30/04/07

Ombros & Omoplatas no país da bitaitada, por The Shadow

O blog do Provedor do jornal «Público» divulga uma carta de uma leitora que denuncia uma calinada de tamanho XXL de um entrevistador do jornal, de seu nome João Bonifácio. No suplemento Y, o entrevistador conversa com o fadista Camané. A dada altura falam de Brel e da letra de Ne Me Quitte Pas:
Laisse-moi devenir
L'ombre de ton ombre
L'ombre de ta main
L'ombre de ton chien

Então não é que o moço traduziu por ‘‘Deixa-me ser (...) o ombro do teu cão...”!

Vai daí, o fadista, que não quis fazer figura de ignorante, chutou para a frente e mandou bitaite:

«CAMANÉ: “Ele queria ser o ombro do cão dela porque queria era estar ao pé dela, não queria que ela o deixasse. E nessa fase da canção existe o desespero: nem que seja uma mosca à tua volta, o ombro do teu cão, qualquer coisa, mas que eu possa estar ao pé de ti.”»

pico câncio de saramago, por Kzar


Giovanni Pico della Mirandola (1463 - 1494), um célebre sábio do Renascimento «recolheu em 900 teses todo o saber acumulado pelo Homem e propôs-se discutir a súmula na praça Romana, custeando as despesas a quem se dispusesse a enfrentá-lo.»

não é que tenha alguma coisa a ver com o assunto do pico mas se esse gajo era assim tão bom porque é que foi a fernanda câncio que descobriu a cena de escrever sempre sem maiúsculas e o saramago a de escrever sem vírgulas nem pontos nem parágrafos descobertas criações grandiosas da modernidade jovens ao máximo que eu estou pela primeiríssima vez a usar em conjunto para meu exclusivo crédito e a que a partir deste exacto momento acrescento uma invençao da minha exclusiva lavra que e tambem nao por acentos nem tis nem o catano a nao ser o ponto de interrogaçao no fim desta merda? e viva a f cancio penedo

27/04/07

Cachimbo o tanas, por Renato Magrito



pic retirado de http://www.cestlemien.over-blog.com/article-357826-6.html

26/04/07

Uma questão de indicadores: Pico e Buonarroti, Grünewald e Leonardo

Pico della Mirandola morreu muito jovem (1463 - 1494). Mal dobrou as três décadas de vida, o Conde da Concórdia foi acometido por umas febres súbitas e sucumbiu precocemente. Foi, contudo, um dos intelectuais mais influentes da História da Humanidade, na medida em que constituiu uma das mais límpidas manifestações do espírito da Renascença. Não tanto pelo que deixou feito, mas pelo que se propôs fazer. Desafiando todas as hierarquias e todos os mestres, Giovanni Pico recolheu em 900 teses todo o saber acumulado pelo Homem e propôs-se discutir a súmula na praça Romana, custeando as despesas a quem se dispusesse a enfrentá-lo. É este espírito, universalista e ambicioso, que buscava concretizar a suprema síntese do saber, o que supõe também uma concepção universalista do Homem, que anuncia o génio de Leonardo. É esta atitude, optimista, prospectiva e universalizante, que está na base da modernidade. Pico é pois um precursor. Aos 23 anos somente, Giovanni condensava os seus estudos e pesquisas na publicação de 900 teses. O jovem propunha-se devorar o Mundo. Sendo que Deus mais não é do que o Homem com o Mundo no Estômago, Giovanni ameaçava o lugar de Deus com a Sua Criatura dilecta e perfectível: o Homem! Ele! Propunha-se agir com um método e um objectivo, isto é, pela síntese dos contrários visava a construção da Paz Universal.
No Discurso Sobre a Dignidade do Homem, escrito como prólogo à sua desmedida empresa, confessa no final que um dos seus grandes objectivos é a conciliação da filosofia de Platão com a de Aristóteles. Entre o idealismo platónico e o sistema aristotélico. É este, aliás, o tema central do fresco de Rafael na Stanza della Segnatura, a célebre Escola de Atenas. Ao meio da composição, Platão, pintado com a fisionomia de Leonardo e com o Timeu debaixo do braço esquerdo, ergue o indicador direito para os céus, como o S. João Baptista de Leonardo, enquanto Aristóteles abre a palma direita para o solo, ao passo que segura na outra mão a Ética.
O espírito piquiano encontra em Miguel Ângelo o seu cultor mais genial. Muito mais do que Leonardo, que iguala a pintura à ciência e vê o Homem como uma machina, Buonarroti experimenta a angústia provocada pela aspiração a uma síntese ousada, isto é, a compatibilização da estética clássica que faz do corpo masculino um ideal estético, por um lado, e, por outro, a espiritualidade cristã que, na esteira da tradição Paulina, encara o corpo como um cárcere do espírito, residindo aqui a verdadeira dimensão do Homem Cristão.
Por isso, ao Cristo flagelado e leproso que Matthias Grünewald, seu contemporâneo, pinta para a leprosaria de Isenheim, uma imagem ainda composta sob os modelos culturais e mentais do gótico tardio, segundo o qual o sofrimento é garantia de Salvação pelo que o indicador de S. João aponta o corpo crucificado do Filho de Deus, Miguel Ângelo contraporá, poucos anos após, nos tectos da capela Sistina, um Adão apolíneo segundo o modelo de Fídias no Partenon, cujo indicador quase toca o de Deus Pai. No fresco do Juízo Final, pinta um magnífico Cristo, belo e clássico, nu, musculado, hercúleo, com uma serenidade olímpica e triunfante. Mais metamorfoseado sob o cânone grego do que ressuscitado após o suplício da Paixão. É este fresco um dos momentos culminantes da história da Humanidade, constituindo expressão sublime de uma contradição irresolúvel, onde radica a angústia de Miguel Ângelo e a essência do génio humano.

25/04/07

Yes! Ele pode ir, por Yaúca


O assunto da semana devia ser a constatação do excelente e eficaz funcionamento do nosso Serviço Nacional de Saúde. O caso da doença do excelente Pantera Negra, vulgo Eusébio, é a prova disso mesmo. Eusébio teve um problema numa artéria no domingo e hoje, terça feira, já foi operado, correu tudo bem e, felizmente, já tá pronto para apoiar o Glorioso. E ainda dizem que há filas de espera? É mentira. Felizmente vivemos num país onde, na área da saúde, qualquer cidadão tem direito a um acompanhamento rápido e eficaz independentemente de ter sido um mega craque na arte do chuto no esférico ou de nunca ter passado de um mero distrital da bola.

Mas os media não gostam de temas como este. Se eu fosse Marciano e aterrasse na Terra,mais precisamente, aqui em Portugal e consultasse os jornais do dia, se ouvisse a rádio e visse a TV hoje, diria que a questão da semana, a pergunta fracturante que está a dividir 10 milhões de Portugueses é esta: após o sucesso da operação, deve o Pantera ir ver o jogo à luz entre o Glorioso e a lagartagem?

