28/02/07

Baratas, Espanhas E Um Tapor Sempre À Mão, por Manolete


Não percebo em que raio de Espanhas anda certo pessoal. Sempre que metem o chinelo para lá de Vilar Formoso, tunga!, saltam-lhe baratas ao caminho, castelhanos marados e bairros estragados. Cheira-me que há por aqui muito amadorismo. É malta que deve ir a Espanha como se ia a Badajoz aos caramielos. Fé em deus e entrada no primeiro tasco onde o estalajadeiro não cuspa na pia de lavar pratos.

No português em geral, falta a pulsão da peregrinação, a mística da catedral e o respeito pelo solo sagrado. É gente que parte sem estudo, sem preparação, que entra ao desbarato e de olhos baixos e depois se queixa que não viu, não sabe e não comeu. Azar.

Sim, porque a malta que tropeça em baratas a propósito de comidas em Espanha, é gente que vai ver o Aqueduto a Segóvia e o castelo que inspirou o Walt Disney, mas não sabe e passa ao lado do Meson del Candido. É malta que vai para Granada e fica muito frustrada por não entrar no Alhambra, uma vez que não sabia que aquilo tem entradas controladas e que é preciso reservar. E sai de lá chateada, mas nem sabe que passou ao lado de uma das últimas maravilhas da humanidade. Quando lá entra por pura sorte, é malta que não sabe do Boabdil, da mãe, do Generalife, do Carlos V ou de Napoleão.

É gente que é incapaz de se desviar 100 km para subir a Jabugo e abancar no Sanchez Romero Carvajal. É tropa que vai ver a Catedral de Sevilla mas esquece os fantásticos Reais Alcazares logo ali ao lado e nem lhe passa pela cabeça em peregrinar no Gongora. É gente que marra com Ayamonte mas jamais abancou no Juan Macías, que denigre a Isla Cristina mas jamais entrou no Rufino e se espojou no El Tonteo. É malta que se esfalfa e berra com a aridez do cruel planalto mas passa ao lado de uma maravilha como é o Monastério La Piedra. É enfim uma vaga de turistas que vai de praia a Cádiz mas jamais lhe passou pela cabeça a pulsão do Romerijo de El Puerto De Santa Maria.

Para isso é preciso mística, ou então ter um Confrade do Tapor à mão. Nós alugamos.

PS: Se quiserem um especialista em roteiros de turismo negro, marado, pé descalço e onde a barata é petisco, também temos!

“Ich Bin Ein Berliner”, por BaíaDosPorcos

Fiquei estarrecido. Estava eu calmo e sereno a ver a boa da Justine Shappiro no Globe Treker deambulando por Berlim, quando a ignóbil se sai com aquela. Caíram-me as bolas de Berlim aos pés. Na altura que ouvi a coisa, ainda pensei que fosse mais uma dessas Urban Legends propagadas pela Net e que depois quando se vai a ver, é só efabulação. Por isso fui conferir. Tá conferido e é de partir o coco. A saber.

Todos nós conhecemos e usamos a frase: Ich Bin Ein Berliner. É um ícone do século XX, uma frase chave, num discurso memorável e que perdurou e ganhou vida muito para além das circunstâncias em que foi proferida. Recordo que ainda há pouco aqui no Porco e a propósito dos Maomés dinamarqueses se berrava: Eu Sou Dinamarquês.

Pois. Só que não há nenhum bolo de nome “Dinamarquês”. Mas há a famosa “Bola de Berlim” ou o “Berliner” para os alemães. O bolo tradicional de Berlim, de massa fofa com creme de natas. Berliner também dá para Berlinense, mas o problema é o “Ein” antes do berliner. É que aquilo que o Kennedy queria dizer e aquilo que é o sentido político da frase é o “Eu Sou Um Berlinense”. Mas para isso o Kennedy devia ter tirado o “Ein”, e dito apenas: “Ich Bin Berliner.”

O que o John F. Kennedy disse perante a multidão que enchia a Rudolph Wilde Platz logo ali ao pé do Muro de Berlim, nesse dia 26 de Junho de 1963, foi o memorável: “Eu Sou Uma Bola De Berlim”, ou em americano: “I Am A Jelly Doughnut.”

27/02/07

Madrid, Me Mata, Victoria!, por Guaraná

Taberna La Bola. Casa Fundada em 1870. Calle Bola, nº 5. Madrid. Comi aqui um excelente Cocido a la Madrileña em Puchero de Barro Individual, numa sala belíssima, com um atendimento gentil e quase perfeito. Pede-se o cocido e vem para a mesa um pote de barro a ferver de grão, enchidos e carnes de porco. Vem o lidador e escorre o pote para o nosso prato. Comemos então uma sopa soberba do caldo do cocido com enchidos, enquanto o resto do dito continua a apurar no pote. Comida a sopa, volta o maestro e faz-nos uma primeira pratada de garbanzos com um cerdo de excelência. Outras pratadas se seguem até à exaustão. Cheirava a cocido, callos e a mais um cliente satisfeito.

Restaurante Botin. Calle de Cuchilleros, 17, Madrid. Casa Fundada en 1725. El restaurante más antiguo del mundo, según el libro Guinness de los Records. Numa sala de apainelados de madeira, pinturas, dourados e patine com força, comi eu um Cordero Lechal Asado Al Horno que ainda hoje me permanece na memória. O cochinillo asado que se seguiu foi cortado com o prato como manda a praxe. Excelente. Comi que nem um abade. Cheirava a couros, madeiras velhas e a carnes tostadas.

Restaurante Sámárkanda. Estación de Atocha, Terminal Ave, Gta. de Carlos V. Madrid. Esplanada do terraço superior, sobre o terminal e o jardim tropical vaporizado. Mesa com toalhas de pano sob a copa das palmeiras. Comi aí a mais soberba e olorosa tortilla de cebolla, pimientos y Chorizo Ibérico. Seis anos antes dos criminosos ataques que provavelmente esmagaram o Sámárkanda. Daquela esplanada y tortilla, vi partir e chegar comboios e gentes. Cheirava a pimientos, verde tropical e a humidade suada.

“Até os restaurantes são terríveis. Cheiram a alho e a cebola”, “Victoria, mulher do futebolista David Beckham, referindo-se a Madrid, que o casal vai trocar pelos EUA”, in Revista Visão de 08/02/2007.

Não sei se a Victoria alguma vez comeu nos mesmos sítios que eu. Também não sei qual deve ser o cheiro correcto de um restaurante. Calvin Klein, não será certamente. Nem sei sequer, se a Victoria Beckham usa a boca para comer ou apenas para fazer sair inanidades destas. Mas sei que é feio cuspir na sopa alheia. E mais feio ainda morder na mão que nos alimenta.

Pra mim, Madrid, Hasta Al Cielo! E pra vocês, há por aí boas memórias gastronómicas, ou também vos cheira a ajo y cebolla?

26/02/07

Ossos Trocados, por Zé Manel


Vasco da Gama morreu em 24 de Dezembro de 1524. Tinha regressado à Índia, pelo caminho marítimo que ele próprio desbravara, para pôr ordem na balbúrdia que por lá reinava, a pedido expresso do rei, posto que os abusos da lusitana gente eram de tal monta que se temia que o desprestígio assumisse tal dimensão que ameaçasse a presença portuguesa. Em suma, o habitual: roubalheira, corrupção, crimes, conflitos, desrespeito pela autoridade, abusos de poder, cunhas, cobiça, inveja, e mais outras especialidades do génio lusitano. O Gama, que já havia garantido para si um bom quinhão em terras, títulos, comendas, rendas e tenças, acedeu deslocar-se à Índia pela terceira vez para pôr ordem naquela confusão. Tomou o título de Vice-Rei em Baçaim, quando lá chegou em Setembro de 1524, impôs a ordem com autoridade férrea, o que também é típico do procedimento nacional, sentiu-se mal, adoeceu gravemente e morreu na véspera de Natal, em Cochim, tendo sido aí sepultado.

Anos mais tarde, as ossadas do vice-rei foram levantadas pelo filho, em 1539, e trazidas para a Vidigueira, para um jazigo familiar. A igreja foi remodelada pelos finais do século, e os ossos foram novamente levantados, sendo depositados na capela-mor pelo neto. Foi gravada uma pedra que lhe chamava «Argonauta» e lhe recordava o feito e os títulos. Defronte, foi tumulado o bisneto, e mais outros familiares, sendo-lhe atribuída lápide idêntica, já que o herdeiro também foi vice-rei da Índia.

Por meados do século XIX, os túmulos foram profanados. Quem recolocou as lápides parece que já não sabia quem era quem e trocou-as. Em 1880, ano do tricentenário da morte de Camões, a Pátria decadente, a uma década do ultimatum inglês, decidiu mitificar e recordar os tempos áureos. Restauraram-se os Jerónimos, enrobusteceu-se o Partido Republicano, organizaram-se comissões comemorativas, desfiles, congressos e edições de luxo e puseram-se as ossadas de Camões e do Gama nos Jerónimos.

No dia 7 de Junho de 1880, os restos do Gama, sob a orientação técnica de Teixeira de Aragão, foram trasladados para o mosteiro. Houve cortejo fúnebre, cerimónias solenes, devoção religiosa, comoção popular, altas figuras do Estado assistiram ao préstito, sentinelas e guarda de honra, comboio especial, postes engalanados, tocaram-se os hinos, salvas de artilharia, foguetes e até a família real inteirinha assistiu à cerimónia. Ora, como o pobre Teixeira de Aragão desconhecia a troca dos ossos, a verdade é que quem foi alvo das honras solenes da pátria não foi o Gama autêntico, isto é o Vasco, mas o herdeiro que, embora não menos autêntico, não era o pretendido, posto que foi o bisneto que, episodicamente e por engano, por escassos anos habitou o supremo altar da devoção patriótica lusa, mesmo ali ao lado dos ossos do grande Camões. E não foi só o bisneto, parece que a urna continha as ossadas de mais familiares, descendentes do navegador.
Foi só na manhã de 9 de Maio de 1898 que os ossos do Gama autêntico foram depositados em Lisboa e a tropa fandanga regressou ao panteão de onde nunca deveria ter saído: a tumba da Vidigueira! Quer dizer que, durante todo este tempo, a família do Gama foi passear até Lisboa, hospedaram-se nos Jerónimos às custas do erário público e ninguém disse nada, ninguém reparou, ninguém comentou? ‘Tá mal, pois claro que está mal!

SANTOS, João Marinho dos e SILVA, José Manuel Azevedo e: Vasco da Gama. A Honra, o Proveito, a Fama e a Glória; Porto; Editora Ausência; 1999; 145 e ss.

