31/01/07

O Efeito Chinês, por Pato à Pequim

Sócrates e uma diligente comitiva estão prá china. É pena que não fiquem por lá, mas era chato prós chineses... Ainda mal chegaram e os disparates já começaram a suceder-se. Não sei se é do jet leg, mas o ministro da economia, o inenarrável Manel Pinho, resolveu vender Portugal aos empresários chineses apresentando-nos como «o país de mão de obra mais barata em toda a Europa». Lindo!

Entretanto, pensa-se que na ânsia de atrair investimento chinês, Sócrates e a sua comitiva decidiram que não se tocava na questão da violação dos direitos humanos nesta visita aos cataios. A China tem um cadastro absolutamente vergonhoso nesta matéria: Tianamen, Tibete, perseguições e prisões políticas, recorde mundial absoluto de condenações à morte com um número que supera os executados oficiais em todo o restante planeta, perseguições religiosas, recusa da liberdade de expressão, pena de prisão efectiva por simples consulta a determinadas páginas da net, etc, etc, etc.Tudo tabus para o governo português. O silêncio é ruidoso, a indignidade chocante. Os direitos humanos são pra pregar por cá ou nos elegantes fóruns europeus onde fica bem mandar umas larachas retóricas. Mas na china, em vez da denúncia, opta-se pelo silêncio cúmplice das ratazanas.

Estranho efeito o do império do meio nos pigmeus governantes do nosso Portugal pequenino! Parece que, para o governo português, as verdades ditas na china são diferentes das verdades defendidas em Portugal: quando é para discutir salários com os sindicatos, o mesmo Pinho ( e o Sócrates maioral), vem defender que ganhamos bem demais e que há que apertar o cinto. Na china, pelo contrário, estamos ao nível de um qualquer bangladesh europeu... Em que ficamos, afinal? Somos pobretanas em versão chinesa e ricalhaços em versão portuga?

Não se percebe esta pelintrice de nos apresentar como mercado atractivo pela baixa remuneração da mão de obra, ao invés de se apostar no argumento da sua qualificação. Não é isto que nos pregam por cá, com o choque tecnológico e outros delírios mais. E o mal tá feito: estamos apresentados internacionalmente como uma espécie de rival em versão europeia do Paquistão, da índia ou do Bangladesh… Não há uma segunda oportunidade para causar um boa primeira impressão. A China confirma-o: somos governados por contabilistas sem cérebro.

Seka, Uma Carreira Curta, Mas Bem Recheada, por Minetauro


Conheci a Seka numa daquelas tardes frias, cinzentas e chuvosas de Inverno, em que não me restava outra alternativa, senão poupar o dinheirito do almoço da cantina e abancar na sessão da seis da tarde do Avenida.

Ultrapassado o porteiro, enganado pela altura e pela largura, a Seka evoluía no écran tamanho-família. Alta, matrona, fora do estilo de medidas perfeitas da Playboy, a menina distinguia-se pelo cabelo de um louro esbranquiçado e pelos olhos amendoados de intensas promessas. E a menina prometia e cumpria. Na tela, um John Holmes descomunal garantia a validade da peregrinação. Hoje a Seka, estrela maior do cinema porno dos anos 70 e 80, está quase esquecida por cá, mas nas Américas, a menina mantém o estatuto de Porn Star da Golden Age Of Porn.

Estreou-se em 1978 com 3 filmes, arranca para 12 em 1979 e explode em 1980 e 1981, com 23 e 32 filmes respectivamente. Em 82, fica-se pelos 12 e retira-se por motivos de carteira, cash mesmo. Ainda faz mais umas perninhas anos depois e em 93, retira-se em definitivo. No total, passeou a sua bissexualidade por 134 filmes. Em 2002, dois realizadores suecos, fizeram um Documentário brilhante e premiado, o “Desperately Seeking Seka”.

Ao lado de John Holmes, a retirada e desaparecida, brilhava intensamente. Não se recusava a nada e fazer isso com The King, é obra. Só para verem da popularidade da miúda, diga-se que há sites na net onde se discute se o nome artístico de Seka, vem do servo-croata para “Litle Sweetheart” ou do sul-africano Sesotho para “Symbol”. A jurisprudência divide-se. E registe-se mais um pormenor: a Seka foi pioneira, 15 ou 20 anos à frente do seu tempo, na rapagem total da capilaridade na zona de aterragem. A bem da visibilidade, os pilotos agradeciam.

O início da carreira da menina tem uma faceta engraçada, que passa por um espírito quase missionário e pela evolução que a Golden Age sentia na altura. Uma das coisas em que a malta do Porno acreditou é que, depois do sucesso do “Garganta Funda”, e da intelectualização do “Atrás da Porta Verde” e outros, era a inevitável chegada do Porno às grandes produções e ao main stream artístico. Isto é, ao atingir do estatuto de “Arte”. A “Oitava Arte”. Por exemplo filmar a Madame Bovary em plenitude de romance, sentimento e exaltação, mas onde facto se visse a Madame de joelhos making a Blow Job! OhYé! Chiça, o que se perdeu pelo caminho!

Voltando à Seka, a menina bebeu desta ilusão dourada. Nos finais dos anos 70, vamos encontrar a nossa pequena, na gerência de várias livrarias porno, e a queixar-se aos seus fornecedores de vídeo, que as actrizes não só eram mais feias que ela, mas que também não sabiam actuar. Se bem o disse, melhor o fez e zarpou para Los Angeles, proclamando que queria a elevar a performance artística a níveis nunca antes alcançados. E isso, que me desculpem os puristas, via-se e sentia-se. A Seka era uma actriz por inteiro. Aquilo não era só sexo, mas arte. Arte total. Os seus filmes tinham sempre história, enredo, traição e redenção. E eu queria ver, se a Meryl Streep no Kramer contra Kramer além de chorar, fosse obrigada a ajoelhar. E a engolir.

Bem, seja como for, de boas intenções está o inferno cheio e nem a Seka, nem a Golden Age chegaram lá. Hoje a nossa menina, Dorotheia Hundley Patton, a respeitável senhora de 52 anos da fotografia ao lado, é uma activa mulher de negócios e vive em Kansas City. Ao show televisivo “Saturday Night Live” declarou que: "If I changed anything about my past, I wouldn't be the same person I am today, and I like Me today."

Ora nem mais. Assume o passado por inteiro e diz que sempre gostou de fazer porno. Ao invés de outras, nada renega e não vem agora dizer que foi violada, obrigada e estrafegada. Gere o seu lucrativo Clube de Fans como mulher de negócios que sempre foi. Aliás, já em 1982, no auge da carreira, retirou-se dos filmes, quando entendeu que não lhe pagavam o que ela achava que merecia. E tinha razão porra, anal com John Holmes e só 7000 contos por filme? Forretas do catano! Abandonou e fez muito bem! O cu a quem o trabalha!

30/01/07

Tó da Boneca, por Heresiarca


O Tó da Boneca e a Boneca vivem juntos na Aldeia há já muitos anos: Não nasceram na Aldeia, mas vivem lá, junto ao café e ao largo da fonte e das festas. Por piedade para com o Tó da Boneca, a Aldeia rapidamente adoptou a Boneca e o Tó. É que a Boneca não brinca em serviço. Mais alta vinte centímetros que o Tó, abalança-se ainda a uns bons 140 kilos apneuzados e encimados por umas fuças peludas. Duas verrugas rematam a coisa. Tava-se mesmo a ver, não? Boneca? A Aldeia nestas coisas não brinca em serviço e é particularmente cruel. Mas a Aldeia admira o Tó da Boneca. Por respeito à desgraça. Até porque a Boneca, meia volta e com voltas completas, espetava grandes serapilheiradas no Tó. Era frequente o Tó da Boneca sair de escantilhão pela porta da rua e com as manápulas da Boneca marcadas no toutiço. Valia-lhe a solidariedade da Aldeia. Que sabia que o Tó sempre perdoava à Boneca e voltava. E a Aldeia valia-lhe até ele querer voltar.

O Tó da Boneca é tipo pequeno, meio rechonchudo, bigode cultivado à Hitler e andar gingão, que se prolongava pela pedaleira roda 28, único bem que a Aldeia lhe conhece e que a Boneca lhe permite.

Há dias o destino cruel abateu-se sobre o Tó da Boneca. Por falência do Armazém onde trabalhava há anos como fiel de arrumos e trastes esquecidos, o Tó da Boneca foi despedido. E perante a notícia, lá levou mais umas serapilheiradas da Boneca. Que o deixou em casa prostrado e abalou pró café. Nisto, toca o telefone e o Tó da Boneca atende.

Era a empresa Bifidis a comunicar ao Tó da Boneca que lhe tinham aprovado um crédito automático de 10.000,00€ e que bastava dizer “Sim” para lhe depositarem o valor na conta por onde recebia o ordenado. Não se sabe bem o que se passou depois. Adivinha-se que houve um “clic” no Tó e um “Sim” prá Bifidis, que salivava com os 20 anos de emprego e salário certo do Tó. Ao certo, sabe-se que o Tó da Boneca abalou e desapareceu da Aldeia e da Boneca por 15 dias e que a Boneca o andou a procurar pelos becos de mangas arregaçadas. Mas do Tó, nada. Mistério.

Mas agora o Tó da Boneca já voltou. Com um sorriso de orelha a orelha e com um bronzeado de luxo. Recuerdos e fotos não faltam e a Aldeia delicia-se com as aventuras do Tó da Boneca em terras do Brasil, com hotel de estrelas upa-upa, banhos de sol e mar, lagostada e putedo do melhorio. Numa quinzena tropical, o Tó da Boneca arrebentou com os 10.000,00€ da Bifidis, abençoada Nossa Senhora do Crédito Automático e Telefónico, que tirou o Tó das sandes de chouriço e das manitas da Boneca e o pôs de papo pró ar, caipirinha na mão a gozar os abrochanços de mulatas pagas a peso de oiro. Até de orgias e banhos de champanhe, fala o Tó da Boneca, que nisto de gostos, as telenovelas não deixam escapar ninguém e democratizam tudo.

