29/10/06

Texto sem Título, por Mangas

Recordo-me agora de como tudo aconteceu: o meu pai meteu-me no autocarro e levou-me com ele a visitar uns amigos de infância, refugiados como nós, que se instalaram num lar abandonado, por empréstimo. Entrámos num corredor estreito encimado por janelas de vidro baço através das quais o sol diluía a penumbra. No quarto onde viviam as duas famílias dos amigos do meu pai havia malas abertas, caixotes empilhados, tábuas de madeira, cobertores a servir de colchão e outros de palha alinhados pela parede. Todos os cantos estavam ocupados. O meu pai sentou-se num banco improvisado e trocou recordações com os amigos. Eu sentei-me no chão e troquei bolachas Maria pelo fascínio da contemplação silenciosa daquele caos habitado. Os filhos comiam carne enlatada e bebiam leite Nido por malgas de barro sem ligarem nenhuma a que eu estivesse por perto. Uma mulher entrou, acenou ao meu pai e trouxe-lhe café a fumegar. Passou-me a mão pela cabeça, mas na realidade não creio que me tivesse tocado sequer, que me tivesse sentido ou dado pela minha presença entre os volumes encaixotados que lhe sobreviveram à fuga. Num dos caixotes que serviam de mesinha de cabeceira estavam alguns livros do Major Alvega e do Príncipe Valente o que atraiu fixou a minha atenção - as capas eram a preto e branco; tudo o resto que sobrava da realidade estranha e desordenada à minha volta era um mosaico colorido, um retalho amarrotado de objectos e pessoas. O Major Alvega voava no seu Spitfire sobre as nuvens de um céu manchado pela cera de uma vela. O do Príncipe Valente estava encoberto e eu só conseguia distinguir-lhe a espada. Os miúdos acabaram a ração de combate e foram brincar com pistolas de cartão, enquanto eu fiquei sentado a tentar folhear a primeira página do Major com o olhar. Existiam outras famílias nos outros quartos. Os homens foram chegando e cumprimentaram-se com abraços. Alguns riam, outros lamentavam. Por ordem de chegada. Era assim: se os últimos lamentavam, os que lhes chegavam a seguir, não sorriam, e vice-versa. Todos eles tinham em comum sentarem-se muito direitos, mas com pesar, posturas erectas, mas com esforço. Parecia-me a mim. O café da mulher não chegou para todos e eles recusaram por cortesia...

Quando o meu pai se despediu, um dos amigos que me tinha topado desde o início, agarrou nos livros e ofereceu-mos, o meu pai perguntou como é que se diz?, eu disse, e mais tarde, enquanto descia as escadas, olhei para uma das janelas igual às outras e pensei que, apesar de tudo, todos eles deviam ser felizes porque não tendo nada, tinham muitas coisas e estavam juntos, não precisavam de arrumar as tralhas enquanto liam livros do Major Alvega e do Príncipe Valente, os putos até podiam brincar com pistolas quase verdadeiras e almoçar enlatados, e eu naquele quarto até podia ser invisível. Nessa tarde choveu até anoitecer. Uma tempestade imensa varreu as montanhas. Quando trovejou as velhas rezaram e os homens esconderam-se a coberto do perigo. As traseiras da casa onde morávamos alagaram-se até ao joelho e o colchão onde eu dormia parecia uma ilha ensopada. O meu pai teve de fazer um buraco na parede de modo a escoar a água para a horta do vizinho. As roupas misturadas com batatas na lama, caixotes empilhados, chávenas de casquinha e álbuns de fotografias arrastados pela torrente das águas. Lembro-me do choro silencioso da minha mãe, e do meu pai encostado a um canto ancorado num cigarro, o olhar fixo e carregado, sem dizer uma única palavra. Lembro-me também de ter pensado que, vistas bem as coisas, os refugiados do lar talvez não fossem tão felizes quanto isso..

26/10/06

Um Bocadinho Mais de Profissionalismo, s. f. f., por Amoleilinha (Defesa Latelal Dileito)

Venho pelo presente trazer a Vossas Excelências as razões da minha indignação. Ando indignado, sim senhor, como consumidor. Eu acho que tenho direitos e é como utente que reclamo veementemente contra uma situação que passo a expor. Aqui há dias, estava eu a surfar na net por uns sítios manhosos e encontrei um porreiro. Umas gajas a levar na peidola com categoria. As fotos eram boas, o grafismo era excelente, o texto era atractivo, estava muito bem escrito, tinha um menu diversificado capaz de agradar a todos os públicos, pelo menos à maioria, se descontarmos aquela malta esquisita dos chicotes, da mijadela e etc. Enfim, aquilo era uma coisa bem feita, como cá não se faz. Vai daí, estava lá no menu uma opção a dizer que tinha «close ups» de bundas. E foi aí que eu me indignei, foi o que aí vi que me impeliu a trazer até aqui o meu protesto. É que os cus estavam cheios de borbulhas e pêlos encravados! Está mal, é falta de profissionalismo e de brio profissional. Quem mete o cu na net tem que ter cuidado com a imagem. Isto está-se a abandalhar. Antigamente a gente comprava uma Gina e não encontrava lá disto. Os recursos tecnológicos eram muito menores, não havia photoshop nem tratamento digital da imagem, mas havia pó-de-arroz, havia o que se perdeu: sentido de serviço público! Dedicação! Empenho! Espírito de missão! Nem mais. As moças estavam ali para servir a malta e esforçavam-se, apresentavam-se como deve ser. Não havia cá borbulhas. Ou punham maquilhage, ou fotografavam de outro ângulo, ou não faziam grandes planos, eu sei lá! O que eu sei é que não havia borbulhas nas nalgas! Dá mau aspecto, falta de deontologia profissional. Hoje qualquer gaja pode ser puta sem esforço absolutamente nehum e depois dá nisto. E até têm estudos, pois têm, mas não têm brio profissional nem deontologia!E a questão é tanto mais grave quanto um tubinho de Clearasil custa uma ninharia! É que nem sequer há a desculpa de ser caro ou de necessitar de receita médica. É simplesmente inaceitável! Intolerável! Bastaria um dedalzinho de Clerasil nas nalgas, 24 horas antes da sessão fotográfica, e tudo ficava muito mais apresentável.A não ser que o Clerasil não resulte nas nalgas. Mas, mesmo assim, eu pergunto: porque é que não há um Clerasil-Cu? Hein? Sim, é que há Clerasil para o queixo, Clerasil para o nariz, Clerasil pomada, loção Clerasil, creme, creme nocturno, compressas, nha nha nha e não sei que mais. E Clerasil-Cu? Custa assim tanto inventar uma merda para acabar com as borbulhas nas nalgas? Ou é má vontade? Incompetência? E os meus direitos de consumidor? Por isso, por estas e por outras é que isto está como está. Muito obrigado e boa noite.

25/10/06

Lágrimas Negras, por Mangas

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Foi um mero acaso que me fez tropeçar neste cd. Peça única em fundo de saco, fotos de Bebo y Cigala en un ensayo, a chancela sempre de qualidade da Calle54 Records, Fernando Trueba produtor - razões mais do que suficientes para que eu o resgatasse do exílio.

Lágrimas Negras já me era familiar – era uma faixa do “Calle54”, esse duplo lendário que reúne alguns dos principais pesos-pesados do jazz latino por gerações, desde Chano Domínguez a Tito Puente, passando pelas congas de Jerry González ao sax tenor de Gato Berbieri, ao piano indomável de Chucho, filho de Bebo Valdéz. Calle54 é a celebração dos ritmos big band, a explosão do mambo, os arranjos swing, a alternância de um Samba Triste no piano de Eliane Elias com a euforia merengada no piano de Michel Camilo em From Within. Estão lá todos, com Trueba na sala de misturas. Só lá falta o trompete incendiado de Arturo Sandoval. Nunca percebi a razão. Dei-me sempre por feliz que a obra tivesse sido feita, deu-me sempre imenso prazer ouvi-la e partilha-la com os amigos.

