
Ela pergunta ao Miles se ele é músico profissional ou se toca apenas em festas, aniversários e coisas dessas, em seguida, ensina-nos o jogo de adivinhar as matrículas dos carros que vêm sem sentido oposto, e ri-se à gargalhada quando alguém erra os números por um algarismo. O velho muda as estações de rádio em cada vila, aposta comigo que ainda vai matar um cão malhado que se atravessa na estrada, adormecemos à sombra de uma igreja, quando ela acorda diz ao filho que tem sede, arrancamos e paramos outra vez para emborcar um par de cervejas geladas, prosseguimos pelo asfalto em brasa, o velho conduz a derrapar no limite da berma, buzina aos camionistas, a gaja faz-lhe piretes, o gaja e o filho fazem mais habilidade no banco da frente, às vezes ela inclina-se para os nós e pergunta se não queremos também, que nos avia também, os dois ao mesmo tempo, quer-nos a todos como irmãos, quais são os vossos nomes?, trata do nariz ao velho, abraça-o, sobe a capota e põe-se de pé no assento traseiro, abre os braços para espantar o vento que lhe arde nos cabelo, o velho arrota e desencanta uma garrafa de uísque, convence-nos sem esforço a dar cabo dela, massacra o motor aos roncos, sabemos todos que aquilo não dura sempre, no rádio Neil Young atravessa a planície de um lado ao outro, guitarras canhotas aos berros, o Miles improvisa que se farta, até dói ouvi-lo!, o som metálico dos pistons mistura-se com o trompete, uma espécie de percussão ritmada e gasta, o velho e o filho deliram com aquilo tudo, a gaja contorce os ombros enquanto abana a cabeça, levamos todos os olhos raiados de sangue e um espírito animal fora da jaula que nos guia pelas nuvens destroçadas e pelo pó dos ossos esbranquiçados no deserto.
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