A Aldeia delira e espoja-se com os relatos do Tó. A Boneca fechou-se na casa, onde o Tó não voltou. “ – Depois daquilo, coméque posso voltar prá Boneca?”, pergunta o Tó da dita. E não volta, mudou-se para um quartito. E muda de passeio quando vê a Boneca. E a Aldeia protege o Tó da Boneca. O gozo é infindável. E a Aldeia ainda espera o jackpot. É que a primeira prestação da Bifidis já se venceu. A Aldeia aguarda pacientemente a chegada dos credores do Tó da Boneca. Não lhes queria estar na pele. Vai haver tourada.

29/01/07

Não Se Pode Enforcar Um Homem-Tronco, por PercaDoNilo



“(…) - Estou a pensar no aleijado. Que presunção! A quem lhe der ouvidos até há-de parecer que as mulheres andam mesmo atrás dele.
- Não te esqueças, senhor oficial, de que aquele mendigo, por causa das mutilações, representa uma mina de ouro. As mulheres que o cortejam são interesseiras.
- Seja como for! Uma criatura tão hedionda!
- Não há nada que seja hediondo. Este homem-tronco faz amor tão bem como qualquer outro. E até melhor, se bem entendo e a julgar pelo que me foi dado ouvir. Digo-te eu que os gritinhos de volúpia da mulher não eram fingimento. E confesso ser tal coisa bastante animadora.
- A que chamas tu animadora?
- Olha - disse Gohar -, reconforta saber que até um aleijado como aquele pode dar prazer.
- Semelhante monstro?!
- Este monstro tem sobre nós uma vantagem, senhor oficial. Sabe o que é a paz. Não tem nada a perder. Pensa-me só nisto: não há nada que alguém lhe possa tirar.
- Pois tu julgas então que é preciso chegar a esse ponto para uma pessoa ter paz?
- Não sei - respondeu Gohar. - Talvez seja necessário um homem tornar-se homem-tronco para atingir a paz, para a conhecer. Imagina só a impotência do Governo perante um homem-tronco. Que poderá o Governo contra ele?
- Pode enforcá-lo - disse Nur El Dine.
- Enforcar um homem-tronco! Não, Excelência, de maneira nenhuma. Não há governo nenhum com humor para isso. Seria belo demais. (…)”

Este diálogo foi extraído do livro “Mendigos e Altivos” de Albert Cossery. Cossery é um escritor algo esquisito, inclassificável mesmo. Nasceu e cresceu no Cairo e mantém ainda a nacionalidade egípcia, mas há mais de 60 anos que se auto-exilou em Paris, onde teve como compinchas de boémias Albert Camus e Jean Genet. Escreve em francês, mas todos os seus livros remetem para o Egipto em geral e o Cairo em particular. Filho de pai francês e mãe árabe, foi educado no Cairo em escolas francesas. Apesar da educação e do exílio francófono, a cabeça de Cossery e a sua escrita nunca abandonaram os bairros e as gentes miseráveis do delta do Nilo.

Cossery diminui as mulheres, e faz a apologia do sono, da sesta e do silêncio. Nos seus livros não há grande história ou intriga intensa. Existem alguns incidentes e depois Cossery faz desfilar diante de nós toda uma panóplia de personagens fabulosas. Como a acção é escassa, as páginas vão-se virando com falas, pensamentos e formas de estar. Com Cossery está-se. E no entanto, tudo acontece. As personagens são do mais abjecto, marginal, desprovido e preguiçoso que se possa imaginar, mas Cossery fugindo aos estereótipos da lamechice realista, constrói a partir delas uma realidade poética e apaixonada. A ironia, o sarcasmo e o gozo a tudo o que seja poder, instituição, ordem ou progresso é uma constante. O moderno, o herói, o conquistador ou o sucesso, tudo merece de Cossery o mais profundo desprezo. A adjectivação é excessiva e assumida.

No mais é ouvi-lo. Já li tudo o que dele se publicou em português, há alguns de que não gostei, mas há três deles que são puro prazer de leitura: “Mendigos e Altivos”, “Uma Conjura de Saltimbancos” e “Os Homens Esquecidos de Deus”. Aqui ficam alguns excertos:

“(…) O guarda Gohloche tinha nascido carrasco. Os seus olhos reflectiam uma estupidez que matava. (…) O guarda Gohloche personificava a maldade mais detestável: a maldade posta ao serviço dos grandes da terra. Uma maldade paga. Já não lhe pertencia. Tinha-a vendido a gente mais competente que a usava para subjugar e mortificar todo um povo miserável. Já não era senhor da sua maldade. Devia conduzi-la e dirigi-la segundo certas regras cuja atrocidade não variava.
O guarda Goloche morava na viela Negra, mas exercia as suas funções de tirano no centro da cidade europeia. E era para ele uma espécie de morte. Definhava. Num meio assim, frequentado geralmente por europeus, a sua vigilância encontrava sérios obstáculos. Não podia expandir-se à vontade. E então Goloche transferia o seu ódio para tudo o que o elemento indígena fornecia em matéria de escravos: vendedores ambulantes, mendigos, pequenos apanhadores de beatas, leprosos, cegos e toda a tribo de vagabundos que não conseguiam morrer porque se levava muito tempo a matá-los. Essa escória, vinda de toda a parte para dar à cidade europeia um ar de Oriente exótico, era numerosa. Um abençoado alimento para os olhos dos turistas. Mas o guarda Goloche não era turista e não entendia nada de exotismos. (…)”

“(…) - Que bem escreves - disse a moça. - Bem se vê que andaste na escola.
Ele respondeu sem a olhar:
- Pois andei. E tu, não andaste na escola?
- Ora, por que havia eu de ir à escola? - respondeu Arnabá em tom de desprezo. - Eu cá sou uma puta. Quem tem um bom traseiro não precisa de saber escrever.
- Tens razão - disse Gohar. - Nunca ouvi nada mais acertado. (…)”

“(…) É muito simples, vou dar porrada na minha mulher -, declarou Hanafi com voz sombria e fatal. - Não há outra coisa a fazer.
- Porquê? É ela que tem o dinheiro?
- Não, quem o tem é a minha sogra. E é uma pessoa de bom coração. Não gosta de ver bater na filha. Percebes? (…)”

“(…) Abou Chawali aborda o assunto que o traz preocupado.
- Procurei-te, efendi Gad, para te falar de um perigo que ameaça o mundo dos pobres.
- Que perigo, mestre?
- O perigo da fantasia.
- Fez-se um silêncio, durante o qual Gad tenta escapar ao professor. No fundo, o meio onde é obrigado a viver horroriza-o. Sente um nojo instintivo por todo esse mundo real e miserável. Gosta mais de se divertir em situações extraordinárias. O domínio da fantasia é tão variado. Pensa na galinha de penas douradas e olhos de mulher voluptuosa, que de súbito desapareceu. Há na vida coisas fantásticas e Gad gosta dessas coisas. No entanto, volta-se para Abou Chawali e pergunta com um ar interessado:
- Que estavas a dizer, mestre?
- Dizia, efendi Gad, que para nós a fantasia é um perigo. Precisamos de outra coisa.
- E de que precisamos nós, mestre?
- Precisamos de realismo -, afirmou com força Abou Chawali.
A palavra realismo paralisa todas as faculdades de Gad. Não sabe que responder. Pergunta a si próprio se não faria bem em falar ao professor da galinha dos olhos magnéticos, que tentou seduzi-lo como uma prostituta. (…)”

Com Cossery, o Cairo esquecido de deus, entra-nos pelos olhos dentro. A sordidez e o absurdo caminham de mão dada com uma vida pujante e demente. É uma terra estranha, com uma vida estranha aquilo que se nos entranha a cada página. Páginas onde é rei um homem-tronco, garanhão de fêmeas sedentas de tudo. Um homem impossível de enforcar, como diz Cossery. Ninguém tem um tal sentido de humor. Seria belo demais.

25/01/07

A D. Lurdes e o galo de Barcelos, por Óscar Galo

A D. Lurdes anunciou um prémio para o “melhor professor” no valor de 25 000 euros a atribuir por um júri presidido por Daniel Sampaio. Segundo o «Público», a ideia é copiada da Inglaterra (então a Finlândia?), onde são atribuídos como se fossem uma espécie de Óscares com transmissão televisiva e tudo: os UK Teaching Awards
A presença do psiquiatra é risível. A instituição do prémio mostra como a D. Lurdes pretende, com 25 000 euros, branquear o dano imenso que causou ao país ao acusar de forma irresponsável e demagógica toda uma classe pelos males da pátria.
A história da irresponsabilidade da D. Lurdes conta-se assim: certo dia, chegou ao ministério com uma arrogância missionária e semeou um vendaval. Estava tudo mal! A D. Lurdes, a iluminada da sociologia das organizações, tinha a solução para meter tudo nos eixos. A culpa era dos preguiçosos dos professores. Ela tinha a determinação, a visão, o saber e o sentido de missão. Uma era nova foi prometida. A D. Lurdes disparou em todas as direcções. Imaginem uma cozinha desarrumada quando a sogra chega para passar o fim-de-semana. Ao chegar, põe defeito em tudo, arroga-se especialista em arrumação de cozinhas, e declara a necessidade de pôr fim àquela vergonha: dinamite! Booom! Vai tudo pelos ares. No fim, enquanto a poeira ainda mal se esvaneceu, a D. Lurdes aparece sorridente, acompanhada pelo servil Sampaio e pelo inefável Valter, com um galo de Barcelos para pôr em cima do frigorífico!

