30/06/07

Hey Joe, por Cão

Eu, o senhor Berardo e a Arte Moderna parecemos ter uma evidentíssima coisa em comum: nenhum dos três percebe nada dos outros dois.

Isto é mesmo assim e não tem mal nenhum. Já com a vida acontece, a nós três e a toda a gente, a mesmíssima coisa: ela não percebe nada de nós e nós não percebemos nada da vida. Vem a morte e resolve tudo: a vida, a Arte Moderna, o senhor Berardo et moi.

Tenho um amigo que é artista moderno e me conhece, do que lhe resulta ser pobre, ao contrário do senhor Berardo.

Tenho uma vida que é uma riqueza, já que, como o senhor Berardo, sou conhecido por artistas (embora só dos modernos).

Já o senhor Berardo, entre milhentas outras coisas, há-de ter pela Arte Moderna o mesmo que tem pelo Rui Costa: algo a que se deve tirar o número, pôr à venda ou arrecadar.

Tudo isto, assim mal posto, deriva, naturalmente, da minha estupidez artística e da minha córnea desconfiança quanto a madeirenses que já tenham ido à África do Sul, agravando-se a desconfiança, por córnea, até a madeirenses que nunca lá foram mas fizeram da Madeira outra África do Sul.

Já o senhor Berardo (que, cada vez que tenta falar, demonstra ser um cidadão de todo o mundo menos daqui) nem deveria para aqui ser chamado. Quem, aliás, o chamou, deveria, no mínimo ser obrigado a comprar uma reprodução do quadro do menino-que-chora.

Termino com uma tripla seta que nem é seta mas é tripla: eu, o Benfica e o senhor Berardo. Dois de nós três gostamos muito um do outro. E nenhum dos dois é o senhor Berardo.

29/06/07

Amanhã Falamos, por Jovem

- Já não me amas…
- Pára com isso, claro que te amo.
- Já não me amas como dantes.
- Mas o que é se passa contigo? Outra vez drama? Porra…
- Estás a ver? Já não tens paciência para mim. Nunca mais conversámos, não olhas para mim, nunca mais me tocaste…
- O que é que queres dizer com isso? Então não te toco todos os dias?! Acabámos de fazer amor!!! Se isso não é tocar vou ali e já venho…
- Já não fazemos amor, Joaquim.
- Essa agora, lá estás tu com as paranóias… Mas já estás na menopausa ou quê? Foda-se, já começo a ficar farto destas cenas de faca e alguidar! Nhãnhãnhã, nhãnhãnhã… que raio de merda! Mas afinal o que é que tu queres?!
- Quero ser amada, Joaquim.
- E isso quer dizer o quê, exactamente? Gosto de ti, és minha mulher, faço-te as vontades, temos sexo duas ou três vezes por semana, às vezes mais, se te apetecer mais é só dizer, estou aqui, não me fui embora, farto-me de trabalhar, o que é que tu queres mais?
- Já te disse, quero que olhes para mim.
- Só faltava mais essa, andas é a ver novelas a mais. Amor, amor… O que é isso do amor? Se uma pessoa gosta da outra e está com ela e a respeita, é amor, ou não é?
- Isso também pode ser amor por um cão. Não percebes nada…
- Ái o caralho… Agora sou burro, não é? Uma besta insensível que não percebe nada! Um animal… Se não gostas come menos…
- Farta de comer menos estou eu, Joaquim…
- Já estou é a ficar farto desta conversa da treta, farto-me de fazer sacrifícios, não tenho amantes, e não é por falta de oportunidades… E o que ganho em troca é isto, moerem-me o juízo com estas merdas dos sentimentos e dos amores… Tens que ser mais forte Isabel, a vida não é assim como tu pensas, isso são tretas dos filmes… tu sabes que eu gosto de ti.
- Tu não eras assim. A vida não tem de ser assim.
- Olha, pois não, faz como quiseres, eu por mim vou para o sofá ver televisão. Já me tiraste o sono, merda para isto.
- Joaquim, espera, precisamos de falar, tu não percebes…
Uma escuridão de silêncio angustiante abateu-se sobre a cama e Isabel apertou mais o lençol contra o peito, amarfanhando-o entre os dedos e reprimindo o choro. Joaquim foi ao frigorífico e instalou-se no sofá. Quando o som da televisão chegou ao quarto Isabel não conseguiu conter mais as lágrimas. Sentia-se só, terrivelmente só, condenada à solidão e a uma existência mecânica sem direito a felicidade, aprisionada num quotidiano gelado. A sua mente contorcia-se entre o que poderia ter sido, o que foi, o que não é, o que não será, o que tem de ser. Acabou por adormecer na almofada encharcada em lágrimas. Na sala, Joaquim olhava sem ver para o écran da TV e engolia a raiva, debalde tentava acalmar a fúria de não conseguir amar para fora, a frustração da sua própria incapacidade de exprimir afecto. Isabel tinha razão mas algo maior do que ele reprimia o gesto sentimental e a doçura. Foi à varanda do sétimo andar e acendeu um cigarro. Nem conseguia chorar. Já não tinha lágrimas. Tentou ir até ao quarto, pedir desculpa à mulher, imaginou-se a acender a luz e a dizer-lhe que ele era de facto uma besta, que ela tinha razão e merecia mais e melhor, beijinhos, abraços e toda a ternura do mundo, que lhe traíra as expectativas, que a amava mas que já não sabia como, que não a queria perder e que ia mudar, que compreendia perfeitamente a questão do toque, que a compreendia, sobretudo que a amava ainda, muito, que precisava de ajuda para voltar a amar como dantes, a dizer “amo-te” espontaneamente como dantes, que foi a puta da vida que o tornou frio e distante, que voltaria a dar-lhe carinho e flores, muitas flores, como dantes. As pernas, no entanto, não se mexeram. Amanhã. Pensou. Amanhã digo-lhe.

Viva a Fnac, por Super Hiper

Aqui há uns tempos atrás escrevi o post que agora republico. É só para dizer que, finalmente, encontrei um sítio, a Fnac, onde, de vez em quando, encontro as minhas histórias preferidas do Super Homem. A Dc Comics editou a colecção Show Case e elas lá estão, as minhas histórias velhinhas do Super...

O post era este:
Porque é que é tão difícil arranjar as minhas histórias preferidas do Super Man?, por J. Olsen

O Super Man é o meu personagem de BD favorito. Sim eu sei que o Umberto Eco o considerou reaccionário em O Super Homem das Massas. Mas nas entrelinhas do seu ensaio há toda uma erudição que só está ao alcance do apreciador. Ninguém pode saber da saga das «imaginary tales», nem de Brainiac nem da Fortaleza da Solidão com tanto pormenor só por mera obrigação de investigador. Eco nunca me enganou: ele passou, como eu, a infância a ler as fantásticas histórias do Homem de Aço. E gostou… Seguro!

O problema é que não há um único, mas vários Super Homens: há o inicial de 39 aos anos 40 da autoria dos criadores originais, Joe Shuster e Joe Siegel, os mesmos que ficaram despojados dos fabulosos direitos de autor que a série gerou para a Dectetive Comics. Estas primeiras histórias têm um excesso de ingenuidade e uma quase total ausência de argumento, mas já aqui estão as intuições básicas e as linhas de força da personagem que hão-de perdurar.

Nos finais dos anos 40 já aparecem as primeiras histórias do genial Wayne Boring que abre para nomes de referência como Otto Binder, Al Plastino ou Bill Finger nos anos 50 e 60 e Curt Swan nos 60 e 70. Esta é a fase áurea da série. Super Man é aqui o que deve ser: um Deus Todo Poderoso que está acima do comum dos mortais, mas ao mesmo tempo, um espírito puro com a naividade em bruto que é própria de uma criança. Este é o Super Homem que eu prefiro, aquele que me alimentou os sonhos de infância e que me fez vibrar de emoção em tardes e tardes esquecido no sofá da casa dos meus pais.

Os anos 70 são o princípio da decadência, pelo menos do meu ponto de vista. Jack Kirby, argumentista e desenhador de Thor ou de Hulk, entre outros, é o primeiro indício da degenerescência. Kirby é de outra escola, mais ligado à Marvel Comics que à DC Comics, a editora do Homem de Aço. È conhecida a diferença de princípios filosóficos que separa as duas escolas: a Marvel vem revolucionar os Comics «humanizando-os», isto é, criando super heróis com fraquezas humanas, atarantados e amargos e tantas vezes frustrados como todos nós. Stan Lee é o grande arauto desta revolução corporizada, sobretudo, por Spider Man, um Super Deprimido vergado ao peso da sua enorme responsabilidade. Os Fantastic Four, mutantes angustiados com o desgraçado Coisa no limite e o Hulk esquizofrénico também fazem parte desta nova geração de super-infra-heróis. Lee e a Marvel vão mesmo ao ponto de conceber um super-herói cego, o Demolidor, que sempre me fez uma confusão do caraças… A Marvel impôs-se nos anos 70 e seguintes – a sua filosofia estava mais de acordo com a geração contestária que fez o Maio de 68 e a Contra-Cultura. Super man, subitamente, foi considerado arrumadinho, penteadinho e demasiado politicamente correcto, para não dizer, como Eco, reaccionário.

