30/05/07

O post da greve geral, por grevista


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Rock Never Dies, por Pop Line

Entendamo-nos: se a música deles fosse meramente um produto standard-americano, tipo rock FM ou Radio Friendly, eu passava em frente. Há milhares de grupos em todo o mundo que fazem música-pastilha-elástica com a chancela Made in USA ou simplesmente Inspired by USA. Basta ligar a rádio, aqui ou na China, e lá está a música americana. Até fede. É o McMundo em todo o seu esplendor.


Os Blood Hound Gang fazem música americana? Sim, sem dúvida. Já ouvi até quem os acusasse de serem excessivamente americanos. E são. Mas é justamente por esse excesso de América que os acho interessantes. A música deles é tão, mas tão americana que acaba por se tornar étnica. É tão étnica como a música da Cesária Évora, do Nusrath Fateh Ali Khan ou do Ravi Shankar do velhos tempos.


Nem tudo na América é standardização. É certo que identificamos frequentemente identifica-se a cultura americana com os seus denominadores globais. Há quem fale mesmo na Globalização como a imposição de um localismo à escala mundial, referindo-se à exportação maciça dos modelos americanos. Há até quem fale no Império Americano. Mas, por outro lado, também há um lado genuíno na cultura americana que inclui a Pop Art, o Grunge, o Ry Cooder, o Sam Shepard, o Johny Cash, o Hip Hop ou o Howard Kanowitz ou os motéis de beira de estrada…


Os Blood Hound Gang apanham como antenas tudo o que faz parte da afirmação americana das últimas décadas: o punk, a electrónica, o heavy metal, o hip hop, tá lá tudo. Junte-se a isto a imagem tipicamente americana de hooligans apalhaçados e as letras maradas e aí os temos. Jimmy Pop, o vocalista, é, hoje, um verdadeiro ícone dos Estados Unidos.


Curiosamente, a primeira vez que ouvi uma música deles foi num documentário, salvo erro do Michael Moore (outro americano!). A música, que é hoje o maior clássico do repertório da banda, chamava-se: Fire Water Burn A letra, forte, muito forte, para mais naquele contexto de guerra, reza assim:

The roof, the roof, the roof is on fire
The roof, the roof, the roof is on fire
The roof, the roof, the roof is on fire
We don,t need no water let the motherfucker burn,
Burn motherfucker burn!


Moore recolhera entrevistas a soldados americanos em luta no Iraque que confessavam que a bordo dos tanques ou simplesmente nos headphones pessoais, a música mais ouvida era esta. Parece que os Marines curtem mesmo Blood Hound Gang, mas os xiitas da jihad é que não devem gramá-los mesmo nada!

28/05/07

A Clientela, por Jovem Analista de Clientes


O prometido é devido e, como tal, eis aqui uma amostra parcelar mas significativa (condicionada pelo facto do sitemeter só mostrar as últimas cem visitas) do que querem e ao que vêm os visitantes do tapornumporco.
Sem qualquer edição, tal como vieram ao mundo num motor de busca, quase sempre o google, eis aqui os termos de pesquisa que trazem ao tapor dezenas de clientes.
O facto de aqui terem chegado com aquelas expressões mostra para já o carácter eclético do blog, mas é sem dúvida um exercício curioso que deverá ser repetido regularmente.
A análise sócio-psicológica fica para os gróinks, mas desde já se oferece um brinde a quem souber o que é um “sequente”.