Como faço todos os dias, hoje li A Bola. E lá estava na primeira página, a notícia do dia, plena de regozijo: «Eusébio vai à Luz». Uff, ainda bem, já tou mais aliviado... Ao meio dia ouvi um senhor doutor que tinha operado o eusébio a exprimir também a sua douta posição: «do ponto de vista médico não há qualquer contra-indicação. Eusébio pode ir à Luz». Mas parece que este médico é sportinguista e o nosso presidente, que ninguém o toma por papalvo,ai isso nem pensem, fosca-se, pronunciava-se ao fim do dia: «o zébio não deve ir à Luz. Não é bom para a saúde dele e o Benfica precisa do zébio. Ele quer ir à luz, mas alguém vai ter que o segurar aqui em casa. Nem que venha eu pra cá». Embrulha! Entretanto, assumindo a superior pose de estado que coloca os interesses da Nação acima dos interesses do benfica, o presidente da federação portuguesa de futebol, defendeu que o importante «é ele estar bom para os próximos jogos da selecção com a Bélgica e a Arménia» (sic).

De modos que depois de lidos os jornais, ouvida a rádio e vista a Tv, falta que a blogosfera, o mais moderno e democrático de todos os media, se pronuncie também: afinal, o eusébio deve ou não deve ir à Luz?

24/04/07

Dos Contos do Deserto - III, por Pedro O`Tolo


I`ve Got You Under My Skin. Sem aviso prévio. A Voz cria em mim, no mesmo instante, um alheamento momentâneo ao texto que estou a ler. Escapam-me as vozes de Dean Moriarty e do Sal Paradise. Paro de ler.

Suspendo a febril marginalidade do oceano capturado.

O livro repousa sobre a mesa, voltado para baixo na página em que me detive; o mar impõe-se ao meu olhar. Uma brisa ocasional esvoaça as bandeiras enterradas na areia clara. O azul das águas serpenteia em várias tonalidades, cada vez mais escurecidas, desdobra-se até um ponto longínquo da costa, contrasta com o horizonte desta tarde e ascende à limpidez do ar que respiro. O princípio é turquesa muito claro, quase transparente, junto à areia da praia, depois, mais carregado progressivamente, o verde das montanhas ao fundo detém a progressão do azul, e mais nada, se me fosse possível continuar para além do que a visão alcança. Estes últimos dias de Abril também são assim – como argumentos dos melhores filmes série B com final imprevisível. A luz que possuiu o afastamento de tudo o resto quanto deixei para trás, ameaça extinguir-se e deixa-me exausto só de a sentir entranhar-se nos pulmões. Adio o regresso a casa com gestos que se escapam nas leituras beatificadas destas horas perceptivas. Derradeiras são elas todas, todos os dias.

Aproximou-se um velho do Teneré que foi guia do Rommel durante a ofensiva dos Aliados. Sei disto tudo sobre ele porque os seus passos avançavam como os de um ladrão esquecido. Trazia um guarda-chuva negro muito gasto que abria para se cobrir do sol. Sentou-se ao meu lado, pediu-me um cigarro, inclinou-se para mim e começou a falar do vento, essa força para além do entendimento dos homens mortais que transforma as dunas e a face da terra. Que sem o vento, naquela noite em que Lawrence se retirou para a solidão das areias, nunca teria nascido o mito. Foi o vento que lhe moldou a vontade e lhe mostrou que a fornalha do Nefru podia ser atravessada. Falava do vento com o profundo respeito de um adversário que muitas vezes se tinha atravessado nos seus caminhos. A pele gretada das mãos, as pregas brilhantes e secas junto aos olhos, ofereci-lhe outro cigarro e, para mo agradecer, disse-me que a sombra daquela tamareira ficara amaldiçoada desde o dia em que o irmão mais novo prendera nela uma corda e se enforcara. De nada me valiam os mapas, informou-me, se não soubesse encontrar uma sombra no deserto. Estava um final de tarde muito belo, mas a mim não me enganava, pois quem o quisesse encarar de frente veria que era um mau pagador de promessas. A noite tímida e o dia persistente misturavam o laranja escuro com o cinzento violáceo e assim nos deixámos ficar, naquele intermédio, em silêncio a maior parte do tempo. O velho partiu.

Retomo a leitura. Apodera-se de mim o espírito de Dean Moriarty, apetece-me beber uma garrafa de bourbon Old Grandlad com muito gelo, deixar-me diluir nesta tarde insuportavelmente autêntica e inútil, como um pianista negro com a mão direita engessada. Porém, antes de tudo o que antecipa a insensatez de receber o mundo em bruto, irei dar um último mergulho nas ondas. Amaciar a fé que ainda me resta, contemplar antes que se esgote, a frágil cadência deste Verão antecipado após o anterior que, ainda hoje, vela pelo meu regresso.

Afinal, o Lawrence da Arábia também andou muitos anos sem perceber alguma vez o quanto era apenas um homem mortal.

23/04/07

Afinal o Povo Cheira Mesmo a Ambiente?, por Luís XIV


Pieter BRUEGEL, o Velho
Casamento aldeão (Boda de camponeses) c. 1568 óleo sobre madeira, 114 x 164cm Kunsthistorisches Museum, Viena, Austria.

Neste quadro, Bruegel retrata uma festa de camponeses que celebram um casamento. O olhar de Bruegel sobre os aldeões é particularmente cruel. Ele trata-os como brutos e desmiolados. Repare-se no ar bovino da noiva de bochechas rosadas, ao centro. O noivo, por sua vez, tem o nariz vermelho e a sua grande preocupação é levar uma colherada à boca. São ambos assim pó gorducho e estão afastados um do outro, a boda é festa da aldeia isso é que importa.
À entrada do celeiro (?) onde decorre a boda as pessoas parecem amontoar-se para poderem entrar. Atropelam-se, mesmo, umas às outras! Dá a impressão que a fome é muita. E, no primeiro plano, há um rapazito patusco com um chapéu enorme enfiado na cabeça a lamber os dedos. Há uma cabra a espreitar por debaixo da mesa, enfim, tudo aqui é burlesco.

O olhar de Bruegel não é ternurento, é distante, irónico e gozão. Mas, apesar de tudo sente-se aqui uma alegria pura, uma naturalidade que cativa. Eu não gostaria de estar numa festa daquelas, mas acho piada áquela alegria, vista de fora. Olha-se para este quadro com uma vaga nostalgia da pureza perdida. Talvez seja por isso que eu gosto de Bruegel. Mas há outras visões do bom povo, quase opostas a esta. Como é o caso do Angelus de Millet…

Millet: Afinal Cheira a Rosmaninho!, por Luís XIV



Angelus
Museu D`Orsay, Paris.
Jean François Millet (1814-1875).