E que fez a DC? O pior, abdicou da sua personalidade e aderiu à moda dos heróis Marvel «humanizando» Super Man. Foi uma traição: a DC degradou-o, matou-o! A sequência das histórias do Super nos anos 80-90 é uma tristeza para um fã do período áureo. Fazem-lhe tudo na ânsia de o «humanizarem»: despenteiam-no, deixam-lhe crescer o cabelo, casam-no e fazem-no bom chefe de família (há uma história deste período em que o Super desaparece sem deixar rasto para casar com Lois Lane, fugindo da cruz da sua Superioridade como o Cristo dos Evangelhos Apócrifos filmado por Scorsese). O aviltamento se Super Man chegou, nos anos 90, ao limiar mínimo mas, ao mesmo tempo, inevitável: numa jogada comercial a DC decide matar realmente o Super Homem. O acontecimento é anunciado nos joranis da altura com semanas de antecedência e, finalmente, após uma luta titânica com um Super Vilão que não tem nem um décimo das classe malvada dos super vilões dos anos 50 o Super Homem é morto! Doomsday, é a este Zé Ninguém monstruoso que a DC atribuiu a honra de matar Super Homem. A história é banal, uma salganhada tipo Manga de baixa qualidade em que dois desgraçados – Doomsday e o Pseuso-Super-Man - passam o tempo a destruir-se e a destruir tudo à volta. A edição é histórica, mas, para mim, pelas piores razões. Foi nisto que deu a despersonalização da DC: de tanto querer humanizar o Deus, acabou por ter de o matar (para o ressuscitar depois sem história nem glória).

Já se está a ver que eu sou um nostálgico do Super da minha infância para quem tudo, mas tudo mesmo, era possível: desde voar à velocidade da luz, saltar de galáxia em galáxia, ver o que se passa nos antípodas com a visão raios X até, quando tudo falha, andar para trás no tempo e alterar o rumo dos acontecimentos. É esse Super que eu procuro, mas que nunca encontro. A sério. Literalmente. Corro todas as lojas de BD do país e nunca as encontro, as histórias do W. Boring, do C. Swan ou do O. Binder… E quando as localizo, como aqui na net, custam 100 e 80 euros a edição! As edições importadas dos States, então, são vendidas a peso de ouro. Em Bruxelas, numa loja que anunciava em orgulhosas letras garrafais no meio do império da BD francófona «Oui! Nous avons dês Comics», encontrei de tudo, todos os Superes em todas as fases, mas não encontrei a fase do Super Man que procurava… O pouco que havia – os early years - custava 80 e tal euros!Fico, ao menos, com a consolação de haver mais lunáticos nostálgicos como eu por esse mundo fora que fazem os exemplares rarearem e o preço da série disparar. Portanto já sabem: se tiverem aí esquecidas nos recantos do vosso sótão umas revistinhas daquele Super Man que eu procuro, mandem um comment aqui para o Porco. Garanto-vos que fazem um puto feliz: aquele que ainda vive dentro de mim e que as histórias do verdadeiro Super Man têm o poder de ressuscitar.

26/06/07

Directamente da Capelinha das Aparições, por Jacinto

E lá estivemos ontem na Casa de Banho de Alvalade a venerar os Rolling Stones. Convém dizer que me considero um Peregrino Stoniano já com algum curriculo na matéria. Com esta, tenho cinco peregrinações efectivas, fora uma vez que me desloquei expressamente de Mojacar para Benidorm, cerca de 600 km pra trás e prá frente, estava eu a passar férias no país vizinho, para chegar a Benidorm e anunciarem que o Jagger estava afónico. Paciência: fui ver a praia.


Vi-os pela primeira vez ao vivo nos anos 90 quando vieram a Alvalade pela primeira vez, na Urban Jungle Tour. Lembro-me que na altura o país parou e dizia-se que era a última oportunidade de os ver ao vivo. Não foi. O Bill Wyman ainda fazia parte da banda e o concerto foi fantástico!


Depois voltei a Alvalade quando eles cá viram pela segunda vez. Vi-os das bancadas e jurei que nunca mais via nenhum concerto das bancadas. Não gostei do concerto, mas a culpa foi minha, que fui para o estádio ver televisão. No entanto, ainda me recordo de uma versão fabulosa de Heartbreacker, um daqueles fundos de catálogo, como eu gosto.


À terceira fui a Santiago de Compostela. A Babylon Tour não passava por Portugal, eu não tinha bilhetes mas meti-me ao caminho e arranjei-os na candonga. Valeu a pena. Valeu muito a pena. Foi inesquecível a abertura com JJ Flash.


A quarta foi a melhor de todas. Foi em 2003 quando eles vieram tocar aqui ao meu quintal, a Coimbra, num espectáculo único integrado na Licks Tour. Nunca me esquecerei dos acordes de Brown Sugar e do Mangas completamente lívido, parecia o Irmão Jacinto no dia em que Nossa senhora lhe apareceu num azinheira, a dizer-me a propósito do Jagger: «é um animal, mene»… Nunca vi um concerto tão bom; pelos meios envolvidos, pela qualidade técnica, pela alinhamento de luxo e, sobretudo, pela garra dos gajos. Eles deram o litro no concerto de Coimbra e eu nunca tinha visto nada assim. Na altura o Porco esteve lá em peso e todos juraram que nunca haveriam de perder o próximo show da banda, fosse lá onde fosse. Até houve quem falasse em arrancar no dia seguinte para Valladolid onde eles tocariam dois dias depois…


E a quinta foi ontem, na Casa de Banho. Um aparte só para dizer que o único sítio de Alvalade que não se parece com um wc é o póprio wc. Mas adiante.


Entrei, eu e os meus amigos, às 17 30 para arranjar lugar junto à grade da frente. Conseguimos. Vi o Jagger a um metro e quase que apanhava a baqueta do Charlie quando ele a atirou para o público. Mas percebi, desde logo, que este espectáculo não contava com os mesmos meios dos anteriores. A digressão anterior foi a mais lucrativa de toda a história da música (aliás, a última digressão deles é sempre a mais lucrativa). Mas os gajos devem estar mal de finanças , ó o carago, porque resolveram reduzir os custos. Este palco não tem nada a ver com os anteriores, é muito mais pequeno e minimalista. Os efeitos especiais reduziram imenso (onde estão os incríveis efeitos pirotécnicos da Licks Tour?) e quanto à qualidade do som, já lá vamos.


O alinhamento, cito de memória, foi o seguinte:
Start me up, you got me rockin e Rough Justice (a única do ultimo álbum em todo o concerto). Esta foi a fase de aquecimento. O som estava péssimo. Senti-o logo, mas ouvi os primeiros acordes de Start Me Up…


Depois veio a melhor fase do concerto, uma escolha criteriosa em que a matriz Funky/Soul esteve presente. Assim a modos que um novo Mocambo Side, como eles fizeram em Love you Live, mas agora num registo mais Soul, como disse. O alinhamento desta parte foi:
Bitch, She`s so Cold, Can`t you Hear me Knocking (quanto a mim o melhor momento da noite), um clássico do James Brown e uma balada, uma surpresa, No Expectations (de Beggars Banquet) que contou com um dueto entre Jagger e a fadista Ana Moura. Fecharam esta parte do show com Tumbling Dice, o primeiro dos clássicos. Os Stones atingiram nesta fase momentos de grande brilhantismo e o concerto valeu por esta parte. O som estava melhor (ainda que mauzinho).