Best of:

Por que, geralmente, os motéis ficam fora da cidade?
Tinky Winky
karen jardel nua
Sofia aparício nua
Carla andrino nua
fotos de fafa de belem "nua"
fafa de belem nua
sonia nua
SONIA ARAUJO NUA
fotos de crianças alemãs na praia
Piroca
Entrevista sociológica
mijadelas+putas+sexo
"a origem da tragedia" de nietzche resumo por capítulos
por detras da porta verde
videos de sequentes
lenda sobre navegações de longo percurso contadas pela igreja
putas na estrada
as coisas que ajudam o homem
baliza ginasta
portugal sushi sashimi parasitas

E ainda:

Tabaco de enrolar; caren jardel; john stagliano; Little Oral Annie; vertigo alfred; apocalipse now final diferente; os bebedores caravaggio; Matilde Sousa Franco; cabanas de Viriato; diferença perfume e aromas; imperdoável; ANÁLISE DE A ARTE DE AMAR OVÍDIO; considerações sobre a dignidade na obra de miguel delibes; Ana Anes fotos; imagens de ma formaçoes a nascença; nelson goodman; paula rego - os mexilhões; Kasimir Malevitch- Quadrado Negro; duda guennes; Tendencias progressivas libertadora.

PEFs, por Cão

O problema é essa avantesma, esse falso jovem, essa instituição, essa estátua viva: o Professor de Educação Física!

27/05/07

Imperdoável e o Western - Epílogo: O Duelo Final, por Mangas

Clint Eastwood, com uma simplicidade de processos absolutamente ímpar que assenta numa total ausência de enfeites técnicos, em diálogos inteligentes e silêncios reveladores, e na natural maturação de cada personagem, mantém-se fiel à história que quer contar. No trajecto não lhe escapa um duelo final, momento culminante do género do qual citarei três modelos clássicos dos quais foge deliberadamente - o ritual suspenso em intermináveis segundos no confronto um para um de Aconteceu no Oeste (Leone, 1969) – o auge da tensão entre a harmónica de Charles Bronson contra o grande plano do azul gélido no olhar de Henry Fonda; a sexualidade de Duelo ao Sol (King Vidor, 1964) com Gregory Peck e Jennifer Jones (Pearl Chaves foi o animal fêmea mais fatalmente lascivo e sexual de todas as história de cow-boys!) - encobertos pelos rochedos a céu aberto, proferindo promessas de amor e, ao mesmo tempo, descarregando chumbo na carne que os devorou, os amantes acabam nos braços da morte um do outro; a tensão e pólvora no duelo de Gunfight at Ok Corral (John Sturges, 1957) - os irmãos Earp e o tuberculoso Doc Hollyday ao nível câmara enterrada no pó contra os Clanton em alinhamento de fogo.

Em Imperdoável, o único duelo de registo não o chega a ser porque um ajuste de contas não espera costas cobertas chegada a hora, tal como o que não tem perdão também não se compadece com atenuantes: numa noite de silêncio e trovões, o corpo de Ned jaz em pé entre duas tochas que iluminam o Diabo que dança à chuva, pais e filhos escondidos nas miseráveis barracas, putas recolhidas às janelas da tempestade, a metamorfose de Munny recebe o Dançarino na alma e uma garrafa de uísque na garganta, pela qual o primeiro expressa, inquestionavelmente ao que vem: I've killed women and children. I've killed just about everything that walked or crawled at one time or another, and I'm here to kill you, Little Bill, for what you did to Ned. Dentro do saloon, a carabina em punho nunca vacilou, nunca duvidou, deu-lhes apenas tempo para acariciar as coronhas e, de consciência formada, executou o serviço à queima-roupa que tantas outras vezes tinha aprendido no passado.

Final alucinatório, explosivo, crepuscular! Um misto de Táxi Driver (Scorcese, 1976), em punishment executado sem misericórdia, e Shane (George Stevens, 1953), a partida depois de reposta a ordem natural das coisas, o voltar de costas em abandono completo. Não aparece um miúdo a correr que grita " Shane! Shane! Come back!". Debaixo do aguaceiro, surgem apenas as putas silenciosas, o biógrafo Beauchamp e dois adjuntos do xerife incapazes de disparar contra o fantasma que regressa a casa.

As últimas palavras de Little Bill foram: I don't deserve this. To die like this. I was building a house.

Nos créditos finais do filme, Clint Eastwood dedicou-o aos mentores: To Sergio and Don.

