortos entre o exército mouro, o que «nos trouxe uma vitória passageira.» O melhor mesmo é desistir de encontrar um número mais ou menos seguro, pois as versões são várias. Carlos Leite afirma que Alcácer-Quibir «não foi uma vergonha; e, se foi uma desgraça não foi uma nódoa na história de Portugal», pois a batalha esteve quase ganha. Logo a seguir adianta 12000 mortos cristãos. Queiroz Velloso diz, por seu turno, que se tratou da batalha mais sangrenta que a Berbéria já presenciou e dá entre 5 e 6 mil mortos mouros, contra 7 ou 8 mil cristãos. O padre José de Castro cita um documento do Arquivo Secreto do Vaticano que fala em 50000 mouros tombados em combate. Afonso Dornellas diz ter recolhido de fonte marroquina a seguinte contabilidade: 10 mil baixas cristãs e 18 mil muçulmanas. Fiquemos por aqui.

Seja como for, em três horas morreram mais soldados do que em 13 anos de guerra colonial em três frentes, noutra guerra igualmente idiota. Aniceto Afonso e Carlos de Matos Gomes contabilizam, de 1961 a 1974, nas três frentes, 4027 mortos em combate. O resto, até ao total 8290, foram acidentes de viação (1480), acidentes com armas de fogo (785) e causas indeterminadas (1998). Manoel de Oliveira e Manuel Alegre, entre outros, já traçaram o paralelismo entre as duas desgraças. É curioso o paralelismo, mas mais curioso é comparar o número de baixas para se constatar a dimensão da idiotice sebástica. Em apenas 3 horas! E nem se calcule a relação das baixas com os efectivos gerais da população, porque então a dimensão da tragédia é quase apocalíptica! Como é que este idiota pode ainda ser objecto de admiração e ser elevado ao estatuto de símbolo nacional?

No fim da batalha, as descrições são horríveis. O saque foi miserável. Os corpos entraram em putrefacção acelerada, devido ao calor tórrido. Das montanhas desceram os salteadores que se apossaram dos cadáveres. Despiram-nos, profanaram-nos, sentenciavam com um golpe de misericórdia os feridos suplicantes que não tinham valor para o resgate ou que estavam moribundos. Capturavam os feridos ligeiros ou valiosos. Foi uma orgia bárbara de sangue, indignidade e crueldade, por entre o cheiro da pólvora e da vergonha. O responsável tem nome. Foi um, exclusivamente: O idiota que ali vedes retratado pelo pincel de Cristóvão de Morais.

23/08/06


«Mais vale ser infeliz num Rolls Royce que feliz numa bicicleta»

Patrícia Gucci

22/08/06

A Quadrilha Selvagem de Sam Peckinpah, por Mangas

Regressei ao velho sofá. Não deve ter sido por isso que choveu a noite passada, mas ainda assim, deve haver uma relação causa-efeito que me escapa. Foi sempre para ver filmes ou para ler que me sentei naquele sofá escanzelado, o encosto adaptado a velhos hábitos de contemplação noctívaga, nunca protestou um argumento menor ou uma história sem relevância e, sessões de cinema, foram tantas quantas as multidões de personagens que povoaram as imagens dessas nossas madrugadas – ele sempre soube que o melhor cinema vê-se sozinho.

O velho sofá e um western numa noite de Agosto, são sempre lugares seguros para revisitar; A Quadrilha Selvagem (1969), é um dos meus westerns preferidos porque é um clássico fora de tempo e fora-da-lei que sepultou o género. A violência, estilizou-a Peckinpah de forma quase poética em admiráveis sequências slow-motion. A abertura do filme mostra um grupo de crianças que se diverte à volta de dois escorpiões a serem literalmente devorados por milhares de formigas com a complacência inocente daqueles olhos. Os sorrisos espontâneos de meninos e meninas perante o espectáculo da morte. O lado mais selvagem da natureza humana completamente alheado do massacre que se adivinhava nas ruas de Água Verde e no resto do filme. Mais à frente, o ancião mexicano chefe da aldeia dirá: “Todos sonhamos em ser crianças outra vez. Mesmo os piores de nós”.

Extremamente violento, é também um filme de uma honestidade pungente à imagem do seu criador. Os personagens marginais são maus, brutais e impiedosos; os politicamente correctos, também. E Peckinpah não faz nenhum esforço para atenuar os crimes de ambos. A verdadeira dimensão humana dos homens de Pike (William Holden), reside no seu sentido de compromisso e de solidariedade para consigo próprios, e de uns para com os outros. Se com Butch Cassidy & Sundance Kid, George Hill romantiza, desde o início do filme, as personagens de Robert Redford e Paul Newman como exemplo de virtudes, em The Wild Bunch, apenas no final aqueles homens ganham o respeito do espectador: num último assomo de honra e dignidade, o resto do bando decide trocar a segurança de um futuro tranquilo para enfrentar o General Mapache e as suas tropas, tentando resgatar o mais jovem companheiro aprisionado por roubar armas em nome do seu povo, ainda que tal signifique o sacrifício das suas próprias vidas. Um épico selvagem sobre o fracasso ou o mais noir de todos os westerns. A versão original do realizador com imagem restaurada em formato widescreen dá-nos algumas sequências cortadas pelo produtor Phil Feldman sem a autorização de Peckinpah, fundamentais para perceber o perfil psicológico de Pike - o seu passado atormentado, o sentimento de culpa, as suas motivações, a degradação física, a falta de auto-estima e, a liderança, num último momento, interpondo-se a tudo o resto.

Como os fotogramas da ficha técnica à imagem de fotografias de jornal de época, The Wild Bunch é um mergulho na História do velho Oeste americano no ano de 1913 e em tempo de transição. O comboio depressa tornará esquecidos os velhos trilhos de fugas a cavalo, a revolução mexicana trará Pancho Villa ao povo e, algumas décadas mais tarde, a dupla Bonnie&Clyde continuará a estoirar com os cofres dos bancos, mas desta vez as fugas serão em automóveis - modelos evoluídos daquele em que Mapache se pavoneava nas ruas empoeiradas da fronteira. Porém, não foi o progresso que matou o bando de Pike. Foram os velhos códigos de honra de Peckinpah, o artista rebelde, o cão do deserto, o irascível e inseparável companheiro do Jack Daniels, excessivo e genial que nunca brincou em serviço - neste filme assinou o nome centrado no ecrã a seguir à ordem directa de Pike sobre os reféns no banco: “If they move, kill `em!”.

Para além do argumento brilhante em parceria com Walon Green e, da sequência final conhecida como The Battle of de Bloody Porch ser, talvez, a mais poderosa e espectacular sequência de tiroteio em exteriores jamais filmada, os créditos de Peckinpah estendem-se ao conjunto do filme, à provocação e riqueza psicológica dos personagens elevados à condição de anti-heróis, à beleza das cenas mais brutais e sangrentas, à elegia mexicana, ao equilíbrio de toda uma obra que, passados trinta e sete anos após o seu lançamento, não perdeu nenhuma da sua inteligência e grandiosidade.

O velho sofá há-de acabar na fogueira quando eu me apagar, mas amanhã não será a véspera desse dia. Amanhã vou rever o Major Dundee.

20/08/06

O Bush gostou d´O Estrangeiro, por Marsol

Li no Público, no DN e até na Bola, não sei se vem no Expresso. A notícia correu todas as agências internacionais e, certamente, foi lida por milhões e milhões de pessoas: o presidente Bush leu e gostou de L`Étranger de Albert Camus. Não sei se a notícia é que Bush tenha lido um livro; ou se é ter gostado de um livro; ou se é ter gostado em particular deste livro, o seminal L` Étranger deste autor especificamente, o francês de origem argelina, ex-comunista, ex-crítico do comunismo e apreciador de futebol, Albert Camus.