Em contraste com a Boda de Camponeses de Bruegel (ver post acima deste), encontramos esta outra representação do povo rural, o famosíssimo Angelus de Jean François Millet (1814-1875). Millet, supostamente, respeitou mais o povo que Bruegel, mas eu gosto mais do olhar de Bruegel.
A temática do quadro de Millet remete para a Hora do Angelus que corresponde às 6:00,12:00 e/ou 18:00 horas do dia e evoca o momento da Anunciação feita pelo Anjo Gabriel à Virgem Maria. De acordo com os preceitos Cristãos, esta hora deve ser celebrada diariamente mediante preces e orações. É isso que fazem os camponeses que interrompem a sua labuta para rezarem.

A matriz Cristã do quadro é pois explícita mas Millet vai mais longe ao fundir a sacralidade Cristã com o misticismo da terra e do mundo envolvente. Os camponeses estão perfeitamente integrados no seu mundo, não se destacam mas fazem corpo com ele. Tudo aqui é Sagrado. Atente-se nos tons amarelo-oníricos da paisagem – não é por acaso que este quadro atraiu Dali, que dizia procurar reproduzir nos seus quadros as cores misteriosas dos sonhos.

É verdade que este quadro é visto mais pelo seu lado místico e religioso, mas é ainda o povo que nele está representado. Já não se trata aqui do povoléu, do povão meio boçal de Bruegel mas de um povo digno, capaz de contactar com o Infinito.

Para além dos surrealistas que viram aqui a celebração do misticismo, também os realistas soviéticos se sentiram atraídos pelos camponeses de Millet, mas, agora, já não pela espiritualidade religiosa, mas pelo retrato da dignidade do povo puro e trabalhador. Não é estranho que um marxista veja aqui a alegoria da classe eleita. Tal comos judeus eram o povo eleito na escatalogia do Velho Testamento, na escatologia marxista é o povo que realizará o paraíso no fim dos tempos. O Angelus testemunha uma visão idealizada do bom povo trabalhador, é o retrato da sua dignidade suprema e da sua magnificiência.

Qual das duas imagens do povo é mais interessante? Embora me agrade este quadro de Millet, acho que ainda prefiro a visão de Bruegel. Não é tão realista na sua representação, mas é mais realista no conteúdo; ao passo que Millet pinta de um modo realista, mas é mais pomposo no conteúdo. Prefiro a alegria simples e concreta do povo de Bruegel. No Angelus pressinto qualquer coisa de idealizado e artificial. E contudo o seu desenho é incomparavelmente mais realista que o de Bruegel que está muito mais próximo da estética BD, por exemplo. Goscinny e Uderzo também acharam e é pertinente que, em Astérix e os Belgas, tenham visto nos camponeses de Bruegel os próprios Gauleses num momento de inevitável banquete. Aqui mesmo: http://asterix.openscroll.org/books/asterix_in_belgium.html

21/04/07

D. Pietro dispondo pudicamente as imagens de S. Roque e de uma Vénus desnuda, ou o manifesto de Rossellini contra a barbárie na Roma ocupada de 1944

Há uma cena no excelente filme Roma Cidade Aberta de Roberto Rossellini, quando o padre D. Pietro Pellegrini se dirige a uma loja de antiguidades ao serviço da resistência comunista para cumprir uma missão clandestina, que merece atenção pormenorizada. Roma está ocupada pelos nazis, os comunistas organizam a resistência, e Giorgio Manfredi, o cabecilha, foi denunciado pelo que se torna perigoso circular na cidade vigiada. D. Pietro aceita pois a missão perigosa de contactar a tipografia clandestina na cave de uma loja de antiguidades.
Rossellini poderia ter imaginado uma alfaiataria ou uma loja de ferragens, uma barbearia ou uma taberna, mas não, encenou o episódio numa loja de antiguidades. Don Pietro entra no estabelecimento. Lá fora, mirando a montra, dois soldados germânicos fardados. O padre, com as vestes talares típicas do clero da época, é recebido pelo negociante de antigualhas. O cura não é esperado, pelo que antes de se apresentar diz procurar uma imagem Santo António. Desconsoladamente, o negociante declara que não pode satisfazê-lo e oferece antes um S. Roque. Apresenta-lhe a estátua do santo medieval representado nos trajes de peregrino com um cão pousado aos pés de acordo com a iconografia tradicional. Defronte, sobre o mesmo balcão, uma Vénus desnuda, à maneira clássica de Praxíteles, exibe a nudez luxuriosa. Don Pietro, incomodado, vira a estátua pagã de costas para o santo. Ainda insatisfeito, suspeitando que a contemplação das nádegas não condiz com a virtuosa castidade do santo, vira as duas estátuas de costas uma para a outra.
Esta cena só aparentemente é anedótica. Como piada poderia ser evitada, pois que, considerando a exiguidade dos meios, a premência dos prazos de filmagem e o facto de a película ter sido rodada em 1944, no cenário real da guerra, fácil é aceitar que a seriedade do momento não recomendaria humores duvidosos, nem tão pouco a falta de recursos era de modo a desperdiçar o celulóide com piadas fáceis.
O que está em causa é mais do que isso, é o contraste entre um ideal estético pagão recuperado da antiguidade clássica, arvorado numa era de olimpismo ariano como símbolo de uma superioridade germânica que fez do culto do corpo elemento de demonstração de uma pretensa vantagem racial. A estética nazi, recuperada do neoclassicismo alemão e fundada no culto do corpo, tem nos filmes de Leni Riefenstahl e na exibição da nudez atlética um poderosíssimo elemento de propaganda e de demonstração da superioridade germânica. Por outro lado, viviam-se tempos em que os horrores da Guerra produziam estropiados e cadáveres exibidos em amontoados inestéticos, como se fossem novos tempos de peste, cuja memória o horror nazi apesar de tudo suplantou, uma era de má memória em que a integridade corporal e a estética do nu aparece assim descontextualizada num tempo de massacres, perseguições, torturas e campos de concentração. A nudez feminina e voluptuosa, sensual segundo o cânone helenístico, aparece então inestética em face do contexto. À Vénus clássica, Rosselini contrapõe a imagem de S. Roque, o protector dos leprosos e pestilentos. Na iconografia católica, frequentemente, o santo é apresentado coberto com o manto do peregrino exibindo apenas uma ferida no joelho, pois ele próprio terá sido vítima da peste negra.
A nova peste que afecta Roma, a da barbárie nazi, coloca novamente a invocação de S. Roque como preferível à de Santo António, o douto santo casamenteiro, cuja imagem inicialmente D. Pietro procura.
Dispostas pudicamente as figuras, de costas voltadas num manifesto de incompatibilidade, o confronto civilizacional desloca-se do campo estético para o domínio ético, o que aproxima o ideal cristão da combatividade comunista no fundo de dignidade humana que ambos partilham na sua versão mais ideal. D. Pietro desce à cave, a nova catacumba, onde a clandestinidade comunista esconde uma tipografia onde são impressas as páginas do Unitá. Mais uma vez, como nas origens, é nas catacumbas, espaço simbólico da dignidade resistente face à barbárie, que Roma se fez universal, o centro do mundo civilizado. O preço foi o martírio de Pina fuzilada sumariamente na via pública aos olhos de Francesco, o noivo, estando grávida e sendo chorada pelo filho ainda criança, numa comovente e patética pietá invertida. Ainda a flagelação de Giorgio, o chefe comunista da resistência, que sucumbiu à tortura com uma dignidade crística e que é iconograficamente apresentado como um Ecce Homo supliciado, dando dignidade cristã à resistência comunista. Por fim, a execução de D. Pietro a que as crianças assistem do lado de fora da vedação.
O filme encerra com a marcha dos meninos com Roma como fundo. Ao centro, a cúpula de S. Pedro.