24/02/07

O Círculo dos Tigres, por Santo Ireneu de Leão

Foram recentemente divulgados os resultados surpreendentes de uma equipa pluridisciplinar de cientistas chineses do Instituto das Ciências Comportamentais de Beijing, chefiados pelo etólogo da Universidade de Beijing III, o dr. Zhao Ziaming, que, conjuntamente com a direcção do Parque Zoológico de Bangalore, na Índia, durante os últimos 8 anos se ocuparam a estudar o comportamento dos tigres indianos. Foram feitos registos sistemáticos e comparativos do comportamento dos felinos em cativeiro e em ambiente selvagem, tendo-se utilizado pela primeira vez tecnologia de monitorização produzida em Silicon Valley por empresas fornecedoras da NASA, graças a um protocolo inédito de cooperação entre os representantes destes dois países e o governo federal dos EUA, ainda no tempo da administração Clinton. Este acordo foi à época muito criticado pelos adversários do antigo presidente, uma vez que previa a utilização de microprocessadores e ligações por satélite passíveis de aproveitamento militar, tecnologia que, segundo os críticos, deveria ser classificada e restrita, uma vez considerados os perigos para a segurança nacional, particularmente no que respeita às cerâmicas de alta condutividade que, entre outras aplicações, equipam as ogivas dos mísseis de última geração. Superadas as desconfianças iniciais e desfeitos os temores relativamente às intenções dos investigadores chineses, são agora divulgadas as conclusões do estudo, salientando-se desde logo a utilização pacífica da tecnologia. De facto, a mais moderna tecnologia de detecção, monitorização, processamento de dados e comunicação por satélite foi aplicada na observação do comportamento dos grandes felinos. Foram produzidas milhares de horas de gravações video, milhares de páginas de relatórios, milhares de fotografias e registos sonoros.

De entre todas as interessantes conclusões do estudo, divulgadas no último número da revista "Natural Studies of the American College of Ethiology", o dr. Ziaming destaca um pormenor que, sendo aparentemente irrelevante, despertou a atenção dos cientistas, orientando a investigação para uma conclusão surpreendente. No seu habitat natural, em liberdade, os tigres indianos, aliás como todos os grandes felinos e quase todos os mamíferos, nunca, nas suas deambulações, descrevem círculos. Contrariamente aos especimens de cativeiro que observamos constantemente em itinerários circulares na exiguidade das suas jaulas. A equipa do dr. Ziaming começou por reparar que, quando deslocados para jaulas mais vastos, os tigres persistiam no mesmo tipo de comportamento que estamos habituados a observar, descrevendo os mesmos exíguos círculos, não se tratando pois de um processo de adaptação à exiguidade física, mas sim um processo de adaptação à clausura. O enigma adensou-se quando os cientistas se aperceberam que dos 38 indivíduos monitorizados por satélite em estado selvagem, nunca nenhum, durante os cinco anos que durou o estudo, desenhou alguma vez um trajecto circular.

Em face desta constatação, procedeu-se à observação da actividade cerebral dos animais através dos dados electroencefalográficos obtidos por microchips instalados na parede craniana dos tigres. Os elementos assim obtidos foram enviados em tempo real, graças aos modernos satélites postos à disposição da equipa, para os computadores das universidades cooperantes, vencendo-se a distância através do contacto permanente por internet. Foi então que o grupo se confrontou com uma descoberta surpreendente: os tigres de cativeiro desenvolviam ciclos de actividade cerebral em conformidade com os círculos percorridos na jaula, de tal modo que, ao passarem pelo ponto de partida, uma descarga eléctrica controlada produz um efeito anamnésico, de forma a que o percurso se apresente como uma novidade. "Podemos concluir - adianta o dr. Zhao Ziaming - que o tigre enjaulado utiliza como estratégia de sobrevivência em cativeiro o apagamento da memória, o que é dizer, ministra descargas eléctricas controladas que impedem as células de conservar a memória do trajecto percorrido, permitindo que se apresente como incessantemente renovado. É o suicídio episódico como estratégia de sobrevivência. O controlo sobre a actividade cerebral impede a acumulação de memória, a formação de conhecimento e até a percepção de si próprio, sendo que, em rigor e dado o efeito anamnésico causado pela descarga autoinduzida, por cada círculo descrito é uma nova identidade, ainda que episódica, que o tigre assume. Deste modo, em cada percurso, tudo se lhe afigura novo e suportável, concluem os especialistas. A corroborar esta tese está outro dado avançado pelo Patologista Michael Cyrne, da Universidade de Colorado e coordenador da equipa biomédica, que confirmou que a produção de espermatozóides pelos machos enclausurados baixa cerca de 75% relativamente aos exemplares selvagens. Tal dado é interpretado pelo prof. Cyrne como sendo mais um elemento da estratégia de adaptação dos grandes felinos indianos, pois que o empobrecimento do material genético pela drástica diminuição do “catálogo” cromossomático disponibilizado é um autêntico «genosuicídio» para usar a expressão do cientista no relatório que publicou na já citada revista do «American College of Ethiology». É que, conclui o prof. Cyrne, tal estratégia inviabiliza mesmo a adopção de técnicas de fertilização assistida pelo que, a prazo breve, «os exemplares nascidos estarão adaptados às condições de cativeiro o que, numa espécie tão apreciadora da liberdade como parecem ser estes felinos, equivale a dizer que estarão extintos, por decisão própria e como reacção ao cativeiro que lhes é imposto.»

23/02/07

Golfutebol, por Olazabal


Anteontem o Barcelona perdeu em casa com o Liverpool por 1-2. Não interessa nada. O que importa sim, é a forma como o marcador de um dos golos, o galês Craig Bellamy, festejou o golo que marcou. Assim: como mostra o pic. Simulando um swing que faz inveja até ao nosso Mestre. é claro que podemos sempre criticar a incorrecta posição do joelho esquerdo. E o stance é demasiado aberto - aquela bola faria um fade tramado. Mas prontos, tá bem...Com esta forma notável de festejar um golo, Bellamy fez uma alusão irónica a um shot que deu há duas semanas atrás e que ficou famoso nas ilhas britâncias: precisamente na cabeça ou no costado de um colega de equipa com quem se terá chateado num bar algarvio.
Interrogado acerca da qualidade do swing de Bellamy,o treinador da equipa, o espanhol Rafa Benitez, comentou que nem sequer viu. Parece que estava já a pensar nas substituições que teria que fazer na segunda parte. Não perdeu, assim, apenas um golo do Liverpool em Nou Camp, facto sempre raro só por si; perdeu, sobretudo, a oportunidade de apreciar um bem razoável swing e um óptimo sentido de humor...britânico.

22/02/07

As Canções do Porco, por Mangas

Ouvi recentemente num programa de rádio que, “One” dos U2, foi eleita no Reino Unido com a melhor canção do século XX.

A coisa vale o que vale. Se lhe retirarmos a futilidade de patrocínio e a compilação subjectiva da nostalgia - como aliás se quer que ela seja -, sobra-nos um exercício de paixão pessoal tão abrangente quanto difícil de sintetizar. E é apenas disto que falo.

Recordando as memórias mais distantes da música que me abanou as orelhas e me despertou o êxtase, seja pelos ritmos, épocas ou manifestações hormonais, seja pelas letras cantadas, acordes de culto ou outros inauditos estados de embriaguês, percorro etapas da minha vida pelos anos do vinil, cassetes de crómio e noites de rádio, vídeo-clips pré-MTV e concertos de estádio cheio, festas de garagem e o antigo ETC sábado à noite, tentando escolher três músicas, três!, que por razões várias, incorporem, tão-somente, a exultação do prazer pessoal. Não me preocupo sequer em rebuscadas teses sobre composição, melodias revolucionárias ou outros conceitos de produção. Nada disso. A minha escolha, com a sua dose de risco e tremenda injustiça para tantas outras canções que deixei pelo caminho e poderiam também aqui constar, reside no gozo puro que estas três me proporcionaram cada vez que as ouvi ou ainda ouço. Pondo isto, e que me perdoem todas as outras, este é o meu top:

3º lugar – Billie Jean, 1982, de Michael Jackson. Tudo começa com uma percussão surda e depois o baixo repetido de uma Yamaha. E não passa daí. A percussão a martelar o ritmo, o baixo a acompanhar, a voz a entrar. Nada mais simples e, simultaneamente, explosivo e contagiante: o baixo, a percussão o tempo todo, e alguns efeitos pirotécnicos de uma guitarra eléctrica. Para mim, Billie Jean tem o funk mais cool de todos os tempos.

2º lugar - (I Can't Get No) Satisfaction, 1965, Rolling Stones. Diz a lenda que certa noite, Keith Richars acordou sarapantado num motel de tournée na Florida, ligou um gravador e em dois minutos meteu-lhe dentro o riff de abertura de Satisfaction que lhe batia na mioleira. Depois voltou a dormir para curtir a bebedeira. Mais tarde Jagger escreveu a letra. O resto é História. Satisfaction é um hino e mais não seria preciso acrescentar! Daquelas músicas que o cidadão comum do Azerbeijão, com a quarta classe, poderia abanar e cantarolar numa convenção galáctica de extraterrestres para se fazer entender que provinha do planeta terra.

1º lugar - I Heard It through the Grapevine, 1968, de Marvin Gaye. A voz de Marvin Gaye é dilacerante e aguenta a carga nas notas mais altas sem pestanejar, num contraponto perfeito com a sobriedade cénica do coro. As três baterias e a percussão soam a tambores de latão oco como alinhamentos de uma banda sonora inquietante; o piano eléctrico e as marimbas completam toda a complexidade da orquestração dos Funk Brothers. Isto é Motown em estado puro! Um clássico de arrepiar, poderoso e elegante, que conta uma história em rotação máxima da abertura ao final. Sem nunca perder o fôlego.

Estas são as minhas três eleitas. Quais são as vossas?

Le Cadavre Esquis e o Álbum Branco, por Fool on the Hill


Às vezes um blog funciona de um modo muito semelhante à velha técnica surrealista do «cadavre esquis». Há um post de um escriba que suscita outro post de um outro escriba e depois mais outro e no fim temos um resultado final que é uma página escrita a várias mãos. Um análogo (já que não se trata exactamente do mesmo processo) de um cadavre esquis virtual.

Agora aconteceu outra vez. A efeméride do George Harrison evocada pelo Cão fez-me pensar no meu disco preferido dos Beatles. O Harrison até assina uma música e tudo (While my guitar…). Pensei, por isso, que se impunha um post sobre o Álbum Branco e cá está ele.

Este é o meu disco preferido dos Beatles, o mais complexo, o mais sofisticado, o mais místico e o mais apocalíptico. É um disco praticamente perfeito em que cada música vale na sua singularidade mas não só – as músicas têm uma espécie de ligação entre si e o álbum possui, claramente uma unidade de conjunto. As músicas de White Album são diferentes das dos outros discos dos Beatles: ouve-se Glass Union, Dear Prudence ou Mother Nature´s Son e sabe-se que pertencem ali e que não poderiam estar em mais nenhum outro álbum deles. Nesse sentido o Álbum Branco é um disco conceptualista, como o é Sgt Peppers, por exemplo, cujas músicas também possuem uma continuidade evidente (já outras peças dos Fab Four como o seminal Revolver, como Rubber Soul ou como os primeiros discos já são outra coisa. Abbey Road parece-me uma solução intermédia).