24/01/07

Esmeralda, por Pedro Lima

ESMERALDA,
Ou inquirição diletante sobre a intolerância e a tirania da turba enquanto se espreitam os alegres caminhos do totalitarismo,
tudo a propósito de sucessos recentes
havidos no reino de Portugal

Este pobre Portugal não é assim tão diferente dos demais países à sua volta e é cada vez com maior frequência varrido por ondas de vigorosa indignação. Calha sê-lo agora, uma vez mais, a propósito de uma miudita e dos acontecimentos judiciais conexos com o seu conturbado destino e o das pessoas que sucedeu envolverem-lhe a existência. A questão merece, como poucas, algumas reflexões que relevam do concreto caso humano, evidentemente, mas que se extrapolam facilmente para ilustração da degenerescência ética e política de um povo e, muito em especial, das suas supostas elites culturais e sociais.

A crédito de uma exposição opinativa serena, creio ser de extrema utilidade estar alerta para os perigos da “indignação” fácil e pronta a usar - sob a máscara simpática dela ficam com frequência ocultas as fauces bestiais da intolerância. Para exemplo, como se fosse preciso, ocorre trazer à colação um recente facto da luta política do momento e que, da forma habitual, passou despercebido.

Um certo líder político partidário exprimiu a sua opinião sobre uma questão que vai ser submetida a referendo, em concreto e por miúdos dizendo que se uma determinada conduta, por ora criminalmente ilícita, representa (e na sua opinião representará) um mal objectivo, então não é por ser frequentemente levada a cabo em clandestinidade que deve ser descriminalizada, para que deixe de ser clandestina. Ilustrou o argumento com o tráfico de droga e outras malfeitorias. Uma outra dirigente partidária logo reagiu manifestando publicamente a sua... “indignação”, pois claro! Dispensou-se, está bom de ver, do rebatimento (obviamente possível) de tal argumentário, porventura contrapondo-lhe outras razões também decantadas pela lógica (como se faltassem). Talvez tivesse em mente os mecanismos discursivos da intolerância e da opressão, ou talvez não; certa, no mínimo, é a vantagem que no tempo contado do espaço comunicacional dos media uma indignação fulminante de Vestal ultrajada proporciona, relativamente a um argumento racional que a multidão pela maior parte toma por obscuro... O que sobra, e a muita gente não importa, é a implícita relegação do adversário, que apenas usou um argumento, melhor ou pior mas racional e compreensível, para a categoria cada vez maior das pessoas que fazem ou dizem coisas vis e indignas, podendo por isso ser desabrida e brevemente despenhadas pelas ravinas da ignomínia.

As ligações íntimas destas metodologias argumentativas, por assim chamar-lhes, com o totalitarismo, são coisa velha e relha, foram a matéria das indagações de muitos sábios e tema de grandes escritores, dos quais destaco apenas o grande Orwell, de quem tanto se fala mas que é tão mal conhecido. Fenómenos modernos como a political correcteness ou, para o que neste escrito interessa, a fúria indignada da multidão em relação a um assunto que manifestamente não domina nem está na sua natureza dominar, são manifestações epidérmicas mas reveladoras de uma corrente profunda de desagregação dos valores que tornaram a Polis apenas suficientemente refractária à barbárie. No que me respeita, trazem sempre à recordação, e respectivamente, a “novilíngua” e os colectivos “momentos de ódio a Goldstein” de «1984» - nunca deixa de surpreender, o valor heurístico e profético deste livro.

Quando refiro totalitarismo, mais do que mera ditadura ou até tirania, meço a palavra e procuro dar-lhe o seu real valor de uso, não o do seu constante abuso. O que está por baixo daqueles fenómenos e os motoriza não é um simples projecto social, organizado ou difuso, de imposição heterónoma de poder, cultural e ideológico ou de Poder tout court. É a vontade de conduzir a sociedade a uma uniformidade de pensamento, forçar o conjunto e cada um dos indivíduos a aderir activamente ao projecto social global e total, assumindo as linhas de força ideológicas que o caracterizem – fazer enfim o Homem Novo, alegre e acrítico papagueador das verdades produzidas pelos Grandes Irmãos do momento – ou, no nosso tempo e como já se lhes chamou, os gestores atípicos da moral colectiva, que são afinal aqueles com o poder mediático de difundir maciçamente os seus programas ideológicos simplificados, decidindo dogmaticamente a correctness, para consumo célere das massas. A liberdade de consciência, a opinião livremente formada de cada um, a dissensão ideológica, tudo isso será no fim nada mais do que o fruto doentio de uma qualquer disfunção social, uma patologia a ser objecto de estudo dos sociólogos e dos psicólogos, reclamando assistência terapêutica quando não tratamento policial e judiciário.

Vindo então ao caso do momento, àquele que, referido na “novilíngua” agora em uso e conforme às últimas edições do “Dicionário”, tem apaixonado a opinião pública, comece por atentar-se no espectáculo com que a “tele-tele” do Estado brindou a Nação, certamente pela maior parte entusiástica. Em jeito de jacquerie moderna, desta feita não conduzida pelo sans cullote da gadanha e sem sangueiras, mas antes por uma mais pacífica apresentadora televisiva, fardada em competente tailleur e de microfone em riste, teve lugar um linchamento da Razão. Uns puderam ser percorridos por frémitos de “debate público”, volúpias de “democracia participativa” e, em geral, vibrantes delícias de fulgurante empenho solidário com “o outro” e o “bem comum”; outros, muito simplesmente, tiveram medo. Como fui destes últimos, e confessando os meus débitos à virtude da coragem, não tive frieza de ânimo (e nem paciência, já agora) de sofrer a coisa até ao fim.

Incompletos embora, os meus tormentos, ainda assim pesados, conjugados com o que do “caso” já fui percebendo (e não seguramente pela “informação”...), permitem-me algumas conclusões – na quais deixo de fora a matéria da condenação de um sargento do Exército, pelas simples razões de que ignoro se o crime era aquele que lhe valeu a pena, ou outro e qual, ou se a dita pena foi muita ou pouca e nem essas candentes questões são as que aqui me importam.

Um cidadão (homem, e por isso predisposto à maldade), manteve um relacionamento aparentemente fugaz e porventura intermitente com uma certa cidadã (mulher, e logo presuntivamente uma vítima da sociedade e/ou de circunstâncias adversas). Só por aqui, já podemos ver como o enredo está desde o seu tenro alvor a fazer-se propício à intervenção dos costumeiros campeões das “questões fracturantes”...

Desse relacionamento é gerada uma criança, única inocente segura desta estória, já que há indícios de o pai (além de homem, como sublinhei) não ser ou não ter sido ao tempo pessoa de hábitos sociais os mais recomendáveis e que a mãe (apesar de mulher) mais provavelmente ainda se fazia objecto dessa censura – nem falando (por agora) do que depois fez.

Fosse como fosse, o dito cidadão, um qualquer Baltazar deste nosso Portugal, sem as dignidades régias e mágicas que o nome possa sugerir, enveredou pela incompreensível atitude de duvidar da sua paternidade e, ofendendo a pudibunda sensibilidade da mãe e de quase todo o seu sexo, porventura admitiu que no chamado “período legal da concepção” o relacionamento da senhora consigo não tivesse sido marcado pela exclusividade. Animado por essa misógina, ofensiva mas não insólita ideia, dispôs-se apenas, o vilão, a reconhecer a criança como filha e assumir as correspondentes obrigações em se provando que era efectivamente sua filha.

Outros, por certo melhores e mais valiosos cidadãos do que este insignificante e maléfico Baltazar, em especial se estrelas da música pop, das telenovelas ou do desporto forem, viriam nos sapatos dele a ser confrontados com a obrigatoriedade de cuidarem da criança, mesmo que a enjeitassem em definitivo e não só em forma condicionada; não foi essa a desdita do nosso Baltazar, que nem por isso ficou melhor. Adiante.

A mãe é que não esteve para delongas. Em poucas palavras e nenhumas trapaças, foi ao notário, reconheceu assinatura em título de doação de filho, e vai daí ofertou a insciente infanta, sem dúvida do seu sangue e da sua carne, a um casal de pessoas em tudo melhores que o dito Baltazar (apesar de uma delas ser homem). Estas receberam-na acompanhada da documentação e, talvez convencidas de que o registo é mera condição de eficácia perante terceiros, não beliscando a validade da aquisição, começaram a cuidar carinhosamente da nova filha – não duvido por um segundo de que genuinamente amorosas e empenhadas no bem estar dela.

Porém, o destino, tecedor de mil ardis e inexorável, não calhou em esquecer o Baltazar. Com a lentidão própria destas coisas, o processo de averiguação de paternidade lá seguiu (do registo, feito pela mãe, só esta constava...) e na sua sequência os competentes exames lá comprovaram aquilo em que o nosso cidadão punha dúvida: a sua paternidade. Ora este, se bem o dissera melhor o fez – cuidou logo de perfilhar a criança (não foi necessária acção de investigação) e, mais ainda, de requerer regulação do poder paternal que dela lhe atribuísse a guarda. A mãe, não se imagina porquê e apesar da sua condição de mulher, não se terá apresentado como alternativa válida ao tribunal e, desse modo, o Baltazar lá teve, ao cabo de muitas voltas, aquilo que agora queria.

O tal casal é que não foi pelos ajustes. Indignado, ofendido na sua expectativa de prescrição aquisitiva de filha, foi recusando a entrega da pequena ao seu pai. Fundado na evidente prevalência da sua alta “paternidade de afecto” sobre a mera e baixa paternidade simplesmente biológica, argumentou, pouco mais ou menos, que o superior interesse da infanta era continuar consigo e, ao cabo de período deveras longo, lembrou-se de ir ter com os serviços de segurança social para desencadear mecanismos de adopção.

