31/01/04

ESTONTEANTE ADMIRAÇÃO E ESPANTO, por Sardanápalo

O cronista de Lisboa que habitualmente escreve no Público ao Domingo, anda há anos a propagandear as beogneaceas mimosifolias, que para os ignorantes que por aqui abundam, se informa de que se trata de uma árvore tropical que por volta de Abril/ Maio dá umas flores magníficas. Flores de um Azul Estonteante, como diz o António Barreto, o dito cujo Amigo dos Jacarandás.
Num país de Benfiquistas é natural a ignorância e a má-vontade contra os Jacarandás. O Azul Estonteante sempre provocou enjoo nos Lampiões. Mas Lisboa está cheia deles e Coimbra tam alguns magnificos também. Na altura eu mostro.
Mas isto, para ir dar a outro lado e para contentar a lampionice com a vermelhidão. É que logo a seguir à floração dos Jacarandás, começa uma outra árvore tropical a florir que dá uma fantástica flor avermelhada, com tons diversos de uma intensidade espantosa e admirável. Temos um corrimão delas ao início da Avª Fernando Namora, do lado esquerdo, que por volta de junho entram em floração. Toda a gente ali passa e ninguém liga. Ando há anos a tentar descobrir o nome do arvoredo fabulástico, sem qualquer resultado.
Ora, há dias descobri um especialista. E aqui dentro. Ora, sim senhor, aqui dentro desta Real Satânica do Tinto, entre especialistas de capitais, rios, rolling stones, doors, bossa nova, carne viva, semiótica, reis, batalhas, cinema, etc, etc, temos um gajo que é especialista em Botânica e Jardinagem. Pus o gajo em campo e em três tempos, aqui está, a árvorezinha em questão é a ALBIZZIA JULIBRISSIN, albizzia prós amigos, também conhecida pelo nome comum de Acácia de Constantinopla.
Terminei assim a minha busca do Graal, ou gradal como diz o Eco, e aqui reivindico desde já e registo o cognome de O AMIGO DAS ALBIZZIAS (não Nestum, isto não são gajas, são mesmo árvores, botânica meu amigo!).
Muito obrigado meu caro Jardineiro e agora já podes lá ir então treinar os alongamentos do membro inferior, digo, dos membros inferiores, que o espanhol é uma língua mucho traiçoera.
PS1: só espero é o expert das verduras não me fique com pó de o não acompanhar, é que o gajo agora só me chateia para o acompanhar nas suas visitas à Horto-Mondego. Fónix, à Bertrand ou à Fnac ainda o acompanho, agora à Horto-Mondego? Pelo amor de Deus, albizzias mas nem tanto, daqui a pouco ainda me convida prá Iberplanta. Arre!
PS2: Próximos episódios: as bouganvilias.

30/01/04

27/01/04

Panos Quentes & Tátapolos

Caro Panos:

A coisa esteve negra pro meu lado porque o caralho do Vice julgou ser eu o autor dos teus comentários. Não k ele não chegasse a essa errónea conclusão sozinho, pois é bem homem pra isso, mas com uma ajudinha do Groucho Marx, sagaz intérprete na arte do engano, foi trigo limpo farinha amparo! Ou seja: tu mamaste os figos, a mim rebentou-me a boca! Chegou-se mesmo a gerar um equívoco por sms e eu acabei a chamar-lhe "boi negro", "bárbaro insensível" e outras coisas injustas pró rapaz mas k me souberam bem dizê-las...! Adiante: esclarece de uma vez por todas o nosso Vice, (não sei como...), k tu não és eu. Manda-lhe uma foto tua com um chapéu de trevos verdes ao lado do Larry Bird, ou cita-lhe de cor um diálogo extenso do Anthony Quinn no Zorba the Greek! Até lá, fica sabendo k lhe encheste o ego e aviso-te k se tu não fores tu e fores outro eu qualquer k não eu próprio, o Vice vai-te moer a tola durante muitos meses.