Não querendo acreditar que Bush seja tão inepto como dizem – que diabo, o presidente da nação mais poderosa do planeta há-de ler alguma coisinha nem que sejam jornais – inclino-me mais para a terceira hipótese. Ou seja, a notícia é Bush ter gostado de L`Étranger, porque seria de esperar que, em coerência, o detestasse.

L`Étranger, publicado em 1940, em plena guerra mundial, é um livro que tem tudo para ser detestado por Bush. O livro faz uma espécie de unidade com uma outra obra de Camus, o ensaio, O Mito de Sísifo (1941). Ao longo da sua obra, Camus levou a cabo uma espécie de lei de alternância entre ficção e ensaio, uma dupla postulação entre filosofia e literatura que se remetem mutuamente. Primeiro veio L`Étranger (1940), o romance, a ficção, mergulhar o leitor no clima e no sentimento do absurdo; a seguir vem o ensaio (1941), como dizia Sartre, crítico, admirador e amigo de Camus, «explicar a paisagem» (mais tarde encontramos a mesma relação entre a Peste (ficção) e o Homem Revoltado (ensaio).

Seria deslocado entrar aqui em pormenores sobre o conteúdo do Mito de Sísifo e de L`Étranger. Mas a maior parte das ideias defendidas nestas obras por Camus, só por distracção ou incoerência flagrante podem ter agradado a Bush. Uma das ideias e intuições chave do pensamento de Camus é, precisamente, o respeito por todo o existente, a defesa do concreto contra toda e qualquer forma de abstracção. Compreende-se, por isso, que ele seja um dos mais acérrimos críticos da pena de morte, que considera uma verdadeira traição perante a humanidade (o seu ensaio, ainda não traduzido em português, Réflexions sur la Peine Capitale, é um clássico do argumentário sobre a matéria). Meursault, a personagem central de L`Étranger, é, no fim do romance, condenado à morte, mas é bem claro o carácter repugnante desta condenação. Como pode Bush, um dos ideólogos da pena de morte e da administração da guerra, ter lido e ter gostado? Estava distraído? Não lhe explicaram que, embora Meursault declare na hora da sua execução, desejar o carrasco, isso é o sintoma do heroísmo trágico dos heróis de Camus?

É certo que Meursault, o herói de L`Étranger, mata um árabe na praia. Será por isto que Bush adorou o livro? Terá dado asas ao devaneio e pensado que um mundo assim, onde podemos liquidar árabes porque nos apetece, é um mundo perfeito? Se assim é, mais uma vez leu mal. Meursault não é um verdadeiro assassino, mas um inocente – o seu nome é um trocadilho fónico (mar + sol) que indica até que ponto as suas reacções não são mediadas por uma instância consciente. Ele é uma espécie de receptor de emoções sem o filtro da moral convencional e o seu comportamento é o fruto imediato das suas emoções. Ele nada nas águas do mar e é o acto de nadar. Não é outra coisa, só aquele momento presente e concreto sem passado nem presente nem futuro. Ele beija a namorada Maria e é apenas o acto de beijar. Gosta, ama-a – melhor, naquele momento ele é o amor por ela (não se sabe se ainda o será noutro momento). Quando lhe morre a mãe, Meursault está distante e não o sente: «Hoje a mãe morreu, Ou talvez fosse ontem. Não importa.» - eis o começo tristemente célebre de L`Étranger. E no dia do enterro o que o preocupa é o calor abrasivo que sente durante a caminhada até ao funeral. Não pensa na mãe mas no calor. Ele é o que sente, não o que deve sentir. Ao disparar quatro tiros sobre um árabe, num dia de Verão passado na praia, sob o efeito do sol – sempre o sol – isso não é mais que um acto comum em Meursault. Ele não é um assassino que dispara friamente, em consciência, com a intenção de matar alguém – Meursault simplesmente dispara quatro vezes, obedecendo a um impulso, à força abrasiva do sol. Não mata um homem; simplesmente puxa um gatilho quatro vezes. As consequências desse gesto não são sentidas por ele como um crime.

Podemos julgar um ser assim? Meursault é um inocente, uma criança, que não funciona como um adulto normal. Um estrangeiro. Podemos julgar uma criança que não tem consciência do que faz, ou melhor, que não entende o que faz como um acto livre e consciente, mas como uma espécie de impulso fatal e inexorável, ditado por algo mais poderoso (o mar, o sol)? Apesar de sabermos que Meursault cometeu, de facto, uma mostruosidade, não conseguimos antipatizar com ele. Não só, L`Étranger mostra a impossibilidade de julgarmos os outros, como – à maneira do Processo de Kafka – expõe até que ponto a justiça institucional é absurda. Perante a alteridade de Meursault resta-nos o quê? A admiração? A solidariedade? A identificação? Somos todos estrangeiros? Até certo ponto, talvez sim…

Talvez Bush se tenha revisto em Meursault. Se o fez, fez mal. Mas deve saber bem ao presidente da nação mais agressiva do planeta sentir-se uma criança, de vez em quando. Sentir que os julgamentos que possamos fazer dele, são sempre injustos e inadequados. Esqueceu, sem dúvida, que, fundamentalmente, ele está do lado dos outros, não no de Meursault, mas do dos juízes que Camus critica, dos que declaram a pena capital e dos que invocam um Deus abstracto quando só sabemos do concreto.

A notícia deve ser essa: Bush leu L`Étranger e gostou. O amigo da onça que, em seu nome, fez passar esta notícia para o exterior, devia saber o que estava a fazer. Sabia que estava a expor Bush a mais uma incoerência, como se o zé sócrates viesse dizer que gosta muito de ler o Tapornumporco… Não seria notícia se Bush tivesse lido o livro e declarasse que o detestou. Mas ele gostou! Assim, nas entrelinhas daquela notícia, devemos ler: Bush não compreendeu nada de Camus. Leu um livro que defende o contrário do que ele representa e dos seus valores e, mesmo assim, veio dizer que gostou! É mais uma gaffe, uma enorme gaffe hermenêutica de um homem que nem sabe o que lê. É perigoso: estamos entregues a um homem que não sabe ler… Talvez não seja mau, apesar de tudo, que, ao menos, na sua incoerência estrondosa ele tenha ficado a apreciar Camus. Valha-lhe (nos?) isso… Pode ser que ainda haja esperança.

19/08/06

Brasil VS Argentina, por Nescau

Tanto faz onde estamos desde que seja no Brasil. Nas praias – todas -, no campo ou na cidade, até no interior de uma reserva de índios, há sempre um campo de futebol improvisado e duas equipas que se defrontam até à exaustão. Normalmente descalças.

E assim foi um destes dias na Praia do Francês, Maceió, estado de Alagoas. Quando chegámos, nós os portugueses, à praia já lá estava um time brasileiro que nos desafiou para um internacional Portugal/Brasil na areia da praia. O jogo correu bem, tirando o facto de termos passado 90% do tempo de jogo a correr atrás da bola que o time deles fazia circular com perícia. O resultado também podia ter sido pior: perdemos 3-0 e vingámo-nos nas canelas dos moleques que não se preocuparam muito com isso.