25/05/07

O Comment Mortal, por Killing Joke

Há palavras que nos marcam para sempre. Palavras que, graças a Deus, dissemos e que mudaram completamente a nossa vida. Palavras que, uma vez ditas, fizeram de nós pessoas muito diferentes das pessoas que seríamos se nunca as tivéssemos dito. Bem ditas!

E há palavras que nunca devíamos ter dito. Há pessoas que já nem conhecemos pelo nome – quando as vemos do outro lado da rua, logo comentamos: «olha, não vai ali o gajo que disse aquilo assim e assim?». Há milhões de palavras que dissemos e que daríamos tudo para nunca ter dito. Malditas!


Entre esta última espécie de indivíduos que se arrependerão amargamente até ao fim dos seus dias por terem dito determinadas asneiras, há um que nos é particularmente caro, aqui no Porco. Trata-se do Mangas. O Mangas reconhece hoje como foi precipitado quando, exactamente às 10 horas e 35 minutos daquela noite fatídica de 16 de Novembro de 2005, veio aqui ao Porco e escreveu… bem…

Sinceramente não me diz nada a Scarlett. Não mexe comigo. Muito pueril, jovem, imaculada e sem sal.
Mas eu, a esse nível de actrizes, também não sou grande referência pós-moderna porque quem me dá tesão mesmo são gajas bólides como a Rita Hayworth, corpos-demoníacos como a Lana Turner, mamas-brochistas como a Kim Novack, sardas-lolitas como a Brigitte Bardot, cus-alçapões como a Kim Novack, miolos-geniais como a Marilyn. Mulheres destas, sim.»

24/05/07

O (Mal) Passado, por Joãozinho MMVII O Relativo

1."A nossa juventude adora o luxo, é mal-educada, despreza a autoridade e não tem o menor respeito pelos mais velhos. Os nossos filhos hoje são uns verdadeiros tiranos. Não se levantam quando uma pessoa idosa entra, respondem aos pais e são simplesmente maus."

2."Não tenho mais nenhuma esperança no futuro do nosso país se a juventude de hoje tomar o poder amanhã, porque esta juventude é insuportável, desenfreada, simplesmente horrível."

3."O nosso mundo atingiu o seu ponto crítico. Os filhos já não ouvem os pais. O fim do mundo não pode estar muito longe."

4."Esta juventude está estragada até o fundo do coração. Os jovens são maus e preguiçosos. Eles nunca serão como a juventude de antigamente... A juventude de hoje não será capaz de manter a nossa cultura. "

- A primeira citação é de Sócrates (470-399 AC)
- A segunda é de Hesíodo (720 AC)
- A terceira é de um sacerdote do ano 2000 AC
- A quarta estava escrita num vaso de argila descoberto nas ruínas da Babilónia e tem mais de 4000 anos.