20/04/07

O Juiz Holden, A Personagem Mais Terrífica Da História Da Literatura, por Gregor Samsa

Foi agora editado em Portugal o novo livro de Cormac McCarthy de título A Estrada. Ainda não li, mas estou a estranhar a recepção americana que presenteia A Estrada com o Prémio Pulitzer.

É que Cormac McCarthy não é querido pelos americanos. É um autor maldito, que se enterrou no interior americano e se fecha a sete chaves no seu refúgio. Tal como J.D. Sailinger e Thomas Pynchon, não dá entrevistas a ninguém e não recebe ninguém. Não vai à tv e nem “aparece”. Fez questão desde há dezenas de anos de desaparecer. E a sua obra não ajuda. É que não é fácil ler McCarthy. Logo nas primeiras páginas começamos a engolir em seco e começa a boca a ficar encortiçada.

Assim que entramos no Meridiano de Sangue (Blood Meridian no original) tropeçamos numa árvore no meio do deserto com bebés pendurados nos ramos. Muitos. Pendurados pelos pés e de cabeças cortadas. Ou mãos. Já li a coisa há muito tempo e já me falha a memória. Depois piora. Aparece o Juiz Holden. Um líder nato, intelectual, pistoleiro e facínora. Ao longo do livro vamos tropeçando em horrores e crimes indescritíveis que nos são apresentados com uma mestria de escrita inigualável. Holden não está lá e tanto quanto sabemos não esteve. Holden lidera um bando legal e com estrela ao peito. É cativante e é-nos simpático. Não é ele. Não pode ser ele. Só a pouco e pouco é que nossa simpatia por um herói nato começa a ser corroída pela dúvida. McCarthy nunca nos diz directamente, mas acabamos por dar no Holden. Só ele. Porque aquelas monstruosidades, só poderiam vir de um cabeça inteligente e requintada. Intelectual mesmo, como já disse. Holden não é Juiz, mas quer agarrar (to hold) o que lhe escapa, porque quer o mundo e o mundo só existe quando ele o cataloga, recolhe e agarra. Holden é um cientista, um intelectual e um visionário. Ao mesmo tempo é um assassino e o mais cruel dos bandalhos. É difícil avançar mais na trama e na personagem, sem vos estragar o prazer da leitura e da descoberta, mas como diz Harold Bloom só vos digo que estamos perante a mais terrível personagem da história da literatura.

Apesar de ser um escritor de renome e com alguma critica favorável, Cormac é afastado das Universidades que o não estudam e é mal visto pelos americanos. A razão do afastamento é simples, os livros do Cormac versam o Oeste mítico e não respeitam o mito. São duros, cruéis, sanguinários. Dirão alguns, está bem, e daí?, já muita gente ficcionou sobre a crueldade do Oeste. O que há de novo? O que há de novo, é que sendo ficção, o Cormac não ficciona. Investiga seriamente os incidentes e os acontecimentos históricos e crava-lhes personagens que se ajustam ao que efectivamente se passou. O Holden não é um sanguinário qualquer. É uma personagem construída por inteiro, complexa e com requintes de malvadez do escritor para o leitor. Sendo ficção há ali muito de ensaio histórico. E é isso que dói nos americanos. Ler McCarthy implica descer a um Oeste de que dificilmente se gosta. E pior ainda, sentir a cada passo da leitura de que não pode ter deixado de ser assim.

Os livros de Cormac mais do que pura ficção enquadram-se naquilo que normalmente se designa por Non Fiction Fiction (os livros de Bruce Chatwin são daqui, por exemplo), um meio termo entre a pura ficção e o livro de reportagem ou de crónica factual.

Voltando ao “Meridiano De Sangue”, Cormac conta-nos a história do Jovem (nunca saberemos o nome dele, será sempre o Jovem, e a letra grande é minha) e o seu ingresso no bando do Capitão Coral, caçadores de escalpes de índios pagos à peça pelas autoridades locais e estatais de ambos os lados do Rio Grande. Se julgam que é mais um livro de peninha sobre os índios, arrepiem caminho, os índios de Cormac encaixam-se na perfeição. Quem começou não se sabe, nem o Cormac vai por ali, até porque a sua escrita é despida de moralização, mas sabemos ao ler aquilo que qualquer de nós poderia estar de qualquer dos lados da barricada e da chacina: de quem caça os índios, de quem caça os colonos, de quem caça os caçadores. Por norma, nas regiões de fronteira, as fronteiras entre o bem e o mal estão por natureza diluídas. Como nos livros de Cormac e de facto não é fácil descobrir ou aplaudir ali a epopeia. Não há preto e branco, nem a luta do bem contra o mal, até porque na maioria do livro não nos conseguimos agarrar a nada e já não sabemos se amaldiçoamos o bem ou se abençoamos o mal. Os americanos obviamente não se revêm, não gostam e varrem o Cormac para debaixo do tapete. Tirem-no de lá e leiam-no, que vale a pena.

19/04/07

Liviu Libresco, Porque De Facto Ainda Há Homens Grandes No Meio Da Mediocridade Geral, por Inginheiro

Liviu Libresco é um nome romeno de um homem grande nascido na Roménia. Libresco era Judeu e foi metido pelos nazis num campo de concentração. Logrou sobreviver até à libertação do fim da guerra e passou a viver debaixo da pata tenebrosa do Ceausescu e do estalinismo romeno, até que conseguiu exilar-se para os Estados Unidos. Fomos encontrá-lo agora como professor de Engenharia Aeronáutica (este parece que era mesmo engenheiro!) do Virgínia Tech, onde um puto idiota metralhou dezenas de pessoas. Com 76 anos e apercebendo-se que o estupor armado se dirigia para a sua sala, Libresco mandou os seus alunos saírem da sala pelas janelas, enquanto ele próprio fazia do seu corpo ferrolho contra a maldade gratuita. Aguentou a porta e a metralha o tempo necessário para safar os seus alunos. Ele não se safou. Sacrificou-se pelos alunos. Eis Um Homem Muito Grande. Este post é quase copiado ipsis verbis do editorial do José Manuel Fernandes do Público de hoje. Ele que me desculpe, mas perante uma grandiosidade destas a cópia vale a pena. Liviu Libresco um nome a recordar.