Mangas.

tradução pra simplificar:
caralho = dick head
trigo limpo farinha amparo = piece of cake
mamaste os figos, a mim rebentou-me a boca = same as, you fucked the bitch and I got gonorrhoea!
boi negro = George W. Bush
moer a tola = fuck your brains, or, beat a shit out of you!

26/01/04

And Death Shall Have no Domain, por Dylan Thomas

E a morte perderá o seu domínio.

Nus, os homens mortos irão confundir-se

com o homem no vento e na lua do poente;

quando, descarnados e limpos, desaparecerem os ossos

hão-de nos seus braços e pés brilhar as estrelas.

Mesmo que se tornem loucos permanecerá o espírito lúcido;

mesmo que sejam submersos pelo mar, eles hão-de ressurgir;

mesmo que os amantes se percam, continuará o amor;

e a morte perderá o seu domínio.



E a morte perderá o seu domínio.

Aqueles que há muito repousam sobre as ondas do mar

não morrerão com a chegada do vento;

ainda que, na roda da tortura, comecem

os tendões a ceder, jamais se partirão;

entre as suas mãos será destruída a fé

e, como unicórnios, virá atravessá-los o sofrimento;

embora sejam divididos eles manterão a sua unidade;

e a morte perderá o seu domínio.



E a morte perderá o seu domínio.

Não hão-de gritar mais as gaivotas aos seus ouvidos

nem as vagas romper tumultuosamente nas praias;

onde se abriu uma flor não poderá nenhuma flor

erguer a sua corda em direcção à força das chuvas;

ainda que estejam mortas e loucas, hão-de descer

como pregos as suas cabeças pelas margaridas;

é no sol que irrompem até que o sol se extinga,

e a morte perderá o seu domínio.


Até sempre, Miki Fehér!

Feher: a morte em directo

Ponto de ordem: a morte do futebolista húngaro é obviamente uma tragédia e um choque profundo a que ninguém fica indiferente. Como foi a morte de Vivien Foe ou de Pavão em 1973… De resto, faz hoje, precisamente um mês, que um terrível terramoto matou 40 000 pessoas na cidade iraniana de Bam. Nenhum destes eventos me/nos abalou tanto como a trágico fim do futebolista do Benfica…

Então o que faz parecer a tragédia de Feher ainda mais colossal que qualquer outra (se é que podemos medir o tamanho da tragédia pelo número de vítimas)? Porque é que eu hoje não dormi? Porque é que acordei com o nome de Feher a matraquear-me os sonhos e uma lágrima no canto do olho a querer explodir?

A tragédia de Feher tornou-se, de certo modo, a minha, na medida em que a vi a directo. A morte dele, entrou-me pela casa dentro, em tempo real, perturbou-me a calma segurança do sofá. Eu e todos aqueles que assistíamos ao Guimarães/Benfica fomos testemunhas de uma morte real. Não era ficção! Por isso a tragédia do jogador húngaro tornou-se a minha e dos meus filhos que comigo viam o jogo. Eu – e eles! – nunca mais vamos esquecer aquelas imagens.

São os riscos da «sociedade em directo» em que vivemos. Pavão é para mim um nome abstracto na medida em que dele só soube a sua morte em diferido em notícias e artigos de jornal. A sua tragédia foi uma tragédia privada, mais privada pelo menos, apenas para as 20 000 pessoas que nesse dia foram às Antas. Bam são imagens de um sítio longínquo. Em todos esses casos houve mediação – no tempo e no modo - entre mim e os factos. Agora faltou essa mediação; o que houve foi mediatização. E eu e todos os que assistíamos ao jogo fomos apanhados de surpresa, atingidos por uma enorme bomba nuclear em cheio na cabeça e na alma desprotegidas.

