31/07/07

As Confissões de Zita

Há casos assim como os de Zita e S. Paulo. São raros, é certo, mas é a raridade que os torna simbólicos. Pelo facto de assumirem uma ruptura radical, uma recusa total do passado, um renegar de uma identidade anterior, implicam um renascimento, a entrada numa nova vida que as personagens assumem plenamente. São fenómenos mais íntimos do que sociais, mais psicológicos do que históricos, mais religiosos do que políticos. São, por isso, indiscutíveis. Não há polémica que se possa alimentar.

Em Portugal, são muitos os casos raros deste género. Não me refiro aos vira-casacas, aos adesivos como eram chamados após a revolução de 1910 os que aderiam ao republicanismo sem que se lhes reconhecesse anteriormente qualquer afinidade ideológica com as ideias triunfantes. Não, esses são hipócritas. Os revolucionários e progressistas, anti-fascistas e anti-salazaristas, anti-colonialistas e os opositores que apareceram aos milhares no dia 26 de Abril de 1974 não contam. Também não contam os do género Freitas do Amaral ou José Miguel Júdice, ambos actualmente à esquerda de Zita, que foram deslizando convenientemente no sentido favorável dos ventos dominantes, sempre coincidindo a progressão ideológica com o benefício pessoal. Não, esses também não contam. O Veiga Simão, que esteve no mesmo Conselho de Ministros que o Alberto Martins, não conta.

Este texto não trata dos casos tipo Júdice, mas dos casos tipo Zita. Zita publicou recentemente as suas memórias que intitulou, quase como agostiniana confissão, «Foi Assim». Não é uma história de vingança, não é um ajuste de contas à Carolina Salgado, é antes a história de uma conversão, como Agostinho ou como Francisco de Assis, ou como muitos outros exemplos que se poderiam dar, de Constantino a Bob Dylan. Como todos estes casos citados, Zita não evoluiu ideologicamente, Zita viu a Luz. À conversão de Zita, como em todas as outras, não faltam os elementos clássicos: a doença, a reflexão, o apelo místico e a experiência da morte próxima, a viagem, o abandono e o isolamento, o sentir da injustiça, o chamamento interior, a experiência da clandestinidade, a vingança, a coragem, o sofrimento, a redescoberta do amor, a maternidade, enfim, todos os condimentos indispensáveis a uma história de conversão e renascimento. Zita coloca em epígrafe uma frase do Evangelho de S. João: «A verdade vos fará livres». É pois sob o signo da verdade e da confissão que Zita escreve as suas memórias que, neste sentido, têm necessariamente que ser públicas.

Neste tipo de casos, o mais fantástico que conheço, e em alguns aspectos semelhante ao de Zita, é o de Manuel Ribeiro. O trabalhador ferroviário Manuel Ribeiro foi um dos mais importantes activistas sindicais da 1ª República. Entusiasta da revolução bolchevique, foi, em 1921, um dos fundadores do Partido Comunista Português e defensor da via revolucionária para a conquista do poder. Agitador, panfletário radical e jornalista, converteu-se ao catolicismo, tornando-se um importante ideólogo e intelectual de referência do movimento católico em Portugal, renegando ao seu passado comunista.

A afinidade entre catolicismo e comunismo não é tão surpreendente quanto possa parecer à primeira vista. Basta lembrar, apenas a título de exemplo, como Cunhal, nos finais da década de 40, fazia um apelo veemente à unidade com os católicos, num texto recentemente publicado pelas Edições Avante, intitulado «Católicos Unamo-nos», o secretário-geral defendia ser muito mais o que une católicos e comunistas do que aquilo que os separa. Por outro lado, Lino de Carvalho, militante e deputado comunista, num ensaio também recente sobre a reforma agrária, cita textos de João Paulo II e da Arquidiocese de Évora para justificar as posições do Partido acerca da política da reforma agrária. A importância do catolicismo no movimento operário é ainda hoje detectável na história e nos quadros da CGTP-Intersindical.

É claro que tudo isto é treta. Basta conhecer a história do movimento comunista internacional para perceber como isto é meramente táctico. Uma vez chegados ao poder, essa propagandeada concertação com o movimento católico seria renegada e iniciar-se-iam os tempos de perseguição e semi-clandestinidade para a Igreja Católica ou para qualquer outra Igreja. Lembre-se o caso, que por si basta, da Igreja Ortodoxa na União Soviética. A doutrina marxista-leninista e a história da Revolução Bolchevique são elucidativas e só se engana quem se deixa enganar, apesar dos pontos de contacto evidentíssimos entre as duas doutrinas.

Pela minha parte, sempre fui um anticomunista primário. Aquilo nunca me enganou. Tinha amigos militantes, que ouviam o folclore da Ucrânia e da Bulgária. Eu sempre preferi os Doors e os Rolling Stones. Eles liam o Maximo Gorki, eu preferia o Arquipélago de Gulag, eles veneravam Lenine e eu falava-lhes de Sakharov. Bem me enfiaram injecções de Soeiro Pereira Gomes na adolescência, mas não resultou. Aquilo é uma merdunça. Eles tinham uma reverência profunda pelo Camarada Cunhal, eu preferia Sá Carneiro, com os seus defeitos humanos, temperamental, com convicções profundas, discurso arrebatado, amante de mulheres bonitas, da boa mesa e de uma boa polémica. Como Soares, diga-se. A superioridade moral do camarada Cunhal nunca me enganou, pois eu sempre soube que esse puritanismo revolucionário explicava a perseguição aos homossexuais. Eu sempre soube, e não era nenhum segredo, que houve militantes comunistas que foram expulsos e humilhados em função das suas opções íntimas e da sua vivência sexual. Eu nunca acreditei naqueles que regressavam da RDA, como alguns familiares meus, a relatarem maravilhas daquele paraíso socialista. Eu nunca acreditei naquela propaganda barata. As nadadoras da RDA eram horripilantes, o Eric Honnecker e as suas vitórias por 99,8% dos votos nunca me enganaram. Sempre fui um anticomunista primário e, por isso e ao contrário de Zita, posso afirmar: a mim nunca me enganaram!

No entanto, declaro solenemente o seguinte: tenho um profundo respeito pelos comunistas. Admiro os militantes comunistas que, antes do 25 de Abril, lutaram contra o regime salazarista. Se não fossem os comunistas, ainda hoje a múmia do Salazar estava sentada em S. Bento com um país quase inteiro a venerá-lo. Freitas e Júdice nunca seriam socialistas. Poucos mais para além dos comunistas se opuseram eficazmente ao regime. Eles foram as principais vítimas da repressão salazarista. Por outro lado, e em face da realidade social vivida em vastas regiões do país, ser comunista era uma questão de dignidade. Todos nós conhecemos histórias do que se passava no Alentejo nesses tempos. E isso não foi propaganda. Manuel da Fonseca não é uma merdunça. É um grande escritor.

Além do mais, ser comunista requeria coragem. Por isso é que, nesses tempos, Freitas e Júdice não eram sequer socialistas. É dessa coragem que Zita Seabra nos dá conta. Esse é um dos pontos de interesse do seu livro. A história de uma adolescente da alta burguesia que adere ao Partido e vive uma clandestinidade perigosa e é uma história de idealismo e coragem. Zita foi corajosa. Ninguém pode apagar esse facto. Neste particular, e como documento histórico, as memórias de Zita Seabra podem ser comparadas com as de Maria Filomena Mónica, curiosamente publicadas pela mesma editora e que é dirigida por Zita. Mónica era uma menina bem, casada com um Pinto Coelho, com conhecimentos na sociedade lisboeta, não renunciou a nada, viveu de cunhas e favores, foi bolseira da Gulbenkian, andava de Porsche nas vésperas da revolução, beneficiou de cunhas dos amigos, tinha amigos com diminutivos como Micuxa e apelidos Galvão Teles, fez carreira cómoda e confortável. Maria Filomena Mónica confessa que, no Verão de 1974, a sua preocupação era a redacção da sua tese, tendo obtido o estatuto de bolseira e sendo dispensada da docência! Nesses tempos, confessa, apesar da agitação que se vivia, a senhora estava preocupada com a sua tese! Não lhe retiro nenhum valor intelectual e académico, tem trabalhos que muito aprecio, mas há uma verdade iniludível que me escuso de anunciar porque assoma refulgentíssima quando se lêem os dois livros. Basta lê-los e contrastá-los. Este é um dos pontos interessantíssimos das memórias de Zita. Zita abandonou os estudos e passou à clandestinidade, não andou pelo campus de Oxford, não recorreu a cunhas nem a compadrios, entrou na clandestinidade, abdicando dos confortos da vida burguesa e dos benefícios de um futuro burguês, largando mesmo as lições de ballet. Zita não é Mónica. Não digo que seja melhor nem pior, não aceito sequer que haja qualquer superioridade moral, noto é um contraste, noto um comprometimento não assumido por parte da elite burguesa com o antigo regime marcelista e isso ajuda a explicar o prolongar agónico do regime. Por outras palavras, a ascensão burguesa verificada a partir da década de 60, consentida pelos fantásticos níveis de crescimento económico, não era de molde a atrair este nível social para as dinâmicas de mudança. Tanto mais quanto o inconveniente se evitava com a cunha (como a guerra ou a prisão do filho na crise académica), o privilégio se adquiria com a cunha (como a bolsa, a viagem aos estrangeiro, o emprego num ministério) e tudo o mais vinha com o optimismo dos sixties e com os ritmos de crescimento.

Zita estava na clandestinidade porque Zita acreditou na quimera comunista. Zita acreditou na miragem soviética e na promessa do homem novo. Não há nenhum mérito nisto. Pelo contrário, o único mérito é reconhecer, hoje, o quanto estava iludida.

O livro de Zita Seabra não me interessa como base de discussão, não há nada ali para discutir pois que é intimista e ela é a primeira a reconhecer todos os erros que se lhe possam apontar. O livro causou pouca polémica aliás, se exceptuarmos uma reacção tímida e em aspecto secundário de Miguel Portas, que saíu em defesa de Ramos de Almeida sem provar a sua razão e impelido apenas por razões de amizade pessoal. António Hespanha respondeu também a Zita a propósito da questão do serviço cívico. Foi contraditado categoricamente e o assunto morreu. Alguns comunistas ortodoxos criticaram porque tinham que criticar e olham para Zita como Pinto da Costa olha para Carolina: com ódio. Outros olham para Zita como Leonor Pinhão olha para Carolina: com interesse manipulador. Claro que todos estão errados porque Zita é uma convertida.

Nem tão pouco o livro me interessa como documento histórico, não há nada ali que já não se soubesse por outras vias muito mais documentadas. Como produto literário, o livro também não tem qualquer interesse. Zita não escreve mal nem bem. O livro é uma confissão pública, o testemunho de um arrependido. Este é o seu interesse. Seria o único interesse, não pequeno, não fossem outros motivos que, estranhamente, ninguém realça. O que Zita revela é escandaloso e, em qualquer país civilizado, faria cair uma catedral. Mas em Portugal não. Em Portugal os «Contos Proibidos» de Rui Mateus, em que a escandalaria de Macau e do financiamento do Partido Socialista foi exposta com detalhes mórbidos e documentados, não serviram para beliscar Sua Excelência Republicana Laica e Socialista.