Por essa época, todavia, já do registo constava a incómoda paternidade biológica e já o Baltazar, de colmilhos afiados, reclamara a atribuição do poder paternal que mais tarde lhe veio a ser deferida. O que não impediu os serviços de segurança social, em outro processo, de exprimirem o parecer de que a criança deveria ser confiada ao falado casal, com vista a adopção e porque com ele estabelecera significativa relação afectiva, sendo por outro lado alvo do desinteresse dos pais biológicos. A mãe, pobre vítima, coitada, mulher, porque decerto não podia cuidar da filha e ao oferecê-la com alvará notarial até praticou um acto de amor, tão boas e amáveis eram as pessoas a quem a doou; o pai, esse homem, malandro, porque nem procurou os serviços. Minudências tais como o facto de esse procedimento não ser público nem publicitado, referidas no acórdão em que se condenou o garboso sargento, nada atenuam da torpeza do Baltazar: ele nem sequer procurou os serviços, logo votou à criança o seu desinteresse, habitual nos homens, e anda a perfilhar e a requerer regulações de poder paternal só para exprimir a sua insondável maldade.

O tribunal é que não quis saber de coisas. A filha é do Baltazar e o casal tem de entregar-lha. Destroçados, sempre preocupados em exclusivo com o superior interesse da criança, de boa fé ignorantes das formalidades devidas em trocas de filhos e nem por um momento tendo pensado em furar a fila dos candidatos a adopção deste país (tais baixezas não os movem), o sargento e a esposa não admitem a possibilidade de “devolver” a filha doada a non domino e não querem saber de transições e mecanismos de minimização dos traumas da transferência; a criança continuar consigo é o Bem, entregá-la ao mero pai biológico é o Mal, e nessa dicotomia não se hesita. Não entregam. Mudam de residência. Fecham as portas. Fogem. Em cima da criança é que o Baltazar e já agora o tribunal ou a polícia não hão-de pôr os olhos. E não põem, que a pequena está desaparecida, com a esposa do sargento.

Em tudo isto vão dois anos e meio e a criança ainda com sucesso está subtraída às garras do hediondo Baltazar, maléfico duvidante de paternidades. A “opinião pública” comove-se e indigna-se quando este honrado sargento, sacrificado em novo desmando dos tribunais, vem a ser condenado pela insensível e inepta justiça em pena de prisão. E mais se indigna e comove quando se dá conta de que em causa está o amor de uns “pais adoptivos”, qualidade subitamente reconhecida ao sargento e à esposa, confrontado com a descartável paternidade “apenas” biológica do Baltazar, que a princípio até duvidou de ser pai. Razão principal proclamada: a criança está há tanto tempo com o casal (dois anos e meio furtada ao pai contra direito dito) que entregá-la finalmente seria já traumático para ela...

Sendo estas as causas eficientes da recente comoção pública, a culminar na aludida jacquerie televisiva, não sei o que nesta mais me perturbou. Por um lado, a multidão a espaços vociferante e a quem a Maria da Fonte de escala, com a habitual autoridade em fazer perguntas e exigir respostas capazes, arrancou sucessivos aplausos com punch lines mordazes, do estilo “então e a justiça em vez de aplicar as leis não devia ser mais humana nestes casos?” ou, mais subtis ainda, “mas enquanto os exames se faziam a criança precisava de comer, essa é que é essa!”. Por outro, cidadãos supostamente responsáveis e alegadamente sapientíssimos em matéria de infância a avançar em termos gerais propostas como a da prevalência da “paternidade dos afectos” sobre a biológica, meramente acidental. Por outro ainda, e o pior de tudo, algum temor denunciado no rosto e nas palavras de uns poucos que, como quem é oferecido em sacríficio, ousaram ainda assim dissentir das evidências ditadas.

Como disse, o que vi chegou-me. Já não tenho ilusões e nem remo contra marés, mas posso fazer algumas observações, à reflexão de quem ainda saiba usar o cérebro:

Uma: a filiação adoptiva, que é um bem, não é (para já...) uma alternativa à filiação biológica, que é a natural – é subsidiária, isto é, um recurso de que se lança mão quando a biológica não corresponde ao padrão mínimo exigível;

Duas: se quem urde a constituição e as leis assim o quiser, pode ser verdadeiramente alternativa, e pode até já imaginar-se que quem quer ser pai vá ao hospital e traga de lá um filho, seu ou de outro tanto monta, e mesmo que não tenha feito nenhum. Ao fim e ao resto a ligação biológica não é relevante e os “piores” pais (os mais feios, porcos e maus e, porque não dizê-lo, pobres) é que ficam sem crianças;

Três: em casos de dúvida, faz-se um telecomício em que todos possam exprimir a sua inequívoca adesão aos padrões da correcta bondade, vituperar alguns convidados para bobos de serviço e suficientemente incautos para comparecer, no fim decidindo-se a votos dos presentes, de braço no ar, a cassação ou não das decisões judiciais, por definição propensas ao erro e demoradas em considerandos de difícil compreensão.

Há muitos anos Aldous Huxley congeminou uma coisa parecida no memorável «Brave New World». Tenho dúvidas de que muitos ou a maior parte dos que agora se “indignam” quisessem realmente viver num país assim. Eu não quero.

23/01/07

Jean-Luc Godard: «Le Mépris» (1963)



Jerry: [Jack Palance]:
Whenever I hear the word culture, I bring out my checkbook.
Fritz Lang [Fritz Lang]: Some years ago, some horrible years ago, les hitleriens disait revolver, aux lieux de carnet de chèques.


Com Brigitte Bardot, Fritz Lang, Michel Piccoli e Jack Palance. À venda na FNAC por menos de 5 euros.

21/01/07

As Faces de Jesus, por Catequista Complicado

Houston Chamberlain (1855 - 1927) nasceu inglês, casou com a filha de Richard Wagner e naturalizou-se alemão. Foi um dos teóricos do racismo moderno, defendeu a superioridade ariana e lançou as bases do antisemitismo. Para Chamberlain, Jesus Cristo era ariano.
Em Dezembro de 2002, a revista Popular Mechanics procurou saber como seria o verdaeiro rosto de Jesus Cristo. Baseou-se no trabalho de alguns especialistas consagrados que já tinham empreendido esforços semelhantes no sentido de reconstituir a face de outras figuras históricas.
Os resultados, ainda que polémicos e muito discutidos, não podem andar muito longe da verdade. O ar pouco familiar com que olhamos para a face reconstruída de Cristo mostra como os disparates de Chamberlain persistem adormecidos sob a capa da nossa consciência colectiva, esse domínio obscuro onde as teorias racistas se enraizaram, dando depois origem às mais negras páginas da história da Humanidade. Nem Chamberlain surgiu do nada, nem os seus disparates se dissiparam totalmente. A estranheza com que olhamos para o rosto provável da personagem mais marcante da nossa Civilização prova isso mesmo. Tal como o estereótipo inventado para corporizar Jesus Cristo no filme de 1973 inspirado no musical de Andrew Lloyd Webber e Tim Rice prova exactamente o mesmo. Refira-se que a caracterização da personagem desempenhada por Ted Neeley se inspirou no fresco de Leonardo sobre a Última Ceia, pois foram os mestres do Renascimento italiano e flamengo que «arianizaram» Jesus Cristo.
FREDRICKSON, George M. : Racismo. Uma Breve História; Porto; Campo das Letras; 2004; p. 137.

19/01/07

Três tópicos acerca da questão do aborto. Por Eusébio Chupaconas

Entre as diversas razões que me levarão a dizer “não” no referendo que se aproxima, interessam-me agora três que não tenho visto suficientemente explanadas:

a) Em primeiro lugar uma razão histórico-civilizacional. A maior realização da humanidade não foi a conquista do Espaço, nem o microprocessador, nem os avanços da ciência médica, nem qualquer outra maravilha da ciência e da técnica. A maior realização da Humanidade foi a construção da ideia de Humanidade! Foi um percurso longo, feito de árduas conquistas e ainda não concluído. Desde a aurora dos tempos em que nos desbestializámos, iniciamos um processo cultural de construção de uma identidade social e colectiva que, partindo da ideia de clã, foi evoluindo até se gerar a ideia de Humanidade. Um conceito fundado numa expectativa de concretização à escala Universal e na consagração dos princípios humanistas que conferem ao Homem uma dignidade especial, seja na perspectiva judaico-cristã, seja pela via do antropocentrismo renascentista ou do racionalismo iluminista e seus derivados. Ao longo dos tempos, foi-se gerando o que designo como o alargamento progressivo do conceito de Humanidade. Foram sendo integrados os bárbaros, foram sendo concedidos direitos de cidadania aos estrangeiros, aboliu-se a escravatura, dignificou-se o estatuto da criança, combateu-se o infanticídio e o abandono, os deficientes ganharam dignidade cívica e moral, os velhos, os pobres, os mendigos, os não-crentes foram equiparados em direitos e estatuto, aboliu-se a discriminação ditada pela fé, pela raça ou pelo sexo. A emancipação cívica da mulher é das mais brilhantes realizações do género humano, juntamente com a aquisição de direitos cívicos por parte das classes populares, a abolição da escravatura e da pena de morte em muitos países. Combate-se o analfabetismo e a exclusão, a pobreza e a marginalidade. Conferem-se direitos aos idosos e aos loucos. Os doentes comatosos adquirem dignidade. As prostitutas e os toxicodependentes são respeitados. O estigma da homossexualidade tende para a superação. Enfim, e em suma, os avanços são muitos e muito ainda há para fazer. Desde o conceito inicial em que a dignidade era privilégio exclusivo de um grupo restrito até à actualidade, muito se fez. A liberalização do aborto representa um retrocesso civilizacional. Pela primeira vez se tende a legislar no sentido de restringir o processo histórico-civilizacional de alargamento progressivo do conceito de Humanidade, cuja aplicação se procura restringir.

