27/03/09

Oh No, Not Again!, por F111

Nos anos 80 a Guerra fria estava no auge. Foi uma chatice quando a extinta URSS resolveu instalar os famosos mísseis SS 20 nos países comunistas fronteiriços aos países da Nato! Na RDA, na Polónia, na Ucrânia e nos Estados Bálticos, os soviéticos montaram um verdadeiro arsenal de capacidade nuclear que, em caso de conflito atingiria as principais capitais da Europa ocidental (Lisboa incluída). Além disso a capacidade militar convencional também foi reforçada nos países de Leste principalmente com a colocação de divisões blindadas soviéticas nestes países.

A esta política agressiva do Pacto de Varsóvia respondeu a Nato (ou o Tio Sam, depende do ponto de vista) com medidas agressivas do mesmo tipo. Assim, em 1981 a Nato instalou mísseis Cruise no território Europeu e acrescentou-lhes os Pershing II, de capacidade nuclear. Tudo material Made in Usa. Para os Americanos não era mal visto. Em caso de guerra seria a Europa o cenário de um conflito nuclear e eles ficariam mais ou menos protegidos do outro lado do Atântico.

Quem viveu esta época lembra-se do clima de prenúncio apocalíptico. Foi um período tenso. Recordo-me dos filmes dos anos 80, por exemplo de The Day After, que simulava o dia a seguir a um ataque nuclear vivido em Londres; recordo-me dos Frankie Goes to Hollywood e do seu seminal Two Tribes (com o fantástico vídeo que mostrava o Brejnev numa luta de golpes baixos num rinque de boxe com o Reagan Aqui: http://www.youtube.com/watch?v=yWLHK2h8EBQ).;
lembro-me da fantástica letra de The Russians de Sting (aqui: http://www.youtube.com/watch?v=pezAKWVgOvU)
dos crachats Nuclear Não Obrigada! (ou No Nukes!), das brigadas de pacifistas a lutarem contra a polícia para evitarem a instalação dos Pershing na Alemanha;
dos meteóricos Sigue Sigue Sputnick, punks pós apocalípticos (Aqui, o clássico Love Míssil F11 - http://www.youtube.com/watch?v=pk30a0qsVIk)

e dos Plasmatics, espécie de no futur musical(aqui http://www.youtube.com/watch?v=3_0r9OysZt)...

Vivia-se um terrível clima de tensão mundial, como não se via desde a crise dos mísseis de Cuba, 20 anos antes. Na altura cheguei a desenvolver um pesadelo que nunca mais vim a ter - é verdade, sonhava que a bomba tinha rebentado... A coisa não parecia nada ficção. Pelo contrário parecia estar bem perto de nós. E a verdade é que estava.

Felizmente tudo acabou bem. Gorbachchev subiu ao poder em 1985 e levou a cabo a Perestroyka que haveria de abrir a Rússia e os regimes de leste e desanuviar o mundo. O projecto Guerra das Estrelas da administração Reagan também ajudou, claro. Inicialmente considerado mirabolante, a verdade é que teve um efeito dissuassor real.
Entre as várias medidas tendentes ao desanuviamento, Gorby anunciou a retirada dos mísseis nucleares e dos blindados soviéticos, tendo como contrapartida idêntica retirada da parte da Nato. A Europa respirou fundo. Estávamos livres da incómoda situação de um frente a frente nuclear no palco europeu.

A história haveria de declarar – e Reagan também! – que o Ocidente vencera a Guerra Fria sem disparar um único míssil nuclear. O Pacto de Varsóvia dissolveu-se em 1990. Os filmes apocalípticos perderam o seu impacto, os Sigue Sigue Sputnick reformaram-se e a Wendy Williams, ex-estrela porno e vocalista dos Plasmatics, desapareceu para sempre deixando-nos os seus vídeos no you tube para matar saudades. O Sting, esse fez uns álbuns porreiros e virou-se para as causas ecológicas como as dos índios do Amazonas; os manifestantes anti-nuckes foram fazer moinhos eólicos para a serra dos candeeiros e eu, bem, eu deixei de sonhar com cogumelos nucleares e passei a sonhar com a Kim Basinger que era muito melhor que a Guerra Fria. Tudo bem quando acaba bem. Mas acaba mesmo?
O problema é que a Kim Basinger envelheceu e eu também, mas a loucura dos homens, essa é eterna e parece que a guerra-fria está de volta de novo. (CONTINUA)

12 comentários:

Jacarandá disse...

Boa posta e aguardo com expectativa o próximo capítulo. A propósito, vê lá esta:

http://www.fas.org/blog/ssp/2009/03/russia-2.php

Com a besta do Putin e outras bestas como o Chávez, o anão norte-coreano e o Imadinnerjacket à solta, é capaz de ser um bocado prematuro qualquer optimismo nuclear. Provavelmente é mais perigoso agora...

I'll be back.

Anónimo disse...

Não sei se é pior, jaca, do que nos anos 80. Mas por este andar para lá caminhamos, pelo menos, é o que eu acho.
Mas a forma como estes climas marcam a música, o cinema e o ambiente cultural de uma época é fascinante. O punk apocalíptico está ligado áquilo e há muitas mais manifestações estéticas que têm a ver com o clima dos 80`s. O Mad Max, por exemplo. E oo Nuclear device dos stranglers, lembras-te mene? É uma coisa menos desesperada mais bem humorada mas mesmo assim também tem a marca dos tempos. Tá aqui o tube: http://www.youtube.com/results?search_type=&search_query=the+stranglers
+nuclear+device&aq=f

F111

Jacarandá disse...