O que conta então Zita? Nenhuma novidade, mas vale a pena relembrar:

- Óscar Lopes, apesar do seu enorme mérito, era um vendido à propaganda comunista. Em 1975, veio da União Soviética numa viagem paga pelo partido a cantar as maravilhas do socialismo. Como é que é possível? Lopes é apenas um exemplo da atitude dos intelectuais comunistas que achavam que a malta cá no rectângulo saia da ditadura salazarenta para se ir enfiar numa comunista? Somos burros, mas não tanto.

- Cunhal era impiedoso para com os seus rivais e servia-se de todos os processos, inclusivé a calúnia, os ataques de carácter, a denúncia, a humilhação pública, para afastar os seus oponentes, como fez com Júlio Fogaça. Era um homem frio, calculista que utilizava a sedução como instrumento de domínio. Sacrificava tudo às suas convicções, não admitia réplica nem discussão. Não se entende o mito construído em seu redor, tanto mais quanto era um fantoche manipulado por Suslov a partir de Moscovo. Sacrificou o interesse nacional à política soviética. Tal como o PCP era financiado por Moscovo, apesar de todos os desmentidos.

- A estratégia do PCP foi sempre uma: não se olha a meios para atingir os fins pretendidos. O PCP advogava o uso da violência e da luta armada. Não há limites à Revolução. O PCP não tinha pudor em relativizar os valores fundamentais. Em relação à pena de morte, por exemplo, Cunhal defendia que eram contra a pena capital em Portugal, mas, caso subissem ao poder, a aplicação do castigo seria admissível para punir os inimigos da revolução.

- O centralismo democrático praticado no PCP é uma farsa que só visa um objectivo: aniquilar o pensamento próprio e impor uma disciplina férrea. Era preciso «aprender a dissolver o nosso eu no colectivo». O Partido tinha uma rede de controleiros que vigiava toda a vida dos militantes. E não foi só uma necessidade de segurança ditada pelos condicionalismos da clandestinidade. Não, já depois da revolução de Abril, em Liberdade, o partido examinava e aprovava as companhias dos militantes. O marido de Zita foi submetido a um exame dos controleiros.

- O PCP apaga a memória dos dissidentes, não admite divergências. Só heróis e proscritos. Há dúvidas sobre quem matou o militante Manuel Domingos, os que largavam o partido eram ostracizados, vítimas de boatos infames e acusados dos crimes mais vis, como o roubo, a delacção, a perversão sexual. Eram acusados até de terem uma origem de classe burguesa!

- O PCP era um partido machista que discriminava as mulheres, apesar do discurso em contrário e de alguns exemplos avulsos que, aliás, o regime salazarista também podia ostentar.

- O PCP tomou conta dos arquivos da PIDE logo a seguir à revolução e usou as informações da polícia política para servir a sua estratégia partidária.

- O MDP era manipulado pelo PCP, tal como posteriormente essa fantochada do Partido dos Verdes. Foi Zita que, a mando de Cunhal, inventou este partido, escolheu os dirigentes, tratou do programa e colaborava na redacção das propostas parlamentares, coisa que partilhava com José Magalhães e achava divertida. Um autêntico partido fantoche, coisa comum, segundo confessa Zita, no movimento comunista.

- O PCP serviu-se do filho do Costa Gomes, que atraiu, recrutou e manipulou, para influenciar o pai. Vale tudo! Fizeram o mesmo com a filha de Vasco Gonçalves e a sobrinha de Melo Antunes!

- O PCP tinha um plano para controlar as universidades, incluindo a utilização de meios violentos que previam a militarização da UEC. Nas universidades os saneamentos selvagens foram manipulados pelo PCP e os exames banidos, porque considerados «avaliação burguesa».

- O PCP tinha aliás um plano de infiltração do aparelho de Estado, que passava pela colocação de juízes nos tribunais! Suponho que ainda por aí andem juízes desses! Zita lembra aliás que, em 1983, quando ela é cabeça de lista por Aveiro, Vital Moreira é nomeado para o Tribunal Constitucional!

- Durante essas eleições, Zita convidou «jornalistas» amigos para cobrirem a campanha. Entre eles, Fernanda Mestrinho de quem diz ter feito um excelente trabalho. Saramago foi um pau mandado pelo PCP para controlar o DN.

- O PCP fez tudo para evitar as eleições democráticas. Mas tudo mesmo. Cunhal chegou a defender a possibilidade de uma farsa eleitoral: que o voto de um operário contasse 3 vezes, como na Rússia! O PCP esteve por trás do cerco ao parlamento. Os deputados comunistas eram fornecidos de frango assado enquanto os outros passaram fome. No Comité Central, quando Octávio Pato relatou a situação, fartaram-se de rir! Apesar de perder as eleições, o PCP delineou uma estratégia para redigir uma constituição que contrariasse nos bastidores a vontade popular. Ilustres constitucionalistas se prestaram a tão vil tarefa!

- Durante o processo das nacionalizações, o PCP prendeu indiscriminadamente empresários, acusando-os de conspiração, sem acusação formal, com mandatos em branco, sem direito a defesa. Tudo justificado com esta frase: «Se não tinham conspirado, paciência, tivessem-no feito». Ou então: «se não eram conspiradores, poderiam vir a sê-lo, cientificamente, a qualquer momento.» Prenderam gente com mandato em branco e por engano, só porque tinham o mesmo apelido ou eram familiares do visado! Cunhal comandou toda esta farsa indigna!

- O PCP tinha uma escola secreta para formar agitadores, numa quinta do Lumiar, que servissem os seus planos. O partido adquiriu aliás vasto património imobiliário servindo-se da posição de vantagem que adquiriu por via de comandar um processo revolucionário selvagem e indigno. O PCP, além do mais, enriqueceu com toda esta miséria!

- As injúrias difamatórias lançadas a Sá Carneiro acerca de um célebre empréstimo por ele contraído resultaram de uma estratégia delineada pela célula comunista do banco, depois de devassado o segredo bancário sob a aprovação do PCP, isto é, do Cunhal!

- Agostinho Neto era um tirano presunçoso, alcoólico e totalmente manipulado por Moscovo.

- O julgamento e expulsão de Zita Seabra do PCP foi uma vergonha inaceitável num país democrático.

Novidades? Não há.

29/07/07

O Valor da Prata da Casa, por Medalhinha.


A Galinha da Vizinha é Sempre Melhor do Que a Minha… É este o lema dos parvalhões que se passeiam por S. Bento.

Opá!! Isto salta à vista… Pó Sócrates, a galinha da economia alemã é sempre melhor que a nossa, mas já lhe disseram que a galinheira deles é um bocado maior?? A galinha da Lei espanhola do Aborto é sempre melhor que o nosso crime contra a vida intra-uterina, mas já lhe disseram que os médicos portugueses não querem fazer abortos?? A galinha dos subsídios ao nascimento em França é sempre melhor do que a dos nossos abonozinhos de família, mas já lhe disseram que ele potenciou a Lei do Aborto?? Qual é a lógica?!!!! Podíamos estar aqui até amanhã, mas não é desta galinha que quero falar.

Estava a ver os meus e-mails…
Quem só vê a caixa de correio electrónico quando chega a casa, depois do jantar… ou não trabalha pó Estado, ou tem um emprego foleiro, com um patrão forreta e não tem net no trabalho.
É o meu caso…
É por isso que ando à procura de emprego. As minhas condições são: - net à borla; telemóvel pré-pago; automóvel da empresa e pouco trabalho, ah!! ou então, Funcionária Pública. Sei que não é fácil encontrar o “meu emprego perfeito”, por isso é que ainda estou à procura, mas porra, tenho uma licenciatura pré-Bolonha, numa universidade, supostamente estatal, daquelas que as propinas são trimestrais, onde os professores escrevem livros e chumbam alunos “porque sim”… Acho que até sei umas coisitas, e neste negócio com o Estado, até ficámos todos a ganhar, ele ficou mais rico e eu fiquei menos burra (bom!!, os meus pais ficaram mais pobres, mas isso não interessa nada…).

Mesmo assim, tenho um certo orgulho no canudo (e a minha mãe também!!), afinal entrei na UC – melhor universidade do país, no melhor curso do país (pelo menos publicaram um estudo disso na revista VISÃO!!!). Ora, se o meu conhecimento brotou de um sistema educacional estatal, alegadamente patrocinado pelo erário público, e socialmente entendido como melhor do que o sistema universitário privado, terá necessariamente que ser entendido pelo seu Patrono – o Estado – como o melhor sistema de educação superior.

Não podemos compreender que o Estado não entenda as suas Instituições de Formação Superior – Universidades Públicas – como as melhores do país, e não saiba que delas possam sair os melhores quadros técnicos superiores. Natural seria que o próprio Estado recorresse à contratação de alguns desses jovens licenciados (como eu, claro!!!), porque… a prata da casa é sempre uma escolha segura.

Mas ia eu a contar que, como ando à procura do “meu emprego perfeito”, recebo e-mails
com anúncios, e seguramente que um deles me encheu o coração de sentimentos contraditórios: comecei por sentir alegria (por finalmente encontrar algo interessante), mas à medida que ia lendo, fui tomada por náuseas e vómitos e, por fim, um profundo desgosto…
Aqui têm o anúncio….

Técnicos Superiores Consultores Juristas

Organização Estatal encontra-se a seleccionar 7 Técnicos Superiores Consultores Juristas para o seu quadro.

Compete aos Técnicos Superiores Consultores Juristas:
- Realiza estudos e outros trabalhos de natureza jurídica, conducentes à definição e concretização das políticas da organização;
- Elabora pareceres e informações sobre a interpretação e aplicação da legislação, bem como normas e regulamentos internos;
- Recolhe, trata e difunde legislação, jurisprudência, doutrina e outra informação necessária ao serviço em que está integrado;
- Pode ser incumbido de coordenar e superintender na actividade de outros profissionais e, bem assim, de acompanhar processos judiciais.

Local de trabalho:
- Lisboa 4 vagas
- Coimbra 1 vaga
- Porto 2 vagas

Requisitos:
-Licenciatura em Direito e Pós Graduação em Estudos Europeus ou Pós Graduação em Direito do trabalho, ou Mestrado em Direito do Trabalho.

Formalização de candidaturas:

Deverão ser enviados os seguintes documentos (em pdf ou outro formato) para o email, recrutamentogeral.gov@gmail.com;

-Comprovativo de habilitações de Direito;

-Comprovativo de Pós Graduação;
-C.V. detalhado.

Importante: No texto da mensagem referir de forma explícita qual a Universidade pela qual se licenciou, e respectiva formação complementar. Dar-se-á preferência a antigos alunos da UCP.