b) Em segundo lugar, considero que a liberalização do aborto se deve compaginar com uma estratégia de domínio social que tem como instrumento a restrição da natalidade. Explico-me: pelo menos desde a emergência do Cristianismo que a definição doutrinária e / ou jurídica de princípios reguladores da actividade reprodutiva se deve associar a uma estratégia de conquista ou manutenção do poder. Isto é, o apelo ao aumento da natalidade e a promoção de políticas de fomento demográfico visam constituir uma base demográfica capaz de sustentar uma política expansionista. Ou então, quando os poderes instituídos fomentam as práticas reprodutivas e incrementam medidas tendentes ao expansionismo demográfico é porque encontram aí a condição necessária para obtenção de mão-de-obra exigida para uma política de enriquecimento das elites pela exploração do trabalho alheio. Desde a Roma antiga até ao Brasil anterior à lei Áurea de 1888, a exploração do trabalho escravo via na reprodução dos escravos uma tendência desejável, dentro de certos parâmetros de segurança, é certo. De um modo geral, podemos dizer que o nosso moderno e à beira da falência “welfare state” assenta sobre este pressuposto: crescimento demográfico contínuo, expansão permanente. Da mesma forma, o capitalismo industrial via na natalidade elevada das classes operárias uma forma de assegurar um fornecimento ininterrupto de mão-de-obra a baixo custa. A moral concepcional e anti-abortiva servia a ideologia do lucro e perpetuava uma desigualdade entre o operário e o capital. O discurso da igreja e do puritanismo burguês era dado como hipócrita. Ora bem, agora, que os pobres e deserdados, que os operários e camponeses, que os doentes e as mulheres, que os miseráveis e os desafortunados se libertaram da miséria e da subalternidade de séculos, agora que adquiriram direitos plenos de cidadania, direito à saúde, educação, assistência médica e protecção social, agora que têm salários dignos, o poder burguês, o que deslocaliza empresas para engordar lucros, o que mecaniza e informatiza para poupar na massa salarial e para dispensar o factor humano, agora vêm-nos dizer que o aborto já não é ilegal, agora promovem políticas de restrição da natalidade, agora encarecem o custo da habitação e da educação, agora dificultam o acesso à assistência médica e à reforma! Agora apresentam o direito ao aborto como uma conquista da mulher! O pior carneiro é o que agradece a chibatada do carrasco. Durante séculos, senão milénios, a promoção da natalidade fundava-se na propagação de uma moral anti-abortiva porque a natalidade elevada das classes baixas perpetuava uma sociedade desigual e colocava à disposição dos exploradores e privilegiados enormes recursos humanos cuja exploração indigna alicerçou a dinâmica expansionista de uma civilização empreendedora orientada pelo lucro e pela acumulação de capital. Agora, que o expansionismo capitalista atinge o seu ponto de insuflação máxima e que o crescimento se faz à custa da dispensa do factor humano e exploração das bolsas do terceiro mundo, o que se relaciona directamente com a aquisição de direitos plenos de cidadania e dignidade nas sociedades do mundo industrializado, vem o discurso oficial dizer: abortai que já não é crime nem pecado. Isto é, o capital já não precisa dos vossos filhos!

c) Porque o capitalismo burguês encarava as altas taxas de natalidade do mundo operário e do campesinato como uma forma de garantir um campo de recrutamento barato e permanente, de explorar portanto a força de trabalho dos operários, a prática abortiva era apresentada como um direito da mulher. A restrição da natalidade era encarada como uma forma de emancipação da mulher relativamente a uma moral puritana e hipócrita que encarava o ventre feminino como uma fábrica de gerar mão-de-obra que iria alimentar a ganância burguesa. Essa moral propalava a virtude e a castidade e praticava a violação e o abuso. Essa moral tornou-se ideológica e encontrou suporte na doutrina da Igreja. A hipocrisia e o abuso, a violação e a prepotência dos poderosos burgueses expressaram-se numa imensa taxa de abandono de crianças e infanticídios, de aborto clandestino e ilegal. Mulheres que eram abusadas pelo poder masculino dominante, pelo patrão. Sopeiras da província que eram violentadas, operárias que seduzidas e logo abandonadas ao seu destino pelo superior hierárquico, jovens que enganadas e depois abandonadas e anatemizadas pela sociedade. O quotidiano dos inícios do século, até aos anos 60, era feito destas práticas e destas indignidades. Álvaro Cunhal, em 1940, no ano da Concordata com a Santa Sé e no ano da comemoração do Duplo Centenário da Fundação e da Restauração de Portugal em que o nacionalismo salazarista, com algumas facetas eugénicas, comemora a sua vocação imperial e estabelece como prioridade a implementação de políticas de fomento demográfico com vista à colonização interna e, principalmente à colonização do Império Colonial, - sendo que mais uma vez as políticas demográficas são subsidiárias de um projecto político - Álvaro Cunhal, dizia, defende a sua tese de licenciatura na Faculdade de Direito de Lisboa. A tese, intitulada «O Aborto. Causas e Soluções», foi recentemente (1997) republicada pela editora Campo das Letras.
Aí, Cunhal apresenta o aborto como um flagelo social, como resultado da submissão social, da exploração económica, do desprezo a que são condenadas as classes trabalhadoras. A legalização do aborto na União Soviética é apresentada como o contraponto. [1] Uma sociedade progressiva, libertadora, que não explora a mulher, onde o operário comanda os rumos da História, onde não há exploradores nem explorados, onde não há hipocrisia moral burguesa, onde a igreja não exerce o seu domínio moral, onde a liberdade da mulher se consumou e onde a vida se entende sob critérios objectivos, socio-históricos, e onde a norma jurídica é objectiva e científica.
Para Cunhal, as elevadas taxas de natalidade no meio operário comprometem os projectos de vida e as estratégias de emancipação. Mais filhos representam mais despesas, mais trabalho, mais submissão à oferta burguesa. O aborto é pois uma condição de liberdade. Além do mais, porque a hipocrisia é total e serve o lucro, aqui se gera uma indústria clandestina de abortos que explora ainda mais as mulheres e as submete à humilhação e à indignidade em condições não assépticas, indignas de uma sociedade higiénica, típicas de uma sociedade de Antigo Regime, insalubre e retrógrada.
Este corpo de ideias, aqui genericamente traçado, ainda hoje constitui a base do argumentário usado pelos defensores da liberalização do aborto. Devo dizer, sem reservas, que até acho que, considerando a época e apesar de alguns aspectos discutíveis, a validade de alguns argumentos era defensável. A União Soviética era apresentada ainda como o paraíso terreal em construção, a terra de todas as promissões. Por outro lado, no ano da Concordata, a aliança entre a Igreja e o Estado Novo Salazarista instituía uma moral retrógrada e limitadora da liberdade individual, nomeadamente ao limitar o divórcio e ao submeter as mulheres à esfera familiar e a um estatuto de subalternidade em relação ao marido, amputando-as igualmente dos seus direitos cívicos. Os abusos e desigualdades eram frequentes e recorrentes. A lei não protegia a mulher nem as crianças. Os maltratos eram frequentes, tal como as violações e as explorações. Hoje, a situação é diferente. A revolução sexual dos anos 60 introduziu profundas alterações sociais, mentais, culturais e políticas. A mulher emancipou-se, a pílula mudou radicalmente os modelos de comportamento, o movimento estudantil, o movimento pop e a contracultura denunciaram as hipocrisias da sociedade burguesa. As mulheres vestiram mini-saia e queimaram soutiens. Começou a falar-se abertamente de sexo e contracepção. Nunca se falou tanto de sexo como hoje. Ao pai burguês já não compete reprimir comportamentos, mas informar. Ao Estado já não compete incutir modelos morais, mas sim proteger e fornecer meios de planeamento e aconselhamento. A violência doméstica está criminalizada, não necessitando de queixa. A mulher tem acesso pleno à educação e ao mercado de trabalho. O assédio sexual é crime. O acesso á justiça é fácil. A educação está generalizada. Já ninguém pode alegar ignorância. Os meios de planeamento familiar são muito diversificados e acessíveis. A informação está disponível em todo o lado. O casamento está dessacralizado e o divórcio é fácil e comum. Já não há o estigma moral do divórcio. A mãe solteira já não é amaldiçoada publicamente, ainda que possam subsistir mentalidades retrógradas. A sociedade urbanizou-se. A lei prevê as situações extremas em que o aborto pode ser praticado: violação, má-formação e perigo para a vida da mulher. Utilizar o argumentário de Álvaro Cunhal nos anos 40 é anacrónico e desresponsabilizante.

Foto: Catarina Eufémia no blog «Estudos sobre o Comunismo»

[1] Nota post scriptum: Reparo agora na necessidade de um esclarecimento. O aborto é legalizado em 1920 na URSS e, ainda que em 1936 Estaline o proiba, as razões da proibição são meramente tácticas e pontuais: tratava-se de forçar o aumento da natalidade para aumentar o número de soldados e trabalhadores. A concepção moral é a que se reflecte na legislação liberalizadora de 1920.

18/01/07

Dos contos do Deserto, por Mangas

Aconteceu tudo de forma muito acelerada. Foi assim: a sangrar às golfadas pelo nariz escaqueirado, o pai pergunta ao filho se quer parar para dar boleia à gaja da mochila, tiram à sorte, partem dois pauzinhos de fósforo, um mais pequeno o outro maior, sai o maior, eles estacionam, perguntam-lhe para onde vai, que passavam por lá, mandam-na sentar entre eles para não incomodar os senhores lá atrás, o filho agarra-a pela mamas, diz-lhe que tem de lhe fazer um broche, senão fica mesmo ali, ela faz, depois trocam e avia também o pai que não larga as mãos do volante, avia os dois várias vezes durante a viagem, paramos algures para meter gasolina e deixar arrefecer o motor.