Depois veio o Keith com as duas músicas habituais para o Jagger descansar. Desta vez foram You Got the Silver (mais uma preciosidade de Let it Bleed que eu não esperava ouvir) e I Wanna Hold You. Para mim a noite estava ganha, o som melhorara e ainda fui às cordas quando ouvi os primeiros acordes de It`s only Rock`n´Roll. A partir daqui…


Enquanto tocavam It´s only R`n`r o palco começou a deslizar até se imobilizar no fundo do corredor, a meio do estádio. Era a parte obrigatória do Stage B. É muito lindo para quem está lá no meio, mas para quem fica mesmo na fila da frente, como foi o meu caso, é lixado, porque um gajo, pura e simplesmente, não vê nada. No B stage ainda tocaram It`s All Over Now (outra surpresa), Satisfaction (quer dizer, eu não sei se tocaram porque não ouvi nada com toda a malta, eu incluído, aos berros e aos saltos) e Honky Tonk Women.
Resta assinalar que eles já não passam pelo estrado a correr como sempre fizeram; agora é o próprio palco quem se move, enquanto eles vão tocando. É esquisito. Dá assim uma sensação, como dizer, de vidente, olhar para o lado e ver o Ron e o Mick a passarem-nos a um metro da cabeça, lá no alto, sei lá…


Não sei o que aconteceu entretanto, porque o som voltou a piorar. Estava definitivamente estragado. Voltaram ao palco principal com Simpathy for the Devil, Paint it Black, Jumpin Jack Flash e, no encore, Brown Sugar. E prontos.
Esta parte do espectáculo foi inconcebível numa banda tão profissional como os Stones. Tive que fazer um esforço para perceber que estava a ouvir os acordes da minha música preferida, Jumpin Jack Flash, imagine-se… E ouvi depois gente que viu o espectáculo das bancadas e nem se apercebeu que Ana Moura tinha cantado em Português. Nem eu. É uma pena que os Stones tenham desinvestido na produção do espectáculo. Os palcos das digressões anteriores foram concebidos por Jeff Koons (Liks Tour) e por Franck Ghery (Steel Weels), sim o mesmo do Gugenheim, e agora isto? E o som, meu Deus, eu sou daqueles que vai lá pela música e pela energia, até podia dispensar este ou aquele efeito desde que a qualidade musical se mantivesse, e fazem-me uma coisa destas?


O que vale é que o mito anda sozinho. Os Stones atingiram um estatuto tal, que basta-lhes pisarem o palco para a malta se atirar ao chão. E até admito que, para um iniciado, o espectáculo de ontem tenha sido fabuloso. Eu próprio, um dinossauro na matéria, reconheço-lhe momentos brilhantes que valeram a noite. Mas comparando com as digressões anteriores, principalmente com a de Coimbra, não há dúvida que o concerto de ontem deixou um certo travo amargo. E onde andaram you can´t always get what you want, Angie, Don`t stop, Gimme shelter, Street Fightin Man, Miss you ou Like a Rolling Stone, que tocaram na Lusa Atenas? Seja como for, eu saí do concerto de ontem, e ainda me lembrava da cara alucinada do mangas no concerto de Coimbra. Brown Sugar/How Can you taste so good..

Airport Planning, por automotora


O nosso blog é o único blog português do mundo que ainda não disse onde devia ficar o novo aeroporto! Sempre, sempre, esta mania de ser diferente e excêntrico… Mas agora chega! Eu, que no fundo sempre quis ser um rapaz normal, e estou farto que me gozem na rua, queria aqui dar o meu parecer sobre a localização do novo aeroporto! Primeiro é preciso esclarecer os nossos leitores estrangeiros (depois podem os dois ir embora que neste blog só se volta a falar da Cicciolina daqui a dois anos) que a relação dos portugueses com as coisas da aviação já vem de longe. Fomos até nós que inventámos o Plane Spotting, que na altura ainda se chamava Ir Ver Os Aviões À Portela. Iamos para aquele terraço do aeroporto ver os aviões aterrar, acompanhados pela família e um saco de amendoins, e passava-se um tempito bem catita e instrutivo. O sonho de qualquer português era um dia ver uma gaivota a ser chupada por um reactor de um boeing. Alguns só deram pelo 25 de Abril quando viram aterrar três aeroflots no espaço de quatro dias. - Maria, olha ali, depressa, já é o terceiro aeroflote que vejo esta semana!…hhhmmm, estaremos nós na época das revoluções abrilinas?... E então agora, desde que percebemos que não são os aviões que fazem os seus próprios ninhos, dedicamo-nos com entusiasmo ao Aeroport Planning. Qualquer português é especialista furioso em técnicas de localização aeroportuária. - Ó Adérito, tu andas murcho, que se passa contigo? - Maria Amélia, não é nada, tenho andado cá a pensar numa coisa… - Que é, Adérito? – Olha, passa-se que os custos das infra-estruturas aeroportuárias tendem a reflectir-se nos custos operacionais das viagens aéreas, pelo que estou em crer que a Ota não será muito favorável ao desenvolvimento dos low costs em Portugal... - Que estás para aí a dizer, Ó Adérito?! O vinho ainda vai ser a tua desgraça, homem! Os benefícios da Ota compensarão largamente as desvantagens, por causa das infra-estruturas de transporte rodo/ferroviário e da frequência do vento nos flops traseiros nos novos modelos da MacDonnel Douglas com motor Rolls Royce! Rais ta partam, que ta racho os cornos, cabrão! Alcochete era o que tu querias, meu filho da puuuuta!
Ora, eu também tenho um estudo para a localização do novo aeroporto: Porta-Aviões! Que tal? Vêm aí duzentos japoneses? Desloca-se o Porta- Aviões para a doca em frente à fábrica dos pastéis de belém. Vêm aí trezentos alemães com sede? Fundeia-se o aeroporto em frente à esplanada de uma qualquer cervejaria na costa, hoje esta, amanhã aquela, para as gorjetas ficarem bem distribuídas. Vêm aí duzentos adeptos ingleses do Liverpool? Óóóóó, que pena, uma rabanada de vento levou o aeroporto para o meio do oceano. Estão a chegar trinta e cinco uzbeques para visitar Castelo Branco? Porquê? Bom, não interessa. Nesse caso sobe o aeroporto um bocadinho o Tejo, até Vila Velha de Rodão, e depois faz-se o transbordo para as camionetas de carreira em direcção à gloriosa urbe albicastrense. E assim por diante. Porta-Aviões, portanto. E tu, porco, diz também o que pensas sobre a localização do novo aeroporto! faz Airport Planning! Há mais vida para além do sexo!

25/06/07

Jumpin Jack Flash it`s a Gas, Gas, Gas, por Museu

No dia 27 de Setembro de 2003, os fabulosos Rolling Stones vieram tocar ao Estádio Municipal de Coimbra. Aqui do Porco não faltou nem um de nós. Éramos, então, uns anos mais novos e eles já eram velhos.

Hoje, 25 de Junho de 2007, eles voltam a Portugal, para um concerto no Estádio de Alvalade. Nós estamos mais velhos, mas eles parecem-me, agora, mais novos que nós. Hoje, sou o único do Porco, que vai lá estar. Felizmente não vou sozinho. Não convenci nenhum cota daqui, mas vão comigo três amigalhaços que acabam de ver a Luz: um amigo de 16, outro de 17 e outro de 19 anos. Rock`n`roll ain´t never die (esta era do Neil Young, mas vem a propósito)...

24/06/07

A obra de arte mais antiga do mundo


Um mamute com 3,7 cm, 7,5 gramas e 35 000 anos, encontrado o ano passado na gruta de Vogelherdhöhle, na Alemanha.

fonte: El País

21/06/07

Grandes Vilões - I, por Mangas

Camaleões e Os Que Mordem Pela Calada

Uncle Charlie, “O Viúva Negra”, de A Mentira (Hitchcock, 1943). A par de Norman Bates de Pshyco, este é para mim um dos mais perturbadores facínoras criados por Hitchcock. Joseph Cotten compõe uma exemplar figura paternal, o irmão querido, o cunhado respeitado, o tio amado quase de forma proibitiva pela sobrinha adolescente (o Mestre, como sempre, aposta num hábil e discreto jogo de duplos sentidos amor/paixão, admiração/devoção). Contudo, este cavalheiro elegante e perfumado que nunca se deixou fotografar, sedutor, suave, saudável e sem mácula, move-se na sombra, não é o santo que se pinta e tem no currículo meia dúzia de cadáveres - mulheres que seduziu pelo dinheiro e estrangulou pelo desprezo por serem “animais gordos e ofegantes”. Quando é descoberto, tentará também suprimir a adorada sobrinha como um obstáculo que se lhe interpôs em cogitações. A Mentira é dos mais negros filmes de Hitchcock e Uncle Charlie um produto sombrio e letal do que mais retorcido pode ganhar raízes na mente humana.

Tom Ripley, de O Talentoso Mr. Ripley (Anthony Minghella, 1999) e O Jogo de Ripley (Liliana Cavani, 2002). O personagem que Patrícia Highsmith criou quase poderia ser, pelo estilo, a alma gémea de Hannibal, não fosse nunca se ter deixado apanhar e ter apetites, embora requintados também, mais comedidos, ainda assim... Ripley mata para se apropriar e ascender; tem um talento inato para suprimir vidas e se apropriar de identidades. Foi assim que começou quando jovem em Itália e continuou na idade adulta em França – do casulo eclodiu a larva que se transformou na mariposa sociopata. No processo, refinou o cinismo e o desprezo por qualquer seu semelhante, treinou a manipulação e a mentira sórdida, desenvolveu o charme mortífero e aprendeu com destreza a manobrar uma faca - em fases diferentes de evolução, quer Matt Damon, quer John Malkovich fazem óptimos papéis. Ripley é perigoso e tem classe. Tanto mais perigoso por nada o aparentar e ser um solitário. Move-se com a destreza de um verme, ataca fulminante pela calada. Ripley bebe Chateau Lafite e sonatas de piano na salão dos Rembrants, é um improvisador nato suprimido de consciência e sempre acreditou que “mais vale ser um alguém falso do que um ninguém verdadeiro”.

