
Considerado por alguns críticos como uma figura paternal da
Nouvelle Vague, Melville começou como um solitário
outsider da indústria cinematográfica francesa quando adaptou
Le silence de la mer de Vercors, sem o consentimento deste. Mais tarde, em colaboração de Jean Cocteau faria
Les enfant terribles e tendo a percepção que necessitava de um estúdio, meios independentes e dinheiro que lhe permitisse trabalhar a um ritmo próprio e sem concessões, realizou
Quand tu liras cette lettre (1953), o único dos seus filmes que não escreveu. Melville criou um estilo próprio de austeridade visual, com predominância do preto e branco tendendo em muitos casos para a abstração. A melancolia de algumas cenas interrompida por súbitos espasmos de violência,
close-ups de revólveres, chapéus, ou carros mortuários, a par de um estudo meticuloso dos gestos,
gangsters sem redenção, personagens marginais, homens em fuga e loiras de perder a cabeça, são imagens de marca de Melville e transmitem aos seus policiais uma atmosfera mista de filme negro e neo-realismo quase lírico. Obras mais representativas:
Bob le Flambeur (1955), que abre com a voz solene do próprio Melville anunciando: «Como foi contado em
Montmartre, eis a curiosa história de ... Bob, o incendiário!»;
Le Samourai (1967), com Alain Delon;
Le Cercle Rouge (1970), com Alain Delon de novo, na pele de um ex-condenado, Yves Montand, o ex-polícia alcoólico e Gian Maria Volonté o prisioneiro em fuga.
Considerado o mais americano dos cineastas franceses, adoptou o nome em homenagem ao grande escritor Herman Melville. Começava o pequeno-almoço com Jack Daniel`s, idolatrava William Wyler, considerava a América a sua
baleia branca e conhecia de cor cada metro quadrado de
New York, onde fizera filmagens para
Deux Hommes dans Manhattan, (1958).
A sua perversa ironia, a preocupação com a violência e grupos de minorias bem como o seu interesse por determinados códigos de comportamento, fazem de Melville um realizador pioneiro no que pode considerar-se
cinema d`attitude. Godard presta-lhe homenagem em
Breathless onde surge numa fugaz aparição para dizer que a sua maior ambição na vida era «tornar-me imortal e depois morrer». Desaparecido em 1973, a obra de Melville pode ser revista ainda hoje, na sua essência conceptual, em realizadores como John Woo ou Quentin Tarantino.
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