A imagem de Feher é ainda impressionante, para mim, porque representa a fragilidade incrível da nossa vida. Feher era um guerreiro, um herói de uma espécie determinada nos campos de futebol, um Gladiador – não era um jogador técnico nem um malabarista; era a imagem da força, da potência, da raça e da juventude. Feher era um Guerreiro. Camacho lança-o naquele jogo – depois de não sair do banco nas três ou quatro jornadas anteriores – por saber isso: que num jogo que decorre num lamaçal, sob as bátegas de um temporal, só um gladiador poderoso poderia levar a tarefa a bom termo. Feher está na jogada do golo do Benfica – cumpriu a sua missão e gozava o estatuto merecido do Herói. Nota-se a sua felicidade em campo…
No cartão amarelo que antecede a sua morte, Feher, sorri para o árbitro. E num segundo, o herói, o Gladiador Indestrutível – ainda por cima aureolado com a camisola mística do Benfica – cai por terra. Num ápice. Passa de um sorriso eterno de Vencedor à condição finita e mortal. Somos assim tão frágeis? Até os heróis acabam num repente? Podemos morrer desta maneira, num segundo, numa ridícula fracção de segundo, sem motivo, no auge da glória?

Ao contrário das primeiras páginas de choque da maioria dos nossos jornais- mesmo da imprensa «séria» - e das imagens techno das nossas televisões que nos matraqueiam com o horror da repetição e do pormenor insuportáveis, o jornal A Bola, fez uma das poucas primeiras páginas ainda possíveis de fazer para nos devolver a ilusória imagem da imortalidade e indestrutibilidade do Guerreiro: a foto do último sorriso de Miklos Feher. Hoje, como sempre, eu comprei A Bola. E, por breves instantes, o sorriso de Feher, no segundo anterior à sua morte deu-me um pouco – muito pouco! – de alento. Para ele não deve ter sido assim tão terrível!

Le Vice

24/01/04

SIM, EU GRAMO BOÉ A AMÁLIA E ORGULHO-ME DISSOpor Fat Boy Slim

Amália-postal turístico

Certa vez, em França, dizia-me uma senhora da geração da cantora, que gostava muito de Portugal. Com um ar de turista nostálgica do tempo em que correu o mundo, falou-me das mulheres dos pescadores na Nazaré. Descalças e vestidas de negro ajudavam os homens e esperavam, como Penélopes, enquanto eles iam para o mar... Comparou as saias compridas dessas mulheres com as das mulheres árabes e recordou-se dos carros de bois e do porte humilde e digno dos trabalhadores nas lides agrícolas (esses mesmos que depois haveriam de emigrar para os “bidonvilles” de Paris e que os franceses acham sempre que são excelentes pessoas e “óptimos trabalhadores”).
Perguntei-me que Portugal era esse que eu só conhecia dos filmes antigos.... Tão antigos que aquele país que me descreviam já nem sequer era o mesmo que eu conheci quando era criança. E muito menos o Portugal actual, orgulhosamente europeu com os seu Shopping Centers imponentes e as netas das mulheres dos pescadores vestidas na Mango e na Zara e a cheirarem a Boticário. Para concluir, dizia-me a senhora francesa, havia um rosto e uma voz, que para ela resumia todo aquele universo: o rosto e a voz de Amália.

Amália, tradição e modernidade
Aquele era, afinal, o retrato do velho Portugal salazarista reproduzido muitos anos depois, a centenas de quilómetros de distância por uma mulher saudosa: a imagem de Amália-postal-turístico, ícone de um Portugal rural que já não existe. Imagem agradável a um ditador rural como era o Beirão, António de Oliveira Salazar, nado e criado no culto da terra e das virtudes tradicionais: Deus, Pátria e Família. Facilmente encontraríamos nas músicas cantadas por Amália a exaltação destes valores: lembremo-nos de Foi Deus, de Que Deus me Perdoe, da exaltação de Ai Mouraria ou de Fado Alfacinha e de tantos outros motivos nacionais ou desse autêntico documento sociológico que é Uma Casa Portuguesa.