18/04/07

«Licor, Sabão e Sapatos», de Daniel Abrunheiro

Está tudo no livro


Sessão de Lançamento em Coimbra
com a presença do autor


20 de Abril de 2007
23h00

no Massas Café-Concerto

Zona Industrial da Pedrulha
Armazém nº 8 (239 081 477)

17/04/07

O Filão Barbarella de Forest, por Bobby Peru

A primeira heroína da BD erótica surgiu nos anos 60. Chamava-se Barbarella e o seu autor foi o francês Jean-Claude Forest. Quem lê hoje a série acha incrível como é que aquilo teve problemas com a censura nos anos 60. O desenho é convencional e de erótico tem muito pouco, mas os nossos tetravós dos sixties deviam ser uns taradões do camandro porque aquilo foi um mega sucesso. Forest imaginou um cenário no futuro, claramente inspirado em Flash Gordon e deu a esse espaço ingénuo uma dimensão erótica, talvez demasiado tímida, ainda assim, para os nossos padrões actuais. Barbarella, há que dizê-lo com toda a frontalidade, não dá tusa! Mesmo assim deu origem a um filme de Roger Vadim com Jane Fonda (essa sim, bem mais entusiasmante que Barbarella) no papel da protagonista.


Barbarella, contudo, foi uma pedrada no charco da BD que até então era uma coisa infanto-juvenil. Basta pensarmos em Tintim - a série é um verdadeiro protótipo misógino em que não existe uma única mulher a não ser a gorda e feia Castafiore. Ou em Astérix ou Spirou, ou então, nos comics americanos como o Capitão América ou Batman (sobre o Super Man tenho outra visão, mas a sexualidade do kryptoniano dava outro post…). Percebemos facilmente que, até à data da publicação de Barbarella, os Comics eram mais ou menos assexuados. Isto, apesar das leituras psicanalíticas que viam nas parelhas de super-heróis como Batman-Robin, Aquaman-Aqualung ou Green Arrow /o coisito que o acompanhava e de cujo nome não me recordo agora, modelos homossexuais dissimulados. Com Barbarella praticamente nasce o comic adulto e, mais importante, a série dá início a uma vaga de heroínas porno-eróticas de ficção científica, mas também de outros géneros, que se multiplicam nas décadas seguintes.

Tal é o caso de Zakarella ou de Vampirella, por exemplo, ou da própria Tarântula (no original italiano, Donna Tarantola, citada pela nossa assistente Dra Gótika) ou ainda da Corsara Nera, de Ramba ou do Capuchinho Furado (péssima tradução do original italiano Cappuccetto Rotto). O francês Forest abriu, de facto, um filão que os tarados dos italianos haveriam de explorar como ninguém. E é precisamente esse filão que nos chega logo a partir do 25 de Abril e vem marcar a memória porno-erótica dessa e das gerações seguintes. Há outros filões, claro, como as épicas Ginas e Tânias. O enraizamento epistemológico deste outro género enquadra-se, a meu ver, na imortal cena da Maria, do Marln e da Manteiga em O Último Tango em Paris do respeitável Bertollucci. Mas sobre isso deve falar quem sabe. Tem a palavra o maior catedrático da UT na matéria, assim ele não preguice, Sua Alteza, O Grão…

12/04/07

UT, por Magnífico Reitor

Depois de ouvir a entrevista de ontem à noite do sr. Pinto de Sousa resolvi fundar uma Universidade virtual aqui no blog: a Universidade Tapornumporco, a UT. Bem, eu disse entrevista mas aquilo não foi propriamente uma entrevista porque, simplesmente, não houve entrevistadores mas dois jarrões Ming muito frágeis e aterrorizados com as exclamações indignadas do sr Pinto de Sousa que passou o tempo a clamar «Opóbrio, Calúnia, Insinuação» e etc sempre que uma pergunta foi feita.


Mas voltando à UT. O sr Pinto de Sousa não esclareceu rigorosamente nada acerca das questões que importam. Zero! Mas para certos opinion-makers convenceu porque as suas palavras foram sinceras e o seu olhar foi firme e só faltou dizerem que a cor da gravata não mentia. Entretanto sobre as muitas dúvidas que importava ver esclarecidas de facto e que o Público elencou numa lista de cerca de 20 na edição de terça feira nem um esclarecimento convincente. Zero! Sobre as legítimas dúvidas expressas no blog Do Portugal Profundo, zero!


Mas não interessa. O que importa é que o sr. Pinto de Sousa deu-me uma boa ideia para lançar aqui a UT. Não ensinamos nada a ninguém, mas no fim damos um diploma a dizer «Engenheiro Coiso licenciado pela UT». É mau?As inscrições vão ser abertas e os termos das mesmas são os seguintes:

- Candidaturas em regime especial em Dezembro.Ninguém precisa de começar em Setembro.

- Fazemos cursos à la carte em função da situação de cada um.

- Para ingressar na UT basta a declaração verbal de que possui um bacheralato qualquer. Entrega o certificado das habilitações em Dezembro do próximo ano, um ano depois, não há pressa A nossa UT é particularmente habilitada para quem tiver pressa em apresentar um certificado de habilitações no prazo de um ano. Assim, se você, ainda nem sequer concluiu o bacharelato, não há problema, porque basta dizer-nos que tá feito, entretanto conclui-o e no fim do ano passa por aqui e entrega o certificado. Como entretanto tem a garantia de aqui na UT já passou, no fim do ano, fez bacharelato e licenciatura em 6 meses (de Dezembro a Junho)!

Como o ministro Mariano Gago já veio qualificar o percurso do sr. Pinto de Sousa, em tudo idêntico a este, como «exemplar» e acha que «o nosso povo» deve «regozijar-se» com o percurso académico do seu Querido Líder, não há nada que recear – é entrar rapaziada! Estão abertas as inscrições. E no fim ainda vos convidamos para darem aulas aqui. Não sei é de quê, mas depois logo se vê.