O que é que sentiram????????????????????????????? É não, é??? Náuseas e vómitos…Pois, foi como eu. Então um gajo anda a pagar ao Estado, montes de anos, por um canudo, enganadinho, porque lhe dizem que o ensino superior público é o melhor, mas depois, quando chega a altura de procurar emprego, descobre que o Estado afinal prefere contratar as prestações de pessoal formado no ensino superior corporativo!! Não que eu tenha algo contra a Universidade Católica Portuguesa.
É uma vergonha!

Pergunta: Onde é que está o Princípio da Igualdade (artigo 13º da Constituição da República Portuguesa)? Resposta: Que se foda!!!

Os quadros técnicos superiores que são formados pelas instituições do Estado não servem a este Governo, o que é natural porque nas universidades estatais não se é engenheiro por “dá cá aquela palha!”.
A galinha da vizinha é sempre melhor do que a minha…

28/07/07

Piratear para quê?

O Couraçado Potemkin, de Eisenstein, o épico da cinematografia soviética, um dos mais importantes clássicos da história do cinema, à venda na Worten por 2,99 €!

27/07/07

O Caminho de Viseu

Foi recentemente republicado, em Março deste ano, um ensaio do historiador, já falecido, Armando de Almeida Fernandes, intitulado Viseu, Agosto de 1109, Nasce D. Afonso Henriques. A tese do autor depreende-se do título e foi pela primeira vez publicada em 1993. Porém, pouca aceitação terá tido, posto que sete anos depois, Diogo Freitas do Amaral publicava a sua biografia do rei Afonso Henriques e, embora apresentando a proposta, não a dava ainda como válida e indiscutível, antes a apresentando como uma entre outras: «Se as dúvidas e opiniões são muitas a respeito da data do nascimento de D. Afonso Henriques, maiores são ainda as incertezas e divergências quanto ao local do nascimento: segundo a tradição foi Guimarães; mas vários estudiosos contestam-na, defendendo antes que foi Coimbra, ou Viseu, ou Astorga.»


Ora, este enunciado de Freitas do Amaral é inadmissível porque só prova que não leu, ou não entendeu, a argumentação de Almeida Fernandes. A tê-lo feito, não poderia equiparar a tese sólida e devidamente fundamentada expendida por este historiador a uma delirante hipótese vimarenense, exclusivamente apoiada na tradição e nas falsificações da historiografia alcobacense seiscentista, ou a uma gratuita sugestão de Torquato Soares, seguida depois por Hermano Saraiva, que, no citado Dicionário de História de Portugal referido por Freitas do Amaral não diz mais do que isto: «D. Afonso nasceu provavelmente na Alcáçova de Coimbra». Um provavelmente e uma tradição não chegam para ombrear com uma investigação histórica.


É portanto inadmissível que Freitas do Amaral, um vimarenense de nascimento, despreze as conclusões de Almeida Fernandes, denegrindo a seriedade da proposta pela desconsideração sobranceira dos argumentos pró-viseenses, pondo-os ao mesmo nível de duas pretensões regionalistas e infundadas, uma invocando somente a tradição patrioteira caldeada com pretensões bairristas – a hipótese vimarenense – e outra fruto de uma hipótese erudita, também ela com laivos provincianos e sem qualquer base lógica ou documental – a conimbricense.


Foi preciso aguardar pela palavra de um historiador sério, José Mattoso, que, no ano passado, publicou uma biografia de Afonso Henriques, referindo a dado passo: « A demonstração feita por Almeida Fernandes alcança verosimilhança suficiente para se admitir como possível, ou mesmo a mais provável. É, de facto, admissível, com base nos documentos por ele invocados, que D. Afonso Henriques tivesse nascido em Viseu por meados do mês de Agosto de 1109.»


Na verdade, lendo a obra de Almeida Fernandes, a conclusão não pode ser outra: no estado actual do conhecimento, com base em dedução lógica e em face do suporte documental disponível, devidamente submetido à crítica, D. Afonso Henriques nasceu em Viseu. A análise de todos os dados disponíveis condiz com esta hipótese e nenhum facto a contradiz, o que conduz, suplementarmente, à corroboração indirecta da tese.


Almeida Fernandes defende, com uma argumentação factual, documentada e lógica, que D. Teresa, à data da morte de seu pai, Afonso VI, não assistiu às exéquias fúnebres por se encontrar em Viseu que preferiu, por razões várias, à moçarábica Coimbra para sede do seu paço. Sendo ela, no contexto da acesa disputa do trono deixado vago por seu pai, a principal interessada em estar presente em Toledo para assim melhor reivindicar os seus direitos e pretensões, a ausência só poderia ser determinada por razões imperativas. O esposo, Henrique, esteve também ausente da cerimónia fúnebre, tendo-se deslocado a Sintra, à frente de uma expedição militar com o intuito de punir uma sublevação da população muçulmana. No regresso, assiste em Coimbra a uma importantíssima cerimónia de doação do mosteiro do Lorvão à Sé. Sua esposa está ausente, mas envia uma deputação de vassalos viseenses à cerimónia, importantíssima sublinhe-se, que seria depois repetida em Viseu. Acresce ainda que, pouco depois, aquando da concessão de foral a Mangualde, mais uma vez D. Teresa esteve ausente, tal como D. Henrique, fazendo representar-se por Egas Moniz já indigitado aio da criança cujo nascimento se aguardava. Todas estas ausências e constrangimentos só podem ser justificados «pelo seu estado fisiológico». D. Afonso Henriques nasceu pois em Viseu.


A tese aqui resumidamente exposta tem base sólida e não é facilmente contestável, tanto mais quanto a seriedade do autor é imbeliscável, tendo usado de todas as cautelas indispensáveis à recusa da tese vimarenense, posto que o estudo foi resultado de uma encomenda realizada por uma agremiação de Guimarães, a «Unidade Vimarenense», em 1990. A encomenda era a resposta do orgulho bairrista à reactualização da tese de Torquato Soares pelo popular José Hermano Saraiva, que atribuía a Coimbra a dignidade de ter sido a pátria de Afonso Henriques, sem outro argumento que não fosse a credibilização do provavelmente já citado. Supõe-se o desagrado que Almeida Fernandes causou ao encomendante ao não ratificar as suas pretensões antes propondo a hipótese beirã, o que só abona a favor da tese, pois que assim se prova não ter sido condicionada pelo ensejo de colher qualquer retribuição. Deste modo se explicará ainda a pouca propaganda dada à conclusão de Almeida Fernandes, bem como a obstinada insistência de Freitas do Amaral.


O livro de Almeida Fernandes, depois da publicidade dada pelo estudo de Mattoso, conheceu nova edição, promovida pela Fundação Mariana Seixas e agora legitimada pelos pareceres de professores da Universidade Nova de Lisboa e da Faculdade de Letras de Coimbra que contribuiram para a edição crítica do texto, bem como prefaciaram o estudo. O mais curioso, contudo, e o que me interessa sobremaneira, é o apoio prestado à edição, lançamento e divulgação da obra, pela Câmara Municipal de Viseu, sendo que o seu presidente, Fernando Ruas, assina um curioso preâmbulo.


Aí, o presidente da edilidade rejeita quaisquer «polémicas bairristas» e tal é a única afirmação relevante do simpático e protocolar intróito. É que a rejeição da polémica supõe uma satisfação bairrista, o que é compreensível, tanto mais que sabemos o ambiente em que se desenvolveu todo este processo. Arrogarem-se como conterrâneos do Fundador era afinal o que desejavam os sócios da colectividade Unidade Vimarenense - Associação para o Desenvolvimento de Guimarães - ao encomendaram o estudo. A designação da confraria revela uma intenção simbólica que subjaz à iniciativa, isto é, promover a imagem do herói fundador ao estatuto totémico de elemento agregador de uma identidade que reivindica protagonismo, reclamando através da exibição de um laço inextricável entre o herói primordial e a terra local, uma dignidade estatutária e não circunstancial que força ao reconhecimento de uma centralidade.


Num contexto pós-moderno esta discussão ganha contornos novos, no sentido em que o nível nacional já não é reconhecido como enquadramento identitário exculsivo, sobrelevando agora outros níveis, seja à escala supranacional em que se discute a urgência de uma identidade europeia, seja à escala local e regional, para além de muitos outros enquadramentos étnicos, linguísticos, religiosos e culturais. Lembremos, a este propósito e apenas a título ilustrativo, as discussões acerca da Constituição europeia e a tentativa de definição preambular da identidade basilar da Europa, ou ainda as polémicas acerca da regionalização. Neste último aspecto, está na mente de todos que o assunto mais discutido aquando do referendo de 1998, particularmente no que à região beirã respeita, foi o conflito de centralidade entre Coimbra, Viseu e Aveiro.


Portanto, as palavras preambulares de Fernando Ruas, presidente da Câmara Municipal de Viseu, na reedição do texto de Almeida Fernandes, devem ser entendidas neste contexto, pois que as conclusões divulgadas historiograficamente reforçam uma capitalidade das terras viseenses, não apenas simbólica, que é incompatível, na estratégia definida pelos próprios autarcas, com a subordinação administrativa, ou de qualquer outra ordem, ao centro conimbricense.


Assim, a história é convocada, ou melhor, usada, em função destas pretensões. Tal facto é outra evidência pós-moderna. Lembremos como, no livro, Guimarães é referida, muita acertadamente diga-se, como um «burgo prestigiosamente municipalizado – um centro tipicamente popular (…), o menos favorável possível a residências nobres na época.» Ao passo que a capitalidade viseense é recuperada pela evocação da memória anterior ao advento da nacionalidade: «Das duas vezes que neste Noroeste hispânico, galaico, se constituiu um reino até aos limites arábicos, Viseu ficou como sua capital, ou residência do soberano. Assim foi com o infante Ordonho Adefonses (depois elevado ao trono leonªes, Ordonho II) após 910, e com o infante Ramiro Ordonhes, seu filho (o futuro Ramiro II de Leão).»


Ou seja, e para concluir, Viseu, no limite arábico do Sul, isto é, no caminho futurante da nacionalidade, tinha o que faltava a Guimarães: capitalidade prospectiva. Agora, no limiar do século XXI, a estratégia viseense, servida pelo desejo inconfesso dos seus autarcas, passa pela reconstrução da memória local para que Viseu recupere a centralidade de outrora. Tal é o único facto relevante de uma discussão que de outro modo seria estéril, o qual é o de saber em que terra Afonso, filho de Teresa e Henrique, viu pela primeira vez a luz. Ora, isto está muito para além da resposta acertadamente dada por Almeida Fernandes.

24/07/07

ESCÂNDALO!

É preciso dizer de forma veemente: a actual ministra da educação não tem qualidades de nenhuma espécie para desempenhar o alto cargo que ocupa. A sua insensibilidade, arrogância e incompetência são chocantes e inadmissíveis. Não se entende como é professora universitária. A senhora não demonstra, nos seus actos políticos e nas suas decisões, qualidades que se exigem a um professor. Não tem pensamento estratégico, não tem inteligência nem sabedoria que oriente as suas acções, não tem cultura democrática, não tem capacidade de liderança, não se sabe aconselhar junto de gente qualidade, não tem vergonha.