Mas este Lágrimas Negras é outra música. Trueba, sempre ele, encurtou o hiato de cinquenta anos entre Bebo e Dieguito “El Cigala” e juntou-os em estúdio. A lenda e o flamenco lado-a-lado, mas de olhos nos olhos. O mestre e a voz. São nove clássicos populares, nove pérolas reinterpretadas com arranjos de Bebo Valdéz. El Cigala envolve-se e empresta-lhes a dor e a pureza da alma gitana. Nieblas de Riachuelo ou o bolero Inolvidable são peças carregadas de intimismo onde a voz de Cigala percorre a saudade e a emoção do poema com as ganas e a paixão própria de um cantor de flamenco. Não há ali competição ou desgarradas, pelo contrário, os dois complementam-se, aproximam-se, voam o mesmo destino e as canções respiram um profundo respeito mútuo e a admiração de Cigala nos poucos e discretos olés aos solos de Bebo.

No tema Lágrimas Negras, o saxofone de Paquito D’Rivera entra de mansinho. Depois revolta-se. Cala-se para o solo do piano, para as palavras de Cigala e acaba perfilado com ambos a cantar a sua versão da história. A encerrar o disco, Cigala interpreta num portunhol escorreito e sensato o clássico Eu Sei Que Vou-te Amar da dupla Vinícius/Jobim. A meio da faixa a voz rende-se e, à solitude do piano de Bebo, junta-se Caetano Veloso que recita o poema Coração Vagabundo. Escreve Fernando Trueba - no pequeno diário de produção, paellas colectivas e ensaios no estúdio que acompanha o disco -, que foi um momento final de ojos húmedos. Antes disso, Bebo terá dito: “Yo soy un viejo. Mi cuerpo ya no funciona bien. Pero mi espíritu tiene veinte años”. Olé!

23/10/06

As minhas leituras, por Jean Báljan

Há uns meses, mais ou menos, que quase não consigo ler nenhum livro até ao fim. Começo-os mas, miséria das misérias, não lhes consigo dar vazão suficiente: Não os acabo com a velocidade de outros tempos. Depois vão-se empilhando na mesinha de cabeceira. O Assis Pacheco em cima do Sepulveda, este por cima do Gao Xingjian, este por seu turno por cima do Krishnamurti por seu turno em cima do Olivier Rolin, por seu turno em cima do Abrunheiro por seu turno sobre um livrinho antigo e já amarelado sobre Ocultismo de um cavalheiro de que agora não me lembra a graça, etc., até quase esconder o candeeiro. E em cima disso tudo, uma Time (edição europeia) de há dois meses, uma Pública de há três semanas e uma National Geographic de há um ano e picos. Em contrapartida leio o Público todos os dias e revistas com fartura. Se bem que o Público também é leitura incompleta, já que passo à frente as páginas do futebol por ser alérgico ao desporto escrito e falado. Aliás, nas revistas também não leio tudo. Nos cafés leio o Diário de Coimbra, As Beiras, O Figueirense e, quando os há, o Correio da Figueira e a Voz da Figueira. Depois, farto-me de ler coisas na Internet, aderi ao vício das newsletters e recebo correio com novidades diárias, semanais ou quinzenais de coisas como o NY Times; a Maxideia; a Sapo Saúde; o What Doctors Don’t Tell You; a Foreign Policy; o boletim informativo da ONU (que tem um excelente serviço noticioso para assinantes); as Informações de Segurança do Millenium; as efemérides diárias (excelentes) do Canal História; os boletins do Ciência Hoje; os alertas do Google News sobre Portugal, Coimbra e Figueira da Foz; notícias da NASA sobre ocorrências e “inventos” no espaço; a news-letter do Health World Online; a news-letter da New Scientist; da BBC Science&Nature; a news-letter do Figueira.net; a da Human Rights Watch. E mais umas quantas de mais uns quantos temas e umas quantas geografias que ficam aqui de fora em nome do fastio. Tudo isto não substitui, obviamente, a leitura de livros, que se tornou prática eminentemente nocturna e de almofada: todas as noites um bocadinho obrigatório antes de cerrar a pestana. Já a leitura electrónica é para ir lendo ao longo do dia durante a jorna, se a jorna permitir. Além disto há os sites, os portais, o correio electrónico pessoal e os blogues, a que também vou dando uma pestanada, quando posso. Bem como as legendas dos filmes, dos documentários e das séries de ficção/estimação como os Sopranos, que de resto, tem argumentos/textos fabulosos. No elevador dou ainda uma vista de olhos ao Dicas e aos folhetos publicitários com que me enchem a caixa do correio e que às vezes trazem umas promoções catitas. Antes de jantar leio o correio postal mais sério e personalizado, quando o há. Na cagadeira gosto mais de revistas de informação geral e do Courrier Internacional. No caminho de casa para o trabalho e vice-versa, que faço a pé ou de bicicleta, não deixo ainda de ler os cartazes, os folhetos, as faixas e os mupis que me aparecem à frente. Quando me interessa, paro e leio tudo antes de reprosseguir. Também dedico uma parte dos meus dias a ler SMS’s e Messenger’s (ultimamente também leio as mensagens dos meus amigos que descobriram que o Gmail também tem um serviço de chat). Como entre outros ofícios, também sou agora editor de uma revista mensal, pelo menos uma semana por mês leio (e corrijo) todos os artigos a publicar. Além disto, quando vou às compras, leio os rótulos dos produtos. Por razão que adiante perceberão, também leio catálogos de editoras. Por mor de compor o orçamento, também leio transcrições de julgamentos. Leio ainda capas e brochuras de CD’s e DVD’s, bem como os ditados, graças e provérbios nos pacotes de açúcar. Às vezes, durante o dia, para desenjoar e como também trabalho numa livraria, pego num livro e leio um bocado. Quando aquele é de feição a agarrar-me pelos tomates, levo-o para casa e junto-o à pilha da mesinha de cabeceira para ir lendo mais devagarinho, umas linhas por noite até se me cansarem as pestanas.

22/10/06

Delibes, por Urko

A passada noite lia uma entrevista a Miguel Delibes, e confessava este que “"Antaño, todo hombre nacido de mujer se consideraba portador de cosas positivas, de algo digno, algo noble, unos valores, en suma. Pero la descendencia de Caín pesaba sobre nosotros, y el hombre que era portador de reservas morales se convirtió en un ser peligroso, maligno, de difícil definición. Ahora, el hombre miente, ataca, mata, hiere, viola y su presencia lógicamente engendra desconfianza. El hecho de ser parido por mujer no lo dignifica ni quiere decir nada".

Miguel Delibes é um dos melhores escritores de língua castelhana da segunda metade do século XX. Ainda hoje com 87 anos continua assistindo as tertúlias no café Continental e trata de corresponder aos seus conterrâneos que o cumprimentam durante o seu habitual passeio matinal no Campo Grande da cidade de Valladolid – berço e vida do seu quotidiano.

Don Miguel fazia esta confissão, quando se referia ao grave problema da imigração dos países africanos, que forma já parte do noticiário habitual no pais de al lado. O cenário dantesco se banaliza, é uma noticia diária, umas vezes cruel e outras vezes pior. Africanos adultos, adolescentes, crianças e grávidas, morrem o sobrevivem numa aventura para um destino aparentemente paradisíaco, vem desde as costas da Guiné, Gâmbia, Senegal ou Mauritânia, traçando uma travessia quilométrica em condições extremamente desumana, inenarráveis. Durante o percurso vão encontrando cadáveres - o mar também cobra a sua quota -, não desistem, antes a morte. Assistidos nas costas españolas uma maioria são repatriados -já são 76.000 os repatriados neste ano - outros sem identificação possível ficam em centros de acolhimento, a espera de não se sabem bem o quê, centros de portas abertas que os deixam soltos como se fossem cães vadios, – eles se crêem afortunados, pensam que assim é melhor, tal vez, uma boa oportunidade surja. No entanto, o pior só acaba de começar. À espera há policias e funcionários corruptos que prometem documentos em troca duma enorme suma de dinheiro, o simplesmente se apoderam de suas roupas, o favores sexuais em troca de nada, o são escravizados por salários inexistentes para mais tarde ser expulsos ou simplesmente denunciados. É este tipo de podridão que o nosso amigo Don Miguel, vê tristemente emergir nesta sociedade do bem-estar.