Comparemos este universo com os novos ícones do Portugal contemporâneo: à devoção religiosa de Avé Maria Fadista, por exemplo, opõem os Xutos e Pontapés o seu herético Avé Maria, panfleto minimalista que ridiculariza Fátima ou o psicanalítico e Morrisiano Mãe. Pense-se no sexismo de um Pedro Abrunhosa (Talvez F.., Não Dá), o qual contrasta claramente com um certo puritanismo próprio da época de Amália. Pense-se ainda no universo humilde e pobrezinho descrito em Uma casa Portuguesa e no seu negativo contemporâneo dos Ena Pá 2000, o já célebre Báum (“Eu quero ir ao Frágil Sexta Feira/Eu quero ser amigo da porteira/ quero andar nos copos com os artistas/ e aparecer nas capas das revistas/ não quero mais viver em Chelas e ir à Costa no Verão/ Quero um andar no Bairro Alto e uma quinta em Azeitão/ o que me vale é um padrinho que tenho na Fundação”).

Fatalidade e Saudosismo

Fado e destino são tópicos que remetem para uma certa ideologia de cunho oriental (e muito justamente, se compara, não só a ideologia, mas sobretudo a estética do fado e do canto de Amália, aos cânticos árabes e mediterrânicos). O nosso destino já está escrito e há que aceitá-lo com resignação. A suprema sabedoria, como preconizam algumas filosofias orientais, consiste em sabermos adaptarmo-nos a esse fatum, traçado desde logo.

Embora esta ideologia da resignação implícita no fado, conviesse perfeitamente ao regime salazarista, é notória a sua contradição com as ideologias do sucesso, actualmente reinantes em Portugal. O cavaquismo e o guterrismo não são mais que duas versões desta mesma ideologia. De facto, nada há de mais antitético relativamente ao espirito fadista/fatalista cantado por Amália, do que a apologia do homem novo português, capaz de grandes empreendimentos como a recente Expo 98 ou o Euro 2004, de rasgar estradas ou de erguer pontes por todo o país. Enquanto Cavaco – mais claramente – e Guterres – de um modo mais velado e implícito – exaltam este novo homo faber português, Amália exaltava os sentimentos que agora são considerados depressivos: a saudade, o conformismo, a resignação e a tristeza....
Clássicos
O facto de Amália ser “uma cantora antiga” – como dizia um dos poucos representantes das novas gerações no seu funeral – não significa que a sua obra e o seu rasto tenham ficado presos ao passado. Há uma “eternidade” em Amália que nos toca e que ultrapassa a marca do tempo. Ela é um clássico que, como tal, se ergue na ruína do tempo. Como muito bem lembrou Caetano Veloso, ela é um símbolo de um certo sentir português, como o foram Edith Piaf para a França, Ella Fitzgerald ou Billie Holliday para os EUA, Maria Callas para a Grécia ou Elis Regina para o Brasil.
Mas como todas estas grandes artistas, ela é muito mais que isso. Elis é tanto de um brasileiro como minha; Callas é tanto de um grego como de um francês, como Amália é tanto minha como de um inglês. E nesse sentido Amália ainda está viva em cada um de nós, num português como num alemão, num brasileiro, como num chinês ou num marroquino. Todos nós, e não só os portugueses, temos, pois, Amália na voz, como cantava Variações...

Talvez porque os sentimentos que expressou se foram tornando nos últimos tempos politicamente incorrectos – lembremo-nos dos problemas de Amália no 25 de Abril e da contradição flagrante dos seus fados com a ideologia do sucesso actual -, a cantora entrou em rota de colisão com uma certa modernidade. No ruído das banalidades, a alma da “cantora antiga” é genuína e pura. Por isso Amália é mais que actual: é clássica, como o são Homero ou Mozart. Porque a actualidade não depende de se ter escrito ou cantado ontem, mas da novidade, da pureza e da verdade que se possui independentemente do tempo em que se cantou ou escreveu.