A história, mais concretamente o estudo (científico) da história, é um formidável repositório de sabedoria com aplicações muito práticas na nossa vida quotidiana. Entre muitas outras coisas, permite-nos encarar e perceber a vida e as dinâmicas da contemporaneidade com outro olhar, normalmente menos pessimista e negativo. Permite, em suma, colocar as coisas em perspectiva e relativizar um pouco os acontecimentos e o presente. As citações que abrem este poste e que dizem respeito sobretudo aos milenares conflitos de gerações, são apenas um exemplo disso mesmo.
Lembrei-me disto a propósito do discurso recorrente do “antigamente é que era bom” e é que havia respeito, valores, solidariedade e outras coisas magníficas de que o passado invariavelmente está cheio. Tal como o inferno de boas intenções. Hoje em dia está muito em voga em Portugal este discurso, penso eu que fruto da (relativa) crise conjuntural do país, que deu azo, por exemplo, a muitos considerarem que a ditadura salazarista era uma coisa fantástica e gloriosa.
A história é uma das minhas paixões, foi à história que me dediquei na faculdade e é à história que recorro sempre que posso. Ajuda a perceber muitas coisas do presente. E incomoda-me sobremaneira esta tónica fadista no idílico “antigamente”. É uma das idiossincracias da natureza humana, a nostalgia, mas no caso português é um exagero elevado ao ridículo. Regra geral os povos e os indivíduos têm a memória curta e selectiva (os psicólogos explicam que é uma espécie de mecanismo de protecção), mas no caso português abusamos desse traço. Até inventámos uma palavra, a saudade, para carregar no traço da nostalgia e adoramos masoquisticamente sofrer de saudades. Tanto é assim que por vezes dá a impressão que Portugal não tem presente nem futuro, só tem passado. E que esse passado é sempre radioso, ou, no mínimo, muito melhor.
O facto, cientifico e objectivo, é que não foi, nem de longe nem de perto. Apesar dos problemas actuais, não foi e, mais do que isso, nunca foi tão bom (refiro-me ao nosso país, mas poderia estender o raciocínio a todo o chamado hemisfério ocidental), mas é extraordinário como as pessoas abraçam estas convicções absurdas sem reflectir uns minutos no assunto.
Diz-se por exemplo que hoje toda a gente é muito individualista, só pensa na sua vidinha e que antigamente eram todos muito mais solidários e comunais. Não concordo. Nas aldeias e vilas tudo se passa mais ou menos como antes, a malta é toda muito solidária, sim senhor, mas hoje como ontem, até ao limite dos interesses individuais de cada um ou de cada núcleo familiar. Não é por acaso que os projectos sócio-políticos comunais ou colectivistas deram todos com os burros na água. É uma característica da natureza humana, o individualismo, e não é novo.
De resto, sempre existiram excluídos e pobres. E nas cidades também se passa hoje o mesmo de sempre, nem mais nem menos. Hoje como ontem há gente só e abandonada à sua sorte, hoje como ontem há gente que só pensa na sua vidinha e nem vai em conversas e gestos solidários com os mais necessitados. Aliás, tenho para mim que nunca se viram tanto como hoje em dia campanhas e associações de cidadãos mobilizados por causas solidárias, de Timor aos sem-abrigo, são inúmeros os actos de solidariedade, nas cidades e fora delas.
O passado dos povos e das nações (as dinâmicas individuais são diferentes e admito que muita gente terá tido infâncias mais felizes e despreocupadas) nunca foi um sítio idílico e mesmo as comunidades primitivas tinham as suas angústias, guerras e disfunções. O “bom selvagem” só era bom na cabecinha cândida do Rousseau, que nunca viveu certamente entre selvagens. Um neandertal que partisse uma perna, por exemplo, estava feito em bife. O mesmo para um camponês medieval que engripasse ou fosse arrebanhado para as batalhas privadas do seu senhor feudal, onde regra geral era chacinado à catanada.
Os exemplos são tantos que seria fastidioso enumerá-los. A realidade é que, por muitas razões que tenhamos para nos queixarmos do presente, acho simplesmente imbecil traçar comparações com um passado alegadamente melhor. Filhos da puta, políticos corruptos e medíocres, guerras, fomes e doenças, miséria, dívidas e falências, prepotências, barbaridades e crimes, são factores transversais à história da humanidade. O facto é que cada época tem os seus problemas, mas, pelo menos no Ocidente das democracias liberais, nunca a vida foi tão fácil e doce, essa é que é essa.

Imperdoável e o Western - II: A Aprendizagem e a Metamorfose, por Mangas


Imperdoável não tem espaço para cavalheirismos, nem para cortesias e o glamour escapa-se-lhe na violência das armas e nas dores do medo. Dos westerns-spaghetti, perdeu os ângulos de câmara em perspectiva widescreen de Sérgio Leone e as bandas sonoras lancinantes de Morricone, em favor da construção dos personagens; a convencional contagem de cadáveres e a violência despida de rendilhados, no limiar da brutalidade, mantiveram-se como imagens de marca inconfundíveis. E toda a estrutura interna do filme, todos os diálogos e sequências, planos, vão descobrindo a profunda e silenciosa incoerência dos homens e dos rapazes que com eles aprendem o ofício, em última análise, vão revelando o fim de todos os heróis e o futuro negado pelo passado desses mesmos homens.