A política da senhora professora Maria de Lurdes Rodrigues é desumana e incompetente. Lembro, a prová-lo, que a senhora professora afirmou em tempos que um acórdão proferido por um tribunal açoriano não é válido em Portugal! Esta inanidade foi vendida como gaffe. Não é, é ignorância, da mais profunda, e falta de cultura cívica. É de uma gravidade que, por si, justificaria um despedimento sumário. Mas as trapalhadas e atropelamentos à lei e à Constituição não se ficaram por aqui: o caso dos exames de Química, os disparates e hesitações quanto ao lugar da disciplina de Língua Portuguesa no ensino secundário, o TLEBS, a desqualificação da Filosofia e a promoção da Educação Física, os erros sucessivos e sistemáticos nas provas de exame, as ilegalidades das aulas de substituição e as mentiras proferidas quanto à assiduidade dos professores, as listas de grevistas, os processos disciplinares abertos pelos serviços que tutela directamente e arquivados por pressão da opinião pública etc.
Outros casos há que alcançam os píncaros do ridículo, como aquele em Santa Maria da Feira, durante um corta-mato escolar, em Março deste ano, em que a senhora se pôs a vaiar as crianças que a apupavam!
São muitos as situações entre o inadmissível e o caricato. Recentemente, porém, os órgãos de comunicação social deram conta de inúmeros casos em que a desumanidade e crueldade dos serviços ministeriais excedem os limites do imaginável: professores cancerosos, em estado terminal, são obrigados pelas juntas médicas a trabalhar nas escolas, num atentado à sua dignidade pessoal, sem nenhum proveito para a comunidade e para o país, sem nenhuma vantagem para os alunos e para as escolas, sem nenhum objectivo que não seja a humilhação dos professores que se submetem a junta médica e vêem indeferidos os seus pedidos de passagem à reforma antecipada. São muitos os casos, sucessivos e recentes, demasiado recentes e demasiadamente sucessivos, para que se possar justificar a hediondez da recusa como sendo pontual. Não, a sucessão e o número de casos mostram que as decisões de mandar trabalhar professores cancerosos, expô-los à morte na sala de aula, sem voz e sem forças, resulta de uma orientação emanada dos órgãos ministeriais e não de decisões avulsas. Os ministérios encaram os professores como gente trapaceira, indigna, repelente e sem direito a qualquer consideração. Tratam-nos mal, desprezam-nos, porque não lhes reconhecem estatuto profissional ou consideração social. A prová-lo estão as atitudes sistemáticas de desconsideração promovidas pelos membros das juntas médicas. É inadmissível o modo como se dirigem aos doentes que se submetem ao exame médico. É de uma cobardia inominável, o abuso e o desrespeito que patenteiam para com gente enfraquecida pela doença e aterrorizada pelo espectro da morte precoce que se apresenta ali em busca de um acto de sensatez e humanidade que lhes é recusada. E seguem impantes sem que haja alguém que lhes mova um processo disciplinar. Foi assim com Maria Manuela Jácome, 54 anos de idade, professora do ensino secundário detacada na universidade do Algarve, cancerosa em estado avançado que viu negada a passagem à aposentação. Foi assim com Manuela Estanqueiro, 63 anos de idade e 30 de serviço de docente que morreu de leucemia depois de ver negado o pedido de reforma. Foi assim com Artur Silva, professor de Filosofia em Braga, com 60 anos, obrigado a dar aulas apesar de estar silenciado irremediavelmente por um cancro na traqueia!

Ontem, soube-se que durante uma sessão de propaganda do plano tecnológico nacional, estiveram presentes umas crianças, recrutadas através de um casting, recebendo 30 euros cada uma para fazerem figura presente e baterem palmas ao sr. primeiro-ministro e à senhora ministra da educação. Propaganda da mais reles que se segue a desumanidade da mais hedionda e que nem ao sr. Almirante Américo Tomás lembraria.
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22/07/07

Piratear para quê?


Clash on Broadway: mais de 60 temas numa box com triplo CD, um livro incluído e excelentes fotos. À venda na FNAC por 9,95 €!

21/07/07

Outra vez as caricaturas

Em 1992, o cartoonista António publicou no jornal expresso uma caricatura do Papa João Paulo II com um preservativo no nariz. O caso causou polémica e as opiniões dividiram-se. Uns defendiam a liberdade de expressão como direito fundamental, outros antepunham-lhe o respeito devido ao Papa e ao que significa para os milhões de católicos. Eu achei que, embora a caricatura de António ocultasse uma intenção indeclarada para além da crítica à posição do Vaticano sobre o uso do preservativo, o direito à liberdade de expressão sobrepõe-se e que o caricaturista tem o direito de veicular as suas opiniões, explícitas ou indeclaradas, omissas ou subliminares, tanto faz. A haver prejuízo do visado, persiste o recurso aos tribunais, pois que a lei protege tanto a liberdade de expressão quanto o bom nome. Os ofendidos devem recorrer aos tribunais em vez de alardearem o discurso justiceiro, normalmente por mãos próprias e modos violentos.

Em Fevereiro de 2006, um jornal nacionalista dinamarquês de extrema-direita publicou umas caricaturas xenófobas e preconceituosas de Maomé. A polémica incendiou a diplomacia internacional e azedou as relações com o mundo árabe. Houve, então, uma defesa unânime da liberdade de expressão como um valor fundamental do Ocidente. Eu achei as caricaturas lamentáveis e criticáveis, mas não censuráveis, no sentido em que se possa advogar a sua proibição. Mais uma vez, achei que por detrás da crítica estava algo de dissimulado, que era um sentimento preconceituoso do nacionalismo xenófobo relativamente às minorias. No entanto, e mais uma vez, compete aos tribunais agir em caso de ofensa e não às turbas ululantes nem aos demagogos justiceiros, o que só contribui para a vitimização do radicalismo xenófobo.

Agora foi em Espanha, na Catalunha, em Barcelona. Uma revista satírica, El Jueves, foi retirada das bancas por ordem expressa do juiz da Audiencia Nacional, a suprema autoridade judicial do país vizinho, porque na capa colocava uma caricatura com o príncipe das Astúrias em doggy style, com D. Letizia. Pretendia a publicação criticar as medidas do governo de Zapatero de promoção da natalidade através da atribuição de um subsídio de 2500 € por nascimento. Também aqui acho que a verdadeira mensagem está implícita e se deve relacionar com o republicanismo secessionista e radical da Catalunha que, pela ridicularização da família real, símbolo máximo da unidade espanhola, busca dissimuladamente um objectivo que vai muito para além do explicitado. Acho a caricatura de mau gosto. Não lhe acho graça absolutamente nenhuma, acho-a criticável. Mas, mais uma vez, não a acho censurável. Cabe recurso aos tribunais. Ao suspender a publicação, ao ordenar a sua retirada dos pontos de venda e ao encerrar o sítio na internet da revista, a Audiencia Nacional de Espanha está a fazer o jogo dos radicais. Por outro lado está a impor o respeitinho devido aos grandes de Espanha como valor que se sobrepõe ao da Liberdade, além do que não entende que na sociedade contemporânea, não se pode mandar encerrar e retirar uma revista. Isso era no tempo do senhor intendente Pina Manique que proibia a entrada no reino das gazetas vindas de França que propalavam ideais subversivos. Agora há a internet.

Por fim, cabe ainda perguntar se a Audiencia Nacional proibiria o que proibiu acaso o ofendido fosse o Papa, como no caso de António em 1992, ou o Profeta como no caso da Dinamarca? É que, quer em 92, quer em 2006, de Espanha ouviram-se palavras de solidariedade para com os caricaturistas e não consta que os desenhos fossem lá interditos. Haverá, no reino vizinho, dignidades incriticáveis que estão acima do Papa e do Profeta?

19/07/07

O Homem Que Tinha Peçonha Aos Livros, por Mad Doctor

O escritor americano Ray Bradbury foi o autor Farenheit 451 uma utopia negativa, situada algures no futuro, que dificilmente poderíamos imaginar. Nessa sociedade os livros foram declarados malditos e a leitura liminarmente proibida. Os bombeiros tinham como função principal queimar os livros sobreviventes.Todo aquele que fosse apanhado pela polícia cultural com um livro tinha o cárcere e a reeducação como certas. François Trufaut haveria de fazer a versão cinematográfica com o filme homónimo em 1966.


Eu pensava que personagens como as do livro de Bradbury, indivíduos que odeiam os livros ao ponto de os queimarem, só existissem nos filmes. Mas infelizmente soube de um indivíduo que tem peçonha aos livros. Segundo o próprio, a coisa é assim como que uma doença, uma alergia ou um surto viral que pode ter mais ou menos intensidade consoante a qualidade do livro.


O homem que tem peçonha aos livros contou-me a sua história em primeira mão: parece que há livros que o irritam. Livros que o põem nervoso. Que o tiram do sério. Há mesmo livros que só lhe dão vontade de rasgá-los, destruí-los, bater-lhes. E um dia destes, aconteceu mesmo.


Tinham-lhe emprestado um livro irritante, uma coisa descomunal com não sei quantas páginas ininteligiveis. Não percebeu nada do que lia. Zero! Tentou sair da primeira página mas ficou na mesma. Insistiu. Já ia no quinto dia de tentativas. Chegou à quadragésima terceira página e continuava a ver tudo turvo. Não conseguia ligar os acontecimentos, não fixava as personagens, não percebia muitas palavras…. Deu consigo com os primeiros sintomas de angústia existencial. Não era que o livro dissesse alguma coisa que o chocasse: o que o chocava era, precisamente, que não o percebia. Estava a ir-se abaixo co cabrão do livro mais o filho da puta do escritor que o escrevera.