No fim do jogo fomos todos ao mar, mas a molecada advertiu-nos para os seguirmos uma vez que as águas mais próxima estavam infestadas de ouriços do mar. Entre conversas futeboleiras sobre o Flipão, perguntei ao Leandro, guri bom de bola, se faziam aqueles jogos de praia com outros estrangeiros para além dos portugueses.
- Sim. Com italianos, argentinos…
- E como é que é? Correm bem?
- Com os argentinos não. Há sempre briga…
- Mas vocês não gostam dos argentinos, cara? Não são como os portugueses?
- Ná. Português é legal, fala com a gente. Argentino é distante, pensam que são superiores e dão porrada. Aí a gente responde. Mas eles lixam-se porque não os avisamos e no fim eles vão tomar banho ao sítio do ouriço do mar. Aí eles berra e pede-nos ajuda.
-Vocês são mauzinhos. E ajudam?
- Ajudar, nós ajuda. Nós tira o espinho do pé deles, mas é a doer, a gente fica ali a mexer com uma agulha e eles berra. O Leandro dizia isto com um sorriso feliz.
- Vocês não gramam mesmo os argentinos, né mesmo Leandro?
- É. Às vezes o espinho já saiu e, mesmo assim, a gente fica ali a escarafunchar na ferida a abrir ela ainda mais. A gente vinga-se dos cara, pá, argentino só se não puder.
É. Brasil-1/ Argentina – 0.

18/08/06

Carta a Esther Mucznick, por xpto

Hoje escrevi a Esther Mucznick. Mandei-lhe um e-mail através da página da comunidade israleita:

Coimbra, 18 de Agosto de 2006

Excelentíssima Senhora,
Começo por lhe pedir desculpa por me dirigir a si através deste endereço. Todavia, procurei em vão, quer nas folhas impressas do jornal «Público», quer na edição electrónica, um endereço por onde lhe pudesse fazer chegar algumas palavras.
Habituei-me há muito a lê-la nas páginas daquele jornal. Devo dizer que nem sempre concordo com as suas opiniões, mas sempre as reconheço inteligentes, rectas e dignas. Digo-lhe também que é a primeira vez que me dirijo pessoalmente, e ainda por cima por tão sinuoso caminho, a um articulista. Senti-me impelido a escrever para lhe expressar a minha mais profunda e sincera solidariedade. Refiro-me, como deve suspeitar já, à polémica (se é que assim se lhe pode chamar) suscitada pela Drª Isabel do Carmo. Não consigo entender como é que alguém pode afirmar o que despudoradamente a Drª Isabel do Carmo afirmou a propósito do Hezzbollah. Esta organização, como Vª Exª tão claramente afirma, não é um partido político, muito menos democrático. Vª Exª, compreensiva, diz tratar-se de ignorância opinativa. Não concordo. A ignorância não chega para explicar tamanha inanidade. É preciso mais. Os motivos que alimentam tão despropositada cegueira suspeito-os hediondos. Desejo até que não existam e que não passe de temor meu, mas receio que o que leva alguém a laborar na «ignorância» para afirmar o hediondo não se possa caracterizar como inconsciência. Porque a ignorância ou é socrática e não consente inanidades, ou disfarça-se com a discrição após o que se aniquila com o estudo Há algo de muito preverso que me escapa ao entendimento na «ignorância» da Drª Isabel do Carmo. Como ao entendimento me escapa, por exemplo, quando um homem como Gunter Grass admita agora, com um escândalo mínimo face à gravidade dos factos e até com manifestações de solidariedade, ter pertencido às SS. Acho absurdo, escapam-me à razão as razões de tanta hediondez. José Manuel Fernandes afirma hoje que o escritor, na sua genialidade, permanece incólume no seu estatuto artístico e literário. Assim é, posto que consideremos como na contemporaneidade a estética se emancipou da ideia de Bem. O Belo é possível sem razão moral. Mas a minha questão é outra: o que leva um homem a professar o Mal? Como foi possível conviver tantas décadas com a culpa? Acredito até que a actual confissão pública, antes de movida por interesses comerciais e dada a idade do autor, seja ditada por um sincero sentimento de arrependimento. Mas eu não consigo entender, e por isso me declaro incapaz de perdoar. Acho até, contrariamente aos adeptos das filosofias do absurdo, que as tragédias quotidianas, as incomensuráveis manifestações da dor e as exibições do Mal só podem ser entendidas e perdoadas por uma qualquer Transcendência, eternamente misericordiosa e com uma infinita magnanimidade. Por isso o Mal absoluto só pode supor o Bem como instância transcendente onde se torna perdoável, assim se evitando o absurdo dando-se sentido à existência. É o único nível onde posso acolher as palavras da Drª Isabel do Carmo.
Perdoe-me a liberdade com que me dirigi a Vª Exª. Atenciosamente, com a máxima admiração,
xpto