CHAPELADA, por Sardanápalo

Há musicais e musicais. O Chapéus de Chuva de Cherbourg, pode ser tudo, obra prima, prima da obra, essêncial, marco histórico, indispensável, tudo, tudo, mas que aquilo é invisível, lá isso é, e garanto eu que o tentei ver duas vezes.

Na segunda tentativa ainda consegui chegar à terceira canção quando a tia recebe em casa o enteado, mecânico, que acabou de se despedir do dia de trabalho do patrão, obviamente a cantar e que cumprimenta as pessoas na rua a cantar. Não estou a gozar. Não há uma única palavra falada em todo o filme. só cantam e dançam. Nem na ópera, caramba!

Ora, eu tenho lá em casa este marco histórico, em boa gravação de vhs. aos gajos comó Satan, Xanatos e quejandos, só posso dizer: combinem a hora e o dia, que eu arranjo o sofá e o filme, e enquanto se lá aguentarem a ver o filme, sem dormir, sem deixar cair a cabeça, dem desmorecer e sem vacilar, eu garanto que vou continuamente servindo iguarias para dar alento ao pessoal. Obviamente, que a qualquer cochilada ou gravação de pestana fechada, reservo-me o direito de dar uma ou outra cachaçada, bem aplicada! Conversa de futebolada ou outro tema fora do filme, vale um carolo, idas à casa de banho não valem e óculos escuros são proibidos. Desvios de atenção em geral serão severamente punidos. E depois de começarem a ver, não podem desistir, aguentam até ao fim, ou então, perdem um jantarinho!

THE BLUES BROTHERS, por Xanatos

Musicais é Serenata à Chuva (k tenho e posso-te emprestar Satan), Saturday Night Fever (vá, aproveitem pra mandar uns mails a marrar, mas eu tinha um poster dos Bee Gees naquela altura e ensaiava o How Deep is Your Love no espelho!), e The Blues Brothers com a Sra. Aretha Franklin, o Ray Charles com uma mão no piano e outro num colt 45 a disparar às cegas contra uma parede, o James Brown possesso dos cornos a incendiar a congregação baptista e o mítico Minnie the Moocher do velhinho Cab Calloway (k começou no Cotton Club há uns anitos atrás quando só lá podiam entrar brancos de smoking e metralhadoras Thompson pra acompanhar o sapateado dos negros). Acaba com o grande John Belushi a fazer esquecer o Elvis no Jailhouse Rock, (lembram-se?), e pelo meio há a frase lendária:
- Are you the policemen...?
- No `Mam... We are the musicians!

Há um filme notável, não me lembro o título em português, "Qualquer coisa A Liberdade", "For Love or Country - The Arturo Sandoval Story", em inglês, com o Andy Garcia. Um gajo k enfeitiçava o trompete, chegou a tocar com o Dizzy Gillespie, fundou a Irakere (uma espécie de Trovante da música cubana) e acabou a pedir asilo político aos EUA onde permanece até hoje. Ganhou alguns Grammys pelo meio, tenho a banda sonora e outros discos dele pros interessados, mas recomendo o filme k tá disponível no Amilcar e vale bem a pena, quanto mais não seja só pra ouvir "Canta Trompeta Querida", ou a versão arranjada pelo Arturo Sandoval de "Guantanamera", entre outras pérolas. E é tudo verdade!