Em 1968, ano da edição do White Álbum e passadas algumas digressões falhadas, os Beatles já tinham dado um safanão nas suas carreiras – já não eram a banda pop juvenil que punha as miúdas em histeria nas suas apresentações ao vivo; eram músicos de estúdio, compositores clássicos que trabalhavam e burilavam os seus discos durante meses e meses. Praticamente tinham deixado de tocar ao vivo. Tinham enveredado pelo misticismo budista e haviam regressado da índia onde haviam contactado com gurus Zen e com o músico Ravi Shankar que os havia de marcar fortemente (principalmente a George Harrison). Deixaram crescer os cabelos e a barba, agora pareciam hippies, e andavam metidos em experiências alucinogénias. Pelo meio iam mantendo o filão comercial com músicas como Obladi Oblada («avis rara» de White Album), para não perderem o hábito dos tops.

A história deste disco começa na capa. Segundo rezam as crónicas havia na altura um impasse entre a proposta gráfica de McCartney que pretendia um grafismo à base de recortes de jornal e a transparência total defendida por Harrison. O Designer, Richard Hamilton, propôs esta solução de consenso – o branco puro, imaculado que se havia de tornar num dos mais lendários covers da história da música Pop. Um cover anti cover. Na altura o significado desta opção foi tanto mais relevante se pensamos que estamos no período áureo do psicadelismo e da sua embriaguez colorida. Inicialmente as capas de White Álbum vinham numeradas como se fossem produtos de série industriais. O nome do grupo aparecia em relevo, sem cor, mas quando os cds destronaram o formato LP tudo isto se perdeu. Se alguém tem uma capa velhinha das primeiras edições do Álbum Branco, com os retratos no interior dos quatro Beatles guedelhudos e barbudos, é guardá-la que é coisa para valer uns cobres…

Não sei dizer entre tanta música excelente qual delas prefiro. Continuo a pensar neste disco com um todo, sei a sequência das músicas de memória, aquilo é como uma auto-estrada sem portagens com uma continuidade saliente. Não posso dizer que tenho uma faixa preferida porque acho tudo perfeito (com a excepção de Back in Ussr e de Obladi, duas concessões comerciais), umas vezes redescubro uma música, passados outros tempos reparo noutra e isto é cíclico. Ainda agora tenho o Álbum Branco no Cd do meu carro. Deve ser a milésima centésima vez…

E depois há a mitologia do álbum, o seu simbolismo satânico e apocalíptico. Charles Manson dizia que os Beatles falavam com ele através do disco. Helter Skelter, dizia Manson, seria o anúncio do apocalipse, da revolta dos negros contra os brancos; Revolution anunciaria o futuro (Revolution # 9 teria mensagens subliminares perigosas); Black Bird, confessava Manson, dava-lhe vontade de matar (mas também, a Manson, tudo lhe dava vontade de matar)… Quando o mais famoso criminoso ainda preso numa prisão americana mandou executar o massacre que ceifou a vida a Sharon Tate, os jovens assassinos da «família» Manson deixaram escrito nas paredes, a sangue, a expressão Helter Skelter (por acaso mal escrito, «skaelter»). Isto chegou para associar o disco ao satanismo. Os meios conservadores que odiavam os Beatles aproveitaram para lhes lançar anátemas e declararam o disco maldito: acusava-se os Beatles de provocarem a violência, um pouco como se faz hoje com o Wrestling ou com o Dragon Ball, também réus da violência praticada pelas crianças… Tiveram azar. Com o tempo, isto contribuiu para fazer do disco o mito que ainda é hoje. E como esquecer que, para lá deste lado negro que está realmente associado ao disco, há também um lado optimista e colorido ilustrado em Somethig como em mais nenhuma outra música? De Something disse Sinatra que a gravou um dia: «É a mais bela canção de amor que alguma vez foi escrita. E não diz uma única vez a palavra amo-te».

21/02/07

(Im)Pares – 1 - A Caminho com George e com Joaquim, por Cão


1
Hoje, durante quase todo o dia, meti-me vidas escritas adentro de dois artistas separados pelo Tempo (mas não totalmente) e reunidos agora pela Totalidade (o terem morrido): George Harrison (1943-2001) e Teixeira de Pascoaes (1877-1952). Houve por ali (algures) mais ou menos nove anos em que o músico inglês e o poeta português partilharam o ar, a água, a terra e o fogo.

2
Ambos foram férteis criadores, tendo ambos aumentado a humanidade da Humanidade. Se hoje, e aqui, os refiro, não o faço para colher, à sombra deles, qualquer réstia da luz intensa que emanaram. Não. Faço-o em preito de admiração, que não tem de ser devota para ser devotada.

3
Entretanto, a noite chegou com suas armas todas. Frio e aguaceiros afiam a pedra e o ar: viver é desembaraçarmo-nos de facas. Está bem. O Inverno é a mais perfeita catedral para celebração do casamento da crono e da meteoro logias. Gosto disso – e tenho sorte. A sorte advém-me de gostar de todo o tempo.

4
Desde menino que nenhuma temporada nem temporal algum me causam repulsão. É uma excelente coisa – uso plena consciência de tal. Tenho vivido a plena comunhão dessas três artes tão siamesas: a poesia, o tempo que faz e o outro tempo – o que tudo desfaz e refaz sem cessar. A poesia, a meteorologia e o relógio.

5
António, irmão de Joaquim, suicidou-se em Coimbra, com um tiro de pistola, a 28 de Junho de 1903. Noventa e seis anos depois, um perturbado tentou matar à facada George. A nota necrológica e a nota criminal são reais, mas não é senão profunda vitalidade o que ressuma das carreiras do antigo Beatle e do paladino do Saudosismo. Ou assim: vidas que foram vivas enquanto vidas.

6
Há uma aparente renúncia à mundialidade no português, de facto. Mas as palavras que escreveu, pela densa, constante e invencível hombridade que ressalvam, contrariam tal equívoco. Já George, obstinado criador de canções rebeldes à ditadura da chancela Lennon/McCartney, não abdicou nunca de orar ao oriente de si mesmo, para bem de nossos particulares ocidentes.

7
Vejo um dia de sol, mas no televisor. Vejo água e palmeiras: jogos entre a cor azul e a cor verde, a que o branco superior do céu algodoado confere um arbítrio e um regulamento. Rodo a cabeça para a esquerda e colido com a noite: nunca sou imune ao mortífero encanto do circo dela.

8
Teixeira de Pascoaes madrugava nela, repescando dela os espectros que depois colava pelas costas ao pergaminho. As noites de George terão sido de outro aparato, mas não decerto alheias à natureza introspectiva de todo o gajo que traz dentro alguma coisa deveras novas para dizer ao outro, a todos os outros.

9
Oh eu sei! Eu sei quão artificiais são estas simetrias. Mas “artifício” não é palavra que me repugne. É, também, fazer arte, até pela sua imemorial etimologia. E se o não é, deveria sê-lo. De que outra coisa (para que outra coisa), aliás, me sobraria viver? Ou que me resultaria do viver sem estes arte-ofícios? Bem pouca coisa, menos ainda que a regular quotidiana comezinha coisa da vida. Adiante.

10
Há a história da mulher de George Harrison passando a mulher de Eric Clapton, não obstando porém à posterior e perene amizade dos dois músicos. Há as ginofiguras de Teixeira de Pascoaes, ao mesmo tempo (o Tempo, sempre) etéreas e com mamilos. E há as histórias que me forço a ser capaz de. À sombra que me é natural e à luz para que caminho. Como todos, George e Joaquim incluídos, caminhamos todos.

Caramulo, noite de 16 de Fevereiro de 2007

20/02/07

Alentejo Blue, de Monica Ali, por Cornoalho

A coisa chama-se “Alentejo Blue” e sai da pena de uma escritora inglesa, de ascendência do Bangladesh, de seu nome Mónica Ali. A dita senhora parece que escreveu um primeiro livro muito bom e muito premiado e coiso e tal, e vai daí zás, mete a mão no Alentejo, e faz este seu segundo.

Ora, o Alentejo que está ali pela mão da Ali, não é o Alentejo. É uma coisa em forma de assim, que irrita o mais incauto e crente dos leitores. Eu já tinha visto a coisa na Fnac em edição inglesa e fiquei curioso. Agora saiu a edição portuguesa. O Expresso elogiou como “uma surpresa” e o Público, no Mil Folhas fez mais uma daquelas recensões a dizer bem, em tom de atenção à editora. E ao que parece o New York Times elegeu como um dos 100 livros do ano. E eu, burro, comprei, e li, biburro!

A boa da Mónica até parece que passou pelo Alentejo numas férias e a convite de uns amigos que ali vivem e que lhe contaram umas histórias. E parece que leu uns livros de viagens pelo Alentejo. Mais do que isto e sobre o além-tejo, não há no livro. Há sim, os estereótipos kitsch do “lavradores pitorescos” – não, não estou a inventar, está lá mesmo assim -, os latifundiários en passant que se faz tarde, e as velhas e esgotadas anedotas da malandrice alentejana. E lá está também, o gordo e seboso tasqueiro que é um porco sujo. Nenhum dos lugares comuns escapou à Mónica. Isto tudo, bem regado por uma adjectivação tal, que chega a enjoar de tão intensa e tão banal. Até as breves descrições de paisagens, não passam do eterno cartaz turístico sobre as planícies ondulantes. Adivinha-se que as não viu com olhos de ver e que sobretudo, as não sentiu!

E muito menos sentiu as gentes. Que é a coisa que mais me irrita por ali. É que o romance pretende descer ao Alentejo profundo e pretende que as personagens tenham a cor local, e há até referências a Salazar e a Cunhal, aos suicídios masculinos e ao surto de hotéis na costa, mas depois tudo isto é embrulhado em papel baratucho e sem profundidade. As personagens da Mónica, não têm qualquer espessura e debitam uns bitaites de inanidades baratas e inconsequentes. Os meandros mentais em que se movem podiam muito bem estar na cabeça de um chinês, desde que burro e imberbe.

O que a Mónica pretendia era dar-nos uma ideia de uma certa vivência alentejana, de um certo estado de espírito de abandono, fuga, irrealidade, miséria e fim do mundo. Não consegue. O que perpassa ali, além dos estereótipos e de uns insultos estapafúrdios aos portugueses em geral e aos alentejanos em particular, é uma sucessão de inglesices que não encaixam e se podiam muito bem passar na Cornualha ou no Bangla. Que, com a Mónica, também, Desh!

17/02/07

O Tapor em Berlim, por Peter Panzer (replay)


Cheguei de Berlim. Lá fui em peregrinação ao Kat Kat com o meu amigo Walter. «Um antro gay», dizia ele, mas a mim pareceu-me apenas um clube de paneleiragem. Lá dentro estava toda a gente nua ou, na melhor das hipóteses, vestida com fatos de batman sem capa, ajustadinhos ao corpo.


No hall do Kat, atende-me um porteiro metido num fato cor de rosa de Daredevil que me pede para ver os boxers. Uma vez que não falo alemão, expliquei-lhe no meu melhor inglês que só tinha "truces" daqueles meio fanados, castanhos atrás e amarelos à frente. O gajo deixou-me entrar. O Walter não teve problemas porque tem um fato especial que comprou, em segunda mão, numa loja S/M e já tinha aquilo por debaixo da roupa. Um senhor, este Walter! É o primeiro conselho que dou a quem for um dia a Berlim e procurar o inevitável Kat Kat: aluguem uma fatiota destas para ver a noite em Berlim. É outra classe, acreditem...