Ela pergunta ao Miles se ele é músico profissional ou se toca apenas em festas, aniversários e coisas dessas, em seguida, ensina-nos o jogo de adivinhar as matrículas dos carros que vêm sem sentido oposto, e ri-se à gargalhada quando alguém erra os números por um algarismo. O velho muda as estações de rádio em cada vila, aposta comigo que ainda vai matar um cão malhado que se atravessa na estrada, adormecemos à sombra de uma igreja, quando ela acorda diz ao filho que tem sede, arrancamos e paramos outra vez para emborcar um par de cervejas geladas, prosseguimos pelo asfalto em brasa, o velho conduz a derrapar no limite da berma, buzina aos camionistas, a gaja faz-lhe piretes, o gaja e o filho fazem mais habilidade no banco da frente, às vezes ela inclina-se para os nós e pergunta se não queremos também, que nos avia também, os dois ao mesmo tempo, quer-nos a todos como irmãos, quais são os vossos nomes?, trata do nariz ao velho, abraça-o, sobe a capota e põe-se de pé no assento traseiro, abre os braços para espantar o vento que lhe arde nos cabelo, o velho arrota e desencanta uma garrafa de uísque, convence-nos sem esforço a dar cabo dela, massacra o motor aos roncos, sabemos todos que aquilo não dura sempre, no rádio Neil Young atravessa a planície de um lado ao outro, guitarras canhotas aos berros, o Miles improvisa que se farta, até dói ouvi-lo!, o som metálico dos pistons mistura-se com o trompete, uma espécie de percussão ritmada e gasta, o velho e o filho deliram com aquilo tudo, a gaja contorce os ombros enquanto abana a cabeça, levamos todos os olhos raiados de sangue e um espírito animal fora da jaula que nos guia pelas nuvens destroçadas e pelo pó dos ossos esbranquiçados no deserto.

16/01/07

Umas perguntas sobre o referendo que se aproxima. Por Eusébio Chupaconas

Porque razão é que a decisão de abortar se prevê da exclusiva responsabilidade da mulher?

Um marido enganado pode exigir da mulher que ela faça um aborto? Se ela aceitar, o pai não tem direito de recurso? Se ela recusar, o marido pode recorrer?

Se um embrião não é vida humana é o quê?

Se um ovo de uma espécie em vias de extinção merece protecção legal, porque razão é que um embrião humano, até às 10 semanas, não merece protecção da lei?

Se o “sim” ganhar no referendo, as mulheres que pratiquem o aborto a partir das 10 semanas serão criminalizadas?

No caso de uma grávida menor de idade, quem decide sobre o aborto? E se houver conflito de opinião entre a mãe e o responsável legal? No caso de a mãe não querer abortar, que medidas de protecção o Estado lhe concede?

Se o “sim” ganhar de forma não vinculativa, haverá novo referendo?

O aborto será comparticipado pelo SNS? Quantas vezes é que uma mulher terá direito à comparticipação? Em caso de reincidência sistemática, o SNS pode cancelar a comparticipação? Qual a prioridade clínica em termos de atendimento? Haverá objecção de consciência?

No caso de o “sim” ganhar, as clínicas clandestinas serão encerradas? Haverá um registo com atestado clínico que comprove ter sido realizado nos prazos prescritos na lei?

Ou é mesmo liberalização e todas estas questões se tornam irrelevantes?

15/01/07

O Velho e os Touros, por Mangas

No Verão de 94 colei com pedaços de adesivo um postal na parede do meu quarto, por forma a poder alcançá-lo com o olhar sempre que me apetecesse. Uma máquina de escrever vermelha com uma folha enrolada até meio e sobreposta a uma paisagem de fundo com palmeiras, onde voam outras duas folhas brancas levadas pelo vento. A folha enrolada e pronta a receber o martelar das teclas, tem três buracos no topo. Três balas disparadas à queima roupa. Sempre achei que aquilo queria dizer alguma coisa, quanto mais não fosse a raiva do escritor aliviada com um revólver certeiro no lugar das palavras, quando as palavras nascem de pólvora seca. Ao longo dos anos, mudei de casa algumas vezes, vivi em quartos de hotéis e dormi em espeluncas com cheiro ao amoníaco característico do mijo misturado com o bafiento odor de paredes amarelas sem janelas para as traseiras, mas aquele postal nunca me abandonou. Perdi objectos em mudanças que contavam dez anos da minha vida, outros media-os por décadas. Deixei para trás alguns livros sem outro valor que não fosse o ter-me apegado a eles como um prolongamento favorecido das minhas mãos que os seguraram, mas o postal com a máquina de escrever e a folha baleada, fez questão de nunca se extraviar, nem se abandonar ao esquecimento. Foi-me oferecido por um velho amigo que escrevia poemas aos touros em cadernos quadriculados e bebia em média duas a três garrafas de gin por dia para alimentar a cirrose hepática. Sempre que os nossos caminhos se cruzavam sem que o tivéssemos planeado, acelerava o passo e atravessava a rua decidido, dava-me um genuíno aperto de mão, perguntava-me como tinha passado, puxava-me para o bar mais próximo onde emborcávamos umas cervejas até que a noite nos tomasse de assalto e já sem fôlego. Mostrava-me os pequenos quadrados do caderno preenchidas de versos na diagonal, rascunhos de ideias e poemas, alguns deles resumidos a duas ou três frases. Conversávamos sobre as touradas e os grandes matadores do passado. Os olhos brilhavam-lhe quando recordava as Fiestas de S. Isidro e as jornadas a Pamplona para ver os Miúras. A imponência negra e trágica dos bichos no pó enfeitiçado da arena. Os magníficos quites, as verónicas a pano inteiro, os pares cravados com ganas, as ovações estrondosas na Plaza de Sevilha, toda em pé, nem ao cabrão do Franco eles faziam aquilo!, exclamava. E o Diamantino Viseu era um talento nato! Fazia-se silêncio quando pegava na muleta, acredita-me se quiseres. E nunca toureou para a praça: era verdadeiro! Fino na arte e elegante na estocada como nenhum outro! A seguir, parava a espaços para respirar, eu perguntava-lhe se estava tudo bem, ele acenava que sim com a cabeça, engolia as dores com a dignidade possível de um velho destroço habituado à ideia da morte a prazo.
Um dia pediu-me para o acompanhar à consulta porque ia fazer uma endoscopia ao estômago e a coisa prometia ser menos macia do que engolir um Gordon´s em jejum. Precisava de companhia, se eu me importava. Enquanto esperava por ele sentado num imenso corredor de hospital, vi passar putos enfezados, muito magros e sem cabelo. Além disto, todos tinham em comum a mesma expressão de desistência. Olhares resignados que não pestanejavam, longos roupões a flutuarem sobre o encerado, passinhos curtos e em desaceleração que me pareciam impulsionados pelos tubos que lhes saiam dos braços e terminavam em sacos plásticos com soro e drogas transparentes. Quando o meu amigo saiu pela porta branca, olhou na minha direcção, atirou-me um sorriso forçado e arrastou-se até à cadeira onde eu estava sentado. Sentou-se, pediu-me um cigarro e apertou o ventre. Permanecemos em silêncio alguns instantes. Esforcei-me por não dizer nada - sabia que ainda andava às voltas lá por dentro, à procura do que ainda lhe restava intacto. Depois, virou-se na minha direcção. Era chegada a altura certa de eu falar, olhei-o nos olhos de sofrimento mascarado, e perguntei-lhe se podia fazer alguma coisa pelas dores. Sorriu-me. Que nem pensasse nisso, porque ao pé de ti um homem até se esquece das dores! Inspirei demoradamente no cigarro, mordi o filtro, olhei para a janela em frente, lembrei-me do tal postal que me oferecera, lembrei-me também de uma caneta dourada que o meu avô me pusera no bolso, a caminho do aeroporto e da sua última frase ainda no cais de embarque: Nunca te esqueças...

Passou uma enfermeira silenciosamente atarefada com um tabuleiro entre as mãos carregado comprimidos brancos separados em pequenas doses individuais. Ajudei-o a levantar-se e fomos embora daquele lugar. Até hoje.

Agora não precisas de fazer mais endoscopias, poeta e fiel companheiro. Dispensaste os actos médicos e as rotinas de diagnóstico. Os médicos até se devem ter especializado em te enfiar tubos pela garganta e tu em engolir espadas como no circo, sem sangrar, aparentemente. Sem te queixares da sorte, nem da dor que dispensavas por rotina não fosse ela habituar-se às atenções dos empregados de bar que te acostumaste. A dor maior que ainda subsiste, e para a qual ainda não encontraram nenhum anestésico, é a tua longa ausência. E na realidade, eu nunca pude fazer nada para ta aliviar. Ouvia-te apenas enquanto assistia impotente à luta que travaste para adiar o irremediável final. Como Manolete que tu me descreveste, naquela tarde de 28 de Agosto de 1947, na Plaza de Liñares. Apanhado em contrapé, numa nesga de terreno entre os olhos sangrados da morte e as tábuas, na cara do Miúra Islero, sem poder desferir a estocada final.