17/08/06

Francis Obikwelu e Maria João Pires, por Francis Pires

Confesso que não me comovo pela razão, que afinal é minha, que tudo o que meta trapos nacionalistas, vulgo bandeiras, mais hinos e cerimónias protocolares me arrepia a pele e causa repulsa. Mas este nigeriano intriga-me. Melhor, este português de gema intriga-me e suscita-me uma profundíssima admiração. Para mim, é português quem quer. Ou devia ser. O mesmo deveria valer para as outras, todas, as nacionalidades. Ninguém deveria ser discriminado à nascença por uma casualidade que não pôde influenciar, por uma circunstância que não atenta ao mérito: o local onde se é parido. Se as históricas discriminações com base na cor da pele ou na confissão religiosa foram, e são, horrorosas, muito mais o é a segregação - mais condenação do que segregação para a maior parte das trágicas histórias do Terceiro Mundo - com base na naturalidade. É inaceitável para qualquer mente sensível. É imoral, por exemplo, que um primeiro-violino da Orquestra de Kiev ande agarrado a um martelo pneumático nas obras da construção civil, sem qualquer protecção do Estado, sem Segurança Social e sujeito aos abusos dos empreiteiros que aproveitam a mínima fragilidade alheia para facturar mais uns tostões, enquanto as nossas escolas estão infestadas de diplomados uma qualquer academia chunga a ensinar as crianças a soprar no pífaro e a cantar o solidó. E os papéis não se invertem, como deviam, por causa de um bilhetezinho, dito de identidade, que confere a um o privilégio da nacionalidade e a outro a maldição da clandestinidade!
Por isso, a história de Francis Obikwelu é a mais bela e dignificante de todas as figuras públicas que enxameiam o nosso quotidiano. Numa certa medida, pelo seu passado pessoal, e dada a projecção mundial que atingiu, Obikwelu é o mais digno de todos os portugueses, isto se a dignidade resultar, como é bom que resulte, de um misto de mérito pessoal, sucesso, preserverança, trabalho, luta contra a adversidade e a injustiça, humildade e dedicação. Nenhum benefício recebeu do berço. Fosse a família ou a Pátria. Ninguém o ajudou, lutou contra todos. Teve a coragem de desertar e abdicar do país no qual não se reconhecia - a Nigéria. E fez-se ao caminho, sozinho. Humilde, empregou-se na construção civil. Uma cidadã inglesa a residir no Algarve reparou nas suas capacidades e recomendou-o a um amigo que era treinador de atletismo. A partir daí foi um galgar de degraus até ao topo do atletismo mundial onde é uma das figuras. Treina-se em Espanha, porque cá não há condições. Entretanto, no Algarve onde Obikwelu transportava baldes de massa dando serventia na construção civil, vai ganhando teias de aranha aquele que é o maior monumento à estupidez nacional: o Estádio Intermunicipal Faro-Loulé. Ou seja, para o Obikwelu correr não há pista, mas para o Farense, o Louletano, e quem sabe o Almansilense, que agonizam nas divisões secundaríssimas do futebol luso, lá está um estádio com 30 mil lugares, que só com os burros todos do país se encheria e exíguo se revelaria. Brilhante!
Como é fácil de ver, Obikwelu não deve nada a este país. O país tratou-o mal, explorou-o, não lhe soube descobrir o talento. Ainda agora, o destaque que deram às suas vitórias não é de modo nenhum condizente com a dimensão dos seus feitos. Lembremos que o país delirou quando o Monteiro da Fórmula 1 subiu ao podium da mais vergonhosa corrida automobilística de que há memória. Quando todos desistiram, como forma de protesto contra o despotismo da organização, o Monteiro correu, com mais dois fura-greves e ficou em terceiro. O país foi delirou, desfraldou os trapos e cantou os hinos da praxe. Recordo também como o Pedro Lamy que uma vez, se a memória me não falha na Austrália, ganhou um pontito numa corrida, e logo o Sampaio lhe deu uma medalha. Foi o delírio. Com o Hóquei em Patins, o mais paroquiano dos desportos, cada vitrória dos moços é cantada como se fosse um feito épico. Livramento e Ramalhete são Aquiles Ajaxes na memória da imprensa especializada. E ninguém, nem Joaquim Agostinho, nem Carlos Lopes, nem Rosa Mota, nem Eusébio, nem 10 Figos, alguma vez lograram o que este digno português de nome nigeriano agora alcançou. Se Lopes e Mota têm pavilhão com o seu nome, Obikwelu, no mínimo, mereceria que o Pavilhão Atlântico fosse rebaptizado Pavilhão Obikwelu! É que ele é duplo campeão europeu dos 100 e 200 metros, uma das mais difíceis e competitivas especialidades do desporto mundial. Nos 100 metros é, aliás, bicampeão, pois que nos últimos campeonatos quem lhe ganhou foi batoteiro e o título foi-lhe retirado. Lembremos que Agostinho se encharcava em doping e tal não lhe impediu a consagração pública. Além dos feitos olímpicos que já alcançou também, Francis Obikwelu, estando ainda no activo, é já o maior desportista português de todos os tempos. Este facto parece não estar a ser devidamente salientado. O país , mais uma vez, não é justo. E, todavia, Francis insiste em correr sob as cores nacionais e a desfraldar o trapo verde-rubro após cada uma das suas retumbantes vitórias. Para mim, isto é um enigma.
Entretanto, a excelentíssima senhora Maria João Pires nasceu num país, apesar de tudo, civilizado. Teve berço. Nunca foi forçada a trabalhar nas obras. Teve as condições pelo menos suficientes para se tornar uma das mais importantes e consagradas executantes musicais da actualidade. Devo dizer que tal também não me comove. Aprecio-lhe o talento como se ela fosse polaca, nigeriana ou servo-croata. É esta uma das características da actividade artística: a sua universalidade. Quando se atinge um certo patamar de qualidade e excelência, o artista e a sua arte tornam-se universais, libertam-se das circunstâncias temporal e espacial. Eternizam-se. Por isso, e por exemplo, Picasso não é espanhol, nem Rostropovich é russo, ou americano, ou israelita. É do Mundo! Por isso, em Salzburgo, por exemplo ainda, não há cerimónias protocolares de entrega de medalhas, nem hinos cantados.
Por estas razões, acho irrelevante que Maria João Pires se tenha ausentado para o Brasil, para a Baía. Eduardo Prado Coelho disse que era um belo sítio para viver. Não sei se quis dizer para se «exilar», eu digo que é um belo sítio para amuar. Porque a senhora está amuada. Declarou-se zangada com Portugal, bateu com a porta e foi para o Brasil. E porquê? Porque, segundo a genial pianista, o Estado não a apoia. Ora, o Estado não só a apoia, com apoios que davam para alimentar e treinar para aí alguns mil Obikwelus, como não vê a justificação dos gastos para os apoios fornecidos. Como referiu o mesmo Eduardo Prado Coelho, nem um simples Deve / Haver rabiscado em papel de embrulho, à maneira das antigas mercearias de bairro, a senhora se dignou apresentar. Amuou, declarou-se cansada do país e debandou para o Brasil, não sem antes descansar os indígenas garantindo que o projecto de Belgais prosseguirá. Esperemos que sim e com as despesas justificadas. Se quiser continuar as sustentar-se com fundos públicos, claro. Pois passe muito bem, minha senhora, continue Vossa Excelência a ser o que é, uma das mais geniais pianistas da actualidade, que nós cá continuaremos a sobreviver, como o temos feito melhor ou pior ao longo do último milénio, quase sempre sem a presença de Vossa Senhoria. Teremos certamente o prazer de acompanhar a nossa existência futura e próxima ao som das suas magníficas interpretações que certamente a senhora não deixará de gravar para nosso (do Mundo, entenda-se) usufruto. Prometo que nas próximas Olimpíadas assistirei aos sprints de Obikwelu ao som das suas interpretações de Brahms, Debussy, Chopin ou Mozart, conforme o que Vossa Senhoria entender mais apropriado e se, por maravilhoso acaso atentar neste desabafo e se dignar adiantar uma sugestão. Como é óbvio.
Para finalizar, uma perguntazinha às autoridades competentes: a senhora não é acusada porquê? Porque não vai responder a tribunal? Se fosse eu a não dar justificação a uns subsídios atribuídos no valor de uns largos milhares de contos, a coisa ficava assim? Podia ir para o Brasil descansado que ninguém me impedia?

16/08/06

Perdoável ou Não?, por Simão Visentálo

Li agora no «Público» uma breve notícia que me perturbou: Gunter Grass apresta-se para editar uma auto-biografia onde confessa, 60 anos após, que pertenceu às SS! Isso mesmo, às SS! Não foi à Juventude Hitleriana, na qual Ratzinger militou, cuja filiação era obrigatória para todos os jovens e, apesar de os submeter a treino nacionalista e militar, não tinha comparação possível com as SS. Estes eram a guarda pretoriana do nazismo, o seu núcleo duro. Racistas, anti-semitas, apóstolos do Holocausto, exterminadores impideosos. Eram submetidos a um treino duríssimo após recrutamento exigentíssimo e criterioso. Não era quem queria, embora querer fosse determinante. Grass confessa que nunca se interrogou acerca da morte de um tio ou do desaparecimento de um professor. Não tinha 12, nem 14 anos, tinha 17 anos. Aos dezassete, quem entra para as SS não o faz inconscientemente. Como pode Grass esconder esta horrorosa nódoa do seu passado durante tanto tempo? Ninguém sabia? Como é que ninguém o denunciou? Está arrependido? Como conseguiu viver com a memória do nazismo? Não o equiparem a Junger ou a Riefensthal. Não! As SS é outra coisa! É perdoável? Julga-se? Põe-se uma pedra sobre o assunto?