16/10/06

"Ligações Perigosas", por Le Chevalier

Ovídio, na «Arte de Amar», recomenda aos amantes o orgasmo simultâneo:

«Mas não deixes para trás a tua parceira, desfraldando mais largas velas,nem seja mais rápido o ritmo dela que o teu; avançai para a meta ao mesmo tempo, então, será pleno o prazer, quando, par a par, jazerem, vencidos, a mulher e o homem.»

Em todo o poema de Ovídio se detectará o espírito barroco. Os jogos de sedução, o elogio da mentira, o engano, o disfarce, a máscara, a traição, as aparências e os espelhos, os ambientes cortesãos, o culto do prazer, as intrigas palacianas, enfim, tudo o que se reencontrará no tardo-barroco às vésperas da Revolução. Nenhum filme o mostra tão bem como o "Ligações Perigosas" (1988) de Stephen Frears, baseado na novela de Choderlos de Laclos. A cena final em que Glen Close (Marquesa de Merteuil) retira a maquilhagem simboliza, como já muitos notaram, o fim do Antigo Regime. Como a morte em duelo de John Malkovic (Visconde de Valmont), às mãos do impulsivo Keanu Reeves (Chevalier Raphael Danceny) é uma metáfora da Revolução e um anúncio do espírito romântico. O fim de Malkovich, esvaído em sangue sobre a alva e álgida neve, é o fim de um tempo que será dado como vicioso e corrupto pelo puritanismo revolucionário. Mas, a morte de Malkovich implicará a morte de Michelle Pfeiffer, por desgosto de amor, incapaz de viver sem o amor pecaminoso que se impõe à sua vontade e a domina completamente. A paixão que Malkovich alimentara por Pfeiffer, e que julgara dentro do jogo calculista da perfídia barroca orientada para a intriga e para o prazer, revela-se afinal fora do controlo da vontade e da previsibilidade do cálculo. Malkovich, moribundo, confessa-se apaixonado na presença do seu jovem carrasco, Reeves, uma personagem já romântica. Desfalece logo após, no que é acompanhado pelo desfalecimento de Pfeiffer. Isto é, anuncia-se a Revolução quando Glen Close limpa o rosto, mas outra revolução se anuncia na morte simultânea dos dois amantes: o nascimento do amor romântico, decalcado já não de Ovídio mas do modelo shaekespeareano, um amor impossível e trágico. Não é o orgasmo que é simultâneo, é a morte simultânea dos amantes. Por amor.

05/10/06

Batiti, por Tatonas

O Batiti é um sem-abrigo aqui do meu bairro. Cheira mal, está todo esfarrapado, é doente mental, trata toda a gente por doutor, tem um cordel a servir de cinto, dorme debaixo de uns cartões, recusa ir para um lar, passa os dias a mendigar migalhas e a peregrinar de um lado para o outro. Bebe cerveja e come o que lhe dão. O Batiti acha que eu sou médico e cada vez que me vê chama-me doutor, mostra-me a perna toda esfolada e diz que lhe dói ali e pergunta-me se eu não lhe passo uma receita. Eu digo que não sou médico e o gajo não acredita. É doido. Hoje encontrei o Batiti à porta do centro comercial aqui do bairro. Uma coisa moderna. O Batiti chamou-me:
- Ó doutor, ó doutor, chegue aqui.
Eu lá lhe dei a resposta habitual: que não era médico, não lhe passava a receita, não lhe via a perna, não lhe dava dinheiro para os copos, etc. Mas o Batiti pediu-me se eu lhe podia comprar um pão do supermercado da cave do Centro Comercial e deu-me uma moeda de 50 cêntimos. O Batiti disse-me que o vigilante do centro não o deixava entrar.
Eu acho esta merda estrondoso, inaceitável, incrível e fascista! Nazi! Por todas as razões e mais algumas especiais. O Centro Comercial Dolce Vita, em Coimbra, foi construído em cima de um espaço público, que era de TODOS, que era a Praça Heróis do Ultramar. A Comunidade viu-se privada do espaço que tinha para aí se construir um centro comercial. E agora, os senhores vigilantes, que nem sequer são autoridade pública, impedem o acesso ao centro comercial do Batiti! Isto é pior do que no tempo do sr. prof. A.de O.S. Nesse tempo, de miséria e pobreza, escondia-se a pobreza proibindo-se a mendicidade por decreto. A obsessão higienista e a propaganda impunham-nos a ilusão de uma sociedade limpa. Agora, estamos pior: não há decretos, há usurpação do espaço público e vigilantes a cumprir ordens de administrações cegas e sem rosto, proibindo um CIDADÃO de comprar pão! Vamos escondê-los? Exterminá-los? Interná-los? Enxotá-los?

Foto: http://www.bized.ac.uk/images/homeless.jpg

25/09/06

Filhos da Região de Turismo do Oeste: guião para um episódio de uma série juvenil, por Manoel Bacoco

[A acção começa à porta principal da Escola Básica do 2º e 3º Ciclos numa cidade da região Oeste, nos arredores de Lisboa. Personagens: Professora de Biologia, Marta, João, Bernardo e Carolina. As duas raparigas saem do portão escola. Espera-as o Bernardo]

CENA 1

Carolina (para a Marta): Olha, não é o Bernardo?

Marta: Sim, parece. O que é que está ali a fazer? Será que faltou às aulas?

[Aproximam-se do Bernardo]

Carolina e Marta: Olá, Bernardo!

Bernardo (com um ar triste, o capacete debaixo do braço, encostado à mota. Veste roupa de marca. Fala com uma voz baixa]: Olá, Carolina, olá Marta…

Carolina: Passa-se alguma coisa?

Bernardo: Não, nada...

Marta: Faltaste às aulas.

Bernardo: ….

Carolina: E logo hoje que tivemos uma aula muito fixe de Biologia. Estivemos a estudar como se deve prevenir a SIDA.

Marta: Pois foi. A professora de Biologia é muito fixe. Hoje aprendi muita coisa.

Carolina: Deixa lá isso. Ó Bernardo, desculpa lá mas estás com um ar um bocado esquisito. O que é que se passa?

Bernardo: Nada, nada. Olha, tenho que me ir embora. Xau!

[Bernardo sai de cena, de mota. A câmara filma o Bernardo a desaparecer ao fundo da estrada]

Carolina [para a Marta]: Não achaste o Bernardo muito…

Marta: (responde afirmativamente com um aceno de cabeça) Isto é muito estranho…

CENA 2:

[No Centro Comercial, depois de almoço]

Marta: Olha, Carolina, aquele não é o João? É muito giro, não achas?

Carolina: Deixa-te de disparates, Marta, agora não é a altura ideal para esse tipo de comentários. ‘Bora falar com ele. Ele é a pessoa ideal para nos ajudar a descobrir o que anda a atormentar o Bernardo.

Marta: Pois é. João, João, aqui, somos nós…

João: Oi, olá miúdas, que surpresa. Estão porreiras?

Marta e Carolina: Nós estamos, e tu.

João: Eu estou óptimo, vim agora do treino de judo, vou almoçar com o meu pai e depois vou para as aulas de violino.

Marta: Sempre o mesmo João, muito atarefado, de um lado para o outro. Mas, será que nos podias dar um momento?

João: Porquê? Há algum problema?

Carolina: Não…

Marta (interrompendo): Há… pode ser que não, mas achamos que algo se passa com o Bernardo.

João: O Quê? O Bernardo? O que é que lhe aconteceu? Ele é um gajo bué de fixe… Digam-me, por favor, aconteceu alguma coisa?