11/04/07

Ingenharias, por senhor Asdrúbal

O actual caso habilitações académicas do senhor ou do senhor engenheiro Pinto de Sousa, actual primeiro ministro da República, suscita-me duas notas, uma relativa á matéria em causa, outra por ela sugerida. Comecemos por esta última:
1- Este caso marca a afirmação da blogosfera como espaço crítico e informativo de referência no espaço público português..
Embora os detractores da blogosfera queiram aproveitar este caso para denegrir as investigações e comentários que se foram publicando sobre o caso do engenheiro, a verdade é que a blogosfera e, em particular, o excelente trabalho do blog http://doportugalprofundo.blogspot.com/, liderou uma investigação que poderá ser uma referência na nossa História da Comunicação recente (e digo «poderá» porque estamos em Portugal. Num país civilizado o primeiro ministro já se tinha demitido, tal a gravidade do seu comportamento e dos factos já apurados). Note-se que só agora a nossa comunicação social de referência pegou neste caso, cavalgando tardiamente - mas antes tarde que nunca - uma onda há muito iniciada na blogosfera. E finalmente são os partidos - ontem Louçã deu o mote e já se aguardam as reacções da restante oposição - a perceberem o alcance do que está em causa neste triste jogo de máscaras.
Terá a blogosfera os seus pecados, certo, como qualquer outro media. Muitos censuram-lhe o anonimato das intervenções mas creio que não é esse o problema. Pelo contrário, o anonimato é até uma das potencialidades interessantes deste meio de comunicação. O que é censurável é sim, sobretudo, o facto de alguns (muitos) se servirem do anonimato para escreverem o que não seriam capazes de dizer se identificados. Neste ponto creio que todo o blogger deveria respeitar um princípio ético mínimo que enuncio assim: não escrever a coberto do anonimato nada que não seja capaz de dizer identificado. Se não sou capaz de insultar o chefe lá do emprego cara a cara, não está certo que o faça a coberto do anonimato neste meio. Se o fizer estou a degradar e não a contribuir para a força e a credibilidade da blogosfera. Numa sociedade em que os partidos se constituiram como forças reaccionárias ligadas frequentemente a interesses corruptos e obscuros, precisamos que meios como a blogosfera se afirmem como credíveis. É aqui e não nas sedes dos partidos que se encontram as novas Àgoras. O caso do ingenheiro prova-o à saciedade.

2 - E como não podia deixar de ser, uma segunda nota, acerca da matéria em si. Um primeiro ministro que exige sacríficios e rigor ao povo português precisa, antes de mais, de ter, ele próprio, uma credibilidade irrepreensível. Não pode, de forma alguma, ter o comportamento dúbio e titubeante do sr. Pinto de Sousa neste caso. Como é que o sr. Pinto de Sousa pode qualificar como vulgar «lapso que não é da sua responsabilidade» o facto de em 1993 se apresentar em documento oficial da Assembleia da República como «Licenciado em Engenharia Civil» e «Engenheiro» quando, pelo que ele próprio agora afirma, só concluiu a tal licenciatura em 1996? Lapso? Que não é da sua responsabilidade? Mas esta gente julga que somos todos lorpas? Como dizem os brasileiros, perante justificações como esta, «Você não se sente um panaca»?

Imagem retirada do http://doportugalprofundo.blogspot.com/

10/04/07

Páscoa: época de paz para com o borrego, por Os Animais São Nossos Amigos e os Amigos Não se Comem

Irmãos porcos, nesta quadra celebratória de ressurreição, atentemos nestas palavras sábias roubadas daqui e repensemos a nossa vida. Nunca é tarde para renascermos e renegarmos o ímpio e cruel caminho da chanfana e da gula. O legume e o cereal são as verdadeiras vias da paz e da harmonia. Atentai pois:

As ovelhas são muito sociáveis, meigas, emocionalmente complexas e bastante inteligentes, tendo personalidades individuais, o que desmente a “mentalidade de rebanho” ou “carneirismo”. Gostam de brincar tal como um cão bebé, abanando a cauda quando lhes fazem festas e dando turras. Têm uma excelente visão, são muito velozes e apreciam bastante brincadeiras com saltos. Tal como os cães, caso sejam habituadas com humanos e forem chamadas pelo nome, é pelo nome que respondem.

Usualmente na época pascal os portugueses consomem borrego (carneiro jovem). Este artigo apresenta algumas razões para preferires uma Páscoa mais pacífica para com este animal.
As ovelhas são muito sociáveis, meigas, emocionalmente complexas e bastante inteligentes, tendo personalidades individuais, o que desmente a “mentalidade de rebanho” ou “carneirismo”.
Gostam de brincar tal como um cão bebé, abanando a cauda quando lhes fazem festas e dando turras. Têm uma excelente visão, são muito velozes e apreciam bastante brincadeiras com saltos. Tal como os cães, caso sejam habituadas com humanos e forem chamadas pelo nome, é pelo nome que respondem.
Especialistas em comportamento e cognição animal descobriram que estes animais conseguem reconhecer outros a partir dos seus perfis, depois de terem aprendido a reconhecer esses mesmos animais olhando-os de frente.
Vários estudos recentes apresentam‑nos as semelhanças entre humanos e ovelhas:
- Keith Kendrick, um professor de Física do Gresham College em Londres, descobriu que as ovelhas conseguem distinguir diferentes expressões nos humanos e que detectam alterações de ansiedade nos rostos de outras ovelhas. Também nesta pesquisa, concluiu que as ovelhas são capazes de se lembrarem de pelo menos 50 rostos de outras mantendo a memória destas durante pelo menos 2 anos.
- O professor John Webster, da Universidade de Bristol, descobriu que, como os humanos, as ovelhas exprimem emoções de forma visível; assim, quando expostos a tensão ou isolamento, estes animais demonstram sinais de depressão similares aos dos humanos, deixando pender a cabeça e não praticando acções positivas.
- Como nós, as ovelhas sentem medo quando são separadas dos seus grupos sociais ou abordadas por estranhos; por isso não é de estranhar que se lhes tenha registado um aumento de 20 batimentos cardíacos por minuto quando não conseguem ver nenhum membro do seu rebanho e de 84 batimentos por minuto quando abordadas por um humano ou cão.
Devemos ainda tomar em consideração que as ovelhas e os cordeiros podem ser transportados por distâncias enormes, o que lhes causa uma grande tensão. Estes animais são habitualmente mortos pendurados pelas pernas traseiras e degolados. Passam por um sofrimento profundamente intenso durante o processo, ainda conscientes ou quando despertam do atordoamento enquanto estão a ser degolados.
Além de serem usados para a alimentação, estes animais são ainda cruelmente explorados pelo seu pêlo e pele, factos que também se devem tomar em consideração quando se compra vestuário.
A partir desta Páscoa, deixa‑te seduzir e seduz os teus familiares e amigos com os requintados paladares da cozinha vegetariana e pensa só no borrego quando puderes fazer algo para lhe melhorares as condições de vida (campanhas, protestos pacíficos, etc.).