15/08/06

Um Espectáculo Litúrgico, por Big Jagger

A 12 de Agosto, no Estádio do Dragão, quase 50 mil pessoas ouviram Sir Mick Jagger falar em português: "É muito bom tocar nesta linda cidade pela primeira vez." Os bilhetes não esgotaram, apesar da imensa mole humana, e foi lindo ver os candongueiros a tentarem vender os bilhetes desesperadamente ao preço de custo.
A primeira parte coube aos Dandy Warhols. A banda, ainda que já consagrada, era-me desconhecida e foi uma agradável surpresa. O Estádio estava então pela metade. Houve quase uma hora de espera até que os Stones entrassem em palco. Entretanto, a malta do merchandising oficial vendia de tudo: pins dos Stones, T-shirts dos Stones, porta-chaves dos Stones, bonés dos Stones, luzinhas cintilantes, com o logotipo dos Stones, etc. Nos bares vendiam-se hot dogs e coke, cerveja e hot dogs, tudo a preços exorbitantes. A longa espera estava calculada. Por mais que o público assobiasse e aplaudisse de forma cadenciada a exigir a entrada de Jagger&Richards, a verdade é que o esforço era vão. Eles são profissionais e são míticos. Entram quando quiserem. Assobiem se bem entenderem e comprem T-shirts, bebam coke e comam hot dogs. Também podem enviar um sms para o 4004 com a palavra "Stones" e habilitam-se a assistir ao espectáculo de um varandim especial montado no palco principal. Aquilo é uma máquina de fazer dinheiro. Mas há uma garantia: qualidade e profissionalismo.
Enquanto isso, o relvado ia enchendo. A cada um dos lados, sob as torres de iluminação, montaram-se dois pequenos estrados com cadeiras de plástico para os VIP's! Está mal! É uma idiotice. Ou se é VIP e não se vai para a relva para junto do povo, ou se é povo na relva sem qualquer tratamento VIP. O misto é assim como comer sardinha assada em cerâmica de Limoges com talher de prata e vinho a martelo em cristal de Veneza. De repente, as luzes apagam-se, ouve-se o riff de Keith Richards e logo a seguir entram diabólicos, com Jagger à frente, o écran luminoso num vórtice colorido de imagens: Jumpin' Jack Flash! É o delírio. O som está excessivamente eléctrico, ensurdece, mas ninguém se importa. O ecran continua a fazer desfilar uma imagem de um Big Bang cósmico numa espiral de imagens retalhadas que vai desaguar no cover do último album da banda, «A Bigger Bang» que é um remake da obra de Joseph Wright (1734-1797), A Philosopher Lecturing with a Mechanical Planetary. A seguir, sem deixar passar o impacto inicial, e ainda no mesmo ritmo estridente, vem o It's Only Rock'n'Roll. O espectáculo ainda agora começou e já valeu a pena. Depois, o primeiro tema do último album: Oh No Not You Again. Além desta, e do último CD com 16 originais, apenas tocariam mais dois: Streets of Love e Rough Justice. No geral, o show foi servido à base de reinterpretações de temas históricos, com grande liberdade de improvisação e novas versões, especialmente no final quando, no segundo encore, tocam Satisfaction numa versão apoteótica, orgástica, com fogo de artifício a ejacular luz de ambos os lados do palco, com o coro a repetir o refrão numa versão Soul, Jagger a menear-se como se fosse uma Josephine Baker e Richards a divagar na guitarra com Ron Wood. O alinhamento foi mais ou menos este: Let's Spend The Night Together, Ruby Tuesdey, Tumbling Dice e Midnight Rambler. Segue-se uma magnífica homenagem a Ray Charles, aparecendo a foto no painel gigante, e um dueto extraordinário com Lisa Bishop: The Night Time is the Right Time. Inesquecível. Se aquilo fosse uma orgia, que não era, era mais litúrgico, o público já estaria todo molhado para aí com quatro ou cinco orgasmos em cima. Era tempo para o descanso, antes de uma segunda investida. Nessa altura reparei num hábito completamente idiota, além daquele de ir para os concertos com bandeiras de Portugal, que é o de ver o espectáculo através do minúsculo visor do telemóvel! É completamente idiota, mas é verdade: há milhares de pessoas que vão com o telefone, ou com a máquina fotográfica digital, e passam o santo concerto a espreitar para o monitor LCD e a disparar sucessivamente como se aquilo fosse um safari fotográfico! Não consigo entender. É a altura de Keith cantar o seu par de canções, enquanto Jagger recolhe aos bastidores para um justo descanso. Richards, que recusou ser Sir, não falou em português. Ele não é simpático, nem cavalheiro. Limita-se a um «It's nice to be here», mas acaba por não resistir e acrescenta: «What the hell... it's nice to be everywhere!» e arranca com Slipping Away e Before They Make Me Run
A seguir vem a procissão. Como é tradicional nos concertos dos Stones, a banda atravessa a relva até ao topo oposto ao palco principal. Normalmente vão a pé e aos pulos. Desta vez, porém, do palco principal destacou-se uma plataforma rectangular que se sobrelevou ligeiramente e para onde previamente o staff empurrara Charlie Watts com os seus tambores e, depois, ao som de Miss You, o rectângulo, subitamente iluminado com luzes a todo o perímetro, deslizou suavemente como se fosse um andor. Jagger parecia a imagem de Nossa Senhora de Fátima aos pulos, Richards e Wood esgalhavam as guitarras e Watts lá estava a tamborilar fleumático e paciente como se fosse uma competentíssima babby-sitter. No final do percurso, e por entre a ovação delirante do público bafejado pela atenção, tocaram She's So Cold e regressaram com uma electrizante Honky Tonk Women, tal qual a Rainha Santa Isabel que regressa ao alto de Santa Clara. Cumprido o trajecto, acendem-se as luzes e uma enorme língua insuflável apareceu no palco, lambendo o público num cunnilingus monumental! Estava tudo no ponto. Se fosse uma orgia, que não era, era mais uma liturgia, estaríamos todos prontos para a enrabadela final. E lá veio ela: SYMPATHY FOR THE DEVIL! As luzes vermelhas, Jagger de cartola vermelha e casaca de veludo vermelho, no cimo do palco dois enormes lança-chamas cuspiam diabólicas labaredas alaranjadas. Jagger corria que nem um louco, de um lado para o outro do palco, trepava ao varandim central e incitava o público: UUUH-UUUHH, e o público respondia, gemendo satisfeito e saciado: UUUH-UUUHH! Richards e Wood esgalhavam as guitarras enquanto Watts, paciente, assistia impávido batendo as baquetas. Prostrados, enfartados de gozo, todos os membros do público se preparavam para respirar quando soam os acordes de Brown Sugar. Oh, meu Deus, aí vem o gajo outra vez, cheio de pica!, diríamos nós se aquilo fosse uma orgia, que não era, era mais uma liturgia. E lá voltávamos nós a berrar em uníssono o refrão. Acabou-se. O encore foi o anunciado e previsto. Além de Satisfaction, You Can't Always Get What You Want, cantado num coro desafinado de cinquenta mil vozes. Aplausos e ponto final. Fogo de artifício, uns efeitos especiais e escusam de bater mais palmas, de pedir mais encores. Entraram às dez horas certas, quando quiseram e saem agora. São profissionais. O espectáculo acabou. Não há afectos, além das artificiais frases feitas de Mick Jagger ditas em português que, por artificiais, não são nada afectuosas. Se aquilo fosse uma orgia, que não foi, foi mais uma liturgia, dir-se-ia que foi uma sessão magnífica de sexo profissional. No final é pagar e vazar. Não há pequeno-almoço, nem veremos Jagger desmaquilhado nem Richards em pijama.

Praia dos Espelhos, por Baiano

Eu estive aqui e quase que não acredito! A praia dos espelhos é um bocadinho de paraíso, só acessível por terra, depois de percorridos cerca de 40 klm pelo meio de paisagens de estarrecer, por meio da floresta, de uma savana a perder de vista, de aldeias de índios e sempre, mas sempre, por terra batida, esperando que não chova porque, se chover, o carro atola e não sai mais dali. Mas vale a pena. A praia dos espelhos, Caraíva, Baía, Brasil é um bocadinho de paraíso escondido nesta parte do mundo. É perfeita, eu estive lá e quando olho para o postal e me lembro, quase que ainda não acredito!

14/08/06

“Ardo como deve ser. Vem, Demónio!”, por Anjo de Luz

“Ardo como deve ser. Vem, Demónio!”