Marta: Não sei, mas ele estava esquisito hoje ao fim da manhã. Queríamos falar contigo por causa disso.

João: Claro. Deixa-me só dar um toque ao meu pai. (Tira o telemóvel do bolso): ‘tou, pai, olha, passou-se agora aqui uma cena, não vou poder ir almoçar contigo, desculpa lá… eu sei pai… eu sei. Não te importas? De certeza? Pronto, obrigado, és um porreiro.

Carolina: O teu pai é mesmo fixe, quem me dera ter uma relação assim com o meu pai.

Marta: Estas relações constroem-se com base no diálogo e na confiança, Carolina.

João: Vá, meninas, deixem lá a psicologia agora. O que é que se passa com o Bernardo?

CENA 3:

[Na esplanada do Centro Comercial. Marta e Carolina colocam João a par da situação. João baixa a cabeça pensativo à medida que se vai inteirando da situação. De repente, avistam a professora de Biologia]

João: Olha, aquela não é a setôra de Biologia?

Marta: É.

Carolina: A setôra é bué de fixe. Fala connosco sobre todos os problemas que nos afligem. Olha, tive uma ideia, vocês não acham que é a pessoa ideal para nos ajudar a resolver o problema do Bernardo?

João e Marta: Isso, excelente ideia, Carolina. Setôra, setôra…!

Professora de Biologia: Olá, meninos, por aqui? Mas que agradável surpresa… Passa-se alguma coisa?

João: Bom…

Professora de Biologia: Vá, andem lá, já sabem que comigo podem contar sempre.

Marta: É o Bernardo, setôra…

Professora de Biologia: Pois é, então vocês também repararam que ele anda esquisito.

Carolina: Pois foi, setôra. Será que a setôra podia ver o que é que se passa?

Professora de Biologia: Vou tentar, deixem comigo.

CENA 4:

[No outro dia, à entrada da escola]

Bernardo: Olá, Marta. Olá Carolina, olá João.

Marta, Carolina e João: Olá, Bernardo. Estás muito mais alegre do que ontem. O que é que se passou.

Bernardo: Eh pá, vocês nem imaginam. Vocês são mesmo uns amigões. Tenho que vos agradecer.

Carolina: Então? Conta, não nos deixes assim… Vá lá.

Bernardo: Ontem, a professora de Biologia foi a minha casa falar comigo. Ela contou-me tudo. perguntou-me o que é que eu tinha, disse que eu andava estranho e que vocês tinham reparado.

Marta: pois foi…

Bernardo: Fui um palerma.

João: Anda lá, pá, conta

Bernardo: Vocês conhecem o Tó Jó, aquele tipo estranho do 9º H?

Todos: Sim, claro, o gajo é completamente passado.

Bernardo: Pois, ontem o gajo desafiou-me para faltar à aula de Biologia. Eu fui burro e aceitei. Depois fomos para o salão de jogos…

Carolina: Uiii… isso é cá um ambiente

Bernardo: E o Tó Jó desafiou-me a fumar um charro. Eu primeiro disse que não, mas depois…

Marta: Ah! Por isso é que tu estavas com aquele ar meio esquisito?

Bernardo: Pois foi. Mas a professora de Biologia já me explicou os malefícios da droga. E disse-me que eu tinha muita sorte em ter amigos como vocês.

João: Lá isso é verdade.

Bernardo (abraçando todos): Obrigado, meus amigos, vocês são os melhores amigos do Mundo.

João: Tens que vir para o judo comigo, para te manteres afastado desses perigos.

FIM

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24/09/06

Memória de Porco, por Porco Solidário

Dobrei o cabo meridiano da vida. Duvido que viva tanto como já vivi. É altura de pensar nas memórias. Um gajo olha para trás e só vê merda. Por isso, o melhor é continuar a olhar em frente. Isto significa que esta página inaugural é já, também e ainda no primeiro parágrafo, a última página das minhas memórias. Isto traz-me uma grande responsabilidade. É importante que estas memórias, ou melhor, memória, não deixe má impressão. Não pode ser uma memória de merda. Esforçar-me-ei.
Estava aqui a desfolhar os papéis quando me veio à lembrança um confrade que anda arredio. Foi meu colega desde o primeiro do Ciclo Preparatório ao último da Faculdade. Foi um dos confrades mais entusiastas aqui do Porco. Organizava jantares, escrevia reportagens, tirava fotografias, enchia-nos o correio electrónico com mensagens inúteis, telefonava, jantava connosco, etc. Há dois anos que anda desaparecido, ninguém o vê a não ser acidentalmente. A amizade continua inalterada e fortíssima. Ele há-de aparecer. É o Galgo.
Estava aqui a ver uma «licença militar» de 1985 quando fui passar o Verão a Inglaterra. Lembro-me dessas férias. Tirei passaporte, paguei uma taxa de 1000$00 para me poder ausentar do país, levava pesetas, francos e libras e uma licença militar passada pelo DRM a dizer que eu tinha a situação regularizada e me encontrava na «Reserva Territorial». Nunca soube o que era isso. O papel, já amarelado, recordou-me as inspecções, a minha única memória da caserna. Eu fui com o Galgo às inspecções militares. Éramos da mesma idade e vizinhos. Lá fomos ao mosteiro de Santa-Clara-a-Nova. O Galgo tinha metido uma cunha. O pai dele, entenda-se. Tinha um capitão amigo, pagou umas notas, e ia seguro de que não pagaria à Pátria o que ela reclamava. Eu juro que não movi uma palha para evitar o cumprimento dessa obrigação. Não porque tivesse vontade de servir a dita, mas porque acreditava que não me queriam lá para nada. Pobre Pátria que precisa de um gajo como eu para a defender. Quando isso acontecer, quer dizer que já 'tá fodida! Lá fomos. O Galgo ia confiante, eu também. Por razões distintas, como se viu. Fizémos muitos testes. Psicotécnicos com cruzinhas e a contar cubos postos em estruturas de aparência tridimensional, um ditado porque nos esquecemos do diploma de estudos, uma consulta médica em que o doutor nos perguntou se sofríamos de alguma coisa, um raio-X, um teste à audição, mais outro à visão, etc. Foi um dia inteiro a andar daqui para ali e dali para aqui. Intenso. A certa altura, lá para o final da manhã, pedem-nos para mijar para um copinho de plástico. Era para fazer o teste às diabetes. Punham lá uma palhinha que, depois de bem humedecida, se tingia numa gama de cores que indicaria o nosso estado. Eu portei-me bem. O resto da malta mostrou uma secura repentina, intimidada pelo facto de estarmos ali uns à frente dos outros com o copo na mão e a pila de fora da braguilha a fazer shhhhhhh. Quanto mais shhhhhhhh fazíamos, mais inibidos se mostravam todos e mais se retraíam as bexigas. Todos menos eu. Aquilo foi um consolo. Posso dizer que foi o melhor serviço que prestei à Pátria. Orgulho-me disso, devo dizer. Se a Pátria dependesse da minha disponibilidade mictória, a Pátria seria uma Potência. A Pátria pedia-me mijo e eu dava, abundantemente. Não era como aqueles que por ali andavam em círculos com o copo na mão a fazer shhhhh. Vai daí, o Galgo disse-me assim:
- Ó Luís, tu não precisas de tanto, carago. Dá aí um bocado.
E estendeu-me o copo. Eu, fraternalmente, e porque gosto de partilhar, dei-lhe metade da minha colheita. Vendo isto, os circunstantes venceram a timidez e fizeram pedidos idênticos. Não multiplicámos o líquido, mas dividimo-lo por tantas porções quantas as necessárias. Ninguém ficou sem o seu quinhão. Cada um ficou com um golezito, salvo seja, pequenino mas o suficiente para embeber a palhinha da diabetes e para que se pudesse colorir conforme a densidade dos meus açúcares. Claro que, nesse dia, ninguém acusou diabetes. Fiquei satisfeito. Ficámos todos satisfeitos. Todos menos o Galgo que, apesar da cunha, seria chamado para cumprir serviço militar. Eu não, eu passei à reserva territorial.