Roger "Verbal" Kint, aka Keyser Soze, aka “The Devil”, de Os Suspeitos do Costume (Bryan Singer, 1995). Um pequeno orçamento, uma grande história que valeu o Óscar de melhor argumento, um feliz cast de actores onde até as jovens trutas à época - Stephen Baldwin, Benicio del Toro e Chazz Palminteri -, conseguem brilhar ao lado das feras consagradas - Gabriel Byrne e Kevin Spacey que também levou a estatueta para casa. Resultado: Os Suspeitos do Costume, (título de homenagem a Casablanca), depressa atingiu o estatuto de cult-movie e se transformou numa referência absoluta do género crime-drama. A interpretação de Spacey é soberba. O ladrãozeco que interpreta é o mais inofensivo, frágil e inconsequente de todos eles. Aparentemente. Porque essa é a sua máscara. Durante todo o filme! Só no final se revelará como Keyser Soze, o autor do massacre e do incêndio no porto, da eliminação sistemática e impiedosa de todos os outros “parceiros suspeitos”. Mas quem é Keyser Soze? O próprio “Verbal” Klint assim o explica ao detective Kujan: nasceu na Turquia, começou como um pequeno traficante de droga até ao dia em que um gang rival húngaro lhe invadiu o território e violou a mulher à frente dos filhos. Soze, em resposta, matou toda a sua família por piedade e todos os autores da façanha com excepção de um que poupou para ir contar ao resto da quadrilha. Em seguida, atacou forte e feio no que sobrava dos húngaros matando-lhes os amigos, as famílias, os filhos, pais e amantes, incendiou-lhes as casas e os bens e desapareceu para sempre. Nascia o mito. Nunca vemos os olhos de Keyser Soze, apenas o rosto cândido de “Verbal” Klint; nunca vemos a expressão calculista de Soze quando executa os disparos a sangue-frio na nuca de Marquez, apenas a evidência do manquejar insuspeitável de “Verbal” Klint; nunca suspeitamos do planeamento frio de todas as mortes, apenas que “Verbal” Klint era demasiado estúpido para ser incluído, nunca constituiu ameaça e, como tal, foi poupado. No final o que vemos é “Verbal” Klint a sair da esquadra e a parar no passeio, a esticar o joelho “estropiado”, a andar desengonçado e a entrar num Jaguar conduzido por Kobayachi. Enganou-os a todos! Enganou-nos a todos o tempo inteiro! “O maior truque que o Diabo congeminou, foi convencer o mundo que ele não existia”, dissera-o ele antes.

Os Maus Como as Cobras

Tony Montana, “Mr. Fuck”, de Scarface (Brian De Palma, 1983). De exilado político a Padrinho da Costa Este. Ou, de criminoso de pacotilha que Castro expurgou para o porto de Mariel como uma ferida purulenta, a Inimigo Público Nº 1! Montana fez de tudo: espetou a naifa em comunistas, vendeu hamburgers na rua, limpou a sebo a traficantes chicanos, negociou com o cartel colombiano, roubou a namorada ao patrão (Pfeiffer, Michelle ma belle!), mergulhou Miami num tornado de cocaína, cresceu e construiu em torno de si um império de crime e tráfico, alimentou o ego com uma paranóia assassina e as narinas com auto-estradas de coca e, por suspeição, nem o melhor amigo e marido da irmã lhe escapou à metralha. Scarface é um remake menor da obra-prima homónima de Hawks de 1932 – para muitos o primeiro gangster-movie da história e inspirado na vida de Al Capone. Goste-se ou deteste-se da versão de Brian de Palma, cabe-lhe entre outros méritos o de ser um dos filmes com mais “fuck!” de todos os tempos – 218! Para a história fica: “I'm Tony Montana! You fuck with me, you fuckin' with the best!”

Frank Booth, “O Animal”, de Blue Velvet (David Lynch, 1996). Antes de tudo o resto, Blue Velvet é filme muito, muito bem feito! Fico-me apenas por um singelo pormenor, porque não é sobre a obra em si este texto: David Lynch tem arte e engenho para mudar quatro vezes seguidas de trilha sonora nos primeiros quatro minutos e meio de filme! E resulta sempre bem. Em cada dessas inflexões consegue uma harmonia perfeita entre os sons e as imagens que funcionam como unidades que se complementam, como sintonias de ambientes que o espectador contempla, cenários e melodias que descrevem a superfície visível e antecipam o mergulho nas trevas. Começa com os inquietantes violinos a lembrar os genéricos dos films-noirs dos anos quarenta, muda para a voz macia como algodão de Bobby Vinton no clássico que dá título ao filme e que serve para ilustrar as cenas do quotidiano pacífico numa pequena cidade do noroeste americano – o slow-motion do carro de bombeiros, as rosas vermelhas contra o céu azul, os miúdos na passadeira a caminho da escola, um velho a regar a relva, e, com o ataque cardíaco deste reformado, a câmara recua à dimensão de uma orelha decapitada, baixos e contrabaixos impõem-se de forma angustiante aos amplificados ruídos dos escaravelhos que a devoram, e tudo termina com uma grande cartaz da cidade madeireira e o jingle da rádio local, a voz de Lumberton. Notável! Quanto a Frank Booth, bem, esse é um cabrão tortuoso, arrevesado e maligno do piorio que o cinema nos deu! O papel assenta como uma bota a Dennis Hopper, na altura ele próprio em derrapagem acentuada com o uísque e as drogas. Mas Frank, quando mete uns bourbons para dentro e inspira o óxido nítrico da máscara portátil, toca as fronteiras da insanidade, alucina como um cão raivoso, descarrega uma fantasia sexual mista de bondage&incesto sobre a pobre Isabella Rossellini a quem chama carinhosamente “mummy” com a cabeça encostada ao colo antes de lhe pontapear os queixos…! O filho e o marido “à Van Goh”, tem-nos como reféns. E se tal não bastasse para completar o perfil desta besta tresloucada, como imagens de marca ficam-lhe as lágrimas convulsivas quando na penumbra do bar ouve a sublime Isabella cantar o Blue Velvet com aquela voz enfeitiçada e hipnótica; e o anuncio sonoro antes de mais uma incursão na noite underground que alimenta luz e a alma do filme: "I FUCK ANYTHING THAT MOVES!!" Está tudo dito. O cinema sem Frank Booth era como uma tourada sem ferros.

Homens-Cicciolinas, por Tarado do Seixal

No post da Patty mesmo aqui em baixo (Orgasmos: Um para Ti, Um para Mim, ( Parte I), by Patty Labelle) uma nossa leitora que assina Pipi saiu-se com esta:

«Está provado q o homem n consegue falar de sexo- questionar- com medo q isso ponha em causa a sua virilidade...
0 q dá para perceber e comprovar, pelos comentários q passam por aqui... afinal, vocês têm medo do quê?»

Temos medo de quê, malta?
Eu acho que a Pipi toca num ponto sensível. É verdade que nós, os homens, não falamos habitualmente de sexo a não ser para javardar. Então de que é que falamos quando estamos juntos?

De futebol. De gajas. De golfe. De gajas. Uns dos outros. De gajas. De política. E, sobretudo, de gajas! Pois é, falamos de gajas. Mas isso significa: não saímos do nível da brejeirice, tipicamente masculina. É o estilo de conversa «aquela gaja é munta boa», e «aquela tamém é boa komó milho» e «ai meu deus, agarrem-me» e «fazia-me um galifão» e por aí adiante. Doutores ou engenheiros, até mesmo arquitectos, quando se trata de falar de gajas, transformamo-nos todos no pedreiro das obras a amandar bocarras foleiras às garinas. Nem que seja baixinho… E como passamos a vida a falar de gajas com uns intervalos pá bola pelo meio, somos todos uns pedreiros do caraças.
Ou seja, a Pipi tem razão, tem toda a razão. Nós nunca falamos seriamente e, muito menos sinceramente, de sexo. Só de gajas. Há uma diferença abismal. E se o tema ameaça passar para registo sério, o mais certo, entre nós, é haver logo um que os tem no sítio que trata de arrumar o assunto com uma boca boçal. Isto é verdade, como todos os homens sabem.