Este excerto faz parte do “Noite do Inferno” de Arthur Rimbaud e da sua obra prima que é o “Uma Temporada no Inferno”. Esta foi a única obra poética do Rimbaud que li até agora. É uma coisa de tal maneira estranha, alucinante e brilhante, que de imediato desperta a curiosidade sobre o autor de tais linhas.

E dei por mim a ver os callamaços lá de casa sobre o Rimbaud. E o mais esquisito é que nas obras consultadas e dos excertos biográficos recolhidos, nada transparecia sobre a motivação de tal escrita. Mesmo o Harold Bloom que mete Rimbaud entre os Génios e lhe dedica um capítulo inteiro à obra, pouco ou nada adianta sobre a vida do fazedor. Havia ali algo que escapava de certeza. Para melhor vos elucidar, vejam por exemplo o excerto biográfico mais completo que lá encontrei em casa, na enciclopédia Verbo/Salvat/Público:

“Rimbaud (Arthur), Poeta francês (Charleville, 1854 – Marselha, 1891). A sua obra teve uma grande influência na poesia moderna da França e da Europa Ocidental. Muito jovem, foi atormentado pela inquietação e pela revolta e levou uma vida turbulenta e aventurosa. O talento de Rimbaud desenvolveu-se num tempo relativamente curto. A sua violenta oposição à sociedade e as suas aspirações apaixonadas à liberdade encontram a sua expressão em “Le bateau ivre” (1871). A sua finalidade foi renovar a inspiração poética e criar uma nova linguagem como meio de expressão de uma realidade transcendente. Em “Illuminations (1872-1873) encontra-se uma tentativa desesperada de traduzir a sua alucinação por palavras. Em 1873, terminava a sua carreira literária com “Une Saison En Enfer”, reflexão sobre o passado e ao mesmo tempo o reconhecimento do seu fracasso no plano artístico. Foi ele o primeiro a utilizar o verso livre que, mais tarde, através dos simbolistas, iria tornar-se corrente na poesia moderna. A sua obra torna-se conhecida graças a “Poètes Maudits”, de Verlaine (1884) e à sua edição de “Illuminations” (1886).”

Como? Só isto? Isto podia ser o resumo da vida de um enclausurado Mallarmé ou de um Hawthorne. Vejam no entanto que há aqui neste resumo “bem”, algumas pistas que não batem certo: “turbulenta”??, “aventurosa”??, “violenta”??, “paixão”??, “alucinação”????. Isto tem água no bico e deixa-nos de água na boca. O Génius do Harold Bloom - em termos biográficos - ainda é pior.

Porra, sinto-me sempre enganado por estes resumos caquéticos e que obviamente reconhecem o génio mas escondem o incómodo que a pessoa em si e a sua vida provoca. Já estou farto de dar com estas merdas politicamente-correctas que nada nos dizem e adiantam. O gajo daquele resumo biográfico simplório jamais escreveria o “Uma Temporada no Inferno”!

Investigadas as coisas, aqui vai um outro resumo biográfico em jeito de esclarecimento a uma das obras poéticas que mais me marcaram. Esta personagem sim, esta é crível que tivesse escrito a descida aos infernos!

O puto Rimbaud começa a fazer poesia com 15 anos, foge da escola que abominava e torpedeava para desespero do professorado e renega a família bem-posta e bem governada, e foge para Paris. Em Paris vive num submundo de miséria, paneleiragem, vagabundagem e expedientes. Aos 16 anos torna-se amante do grande e consagrado Verlaine, 10 anos mais velho e a quem chama O Velho. A ligação entre os dois provoca um escândalo enorme nos finais do Séc. XIX, até porque o puto Rimbaud se gaba da paneleiragem, da sua arte de espoliação ao Velho, da sua chulice rateira de puto vadio e faz gala da sua loucura iconoclasta. Ainda antes dos 16 anos, o ratão alinha nas drogas e no álcool, sofre a fome e cai na prisão. As disputas violentas com Verlaine que tudo lhe aturava, mas que se negava a abandonar a esposa como o puto lhe exigia, descambam em escândalos públicos que atraem a ira e a condenação pública sobre o Velho.

Para afastar a atenção pública da relação tumultuosa de ambos, Verlaine convence a pequena pega a uma lua de mel em Londres, onde abancam em hotéis de luxo. A puta do Rimbaud continua pouco discreta e acomodada e Verlaine vê-se obrigado a pegar nele e a sair de Londres à pressa.

Abancam então num hotel de Bruxelas, onde o Velho se propunha continuar a dar banho ao mexilhão. Mas o mexilhão nem com as frites se dobrou e arma violentas discussões sobre a mulher do Verlaine, agravadas pela chegada ao mesmo hotel da sogra do velho e com quem este se dava bem. Verlaine dava o cu e cinco tostões pelo puto, mas recusava-se sempre a largar a mulher. A presença da sogra foi de certeza gasolina para a fogueira.

Ao certo, ao certo nunca se veio a saber o que se passou naquele quarto de hotel de Bruxelas e qual o real papel da sogra do Verlaine na coisa. Sabe-se sim, que a certa altura, estando Verlaine e o puto Rimbaud fechados no quarto, se ouve uma violenta discussão rematada com dois tiros de pistola.

Rimbaud sai do quarto a sangrar e com um tiro no braço e foge de imediato para Paris. Verlaine e a sogra seguem atrás do puto para Paris, mas aqui Verlaine é preso por queixa da puta ferida, que alegava temer pela sua vida. Acusado da cusada, Verlaine apanha dois anos de prisão. Nem a sogra lhe valeu!

Ainda ferido, dorido e fodido, Rimbaud volta ao seio familiar para a convalescença e fecha-se num sótão de uma casa nas Ardenas, onde no meio de febres, bebedeiras, remorsos e alucinações desce aos infernos e escreve de enfiada o sublime, encantatório e blasfemo “Uma Temporada No Inferno”. Uma obra-prima absoluta, a que toda a gente verga a mola de Verlaine a Harold Bloom. Curado, parte em viagem sem rumo certo. Nunca mais escreverá qualquer outra obra.

A obra é tanto mais alucinante quanto se sabe que foi escrita por um puto imberbe, com 18 anos de vida, saído há dois anos da escola e do seio familiar. Há ali uma maturidade, uma sabedoria e uma tal experiência de vida, que sem conhecer a vida do cachopo é difícil apreender aquilo.

Como a coisa foi manuscrita a letra de cão e abandonada uma dezena de anos, os peritos ainda hoje discutem se o título da coisa é Uma Estação, Uma Temporada ou Uma Cerveja no Inferno. Fosse como fosse, um é um homem maduro, sofrido, vivido e revoltado que ali está. A poesia é explosiva, magnífica e estranha.

Rimbaud, vagueia então pela Alemanha e Holanda, onde se alista no Exército partindo então para Java, como mercenário. Deserta das fileiras colonialistas holandesas e foge para Chipre e daí para o Iemén e depois para a Abissínia, onde se torna traficante de armas. Volta ao Iémen, onde vive de expedientes e negócios escuros. Após uma travessia muito dura de um deserto, a que acresce um problema de varizes, vê uma das pernas amputadas em Marselha, onde morre aos 37 anos no meio de um sofrimento atroz.

Do genial “Uma Estação No Inferno”, deixo-vos este excerto:

“Ingeri um afamado trago de veneno. - Três vezes bendita seja a resolução tomada! - Queimam-me as entranhas. A violência da peçonha contorce-me os membros, torna-me disforme, atira-me por terra. Morro de sede, sufoco, não consigo gritar. É o inferno, a pena eterna! Vede como as labaredas crescem! Ardo como deve ser. Vem demónio!”