Digo que é pior no sentido de mais indiscriminado e incontrolável. Já não "só" dois blocos. A desagregação da URSS deu azo a uma enorme rebaldaria traficante (há um filme porreiro com o Nicolas Cage que aborda isso, creio que se chama warlord) e o panorama sócio-económico russo é aterrador, propício a demagogos e a ideólogos musculados e hiper-nacionalistas, como é costume milenar para aquelas bandas. E até já arranjaram o seu castro na América latina e tudo, o Chávez em todo o seu esplendor fardado. O Putin, e quase todos o à sua volta, é KGB e essa escola não esquece.
E depois há os outros pequenos estados proto-nucleares ou os estados críticos como o Paquistão ou a Coreia do Norte. E a China, que está na moda mas não deixa de engrossar poderio militar, sobretudo marítimo, e cujo programa nuclear militar é extremamente nebuloso. Ou o terrorismo, que de todos é capaz de ser o mais arrepiante, apesar de tudo... É complicada esta merda.

Jacarandá disse...

Agora, outra coisa é certa e tens razão, a malta anda mais distraida com outros pormenores, incluindo os artistas. O apocalipse da moda são as alterações climáticas.

Anónimo disse...

Pois, tou de acordo,o mundo multi-polar e isso. Eu não digo que dantes era pior, não me refiro à situação em si. refiro-me, como dizes no último comment, ao sentimento apocalíptico que agora nada tem a ver com o feeling dos anos 80. É mais ou menos isto: a situação actual tambem é muito grave, mas o sentimento dessa realidade não é tão forte, nem de perto, como nos anos 80... Nos 80`s até a ética era apocalíptica - vamos curtir até rebentar porque se não o fizermos vamos todos desta para melhor. O No Futur dos Pistols lançou uma curiosa e desesperada onda hedonista. Acho que foi essa sombra desesperada permanente que tornava a música dos Bee Gees e o disco sound rídiculos. Um gajo tinha que ser duro e íamos a uma discoteca como íamos a um concerto para ouvir Sex Pistols, Ramones, Clash e Stranglers. Lembras-te dos hits dos 80´s - Sham 69 (the kids are united), Dr. Feelgood (down at the doctors), Tom Robinson Band (2468 Motherway), Knack, etc, etc, fónix, até os tops eram hard...

F111

Jacarandá disse...

Pois, e a seguir a onda urbano-depressiva dos Joy Division e tal. Mas esses hits parecem-me mais anos 70, ó F111...

Anónimo disse...

Sim, começam nos finais de 70 mas quando se fala em 80`não se trata, obviamente, de um conceito cronológico. Nunca é assim, como muito bem sabes, os factos não dizem: «vamos esperar pelo fim de 79 para isto bater certo». Esteticamente aqueles grupos já t~em muito a ver com os 80 e fazem escola durante os primeiros anos da década de 80 nas discotecas da altura.
F111

brit disse...

Ai que saudades da iconografia da guerra fria. Os desfiles na praça vermelha e a gerontocracia dos sovietes a destilar Vodka; o Nikita Sergeyevich Khrushchev e a Nikita do Elton John; o Lenine, faroónico, embalsamado no mausoléu do Kremlin qual santarrão votivo, e os aniversários da revolução bolchevique; a foice e o martelo e as portas de Brandenburgo; a expressão "cortina de ferro" e o "Império do Gulag"; o caviar Beluga dos dirigentes do PCUS e o exército vermelho a desfilar, marcial.
O Sting a cantar desabusadamente "I hope the Russians love the childrens too" e a Nena a cantar os 99 Luftballons sobre o muro de Berlim. Em 1983 consegui ouvir os Karat, banda da Alemanha de Leste, porque um amigo filocomunista conseguiu graciosamente duas cassetes depois de um chavascal internacionalista com duas camaradas alemãs na Festa do Avante. Tempos idos! Tempos agónicos do “antes vermelho do que morto”!

Anónimo disse...

Britt, não queres contar essa do «chavascal internacionalista com duas camaradas alemãs na Festa do Avante»? Fiquei curioso e isso dava um post do caraças, até aposto...
F 111

Jacarandá disse...

Epá, isso também lá dependerá das discotecas que cada um frequentava... e também ninguém está com esses rigores cronológicos, mas quer-me parecer que os 80's estão conotados com outros sons, ó 111.
Seja como for, apoio a moção do chavascal internacionalista.
Quanto ao Lenine acho que continua lá embalsamado no mesmo sítio faraónico, ou já tiraram a múmia do mausoléu? O culto do Estaline é que sei que continua vivissimo.
E porra, essa cançoneta do sting é das maiores charopadas que o homem fez na sua sofrível carreira solo. Fala-me mas é dos Police méne, isso sim é mais 80's com nível.

Antisgrunho disse...

agora a merda é só hiphophiphop. merda para este futuro.

britannicus disse...

Ei,pessooal! Sobre o chavascal internacionalista, só um "cheirinho" que eu já estou como o "Yeltsin" depois de jantar na Datcha.A coisa metia uma espécie de tenda quetchua para duas pessoas,trinta graus à sombra, roupa de quotio por lavar de há três dias, dois queijos da serra e meia dúzia de chouriços de sangue a "curarem" dentro da tenda à sobredita temperatura (o meu amigo é um serrano que não se afasta meia légua do terrunho sem este luzido farnel), e... e... duas viragos teutónicas de arrebentar o cabaço a rorejarem um suor antevesperal. Houve um gajo que tinha um blog sobre javardices que até escreveu um post sobre isto: chamou-lhe "foda à lagareiro". Mais não poosso dizer porque estou um bocadito bebido e o meu amigo é do Comité Central. Boa noite!