The Kid padece de uma cegueira patológica a mais de cem pés de distância e de uma cegueira interior para a realidade que o espera. Esconde a primeira para não dar parte fraca, consegue até certo ponto camuflar essa incapacidade com a arrogância e destemor suicidário de um pistoleiro batido, fanfarrão estereotipado como deve aparentar, mas na realidade o mais perto que esteve de matar um homem foi quando partiu a perna a um mexicano com uma pá, treme como varas verdes quando tem de executar o ás da navalha e chora como uma criança ao recordar a cena. Posteriormente, Kid arregala os olhos para a sua segunda cegueira depois do serviço terminado e põe-se a milhas dali para fora, you go on, keep it. I'm never gonna use it again. I won't kill nobody no more. I ain't like you, diz ele a Munny referindo-se à carabina de Ned.

Little Bill, o xerife que valeu o Óscar a Gene Hackman, sendo genuinamente um facínora do pior que a galeria de vilões dos westerns nos deu, impõe uma lei, a sua, à força do chicote e do colt45, mantém a cidade limpa de concorrentes e vai tentando encontrar vocação para carpinteiro na casa (leia-se: Big Whisky) que (des)constrói. Personagem fulcral em toda a história quer na herança violenta que carrega, quer na desmontagem da mitologia heróica de English Bob, um soberbo Richard Harris que encarna o pavão-dandy de saque rápido, tão suave e pomposo quanto mortífero, letal reminiscência do imperialismo britânico que advoga a Monarquia para que presidentes não sejam abatidos a tiro, a propósito da notícia do disparo sobre o presidente James A. Garfield. Estamos no ano de 1981 e lê-se a Cheyenne Gazette numa carruagem do Northwest Railroad. A fama de English Bob precede-o à chegada. Ficará o seu biógrafo a saber pouco depois, do lado de fora da jaula onde o English descansa a cara feita em papas pelas biqueiras das botas de Little Bill, a verdadeira história do abate de Two Gun Corcoran, mas não da forma como o passado heróico do pistoleiro manteve vivo no imaginário colectivo. Veja-se com atenção o ridículo desse momento lendário narrado por Little Bob como testemunha ocular que nos remete para «when the legend becomes fact, print the legend», ou o legado Fordiano desmistificado pela mão de Clint Eastwood no mais puro e duro dos westerns.

E é pelo medo que a personagem de Munny adquire uma extraordinária complexidade e contradição – o mais temido dos assassinos tem pesadelos e sente medo dos fantasmas de todos os homens, mulheres, e crianças que matou, medo do Anjo da Morte com olhos de serpente, medo de morrer e, sobretudo, medo que os seus filhos fiquem algum dia a saber quem ele foi e o que fez no passado, por isso, no delírio da febre e do corpo amassado pela porrada, faz apenas um pedido: Oh Ned, I'm scared, I'm dying. Don't tell nobody, don't tell my kids, none of the things I done, hear me? Na sequência final do filme, o álcool do qual tinha sido curado pela mulher falecida, reencontra a sua verdadeira natureza e a transformação de Munny é completa; não foram uns tragos para ganhar coragem, pois se começamos por ver nele, aparentemente, um tipo misterioso e fechado em crise de identidade, na continuidade da acção, sente-se que na realidade não tem nada a esconder desde que seja ele próprio, um assassino frio e implacável que não vacila no momento de matar - metafórica ironia por oposição que evoca o personagem Dude “Borachon” de Dean Martin em Rio Bravo (Hawks, 1959), caído em desgraça pelo álcool, transformou-se num cobarde sem dignidade e será pela cura ressacada que irá conseguir de novo encarar os inimigos olhos nos olhos. Também lá estão o jovem pistoleiro sequioso de fama, o aleijado voluntarioso, a fêmea fatal e o Duke com a estrela ao peito a limpar a cidade dos vilões por uma justa causa. Imperdoável não se sustenta de causas e a justiça nunca foi para ali chamada.