CHAPÉUS HÁ MUITOS, Ó PALERMA!, por Satan

Sardanápalo, também gostei muito do teu texto sobre o Triers e o tal filme dele. Sobre o filme não vou dizer nada, porque não vi. Ando numa fase de ver filmes cómicos e policiais, e estou assim muito confortável. À fase Triers desconfio que não me apetece chegar. Vi o Ondas de Paixão e pronto. Mas se o estilo da tua crónica é magistral, o conteúdo já fia mais fino... francamente, sardanápalo, tu dizes aí coisas muito injustas sobre os Chapéus de Chuva de Cherburgo e os musicais por atacado, que tu despachas como se falasses de bonecos de corda a cantar e a bailar! Pois ficas sabendo que esse filme é genial! E idem para outros marcos do cinema dançante e cantante como o Americano em Paris (o zénite da coisa) e o Serenata à Chuva. O Astaire fica fora disto, porque, para mim, aquelas valsinhas dele ficam uma divisão abaixo. E depois, há aquelas preciosidades fabulásticas como o Pennies from Heaven, do Dennis Potter. Queres mais? Eu pensava que isto tinha ficado assente numa conversinha que tivemos uma vez sobre o assunto. Juizinho...


22/01/04

O Tapor no maravilhoso mundo da Internet

22 de Janeiro foi um dia histórico para o TAPOR. Pelo Extreme Tracking, soube que um hermano recorreu ao Google e fez uma busca. O homem queria sexo, o que não é raro no mundo do ciberespaço. O Google deu-lhe sexo. Mas o homem queria sexo antecedido de bojo. O Google não vacilou, e deu-lhe sexo antecedido de bojo, o que quer que isso seja. Porventura, um desses fetiches que não são raros no mundo virtual. Eu desconhecia. Já tinha ouvido coisas esquisitas: gajos que curtem pés, galinhas, enguias, chicote, látex, eu sei lá. Mas Bojo sexo, não, nunca tal ouvira. Mas não é tudo, o homem exigia bojo sexo num site comercial: BOJO SEXO. COM! Exigente o rapaz. O Google, mais uma vez, cumpriu e apresentou, em 0,28 segundos, 98 sites capazes de satisfazer o capricho do nosso amigo. Até aqui, tudo normal, pois não é novidade para ninguém a capacidade deste Google. Agora, o que nos enche de orgulho é que o TAPOR surge em terceiro lugar na lista dos candidatos à satisfação dos fetiches deste rapaz. Podemos pois estar orgulhosos. Estamos a cumprir a nossa missão. O rapaz queria bojo sexo.com, o Google deu-lhe o endereço do TAPOR, o rapaz entrou e, se queria sexo, teve o que queria: fodeu-se! O texto do confrade Mangas reunia as exigências do moço, ao combinar as duas palavras no mesmo texto. Sinto-me orgulhoso, caro Mangas. Fui às lágrimas. Já estamos na era da globalização e cumprimos a nossa missão na Aldeia Global. Bem hajam, meus amigos, bem hajam! E se mais não demos, é porque desconhecemos o que seja bojo sexo. Quando nos esclarecerem, nós ‘tamos cá para satisfazer o freguês.

21/01/04

O caso das mamas de Letizia Ortiz

Escândalo em Espanha! Em 1996, ou por aí, a futura rainha de Espanha trabalhou no México onde conheceu um pintor, até há pouco anónimo: Waldo Saavedra. Tornaram-se amigos e Letizia terá posado seminua para o rapaz. O resultado serviu de capa a um disco: «Sueños Líquidos», editado pela Warner em 97. O título é de mau gosto, é certo, mas não devemos responsabilizar Letizia. Parece até que a única coisa aproveitável do disco é a capa. Importa, em primeiro lugar, discutir uma questão prévia: serão as mamas retratadas de Letizia? E aqui, o debate poderia centrar-se em dois domínios, a saber: a) em sede penal, no caso de haver suspeita de crime; b) no campo estético. O primeiro cenário deve ser afastado, pois que a ninguém ocorre que haja matéria criminal. Caso contrário, teríamos que convocar os peritos de um qualquer Instituto de Medicina Legal que se lançariam, com agradada devoção e minúcia, estou certo, em busca de sinais particulares que permitissem identificar com segurança os peitos de Letizia na tela de Waldo feita capa dos tais…. «Sonhos Líquidos». No domínio da simples apreciação estética, o caso também não merece demora. Basta aceitar uma evidência: a arte não se limita a reproduzir fotográfica e fielmente uma realidade. A tela de Waldo mantém sempre a sua dimensão estética, mesmo que não tenha reproduzido fielmente o peito de Letizia. Apesar da obra ser pindérica e foleira, também não constitui razão para tanto escândalo. Onde está então o problema? Só pode haver problema se se admite que:

