30/07/08

Porizemplo, por Cão


O senhor Presidente da República pode promulgar quantos acordos ortográficos quiser. Cavaco Silva nunca ligou muito a estas coisas, aliás. Quando ainda primeiro-ministro, não sabia quantos cantos tinha (e tem) a epopeia de Camões. Saberá, hoje, quantos?
Eu não alinho nesta ortografia premiadora da ignorância. Comigo, muitos milhares de portugueses não vão abrasileirar-se por razão alguma. Falar e escrever correctamente são vinculativos da vera nacionalidade. E não, eu não disse “nacionalismo”. Disse “nacionalidade” – é diferente.
A riqueza de uma língua (qualquer língua) está na sua diversidade natural, não na sua artificiosa “unidade” artificial. Sei muito bem que o evoluir de um idioma está sujeito ao mesmo princípio físico do menor esforço. Mas não é por isso que a rapaziada da Costa do Marfim se lembra de ir a França ensinar os franceses a escrever… francês. Nem ao-zamericanos, lerdos como são, passa pela corneta chegarem ao pé de Sua Majestade britânica e tentar convencê-la a escrever, como eles escrevem, “center” em vez do inglês “centre”. Pois não é assim? É.
Atente-se, a título de fundamentado exemplo fonético, nos fenómenos de acrescentamento e nos de supressão de sons na oralidade: prótese, epêntese, paragoge; e aférese, síncope, haplologia e apócope. “Depois” pode ser, na fala, “ódespois”. E “estou” é muitas vezes “tou”. Mas atenção: isto é na oralidade. À norma escrita cumpre a vigilância regulamentar destes atropelos, afinal naturais pelo menor esforço, à ortoépia. Sim, à ortoépia.
Senhores: em português de Portugal, a humidade do adjectivo “húmido” está toda no “h”. Não está no Brasil? Paciência. Eles que escrevam “úmido”.
A Escola primacial (para não dizer “primária” nem “básica”) deveria voltar a ensinar a ler e a escrever (ou seja, a pensar). Já chega de “pedagogias” da irresponsabilidade, de “estratégias” pró-ignorância e de procrastinações da treta: é ver o desnível ortográfico e sintáctico dos estudantes universitários nacionais de hoje em dia.
E, senhor Presidente, “Os Lusíadas” é coisa para 10 cantos. (Escreve-se “dez”, não “dés”. Até porque “dés” é a primeira sílaba de “déspota”, porizemplo.)

Crónica nº 62 da série Rosário Breve, n'O Ribatejo (www.oribatejo.pt) de 25 de Julho de 2008

7 comentários:

Anónimo disse...

Absolutamente de acordo (que não o ortográfico)

Geriátrico

gotika disse...

Oi!
Sou eu, á Gotchkica! Lembra di mim?
Pérdoa não vim aqui mais vêzes mas têm à vê com à quêstão dos animais... Nunca si sabe o qui si vai lêr por áqui e eu sou mutcho da sensíveu...
Eu já adótei o acôrdo e como pódi vêr, o meu pórtuguês istá ótchimo! Pô, por que tôdo o mundo não coméça escrevêndo como nóis?
Axê!

Anónimo disse...

eu animais brasileiros gosto, também vêm com o acordo hortográfico?

ass: belozebú

Ps: esta versão brasileira da Gótika, não está má, cheira a garota de ipanema, saravá, cara incondicional !

Anónimo disse...

Ena a Gótika, a primeira criatura blogosférica a devolver a mensagem da garrafa mandada pelo Porco para o Oceano há 4 anos ou 5. Ainda se discutiu se ela existia mesmo ou se era ficção. Bem vinda Gótchika e não te preocupes com as opiniões da nossa ala mais radical acerca ds animais, aqui há de tudo... mens vegetarianos.
E já agora, nós deixámos de comentar o teu blog porque aquilo é preciso cadastrar-se e isso. Mas eu sei que alguns de nós continuam a ser clientes.
Bem vinda, cara!
Tropicalista

Anónimo disse...

sim, sim, a humidade está toda no "h", assim como a phoda está toda no "ph".

Ruy

ahpois disse...

o ruy tem um cu a que eu já phui.

Anónimo disse...

Oi?
Oi?
Oi?
Oi?

Vocêiz falam, falam..., mas eu num intendo nada.