E foi então que sentiu uma tontura e uma irritação explodiu dentro dele. Agarrou no livro, levantou-se do sofá e disse à mulher que «já voltava». Abriu a porta da rua, meteu-se no elevador e desceu no rés do chão. Dirigiu-se, passada larga e furiosa, ao primeiro contentor de lixo que apanhou, e zás, atirou para lá o livro com toda a gana! Suspirou de alívio, voltou para casa, abriu o frigorífico donde tirou uma Super Bock geladinha, e espojou-se no sofá. Daí a pouco começava novela que não tem a puta da mania de chamar burros à gente. Mas comem, os cabrões do livros, mais os escritores, filhos da puta do carago ca mania que são espertos. Ai comem…O próximo lança-lhe o fogo que o lixa, devíamos viver numa sociedade que proibisse a merda dos livros…

17/07/07

Mãezinha, não me mates que sou tua filha, por Jim Tónico

Era uma vez um país fadista pequenino nhec-nhec chamado Portugal que vivia formoso e posto em sossego e sonhava com milagres das rosas. Subitamente (tcharân!!!), por causa do petróleo, o país foi invadido pelos bárbaros do ocidente oriundos de um país enoooooooorme chamado América. Na América viviam as hordas da tribo dos Cámones, guerreiros terríveis e impiedosos, que espalhavam o terror onde passavam, na sua fúria expansionista e ânsia de poder e petróleo. As gentes do resto do mundo não podiam sossegar nas suas pacíficas e harmoniosas vidinhas (óóóóóh...), constantemente sobressaltadas pela ameaça sempre pendente dos famintos Cámones, então liderados pelo impiedoso Grande Chefe Bush Em Pé. Foi então que, qual praga bíblica de gafanhotos, os Cámones ocuparam Portugal com os seus cavalos de ferro, as suas metralhadoras, os seus pastores evangélicos e os seus mísseis, não deixando pedra sobre pedra (“O horror! O horror!”). Depois de violados todos os homens com menos de quarenta anos e todas as ovelhas sem distinção de idade, foi toda a gente fuzilada num pavilhão gimnodesportivo. Feito isto, que demorou três dias, duas noites e seis horas, os Cámones encheram o desafortunado país com torres metálicas que chuparam o petróleo todo. Quando o petróleo acabou, os Cámones desmontaram as tendas e foram-se embora.

O Fim

Só a fingir... a brincar! ... porque as dores só nos custam, quando o corpo é o nosso..., por Jumpseat

Ao fazerem as escavações em Alcochete, para a construção do novo aeroporto, é descoberta, no grande deserto da margem sul do Tejo, uma enorme reserva de petróleo.

Na eminência de Portugal, se poder tornar numa das maiores potências exportadoras de petróleo, George W. Bush, incorporando o grande e verdadeiro espirito de Liberdade, demonstra preocupação com a violação de certos direitos “deste país pequeno, pobre, mas com direito à sua liberdade de expressão!!”

Aproveitando a onda de Sócrates e a sua “democracia sim, mas não tanto...”, em três dias, os EUA invadem Portugal e depõe o governo.
A Comissão Europeia diz: (à semelhança do que se passa em Darfur) “calma, talvez a situação não seja tão alarmante como se pensa... por vezes os jornalista têm a tendência a dramatizar”.

Associados a Espanha, (a quem nunca passou a vontade de cá se pôr outra vez), os Estados Unidos passam a governar através de Zapatero.

Pessoas da capital são forçadas a abandonar as casas, os empregos, as famílias, somente com o que têm no corpo (à semelhança do que se passou em Kabul).
Os que resistem e ficam, passarão dias de provação e dor.

Para as grandes Universidades do país, Coimbra, Braga, Porto, Faro e Lisboa, são mandadas as tropas especiais de, “nuestro ermanos”, (as mesmas usadas no combate aos Bascos e postas à paisana nas Universidades daquele província), na tentativa de calar aqueles que se organizam e resistem.

À semelhança do que se passou há poucos anos, nas ilhas Diego Garcia, os Estados Unidos acham que os Açores e a Madeira, são excelentes spots para a colocação de bases militares.
Começa então a despopularização, das insulares Portuguesas, e TODAS as pessoas que ali viviam, desde sempre, são enviadas para as ilhas Desertas, ao largo da Madeira, destinadas à fome, miséria e pobreza.
E tal como no discurso americano aquando dos habitantes das Chagos: “ São só ilhas. Nós precisamos daquelas bases, e estas pessoas estão habituadas a ilhas, por isso fomos cuidadosos e os mandamos para ilhas também.”, Bush, justificando assim, a despopularização e o envio de habitantes para as Desertas.

Por todo o Portugal, começam a surgir focos de revolta, e alguns fogem para as montanhas, onde ficam sitiados meses (à semelhança de Timor, com a Indonesia.)
Fugir, parece impossível, pois Espanha ladeia todas as fronteiras, e para a fuga resta apenas o Oceano, sem meios, provisões ou horizontes.

A Comissão Europeia, pensa em entrevir, mas Inglaterra desmistifica e desdramatiza: “Calma... no fundo, Portugal só vai melhorar e descobrimos que afinal, lá existem armas de destruição massiva!”

Os gangs de miudos de etnias várias, juntam-se à grande revolta que se sente por todo o país, formando pequenos grupos (à semelhança da Palestina) armados... e dizimados pelas tropas – (os famosos danos colaterais...).

É então que começa a ser aplicada a Lei Australiana, da Stolen Generation.
Pelas casas adentro, onde a angústia é vivida, abate-se agora a negritude do medo.
Militares armados, retiram das famílias as suas crias. Milhares de crianças e jovens são raptadas dos lares portugueses, e colocadas em Espanha, em Instituições Governamentais, “para permitir a Desportugalização, de modo a que elas possam já pensar como em Espanha... Aprenderão a língua deste novo país que estamos a criar, serão adoptadas por famílias de bem, e tornar-se- ão em homens livres!!” ... e muitos (à semelhança do que se passou na Austrália), serão brutalmente abusados, pelos trabalhadores dessas mesmas instituições...
Os que tentam resistir a esta medida, vêm, impotentes, as suas mulheres serem violadas vezes sem conta, torturadas e por vezes mortas às mãos dos militares que trazem a democracia este país.

Aqueles, que se reúnem em Tertúlias de Resistência (tipo o Porco) vêm-se perseguidos, torturados e alguns extraditados para a grande prisão que foi agora construída nas Berlengas, outros, apenas desaparecem (como no Chile ou Nicarágua).

De França, (à semelhança do que se passa no Iraque), parte a Legião Francesa, em auxilio dos Americanos. Pois os portugueses são rijos, e não se vergam.
Sorrateiramente, o Leão Francês, envia também (à semelhança dos enviados para o Iraque) os seus melhores torturadores, capazes das maiores atrocidades, outrora, experimentadas e feitas no Magreb.

Os corpos vão-se amontoando nos estádios de futebol e queimados em pira. Os campos, outrora de trigo alentejano, são agora cobertos de refugiados... pragas, doenças, excrementos, velhos, feridos...

Mãe Rússia, com grande comunidade de imigrantes cá, entrevem, em auxilio das terras lusas. Mas os EUA explicam “que dá para todos”, e logo Putin, manda aviões buscar os Russos que cá andam, e os Portuguese que se fodam (que na maior parte dos conflitos, é o que acontece!)

(À semelhança do caso dos árabes) Os milhares de portugueses espalhados pelo mundo fora, começam a sentir o poder do racismo, e em todos os canais se fala de como Portugal mal tratava os seus habitantes, como era hediondo o que lá se passava, e como os grandes libertadores americanos nos vieram salvar.
Portugal passa a sinónimo de terrorista e daqui a dois dias, até se descobre que Bin Laden tinha uma casa de férias na Quinta do Lago.

Em França e Alemanha, a comunidade portuguesa começa a ser alvo de xenofobia e violência. As lojas de portugueses pilhadas, os filhos brutalmente espancados e as raparigas vedadas de andar na rua.
No Luxemburgo, ninguém dá mais emprego aos portugueses, e só lhes resta a miséria.

Pela Europa fora, Portugal “afinal merece o que se está lá a passar” e a Comissão Europeia começa a concordar, que “se calhar passavam-se lá coisas que nós desconhecíamos!! Ainda bem que existem os Americanos!”

Escritores, pintores, poetas, dramaturgos e escultores lusos exilados, escrevem sobre a beleza do nosso país, pintam a revolta, falam da angústia que se vive, mas sempre com o coiro salvaguardado!
Politicos portugueses exilados levantam a voz, e a estes, juntam-se os pseudo-intelectualóides de esquerda, a quem tudo serve, desde que seja contra a América.
Organizam-se cordões de solidariedade, acenda de velas, manifestações pela paz e mais uma vez, acaba tudo à porrada.

(À semelhança do que aconteceu aos pais de um amigo meu, Checo, aquando a Primavera de Praga) Um casal de Portugueses que passava férias fora, assiste à invasão pela televisão, e não pode voltar ao seu país.
Tão cedo, não saberá como estão os seus filhos adolescentes, os seus pais doentes, ou os seus amigos de serão.
Com a roupa de férias no corpo, pede asilo politico a um país nórdico. E sem saber a língua, ou os costumes, viverá ali... até um dia que possa voltar para casa...

(à semelhança de Sarajevo) Nos campos onde se passeavam os cães, nos jardins onde os putos brincavam, nos quintais onde a avó planta a salsa, são colocadas minas terrestres que ali ficarão a oferecer a morte. (e à semelhança do Vietname) na água das grandes cidades, é colocado arsénico.

Angola (grande exportador de armas) continua a mandar mercadoria para os Portugueses, mas a população já não aguenta... morre... definha... sem ninguém que a acuda...
O contencioso de militares português, é nada, face à águia americana e à ermana españa.

Direitos humanos são violados todos os dias.. os monumentos de outras histórias, são agora escombros... nos rios bóiam cadáveres... nos campos, o fogo.

Dois anos passam, de terror, sofrimento, medo, angústia... e é a inércia daqueles que podiam fazer alguma coisa, que fica amarga nas bocas dos que sofrem...

E um dia:
Epá... afinal, aquilo não era bem petróleo!
Se calhar exagerámos naquilo das armas massivas.... e o povo português não é mau. Sócrates (já enforcado) é que era.
Ó España, se calhar é melhor a gente se ir embora, e no fundo vocês tiveram sempre mais interesse nisso do que nós. Nós sempre quisemos foi a liberdade dos Portugueses!

*
Até pode dar vontade de rir...

A mesma vontade de rir, que daria a um Afegão, a um Iraquiano ou a um Vietnamita se tivesse mostrado isto, antes de o seu país ter sido dizimado...
A mesma vontade de rir, que lhe daria, imaginar que uma estória ridícula assim, pudesse acontecer num sítio do mundo... quanto mais no seu país.

Vontade de rir que dá, antes da vontade de chorar, quando se olha para uma terra desmembrada, com as mãos cheia de vítimas, de sofrimento, de vazio por muitos e muitos mais anos...
Terra, onde os que ficaram vivos, a única coisa que procuram entre os escombros, é o rosto familiar de alguém que tenham conhecido numa outra vida.
Naquela... antes da guerra...

13/07/07

A Mais Cruel De Todas As Guerras, por Jumpseat

Era 1980. E era a guerra civil moçambicana pós-descolonização.

Obrigado pelo regime, meu pai combatera na Guerra Colonial, na Guiné. Para um pacifista, anarquista, ecologista, lírico, sonhador... isso, tinha sido o principio da morte.

Lá ao fundo, na cozinha:

 Estás doido?! Temos dois filhos!! E tu queres ir para um país em guerra??
 Reconstruir um país em guerra. Reconstruir! É o minimo a fazer por quem guerra não tinha, e nós levámo-la.
 ... tem calma... sei o que sofres na guerra da tua memória... Mas temos dois filhos, amor! Dois filhos!! Uma de cinco e outro com três!!
 Eles adaptam-se... as crianças são mais fortes que nós.