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13/01/07

Os anúncios da Jameson, por Harpista Esverdeado



Vi há pouco tempo, num canal da cabo, um anúncio do Whisky Jameson. É um anúncio brilhante, o que se divulga aqui neste postal. Podem fazer o download directo na página da marca irlandesa. Lá encontrarão os outros dois anúncios anteriores desta série: The Dancers e The Drummer. Ambos são brilhantes, mas este último da série, que me levou a escrever este louvor, The Harpist, é genial. Em primeiro lugar apresenta a harpa como símbolo nacional da Irlanda, combatendo a ideia esmagadora no mercado mundial do whiskey que associa a bebida à Escócia, ao ponto de bastar pedir um scotch para se beber um whiskey. A estratégia comunicativa da marca irlandesa passou por criar um discurso próprio, afirmando o seu produto em associação ao nacionalismo irlandês. Os tons verdes do anúncio sublinham esta afirmação de uma identidade nacional posta ao serviço de uma estratégia comercial. Mas, porque a estratégia comunicativa visa o mercado global, fogem à tentação do óbvio, do postal provinciano. Isto é, mostrar as verduras da paisagem irlandesa, a música, o mar, a hospitalidade das gentes, os mosteiros, as iluminuras, os castelos arruinados. Esse folclore não se compadece com a orientação para um alvo definido à escala mundial. O protagonista é pois um jovem mestiço. Moderno, irreverente, com um visual tipo Lenny Kravitz. É Conny Bloom, guitarrista de uma banda rock, os Hanoi Rocks. Surpreende que a personagem toque harpa, um instrumento clássico, tradicional da Irlanda. Conny é um rocker mestiço. Aproxima-se da harpa como se fosse uma peça de museu, com curiosidade e desconfiança. Como um turista preconceituoso que desembarca na Irlanda, ou como um bebedor habituado ao scotch e a quem propõem um whiskey irlandês. O harpista senta-se e toca exemplarmente. Tal constitui um elogio explícito do público. O consumidor não é um ignorante, tal como o rock não é um subgénero musical menos digno, nem a cor da pele constitui razão de inferioridade ou preconceito. Há simplesmente um whiskey excelente e um público criterioso e sabedor. Falta o encontro. Como em tudo o que é conflito, há na base um desencontro, um desconhecimento. O anúncio propicia essa união. A música desenrola-se suavemente, supera-se lentamente a desconfiança inicial, a magia vai nascendo, o entendimento torna-se total, as partes completam-se e quando a melodia nos domina, tornando dispensável qualquer palavra, como se fosse amor, o ritmo altera-se, modernizando-se numa aceleração brusca, orgástica mesmo. Liberta-se uma viola eléctrica num riff contrastante com a melodiosa harpa e explode o piano à Jerry Lee Lewis, o profanador do piano clássico, o homem que colocou o piano de cauda a tocar rock'n'roll. O efeito está alcançado: a síntese. Entre o nacional e o global. Entre o tradicional e o moderno, o conservador e o irreverente. A síntese obtida entra na garrafa, pronta para consumir. Surge o slogan Beyond the Obvious. Conny Bloom levanta a perna vestida em calça de cabedal, à Elvis e à Morrison, ao bom estilo rocker, sacode-a e a harpa mais parece uma guitarra eléctrica. Um instrumento que nos é familiar. Genial! Verdadeiramente genial!

12/01/07





Victor Duruy: História de Roma. Desde a sua origem até á invasão dos barbaros; Lisboa; Escriptorio da Empreza Editora de Publicações Ilustradas; 1891; 4 volumes. Tradução de Manuel Pinheiro Chagas.

11/01/07

Bruxo! por Zandinga da Silva

O post que abaixo se republica foi publicado aqui no Tapor no dia 5 de Janeiro de 2006. Republica-se com sublinhados verdes para palpite certo, vermelhos para palpite errado . Que los hay los hay...

O Porco A Ler As Estrelas, por Firme&Hirto

Ora cá temos nós um ano novinho e inteirinho para jabardar. E nestes inícios de ano é sempre um exercício de extrema utilidade, deitarmo-nos no chão, olhar os astros e adivinhar os cometas. Esse é o exercício que se passa a fazer por aqui e que se pede ao pessoal que Groink com força e sapiência sobre as suas próprias previsões para 2006.

Arredadas as nebulosas, dissecadas as constelações e lidas as estrelas à lupa, o Porco pensa de que : ainda num é em 2006 que vamos ter sentença do Casa Pia. Para 2007 logo se revelarão os condenados. O Apito Dourado nem sequer começará a ser julgado. Lá para meio do ano sairá a Acusação e o Pintinho tirará o corpo fora após a Instrução. O país continuará em crise até porque o nabo do Sócrates só sabe subir impostos (subirão mais) e cortar direitos e revela-se incapaz de conter a despesa do Estado que continuará a subir descontroladamente. Lá pelo meio ou final do ano o rapaz verá que não pode segurar a despesa das Scuts e lá vêm as portagens. O Benfica será campeão de novo confirmando que passou a dominar o dito sistema. O Scolari continuará a recusar o Baía, mas como já meteu os pés, compensa o Porto convocando o Quaresma. O Brasil é de novo campeão mundial na Alemanha e Portugal apura-se para os oitavos e não passa daí. O Mourinho é de novo campeão inglês, mas falha de novo o título europeu. O Independente fecha de vez e lá pelo meio do ano, o Miguel Sousa Tavares chateia-se a sério com o José António Saraiva e um dos dois sai do Expresso. O Cavaco será eleito à primeira volta e vai suavizar a brutidade do Sócrates explicando que o gajo está a governar bem e que há que o deixar governar. De cada vez que lhe pedirem opinião o Presidente diz que ainda não leu os dossiers todos. A Al-Quaeda fará um novo atentado de vulto, de novo na Europa e de novo em Inglaterra. Desta vez a doer. O badagaio vai dar finalmente ao Fidel Castro que vai cair sem fôlego ao fim de um discurso de 9 horas. A Academia sueca, agora que já atingiu a América com o Pinter, irá finalmente dar um Nobel da literatura por mérito literário, mas nunca a um americano.

Como o Porco é mau a ler estrelas – um Porco olha de frente e tem a maior das dificuldades em olhar para cima -, convida os passantes a visionar o futuro. O Porco guardará os Groinks e no final do ano relembrará a coisa e atribuirá os Prémios Zandinga. Há que arriscar e meter a cabeça no cepo. Façam previsões para 2006 seja a propósito do que for.

10/01/07

Jean-Pierre Melville, 1917 - 1973, por Mangas

Considerado por alguns críticos como uma figura paternal da Nouvelle Vague, Melville começou como um solitário outsider da indústria cinematográfica francesa quando adaptou Le silence de la mer de Vercors, sem o consentimento deste. Mais tarde, em colaboração de Jean Cocteau faria Les enfant terribles e tendo a percepção que necessitava de um estúdio, meios independentes e dinheiro que lhe permitisse trabalhar a um ritmo próprio e sem concessões, realizou Quand tu liras cette lettre (1953), o único dos seus filmes que não escreveu. Melville criou um estilo próprio de austeridade visual, com predominância do preto e branco tendendo em muitos casos para a abstração. A melancolia de algumas cenas interrompida por súbitos espasmos de violência, close-ups de revólveres, chapéus, ou carros mortuários, a par de um estudo meticuloso dos gestos, gangsters sem redenção, personagens marginais, homens em fuga e loiras de perder a cabeça, são imagens de marca de Melville e transmitem aos seus policiais uma atmosfera mista de filme negro e neo-realismo quase lírico. Obras mais representativas: Bob le Flambeur (1955), que abre com a voz solene do próprio Melville anunciando: «Como foi contado em Montmartre, eis a curiosa história de ... Bob, o incendiário!»; Le Samourai (1967), com Alain Delon; Le Cercle Rouge (1970), com Alain Delon de novo, na pele de um ex-condenado, Yves Montand, o ex-polícia alcoólico e Gian Maria Volonté o prisioneiro em fuga.

Considerado o mais americano dos cineastas franceses, adoptou o nome em homenagem ao grande escritor Herman Melville. Começava o pequeno-almoço com Jack Daniel`s, idolatrava William Wyler, considerava a América a sua baleia branca e conhecia de cor cada metro quadrado de New York, onde fizera filmagens para Deux Hommes dans Manhattan, (1958).

A sua perversa ironia, a preocupação com a violência e grupos de minorias bem como o seu interesse por determinados códigos de comportamento, fazem de Melville um realizador pioneiro no que pode considerar-se cinema d`attitude. Godard presta-lhe homenagem em Breathless onde surge numa fugaz aparição para dizer que a sua maior ambição na vida era «tornar-me imortal e depois morrer». Desaparecido em 1973, a obra de Melville pode ser revista ainda hoje, na sua essência conceptual, em realizadores como John Woo ou Quentin Tarantino.

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09/01/07

Buçaco Reserva 2001, por Abade de Barcouço

No passado dia 6 de Janeiro, a RS.T conheceu mais uma jornada épica. Golfe na Cúria a começar às 15:00 porque há quem não conheça o sentido da expressão «às 14:30 na Curia». Por causa disto não acabámos o jogo, ficaram alguns buracos por jogar. O campo estava em bom estado, o dia estava esplêndido. O Mestre Mau chegou atrasado, mas ainda a tempo, porque esteve ocupado a pôr silicone nas ranhuras da casa-de-banho e necessitou de assessoria internacional. Claro que o golfe não se troca por esta actividade extremamente relaxante, muito complexa e atraente que é esguichar silicone para as juntas da banheira!
Jantámos depois no restaurante O Pátio, no Barcouço, próximo de Santa Luzia. O Mister chegou atrasado e irado porque, segundo o próprio, combinámos mal o ponto de encontro por isso é que todos lá foram ter menos ele que ... foi ter a Mira! Fizemos um estardalhaço bestial no restaurante, a comida estava muito boa (raia grelhada, lercas de novilho, bacalhau assado e polvo à lagareiro), óptimo ambiente, simpatia e eficiência no serviço. Bom preço. Recomenda-se. Os vinhos foram óptimos. A entrar, um moscatel de Setúbal da José Maria da Fonseca. Para esquecer. É barato, mas se não comprar poupa o dinheiro. Os tintos foram soberbos. Desde um Post Scriptum 2002 o segundo vinho da casa Prats & Symington, após o Chryseia, o Três Bagos 2003 da Lavradores da Feitoria, um Merlot australiano de que não me recordo o nome, referência a um Paço dos Falcões, um lamentável Quinta de Lemos, malgrado a opinião isolada do Pilemos, um Bairrada esquisito do Sanita Dourada, até a um LBV Warre’s 1995 que é, apesar da nega do Mira Mister, o último LBV lançado pela casa Warre’s, trazido pelo nosso Xeko e denegrido pelo infame Mangas que se arriscou a não molhar os beiços na pinga, não fosse a magnanimidade do ofertante.
Mas a estrela foi um Buçaco reserva 2001 da garrafeira do Palace Hotel. Já tínhamos bebido um, levado pelo mesmo confrade, mas não me ficou tão na memória. O vinho é produzido a partir das vinhas próprias do hotel e recorrendo à produção de viticultores das regiões limítrofes do Dão e da Bairrada. Foi precisamente esta localização que fez com que o falecido José dos Santos apurasse a qualidade dos vinhos misturando lotes de uma e de outra região. A fama universal destes vinhos é o legado deste homem. Relativamente ao reserva de 1985 escreveu Jancis Robinson (Jancis Robinson Prova os Melhores Vinhos Portugueses; Lisboa; Livros Cotovia; 1999; p. 185): «Que maravilhosa excepção antiquada neste apressado mundo dos vinhos moderno em que vivemos! A cor de tijolo velho, com um bordo pálido, revela uma considerável e complexa evolução na garrafa. Tem um bouquet doce e subtil a violetas cristalizadas e um longo envelhecimento em madeira. É um vinho tão invulgar que me faz lembrar os bebedores de uma outra época, menos apressada e menos mal-disposta - uma antiga dama delicada, em oposição à legião de jovens activos que a maioria dos produtores de vinhos fazem hoje em dia. Há ainda mais prazer no perfume deste vinho do que no seu palato que se desvanece levemente e onde, dentro de poucos anos, me parece que a acidez começará a dominar a fruta então em declínio. Porém, o fim é persistente e perdura. Beba-o agora, devagar.»
Concordo com tudo (menos com o "persistente que perdura"), mesmo que o vinho agora bebido fosse de uma colheita muito mais jovem, de 2001. Talvez por isso não estava tão atijolado, não se notava excesso de acidez e a fruta estava muito viva e subtil. Por isso digo o que disse logo após a prova: se este vinho fosse um monumento, seria um mosteiro românico. Sóbrio, austero, durável, com uma personalidade vincadíssima, intemporal, espirituoso e complexo, uma estrutura sólida, sem adornos supérfluos, penetrante e avesso a qualquer estratégia consumista.