23/05/07

ÓDIO: O VÉU QUE COBRE O AMOR, por Ming_a

Dizem que amor e ódio são opostos, que se atraem.
Se pedirmos a um tolo apaixonado para definir estas formas de expressão, temos respostas básicas, com recurso, aos opostos da natureza (frio e calor); da física (protões e neutrões); dos valores (bem e mal). A palavra amor (do latim amor) assume muitos sinónimos, entre os quais: atracção, paixão, conquista, satisfação, desejo. Na generalidade, o conceito amor retrata um vínculo emocional, com alguém ou algo que seja capaz de receber este comportamento, e alimente as necessidades sensoriais e físicas.
Podemos pintar o amor com as mais diversas cores: amor físico, amor platónico, amor materno, amor à vida, amor a Deus. Para além da intensidade, que vai dum gostar muito… a um amo-te muito, o amor assume sem hesitações o contorno que desejarmos. Dentro da mochila do amor encolhemos tudo o que lá está dentro, para que aquele seja supremo e inquestionável.
Mas quando falamos do odium, apontamos logo um sentimento de repulsa, de aversão, de antipatia contra uma pessoa ou algo. Uma expressão, ainda que censurável, é dotada de uma força tremenda, às vezes vinda do Além.
Ao contrário do Amor, o ódio não passa o dia a perguntar: “Odeias-me? Muito? Sê sincero!”
Com o amor às costas, precisamos de afirmação e confirmação constante, dos sentimentos. Somos uns inseguros tão estúpidos, que mete dó. Já quem odeia, odeia e pronto. Basta um olhar, para percebermos que alguém nos odeia. Não há cá sedução, nem obstáculos de timidez, nem raminhos de rosas vermelhas, com cartõezinhos, com palavrinhas acabadas em inhos… No ódio, basta uma palavra, dita uma única vez, e conhecemos a profundidade do sentimento daquela pessoa por nós: Odeio-te.
Até trememos… Ninguém treme com um amo-te, não nos dias de hoje. O ódio dispensa preliminares. É sagaz e objectivo. Não precisa de ser correspondido. Não precisa de empatia para se evidenciar. Acredito que só vivendo um grande ódio, viveremos um grande amor. A intensidade com que odiamos, define o quanto seremos capazes de amar.
Chagal, nos seus quadros, não contempla o amor sem o ódio. Amor e ódio, muito mais que simples opostos, andam de costas voltadas, marcando o mesmo passo, embalados pelo desejo de um frente-a-frente. A ansiedade do amor conforta-se com a segurança do ódio. A determinação do ódio brilha com a espontaneidade do amor.
Um não existe sem o outro.
Tapor, esta é para ti: “ és tão repugnante… que não resisto.”

22/05/07

Cuidado... Eles andam aí!, por Pepe Le Pew

Para quem julgava que o governo neo-fascista de Portugal já tinha atingido um absoluto grau zero completamente inultrapassável, desengane-se. O recente caso do professor Charrua ultrapassa largamente tudo o que seria imaginável. Conhece-se o enredo: Charrua é um professor de Inglês destacado há 18 anos na DREN (Direcção Regional da Educação do Norte). Terá feito um «comentário jocoso» sobre a licenciatura do sr. Pinto de Sousa nas instalações do seu local de trabalho. Entretanto um bufo, denuncia-o à directora da referida DREN. E que faz a senhora? Manda chamar o bufo e explica-lhe que o seu comportamento é inadmissível numa sociedade democrática? Propõe-lhe a frequência de uma acção de formação sobre ética, direitos constitucionais, tolerância ou liberdade de expressão? Népias! Concerteza, agradece ao bufo pelo serviço prestado à nação, abre um processo disciplinar ao professor Charrua e, sem sequer concluir o dito, imediatamente, sem o ouvir, suspende o destacamento ao prof e manda-o regressar à escola de origem.