E fomos.

 Papá, porque levamos tudo embora?
 Porque vamos para outro país, filha. Vamos ajudar meninas como tu, a terem água para beber, água para tomar banho, para fazer uma comida boa.
 Sim, papá.
E porque dizes que é um bocadinho perigoso?
 ... Óh, filha... como hei-de dizer... É mais ou menos assim: nesse país as pessoas estão zangadas umas com as outras. Nós não temos culpa, mas temos de ter cuidado.
 É isso que se chama guerra, papá?
 .... (o silêncio)
um abraço.


Era Janeiro e o calor afogava qualquer lembrança de um Portugal deixado há horas.
Ao fundo um aceno, e mais perto uns olhos, um sorriso, um corpo pouco mais alto que o meu... pouco mais escuro que o meu.
 Olá! Sou Moisés!
 Olá...

Meu pai cumprimentava gente que nos esperava, minha mãe tentava acalmar o choro do mano pequenino.
Eu, conhecia o mais eterno de todos os amigos.

 Pronto, já está tudo arranjado – dizia o papá – está tudo pronto para irmos. Podemos ir de estrada. A esta hora ainda é seguro.
Sorriu para mim e disse – Já tens um amigo, filhota?

 Sou Moisés. Vivo perto lá da tua casa.

Jámi, um Núbio alto, de longas tranças e voz rouca, afagou-lhe o rosto e disse – é meu filho... Deus trouxe-o para o meu caminho. A mãe foi desonrada durante a guerra... da vergonha, sobrou a dor de não o matar. Deixou-o à porta da Mesquita...Agora é meu filho.



Era 1997. E era a guerra civil da Jugoslávia.

 Não, Dra. Lamento, mas não foi aceite em Teerão – dizia a Secretária, verdadeiramente triste.
 Deixe... já esperava... compreendo e aceito – resignadamente, já sabendo que Teerão aceitaria mais rapidamente um homem, mais valia saber, para onde seria o meu próximo projecto. - Para onde então, Isabel?
 ... o director diz que precisa de alguém com os seus conhecimentos, aqui. Na Europa... - dizia com alguma cautela e olhos em baixo.
 Na Europa? Como?! Se eu sou de Estudos Asiáticos!?! - estava perplexa! Passara uma vida a estudar a Ásia e Médio Oriente! Não fazia sentido ficar na Europa!
 A Dra. desculpe... mas vai para a Roménia. É um projecto curto... são só dois anos...

E fui.

Era Março e a brisa morna que se sentia em Bucareste adivinhava uma Primavera papoila.
Ao fundo um aceno, mais perto um sorriso, um abraço, um corpo do tamanho do meu, uns olhos ainda mais claros.

 Olá! Sou Margita! - num inglês doloroso
 Olá...

De Bucareste a Botosani, são cerca de 5 horas de comboio.

Na Roménia, fala-se Romeno ou Russo.
Na minha boca, nenhuma das duas.

Margita tenta falar... eu tento entender. Temos 5 horas, um caderno, uma caneta e uma plateia de carruagem para essa tarefa .

Vamos trabalhar juntas num projecto que uma Organização tem, para o ensino de uma segunda língua (inglês) aos órfãos da guerra da Jugoslávia. Para quem sabe, um dia, eles possam ser adoptados por casais da Europa Ocidental.. dos EUA... ou da Austrália...

Botosani é maravilhosa!
Pequena, colorida, campos largos.
O Orfanato fica a 5 Kilometros da vila. Tem cerca de 100 crianças, quase todas oriundas da Jugoslávia.

 Olá, sou a Coordenadora do Projecto. Muito prazer! - digo olhando para a directora, que olha ávida para a tradutora.
 Olá! - Traduz a pequena russa que também fala inglês – Eu sou Valentina. “Mãe” destes pequenos amores perdidos.
 Porque perdidos!? - aquilo de choque, fazia-me um bocadinho de confusão. Não é propriamente a maneira ideal de falar de órfãos.

Ela olhou em redor, procurando apoio dos olhos das outras tantas presentes... e ganhou coragem:

 A Dra. não sabe?! Estes, são meninos filhos da guerra... meninos feitos do ódio...
 Desculpe... eu não estou mesmo a entender... - e não estava, de verdade...

À medida que Valentina limpava a lágrima teimosa, a pequena russa levava-me para o outro canto da sala:
 Estas crianças são filhas de violações de mulheres durante a guerra. Mulheres Muçulmanas. Por isso é que você cá está. Porque sabe dessas coisas...


Era 2001. E era a guerra Civil dentro de mim.

 Tu não podes estar bem... - dizia uma mãe perdida nos sonhos que sonhou para uma filha. Eu.
 Vou mesmo para os aviões, mamã... estou farta destes projectos estéreis, cansada da guerra... Vou viajar, conhecer a Terra...

E fui.

Era Dezembro, e a grande América lambia ainda as suas feridas de desonra... de tragédia.

 Olhe, você vai fazer os voos da Argélia. Sabe que com isto do onze de Setembro, eles não podem voar para a Europa. Nós podemos, e isto é um negócio como outro qualquer! Como você fala árabe, fica lá a fazer base. - Dizia o Comandante Director das Operações de voo.
 Sim, Comandante. Claro! - Eu. Entusiasmada!
 São dois meses... Temos de trazer os franceses que lá andam, para passar o Natal e depois leva-los de volta. Esses arrogantes... - esta última, já entre dentes.

Estava frio e o aeroporto de Argel não se assemelha a nada já visto. Soube bem o lenço que levava a cobrir a cabeça.
Ao longe, um aceno, mais perto, um cheiro, uma vénia, um “salam...”. Um corpo muito maior que o meu, um rosto mais velho... uns olhos doridos, uma cor diferente na pele.

 A'Salam waleikum... (que a paz esteja contigo)
 Waleikun 'Salam... (que ela te acompanhe também)

Num inglês magrebino, indica que é o meu transfer para o hotel. Vai levar-me ao sítio que será a minha casa nos próximos dois meses... Será o meu companheiro, meu segurança, meu amigo...

A estranheza do Inglês:
 Hassan, porque falas em Inglês e não em Francês?
 Porque sou berbere. Falo árabe e berbere. Quando não... falo a língua Universal: Inglês. - e num árabe cerrado, baixinho... odioso – Franceses... esses filhos da puta!
 Concordo contigo... - num árabe impecável – também não gosto deles!
 Olha-me no retrovisor... espantado, mas permitindo à desconfiança que se sobreponha – Falas árabe?
 Sim! – eu toda contente
 Grande merda... se pensas que vale alguma coisa – desafiando
 Vale o que vale. Vale que te entendo e podemos falar na língua sagrada. - a língua do profeta sossega-o... faz-me pertença de algo tão maravilhoso como o Magreb.
 És mulher, falas árabe, tens chador... família imigrada?
 Não! - sorriso – Portuguesa de gema! Mãe de Coimbra, pai de Alfama. Zonas de Portugal... E tu? Muito claro para Argelino e muito escuro para Tunisino? Marrocos?
 Eu...? Órfão da raiva. Filho da lei francesa.


Para quem não sabe, em 1942, França, emitiu um comunicado acerca da sua colónia mais problemática: Argélia.
Aos seus militares dizia-se “podem violar as mulheres, desde que sejam discretos...”
Hassan, é um filho dessa lei...

Milhares de crianças nascem dessa “lei” todos os dias pelo mundo fora... à semelhança do “veneno laranja”, ninguém procura, ninguém se rala, ninguém quer saber... não se fala... não se ouve falar...
Seja o que for, é lá, onde a guerra se deu – não aqui debaixo dos nossos olhos...

No inicio do século XXI, havia 5 mais vezes conflitos, do que há cem anos atrás. Conflitos mais brutais, mais bárbaros, mais violentos... odiosos... destrutivos...

Hoje lembrei-me disto... destas crianças geradas no ódio, que um dia se hão-de tornar adultos no deserto da angústia.
Esta; é a mais cruel de todas as guerras – a que continua depois da paz chegar.

11/07/07

Triste e Perigoso, por Cão

Antes do senhor José Sócrates, Portugal era apenas triste. Agora, é triste e perigoso.

Por via das dúvidas, peço aos leitores d’O Eco que vão à página virtual ler o que lá está escrito. Leiam, peço-vos. Pensar e divulgar, depois, é com cada um. Estou a fazer a minha parte.

Desconheço (mas desconfio que não) se algum português foi já posto em tribunal por ter chamado “engenheiro” a José Sócrates. Não sei. Nem quero saber. O que quero, é que o País em que nasci seja tão triste quanto lhe der na corneta, mas perigoso não. Que o fado é uma coisa e o fardo é outra.

É preciso desligar de vez em quando a televisão. Nem é preciso abrir um livro. Basta abrir a janela. E a porta. E sair à rua. E dizer assim: ó meu senhor (engenheiro ou não), olhe que os tiques de mandador são bons para o vira, mas para a vida não.

Por anacronismo, o partido que está no poder chama-se a si mesmo socialista. Há quem lhe chame um figo. Há quem lhe chame um assobio. Coisa que eu não lhe chamo, ai isso não, ai isso nunca, é pai.

A liberdade não começa no coração nem acaba na boca. Começa na cabeça, onde, siamesas, residem a memória e a perspectiva. Não me parece que estes senhores (engenheiros-nunca, engenheiros-talvez, engenheiros-pois-pois ou senhores engenheiros) apreciem muito a liberdade. Veja-se o ataque ao Estatuto do Jornalista. Veja-se o preço do pão. Veja-se a corridinha infalível que as televisões assalariadas nunca deixam de repetir: o senhor Sócrates em visita de Estado com um delta de suor na camisolinha suadeira. Veja-se os atropelamentos mortais ao bom-senso por parte dos ministros fidelíssimos do senhor Sócrates. Veja-se a nomeação deste. Veja-se a demissão daquele.

Dou por mim sentindo uma coisa que nunca pensei possível: saudades de Santana Lopes, senhor que, não sendo engenheiro, me divertiu sempre. E não era assim tão perigoso.

09/07/07

Democracia q.b. por Loucura Controlada

No passado dia 4-7-2007, a Secretária de Estado Adjunto e da Saúde, Cármen Cunha Pignatelli, resumiu, de forma lapidar, o espantoso e moderníssimo conceito de democracia do PS-Pinto de Sousa que governa este tolerante e amorfo país. Disse a senhora, cito, com a devida vénia:

"Há pessoas que têm opinião diferente da minha e, felizmente, vivemos em democracia e num país onde cada um pode dizer o que quer... Nos locais apropriados, nos locais apropriados - não tenhamos vergonha de dizer isto. Eu sou secretária de Estado Adjunta e da Saúde e não posso estar aqui a dizer mal do Governo. Aqui! Mas se estiver em minha casa - garanto que não acontece... - se estiver na minha casa, na casa... nas nossas casas, na esquina do café e com os nossos amigos podemos dizer aquilo que queremos."