Foto: http://www.fawley-hants.co.uk/Council/Council-News/November_2003/Imagefurniture/A-Pint-of-Beer.jpg

18/09/06

Somos Todos Católicos?, por Constantino

Há uns meses atrás, um jornal nacionalista dinamarquês, num exercício livre de xenofobia dissimulada e (bem) consentida pelas leis ocidentais de liberdade de expressão e imprensa, publicava uma série de caricaturas que desafiava o maior tabu religioso e cultural das centenas de milhões de crentes islâmicos espalhados por todo o Mundo: dava rosto a Maomé! Todos se recordam do escândalo e das reacções dos fanáticos muçulmanos. Todos se recordam dos excessos e das pressões inimagináveis exercidas sobre o director do jornal e sobre a diplomacia dinamarquesa que se recusou (bem) a pedir desculpa, argumentando que o poder político é separado da imprensa e que a liberdade de expressão é sagrada no Ocidente. Todos se lembram das manipulações das multidões e da guerra de informação. Na altura, nos jornais e na blogosfera houve muitos que se solidarizaram com a diplomacia dinamarquesa e, retomando Kennedy, gritaram inflamados: «Somos todos dinamarqueses!»
Agora, há uns dias atrás, o papa Bento XVI proferiu uma lição numa universidade alemã onde (bem) citou um imperador bizantino para demonstrar, a propósito da recusa deste em se converter ao Islão a pretexto da violência da Jihad, como a guerra é contrária ao sentimento religioso. O papa, não tão inflexível quanto a diplomacia dinamarquesa, até porque o seu múnus assim o determina, esclareceu e pediu desculpas por eventuais ofensas. A verdade é que, apesar disso, as reacções dos fanáticos aí estão. O primeiro-ministro turco reagiu solidarizando-se com o Islão ofendido, contrariamente ao governo dinamarquês que se demarcara de tomar uma posição sobre assunto religioso, na Somália mataram uma freira italiana, na Índia queimam efígies de Bento XVI, apedrejam igrejas e manifestam-se na praça pública. «Somos todos católicos?» - pergunto eu.

foto: http://news.bbc.co.uk/2/hi/europe/4495835.stm

17/09/06

O Que é um burro?, por James William N. Horse III

Ontem, o Sr. Necare publicou no seu blog um textozito inofensivo que intitulou «Etiquetagem». Trata-se de uma brincadeira ingénua pela qual o autor se pretende retratar, manifestando uma série de preferências e aversões. A brincadeira funciona como uma corrente, devendo o autor indicar um conjunto de amigos que continuará a série, sendo que foi ele próprio indicado por outros. Na minha adolescência eu também via os mariquinhas da minha turma com este tipo de jogos. Em princípio, estas brincadeiras são idiotas e inofensivas, em princípio, pelo menos enquanto não maculadas por afirmações despropositadas.

Apresentando as suas etiquetas, o Sr. Necare profere umas banalidades irrelevantes: que gosta da Suécia, gosta de música, cinema, literatura e não gosta de calor. Pelo meio, afirma despudoradamente que não gosta de espanhóis. Sem vergonha e sem justificação plausível, porque a não há, proclama-se xenófobo e argumenta que os espanhóis são expansivos e barulhentos e que andam sempre a lixar-nos. Depois reafirma a convicção: «Pode parecer estúpido mas é a realidade.»

Se o Sr. Necare afirmasse não gostar de pretos porque são muito qualquer-coisa, ou de judeus porque são muito não-sei-o-quê, o sr. Necare seria racista e incorreria em crítica séria e pena grave. Mas o Sr. Necare refere-se aos espanhóis e por isso se acha isento de responsabilidade, deve achar que tem piada e que xenofobia não é acusação grave quando aplicada a um povo inteiro. O Sr. Necare, como se pode ver, é burro.

Comentando esta inanidade, e sob o pseudónimo Pata Negra, eu chamei burro ao Sr. Necare. O Sr. Necare sentiu-se com o epíteto, justíssimo diga-se, e veio aqui ao Tapor verter a sua bílis. E disse:

«@Pata Negra: Se queres insultos, vamos a isso.
Sua besta do caralho, com uma merda de um nick tirado dos presuntos, julgas-te muito esperto, não é? Tiraste algum curso de psicologia por correspondência e queres aplicar os teus conhecimentos, mas é melhor ires para a tua vizinhança de parolos, pois deve ser o único sítio onde fazes um brilharete.
Deves ser descendente de espanhóis, não é cabrão? Andas vestidinho de andaluza, a dançar flamenco e a tocar castanholas. Volta lá para a merda da pocilga de onde saíste que a tua opinião não vale um bocado de merda de porco.»

Como se vê, e como já se havia suspeitado da leitura do post das etiquetas, o estilo não é recomendável, aliás tal como a sintaxe e o conteúdo.

O objectivo deste post é provar que o Sr. Necare é burro. É fácil. Não me dirijo ao Sr. Necare, ele lerá o post porque o post é público, mas ele não é o destinatário. Até porque, como burro que é, não entenderá a argumentação aqui expendida.

Comecemos por perguntar o que é um burro? Não no sentido zoológico, claro está, mas quando a expressão, como ofensa, é aplicada a um indigno representante do género humano. Neste caso, um burro é um indivíduo que, incapaz de interpretar e entender as evidências com que se depara e a partir daí produzir um discurso racional, insiste presunçosamente e com base na ignorância dogmática, em avaliar a realidade que não entende com base nas suas limitações. Isto é um burro. O Mundo visto pelos olhos de um burro é um mundo distorcido. Acho que a definição é boa.

A seguir, trata-se de reputar como completamente falsas as afirmações do sr. Necare relativamente à Espanha. O Sr. Necare não conhece a Espanha. Contrariamente ao que o Sr. Necare diz, a Espanha não está nem nunca esteve preocupada em nos lixar. É errado do ponto de vista histórico e político. É errado, seja qual for o ângulo e a óptica de análise. Revela ignorância completa e gritante. Poupo-me à demonstração, porque a evidência é do tamanho do universo e em sentido contrário.

Em segundo lugar, o Sr. Necare revela uma ignorância total acerca da importância da Espanha, da sua história e da sua cultura. De Goya ao presunto Pata Negra, de Altamira a Tapiés, de Almodovar a Cervantes, de Machado a Lorca, de Alonso ao Real Madrid, de Pau Gasol a Angel Nieto, de Penélope Cruz a Juan Miró, De Stª Teresa de Ávila a Cervantes, podia dar milhões, dezenas de milhões de exemplos em todos os sectores de actividade, do desporto à literatura, da poesia ao cinema, da pintura à política, da religião à sociedade, de figuras e factos marcantes na história da humanidade de origem espanhola. Em face desta evidência esmagadora, merecedora de admiração sincera, o senhor Necare diz que não gosta. Que são barulhentos e expansivos. Tece umas considerações generalistas, racistas, xenófobas e inaceitáveis.

Por outro lado, o senhor Necare fala dos nossos vizinhos como se fossem estranhos. Desconhece que a hispanidade é um pilar essencial, ainda que recalcado pelo discurso de muitos burros, da identidade portuguesa. Falar mal dos espanhóis é falar mal de nós.

Só um burro o não vê, como é o caso do Sr. Neacre. Tal só se explica se dermos por demonstrado que o Sr. Necare é burro. Esta é a etiqueta que melhor o serve, poisde contrário, ter-se-ia que considerar o Sr. Necare como racista e xenófobo. A burrice torna o Sr. Necare inimputável. Ofereço-lhe o direito a usar a coroa que ilustra o post. Mereceu-a!

foto: http://www.1ofakindstuff.com/Shrek-Donkey-Ears.html

11/09/06

A Desgraça Nacional Tem Causa e Tem Nome, por Silver Bullet

Em 1871, o Sr. Antero de Quental, ainda movido pelo desvelo esperançoso de regenerar a nação portuguesa, ilusão que uma vez esvaída contribuiria para o desânimo que faria dele um suicidário simbólico, tentava diagnosticar as Causas da Decadência dos Povos Peninsulares. Como muitos antes dele e muitos outros após, o Sr. Antero de Quental tinha como preocupação a ressurgência da Nação. A contemporaneidade nacional teve esta obsessão: regenerar, ressurgir, ressuscitar, recuperar, modernizar, renascer. Hoje, devemos a Vasco Pulido Valente, o maior analista da portucalidade que tem em Eduardo Lourenço o seu digno anverso, esse favor de nos recordar todos os dias uma verdade evidentíssima: Isto é irregenerável!