09/04/07

06/04/07

Viva Savater!, por Miguel Castro

Por estes dias, em Ferrol, no Noroeste de Espanha, trava-se uma das mais estúpidas polémicas que se podem conceber. O caso é tão estúpido que se contaria em poucas palavras. Porém, e apesar de a idiotice converter em supérfluo o escasso que dela se ocupa, a polémica merece que se gastem bastas palavras pelo que se passa a quase mil quilómetros de distância de Ferrol, em Barcelona, no Nordeste de Espanha. Não que a estupidez ganhe dignidade quando a distância quilométrica atinge a escala do milhar, mas porque, a mil quilómetros de Ferrol, o líder da Esquerda Republicana, o senhor Josep-Lluís Carod-Rovira, vem transformando, há anos, a estupidez em argumento. Eis pois que a anedota se torna perigosa quando a estupidez é levada a sério.
Comecemos pela anedota do Noroeste. Ferrol é o mais importante porto da Armada Espanhola, terra natal do generalíssimo Francisco Franco Bahamonde, bastião da Espanha imperial, símbolo da soberba imperialista e da unicidade falhada, base da frustrada ameaça apontada à Inglaterra. Aí, numa estreitíssima colaboração entre as confrarias civis e os militares, há já muito que se celebram as tradicionais festas da Semana Santa. É costume que os militares participem nos desfiles processionais, transportando os pesados andores. Como em toda a Espanha, as procissões da Semana Santa tornaram-se cartazes de atracção turística. Daí que a Junta da Galiza, concretizando uma estratégia de desenvolvimento que aposta fortemente na actividade turística, apoie estas iniciativas. Ora, os nacionalistas galegos estão zangados com a comissão de festas das confrarias de Ferrol, pois que todos os cartazes promocionais, todos os anúncios, toda a publicidade, todos os folhetos de divulgação estão escritos em castelhano! Os nacionalistas reclamam-se ofendidos e queixam-se. A Junta, por sua vez, lembra que o subsídio que oferece visa a divulgação da identidade galega que tem na língua o seu mais importante elemento e apela a que a divulgação seja feita em galego, deixando a ameaça velada de retirar a subvenção caso o pedido não seja correspondido. O braço-de-ferro arrasta-se há anos sem que ninguém se incomode verdadeiramente. O ano passado, contudo, pelo Natal, a comissão de festas ferrolina enviou ao governo da Junta um postal de boas-festas onde se desejavam os habituais votos da época: zorionak. Zorionak? Sim, Feliz Natal! Em basco! E eis como, por via filológica, a paz natalícia se converte em arma nacionalista. . [ler história aqui]
Passemos agora à estupidez do Nordeste. A mil quilómetros de Ferrol, mais ou menos e em linha recta, em Barcelona, o senhor Rovira, chefe demagogo da ERC independentista, doutor em Filologia Catalã, percebeu, na sua fúria autárcica, que a língua é uma rédea poderosa para guiar no caminho do ódio a estupidez nacionalista, sectária e excludente, tirânica e violenta que Fernando Savater, o corajoso filósofo basco, membro da associação cívica Basta Ya!, há já muito vem denunciando em esclarecidos ensaios jornalísticos e conferências públicas reunidas em Contra as Pátrias, editado no país vizinho em 1984 e em Portugal em 2003.
Rovira causou escândalo, não por acaso, quando, nos inícios de 2004, se soube que mantinha negociações secretas com a ETA. Um pacto de fanáticos que define Rovira e Savater. Este porque denuncia o ódio dos outros, porque insiste em denunciar a barbárie assassina da ETA e é o contraponto ideal para a demagogia criminosa de Rovira. Por esta mesma razão, o comando Donostia da ETA, recentemente desmantelado, tinha como objectivo o assassino de Savater. Mais uma vez a ameaça dignifica Savater ao mesmo tempo que define o terrorismo como a mais vil forma de intervenção que a estupidez humana pode engendrar.
Graças ao extremismo de Rovira, hoje, em Barcelona, um espanhol sente-se estrangeiro. Graças à estupidez de fanáticos como Rovira, o castelhano, uma das mais belas línguas, é língua estrangeira. As crianças catalãs abdicam da língua de Cervantes, universal e literária, para se embecarem na discursividade folclórica e nacionalista do catalão. Trocam o Mundo por um beco, graças à obsessão do fanático Rovira. Trocam a literatura pelo folclore nacionalista, graças ao racista Rovira, o arauto da Catalinidade, o que quer que isso seja.
O que eu desejo, sinceramente e porque a Galiza me apaixona, é que o governo galego resista às pressões dos nacionalistas e não imponha o galego à gente de Ferrol. O que eu desejo é que a comissão de festas de Ferrol abandone a insistência acintosa no monolinguismo castelhano. Que ambos saibam resistir ao fanatismo nacionalista e que imprimam cartazes bilingues e que evitem uma luta estúpida entre o galego e o castelhano, pois que tal duelo só se concebe na mais estúpida das mentes: a dos nacionalistas que fazem da língua e da literatura uma arma de combate.
Em suma: Rosália ou Cervantes? Ambos Ya!

04/04/07

Porque é que os Nazis não gostaram destas fotos? por Thor





August Sander (1876-1964) foi um dos mais interessantes fotógrafos do século XX. A sua obra não é propriamente genial, mas provocou verdadeiras ondas de choque na Alemanha do seu tempo. Em 1910 , Sander iniciou um projecto (O Espelho Da Alemanha e o Rosto dos Tempos) que lhe valeu sarilhos e a posteridade. Nos seus inúmeros retratos de pessoas de todas as camadas sociais e etárias alemãs, Sander procurou obter um retrato mais ou menos exaustivo e objectivo do povo Alemão. Fotografou todos: pugilistas, camponeses, crianças, burocratas, coristas, operários, e sempre com um toque ácido de humor. De facto, é apenas por esse lado irónico que se pressente nos seus retratos, que não alinho em considerá-lo um fotógrafo inteiramente realista. Estas são três das suas fotos, respectivamente, Boxeurs, Young Peasants e Railway Officers.

Mas este projecto, pretensamente realista, de retratar os alemães como são e não como devem ser motivou a ira dos nazis. Nos anos 30, ainda o nazismo era uma criança, Sander já constava da lista negra e muitas das suas fotos e negativos foram destruídos. E já em plena guerra a sua visão sistemática e crua do povo alemão é anatemizada por não se enquadrar nos estereótipos arianos do Nacional Socialismo. Sander é perseguido e, esperto!, a partir daqui dedica-se definitivamente à fotografia de paisagens.

Repito a minha pergunta: porque é que os Nazis não gostaram das fotos de Sander?
Compare-se os modelos de Sander com estes exemplos de arte nazi:www.opfergang.de/ok190.jpg À visão idealizada do povo Ariano, Sander contrapôs a crueza da realidade subtilmente reforçada pelo seu olhar irónico. Ele é o anti-Goebbels, a negação da propaganda do regime. Só podia ter tido sarilhos. Mas ao mesmo tempo, sem o negativo hitleriano que lhe serviu de contraponto, talvez Sander nunca tivesse atingido a imortalidade.