As mulheres, pelo contrário, discutem o tema abertamente. É verdade, a Pipi tem razão, este blog é uma prova disso mesmo. Um dos assuntos que mais tratamos aqui é, calro, gajas. Mas reparem nos comments, passem os olhos pelos posts do tapor dos últimos anos, acabam todos na javardeira ( e não, não é verdade, nem todos os temas acabam aqui na javardeira). Mas porque é que, afinal, não conseguimos falar de sexo?

Será porque, como diz a Pipi, temos medo de pôr em causa a nossa preciosa virilidade? A tese é psicanalítica. É como se a palavra que nomeia o acto fosse mais perigosa que o próprio acto. É engraçada essa relação entre sexo falado/praticado e essa reclamada incapacidade do macho em lidar com o sexo, enquanto sistema verbal. Na Psicanálise o trauma é tratado quando é nomeado, trazido à superfície pela palavra. Ao conseguir nomear e falar do trauma, o paciente dá um passo decisivo para a cura. Tratar é falar. E, nesse sentido, o diagnóstico da Pipi, é pertinente. Se um sujeito não lida naturalmente com a verbalização de alguma coisa, isso pode muito bem indicar a presença do trauma. Seremos, todos os homens, como a Cicciolina que confessava ontem, quando foi entrevistada por uma rádio nacional «que não gosta de falar de sexo»? Temos que marcar um jantar para discutir o problema...

18/06/07

Ofensas e filhos da puta no país do respeitinho

Sem comentários, seguem três citações:

1.

«Lopo Fernandes meio Christão novo de 37 anos, Mercador de Sedas da Cidade de Viseu, casado com Isabel Sanches: por judaismo, & dizer certas palavras indecentes contra a reverencia que se deve ao nome de Christo nosso Senhor: foy com mordaça, & foy degredado por tres annos para a Villa de Ourique.»

Relaçam, e lista verdadeyra das pessoas que sairam no Auto de Fè que se celebrou na praça da Cidade de Coimbra em Domingo 4 de Mayo de 1625 annos

2.

«Nos termos da Base XIII da lei nº 5 / 71 e do corpo do nº 1 do artigo 14º do Decreto-Lei nº 150 / 72, não é permitida a publicação dos escritos que integrem crimes punidos na lei penal, nomeadamente os que:

(…) f) Constituam ofensas ou injúrias ao Chefe de Estado, membros do Governo, deputados, magistrados, outras autoridades e seus agentes, tribunais e outras corporações públicas e órgãos do Estado (Código Penal, arts. 166º; 181º e 182º»

Circular com instruções sobre o exame prévio, datada de 1 de Junho de 1972


3.

---------6. Todos os que se encontravam presentes no local, o Dr. Rolando Silva e o Eng. Rogério Correia no interior do gabinete de assessoria da Direcção e o Dr. António Basílio, no seu exterior, perceberam, em face do contexto em que a conversa se vinha desenrolando, que o arguido apelidou, com um sentido depreciativo e injurioso, o Primeiro-Ministro, Eng. José Sócrates, de “filho da puta”,

----------7. Com o comportamento atrás enunciado (…), livre e conscientemente assumido pelo arguido, demonstrou o mesmo, grave desinteresse pelo cumprimento dos deveres gerais de lealdade e correcção, previstos respectivamente nas alíneas d) e f) do nº 4 e núimeros 8. 10., todos do art. 3º do Estatuto Disciplinar, traduzindo essa sua conduta, infracção disciplinar prevista e punida pelo nº 1 do artº 24º do Estatuto Disciplinar, com a pena de suspensão.

Excerto do processo disciplinar movido a Fernando Charrua

15/06/07

Orgasmos: Um para Ti, Um para Mim, ( Parte I), by Patty Labelle

Orgasmo… Orgasmo… Orgasmo…
Já me vim! Não. Sentir um orgasmo, não passa por repetir, ainda que de forma insistente e desejada, o vocábulo que o Dicionário Universal da Língua Portuguesa define como sendo «um movimento impetuoso dos humores; clímax do acto sexual, que no homem, é acompanhado de sémen, e na mulher corresponde à excitação máxima durante a qual ocorrem contracções da vagina, a que se segue, em ambos os casos, o declínio da tensão».
Se fosse assim tão simples não tínhamos estatísticas desastrosas, quando junto da comunidade feminina a satisfação sexual anda muito aquém da dos machos.
Como em todos os problemas, importa apurar as verdadeiras causas deste flagelo.
A actuação do homem já não tem a eficácia de outros tempos. Dirão: “ Mas, a performance é a mesma. Só se for do stress?!.” Estão dispensados de dar justificações. De facto, vocês não contribuíram para o défice orgástico. E desta vez a responsabilidade está nas mãos da própria mulher.
Comecemos então, pela masturbação feminina: uma forma, muito apreciada, de obter prazer sexual, tocando nos órgãos genitais. Uma inesgotável fonte de prazer, (que muitas penetrações deixam a desejar), mas mais do que isso, através da masturbação a mulher dá a si própria a oportunidade de se conhecer, de se descobrir. Tocando, e obtendo prazer, ela determina o seu ponto G, que pode ser ou não, na vagina. Podendo, até ser mais do que um. Na verdade, através da estimulação a mulher torna-se mais segura numa relação sexual, porque sabe aonde quer chegar com o seu parceiro. Este verdadeiro auto-conhecimento-genital é flagrante para o homem. Porque já não tem diante de si, uma qualquer mulherzinha, que de perna aberta, com um apalpãozinho aqui e acolá, julga ter a bichinha afagada. Para o homem, a coisa até aqui despacha-se com um imponente grito: “ JÁ ME VIM!” Tradução: « já não tás aqui a fazer nada, vou virar-te as costas, e quando me ouvires ressonar, é porque tou a sonhar com o título do meu Benfica,e a beber umas bejecas, e a comer umas moelinhas».
Este deprimente egoísmo, suscitou na mulher o desejo de ser algo mais do que um simples depósito de sémen. Ultrapassado o estigma de uma Eva pecadora, hoje, longe de uma sombra autista, a gaja que é gaja, que se conhece, que quer mais e mais, pode gritar em silêncio o seu genuíno prazer.
A necessidade é a mãe da invenção, e posto isto, outras mãos se levantam, a outros objectos se recorre. O desafio do macho, do nosso século, passa por enfrentar os inimigos de frente. A disputa entre um pénis de carne e um pénis mecânico, não é fácil. A masturbação, também é uma forte concorrente. Mas deixo uma dica, para não desanimarem: o verdadeiro clítoris da mulher é cerebral.

Logo há mais, se quiserem, claro.

14/06/07

Blog respeitável procura colaboradores, por Adérito


Como nesta merda deste blog ninguém se dispõem a escrever há três dias porque são todos uns langões do camandro, a Gerência vem por este meio recrutar colaboradores escribas. Os interessados deverão enviar a sua candidatura para a caixa de comments deste post. No acto da mesma o candidato deverá apresentar o seu CV, preferência clubística, lista de livros, filmes e músicas da sua vida.
Só para candidatos do sexo feminino: deverão acompanhar o seu registo de candidatura com o envio de foto a corpo inteiro em lingerie e cinto de ligas.

Oferecemos: remuneração compatível com o cargo, oportunidade de trabalhar em equipa, ambiente naturalmente demencial, duas jantaradas por dia + almoço, cartão de crédito na Loja de Vinhos Manecas e o convívio único e oportunidade de convívio exclusivo com o Mangas e o Pilas, dois espécimes à parte.

Guardamos confidencialidade.

12/06/07

Hérnias e Cornos: causa e efeito, por Magistradíssimo

Ao longo dos tempos, a sociedade portuguesa, da mais simplex à mais finex, convive com a expressão “ cornos”. Quem é que nunca ouviu: tás aqui, tás a levar com um murro nos cornos!?
E quando a coisa vira problema conjugal… Lá temos os cornos à baila, uma vez mais.
“Olha, lá vai o cornudo!! Eh, Eh, a gaja pôs-lhe uns valentes cornos!!! Ó Zé vais pesado, não vais?”
Ora bem, a brincadeira chegou às mãos de um Digníssimo Magistrado, que ousou apreciar o fenómeno CORNOS, de uma forma sócio-fisiológica-humana.
Suspeitamos que noutra vida este Magistrado tenha dado nos cornos, ou levado.
Aqui fica o “ relato” :