a) Quem um dia mostrou as mamas não pode aspirar a usar coroa régia. Letizia mostrou as mamas, logo não pode ser rainha.
Ridículo! Pois que se aceitara anteriormente, e até com naturalidade, que Letizia fora casada. Como é presumível que tenha mostrado as mamas ao marido, deve concluir-se que, por si, o simples acto de exibição das glândulas não é impeditivo de se ascender à realeza.

b) As mamas só se podem mostrar aos maridos, como Letizia não era casada com Waldo, Letizia não pode ser rainha.
Idiotice! Nos tempos que correm, as mamas mostram-se a toda a gente! O anúncio do casamento do Príncipe das Astúrias com uma divorciada foi até saudado como sinal de modernidade e ajustamento da monarquia aos novos tempos. Ora, se a monarquia se quer compatibilizar com a modernidade, tem que aceitar que as mamas reais se podem mostrar a olhos que não estejam previamente vinculados pelo compromisso do casamento. Pelo menos, admito, antes de ascenderem à régia condição. Acresce ainda que não foi o príncipe Felipe que levantou a questão. Foram os súbditos. Os cidadãos da República não cuidam destes assuntos, que a República, ainda que alegórica e sem existência carnal, é mais generosa e liberal nestas delicadas matérias. O que incomoda então os súbditos de Sua Alteza Real? Prossigamos:

c) O facto de Letizia ter exibido as mamas a um pintor?
Não faz sentido! Decididamente, não colhe. Não se descortina por que estranha razão hão-de os olhos de um pintor ser discriminados em relação aos do marido. Até porque, marido e pintor podem coincidir numa só pessoa. Ou então, na possibilidade mais comum de tal se não verificar, teríamos que os pintores, doravante, estariam impedidos de ver mamas plebeias, pelo menos enquanto as portadoras acalentassem a esperança de um dia ascenderem ao estatuto régio. E quem diz pintores, diz fotógrafos, realizadores, etc. Indefensável!

d) Então, o problema deve estar no facto de o pintor, para além de as ter visto, as haver pintado?
Também não. Por um lado, porque o que se espera de um pintor é que pinte. Sem imposições à sua criatividade. Se quer pintar mamas, pois que as pinte. Tanto melhor, quanto mais inspiradoras forem as mamas. Por outro lado, haveria que justificar por que razão a transposição de uma inspiração para um suporte material como a tela é que constitui o elemento gravoso. A haver pecado, ele existiu antes, no facto do pintor ter visto as mamas. Ora, se isso não é grave, logo, o facto de o pintor haver dado forma à sua imagem mental, é apenas a sequência normal que, por ser normal, não deve escandalizar. Nem tão pouco deve escandalizar a utilização dada à pintura, difundindo-a como capa de disco, pois que uma obra de arte existe para ser difundida. Quanto maior for a sua difusão e aceitação, mais relevante se torna.

Deve pois concluir-se que não há razões para escândalo. Processo arquivado!