Justificação para esta abencerragem? «O primeiro-ministro é o primeiro ministro de Portugal» (sic) Que quererá isto dizer? Nós sabemos que sim e lamentamos… Se se concluir do processo que o professor Charrua é inocente, não há problema: «receberá uma indemnização» (sic). E paga por quem? Descontada do vencimento da sra directora da dren? Não, claro, paga com o dinheiro dos nossos impostos. Santa im(p)unidade…


Este caso é triste, deprimente, verdadeiramente chocante. Infelizmente não creio que esteja aqui em causa apenas uma bizarria de uma directora sem perfil para ocupar o cargo que ocupa. Infelizmente isto é mais do mesmo. Esta atitude não destoa da atitude geral deste ministério da educação, onde são figuras de proa personagens insólitas como um tal Pedreira e um Valter Lemos. O episódio não é a excepção; é a regra, é mais um capítulo da aplicação da filosofia autocrática e autista deste governo. Não é por acaso que uma coisa destas nunca se passou, desde o 25 de Abril de 74 até hoje, e que se dá precisamente agora. Isto tem a inconfundível marca do PS-Pinto de Sousa. É o selo Coelhone: «Quem se mete com o PS, leva» (sic), não sei se estão recordados…


Não tenho memórias dos tempos anteriores ao 25 de Abril. Mas explicaram-me, era ainda criança, que a maior conquista de Abril foi a liberdade de expressão. Acredito que sim. Não concebo como se pode viver numa sociedade pidesca, onde um bufo está à espreita na esquina do lado, para nos denunciar. A ministra da educação, entretanto, já se recusou a ir ao Parlamento esclarecer este gravíssimo atentado. A senhora não se pronuncia quando, em rigor, já deveria ter demitido a sua subordinada do Norte. Mas não. Tá calada e quem cala consente… Pinto de Sousa, calado está.


O outro ministro, aquele que, também ele, mandou uma piadola acerca da licenciatura de Pinto de Sousa, esse não foi incomodado. Marcelo Rebelo de Sousa que disse e escreveu «já se percebeu que a licenciatura do primeiro-ministro é da farinha do amparo» continua a leccionar, ao que sei, numa universidade pública portuguesa. Não é incomodado e bem. Mas lixa-se o charrua! Ora bolas… Como dizem os ingleses it stinks! É mau de mais. E assim, caso ainda fosse preciso demonstração, o PS redifine-se politicamente como um partido neo-fascista que atenta seriamente contra a liberdade de expressão, contra um dos valores mais sagrados da democracia. Pior que isso: revela não ter qualquer sentido de humor, mostra-se pacóvio e provinciano.


De um certo ponto de vista, este retrocesso é ainda bem pior, posto que não é apenas um retrocesso político: é um retrocesso civilizacional. Coloca a sociedade portuguesa mais próxima daqueles países da malta das cabeças embrulhadas em turbantes que vêem para a rua berrar e queimar embaixadas por causa das caricaturas dinamarquesas do Maomé. Eu não gostaria de viver num país daqueles. Mas parece que eles já estão entre nós. Já não sei onde estou... Se no Portugal de 2007, descontraído e bem humorado, apesar de tudo, se no país beato e fascistóide de 1973; se na Europa Ocidental , livre e democrática, se na Arábia Saudita ou no Irão.. E se eu fosse do Gato Fedorento passava a ter cuidado com o que dizia. Ou do tapornumporco, sei lá…

Imagem -Bansky

21/05/07

Imperdoável e o Western - I: Os Arquétipos, por Mangas


Tudo começa com uma prostituta que foi retalhada à navalha porque achou graça ao tamanho minúsculo da ferramenta do cow-boy que se preparava para a montar. A prostituta chama-se Dalila e, como figura secundária, nem a aproximação ao nome remete a qualquer invocação bíblica de traição ou honra; será a vingança, e por ela, que tombarão alguns homens e outros tantos mitos. Alguns fortes, outros fracos, mas todos sobreviventes ao mais clássico género do cinema enquanto o conhecemos, desde que, John Ford em 1939 com Stagecoach, lhe conferiu a maturidade absoluta – o western.