Não tenhamos vergonha de o dizer: democracia sim, mas q.b., só em privado ou em surdina, à esquina do Café mais próximo…Perante isto, só gostava de saber onde param agora todos aqueles pêesses tão orgulhosos dos seus valores de Esquerda. Sempre pensei que existia um PS genuinamente cioso dos valores da Esquerda, do Humanismo e da Liberdade (as maiúsculas eram deles). Mas afinal parece que a liberdade de expressão só é válida nalgumas partes do território nacional, mais concretamente, nas nossas casas e nas esquinas dos Cafés (nas esquinas, atenção, não é para se porem a criticar o governo no interior dos próprios).


Deve ser por isso que essa gente faz agora o silêncio mais indigno de que há memória no «Portugal de Abril». Devem criticar o Governo, como toda a gente, claro, mas é só nas esquinas dos Cafés ou dentro das suas próprias casas. É assim uma espécie de pudor democrático, como se nos dissessem que as partes pudibundas podem-se mostrar… Podem… Mas só dentro de casa… Quando muito, nas esquinas dos Cafés…


Mas se o ps histórico decidiu amochar e até mesmo ser conivente com esta despudorada lavagem ideológica, felizmente há quem não se cale. Não no ps claro, o partido que inventou o celebérrimo «direito à indignação» quando convinha... Mas fora do partido há pelo menos sinais, pequenos, é certo, mas ainda assim, animadores: no Espectáculo das Maravilhas, vaia monumental ao pinto de sousa no Estádio da Luz. Como é óbvio a televisão oficial do ps não deu por nada, mas eu vi na Sic. Pode ser que o povo tapado que o elegeu comece a abrir a pestana.


No dia seguinte, para não correr riscos o corajoso pinto de sousa (um rapaz que está sempre a dizer que não tem medo, como se ele é que fosse um súbdito sujeito ao despotismo do poder, como se ele é que tivesse que recear algo mais que simples vaias e apupos) inaugurou uma ponte mais os seus indefectíveis de gravata preta e fato cinzento (as novas cores do ps - ex rosa). Só depois houve uma segunda festa, esta sim, aberta ao povo. Felizmente o povão não é burro. Ouvi alguns rurais na Sic a dizerem o que sentiram(enquanto a rtp – ps mostrava sua excelência a vociferar que não tinha medo, benza-o Deus): «Ele (o pinto de sousa) não se mistura com a escumalha que somos nós». Pois não. Mas é por medo, não é por mais nenhuma outra razão.


Não tenhamos vergonha (nem medo) de o dizer: este é, sem dúvida, o pior governo de Portugal do pós 25 de Abril. Ao pé destes gajos até o camarada Vasco era um intelectual. Agora mudem o nome do blog para Café da Esquina…

Grandes Vilões - Final, por Mangas


A Nata

John Doe, “O Mensageiro”, de Seven – 7 Pecados Mortais, (David Fincher, 1995). “Todos os dias nós vemos pecados mortais em cada esquina de rua, em cada casa, e toleramos que isso aconteça. Toleramos porque é comum, é trivial. Toleramos de manhã, à tarde e à noite. Bem, não mais! Estou a estabelecer um exemplo. E o que eu fiz será questionado, estudado e seguido… para sempre. “

Pouco seria o mais que se dissesse da excelência alcançados por David Fincher com Seven. Absolutamente brilhante em todos os aspectos primordiais – argumento, cinematografia, interpretação, efeitos visuais. É um filme inovador, moderno, clássico, negro e revolucionário. E por aqui nos ficamos. Sobre John Doe teríamos de ler página por página e descodificar desenho por desenho cada um dos seus 2000 blocos de apontamentos - talvez, então, ficássemos com uma ideia aproximada de quem ele é, da sua personalidade, do que o fez correr e chegar onde chegou. Sim, porque a obsessão religiosa e o Paraíso Perdido são curtos para fazer compreender a matança glorificada e culminada com a queda sacrificial. John Doe é um murro no estômago do espectador. A Ira que se abate sob as nossas cabeças em golpe de machado. O pecado é um pretexto de redenção e a insanidade não explica tudo: John Doe é a terrível probabilidade do mundo lá fora.

Hannibal Lecter, “O Incompreendido”, aka “O Canibal”. “Pensa para ti mesmo que cada dia é o teu último e a hora que não aguardas com ansiedade, chegará como uma surpresa. Quanto a mim, quando quiserem uma boa gargalhada, encontrar-me-ão em boa condição, gordo e macio, um verdadeiro suíno da vara de Epicuro.” - Horácio, citado por Hannibal Lecter, in O Dragão Vermelho, (Brett Ratner, 2002)

A catalogação de Hannibal à categoria de monstro é abusiva, simplista, redutora e reflexo de uma classificação completamente desorientada e estereotipada. Thomas Harris não teve culpa que o seu personagem tivesse sido mal interpretado e restou-lhe invocar o papel de advogado de defesa do Canibal conferindo-lhe um passado que, por si só, estabelece as causas e desenvolve as razões que explicam o Dr. Lecter, e até onde é possível explicar a natureza do seu desvio comportamental. Em "A Origem do Mal", o jovem Hannibal não é mais do que um anjo vingador que, um após outro, cozinha os nazis que lhe comeram a pequena irmã na sopa; nada mais confortável e beatificante para o leitor - para ele foi apenas o começo, porque lhe tomou o gosto! E daí? O rim salteado com molhos de trufas de um crápula castigado não perde sabor ao lado de um rim salteado com molho de trufas de uma vitela charolesa. Quem lidar bem com isto, perderá, por legitimidade, o direito posterior à condenação. A Larousse Gastronomique na qual se inspira Hannibal para efeitos culinários confere-lhe o elán estético de um connoisseur, a demanda em busca do Graal pelo excelso apuramento de hors d`oeuvres, amuse-bouches e outras excelências de paladares e sensações para eleitos. A matéria-prima que usou, essa, aliviou a humanidade de males menores e encolheu o espaço de manobra à mediocridade circundante. Que não haja equívocos: o Dr. Hannibal Lecter nunca os despachou sem critério. De uma forma ou de outra, todas as suas vítimas pisaram o risco, ameaçaram o seu território ou violaram os seus dogmas. Desde o balofo e incompetente flautista da Royal Baltimore Philarmónica que desafinou o intermezzo de uma peça clássica, (levante-se o primeiro que achar tamanha contrariedade fruto de tão grande abandalhamento ser de esquecimento ou perdão!), passando pelo Inspector Pazzi perseguido pelos interesses mesquinhos da ganância e do lucro fácil casado com uma bella italiana que tinha metade da sua idade e o dobro do tesão, ou pelo execrável Director de Prisão em busca da fama e parangonas, até ao milionário pedófilo e violador da irmã, Mason Verger – a este matou-o a duplicar: primeiro “lançou-o” aos cães e anos mais tarde, aos porcos esfomeados. A Barney, o enfermeiro, sempre retribuiu a gentileza de trato e explicou-lhe que só comia os insolentes; com Clarice estabeleceu um quid pro quo de jogos mentais e encantamento – achava-a charmosa e sincera. Este psiquiatra forense, descendente por parte do pai do Conde e Senhor da Guerra "Hannibal the Grim" e por parte da mãe da nobre casa dos Visconti Hannibal, é um homem requintado de gosto e avaliação sensorial, é conhecedor e amante das artes, dotado de um intelecto prodigioso. É também uma gourmier de eleição e capaz do mais nobre gesto de altruísmo quando opta por amputar um punho de forma a poupar o de Clarice. Condene-o quem for capaz, eu absolvo-o. Por todas as razões e mais uma: só muitos anos depois é que ficou a saber que também comeu da tal sopa.

Michael Corleone, “ O Príncipe Negro”, de The Godfather Trilogy, (Francis F. Coppola, 1972-1990). Já em tempos escrevi aqui sobre os Corleone. Michael é um dotado: nasceu para aquilo. Tomou as rédeas do poder após a morte de D. Vito e manobrou-as com luva de ferro numa mão e massacres cirúrgicos na outra, subvertendo todas as regras, impondo a lei da aniquilação pura a rivais e inimigos, com despotismo, sem prisioneiros. Da Sicília a Las Vegas, Michael foi um César, um herdeiro dos Bórgia, um fratricida, um pai ausente, um marido mentiroso, um Rei que no final apregoava “We sold all the casinos!” para aplacar a consciência e, pela corrupção, comprar a absolvição do Vaticano. Michael Corleone, no mesmo instante que aceitava a renúncia do pecado pelo baptismo do filho da irmã Connie, mandava executar os Dons das Cinco Famílias: Tessio, Barzini, Tattaglia, Cuneo, e Don Stracci – “Never let anyone know what you are thinking.” Bastaria esta sequência memorável do The Godfather, este banho de sangue e água benta, de absolvição e condenação, este sublimar simbólico de ascensão e queda, para elevar Coppola ao panteão dos imortais. Mas, Coppola foi ultrapassado por Michael. Foi o Padrinho quem escreveu esta página, quem escolheu este momento, quem decidiu elevar-se à magnificência absoluta de um Todo Poderoso e tomar a seu mando a imortalidade da vida e a transitoriedade da morte. Para mim, Michael Corleone é o maior de todos. Só Hannibal Lecter se lhe pode equiparar em grandiosidade e carisma, embora num registo muito mais solitário e individualista. Ambos pertencem a outra galáxia dimensionada entre a dádiva da bênção e o fardo da maldição.

06/07/07

Dúvida

Imaginemos que a espécie humana tinha três membros inferiores, três pernas. Poupem as piadas fáceis, por favor, o caso é pertinente.

É claro que isso levantaria vários problemas. Devemos ponderá-los, ainda que a hipótese seja académica. A conquista da verticalidade pela adopção de uma postura trípede, os desportos olímpicos, os desfiles de moda e a indústria de confecção, os filmes pornográficos, as bicicletas, enfim, tudo seria diferente. O mundo e a sociedade não seriam como são. Isso é garantido. O problema mais grave seria o de saber quantas vaginas teria a fêmea do sapiens sapiens e que tipo de correspondência essa realidade teria no par masculino. Isto é, e exemplificando: a uma fêmea com duas vaginas corresponderia um macho com dois pénis? Ou a evolução social da humanidade teria sido diferente e, em vez do acasalamento monogâmico que triunfou como modelo moralmente aceite nas sociedades decentes, teríamos um modelo tipo mènage FMM? Neste caso, se o macho só tem um membro viril, em qual das virilhas estaria colocado? E quantos testículos? O pénis numa virilha e os testículos na outra? Enfim, um problema para o Criador. Por outro lado, e apenas para dar mais um exemplo, levantar-se-ia a questão do registo civil, ter-se-ia que inventar um novo modelo do IRS, os industriais de Paços de Ferreira teriam que desenhar camas mais largas e reforçadas, a televisão teria que ter dois controles remotos, etc, etc. e por aí fora.