LARES VON TRISTE, por SARDANÁPALO

Xiita, já vi o teu dvd do Lars von Trier do Dancer in the Dark. Não gostei. Reconheço a excelência da música e a qualidade estética da coisa. Mas filmes em que o comboio pára prós gajos cantarem e dançarem, pra moi, nope. Já me chega os Chapéus de chuva de Cherbourg, com que ainda hoje tenho pesadelos. No mais, é o velhinho Lars von Trier que toda a gente conhece, uma desgraça atrás da outra até à nausea. As histórias todas dos filmes do gajo é sempre a anedota do coxo que vai crente ao descampado receber o milagre da cura e leva mais uma marreca. Com o lars, e a seguir, o marreco leva com mais um abc no lóbulo frontal e um cancro nas orelhas, altura em que, enfraquecido, é apanhado por um xérife ao engano, que o enforca. Já era assim no Ondas de Paixão, é ainda pior neste Dancer in the Dark. O Lars que vá apanhar no cú, que não me volta a apanhar noutro dele. E atenção que vi o filme todo, com algumas passagens pelo sexy hot só pra controlar o desenrolar dos acontecimentos, aquando das danças e cantares dos máquinistas, dos trabalhadores da fábrica, dos ajudantes de xérife, dos meirinhos do tribunal, dos guardas prisionais do corredor da morte. Meu deus naquela merda toda a gente canta e dança. Puta que pariu!

19/01/04

Já que ninguém escreve nada, aqui vai uma citaçãozita:
«Muitas vezes o Irmão Otão, quando nos encontrávamos no cimo das falésias de mármore, afirmava que o sentido da vida consistia em repetir a criação no domínio do perecível, tal como a criança, ao brincar, imita o trabalho do pai. O sentido da sementeira e da procriação, da construção e da imposição de uma ordem, da imagem e do poema, era o de, através deles, se revelar a grande obra como que reflectida em espelhos de vidro multicor que não tarda a quebrar-se»
Ernest Junger: Sobre as Falésias de Mármore

16/01/04

Arquivos Satânicos: o dia em que o Grão virou cão

Palavras escritas pelo Grão antes da prova cega de vinhos realizada no «Cantinho dos Reis» no dia 18 de Novembro de 2000 e colocadas no bojo da sua garrafa de «Quinta da Terrugem 96» que foi suplantada pelo «Alabastro», vinho da gama inferior do mesmo produtor, apresentada pelo Vaice, hoje dito Le Vice

O REI DE PORTUGAL, segundo A. OLAIO, por LE VICE

Há uns tempos atrás eu, o Minimal , o Groucho e Artista Anteriormente Conhecido Pelo Nome de Pilas, resolvemos passar um sábado diferente. Para variar decidimos que não íamos ficar a tarde toda a emborcar cafés e fumo no Ranhoso e fomos ver a exposição Coimbra C ao C.A.P.C.

Entre outras coisas, chamou-nos a atenção o trabalho do A. Olaio, When Did The Founder of Portugal Begin to Feel Portuguese?
O artista isola a imagem da estátua jacente de D.Afonso Henriques, cujo túmulo se encontra na Igreja do Mosteiro de Santa Cruz. Somos então convocados para uma reflexão sobre a relação identidade/nacionalidade: qual é a nacionalidade do primeiro rei de um país? O rei é simbolicamente o próprio território, mas como pode o rei ser português, se ainda não existe portugal? Estamos assim perante um curioso paradoxo: é que aquele que funda a nação é simultaneamente - suspeitamos - um apátrida (nem sequer um estrangeiro, que esse tem pátria). A pergunta impõe-se e ela é-vos dirigida (o meui filho também já disse que a vai fazer ao professor de História dele):

«Quando é que terá sido que D. Afonso Henriques se terá sentido português? Assim que o país foi reconhecido como tal, antes, ou nunca?»

E já agora: ganhará um novo sentido o facto/mania do Olaio titular os seus trabalhos em inglês? É que fazer a pergunta da nacionalidade portuguesa do rei em inglês, ganha, de repente, contornos irónicos inesperados... Como entender esta relação, entretanto criada entre dois símbolos contraditórios - a língua inglesa (símbolo da globalização, da contemporaneidade e da uniformidade americanista) e a velha imagem do corpo medievo do rei de portugal (marca de idnetidade, de diferença localista