“O Ministério Público deduziu acusação pela prática de crime de ameaças porque durante uma discussão, o arguido ameaçou o ofendido, dizendo que lhe dava um tiro nos cornos. Com tais palavras o visado sentiu intranquilidade pela sua integridade física.O Juiz (de julgamento) decidiu não receber a acusação porque inexiste crime de ameaças (...) simplesmente pelo facto de o ofendido não ter «cornos», face a que se trata de um ser humano. Quando muito, as palavras poderiam integrar crime de injúrias, mas não foi deduzida acusação particular pela prática de tal crime.
O Ministério Público recorreu da decisão, tendo o Tribunal da Relação de Lisboa acolhido o seu recurso, dando-lhe razão, remetendo-se o processo para julgamento.
Como a decisão (recorrida) não desenvolve o seu raciocínio - talvez por oconsiderar óbvio -, não se percebe quais as objecções colocadas à integração do crime. Se é por o visado não ter cornos estar-se-ia então perante uma tentativa impossível? Parece-nos evidente que não. Será porque por não ter cornos não tem de ter medo, já que não é possível ser atingido no que não se tem? Num país de tradições tauromáquicas e de moral ditada por uma tradição ainda de cariz marialva, como é Portugal, não é pouco vulgar dirigir a alguém expressão que inclua a referida terminologia. Assim, quer atribuindo a alguém o facto de "ter cornos" ou de alguém "os andar a pôr a outrem" ou simplesmente de se "ser como" (...) tem significado conhecido e conotação desonrosa, especialmente se o seu detentor for de sexo masculino, face às regras de uma moral social vigente, ainda predominantemente machista.
Não se duvida que, por analogia, também se utiliza a expressão "dar um tiro nos cornos" ou outras idênticas, face ao corpo do visado, como "levar nos cornos", referindo-se à cabeça, zona vital do corpo humano. Já relativamente à cara se tem preferido, em contexto idêntico, a expressão «focinho».
Não há dúvida de que se preenche o crime de ameaças (...) uma vez que a atitude e palavras usadas são idóneas a provocar na pessoa do queixoso o receio de vir a ser atingido por um tiro mortal, posto que o local ameaçado era ponto vital".

É caso para dizer que o porco, tem focinho, mas não tem cornos… Não tem não.

Fonte:
Ac. do TRL de 9 de Abril de 2002, publicado na Colectânea de Jurisprudência, tomo 2, página 142 e seguintes.

Curzio Malaparte, Um Escritor Conhecido Pela Casa, por Alquimista


Já toda a gente ouviu falar de Curzio Malaparte, um escritor italiano vagamente conotado com o fascismo italiano. Mas poucos ou nenhuns se lembram de algum dos seus livros e duvido que haja aqui alguém que o tenha lido. De todo o modo, é irrelevante para o que aqui me traz. Curzio escreveu duas obras famosas que é o Kaputt e A Pele. Andei meses com o Kaputt da biblioteca municipal na mão e não consegui ler aquilo. Adiante, que o que interessa é a Casa. A casa Come Me. A Casa Como Eu. É que pela casa já o Curzio é conhecido. Quem é que desconhece por completo a casita das figuras? Fica num promontório rochoso da ilha de Capri (sim, a mesma do Imperador Tibério e do sueco Axel Munthe, e voltaremos lá pela mão deles) e vale a pena seguir-lhe os tijolos. Pela mão de terceiros, aqui vai:

Bruce Chatwin, no Anatomia da Errância: “Curzio Malaparte foi um escritor muito estranho e a sua villa, que ele construiu nos anos 1938-40, no solitário promontório do Capo Massullo, é uma das habitações mais estranhas do mundo ocidental. Um navio “homérico” encalhado? Um altar moderno a Poseidon? Uma casa do futuro - ou do passado pré-histórico? Uma casa surrealista? Uma casa fascista? Ou um refúgio “tiberiano” de um mundo enlouqecido? É a casa do dandy e folião profissional, o Arcitaliano, como era conhecido pelos amigos - ou do melancólico romântico alemão que jaz sob a aparência, mascarado? A casa “pura” de um asceta? Ou o teatro inquieto e privado de um insaciável Casanova? O que sabemos é que Malaparte pediu ao arquitecto, Adalberto Libera, que lhe construísse uma “casa come me”, tão “triste, dura e severa” como ele próprio julgava ser. No seu bloco de notas, em grandes letras negras escrevera um cabeçalho: CASA COME ME - e, na verdade, até ao mais pequeno pormenor burguês, a casa é uma biografia do seu proprietário.”

Deixando o Chatwin, vamos ver alguma coisa da agitada vida do Malaparte: “Quando rebentou a I Guerra, alistou-se na Legione Garibaldina e distinguiu-se em combate na frente austríaca e depois em Reims, onde foram mortos pelo menos dez mil italianos e ele próprio ficou com um pulmão lesionado pelo gás.”

“Após a guerra tornou-se jornalista e fascista. (…) Contudo, foi suficientemente astuto para ver, logo de início, a crueldade absurda do movimento de Mussolini; e, com o seu sentido de humor corrosivo, nunca resistia à tentação de zombar dos homens do poder.”

Em jornais e revistas, Curzio ridicularizou o Duce e gozou que nem um perdido com Hitler. Lixou-se. Estava enganado sobre o regime em que acreditava.

“Foi preso e acusado de actividades antifascistas. Foi espancado e condenado a um exílio de 5 anos na ilha de Lipari. A tortura e a prisão não lhe acabaram com as simpatias fascistas e após o exílio fez reportagens da campanha italiana da Etópia favoráveis a Mussolini.”

“Comprou então o promontório Capo Massullo a um pescador de Capri, e disse que ia lá criar coelhos; em vez disso, encomendou a Libera a construção da “casa como eu”.”

“A Casa Come Me, com vista magnífica de mar, céu e rochas, destinava-se a satisfazer o seu “melancólico desejo de espaço” e a reproduzir ao mesmo tempo, no seu modo próprio e grandioso, as condições do exílio de Lipari. Seria o abrigo-mosteiro do homem que, sozinho, fizera frente aos ditadores - uma casamatta, um “fortim”, ou “hospício”, conforme a leitura que fizermos daquela palavra italiana; uma casa da era da máquina, que no entanto iria preservar os valores mais antigos do Mediterrâneo. E ao contrário dos tempos “apolíneos” da Grécia clássica, com as suas florestas de colunas e “telhados colocados a partir de cima”, o edifício - como um santuário minóico - erguer-se-ia do próprio mar.”

“As paredes eram cor de sangue de touro, as janelas como as janelas de um vapor, e havia uma rampa de degraus em forma de cunha, que subiam oblíquos como uma via sacra, até ao terraço do telhado. Era aí que, todas as manhãs Malaparte cumpria um ritual de ginástica, sozinho, enquanto as mulheres apaixonadas por ele ficavam a vê-lo lá do alto, dos penhascos.”

“Aí escreveu Kaputt que terminou em 1943. Durante a II guerra voltou a envergar o uniforme fascista e participou na invasão da Grécia, e foi depois repórter de guerra de simpatias fascistas na frente russa e na polónia. Finda a guerra foi perseguido por colaboracionista e refugiou-se em França e viajou depois pela União Soviética e pela China onde morreu de cancro do pulmão.”

“No seu testamento deixou a Casa Come Me para ser usada por artistas provenientes da República Popular da China em vingança contra as gentes de Capri que o perseguiram no fim a guerra. A família contestou e ganhou e hoje a casa faz parte do património de uma obscura fundação familiar dedicada à arte.” Um escritor conhecido pela Casa.

11/06/07

O País Que Mata Pelo Ridículo, por Sardanápalo

O Eleitorado português nunca castiga os governantes pelas questões essenciais. As grandes asneiras, as decisões que nos custam milhões são fait-divers para o povinho. O que o povinho não perdoa, é a pequena gaffe, a asneirola, o ridículo de um pequeno acto ou gralha.

O Cavaco caiu das alturas de uma maioria absoluta porquê? Por mandar fazer o CCB que custou três vezes mais do que o orçamentado? Porque criou o regime de progressões automáticas da função pública que meteu o país no atoleiro financeiro em que estamos? Népias. Caiu porque cortou o “feriado” de Carnaval, fez um Tabu e decidiu farpear-se a ele mesmo ao comer uma fatia de bolo-rei. Eis o que o engasgou e matou!

O ambiental ministro Borrego, foi incinerado depois de uma anedota sobre reciclagem de alentejanos para aproveitar o alumínio que andavam a beber na água. Guterres não caiu pela péssima decisão das gravuras de foz côa ou pelo horripilante gasto das Scuts. Estatelou-se porque se meteu a fazer contas em directo sobre o PIB e o “é só fazer as contas”!

Resta Sócrates. Não vai lerpar pelo TGV, nem pela OTA, nem pelas contas de merceeiro. Começou a cair com o Canudo de Engenheiro da Farinha Amparo. Resta-lhe mais um ou dois ridículos. Como no Cavaco. Depois cai e incendeia-se! O povo português não perdoa!

10/06/07

Portugal

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Um país que que tem 5 milhões de emigrados comemora o quê?