11/08/06

As Malgas De Lagosta E Os Resultados Da Democracia, por Coronel Aureliano Buendia

A democracia deu este resultado. Toda a gente quer ter automóvel e todos querem ir para férias no estrangeiro. Ele é Cuba, Brasil, e o raio que os parta. Isto no tempo do Sr Dr O. S. não se passava. Havia respeito e essa cambada de funcionários públicos a tempo inteiro e a meio tempo ia de férias ali para a praia da Tocha e levava troucha e colchões para dormir no pinhal que as pensões ficavam caras. Comiam sandes porque bastava alimentar o espírito a quarenta longos kilometros da secretária o resto era fome alegre, que férias não era para todos.

E depois havia uma coisa chamada saudades, outra chamada surpresa e outra chamada prazer. Saudades porque nada sabíamos uns dos outros durante esses dias nem nos falávamos, surpresa porque éramos surpreendidos com as histórias de cada um que eram então apimentadas com a ansiedade contida de quem só as podia contar depois de chegar, e prazer porque na verdade todos sabíamos as coisas ao mesmo tempo, em conjunto, no momento em que eram contadas ao redor de uns canecos e regadas com o gozo de estarmos a falar depois de uns quinze dias sem nos vermos e ouvirmos.

Ora bardamerda para os telemóveis e net's que nos tiram o gozo do convívio e o prazer de dar um murro nas trombas do cabrão que nos está a gozar a dizer que comeu lagosta porque está à nossa frente.

Até aposto que se perguntarmos ao Bijagós Baiano quanta lagosta comeu vai responder: duas malgas...

09/08/06

Mete Nojo, Não Se Aguenta E Agarrem-me Que Eu Mato Alguém!, por PorcoProletário

É das uma das praxes mais básicas do Porco, o que não quer dizer que não seja nojenta e infame. Falo da maldita mensagem Sms de esfreganço e gozo nas fuças alheias, mandada por quem está a comer bem, beber melhor ou simplesmente a arrotar de um qualquer prazer de que os outros estão afastados. Vocês sabem como é, o habitual mete-nojo.

A coisa é tanto mais porca e dolorosa, quanto é certo que este vosso e desalentado escriba, continua ao serviço de sua Magestade O Porco, neste tórrido e incendiado Agosto. Pois, como já se aperceberam na groinkagem lá para baixo, há um nojento nos tórridos brasis que não se cansa de mandar Sms`s de pura nojeira. Ora, como quem aqui anda agora a ler isto, está na mesma fossa malcheirosa que eu, aqui ficam algumas pérolas do animal, para que se divida o mal pelas aldeias:

“Mokeka com açaí. Acarajé 5 real. Praia do taipe. 70 reais 6 pessoas. E é caro. Ah e picanha. Vou dar 1 mergulho.” (02/08/06) (5 reais=1,7€) (70 reais=25€) (Ou seja, esta corja come bem por 4€ pessoa!)

“Ostra na praia. Vivas. 15 reais-20 ostras, mais 2 de bónus. 1 caipirinha 5 real. Tá-se bem em mucuge.” (05/08/06) (15reais=5,3€) (e chupa Ostras a 24 cêntimos a peça!)

“Maceió, capital de Alagoas, praia do francês, 1 espetada de peixe, outra só Lagosta, tudo pa 4 pessoas 80 reais. É só fazer as contas…” (08/08/06) (80 reais=28,7€) (e come Lagosta a 7€ pessoa!!!; Arrrgghhh!)

“5 lagosta na praia do sonho verde – 50 real. Lagostar é ke tá a dar.” (09/08/06) (50reais=17,9€) (3€ cada bichinho? Uma crueldade!)

E este é o suíno dos brasis. Estas são só as Sms`s do refocilante tropical, porque depois ainda há mais as Sms`s do outro reco a meter nojo do Les Caracoles de Barcelona e outro suíno ao mesmo tempo a meter-nojo com as tapas e o jabugo bellota de Olivenza, maila mariscagem do Romerijo de Puerto de Santa Maria. E depois, há ainda o porcão que abanca em Cuba e vai descrevendo os daiquiris da Floridita e as cubanas que lhe trazem à água cálida, os mojitos fresquinhos.

Foda-se, Trifoda-se e Puta que os pariu a todos. Como é que se pode aguentar um Agosto destes aqui a fuçar à secretária e sem ar condicionado? E com estes jabardos todos a arrotarem do bom e do melhor? E ao preço da uva mijona! Alguém que me ajude que eu ainda saio à rua de caçadeira em punho!

Eu sei que já fiz o mesmo e se calhar bem pior, mas foda-se, esta merda dói como catano! Não haver um Katrina que os fodesse a todos! O Tsunami da Indonésia não veio de terramoto nenhum! Veio sim da carga explosiva de energia negativa, que as vitimas dos sms`s mete-nojo forjaram com os deuses! Largo a caçadeira, e fico embevecido a imaginar um tsunami akatrinado a formar-se ao longe no mar da praia onde o cabrão come lagosta a 3 euros! Lindo!

08/08/06

Perdoai-lhes Senhor, Que Eles Não Sabem O Que Fazem!, por Zé Critério

Verão de 2002, em Coimbra. O restaurante tinha um aspecto que prometia. Coisa nova, descaradamente franchising, de decoração espanholada, num cruzamento entre um basco Lizarran e um Gambrinus valenciano, de seu nome Paelhas-Portugal. A escolha foi da miúda, com o Moi a resmungar e a Maria a aplaudir.

A ementa prometia, com fotografias magníficas de portentosas paelhas e zarzuelas em caçoilos de barro. Generosas e suculentas, ólálá, como manda a arte de bem fotografar. Pelos cantos da casa coimbrã já se espalhavam quatro ou cinco mesas de comensais com ar satisfeito e prazenteiro.

Pra começar pedem-se umas Amêijoas à Marinheiro. Estavam bem na fotografia, descurou-se o Aviso à Navegação (ver anteriores postas sobre Tratados Taurinos). E elas vêm. Vêm e ficam. Eu olho de lado, mas dou-lhes o benefício da dúvida, isto é, da boca. Só que na boca completa-se o desastre. A coisa está mal, muito mal. Para estreia começamos pior. Adiante, que o Tarik ainda há dias me moeu o juízo por estar sempre a marrar nos restaurantes. Aguentemos Senhor. As amêijoas intocadas são postas num cantinho da mesa.

Vem a Sangria. Ó Diabo, isto está a aquecer! É que de Sangria isto só tem umas coisitas armadas em laranja a boiar, o resto é gasosa com ínfimos vestígios de má vinhaça. Faço das tripas coração e aguento. Metendo na cabeça que aquilo não é sangria, mas sim gasosa, a coisa até se deixa beber. Paciência, até porque a água do luso, não está má. De caminho aviso o meu pessoal que pode haver tourada a seguir, pelo que há que respeitar o manual do escuteiro mirim. A Maria diz que quer ser ela a lidar. A miúda desaprova, gosta mais de ver o pai a tourear.

Vem a Zarzuela.
Do caçoilo de barro, népias, vem a coisa num prato normal. A quantidade nem parecida com a fotografia era, táqueto, e o aspecto denunciava uma negritude mau-mau. A cara da coisa metia medo…
Ia haver tourada.

- Olhe lá ó Migo, isto aqui é o quê?
- Isso é a Zarzuela.
- A Zarzuela?? – Olhe que em comparação com a fotografia da ementa, isto nem família afastada é!

Tunga! Primeira farpa no lombo. O toiro procura um olhar benevolente na mesa, mas népias, a famelga, experiente, já baixou os olhos há muito e permanece em silêncio, à excepção de um outro riso entre dentes da sacana da miúda, que gosta mais disto que de hamburgueres.