O antro não tem grande história. É um sítio infernal, completamente negro, com House e Techno, a noite toda, em altos berros. A frequência é a malta da love parade. Práli estão a comer-se uns aos outros. A melhor cena foi a de duas bichas que passaram a noite toda enfiados um no outro em cima de um baloiço que um terceiro empurrava. Dejá Vú!

Mas o mais bizarro foi de um sítio chamado O Trono no interior da discoteca do segundo piso. O Trono é um estrado mais elevado da discoteca, no meio da pista de dança, onde está de gatas um caramelo com uma máscara S/M enfiada na cabeçorra. O gajo está de rabo alçado e há uma dominadora drag queen que lhe vai arrancando, metodicamente, resmas de pelos do cu. Quando ela os tira, o tarado diz-lhe num tom very british: "Thank You, my lady" ao microfone e a malta curte e dança mais desenfreadamente ainda.


Enfim, é outro mundo - saímos de lá às 5 da matina, não sem que antes o Walter tivesse tido uns problemas devido às qualidades eróticas evocativas do seu fato especial de super herói. Os meus truces é que não pareceram ter grande sucesso, vá lá um gajo saber porquê...

16/02/07

O Grande Dilema das Ostras Afrodisíacas, por Minetauro

Se meterem no Google o tema “Ostras Afrodisíacas” saltam-lhes no écran centenas de receitas de ostras sexualizadas. Diga-se desde já que o afrodisíaco “googliano”, também dá para o amendoim, o açafrão, o guaraná, o gengibre, os caracóis, mexilhões, ouriços do mar, pinhões, ovos de codorniz, a alcachofra, cebola, rúcula, e até para um tal de chouriço na brasa, enfim eu sei lá, dá pra tudo, ou como dizia o outro: a mim tudo me dá tesão!

Adiante e voltemos às ostras, uma vez que estas são reconhecidamente o afrodisíaco com mais charme e fama. Vem isto a propósito de uma interessante discussão que se gerou no verão passado no restaurante “António” de Leça da Palmeira (excelente), à volta de um prato de ostras. As ostras do António estavam fresquíssimas e divinais. Acolitadas em gelo triturado foram chupadas até ao tutano. E venham mais 5! Mas lá pelo meio da chupança, surgiu a lembrança. De onde retira este bicho o carácter afrodisíaco?

Na discussão que se gerou, as hostes dividiram-se em duas partes. De um lado, os partidários de que tal carácter afrodisíaco do bivalve, apenas deriva da sua textura e configuração – e a foto não engana -, e do outro lado, a parte na qual me incluo, que defende que tal carácter deverá radicar também em características intrínsecas do bicho de cheiro ou sabor. A discussão foi acesa, mas inconclusiva, até porque entretanto chegou a açorda de linguadinhos e aí a atenção do pessoal dispersou-se.

Mas, a questão ficou-me a bailar nas beiças e tratei de ir ver alguma coisa. E após aturado estudo, verifiquei que Jurisprudência também se divide. Há quem fale do poder de sugestão e analogia, equiparando a forma da ostra ao órgão feminino, assim como se fala do afrodisíaco morango, por semelhança com o órgão masculino. Mas também há quem assegure da elevada concentração de zinco, metal que aumenta a concentração de testosterona, tanto nos homens como nas mulheres. Alegam outros, que o Zinco é essencial na produção de esperma, logo…, tunga! E há referências à riqueza das ostras em iodo e fósforo. Mais, há quem defenda que o Zinco intervém directamente na vagina da mulher, aumentando a secreção que faz de lubrificante vaginal. Como vêm o assunto foi estudado, mas a dúvida insanável permanece.

Certo, certo, é que à cautela, o Casanova mamava todos os dias cerca de 50 ostras pela manhã, e não consta que o homem fosse lá apenas pela sugestão. Até porque sugestão por sugestão bastava uma e não eram precisas 50!. E vocês como é, vão pelo Zinco ou pela Sugestão? Venham mais 50, s.f.f.!

A Metamorfose, de Franz Kafka, por Melquíades

Toda gente conhece Franz Kafka dos inacabados “O Processo “ e “O Castelo”, mas poucos leitores param e atentam no livro “A Metamorfose”. Para mim, que tenho Kafka como uma das releituras preferidas, a sua genialidade está antes de mais no pequeno e acabado, Metamorfose.

“Certa manhã, ao acordar após sonhos agitados, Gregor Samsa viu-se na cama metamorfoseado num monstruoso insecto.” Assim começa o Metamorfose e pouca mais acção há. O livro é pequeno, mais novela que outra coisa, e traduz-se nisto: Gregor Samsa, caixeiro-viajante que se mata a trabalhar para prover à família que adora - pai e mãe, já velhotes e uma irmã novinha -, acorda naquela manhã transformado num nojento e gigantesco insecto. Não pode falar, não pode sair do quarto, não pode fugir; e não maltrata ninguém, uma vez que mantém pensamento humano. Reconhece a família e o mal que lhes está a fazer e a família reconhece o insecto de pesadelo como sendo o filho extremoso, Gregor Samsa.

Mas como é que se vive com a monstridão? Esta é a pergunta que logo de início nos salta à cabeça, perante a empatia para com a família do mostrengo. Mas a arte de Kafka leva-nos muito mais além do que isto e a pouco e pouco, passado o susto da fantástica metamorfose, já não sabemos quem é o monstro. Começam a aparecer outras monstruosidades ao longo da Metamorfose. A monstridão pode estar em qualquer lado e mesmo no meio de nós. Até o leitor pode ser o monstro. Qualquer de nós se identifica com tudo aquilo. De um lado e de outro. Ali não há preto e branco.

Já li e reli “A Metamorfose” muita vez e descubro-lhe sempre uma nova perspectiva. Em regra tenho simpatia pelo novo Samsa. A sua metamorfose é uma reacção à insanidade e ao vazio em que vivia. Foi o corpo e não a cabeça que lhe disse “Não” à continuação da labuta esgotante, transformando-se naquilo que a impossibilitava, a monstridão. Transformado o corpo no mostrengo horrendo que nos é descrito, a cabeça de Samsa continuou como até ali, amorosa, subserviente, escrava. O metamorfoseado monstro é a mais humana das criaturas. A família, aterrada e esgotada, e que nos leva de início a maior fatia de simpatia, vai evoluindo ao longo da história e vai sendo objecto de nova metamorfose.

No final, a cabeça humana do monstro físico Samsa, não aguenta o sofrimento (ou a metamorfose) que provoca na família e suicida-se da única forma que aquele corpo lhe permite. À fome. O monstro repulsivo toma a mais humana das atitudes.

15/02/07

O mistério de Atanásio Jacupissara, por Inspector Morgado

Na madrugada do passado dia 2 de Abril do corrente ano, um estranho episódio ocorreu na alameda coronel Baptista Domingues. Ao descer a dita avenida, quando regressava de uma orgia clandestina realizada no famoso lupanar da Sr.ª D. Amélia Romanova, um distinto cidadão da nossa comunidade que prefere manter o anonimato, o dr. Atanásio Jacupissara, juiz desembargador do tribunal da Relação, reparou num veículo atravessado na faixa contrária. Estacionou o seu automóvel, um moderno Audi highline A5 (sobresselente também é gente), e prontamente se dirigiu ao local do presumível acidente. Lá chegado, reparou que o veículo imobilizado, um Ford Fiesta comercial com a traseira elevada e adaptada ao transporte de pão, estava ainda com o motor a funcionar. Na superfície lateral, ostentava a designação do estabelecimento comercial: Padaria Contente, telemóvel 91 544 455.
O dr. Jacupissara desligou o motor, rodando a chave da ignição, e reparou que, mesmo em frente do automóvel estava um vulto imobilizado no alcatrão. Logo imaginou um atropelamento com fuga. O empenhado e responsável cidadão usou o seu telefone para prontamente chamar as autoridades e uma equipa de emergência médica. Entretanto, abeirou-se do corpo prostrado no meio da via pública. Reparou que se tratava de uma senhora de meia-idade, aí dos seus cinquenta anos. À frente, uma prótese da perna direita que seguramente fora projectada em consequência do embate. A história parecia simples: o padeiro atropelou esta pobre senhora que, em virtude das suas dificuldades de locomoção, atravessava a rodovia em local não autorizado, mal iluminado e muito vagarosamente. Assustado, o motorista fugiu, ou então, admitamo-lo, foi em busca de socorro, uma vez que poderia não ter telemóvel.
O dr. Jacupissara acercou-se da face da infeliz atropelada e viu então que ela não tinha braços. «Deve ser uma vítima da Talidomida», pensou o dr. Jacupissara enquanto se aprestava para a violar. Antes porém que tal sucedesse, chegou a equipa de emergência que transportou a pobre infeliz para o hospital onde viria a falecer.
A polícia abriu um inquérito que viria a ilibar o jovem condutor do veículo, um tal Atanagildo Pasagarda, posto que o volante, segundo os exames periciais do laboratório da polícia científica, ostentava as impressões digitais da vítima. Ora, o mistério é o seguinte: como é que a senhora se atropelou a si própria?

Foto: O Pensador, de Auguste Rodin; 1880

13/02/07

O Livro Que Matou Uma Cidade, por Melquíades


Há muitos anos, correndo as estantes empoeiradas da Biblioteca Municipal, tropecei no título de um livro que me encheu de curiosidade e me levou a lê-lo. Era uma obra-prima do realismo italiano, de um tal Carlo Levi e dizia que “Cristo Parou Em Eboli”. Como não consigo ler um livro sem ir a correr situar a coisa, descobri a cidade italiana de Eboli, a cerca de 100 km a sudeste de Nápoles, na Campânia e nas faldas dos Monti Picentini. Mas o livro não se passa aí. Aí parou Cristo e depois da abertura inicial, Eboli não mais aparece no livro.

O narrador, o próprio Carlo Levi, é desterrado por Mussolini para os confins da bota, para a pobreza miserável da Lucânia - junto ao tacão -, passa por Eboli e vai aterrar em Gagliano, aldeia próxima do rio Agri, para lá de Grassano e pertencente à província de Matera. Só não descobri no mapa Gagliano, que o autor deve ter inventado. O Agri, Grassano e Matera são reais e o exílio interno do Levi também.

Apesar de abrir caminho às correntes realistas italianas (vide badana), o livro é muito mais do que um manifesto realista. Num registo com muito de auto-biográfico, o médico, escritor e sobretudo pintor, Carlo Levi debruça-se sobre a vida dos que o acolhem nos confins do mundo romano. O retrato sendo cruel, não deixa de ter algo de mágico, com uma forte componente pícara e humorística. Mussolini em particular e o poder de Roma em geral, não saem bem na fotografia. Na década de 50, com a Itália pós 2ª Guerra a cavalgar ufana a riqueza da industrialização crescente, a ferida aberta por Carlo Levi não foi bem recebida, e o escritor foi ferozmente criticado por ter “dado para o estrangeiro uma imagem troglodita da Itália”.

