06/03/09

Across The Universe de Julie Taymour, por Michelle

Eu sei que a onda dos musicais tá para durar e até andava um bocado enjoado com a euforia em torno de Mamma Mia. Mas Mamma Mia tem música dos Abba e Across The Universe tem música dos Beatles. E comparar a música dos Abba à música dos Beatles é como comparar caviar com carapaus fritos no restaurante do Gordo.

Aqui no Porco há um preconceito mais ou menos generalizado contra os filmes musicais. Por mim falo que, geralmente, mal ouço gajos a falar a cantar, fico logo irritado. Acho que o trauma me ficou dessa verdadeira praga cinematográfica que são os filmes do Andrew-Loyd Weber. A lamechice do Weber deixou-me, certamente, traumas profundos ao ponto de ainda hoje não conseguir ouvir falar em Jesus Cristos Superstares ou Fantasmas da Ópera sem me arrepiar. Mesmo o Milos Forman, um cineasta de excelência, não fugiu ao mau gosto do musical quando se lembrou de fazer essa coisa abjecta do Hair. E até uma banda tão fantástica como os The Who só me fez rir com a cabotinagem do argumento e da estética de Tommy (embora a música seja excelente). Excepção feita à re-construção do universo Pink Floydiano em The Wall - com o selo da marca Hipgnosis – os musicais a mim dão-me sempre para roer as unhas de desespero. Os únicos filmes musicais que sempre me agradaram foram as puras e duras filmagens de concertos ou de digressões de grandes bandas Rock. Adorei The Song Remains the Same sobre os Led Zeppellin e o filme da digressão dos Stones dos anos 80 nos USA filmada por Al Ashby. Gostei de mais alguns filmes de tournées e de espectáculos de bandas de R`n`r e para mim chega.

Mas um destes dias vi um filme, um musical ao estilo mais clássico, desses que costumo abominar com os gajos a falarem a cantar, que é uma excepção à regra dos musicais absurdos. Trata-se de Across The Universe de Julie Taymour de 2007 com música e clima dos Beatles. Julie Taymour destacou-se anteriormente pelo seu trabalho em Frida e em O Rei Leão. Em Across the Universe consegue reconstruir o ambiente dos sixties, das grandes causas, da contestação estudantil à guerra do Vietnam, do flower power, da euforia das drogas e dos hippies.

Geralmente recriar os sixties é um número muito perigoso. Trata-se de uma época tão datada em todos os sentidos – estético, ideológico, político, cultural – que, geralmente, quem tenta aventurar-se por aí sucumbe à tarefa (até o grande Kubrick com o espantoso Laranja Mecânica acaba por realizar o mais perecível dos seus filmes, precisamente, por essa razão). Pois bem, Taymour consegue o feito de se aventurar por essa via sem cair no quase fatal anacronismo! O filme faz-nos sentir a todos um pouco hippies, mesmo os que, como eu, não têm nada a ver com aquilo. O que é notável!

O enredo é secundário – Across the Universe é mais uma história de amor. Jude (Jim Sturgess) é um emigrante inglês que se apaixona por Lucy (Evan Rachel Wood)num cenário onde co-habitam outros personagens com nomes próprios que figuram em canções do Beatles, como, por exemplo, a cantora Sadie (Dana Fuchs), uma referência a Janis Joplin e a Robert Plant, o músico Jo-Jo (Martin Luther McCoy), retrato de Jimmie Hendrix, e Prudence (T.V. Carpio). Hey Jude, Lucy in the Sky With…, Sexie Sadie, Get Back, Dear Prudence, estão lá todos… Across the Universe conta ainda com participações especiais de Bono (grande versão de I`m The Walrus),Joe Cocker("Come Together"),Salma Hayek("Happiness is a Warm Gun") e de Eddie Izzard("Being For the Benefit of Mr. Kite!"). O filme está carregado de referências, o que supõe várias camadas de leituras, sobretudo para quem gosta dos Beatles. No meio deste caldo simbólico, o enredo do filme não é, de facto, muito importante. É um simples fio condutor que permite ligar todas aquelas excelentes versões das canções mágicas do grupo e recriar o clima dos anos sessenta.Quem não adorar a música dos Beatles dificilmente entra no filme pelo seu enredo. A música é o fundamental e o argumento está lá mais para dar um nexo às diferentes canções dos Beatles do que por outra coisa. O que é habitual é que a música seja uma espécie de banda sonora da história; aqui é ao contrário, o argumento é que tenta dar sentido às diferentes canções (um aparte para um protesto: não se percebe que, sendo as letras das músicas tão importantes, a tradução portuguesa tenha feita apenas o seu trabalho nos primeiros versos das músicas, esquecendo o resto das letras). Portanto, falar deste filme é, sobretudo, falar da música.