Tivesse o Sr. Antero de Quental atingido esta verdade claríssima e muita tragédia se tinha poupado, a começar pela sua. Mas não, o Sr. Antero considerou como causas da miséria ibérica o absolutismo, o jesuitismo, o catolicismo tridentino e mais outras observações próprias do romantismo oitocentista. Sendo as causas comuns ao espaço peninsular, tal justificava a decadência comum, daí que o plural hispânico usado pelo açoriano, sendo relevante, escondesse um equívoco. Antero buscou as causas a partir do presente, em vez de haver estudado as causas como tal. A prová-lo, o facto de, actualmente, a Espanha trilhar um progressivo e continuado rumo, o que não se verifica a Oeste de Vilar Formoso. Daí que, as causas devem ser outras.

Pois bem, caros leitores, 136 anos após a célebre conferência anteriana, cumpro o grato e histórico dever de informar que a decadência nacional tem causa e tem nome: Pedro Machado!

Pedro Machado é o novel presidente da Região de Turismo do Centro. Na edição Local Centro do «Público» de ontem, é-lhe traçado o perfil. Vale a pena recapitular: O Senhor Presidente tem 39 anos. Em miúdo agarrou nas bandeiras laranjas do PSD porque gostava da cor. A precocidade, enfeitada com a futilidade das razões, deixa antever o pior: uma carreira política! Licenciou-se em Filosofia, na Vetusta e nada, absolutamente nada do que seria minimamente exigível a um estudante de Filosofia, mesmo que da Vetusta, transparece no licenciado Machado. Não há vestígio de crítica, reflexão, especulação, cultura ou erudição. O homem é um fenómeno de vacuidade! Durante os tempos da juventude, seguiu a carreira normal: fez parte das listas para a Direcção-Geral. Perdeu, mas enrobusteceu-se na derrota. Dirigiu, a nível distrital, não concelhio note-se, várias campanhas eleitorais e, findo o curso, ei-lo revigorado no outro antro onde se geram estas espécies: as autarquias locais. Foi membro da Comissão Política Concelhia de Montemor-o-Velho, ascendendo à Comissão Distrital de Coimbra. Depois, galgará uma escadaria ascendente que, de membro da Assembleia Municipal de Montemor, passando pelo executivo autárquico onde chegará à vice-presidência, atingirá os cumes olímpicos: vogal da Comissão Política Nacional! Pelo caminho, foi ainda adjunto de um obscuro secretário de estado (a minúscula é de propósito). Este percurso deu-lhe «traquejo» e encheu-lhe o telemóvel de contactos importantes. O homem cita-os: Fernando Nogueira, o Desaparecido; Santana Lopes, o Inefável, Zita, a Convertida, e Cavaco, o austero. Acima de todos, Marques Mendes, que ocupa um lugar especial na lista telefónica do Sr. Pedro Machado.

A docência, essa, exerceu-a durante dois anos e não se mostra disponível para regressar. «Não o seduz», justifica-se. O Sr. Pedro Machado orgulha-se da sua carreira e não lhe passa pela cabeça extinguir a Região de Turismo do Centro para cuja presidência acaba de ser nomeado. Chorem comigo, caros concidadãos! Entendem agora o cinismo do grande Vasco Pulido Valente? Entendem porque razão Antero acabou por dar um tiro nos cornos?

Bebamos, meus caros, bebamos muito, porque o cheiro a pólvora faz-me dores de cabeça e este país faz-me mal à úlcera!


foto: digitalizada a partir da edição do jornal «Público» de 10.Set.2006

05/09/06

Porcos em Cuecas, por Pig Klein

Sacrifíco a modéstia à verdade e afirmo: aqui, entre a malta do Tapornumporco, eu sou o gajo que veste as cuecas mais bonitas. No Sábado, nos balneários de Montebelo, após mais uma jogatana, banho tomado, estava a malta toda nua a esfregar-se nas toalhas de turco. Garanto-vos que o espectáculo é lastimável. Mas pronto, aquilo também não é uma passagem de modelos, a malta está lá é para tomar banho e, embora desagradável, não dói nada e passa depressa. O estranho é que o espectáculo piora quando a nudez se cobre. Devia ser ao contrário, isto é, quanto mais e mais depressa se encobrisse a fealdade, menos desagradável se tornaria a contemplação. Sucede que a inversão desta regra se deve à deplorável qualidade das cuecas usadas. Esteticamente, os trousses confradais são deploráveis e, assim, quando os confrades os vestem o espectáculo deteriora-se.
Eu não, eu joguei com uns modernos boxers Throttleman de puro algodão, com umas cornucópias douradas sobre fundo azul-esverdeado. Depois do banho, optei por uma mudança de estilo, mantendo todavia a classe, vestindo uns slips com meia-perna, de um branco imaculado, cintado com um elástico negro. Assim tipo Calvin Klein. Este modelo acondiciona melhor os aparelhos viris, dando uma maior sensação de segurança e conforto. Está tudo pensado, com categoria. Classe pura.
Agora, o resto da malta ainda não percebeu que a beleza interior também conta. E até dói ver aquelas cuecas antiquadas. Um deles, o Vice, usava umas axadrezadas, com dois tons de verde. Lamentável. Pareciam sobras de um cortinado comprado nos saldos da Moviflor. O outro, o Grunfo, usava umas cuecas azuis, modelo antigo, tipo Jotex ou coisa que o valha, fabricadas no Vale do Ave seguindo modelos de mil-nove-e-cinquenta-e-tal, apertadíssimas e com a fruta mal acondicionada a sufocar. É certo que a cor escura tem sempre a vantagem de disfarçar as distrações. Mas está mal. O Santo Sudário também não era azul escuro. Quando eu esperava que o último elemento do grupo, o Mau, desse o exemplo contrastante, eis que a minha decepção se torna total. O Mau, que é o homem que afirma que os botões de uma camisa devem ser da cor do tecido e insiste para que a regra seja observada, revelava agora o seu lado parolo. O homem veste cuecas negras, banalíssimas, daqueles modelos em V, antiquadíssimos e completamente out.
Há que mudar, inovar e modernizar. Isto não pode continuar assim. Na Europa já não é assim. Vistam-se como deve ser. Ou então, andem nus que não é pior!

01/09/06

Meteorologistas e Coleccionadores, por Pig Colector

O boletim meteorológico em Espanha é a coisa mais ridícula que existe. Não só em matéria meteorológica e não só para um português. Para um espanhol, ou para outro qualquer extrapeninsular que livremente viaje pela Península aproveitando a liberdade, o boletim é inexplicável. Imaginem um belga em Salamanca a lobrigar, acaso sobreviva ao IP5, molhar os pés na praia da Claridade lá pelo fim da tarde. Após as tapas, e já na Plaza Mayor, espreguiça-se e pede um café solo. Abre o jornal, busca a página da meteorologia para saber como está o tempo no litoral atlântico e…

- Merde! Portugal a disparu! Où est-il? – No caso de ser um belga francófono, claro, senão, imaginem merde em valão. A surpresa entende-se, seja qual for a língua. Portugal não é o Titanic, porra! O Copperfield quando fizer desaparecer um país será certamente a Síria, o Irão ou outro qualquer. Não vejo razão para riscar do mapa a Pasmaceira. Isto está mal, é certo que o futuro é cinzento, mas bolas, o Sol quando nasce é para todos. E se há coisa boa que a gente tem é o Sol. Porque não chegamos lá para estragar, nem com escadote. Senão fazíamos lá uma Quarteira, com Tê-zeros em time share e escorrega na piscina para os putos racharem os cornos. E também não custa nada dizer ao belga que na Figueira da Foz está vento como o caraças e a água é fria como o caraças.