Sem apoio e sem razão o toiro não marra e ajoelha:
- Pois, nós pedimos muita desculpa, de facto tem toda a razão, é que as fotografias e as ementas vieram de Espanha, nós somos uma multinacional, peço-lhe que compreenda, já vamos corrigir isto.

Entretanto e lá do fundo, o Gerente, ou um entradote com cara disso embora de avental servil, começa a olhar de lado e a aproximar-se. Como o toiro ajoelhou logo à primeira farpa, e convém sempre usar de alguma magnanimidade deixei o toiro recuar:
- Pronto, está bem, deixe estar e vejam se realmente corrigem as fotografias que são enganosas.
O animal vai-se embora.

Ferra-se o dente numa rodela de lula da Zarzuela e a rodela de lula fica agarrada ao dente. Prá tirar tenho que ir lá com a manápula. Afiambro de seguida na pescada da Zarazuela…
Nem de propósito volta o animal com a Paelha.

Eu olho prá Paelha, olho pró animal, que me vê o dente arregaçado e pergunta timidamente:
- Quer mais alguma coisa?
- Quero sim Senhor! – Olhe pode começar por levar daqui para fora aquele caçoilo de amêijoas à marinheiro, que são completamente inaceitáveis! Entretanto aprochega-se o Gerente de avental, com cara de caso e de poucos amigos…
- …completamente inaceitáveis! – continuo eu -, não deviam sequer ter vindo prá mesa! Conforme pode ver pela totalidade das mesmas que ali estão intactas, aquilo é incomestível, estão secas, sem molho, tísicas, torradas e tanto pela cor como pelo sabor vê-se que não são canónicas e que de facto não poderiam vir prá mesa de outro modo a não ser torradas!

- Canónicas? Pergunta o Gerentezinho, entrando na lide.
- Canónicas, sim Senhor! E não Não são Canónicas não Senhor! Não estão frescas e são indignas de serem servidas! E de caminho levem também a Zarzuela que é coisa que eu conheço e isto nem da família por afinidade é, mas isso ainda se tolerava, agora estas rodelas de lulas onde não se consegue sequer ferrar o dente e que nem se conseguem rebentar com as duas mãos a fazer força e pode crer que eu já tentei, mais a pescada que se não consegue comer pois que foi congelada e recongelada e o único sabor que tem é da água da congelação a que acresce o facto de isto ser uma dose ridícula, supostamente para uma pessoa, no que vêm duas rodelas minúsculas de lulas, meia posta de pescada desfeita e mal saborosa a que se junta aquele minúsculo camarão da costa engelhado. Isto só por brincadeira! Levem se faz favor!

- E de caminho levem também a Paelha em quê se não tocou e como se pode ver a vossa dose individual de Paelha tem meia asa de frango, dois bocadecos de entrecosto ridículos e um mexilhão. O arroz só pela cara está queimado, LEVE TAMBÉM, se faz favor, e de caminho traga-me a conta que nós vamos embora!

A manada leva tudo de bico calado e seguem-se três minutos de intensa conferenciação na copa. O garção volta ao local do crime, diz que a conta não é nada, e pede muitas desculpas, que de facto a multinacional, e coiso e tal, e que estão a começar e esperam vir a fazer melhor, que tinha toda a razão, etc, etc, e que de facto da conta não era nada.

A sacana da miúda só parou de rir já no final da estrada do rio para Penacova, perto do Cota, onde fomos comer uns peixinhos do rio com arroz de tomate e um polvo à lagareiro. Só tive pena de não lhes espetar uma estocada final, que me escapou e que remataria a lide em grande: Devia ter insistido em pagar a água do Luso, que estava boa!


PS: para a clientela que não sabe das anteriores postas sobre tratados taurinos, aqui ficam dois deles, em links do Porco:

TRATADO TAURINO


Tratado Taurino, Volume 3, A Restauração, por RicardoChibanga

07/08/06

A Noite das Abóboras Voadoras, por Moita Carrasco

Naquela noite havia festa na aldeia. Com música, bombos e foguetes lança-fogos. O Spock resolveu convidar os compinchas de liceu para uma patuscada de festa farta. Se bem o pediu, melhor a mãe lho fez. Antes da chegada dos convivas, a Adega de cave regurgitava de bolos de bacalhau, croquetes, frango assado, carapauzinhos fritos, caçoilas de carne assada, leitão assado à Bairrada, negalhos, broa caseira, broa doce, azeitonas, pratos de arroz-doce, pudins, bolos, etc, etc.

Por volta das 9 da noite, a maltosa começa a chegar munida das sacrossantas garrafas de litro de tinto Teobar e Rimor. Na altura, a 50$00 a botelha. Além do Spock e segundo as alcunhas da altura respondem presente os seguintes selvagens: Satanás, Múmia, Somítico, Cão, Lusitano, Pilosa, Abutre, Galgosa e Alentejano.

Hoje em dia, a Confraria está organizada e mete respeito ao meter os copos no nariz em cada tasco que passa. Nestes primórdios, nada ia para o nariz. Aliás, nem sequer ia para a boca. A garrafa de Rimor era metida nos queixos, virava-se de cu ao alto e ganhava quem bebesse mais goles sem respirar. A única cegueira que havia era que o pessoal fechava os olhos ao engolir o tinto. Enquanto um emborcava, o resto do pessoal cantava o “Zé Maria”, que corria ao ritmo da religiosa Ave Maria e que rezava qualquer coisa como isto: “- Ó Zé, Ó Zéé, Ó Zé Maria, - Ó Zé Mariaaaaaaaa.” Por vezes acelerava-se o ritmo e cantava-se o “Zé Maria” em ritmo de batuque africano.

A coisa corria bem e o tinto ainda melhor, até que lá pelas duas da manhã, o animal do Luzitano não gosta do “Animal” que o Cão lhe afinfa e manda-lhe um caroço de azeitona. O animal do Cão responde com um carapau frito, que por manifesta falta de pontaria e alta bebedeira, vai aterrar nas fuças do Somítico. O Somítico que à frente só tem pratos de Arroz Doce, mete a manápula na doçaria e manda uma talochada de arroz doce nas fuças do Múmia. Foi o fim da coisa e o início de uma batalha campal sem paralelo desde a Gaugamela de Alexandre, o Grande.

O Spock, que viu desde logo para quem é que aquilo sobrava, tentou conter o pessoal, mas só conseguiu levar com pudim flan nas ventas. Foi demais e foi a perdição total. Saiu da adega da cave e reentrou com mangueira de jacto na mão. Regava refastelado quando levou com uma abóbora gigante num ombro, deixada cair em pontaria romba por um Múmia que já desfilava por telheiros e tellhados. Voavam abóboras, cabaços, pepinos e arroz doce.

Hoje, 26 anos passados de tal doideira ainda se tiram bocados de arroz doce calcinado por detrás das garrafas mais antigas. Na altura, o Spock viu-se obrigado a andar dois dias a lavar paredes, pipas e tonéis que tinham bocados de arroz doce e carapaus incrustados. Do tecto, escorriam pudins como estalactictes e os bueiros entupiram com negalhos atados a guitas de chouriço. As paredes tiveram que ser caiadas de novo. Havia garrafões partidos com abóboras em cima e bolos de bacalhau enfiados nos sítios mais inverosímeis.

Andava o Spock a lavar e ainda teve que a chata da vizinha que se queixava de ter estado acordada toda a noite e estava curiosa: “- Ó, Nino, muito berraram vocês pelo Zé Maria, mas atão, ele sempre chegou a vir ou não?”