Os Beatles ofereceram-nos exemplos do melhor que alguma vez se fez na história da música popular. Mas a sua obra está muito batida e o primeiro grande mérito de Across The Universe é a escolha pouco óbvia das 33 canções que fazem parte do filme. Julie Taymour resistiu ao facilitismo dos mega hits e foi buscar, não direi músicas de fundo de catálogo dos Fab Four, porque isso não existe, mas vá lá, músicas menos evidentes. Curiosamente a escolha da realização acerta nalgumas das melhores pérolas mais ou menos esquecidas: lá estão Dear Prudence, If I Fell, Benefict of Mr Kite e I´m the Walrus, (esta última interpretada por Bono), While my Guitar Gently Weeps, Helter Skelter, etc, etc). Ainda por cima muitas das versões são o que deve ser qualquer versão que se preze: não uma réplica do original mas uma recriação que traz algo de novo. I Fell, por exemplo, interpretada por Evan Rachel Wood é simplesmente inesquecível, um gajo apaixona-se por aquela música, mesmo sem conhecer a versão dos Beatles. Ou Oh Darling, um diálogo corrosivo entre Sadie (Dana Fuchs) e Jo-Jo que transforma a ternura do original em tensão e raiva. Mas há mais… Por causa de Across The Universe eu voltei a desenterrar os discos dos Beatles da estante onde eles se encontravam e agora passo o meu tempo a ouvi-los. Ainda bem – fui eu quem saiu a ganhar. Deixo-vos com If I Fell na versão do filme. Lindo!

7 comentários:

britannicus disse...

Os Abba! Os Abba!
Os Abba fizeram canções com toda a perfeição Kitsch que à cultura pop se pode subtrair. Deliciosamente descartáveis como as dos Beatles , claro!, de obsolescência viciante, pois então!, efemeramente psicotrópicas, sim, sim! Mas essa é a natureza atemporal da pop. Quem percebeu a coisa foi a soprano sueca Anne Sofie von Otter, com uma discografia que vai desde Monteverdi, Purcell e Händel até Debussy, Stravinsky, Korngold, Zemlinsky, Wolf e Weill, passando por Bach, Gluck, Mozart, Rossini, Berlioz, etc, que tem um belíssimo disco de covers dos Abba.
Estava eu a reler um destes dias o "31 songs" do Nick Hornby e embezerrei no seguinte trecho sobre uma canção que todos conhecemos: "... acreditem, eu também sei que o Cole Porter era «melhor» do que a Madonna ou o Travis, que a maioria das canções pop são cinicamente dirigidas a um público-alvo com menos três décadas do que eu, que, em todo o caso, a época de ouro já passou há trinta e cinco anos e, desde então, tem surgido muito pouca coisa de valor. Só que há uma canção que ouvi na rádio e comprei o CD, e agora não consigo deixar de ouvi-la dez ou quinze vezes por dia..." Quinze vezes por dia! É pouco, Hornby! Lembro-me de um verão em que, malsinando a memória ecóica, ouvia mais de cem vezes por dia a True Faith dos New Order . Mas porrete, a felicidade era já para a semana e não havia melhor canção para mo lembrar!
É tão linda a efervescência pop a rebentar à flor do presente nas playlists e ouvir dez vezes o Gimme Gimme Gimme dos Abba ou quinze vezes a Nelly Furtado com o o Nick Hornby :

“I'm like a bird, I only fly away
I don't know where my soul is, I don't know where my home is”

britannicus disse...

Há uns mestrados em Cultural Studies ministrados por uma universidade que funciona no Continente em frente à loja das sopas que, diz-se, soou-me e zoou-me, vão iniciar uma série temática sobre a obsolescência musical das playlists. Já lá estou, meu! Preciso de créditos! Pode ser que haja um sobre os Abba ou sobre os Beatles!

britannicus disse...

Há uns mestrados em Cultural Studies ministrados por uma universidade que funciona no Continente em frente à loja das sopas e que, diz-se, soou-me e zoou-me, vão iniciar uma série temática sobre a obsolescência musical das playlists. Já lá estou, meu! Preciso de créditos! Pode ser que haja um sobre os Abba ou sobre os Beatles!

Anónimo disse...

Britt, não partilho contigo desse entusiasmo pelos Abba. E acho que não se podem comparar com os beatles, fónix. Tá bem, há musiquetas dos beatles assim em formato pop que são comparáveis, aquelas coisas tipo love me do, all my loving, obladi obladá, yellow submarine e isso, mas porra, os abba nunca fizeram nada de parecido com o album branco, com o sgt peppers, com o revolver, com o abbey road ou mesmo o rubber soul.é outra divisão, mene.
Já em relação à van otter acho-a uma cantora brilhante. Aquele disco com o elvis costello é qualquer coisa de divino.
Manda sempre

J disse...

Excelente posta. Quem adora musicais é o porco tinó, que é fã do Astaire. A mim também me dão alguma moléstia, mas há um que me enche as medidas: Moulin Rouge! O que é que achas deste, ó Michelle?

Anónimo disse...

Não vi, jota. Como digo no post não costumo gostar de musicais. mas o across the universe é uma das excepções. Pk não botas post sobre o moulin?
Michelle

J disse...

Um dia destes. Mas vai por mim que não te arrependes.