07/01/07

O meu PDA, por Génio da Informática

A pedido do seven, partilho aqui o meu encantamento com uma das maiores e mais minúsculas maravilhas tecnológicas contemporâneas: o PDA, sigla de Personal Digital Assistant.
No Natal deram-me um hp iPAQ rw6815. Confesso que, por minha iniciativa, jamais compraria uma coisa destas. Não apenas por causa do preço. Agora, escassas semanas volvidas, não o venderia por nada. Basta elencar as funcionalidades:

- Telefone portátil com todas as funções do telemóvel vulgar
- Máquina fotográfica digital com 2M pixels, com capacidade para gravar pequenos videoclips, armazenar fotografias pessoais, imprimi-las directamente, enviá-las por correio electrónico.
- Leitor de mp3
- Comando de voz para uma lista de contactos e agenda intermináveis e um programa de reconhecimento de escrita cursiva. Com algum treino e afinações, é possível escrever com estilete em caligrafia manual que o programa converte para escrita digital.
- Agenda e calendário com todas as funcionalidades do Outlook Express. Desde o simples bloco de notas, ao despertador, gestão de tarefas até aos templates mais sofisticados para gerir as revisões do carro, contas bancárias, listas de supermercados, calendário de reuniões, horários de trabalho, etc.
- Ligação à Internet, com o Messenger, o Internet Explorer, programas de correio electrónico. Pode-se navegar através do cartão SIM, o que sai caríssimo, ou então através de wireless nos locais de livre acesso. Em Coimbra, o centro comercial Dolce Vita, o Atrium ou o Forum têm navegação wireless grátis, além de algumas escolas que também já estão equipadas. Em casa, comprei um router que permite estar em qualquer lugar a navegar com um portátil ou com o PDA. A navegação é rápida, obviamente sem a comodidade de um monitor normal. Cansa muito os olhos, mas, para lazer ou emergência, serve perfeitamente. Estar no café a ler o jornal on-line, nem que seja só as gordas, enviar um e-mail, conversar via Messenger, gerir o blog a partir da esplanada, tirar uma foto e enviá-la logo via e-mail, enfim, tudo isto é possível sem custos.
- Tem as aplicações mais comuns do Microsoft Office: Word, Excel, Powerpoint. Permite guardar ficheiros como se fosse uma pen e, através da ligação infravermelho, internet ou bluetooth enviar os ficheiros para onde quisermos. É possível, por exemplo, guardar os ficheiros de imagens, com mapas e powerpoints e, numa sala de aula ou numa apresentação pública, através de bluetooth enviar os ficheiros para um data show e projectá-los para a audiência a partir do PDA.
- Possui um programa de sincronização que quando se liga directamente ao PC doméstico faz, sem necessidade de instalação, a actualização directa e automática de todos os ficheiros. De modo que não há possibilidade de apagar por engano ficheiros.
- Comprei-lhe um minidisco de memória de 2 GB, por 60 euros na Worten. Atenção que na FNAC é 10 euros mais caro. Tem capacidade de armazenamento que nunca mais acaba. Quando o disco preencher, guarda-se e compra-se outro. Quer dizer que, em face da capacidade de memória, podem guardar toda a vossa informação, desde músicas, ficheiros escritos, vídeos, fotografias, em 5 ou 6 pequenos discos (i. é, 10 ou 12 GB! - um mundo) que cabem numa caixa de fósforos. É o 007 dos anos 70 tornado realidade!
- Jogos.
- É ainda possível comprar o software GPS e aplicá-lo, pois que o aparelho já vem equipado com o hardware. Não o fiz porque já tinha um GPS.
- Uma bateria minúscula com uma autonomia fantástica. Carrega rapidamente através de cabo USB ou com ligação directa à ficha eléctrica.
Único senão: o preço. Se fosse eu a comprar, nunca compraria. Nem sei quanto foi. Sei que há outros modelos, com outros preços e funcionalidades diferentes, mas não sei especificar pormenores.

05/01/07

Barroco assim…também eu! Por Agostinho do Caraças

Ludovico Carracci (1555-1619) era primo dos irmãos Annibale Carracci (1560-1609) e Agostino Carracci (1557-1602). Eram todos naturais de Bolonha onde fundaram, em 1582, uma Academia inicialmente chamada Desiderosi (Desejosos) e depois Academia degli Incamminati (Encaminhados) que pode ser considerada a semente da arte barroca. Aí ensinaram e desenvolveram temáticas alegóricas e mitológicas com que cobririam depois os salões dos palácios bolonheses.
Agostino, o teórico da Academia, sob a influência dos pintores de Veneza, participa na decoração do palácio Fava em Bolonha, partindo depois com o irmão para Roma, em 1595. É então que o primo Ludovico assume a direcção da Academia. Em Roma, os irmãos Carracci atingem a maturidade artística, após tomarem contacto com os trabalhos de Miguel Ângelo e Rafael.
Os seus trabalhos mais esplendorosos foram as pinturas do palácio Farnese, a convite de Odoardo Farnese.
Odoardo era e filho de Alexandre Farnese, 3º duque de Parma e neto do papa Paulo III, e de D. Maria de Portugal, neta de D. Manuel I. Alexandre Farnese e Maria eram pais de Ranúcio Farnese que, após a morte de D. Sebastião em Alcácer-Quibir, deveria ter sido declarado rei de Portugal, se se tivesse respeitado como válido o critério sanguíneo, pois era à data o descendente mais directo de D. Manuel I. Poderíamos ter tido um rei italiano, D. Ranúcio I!
Voltando a Agostino Carracci, deve dizer-se que se notabilizou, para além dos frescos, pelas gravuras, nomeadamente as pornográficas, envolvendo figuras da mitologia clássica, o que constitui um dos aspectos mais negligenciados da sua obra mas que representa muito bem o espírito barroco que se afirma entre a rigidez da norma e a tentação da transgressão, entre a ortodoxia e o desvio. Ninguém melhor do que Miguel Ângelo traduziu esta angústia existencial com enormes repercussões na sua produção artística. No entanto, se em Miguel Ângelo o objectivo era incorporar a estética naturalista na mensagem espiritualista cristã, o que torna o corpo o palco de um conflito, no barroco trata-se de iludir a virtude submetendo-a aos ideais dionisíacos, o que faz do corpo uma máquina de prazer.

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04/01/07

Papel e lápis, s.f.f., por Génio da Informática

No dia 21 de Setembro de 2004, pouco antes da meia-noite, a então ministra da Educação, Maria do Carmo Seabra, anunciava no programa de TV «Prós e Contras» que os resultados dos concursos de colocação de professores estavam prestes a ser divulgados. A situação era confrangedora. Dezenas de milhares de professores aguardavam colocação, as crianças estavam nas escolas e não havia aulas. A verdade é que, malgrado o anúncio televisivo da Sr.ª Ministra, os resultados do concurso não saíram e a situação prolongou-se até aos limites do caricato. A Sr.ª Ministra desculpou-se com um erro informático, a oposição exigiu a sua demissão e a ministra não aguentou muito tempo. Foi ridicularizada na praça pública, e bem, porque falhou onde não podia falhar, anunciou o que não podia anunciar, desculpou-se com um pequeno grande pormenor que mais não fez do que expor a incapacidade dos seus serviços. Passou à história sem honra e sem glória. Lembrar o seu nome é como recordar uma daquelas contratações falhadas de um clube de futebol da IIª divisão-B.
Ontem, soube-se que 883 licenciados em Medicina, repito, 883 e não dezenas de milhares de professores, viram adiadas as suas colocações por causa de um “erro informático”. O ministro Correia de Campos explicou ontem em conferência de imprensa que foi usada «uma aplicação informática nova», que apesar de ter sido testada trouxe problemas. O governante considerou que é «um fenómeno natural» numa situação de mudança, com precedentes, por exemplo, na colocação de professores.
Um fenómeno natural? Incrível! Os mesmos que criticaram a situação caricata em que se enredou Maria do Carmo Seabra, cobrem-se agora de ridículo com desculpas esfarrapadas. Parece que a Ordem dos Médicos já se ofereceu para ajudar a resolver o problema causado pela «aplicação informática nova». Pois bem, eu ofereço-me também, dêem-me um lápis, uma folha de papel e meia-hora. Informem os 883 jovens médicos que daqui a pouco lhes direi onde se terão que apresentar. Comigo, não há cá erros de informática, pelo menos enquanto os candidatos forem 883.