07/06/07

Afinal o Maestro Não tinha Razão ou A Queda de um Mito, por Iconoclasta

De entre os vários escrevinhadores deste blog porcino, há um que é, para todos nós, um verdadeiro mito, uma legenda, uma estátua viva. Refiro-me, tá claro, ao Grunfo. O Grunfo tem centenas de filmes, todos catalogados e registados e tem um dossier com a análise pessoal de cada um. Tem milhares de livros - alguns repetidos que faz o favor de oferecer aos amigos - todos também catalogados, classificados numa escalada de uma a cinco estrelas com a respectiva crítica pessoal. O Grunfo sabe todas as capitais do mundo. O Grunfo faz Bordas que é uma coisa que só nós do Porco sabemos o que vem a ser. É o verdadeiro e único criador de todos os 879 artigos dos estatutos confradais. Sabe qual é a diferença entre pargos e sargos. Tem uma memória de elefante e raramente se engana quando discutimos questões do género: qual é a marca dos parafusos dos jipes dos marines no Iraque? Tem um sentido de orientação notável (ou, pelo menos tinha, já lá vamos) e, last but not least, é o maior crítico de gastronomia vivo (ou era).

A esse respeito sempre vos digo que ele organizou três inacreditáveis dossiers, intitulados Sul, Centro e Norte, onde estão referenciados todos os restaurantes do país que valem a pena. Os que sabemos disto ligamos-lhe de todos os pontos do país. Não é raro um gajo estar com ele e tocar o telemóvel com um gajo qualquer pendurado num ponto inóspito de Portugal a perguntar-lhe coisas assim:
- É pá, ó Grunfo, tás bom, tou aqui em Bragança e não sei onde é que hei-de ir almoçar, mene..
Segue-se uma bateria de perguntas metódicas feitas pelo Grunfo:
- Estás sozinho ou acompanhado? A companhia é macho ou fêma? Tens pressa ou tás com tempo? Quanto é que queres gastar?, e mais perguntas assim, até que lá sai o veredicto final:
- Pois, com essas condicionantes tens o Ódelino que tem uma excelente morcela de trás-os-montes e um naco de posta mirandesa que, por acaso já provei quando aí estive e que vale a pena. Atenção à sopa de feijão negro que é imprescindível. Ah e não te esqueças de pedir a mousse de castanhas que é uma obra prima. De entrada manda vir os caracóis dos gajos.
É assim o grunfo, amigo do seu amigo, e organizado, muito organizado, um prodígio da natureza. É por isso que ele é um mito para nós todos e o Cão classificou-o uma vez de forma lapidar como «o homem que conta os próprios passos e os colecciona arrumados numa gaveta». Mais coisa menos coisa!

Pois bem, acontece que os mitos caem. Até mesmo o mito da infalibilidade do Grunfo. Comecei por suspeitar que ele afinal era humano há cerca de um ano quando andámos perdidos durante uma hora ed meia à procura do restaurante Pombeiro na Invicta... Mas entretanto ele convenceu-nos a todos que a culpa tinha sido minha e do co-piloto que devia ter confirmado no mapa o percurso e não o fez. E o mito durou mais um ano. Na semana passada, porém, voltei a suspeitar da mortalidade do Grunfo. O erro foi demasiado crasso. Dirigíamo-nos a Montebelo-Viseu para mais uma jornada de golfe. A estrada de Coimbra até Montebelo é a coisa mais simples que se possa imaginar: sempre a direito pela IP3, não tem nada que enganar até à placa que diz golfe, á direita. Mas o Grunfo conseguiu a proeza inenarrável de se enganar no caminho e cortou no sentido de Carregal do Sal. Resultado: fizemos mais 15 kilómetros e perdemos alguns preciosos minutos para lá e para cá. Do piorio. Nem o meu pai cometeria um erro tão grosseiro. Nem mesmo o Mangas…

Hoje tive a confirmação de que o Grunfo já não é o que era. Deve ser do desgaste, sei lá, mas hoje pisei uma das piores minas dos últimos anos e a culpa foi exclusivamente dele. Ainda por cima em matéria tão sagrada como é a gastronomia. Há uns tempos atrás o Grunfo escreveu um post aqui no Porco intitulado O Maestro Tinha Razão onde fazia o elogio rasgado do restaurante A Sereia, precisamente aqui: http://tapornumporco.blogspot.com/2007/03/o-maestro-tinha-razo-por-z-critrio.html.

Nesse post ele escreve coisas como esta: «Aquilo ali é uma Sereia de Luxo e trata-se sem dúvida do melhor tempero e da melhor cozinha tradicional de Coimbra. Amanhã, Quinta-Feira, há Açorda de Sável. Infelizmente tou pró Porto». E desde esse post que eu e muitos mais que conhecem o mito, andamos a salivar pelo Sereia. Pois bem, hoje liguei ao Grunfo e fomos lá os dois, almoçar ao Sereia. E que tal? Um tugúrio, um verdadeiro tugúrio. Não volto lá, nem morto.

Convém dizer que, para mim, um restaurante não é só a qualidade da comida. É claro que isso é fundamental, mas não troco um bife razoável comido numa barraquinha de uma praia de Arraial da Ajuda por um excelente rizoto servido num caixote de lixo. O Sereia não serve rizotos. Mas não anda longe de um caixote de lixo.
Um gajo entra e aquilo é um susto. A sala de jantar (?), quatro paredes exíguas forradas a corticite de 1940, decoradas a manchas de gordura em estilo Jackson Pollock, quase me fez enjoar. Aquilo dá para 4 ou 5 mesas apertadinhas e não tem janelas. É o bunker do Hitler, pá... Em contrapartida tem vista para os lavabos e como há gajos que se esquecem de deixar a porta do mictorium aberta, há sempre um cheiro pestilento, quer dizer, a mijo mesmo, a perfumar o ambiente. Apeteceu-me logo ir embora, mas esperei pela excelência da comida. Fui ficando. Fiquei quase uma hora à espera, tal a demora… O empregado é uma espécie de quasimodo da restauração e o ambiente… enfim, o ambiente... tinha umas chavalas praí na promissora casa dos 60-70 que tiveram folga no Lar. Depois ainda apareceu um senhor dos seus 80 que parecia avô das que já lá estavam e que demorou uns 10 minutos até se sentar à mesa. O serviço foi demoradíssimo. A comida não era má, mas já nem me lembro do que comemos. E o preço foi, 15-euros-15 a cada um. Para quem almoça por 5-6 euros, como eu, foi de chorar de raiva. Enfim, uma pobreza franciscana, um atentado à joie de vivre. Deprimente! E tudo isto recomendado, enaltecido, venerado pelo Grunfo!

Hoje quando saí do Sereia o mito do Grunfo tinha caído definitivamente, com um estrondo monumental que se deve ter ouvido na China. Estilhaçou-se, esborrachou-se, game-over. Nunca mais se hão-de juntar os cacos. Hoje, 6/6/07, Ulisses afogou-se para sempre num mar de cozido à Portuguesa. E a culpa não foi das sereias: foi mesmo do Sereia…

05/06/07

UM DIA INESQUECIVEL, ATÉ VER, por Martir São Vicente


É preciso que vos conte como foi o meu dia. Falo daquele dia, há precisamente quatro anos, que me ficou até hoje gravado na memória. O Dia. Aquele que não consigo esquecer. O que tem tornado a minha vida insuportável. Porque os meus dias e as minhas noites se tornaram uma permanente revisão desse dia e porque nada me consegue distrair dele. Mas talvez consiga diluir a sua memória, contando-o. Diz-me o psiquiatra que traumas partilhados se diluem. Ouçam lá, então.


Na manhã desse dia, depois de acordar, dei os passos habituais para aqui e para ali, e saí para a rua. Na estrada, ao quilómetro doze, passou por mim um Volkswagen Passat de cor creme, cuja matricula não posso aqui revelar, por razões que adiante entendereis. Cheguei ao emprego uma hora depois e sentei-me à secretária para trabalhar. Nessa manhã escrevi cinco folhas de texto no computador e acabei um trabalho que tinha começado há dois dias. Finda a tarefa, suspirei de alívio, olhei pela janela e vi três homens a conversar. Passados dez minutos, um deles afastou-se e dirigiu-se para o carro, fazendo nesse trajecto um triângulo oblíquo com os seus companheiros. Às doze e trinta, saí para almoçar e entrei no pequeno restaurante habitual. - O que está a sair mais depressa? - perguntei eu à empregada. Sem olhar para mim, disse-me ela esta coisa que nunca mais esqueci: - Bifinhos com cogumelos, que estão a sair muito bem. Pedi então bifinhos com cogumelos. - E para beber? - Um fino -. É muito importante que se saiba que não gosto especialmente de bifinhos com cogumelos. Mas sendo rápido, poupando-me tempo… Pedi outro fino e pensei exactamente isto, juro por Deus: amanhã peço bacalhau à braz, demore o que demorar.