Aceito que os luxemburgueses ignorem quem os rodeia. Pegam no zoom, aumentam mil vezes a Paróquia e desfocam a Alemanha, a França e a Bélgica. É ridículo mas compreende-se, pois o Luxemburgo é uma teimosia que nem aos luxemburgueses interessa. No máximo, é um bom local para sedear um banco, para lavar dinheiro, para fugir ao fisco, ou para resolver questões diplomáticas. O maior problema do Luxemburgo é que não tem luxemburgueses. Um país que tem este problema pode fazer tudo. Aceito também que o boletim meteorológico dos franceses ignore a vizinhança. O Hexágono é uma plataforma assoberbada por isso o francocentrismo é estatutário e tudo o mais é periferia. O mesmo se dirá da Alemanha. Já a Bota fá-lo naturalmente, pois logrou impor a lógica geográfica como condição para o desenho fronteiriço apesar de S. Marino e do Vaticano, minudiências tão microscópicas que nem corpo têm para levar com uma nuvem cinzenta em cima. A Inglaterra é um caso à parte. É célebre aquela anedota em que o apresentador da BBC anuncia um nevoeiro cerrado na Mancha e lamenta que o Continente fique isolado da Ilha. Que Portugal mostre o rectângulo destacado do todo peninsular, também se compreende. Portugal é uma exclusão. É como um médico especialista das doenças do pé que não quer saber o que é que se passa no nariz ou atrás da orelha. Exibe a radiografia ao pé enquanto coça o queixo e pensa na solução. Agora, o Todo é um generalista, não pode dizer que o que se passa no fígado não lhe interessa. A Espanha é generalista. Ou melhor, é um colégio de especialidades distintas que, juntas, formam um mosaico generalista. Lá iremos. Mesmo que Portugal seja um filho birrento e ingrato que, vai quase para um milénio, abandonou o lar, à mãe compete o seu dever irrenunciável, o qual é manter a porta aberta. Se um Nobel não se retira, a condição hispânica de Portugal não pode ser ela também sonegada. A Espanha pode não gostar do filho renegado, mas pariu-o e contra isso não há nada a fazer. Pode deserdá-lo e dizer que o não conhece, pode bater-lhe no rabo, pode virar-lhe as costas, não pode é dizer que não existe. É ilegal, em face do tribunal da História. Seria como se uma parturiente exigisse do obstreta a devolução do nado-vivo à condição pré-natalícia. A Espanha não pode fazer isso. Além do mais, fica-lhe mal. Vamos então à raiz do problema.

Recentemente, aquando da discussão e aprovação do estatuto autonómico da Catalunha, discutiu-se se a Espanha era uma Nação ou não. É um pormenor essencial. O Estatuto Autonómico, aprovado e referendado em meados de Junho de 2006, fala em povo, país, diversidade, energia de muitas gerações, tradição histórica, autogoverno, instituições próprias, liberdade colectiva, comunidade, posição singular, bla bla bla… Quanto ao essencial, o preâmbulo diz: «Cataluña, a través del Estado, participa en la construcción del proyecto político de la Unión Europea, cuyos valores y objetivos comparte.» Ou seja, além da Catalunha, declara-se um Estado que é a Espanha, naturalmente, o que faz da Catalunha uma nação subsidiária e dependente do Estado espanhol. Depois, adianta-se que «El Parlamento de Cataluña, recogiendo el sentimiento y la voluntad de la ciudadanía de Cataluña, ha definido de forma ampliamente mayoritaria a Cataluña como nación.» Quer dizer, o Parlamento democrático da Catalunha interpretou a vontade cidadã e votou maioritariamente a Catalunha como Nação, remetendo depois para o artigo 2º da Constituição espanhola que, segundo o estatuto autonómico «reconoce la realidad nacional de Cataluña como nacionalidad.» Leiamos pois o citado artigo 2º : «La Constitución se fundamenta en la indisoluble unidad de la Nación española, patria común e indivisible de todos los españoles, y reconoce y garantiza el derecho a la autonomía de las nacionalidades y regiones que la integran y la solidaridad entre todas ellas.» Atentemos aos pormenores e subtilezas, que é a única coisa que interessa. Em primeiro lugar, evita-se cuidadosamente a palavra Estado para definir a Espanha. Entende-se, pois tal faria da Espanha uma superstrutura estatal aglutinadora de várias nações. O risco é que, como toda a História ilustra, as nações são soberanas, logo, autonomizáveis. A História contemporânea tem milhões de mortos e rios de sangue a comprová-lo. Depois, apresenta-se a Nação espanhola como Pátria Comum. Não o Estado, conceito racional, jurídico-constitucional, fundador de toda a ordem política, base de toda a sociedade organizada e princípio de toda a história narrada. Mas a Pátria, esse vínculo afectivo com o solo telúrico que nos define a condição. É um conceito apolítico por definição, pois remete para a ordem natural. Tem-se uma Pátria como se tem uma mãe. Ama-se. Não se renuncia a ela, morre-se por ela. Ninguém morre pelo Estado. Esfrangalham-se sim pela Pátria. Pois que também eu sou capaz de ir aos cornos ao primeiro filho da puta que falar mal da minha mãe. Que é uma santa. Já do Administrador do Condomínio, ou do próprio Condomínio podem dizer o que quiserem. A mãe é a Pátria, o condomínio é o Estado. Assim posto, o que se diz após é supérfluo: indissolúvel e indivisível. Claro! Com três letrinhas apenas bla bla bla bla. No artigo 2º reconhece-se ainda o direito à autonomia das nacionalidades e regiões. E aqui, que é para onde nos remete o estatuto autonómico da Catalunha, há uma subtileza preciosa, quase cínica, que contrasta com o frustrado «amplamente» com que a lei Catalã qualifica a votação da maioria parlamentar que votou a Catalunha como Nação. A Lei Fundamental usa um plural – nacionalidades e regiões – que equipara em subalternidade todas as nacionalidades e até faz acompanhar o conceito de uma menção apoucadora, mesmo diminutiva, às regiones. Mais valia dizer nacionalidadezinhas, pois que assim dito a Catlunha é uma paróquia, ainda por cima obrigada ao dever de solidariedade com as restantes. A Catalunha até pode ser o coração da Espanha, mas como o coração é importante, mas não é autónomizável. Nenhuma parte renuncia ao Todo. Entende-se pois, e estipula-se, que Nação é a Espanha.

É aliás este o título de uma obra publicada pela Real Academia de la Historia em 2000: La España como Nación. Aqui, para além de nos apercebermos como a História, sob convocatória, é subsidiária da política, os sábios académicos forneceram aos políticos o fundamento teórico para o seu ensejo. Discute-se, discute-se e no fim apresenta-se a Espanha como Nação. Não como uma confederação de nações, ou uma Nação de Nações mas, simplesmente e sem mais, uma Nação. O que faz das partes isso mesmo: partes!

Mas há um mas. Há sempre um mas. E o mas é: Portugal! Os catalães até podiam dizer, queixando-se à mãe espanhola e apontando para o irmão português:

- Se ele pode eu também posso!

O que é dizer, se Portugal é uma Nação, a Catalunha, obviamente, também é. E o País Basco. E a Galiza. E quem não é pode vir a ser, aceitando para tanto a evidência que impossibilita que as nações sejam tidas como factos da Natureza. Se o passado quase milenar alicerça o estatuto português, o futuro sustenta as ambições catalãs. Senão mesmo o presente. Tal equivale a dizer que estes factos são da ordem da política, como é óbvio, apesar de historicamente se haver negado esta evidência. Não há nenhum estatuto natural, nenhum jugo impositivo. Tudo é política e a política radica na vontade dos homens.