É que pelo meio do livro, Levi mata Matera. A velha Matera, que a nova, lá continua capital de província e senhora dos seus 50 ou 60.000 habitantes. Mas na década de 30, Matera era um monte rochoso de cavernas e grutas infectas onde vivia a maioria dos seus habitantes. Levi fez um tal retrato daquilo, que a moderna Itália pós guerra entrou em estado de choque, quer pelo retrato, quer pela repercussão internacional do mesmo. O primeiro-ministro italiano da altura proclamou Matera como "la vergüenza de Italia", e o estado italiano obrigou a população a sair à força das cavernas, grutas e ruínas e fechou toda a velha cidade. A velha Matera passou então a servir de cenário a filmes apocalípticos (Pasolini filmou aí a miséria absoluta para alguns dos seus filmes) e de pano de fundo a um turismo de mau gosto. Ainda hoje, os italianos e a cidade em especial não gostam nada da alusão à coisa. Têm razão. Não saem bem na fotografia. No livro, o relato que se segue é a voz da irmã do narrador que vem de Turim visitar Levi:

“ - Não conhecia a região (…) Mas quando saí da estação, um edifício moderno e até mesmo luxuoso, e olhei em volta, foi em vão que procurei a cidade. Não existia cidade. Estava numa espécie de planalto deserto, cercado por colinas áridas e calcinadas, de terra cinzenta semeada de pedras. (…) Mas onde estava a cidade? Matera não se via.

(…) E fui finalmente à procura da cidade. Afastei-me mais um pouco da estação e cheguei a uma estrada ladeada de velhas casas dum dos lados e contornando do outro um precipício. Matera fica nesse precipício. Lá em cima não se vê quase nada por causa da excessiva inclinação da encosta que desce quase a pique. Ao debruçar-me, vi apenas terraços e carreiros que ocultavam completamente as casas. Em frente, ficava um monte árido e queimado, horrivelmente cinzento, sem marcas de ter sido cultivado, sem a animação de uma única árvore: apenas terra e pedras batidas pelo sol. Ao fundo corria uma pequena ribeira, a Gravina, um pouco de água suja por entre as pedras, fonte permanente de paludismo. O riacho e o monte tinham um ar sombrio e mau que confrangia o coração. (…) Era assim que nós na escola, imaginávamos o inferno de Dante.

Comecei a descer, em círculos, por um caminho de cabras. O estreitíssimo carreiro passava, serpenteando, por cima dos telhados das casas, se é que se lhes pode chamar assim. São grutas escavadas na argila endurecida do barranco; algumas têm uma fachada, à frente, e chegam mesmo a ser bonitas, com uns modestos ornatos tipo setecentista. Esta espécie de fachadas talhadas verticalmente na terra, tornam-se um pouco salientes em cima devido à inclinação da ravina e é nesse estreito espaço entre a fachada e o declive que passa o caminho que é, ao mesmo tempo, o tecto das habitações que ficam por baixo. Com o calor as portas estavam abertas.

Ao passar, ia olhando para o interior das grutas que não recebem ar nem luz por outra abertura. Algumas nem mesmo essa possuem: entra-se por cima, por uma escada. Dentro daqueles buracos negros, de paredes de terra, viam-se as camas, um miserável mobiliário, alguns farrapos estendidos. No chão estavam deitados os cães, as ovelhas, as cabras, os porcos. Em geral cada família só possui uma dessas grutas e têm de dormir todos juntos: homens, mulheres, crianças e animais. Vivem assim vinte mil pessoas. Crianças, então, é um número infinito. Com aquele calor, apareciam por todos os lados, no meio das moscas e da poeira, completamente nuas ou cobertas de andrajos.

(…) Vi crianças sentadas nos portais das casas, no meio da maior imundice, sob o sol ardente, com os olhos semifechados, as pálpebras vermelhas e inchadas; e as moscas pousavam-lhes nos olhos, enquanto elas continuavam imóveis, sem mesmo as sacudirem com mão. Sim, as moscas passeavam nos seus olhos e elas não as sentiam. Era o tracoma. (…) Encontrei outros garotos de rostos encarquilhados como velhos, esqueléticos e esfomeados, as cabeças cheias de crostas e piolhos. Mas a maior parte tinha umas barrigas enormes, inchadas, e as faces amarelas e apáticas da malária. As mulheres, quando me viam espreitar pelas portas, convidavam-me a entrar. E nas grutas sombrias e pestilentas encontrei garotos deitados no chão, sob uns cobertores esfarrapados a bater os dentes com febre. Outros mal conseguiam arrastar-se, reduzidos pela disenteria à pele e osso. E via alguns, com faces da cor da cera, que me pareceram sofrer de doença ainda mais grave que a malária, qualquer enfermidade tropical no género do Kala Azar, a febre negra. As mulheres, magras, com as crianças ainda de peito, subalimentadas e sujas, penduradas nos seios flácidos, saudavam-nos com uma gentileza triste e resignada. Sob aquele sol de cegar, parecia-me ter caído no meio de uma cidade devastada pela peste.”

A coisa prolonga-se, mas para pior. De fazer chorar as pedras da calçada, como manda a cartilha realista. Contudo, ali não era romance, mas realidade. Há pouco revisitei Matera, Gagliano e o velho e maltratado exemplar do Cristo Parou Em Eboli, da mesma biblioteca. Continua uma obra-prima que vale a pena saborear. Da Matera que se descobre no Google-Imagens continua-se a querer fugir. Levi tinha razão. Mas não digam isto a um italiano, que ainda hoje não gosta que lhe apontem a miséria do mezzogiorno.

12/02/07

Uma Prova Cega De Tomba-Gigantes, por Vampiro da Uva



- Pintas, 2004, Douro, nota 18 do João Paulo Martins, 65,00€ na Dom Vinho, apresentado pelo Barão…, 2º Lugar!!!,
- Mouchão, Tonel nº 3-4, 2001, Alentejo, nota 18 do João Paulo Martins, 68,00€ na Dom Vinho, apresentado pelo Mágico…, 7º Lugar!!!,
- Abandonado, Alves de Sousa, 2004, Douro, nota 18,5 da revista de vinhos, 51,00€ na Dom Vinho, apresentado pelo Derviche…, 5º Lugar!!!,
- C.V. Curriculum Vitae, 2004, Douro, nota 18 do João Paulo Martins, 60,00€ na Dom Vinho, apresentado pelo Nemo…, 3º Lugar!!!,

Eis quatro Colossos do vinho português da actualidade, tudo topos de gama das respectivas casas, uma coisa a rondar a média de 60,00€ de preço por botelha e a ascender aos 289,00€ no conjunto. Ora, destes quatro portentos fora de série, nenhum alcançou o Primeiro Lugar da 48ª Prova Cega da Real Satânica do Tinto, realizada à volta duns Peixinhos do Rio, Ruivacos e Enguias Fritas, maila Lampreia em Arroz carolino de cabidela da dita e acolitada de grelos. Pois, como se dizia, nenhum deles ascendeu ao Olimpo! É obra!

Ao primeiro lugar do Podium e ao Prémio Maligno, ascendeu um tal de Bragança de Carvalho, Moimenta da Beira de Carvalho ou coisa que o valha, de seu nome Viseu de Carvalho, Grande Escolha, 2003, um Douro com 15% de puro álcool, nota 17 do João Paulo Martins e 15,00€ de preço na Dom Vinho (sem dúvida a grande vencedora da Prova), pois, repita-se, foi este David que ousou e tombou os Golias presentes. Uma pedrada em cheio nas fuças e ei-los que caíram com estrondo, sem pompa e com agravamento de circunstâncias. Parabéns ao apresentante Xiita! Porque o vinho também é assim!

11/02/07

A Neve e a Conspiração, por Mangas

Existem gémeos separados à nascença, como existem filmes que nos trazem à memória outros filmes pelas semelhanças invocadas. Comigo aconteceu estar a ver Snow Falling on Cedars (1999), e a recordar-me de Bad Day at Black Rock (1955). Ambos contam histórias de como agir honradamente. Parece simples, mas não é. Porque as sequelas de Pearl Harbor alcançam da mesma forma o deserto do sudoeste americano ou a comunidade de uma pequena ilha a norte de Seatlle - a guerra mais terrível é aquela que não cala o som dos bombardeamentos nos corações dos homens. Se John Macreedy (Spencer Tracy) o soubesse, teria sempre ido para o deserto cumprir a tarefa que o empurrou até lá; Hector David (Lee Marvin nos melhores anos de cão raivoso), Coley Trimble (Erneste Borgnine) e a seita do costume sempre o souberam, mas precisavam de ser ensinados a silenciar as armas, por dentro, no território das feridas silenciadas. A punição fez parte do processo.

Um homem com preconceitos em relação a outro homem é como uma criança ameaçada pelo ódio – percorre acelerado, em passos cegos e de punhos crispados, a distância mais curta da intolerância. Há quem lhe chame vingança também, mas John Macreedy, o velho amputado de um braço, já tinha a sua conta da ira dos homens, e uma missão a cumprir. Ishmael Chambers (Ethan Hawk) teve um pai, mesmo depois do pai ter morrido. A figura paterna, pela dimensão de honra e justiça, assumiu no Jornal a voz da liberdade - há quem lhes chame dignidade e rectidão também, ou no caso, heranças de peso para o jovem Ishmael, o Rejeitado, o amputado de um braço no desembarque da Normandia, que já tinha à sua conta que contar sobre amores desprezado e os Ahabs deste mundo.

São estes dois homens, estes dois outsiders, que movidos pela determinação do dever e da paixão, irão resgatar a memória de dois japoneses condenados pela cor da pele e à revelia do direito. Um velho implacável, fiel cão de guarda de alguns valores irrevogáveis, e um jovem derrotado, envelhecido pela memória de um amor esmagado pelo preconceito racial em tempo de guerra que nunca conseguiu esquecer. Veja-se com atenção a brilhante sequência em flash-back que culmina no agonizante e mais profundo sentimento de rejeição de Ishmael «fucking jap bitch!».

Um dia. Um mau dia em Black Rock. Vinte e quatro horas que mudarão para sempre a vida naquela cidade. Linear. Como o amanhecer e o anoitecer num palco a céu aberto. O medo, esse assassino de conluio com a culpa, jamais adormeceu. Em A Neve Caindo Sobre os Cedros, parece quase sempre que o passado é manhã e que o presente é noite envolta em neblina. A trama complexa das estações. Os jovens, os adultos e os velhos. Os flash-backs constantes são como bússolas em territórios emocionais: indicam-nos a direcção, contudo nunca nos revelam o destino final. Cada personagem é um contributo para a percepção do todo. Simbólica e grandiosa a presença de Max von Sydow na interpretação do advogado de defesa Nels Gudmundsson. O seu discurso final faz o resumo condensado de todo o filme, de toda a vida no que ela se entende, para todos os homens presentes, ausentes ou à beira da última viagem, como ele próprio. E os cedros outrora verdes, vergados à neve glaciar. E os áridos contornos escarpados do deserto sob um sol abrasador e conspirativo. E o refúgio no bosque, o encontro com Hatsue (Youki Kudoh) no mais seguro e reconfortante isolamento, o musgo e as sombras das grandes árvores contempladas, fugas in Laudate Dominum, de Mozart. E um homem só, numa cidade só e hostil, amarga e perdida no esquecimento do inferno ao meio-dia, protegendo um terrível segredo, como se assim, pelo silêncio das vozes, apagassem das consciências a culpa.