Finda a refeição, pedi um café e acendi um cigarro, por esta ordem. Paguei, levantei-me, sai do restaurante, apaguei o cigarro num jacarandá e caminhei um pouco em direcção ao meu local de trabalho. Três horas da tarde. Três e meia. Quatro horas e treze minutos. Lembro-me perfeitamente que era esta a hora, porque nessa altura olhei para o relógio. Passados cinco minutos, entra o director e entrega-me um papel. Olhamos um para o outro. Ele volta-se, dá dois passos em direcção à porta, sai e dirige-se para o lado direito do corredor, cruzando-se com um dos homens que tinha visto de manhã pela janela, precisamente o mais alto. Passados cerca de três minutos, não mais, tenho a certeza absoluta (não consigo esquecer este pormenor), entra a secretária de direcção com um agrafador que eu tinha requisitado ao aprovisionamento. Agradeci e perguntei-lhe pelo sobrinho, que tinha tido um acidente há uma semana - como está ele? – hoje já está mais bem disposto, obrigada; já deve ir para casa amanhã – respondeu. Este curto diálogo foi testemunhado por um colega que se encontrava ali de passagem. Ainda hoje estou convencido de que a secretária lhe relanceou o olhar, quando pousou o agrafador na minha secretária, com suavidade. Ao fim da tarde fui para casa, percorrendo de volta o mesmo caminho.


Em casa, e no espaço de duas horas, brinquei com o meu filho, jantei, combinei com a minha mulher desparasitar o gato e comprar iogurtes de pedaços de manga, por esta ordem exacta, e dei mais uma lição de bicicleta ao miúdo no corredor. Subitamente, de forma inesperada, batem à porta. Estranho, pensei eu, porque não tocaram à campainha? Era o administrador a entregar o recibo do condomínio. - Porque não tocou o senhor à campaínha? - Olhe, estava distraído a conferir a conta e nem me lembrei-. Ainda hoje estas palavras ressoam na minha cabeça. Às onze e trinta e três, escovei os dentes e fui para a cama. Li duas ou très páginas do meu livro de cabeceira e adormeci. E assim se acabou o dia. Foi já na madrugada do dia seguinte que me levantei para urinar e bati com a cabeça na ombreira da porta do quarto. Mas não consigo esquecer esse dia. Faço tudo para o esquecer, incluindo hipnose regressiva, pornografia e cocaína, mas o máximo que até agora consegui foi esquecer a matricula do Volkswagen do inicio da história.


E não consigo sequer imaginar porque diabo esse dia insiste em aninhar-se-me no crâneo. Tenho a certeza que tive até hoje dias muito mais interessantes, incluindo grandes pescarias, fracturas do maxilar por andar à bulha, jantares opíparos e sexo na praia, e é este dia em que não acontece nada, pior, em que tive um desacontecimento, que é comer bifinhos com cogumelos, é este dia sem nenhum interesse que me ocupa a memória. Pronto, esta história para ser genial e dar um grande filme só lhe falta mesmo ter interesse, mas estaides à vontade

04/06/07

Boivin foi a Provins

Boivin foi à feira a Provins. Boivin era um jogral miserável e talentoso. Gostava das palavras cantadas e dos versos obscenos, de bom vinho e de putas. Sobrava-lhe em talento o que lhe faltava em dinheiro. Boivin percorria as feiras da Champagne disfarçado de camponês. Inventava histórias sinuosas nas casas de tolerância, por entre a algazarra dos bêbedos. Bebia com eles, inventava trapaças e cantava-as em verso, acabando sempre ovacionado. O escárnio que destilava deixava sempre um rasto lendário e inimizades fundas que o obrigavam, invariavelmente, a demandar outras paragens. Fugia sempre para outras feiras e outras terras, pois que não faltavam na Champagne, naqueles tempos medievais, as trocas e o bulício das feiras e mercados.

Boivin foi à feira de Provins. Disfarçado de camponês, dirigiu-se à rua das putas e entrou na casa de Mabile. Bebeu e cantou. Bebeu menos do que aparentava, e apregou a fortuna que lhe coube nos negócios fechados em Provins. Ergueu a taça de bom vinho e, para que o ouvisse Mabile, a meretriz mor da casa, anunciou o sucesso alcançado. Os alqueires de trigo que vendeu a bom preço, o boi de criação que valeu o peso dos testículos em soldos, os fardos de lã, os ungentos comprados a um turco e logo vendidos a um saxão, mais um rol de grandes negócios que lhe valeram para cima de cem soldos. Enquanto apregoava a sorte, erguia com uma mão mais uma taça de vinho e com a outra chocalhava uma bolsa de couro onde tilintavam pesadas moedas . Ninguém sabia do logro. Só Boivin, o jogral trapaceiro, sabia que a bolsa não guardava mais do que um soldo e muitos pregos retorcidos. Já ébrio, o manhoso Boivin debruçou-se na mesa e chorou pela saudosa Mabile, sua sobrinha. Desfiou uma lamúria chorosa. As saudades que tinha de Mabile, a sua única sobrinha, a única herdeira que lhe restava pois que a peste lhe levara as filhas, a mulher e os irmãos. De toda a família lhe restava somente a memória de Mabile que em tempos o falecido irmão expulsara de casa. Ai Mabile, Mabile, puderas tu consolar os últimos dias deste velho, minha doce sobrinha, que eu, em nome de meu cruel irmão, te perdoo o pecado que o levou a banir-te de sua casa! Chorava de seguida fartas lágrimas por entre vapores etílicos. Prometia a si mesmo, para breve, o exílio num convento onde aguardaria a morte na companhia dos cem soldos ganhos. E as terras que venderia lhe renderiam outros cem, acrescentava com a voz entaramelada. Nunca tantas moedas valerão tão pouco, lamentava-se.

Todos choravam já, comovidos com a desdita deste desgraçado. Mabile, a meretriz, saiu então da penumbra e apresentou-se como sendo sua sobrinha. Balbuciou para os seus próximos o propósito de se aproveitar do pobre tolo, pegando na coincidência do nome:

- Eis-me aqui, meu tio. Agora vos reconheço.

O pobre reconheceu-a logo. Gabou-lhe os longos cabelos, iguais aos de sua mãe, o colo esguio e sedoso, os seios avantajados e os olhos que conservavam ainda a pureza da infância.

- Minha Mabile, minha pobre criança. Que fazes neste antro?

Conversaram. Tio e sobrinha abraçaram-se comovidos em longa conversa. O velho falou-lhe das filhas defuntas e dos rigores da viuvez. Mabile apiedou-se e insinuou-se perita na análise dos humores, asseverando serem muito graves e inconvenientes os efeitos de tão longa privação. Sete anos de jejum carnal é mau agoiro. Calhava ter ali naquele dia acolhido uma virgem puríssima, Ysane de seu nome, destinada ao prazer dos ricos senhores que todo ano percorrem as feiras da Champagne e demandam os favores de Mabile, afamada por bem servir com discrição e diligência. Há quem venha de muito longe pedir-lhe para que acolha as filhas, pois que a vida de puta sempre poupa as miseráveis da fome, ainda que lhes falte a bênção de uma abadessa para que ganhem a respeitabilidade dos votos. Mabile ofereceu Ysane a Boivin e anunciou o favor em voz alta. A multidão, comovida, aplaudiu o felizardo, enquanto o par se retirava para os aposentos. Ao cruzar-se com Ysane, Mabile segredou-lhe: corta-lhe a bolsa. Desconhecia Mabile que já Boivin a cortara, vendo apenas que ao passar sobre a mesa pousara sonoramente um soldo para que todos festejassem a sua felicidade. O único soldo.

Enquanto no recato dos aposentos traseiros o casal se saciava, Mabile ordenou que uma criada lhes levasse bom vinho e boa carne. Largos minutos passaram até que Boivin surgiu de rompante da porta dos fundos, ainda mal amanhado, tolhido de fúria, enraivecido e insultando todos os que rastejavam naquele antro de pecado. Ladrões! Queixava-se de lhe haverem cortado a bolsa, exibindo desesperado os fios de couro rasgado e lamentando a perda de uma fortuna que subia acima de cem soldos.

Mabile revelou-se então. Ciente do sucesso do estratagema, arrancou-lhe das mãos os cordões soltos e deu ordem para que o escorraçassem. Boivin fugiu.

Enquanto isso, Mabile aguardou que Ysane lhe trouxesse o produto do saque. Porém, quando a falsa virgem lhe anunciou não ter encontrado nenhuma bolsa, e que do farto tilintar mais não encontrara do que inúmeras cavilhas metálicas sem qualquer valor espalhadas pelo soalho, logo a ira tomou conta da meretriz. Ysane, ficou sem dentes e Boivin ia longe, para outra feira bem longe de Provins.

Adaptação livre de uma cantiga medieval francesa.

Ver excelente estudo aqui.

Referência bibliográfica: Como se Vivia na Idade Média; Cascais; Pergaminho; 2001

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