Deixemos esses cenários especulativos. O que para mim importa é mais grave e sério, ainda que permaneçamos no domínio dos cenários hipotéticos, como é óbvio. E o futebol, hein? Como seria? Assumindo que no jogo actual cada equipa tem 22 pernas de campo mais dois braços, como seriam as regras se a espécie humana possuísse três pernas? Alargávamos o campo? Reduzíamos o número de jogadores? Por exemplo: futebol de 7 em vez de futebol de 11. Neste caso, teríamos 21 pernas, isto é, uma a menos do que o modelo actualmente em vigor? Como superar esta desvantagem que teria consequências ao nível táctico? Futebol de oito, o que implicaria 24 pernas por equipa? Parece-me excessivo. Não sei, sinceramente não sei.

foto original

05/07/07

São Bolas, Senhor!


Ontem, foi feriado municipal em Coimbra, dia da Rainha Santa, padroeira dos golfistas juntamente com o Carvalho da Silva quando decreta greve geral.
Por isso, ontem, fomos em peregrinação ao campo da Estela.

Foto original

03/07/07

A Clientela, por Jovem Analista de Clientes

E cá estamos com mais uma análise de mercado para o tapor. Tenho feito recolhas mais ou menos sistemáticas e regulares aos termos de pesquisa nos motores de busca que trazem gente ao blog, tendo em conta que o sitemeter só mostra os últimos cem resultados, e faço uma recolha dos que considero mais curiosos. Eis então os resultados da análise do último mês:


google sexy com cães
a verdadeira receita pastel de Belém
receita pastel de nata passo a passo
receita de frango com vinagre e olho
frases de respeito pelos mais velhos
sonia araujo nua
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corista
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filmagens de jogos de tenis de senhoras com poses eróticas
costura de livros
sonia araujo toda nua
salvador dali e a física
maçons portugueses
Pearl S Buck – Blog
boreman eu
putas+tesão
7 anos de mau sexo
pasteis de belem preco meia dúzia
entrevista a pedro machado da regiao de turismo do centro
efeitos da leitura do livro de São Cipriano
receita mao de vaca com grão
aves que ocorrem em portugal Noddy
mulheres com caixa grande
como é o aspecto de um putanheiro
www.youtube,com
mulheres boazonas
histórica, encontramos na Grécia sobre o futebol
DESENHOS RELIGIOSOS PARA PINTAR
oS Benéficios do vinagre p/ o corpo
bifinhos com cogumelos
os bonifacios
receita cavala Noruega
jovem nuas
fotos da sonia araujo na praia
alcatrão de modena
boi garantido
Daniel Abrunheiro
carla andrino nua
piroca
clitóris grande
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tio e sobrinha
estomago da vaca
crioulização
apuração apuração boi bumba
pornô de vindima
Pedro Rosa Mendes Baía dos Tigres
Caprichosos do Boi de Parintins – musica
como comer um cão zoofilia

02/07/07

Grandes Vilões - II, por Mangas

O Deus Máquina

Hal 9000, “The Killing Machine”, de 2001 – Odisseia no Espaço (Stanley Kubrick, 1968). Topa tudo à sua volta por um olho-câmara, tem uma voz doce e em timbre quase feminino, macia, segura, confiante e personalizada em contraste com o tom monocórdico e paradoxalmente mecanizado dos astronautas. Possui faculdades que lhe permitem fazer o reconhecimento de vozes e de rostos, interpreta e verbaliza emoções, aprecia arte, racionaliza e ainda consegue ler à distância e em silêncio absoluto o que dizem os lábios da tripulação. Assume-se como uma entidade viva e imprescindível, aspira à eternidade, tem medo da morte como o Barão de calzotes, se erra, não errou!, teimoso como um burro!, e quando os astronautas decidem desligá-lo porque efectivamente ele meteu as patorras no engano, decide matá-los de forma a auto preservar-se. Consegue-o parcialmente, Dave o sobrevivente vai-lhe deslizando a memória e Hal vai-se encolhendo e acobardando, primeiro recomenda um comprimido anti-stress a Dave, depois já assume que teve recentemente umas “poor decisions” e com a perda contínua de memória emerge-lhe o medo: “Im afraid Dave. My mind is going. I can feel it.” O processo de humanização é completo quando Hal completamente marado da mioleira começa a cantar Daisy Bell antes de se apagar. Moral da história, ou, hipótese 1 de 1000 conclusões monolíticas sobre 1 das 1000 questões/propostas de 2001-Odisseia no Espaço: a máquina infalível, incapaz de qualquer erro ou informação distorcida comprometeu uma missão e custou a vida a quase uma tripulação inteira. Fuck Hal! E viva Kubrick que fez uma obra-prima que há-de sobreviver a 2001 Hals!


The Bitches

Enfermeira Ratched, de Voando Sobre Um Ninho de Cucos (Milos Forman, 1975). Esta cabra frígida transmite o calor humano de uma guilhotina aguçada e tem a sensibilidade para o metier de um cobrador de impostos endividado: seria mais fácil descascar tremoços com as unhas dos pés dos que lhe arrancar um sorriso franco e aberto. Do piorio! Forman não a “desenvolve” fora da instituição psiquiátrica onde diariamente se entretém a esmagar os espíritos perturbados dos pacientes, mas não nos é difícil deduzir que vive sozinha com um gato arisco e escanzelado, que tem à cabeceira a biografia de Josef Mengele e não é violada desde o baile de finalistas do Liceu. Vestida de branco asséptico durante o dia e de negro-luto quando sai do hospício, esta carcereira é na realidade uma fria e implacável castradora de mentes, uma silent-killer que ritualiza a pasmaceira demencial e o protocolo dos comprimidos para manter os malucos debaixo das garras escondidas, em controle ditatorial, como zombies inofensivos. Randle Patrick McMurphy - fabuloso Jack Nicholson! – é a lufada de ar fresco que ali chega e ameaça o seu território: traz consigo o saudável pecado de irreverência e custa-lhe vergar a espinha à tirania. No final, até mete dó como a Enfermeira da Stasi lhe destrói corpo e alma com electro-choques.

A Enfermeira Annie Wilkes, de Misery (Rob Reiner, 1990). Paul Sheldon, o escritor, tem o azar de se despistar por uma ribanceira abaixo e cair nas unhas da sua maior fã-nática – uma enfermeira retirada após condenação pela morte de bebés recém-nascidos. Por aqui se percebe o calibre do bicho. Mas a cabra instável tem o isolamento das neves a seu favor e faz-lhe a vida negra nos meses que se seguem. Como prova do seu amor e admiração oferece-lhe uma cama em quarto armadilhado para recuperar das múltiplas fracturas nas pernas, e a exigência de “ressuscitar” a heroína Misery Chastaine no capítulo final da novela já publicada. Para o ajudar na tarefa, oferece-lhe alguns incentivos: começa por o obrigar a queimar o manuscrito do seu próximo livro por não ser mais um da série pulp-Misery, encharca-o de drogas e sedativos para o manter sob controle, quando se chateia a sério injecta-o com um veneno que o põe a dormir até ao dia seguinte, esconde-o na cave enquanto dá cabo do velho Xerife que lhe bateu à porta na pista de Paul, e dá-lhe duas valentes trancadas de marreta nos tornozelos de forma a partir-lhe as tíbias novamente e impedi-lo de se escapar daquela casa de horrores. A adaptação para cinema tem como base o romance homónimo de Stephen King. O filme transpira um clima de terror psicológico e encurralamento de quem está a ser coagido, mas que se sente ainda capaz de contrariar a condição e a tortura física a que é sujeito. Kathy Bates tem uma actuação notável e assustadoramente realista. Ganhou o Óscar.


Acelerados, Sem Escrúpulos e Retorcidos

O Sargento Barnes, “A Cascavel”, de Platoon, merece constar das minhas notas, não pela insubordinação, mau feitio, belicosidade, sobranceria para com os superiores hierárquicos nem, basicamente, por ter sido enxertado em corno de cabra. Com algum esforço, também posso ser condescendente com as atrocidades que incitou e executou na aldeia vietnamita, e até posso olhar para o lado com a decisão de fazer integrar miúdos sem baptismo de fogo em missões de alto risco e baixíssimas probabilidades de sobrevivência: carne para canhão. Carne fresca para canhão. Caramba, estamos no Vietname - condenar um tipo destes, pela irracionalidade destes actos, seria como oferecer a um caçador de domingo uma inscrição na Sociedade Protectora dos Animais em plena época de caça aos tordos! Do que Barnes não se safa e nunca poderá alguma vez ser absolvido, é o ter assassinado Elias para escapar ao tribunal militar. Por isso Barnes simboliza muito mais do que o homem atirado para a selva das trincheiras, do que o comandante de pelotão. Barnes é a guerra, é a barbárie, é a bestialidade, é o quarto cavaleiro que se esqueceu do inimigo comum e comete o mais hediondo dos crimes contra o irmão de armas e o assassínio de Elias é a descida ao inferno para quem sempre lá esteve. “Vocês fumam essas merdas para tentar esquecer a realidade. Eu não preciso. Eu sou a realidade.” in, Platoon de Oliver Stone, 1986.

Noah Cross, “O Sórdido”, de Chinatown (Roman Polansky, 1974). Fabulosa incursão de Polansky no policial negro. John Houston bigger than life num papel da dimensão da Califórnia que governava – desde o Pacífico até aos laranjais do deserto. O mal. A personificação imensa do mal em todas as suas formas de grandeza. A corrupção. O poder. O dinheiro que compra em pé de igualdade polícias e detectives. O crime que não olha a meios para derrubar obstáculos. Ter a cidade nas mãos, e a justiça na algibeira entre um maço de notas. Noah Cross é tudo isto. É o fascínio, e não tem escrúpulos alguns. É o Todo Poderoso e o homem mortal. É, sobretudo, e sem redenção, a face mais negra e obscena do pecado sob a forma de incesto com a filha adolescente do qual nasceu outra filha/neta. Tenebrosos segredos escondem-se no sangue de homens como Noah Cross. Carregam-nos como uma cruz que erguem para crucificar os que lhes tropeçam no caminho.

Norman Bates, “O Embalsamador”, de Psycho (Alfred Hitchcock, 1960) – Palavras para quê? Todos viram o filme mais do que uma vez, todos sabem do que falo. Dêem-lhe um canivete para limpar as unhas e um duche com cortinados que este menino consegue pintar uma tela à Jeronimus Bosch. E nem se vê, nem se dá por ele – dessa lendária sequência ficam para a posteridade apenas! as navalhadas num ritmo frenético, os sons arrepiantes de violinos desafinados, como laminas aguçadas contra ferro velho, e o sangue levado a fio grosso pelo remoinho da água que desaparece ralo abaixo. Confesso-vos que a cena final de Norman Bates na cela, encarnando a mãe, pensando como a mãe, falando pela voz da mãe acerca da sua inocência, sempre me causaram iguais calafrios.