Num capítulo interessante dessa obra, D. José Alcalá-Zamora Y Queipo De Llano, catedrático de História Moderna, declara a dificuldade em delimitar o conceito de Nação, chegando a falar de «labirintos intermináveis». Apesar disso, e sem qualquer intuito classificador, seja qual for o fundamento que as baseia, reconhece a existência de nações. Cita-as: Grã-Bretanha, França, Alemanha, Itália, Espanha, Estados Unidos, Rússia, China, Índia, Japão, Brasil, Canadá, México, Grécia, Egipto. Nem perco tempo a questionar a lista com a Tchetchénia e outros que tais. Prossigamos. O autor fala depois de Nações medianas, estabelecendo uma diferença que agora não me calha aprofundar: Bulgária, Roménia, Marrocos, Hungria, Suíça, Equador. Refere ainda países aos quais não cabe a designação de nações, são os pequenos estados: Andorra, San Marino, Mónaco, Vaticano, ou «os estadículos antillhanos» E, no meio de todo o rol, não se menciona Portugal! Não é um estadículo, convenhamos. É até uma nação, e um Estado, um dos mais antigos do Mundo, muitíssimo mais influente, considerando a linha diacrónica da História, do que a Bulgária ou o Equador, para só citar dois. O Real Académico, cita Portugal, algumas linhas após, apenas para ilustrar, baseado num dicionário de 1732, como se falava de «nação portuguesa» ou «nação andaluza» para referir o lugar de origem e nascimento. Ora, há aqui um equívoco inaceitável num catedrático e ainda por cima membro da Academia. Qualquer estudante de História argumentará que houve uma evolução semântica óbvia de forma tal que onde o dicionário de 1732 dizia «Nação», nós hoje diremos «Pátria». Porque Nação é um conceito romântico e oitocentista. Quando em 1812 a Constituição de Cádiz, que depois foi copiada pelos liberais portugueses de 1822, referia que a «soberania reside na Nação», atribuía ao conceito um significado diametralmente distinto do de 1732. Como é óbvio. Ora, se o catedrático não é ignorante, que não é, denuncia assim que a Academia iniciou uma investigação histórica comprometida ab initio, procurando fundamento para uma ambição política que consiste em declarar constitucionalmente a unidade da Espanha, submetendo para isso o rigor ao desejo. Em verdade, a conclusão estava estabelecida a priori. Isso mesmo o autor declara, com toda a razão do Mundo é certo, quando sentencia que Espanha é o todo Peninsular. Tudo o resto são partes, com Estado ou sem ele. E inclui Portugal. Naturalmente. Além das Astúrias, País Basco, Catalunha, os arquipélagos, Valência, Andaluzia, Estremadura, Navarra, Aragão, Madrid, Galiza, Múrcia, Leão, as Castelas e Rioja. Francisco Franco, o Caudillo, assim o entendia também. Pedro Teotónio Pereira, no prelúdio da Guerra Civil embaixador em Madrid, chegou a protestar diplomaticamente contra um cartaz da propaganda falangista que apresentava a Península sob a águia imperial de Carlos V sem o desenho da fronteira. E Salazar sabia, como revela Franco Nogueira, que o Caudillo, enquanto cadete da Academia de Toledo havia defendido uma tese que propunha uma estratégia para anexar militarmente Portugal em duas ou três semanas. Mas, voltando à questão das partes, caberia perguntar ao catedrático se, ao incluir Portugal e os arquipélagos (suponho que as Canárias e as Baleares), inclui também os Açores e a Madeira? E Melilla? Ceuta? E, já agora, Timor? Goa? Cabinda? A colónia de Sacramento? Macau? Dadrá e Nagar-Aveli? Enfim, tantas perguntas. Irresolúveis todas, porque a resposta será sempre escrava da condição, a qual é: defender aprioristicamente a unicidade da Espanha. Mas o rol anexador do catedrático, apesar de teoricamente intocável, não é declarável com facilidade. Pois se até Franco se viu forçado a assinar um Pacto Ibérico com Salazar no qual reconhecia a paridade estatutária! Só Filipe o logrou, pois que até os Reis Católicos, naturalmente, sempre se escusaram ao uso do título de reis de Espanha.

Por isso, se a declaração da unicidade é inconveniente, resta fazer como os meteorologistas, despreza-se Portugal. Não existe e pronto! Querem saber se chove, comprem o «Diário de Notícias». Esta via, a que chamo «meteorológica», é a seguida pelas universidades, pelos Estados, pelos governos, pelos estudiosos de ambos os países ao desprezarem-se mutuamente. Há, é certo, intelectuais como Eduardo Lourenço ou Valentín Cabero Diéguez, catedrático salamantino, que vêem a questão de forma descomplexada, sem que a hispanidade das partes conduza ao monolitismo do todo. A unidade hispânica deve ser granítica, devendo associar-se ao simbolismo robusto da rocha, a sua natureza compósita. Mas, apesar destes, e outros, o facto é que não há uma única história da Península Ibérica. Não há muitas mais regiões da Europa que tenham uma tão rica e tão vasta história comum, que participem de um passado tão próximo, que comunguem de uma identidade tão afim e, todavia, ainda ninguém se lembrou de escrever uma História Geral das Nações Ibéricas! Isto é incrível. A única obra que eu conheço é do grande historiador, Hipólito de la Torre Gómez que em 1998 coordenou uma obra em 400 páginas com a participação de diversos historiadores de diversas proveniências, intitulada España y Portugal. Siglos IX-XX. Vivências Históricas. Curiosamente, quase dez anos volvidos, ainda não há tradução portuguesa. Muito significativo é que o título mencione a expressão «Vivências históricas» É esta a condição para se escrever uma história da Península. Ver a história como uma vivência e como uma memória construída, partilhada, cheia de conflitos explicáveis e enquadráveis, repleta de desentendimentos igualmente explicáveis e enquadráveis. Sem qualquer reserva apriorística, livre de todos os propósitos político-ideológicos, sem subserviências e sem proselitismos, entendendo que a identidade se funda em interpretações históricas e elaborações culturais e que a história se constrói e reconstrói conforme a vontade dos homens e não conforme os condicionalismos da Natureza. Assim, entender-se-á a Península como um todo, mas como um todo que é um mosaico com várias tonalidades. Sendo que o passado é plural, as Espanhas como se dizia nos tempos suevo-góticos, e a unidade exigirá sempre o respeito pelas especificidades locais, regionais e nacionais. Assim nos declararemos, como Fernando Savater, contra todas as pátrias, decretando falido o modelo a que Fernando Catroga alude e pelo qual o Estado-Nação impôs um «conceito unicitário de soberania» sintetizável na forma do regalismo francês: «une foi, une loi, un roi», supondo-se que qualquer divisão era uma rebelião contra o Estado, constituindo esse o crime supremo, mais do que qualquer blasfémia.

A solução está pois em renegar esta «mentalidade excludente», usando a expressão de Savater para qualificar os fanáticos que achavam que não se pode ser basco e espanhol e basco e francês ao mesmo tempo. Contra isto, Savater escreve: «Pode-se e deve-se ser não duas coisas, mas muitas outras, todas as que nos permitirem conviver em harmonia e liberdade com o maior número possível de seres humanos. Abaixo os regimentos e a sua uniformidade idêntica! Criemos sociedades civis, onde as pessoas vistam à civil e sentindo-se bem, onde não haja nenhuma obrigação de nos parecermos a nenhum estereótipo de identidade nacional e onde as efectivas similitudes, que sem dúvida continuarão a verificar-se, sejam afinidades electivas do coração e não imposições burocráticas dos sargentos que se propõem administrá-las». Concordo! Letra por letra. Assim, veremos como desnecessária é a presunção da lei autonómica da Catalunha, da constituição espanhola, das conclusões das academias ou das verdades dos académicos comprometidos. Tudo é vão. Enriqueçamo-nos. Coleccionemos identidades como uma criança colecciona cromos de uma colecção interminável.