O tributo final então não será para Komoko redimido; nem para Miyamoto cuja maior conquista foi ter sido devolvido em liberdade aos braços da mulher. Pelo contrário. A última rendição no filme de John Sturges surge sob a forma de um pedido quando na plataforma do comboio, o médico diz a Macreedy que Black Rock era moribunda como cidade, mas que espera que ela sobreviva agora, ao qual o outro responde, de forma seca, que algumas cidades não regressam mais… Então, o médico pergunta-lhe se lhes pode deixar a Purple Heart que era destinada a Kokomo. “It might help the town come back”, acrescenta. Macreedy entrega-lhe a medalha e parte no comboio. Em Neve Caindo Sobre os Cedros, Scott Hicks propõe uma solução mais óbvia, mas ao mesmo tempo, portadora em si de uma enorme herança clássica, pois o grande cinema, mesmo quando se repete, nunca é igual: quando o juiz manda libertar Miyamoto em face de novas e relevantes provas, a assembleia nipónica, primeiro o pai, depois todos os outros, viram costas ao juiz, encaram o andar cimeiro do tribunal e em uníssono fazem uma vénia silenciosa a Ishmael em sinal de agradecimento – da mesma forma como em Na Sombra e no Silêncio (1962) de Robert Mulligan e inspirado no romance homónimo de Harper Lee -, apenas com a inversão de sentidos quando o advogado Atticus Finch (enorme Gregory Peck!), abandona o tribunal na mais profunda desolação após ter perdido o caso em favor do preconceito racial do Deep South. E é naquele imenso vazio de cadeiras abandonadas que a assembleia negra, no andar cimeiro do tribunal, fica e permanece de pé à sua passagem em sinal de respeito e reconhecimento. Nunca um breve silêncio exprimiu tão imenso grito de revolta nos tribunais dos homens.

A Conspiração do Silêncio e A Neve Caindo Sobre os Cedros tocam-se pelos opostos. O clássico duro e a ode poética. O linchamento da integridade e a condenação arbitrária. A paranóia e o racismo. As fronteiras do ódio e pacificação da memória. Tal como, o sol e a neve, percorrem as mesmas geografias das consciências e da alma.

10/02/07

Glorioso 62 = Cabriz Reserva 2003, por Caius Detritus

Ah pois é! Esta é a equipa do Glorioso de 62. O segundo a contar da esquerda, ao lado do zé augusto é o zébio. O Américo teimou que não, que esta não era a equipa de 62 e que o segundo ao lado do augusto não era o zébio. Como se vê, é! Em consequência, no jantar de hoje à noite ondevamos papar uma ganda lampreia, o Américo, vai botar em cima da mesa, uma garrafa de Cabriz Reserva. Não é que a oferta seja grande coisa, mas enfim, a cavalo dado...

08/02/07

John Rambo e a Nova América de Reagan, por Arnaldo Menarca

Durante a guerra do Vietnam, Ronald Reagan deixara já a discreta e pouco sucedida carreira de actor e era governador da Califórnia, tendo reprimido os movimentos contestatários na Universidade estadual com o envio de forças policiais, durante esses míticos e agitados anos do flower power. Como governador, foi um dos alvos preferidos da ironia crítica do movimento hippie. Ouçam a gravação de Woodstock e lá ouvirão a canção Drug Store Truck Drivin' Man dedicada a Ronald Ray-gunsss por Jeffrey Shurtleff e Joan Baez. O parceiro de Baez refere-se ao governador com um trocadilho que remete para o passado de Reagan nos westerns de segunda categoria e lembra a atitude repressiva em face dos tumultos estudantis.

Durante a década de 60, a par da contestação pacifista contra a guerra do Vietnam, a América vai perdendo a inocência e as novas gerações não se identificam mais com o paradigma de herói até então veiculado por Hollywood. Entre o modelo viril e primordial representado preferencialmente em John Wayne, e replicado em muitos outros epígonos e sucedâneos como Robert Mitchum ou Kirk Douglas e que se esfumará escandalosamente com a homossexualidade de Rock Hudson, ainda que venha a encontrar posteriormente em Harrison Ford uma das últimas edições válidas e em Clark Gable um compromisso com o outro tipo de herói. Este segundo modelo, o do galã irresistível, delicado e insinuante, encontrará em Gregory Peck uma versão menos exuberante do que Gable e em Jimmy Stewart ou Henry Fonda variantes mais subtis em que a insinuação sexual se dissimula sob a capa poderosa da hombridade. Warren Beatty, Paul Newman ou Robert Redford são, na minha opinião, reedições, com óbvias especificidades, daquilo a que chamaria o modelo Stewart / Fonda, e no qual incluo ainda George Clooney, para citar apenas um modelo mais recente.

Além destes, encontro ainda necessidade de referir outros dois tipos de herói masculino em Hollywood, além de outros de menor relevância: o dos ícones sexuais, que inclui Marlon Brando e James Dean à cabeça, e que chega à actualidade representado, por exemplo, em Brad Pitt ou Leonardo DiCaprio, sendo interessante verificar a evolução do modelo de beleza masculino; e, o mais interessante de todos, o dos feios magnéticos que tem em Bogart o seu expoente, mas que se prolonga em Jack Nicholson, passando por Anthony Quinn. Ao longo da década de 60, o modelo de heroicidade masculina propagado por Hollywood, em todas estas modalidades e noutras mais, entra num período de crise e rejeição generalizadas. A juventude, em suma, já não quer saber de John Wayne. Isto, claro está, apesar das excepções e persistências que, malgrado todas as classificações e tipologias que estabeleci e que não devem ser lidas para além deste contexto expositivo, sobreviveram mais à custa do carisma pessoal e apesar dos tempos adversos. A verdade é que, na década de 70, busca-se outro conceito de herói e assomam novos ídolos que confirmarão uma tentativa de readaptação da produção cinematográfica aos novos tempos. Lembro-me, muito particularmente, de Steve McQueen, em Bullitt, ainda dos finais de 60, por exemplo, ou o “Dirty” Harry Callahan de Clint Eastwood, o Al Pacino de Serpico ou Um Dia de Cão, ou ainda, e especialmente, o Robert De Niro do Taxi Driver. A América parece satisfeita com os seus novos ídolos. Mas não está. Esvaído o summer of love, confrontada com o escândalo Watergate e a renúncia de Nixon, concretizada a retirada do Vietnam, a verdade é que a América tem ainda que analisar as feridas. Michael Cimino, primeiro, com O Caçador, de 1978, e depois Francis Ford Coppola com Apocalypse Now, no ano seguinte, abordam da melhor maneira possível a temática do Vietnam. Mas falta um herói. A América faz a sua análise no celulóide, mas falta um herói. Marlon Brando e o seu Kurtz, apesar de genial, já não se adequa ao papel de herói da América. Muito menos Robert de Niro, que nunca foi para isso talhado.

A América quer um herói diferente e novo. E ele aparece. Num primeiro screen de um filme de 1982, com um ar melancólico, traumatizado, desengonçado, solitário, envolto pela paisagem da América profunda: John J. Rambo, Sylvester Stallone, um antigo veterano do Vietnam, que vai pela estrada, solitário como todos os heróis americanos, em busca de um amigo. Lembro-me de ver o filme na altura e de, precipitadamente, com os complexos naturais da idade, o haver rejeitado liminarmente. Há poucas semanas adquiri-o na versão DVD, por menos de 5 euros na FNAC, e só então, ao revê-lo, me apercebi da sua importância fundamental. É um dos grandes filmes do cinema americano, sem dúvida.

O amigo que Rambo procura morreu de cancro vítima da utilização de napalm. Os soldados americanos surgem como vítimas isoladas após o regresso, vítimas do esquecimento e da rejeição pacifista. Rambo anda sozinho, ninguém diria que é um herói de guerra. O chefe da polícia local toma-o por vagabundo e expulsa-o, conduzindo-o aos limites da sua jurisdição. Rambo não se revela, permanece conformado, com um olhar doente e adormecido, como um animal escorraçado, papel que evidentemente assume, ainda que se adivinhe a força contida e as agruras passadas. Quando o xerife o larga na estrada, Rambo tem um assomo de consciência e dignidade, inverte a direcção e regressa à localidade de onde o expulsaram. Em nome da memória e do sacrifício dos veteranos de guerra, supõe-se. Rambo, que é agora a América em busca de uma pacificação com os seus traumas, desafia a ordem e recusa ser um marginal. É uma declaração de guerra, uma luta pela inserção, pelo reconhecimento e pela dignidade, um esforço de se conformar com a memória da guerra. É afinal o que a América necessita, analisar o seu passado recente, reencontrar-se após os horrores da guerra, da hipocrisia da administração Nixon ou dos lirismos do flower power.

John Rambo é preso e mal tratado. É espancado e reage violentamente, pois vêm-lhe à memória as torturas sofridas no Vietnam. Inicia-se a guerra de um herói solitário contra a América inteira. A América entusiasma-se. O público aderiu ao filme e ao herói. First Blood foi um enorme sucesso comercial que daria origem a uma sequela cujos méritos já são mais duvidosos. Rambo refugia-se na floresta como um animal acossado, esconde-se numa velha mina abandonada, nas entranhas da terra, confronta-se com os ratos, é dado como morto, luta desesperadamente pela sobrevivência e pela evasão. Renascido das profundezas da terra, o que é dizer da mais funda das raízes originais, despojado de toda a condição e livre de todas as amarras, reergue-se solitário, refeito da dor e do sofrimento, e logra achar uma saída para a floresta onde fora perseguido por cães e policiais feitos caçadores.
Retorna à cidade e semeia o caos, numa orgia de destruição, chamas e explosões. Mas não de morte. Ninguém morre na destruição que Rambo provoca. A fúria do herói, mais do que vingativa, é cívica, é uma luta pela dignidade que a América procura. Fechado na sede da polícia local, acede apenas a falar com o seu superior, o coronel Samuel Trautman representado por Richard Crenna. Aí, Sylvester Stallone revela todas as suas insuficiências como actor. Num monólogo choroso, arrastado, melodramático, medíocre, Rambo verbaliza em face do seu paternal superior, que presentifica a memória dos fundadores da América, todos os horrores vividos no Vietnam. Do ponto de vista da representação a figura de Stallone é risível. Mas aquilo é a América a fazer uma auto-análise. Não no confessionário, nem no sofá do doutor Freud mas no celulóide já previamente preparado por Cimino e Coppola. Stallone chora, com aquele corpo musculado e animalesco e, quando se ergue, reparo como Stallone inventou um novo modelo de herói. O corpo musculado mostra como, entre o modelo duro e viril de Wayne, e o de galã delicado de James Stewart, evitando a tendência dos anos de 70, Stallone recupera e reinventa um outro modelo que até então só fora explorado por Johnny Weissmuller no seu inesquecível Tarzan. Rambo parte desse modelo de Weissmuller, que o seu espaço é também a selva e o seu talento é também o músculo, e oferece à América o herói que ela buscava.
Quando Rambo desce a escadaria da esquadra policial, algemado e acompanhado pelo coronel Trautman, as luzes dos carros policiais tingem-lhe a face, a câmara aproxima-se a imagem pára. O filme acabou, o olhar de Rambo tem agora dignidade e Ronald Reagan é o presidente da América.