02/04/07

Você Ainda Vai Em Futebois ao Vivo? por Chiça

Este fim de semana assistimos a mais uma brilhante invenção portuguesa. Refiro-me ao que se passou no Benfica-Porto de ontem à noite. O jogo não foi mau, mas o mais relevante passou-se nas bancadas. Começou há uma semana quando uma alimária qualquer resolveu arrumar os hooligans do porto, uns tais de super dragões, no terceiro anel do Estádio da Luz. Não é preciso ser-se especialista de coisa nenhuma para se perceber facilmente que a ideia é peregrina – com aquelas bestas por cima da generalidade dos espectadores, estava-se mesmo a ver que ia haver arremesso de objectos para as bancadas de baixo. É óbvio que houve, é óbvio que houve feridos e vá lá, vá lá, depois do arremesso de 7-sete-7 petardos (como é possível entrar-se num estádio com armas?) e não sei quantas cadeiras, o balanço final até nem foi tão desastroso como podia ter sido.


Vi na TV algumas imagens da confusão e aquilo é de bradar aos céus! Há espectadores a serem retirados de maca desde o início do jogo, há bombeiros em incessantes correrias e há uma imagem incrível de um pai com uma miudinha ao colo a chorar de pânico… Continuo sem perceber como é que uma pessoa normal ainda insiste em ir ver ao vivo jogos de futebol frequentados por hordas de selvagens e, ainda por cima, teima em meter crianças nestes autênticos zoológicos sem jaulas…


Entretanto já começou o ping pong das responsabilidades. A Polícia diz que a decisão original de meter os hooligans no piso superior em vez de no inferior é do Benfica. O Benfica dará esta tarde a sua versão dos factos. Pelo meio a TVI passou imagens gravadas durante a semana de um responsável policial a dizer com um ar muito inteligente e pose de aro dos óculos na boca e tudo, que esta era a melhor forma de arrumar os adeptos perigosos, em cima e não em baixo, para evitar o arremesso de objectos para o terreno de jogo!


No meio disto tudo, os jornais de hoje acham que o mais importante da noite de ontem foi mesmo o jogo e o resultado e branqueiam completamente a selvajaria das bancadas. Caísse um alfinete na tola de um protagonista no relvado e estaríamos perante um escândalo nacional… Ainda pude ver, também em imagens captadas pela TVI, a serenidade da bancada VIP, onde membros do Governo (pareceu-me distinguir o inenarrável António Costa) assistiam imperturbavelmente ao jogo, sem se incomodarem com o que se passava uns metros acima da cabeça dos outros. Enfim!


Eu tenho uma medida de segurança praticamente infalível para evitar que desgraças como a de ontem que podem muito bem, um dia destes, acabar em tragédia, se repitam. É muito simples: nos jogos de alto risco, como Benfica-Porto, Sporting-Benfica e assim não havia bilhetes para adeptos do clube visitante. Cortava-se o mal pela raiz e prontos! À Luz vão os benfiquistas e às Antas os portistas. Como não vivemos num país de gente sã, o corte pela raiz é a única medida que resolve o problema.

01/04/07

O Jorge, por O J

Jorge ia a andar na rua e ficou de repente um livro em branco, vazio de ideias. Levantou-se com muito custo e esboçou um sorriso imbecil, vazio de propósito e vontade. Levou a mão à cabeça e procurou sacudir a terra misturada com sangue que lhe cobria o cabelo de uma pasta nojenta cor de merda hemorroidal. Ainda tentou dizer foda-se mas as palavras tinham-se-lhe varrido do pensamento e constatou que já não sabia dizer foda-se. Olhando para a mão cheia de massa castanha avermelhada, aliás, percebeu que o próprio pensamento se lhe varrera do pensamento. Percebeu então que não percebia coisa alguma. E da boca saiu-lhe um som animal parecido com gaaah. Não se perturbou porque também ficara vazio de estados de espírito. Olhou para o chão e viu os cacos de cerâmica do vaso misturados com terra e restos de flores, crisântemos amarelos, espalhados em volta no passeio. Um líquido quente começava a correr-lhe pela cara abaixo. Olhou em volta e na rua não passava ninguém. Passou o braço pela testa para limpar o sangue que lhe caía para os olhos, pegou na pasta caída que instintivamente presumiu sua e retomou o andamento, desta feita um pouco trôpego. Sem olhar para trás, chegou ao fundo da rua, contornou o passeio para a direita e deu de caras com o mar, para lá da avenida e do longo areal. Como era hora de pouco movimento, não foi atropelado quando atravessou a estrada para chegar à praia. Simplesmente seguiu em frente em passada catatónica. O calor intenso entretanto solidificara a pasta de sangue e terra na cabeça e o líquido deixara de lhe correr pelo corpo abaixo. Desceu as escadas e prosseguiu em frente pela areia branca. Nada lhe ocorria senão a visão do grande e irresistível azul em frente. Caminhava sem como nem porquê, oco. Tropeçou num buraco, caiu desamparado para a frente e levantou-se imperturbável, retomando o caminho. Não parou quando chegou às ondas que rebentavam pequenas e suaves na praia mas quando o oceano lhe chegou aos calcanhares começou a ouvir um violoncelo na cabeça. Uma música celestial preencheu-lhe o vazio interior. Jorge não sabia, continuava a não saber coisa alguma, mas tratava-se de uma suite de Bach interpretada por Pablo Casals. Rasgou de novo os lábios num sorriso estúpido e continuou a andar mar adentro até perder o pé e desaparecer. A água salgada encheu-lhe os pulmões e Jorge morreu. A música não. Bach tocava ainda quando Jorge renasceu, vácuo como antes. Agora estava escuro, um negrume húmido mas confortável. Sem ideias, Jorge foi recrescendo e esperando por algo no breu primordial. Finalmente fez-se luz. Então, Pablo Casals parou de tocar violoncelo. E Jorge sentiu um prazer imenso, um calor de orgasmo eléctrico que lhe percorreu o corpo verde. A cabeça de Jorge era agora um pequeno botão, verde, um cálice com pequenas pétalas amarelas no interior, sem vontade nem propósito. Aos poucos foi medrando. As raízes estenderam-se fortes pela terra no vaso e o caule alongou-se, nutrido pelo sol que durante metade do dia irradiava na varanda do quinto andar onde Jorge ressuscitou flor. O botão enfim abriu e revelou-se em bonitas pétalas amarelas de crisântemo silvestre. Jorge-flor foi feliz naquela varanda até ao dia em que o gato derrubou o vaso, que se veio a rebentar lá em baixo, desabando justamente na cabeça de alguém chamado Horácio. Enquanto Horácio seguiu o seu caminho para o mar, o crisântemo amarelo acabou por ser varrido nessa noite para o contentor do lixo mais próximo. Sem terra nem sol, acabou por morrer no aterro sanitário, esmagado entre detritos. Enquanto murchava e desfalecia, começou a ouvir suites de violoncelos.