É muito interessante como a América se redescobre neste regresso a Reagan que apela ao paradigma Wayne. Reagan apresenta-se como um velho actor de Hollywood, do tempo dos westerns saudosos, aparece vestido à cowboy, com uma linguagem simples e um discurso patriótico. A América renasceu e recuperou da depressão da administração Nixon e do trauma da guerra. Enquanto isso, na era dos Reaganomics e da prosperidade económica, do triunfo dos valores básicos e da ofensiva final contra o império soviético que dá sinais de cansaço ameaçando cair aos pés de Reagan, como se fora um filme de Rocky, filão que Stallone explora para além do filão Rambo. A América aplaude, finalmente, pois reencontrou um herói. Virá depois Arnold Schwarzenegger, o homem dos músculos de aço que, a partir do modelo Stallone, levará as suas personagens aos limites da brutalidade e da exuberância musculada, encontrando aí o caminho que o levará à governação da Califórnia, o ponto exacto onde, com Reagan, comecei este longo texto.

O Tomografia das Emoções, a Truta Salmonada e o Abutre da Abissínia, pelo Próprio


O Tomografia das Emoções é um blog dado às psicologias, às depressões e à discussão de uma certa visão dark da vida, que não anda muito longe dos gótikos escurecidos. A coisa até é catita e dá algum gosto passar por lá. Está linkado aqui ao lado nas Pocilgas de Luxo. Já lá vi bons post e outros que nem tanto, como em todos os blogs. E aquilo tem coments livres e anónimos, que é a base de qualquer blog que se preze. Até aqui tudo bem.

Há dias passei por lá, gostei do Post e da questão levantada e deixei coment. Obviamente mordaz e satírico, mas que também levava à questão de fundo e à discussão da mesma. O post é “A face e a voz são a forma, que é, de longe, mais importante para a sociedade do que o conteúdo” e levantava a questão de qual o ginásio a usar (masculino ou feminino) pela narradora, que se definia como “uma coisa entre os sexos”. O coment que deixei e que agora procuro recordar dizia qualquer coisa como isto: “não percebo a questão. Se tem genitália masculina, obviamente vai para o dos homens. Já o baptista-bastos dizia que cu não tem sexo e por maioria de razão mamas também não e os homens não são esquisitos.” Havia mais umas coisas mas já não me recordo.

Ora este coment foi censurado. Cortado. Expulso. O que é caricato num post que visa discutir e questionar a não aceitação da diferença. Aqui fica a justificação do Truta Salmonada no Tomografia e a resposta que lá deixei:
Coment Censor Da Truta Salmonada:

“pois é Abutre da Abissínia, por mais que o sentido de humor surja como forma de lidar com o que nos é menos familiar, estranho e distante, devendo ser valorizado e por vezes ser devidamente reconhecido como elevado exercício de um intelecto elaborado, aqui, neste trecho roubado a L (por ela vivido na primeira pessoa), a minha deferência por quem vive uma situação deste género não me liberta a capacidade e a ligeireza de aceitar o teu eloquente e divertido comentário...por isso tomei a liberdade de o retirar”

Coment de Resposta do Abutre da Abissínia:

“em blogs que fazem censura eu não venho.
em burros, que para lá do humor, não conseguem ver a inteligência que subjaz ao coment, não vale a pena perder tempo.
e é pena, até porque é matéria que merecia discussão com humor e inteligência, que aqui pelos vistos não abunda.
abunda sim o lápis azul, a censura e o fascismo mental de quem quer pode e manda e corta tudo o que lhe desalinhe o cabelo. aqui admite-se o bate palmas e não a diferença. a diferença corta-se. num blog destes é para rir. eu pelo-me por um bom cómico. vão ter muito que censurar. é melhor cortar de vez o meu servidor. sempre poupam trabalho.
e como aqui não se pode discutir a coisa segue para o Tapornumporco. aí pelo menos respira-se! cof. cof!

Ass: Abutre da Abissínia”

Assim e como não dá no facho Tomografia, meto aqui a coisa no Porco, sujo, malcheiroso, nefando, mas livre, Sempre!

07/02/07

O Prazer De Ler, por Sapocke

As Listas de Leituras que o Cão aqui publicou há tempos, causaram polémica. No Tapor e lá fora, nos arredores. E o mais engraçado é que foi uma polémica esquisita. Não se discutiu a leitura em si, os autores, os livros, as escolhas, etc, mas sim se seria possível que o Cão, ou sequer alguém, lesse tanto!

Mais do que uma vez, pessoas houve, que me vieram com o desdém sobranceiro do “Ganda galga, aquele Cão”, “como se tivesse lido aquilo tudo”, “nem fazia outra coisa”. Fico e fiquei piurso. Pior ainda, do que quando me chegam a casa e me perguntam para são tantos livros. Em regra procuro ser simpático e digo que é para embrulhar as castanhas. Valha-me deus!. Só de quem não lê e não faz a menor ideia do enorme prazer que se pode ter a ler.

As pessoas não estranham que o filho possa passar horas diárias alienado em frente ao Gameboy, Playstation ou mesmo a dar cabo dos olhos com o minúsculo écran dum telemóvel. Se a miúda fica acordada até às 2.00 horas da manhã a ver novelas, tudo bem, mas se ficar a ler um livro de luz acesa na cama, levam a pimpolha ao médico e insistem que a desgraçada dará cabo dos olhos antes dos 18 anos. De igual modo, a fêmea que passa horas infindas no shópping, no lifting, peeling, brushing e demais noveling, recebe o assentimento geral. Tal como o nabo que fica horas seguidas na rua a passear o canídeo, na beira da água a dar banho à minhoca, ou na esplanada a coçar a tomateira. É tudo coisas que as pessoas não estranham e compreendem. Porquê? Porque percebem o prazer daí retirado. Não lhes é estranha a tara aí cultivada.

Já um gajo com um livro é uma coisa esquisita. Ler é hoje uma actividade marada, proscrita. Daí a estranheza que provoca. Experimentem sacar de um livro numa bicha de banco ou de repartição, na espera de um tribunal e vejam os olhares abismados, surpresos, confusos e condenatórios. Um livro? Mas que raio faz aquela peça com livro na mão. E está a lê-lo!, ele há cada tarado! Na espera de um banco, uma madura maquilhada sussurrava com estranheza prá amiga: “Deve ser padre, está a ler um livro pequenino!”. Fiz das tripas coração e aguentei. Logo no outro dia, nas Finanças, lá marrava um seboso: “…e depois vêm práqui estes ler livros!”. Ora foda-se, houve tourada!

Experimentem uma vez que seja - não sendo vossas excelências estudantes ou adolescentes, automaticamente desculpados pelos estudos -, ir pela rua com um livro na mão. As pessoas olham, reparam, e julgam. Questionam. Aquilo não computa. Não percebem o prazer. A tara. É fora do comum, quase fora do tempo.

É evidente que ninguém morre por não ler. Há felicidades e impérios inteiros que se construíram sem que se lesse uma página. E não há um livro ou os livros fundamentais, imprescindíveis, ou nos quais se possa basear a iluminação, a certeza ou o conhecimento. Agora, que há o prazer de ler livros, há. Eu espojo-me nele como gente grande. Com fome e sofreguidão. A minha lista de leituras nem a divulgo, pois sei que daria a muita gente, uma coisa má. Mas acreditem em mim, o Cão leu mesmo aquilo tudo. Com gosto e um enorme prazer. Compulsivo, Obsessivo, Tarado claro, como só um Prazer o pode ser!

06/02/07

Elogio de um homem sem rosto, por The Face

«El-rei, quando soube que aquela gente ali estava e a razão porque vinham, mandou-lhes perguntar (…) o que é que queriam e a que eram ali vindos. E Fernão Vasques respondeu em nome de todos: que eles tinham vindo ali porquanto lhes era dito que el-rei seu senhor tomava por mulher Leonor Teles, mulher de João Lourenço da Cunha, seu vassalo. E porquanto isto não era de sua honra, mas antes causava grande desgosto a Deus e a seus fidalgos e a todo o povo, que eles, como verdadeiros portugueses, lhe vinham dizer que tomasse como mulher uma filha de rei, como convinha a seu estado.»
Este relato de Fernão Lopes, extraído da «Crónica de el-rei D. Fernando», bastaria para fazer de Fernão Vasques o maior português de sempre.
Nos tempos que correm em que, como diz Miguel Sousa Tavares, um povo se define na sua ignorância e mesquinhez ao alcandorar Salazar e Cunhal ao estatuto de portugueses mais ilustres da sua história, convém lembrar Fernão Vasques, um homem sem rosto. Deixemos de parte a discussão sobre a justificação do concurso, o privilégio dado ao presente que se funda apenas na ignorância do passado e do processo, as dúvidas sobre os mecanismos de selecção, o conceito ideológico que está subjacente a este modo de encarar a história, a estratégia de divulgação, a pertinência de um concurso disparatado, a irrelevância do resultado, o método de votação e tudo o mais que permite desqualificar a brincadeira até ao nível ínfimo da idiotia.
Aproveitemos antes o pretexto para reflectir sobre a história de um país que se estende já por quase um milénio. Da primeira centena de seleccionados, a esmagadora maioria não tem relevância quando se considera o milénio. E mesmo nestes dez, uma figura como Aristides Sousa Mendes, malgrado a coragem e o exemplo cívico que manifestou, não tem estatuto histórico, na minha opinião, para o título que lhe querem atribuir. Quanto aos outros, e tirando Camões e Pessoa no domínio da literatura, a todos se pode apontar uma face negra que, por si, seria bastante para os afastar do título: Afonso Henriques, o Infante, D. João II, Vasco da Gama ou Pombal. Resta pois considerar os ausentes. Por mim, era o Padre Vieira. Ou Fernão Lopes. Não fora Fernão Vasques.
Fernão Vasques foi um alfaiate de Lisboa que interpelou o rei directamente, falando em nome de todos. Repito, falando em nome do povo de Lisboa, Fernão Vasques, um vil alfaiate de Lisboa, interpelou directamente o rei, dando-lhe notícia do desagrado relativamente ao consórcio que D. Fernando se aprestava para selar com D. Leonor Teles. Mesmo considerando que a intimidade do rei com as gentes do povo, comum na época, possa diminuir o carácter inusitado da interpelação, a verdade é que o episódio não deixa de ser de extraordinária relevância. Desde logo que Fernão Lopes o achou digno de menção, e todos o consideram como um antecedente imediato dos episódios posteriores que fariam da revolução de 1383-1385 o acontecimento mais importante da história milenar do país. Considere-se primeiramente o facto de ser um alfaiate, um ofício manual, maculado pelos preconceitos medievais relativamente ao trabalho mecânico, tido por vil. Depois, Fernão Vasques dirige-se ao rei questionando-o em matéria de honra! Extraordinário, peço que se considere o padrão mental da Idade Média em que a honra e a dignidade régias quando postas em causa justificavam a ira e a condenação à morte. Lesar o bom nome do rei era uma quase blasfémia quase sempre paga com a vida. Para se entender a coragem do alfaiate tem que se ponderar esta circunstância.
Em terceiro lugar, repare-se como ele fala de «portugueses» e, ao interesse de Deus e dos fidalgos, ajunta o interesse do povo. E isto é que é verdadeiramente extraordinário: Fernão Vasques afronta o rei, interpela-o, critica-o no campo mais sensível, o da honra, desafia-o em público e fá-lo em nome do povo! É único na história da Europa. Num país cujo contributo para a história da ciência é nulo, para a história da cultura se resume a contributos esparsos e individuais, um país que não promove a arte nem a educação, um país que tem raros empresários e académicos dignos do nome, um país que não tem - numa palavra - elites para além dos oportunistas e cortesãos que disfarçam a mediocridade com a prosápia e a ostentação, o que este país tem de melhor é a espontaneidade popular. Fernão Vasques é o símbolo desse arrojo. Foi esta gente que se lançou sobre o Sul e o anexou ao norte cristão, foi esta gente que disse não ao rei D. Fernando e o obrigou a fugir e a casar secretamente, foram estes que elegeram rei em Coimbra contra todas as leis e costumes e que acompanharam a fidalguia a Ceuta, foram estes que embarcaram nas caravelas e praticaram barbaridades inomináveis tal como feitos inimagináveis, foi esta gente que emigrou para os quatro cantos do Mundo, fugindo, labutando, matando, evangelizando, violando e roubando, foi esta gente que se meteu na epopeia do bacalhau, pescando em botes solitários horas e horas a fio em pleno mar Árctico. Foi esta gente que morreu nas trincheiras da Flandres em condições impressionantes, foi esta gente que saltou os Pirenéus clandestinamente, que desbravou o interior da Amazónia, que seguiu Fernão de Magalhães na mais louca das viagens e que encarnou em Fernão Mendes Pinto na mais extraordinária das personagens. É este misto de inconsciência e arroubo, de ignorância e destemor, imprevidência e vaidade, que está na base da identidade portuguesa. Fernão Vasques é o seu símbolo. Foi enforcado pelas palavras que disse. Foi o primeiro a usar a palavra como forma de afirmação de uma vontade colectiva que se reclama injustiçada. Fernão Lopes usou a palavra escrita e da oralidade fez crónica, até que Vieira elevou a arte aos cúmulos de uma parenética inigualável. São os três maiores portugueses de sempre. Pelas razões contrárias de Salazar e Cunhal.
As Crónicas de Fernão Lopes; Lisboa; Gradiva; 4ª edição 1997; selecção, introdução e adaptação de António José Saraiva.

04/02/07

Black Cat and Other Stories, por White Rabbit

Li num jornal e, por uns momentos, senti-me na América profunda, moralista e bronca: alguns encarregados de educação de uma escola de Coimbra estão em pé de guerra porque a obra de estudo escolhida pelos professores de Inglês, de entre uma lista fornecida pelo próprio Ministério da Educação, é Black Cat do genial Edgar Allan Poe. Os vigilantes Encarregados de Educação alegam que o livro é demasiado violento para ser lido por crianças de 12, 13, 14 ou 15 anos.

O argumento da violência é completamente disparatado e não pode ser tomado a sério. Comparado com os produtos mediáticos consumidos pelas indefesas criancinhas – como o Wrestling, certas séries de animação, jogos de PC ou mesmo sites da net – os contos de Poe são histórias de fadas. Em que mundo vivem os pais destas crianças?

Além disso, esse mesmo argumento da violência levaria, em coerência, estes pais extremosos a impedirem os seus filhos de lerem ou sequer de conhecerem a Bíblia antes dos 18 anos. A Bíblia é uma das obras literárias mais violentas que conheço – o sacrifício de Cristo e dos outros apóstolos, as matanças de Herodes, as chacinas do Deus do Velho Testamento, etc, etc, etc, são incrivelmente violentas e estes pais parece não terem dado por nada. E não é só a violência – a Bíblia aborda todo um manancial de vícios e perversões humanas. Devia, portanto, na lógica obscurantista desta gente, vir com bolinha no cimo da capa e ser interdita a menores de 18 anos.

Também achei incrível a reacção da Editora do livro de Poe que deu crédito a este absurdo e prontificou-se a substituir Black Cat por outra obra da lista do programa de forma gratuita. Vá lá que os professores de Inglês daquela escola conservaram a lucidez e, muito bem, não cederam.

Caso ainda fosse necessário, este é mais um exemplo de quão perniciosa pode ser a pressão dos pais junto das escolas. Nos Estados Unidos, onde isto foi levado a um grau extremo, o ensino da Teoria da Evolução das Espécies foi, pura e simplesmente banido, nalguns estados obscurantistas. No dia em que as matérias a leccionar forem escolhidas não pela sua relevância científica-pedagógica, mas por estes Comités de Protecção da Decência e da Moral Pública, teremos dado o último passo para fazer da escola um centro de produção de cidadãos politicamente correctos. Então, em vez de Edgar Allan Poe, talvez as nossas crianças aprendam a História da Floribela. Ao menos não é violenta e é animada por brilhantes intenções morais.

02/02/07

Porco, O Rei Dos Animais, por Sanchez Romero Carvajal


Basta ser proibido, para o bicho ser simpático. De facto, não é só pelo gosto, que o Porco tem o estatuto que tem. É que o Porco além do mais, é proibido pela Religião. Pela nossa, pela deles e pela dos outros. O Velho Testamento esquece o Diabo e encarniça-se contra o Porco, vá-se lá saber porquê. A justificação do animal de casco fendido, não ruminante, não convence. Como é que pode haver um Deus e ele ser contra uns bons cascos fendidos de coentrada? Mistérios da fé! Mas só eles e os outros é que levam a sério a proibição bíblico-porcina. Nós não. Nós, entre Deus e o Porco, preferimos o Porco, sabe melhor. E grelha-se.

Woody Allen, um dos outros, simpatiza com o Porco, e nunca se coibiu de o defender, dizendo que o sexo é Porco, pelo menos quando é bem feito. E mesmo quando elas dizem: “Oh, que ganda Porco!”, o que elas querem dizer é “Não pares Porco, que estás a ir bem!”. Sim porque um Porco pode ser uma besta aporcalhada, mas nunca engana ninguém. Maria Schneider quando gritava “Ganda Porco” pró Marlon Brando, tinha absoluta razão, mas sabia ao que ia, à manteiga de Porco e nunca ao engano.

Um Porco nunca se engana e raramente tem dúvidas. Não é por caso que o animal usado para farejar e fuçar as Trufas é o Porco. Qual Cão, qual faro, cheiradeira gourmet é coisa de Porco. Os Romanos, gourmets por excelência elegiam a vulva de Porco como petisco supremo. Os nuestros hermanos ao invés não são esquisitos com o bicho, e dele dizem que lhe comem tudo menos o Groink. Nós, aqui no Tapor, nem o Groink nos escapa.

Orwell sabia da importância do Porco e é claro meteu-o a reger a Criação. Qual Rei Leão, qual carapuça, The Pig Rules. Ou é por acaso que o Porco é a reserva moral da Nação? Na hora dos aflitos é a morcela e a salgadeira que valem ao povão. Na crise, mata-se o Porco e na abastança também. E se há festança, há matança, e mesmo o bandalho do Capador nunca deixa de dizer: Se queres ver como és, abre um Porco e olha-o por dentro! Verdade porcina e cientifica.

Ser Porco é ser muito. Quase tudo. O dito tapornumporco, não é por isso ofensivo. É tapor em nós. É um dito carinhoso, ternurento. Humilde. Prontos filha, vem cá, tapornumporco. Vá não te aleijes, vai com cuidado. Isso. Coiso. Porco!

01/02/07

As Laranjeiras da Avenida, por Automotora


Na semana passada morreu Ryszard Kapuscinski, por muitos considerado o melhor reporter do século XX, referência moral e profissional de mais do que uma geração de jornalistas. Entre as suas obras de referência está “Ébano”, um comovente testemunho da vida do homem comum numa Africa em convulsão. Bom, e sendo assim, tive de ser eu a fazer um post sobre as laranjeiras da avenida.
Sim, claro, existem laranjeiras ao longo da Avenida Fernão de Magalhães, cada uma em seu canteiro, carregadinhas nesta altura do ano com as chamadas laranjas de inverno, também chamadas pré-primaveris ou saturninas. Descobri este triste e perturbador espectáculo na passada semana. Não é que as árvores tivessem sido ali plantadas na noite anterior. Eu próprio já devo ter esbarrado nelas centenas de vezes, concerteza que sim, uma vez que trabalhei na avenida durante anos. Simplesmente, acontece que nunca reparei nelas e nunca reparei nelas porque nunca supus que pudesse ter motivos para reparar em laranjeiras numa avenida, como é fácil de entender. É que não estamos a falar de um boulevard, um passeio público, muito menos de um parque, mas sim de uma avenida cheia de tráfego rápido e barulhento, sem qualquer préstimo de lazer ou fim de semana, e quem em tempos foi mesmo classificada, para nosso orgulho, como a via mais poluída do País. Ora, a laranjeira não tem o panache urbano-depressivo do jacarandá, essa árvore gótica tão cantada pelo nosso Grão, O Homem que Via Passar os Jacarandás, e que se presta a enfeitar os passeios (o jacarandá, não o grão) e até a servir de amortecedor de acidentes de trânsito (não, não, o jacarandá). A laranjeira é antes uma discreta árvore pop rural, uma peça humilde de design utilitário, que está para a avenida, como um separador central de betão com postes de iluminação de trinta metros de altura está para o pomar das nossas avós. Os seus frutos são pequenos objectos redondos que se espremem, e não é suposto que numa avenida existam objectos que se espremam. Em havendo aí do que se esprema, que pelo menos da espremação saia um líquido negro viscoso, não uma aguadilha alaranjada, cor de carro do noddy quando vai de piquenique com a ursinha teresa. E que dizer das lagartas das laranjeiras, que têm de vir à cidade, quais marias papoilas, cumprir a sua função, nada habituadas concerteza à convivência com as bactérias e insectos mutantes de toda a espécie que por aqui pululam? Tive então forçosamente de concluir que aquela é uma avenida ridicula, que hesita entre correr a comer laranjas junto a um regato, e ficar ali a escoar as camionetas de carreira para Vila Nova de Poiares.
Estava eu nisto, olhando estupefacto e constrangido para uma das laranjeiras, num turbilhão de emoções, quando me apareceu o seguinte dilema que mais me atrasou o destino: de que natureza é o acto de apanhar laranjas numa avenida? E se deitar agora a mão a uma laranja, será que não quebrarei o equilíbrio cósmico e que toda a avenida não começará a girar em espiral, sumindo-se num ralo, com toda a gente a fazer esgares de horror como no quadro do Munch?
É preciso que se saiba também que nessa mesma tarde tinha estado a olhar para o tecto da sala de atendimento da nossa câmara municipal, tentando descobrir se aquilo era ou não uma pintura em tromp d’oeil. Foi um dia inesquecível.