À distância, ocorre-me de imediato o percurso entre Dodge City (Michael Curtiz, 1939) e Imperdoável (1992), que se mede pelo simbolismo da retórica a propósito da construção dos caminhos de ferro, quando o Coronel Dodge resume: “America´s progress – iron horses and iron men! The West stands for, honesty, courage and morality!” Em meio século, a honestidade morreu por um punhado de dólares, a coragem salvou-se no Álamo e a moralidade sobreviveu ao homem que matou Liberty Vallance. Imperdoável é também a história de um ajuste de contas que aconteceu no Oeste.

Do mais inesquecível que nos recordamos dos velhos westerns, resume-se ao eterno confronto entre o que é justo contra o injusto, do bem contra o mal. Sempre quis acreditar que foi o western que inventou o cinema; o film noir cristalizou-se nos modelos propostos e acrescentou-lhe o dramático efeito da solidão desencantada no efeito pistoleiro/private-eye, e algo mais – o expressionismo da cor, ou a ausência dela!, e a ambivalência sexual; para mim, tudo o resto são sub-géneros que se emanciparam, abordagens de estilo cujo fôlego e maturação descendem da mesma linhagem.

Clint Eastwood foi um actor que, no tempo certo, percebeu uma incontornável vocação para autor. Parece que, depois de adquirir os direitos sobre o argumento original de Imperdoável, guardou-o numa gaveta durante dez anos à espera de envelhecer porque o William Munny que tinha dentro da cabeça não poderia ter 33 anos. O paradoxo que cria em Imperdoável é a subversão dos mitos anunciados pela revisitação dos mesmos, e pela construção uma base narrativa linearmente contrária à estrutura clássica do western tradicional – herói contra vilões. Um admirável jogo de duplicidades em que nem tudo é o que parece e, através do qual, Eastwood percorre do primeiro ao último todos os arquétipos do velho Oeste: a personagem do pistoleiro sem escrúpulos, o caçador de prémios e a lenda, o novato em busca de fama, o xerife, o ajuste de contas, a vingança, as putas, o saloon e, a cidade - Big Whisky -, que não é de casas caiadas de branco com pequenos pátios frondosos entre elas, nem possui uma igreja de cânticos dominicais; tem barracas esconsas e escanzeladas com lama e bosta de cavalo a separá-las. E é nesta terra bruta onde a única índia é a companheira do único negro que, um assassino retirado e convertido em criador de porcos parte para matar, por dinheiro, confronta os fantasmas do passado no processo, e acaba a vingar a morte do amigo antes de regressar ao lar. Parece um simples resumo de argumento, mas não é. É bem mais complexo do que isso. Filmado em estilo austero e quase monocromático, Unforgiven dá-nos a percepção do dirty-realism que quase sempre escapou à grandiloquência de um Ford, ou à tal “evidência” de um Hawks, de que Jacques Rivette escrevia nos Cahiers du Cinema. (O gesto mais nobre de todo o filme vem do parceiro do cow-boy que afiou a navalha no rosto da prostituta ao oferecer-lhe o seu melhor cavalo para a compensar de alguma forma; ainda assim, é corrida à pedrada e nem a intenção o livra de, mais tarde, ser abatido com uma bala no estômago, como entendia o acordo entre a parte contratante e os caçadores de prémios - do u think they came out from Texas to fuck us?).

E Eis Que Desabrocham!, os Jacarandás!!, por Araucária


Ei-los de novo, potentes, explosivos e exóticos: os Jacarandás. Neste ano, o Jacarandá da esquina nascente da Escola Superior de Educação, na Solum, atrasou-se e o primeiro a despontar a floração foi o Jacarandá da Académica. Brioooosaaa!.


Quer o da Escola, quer o da frente do Pavilhão da Académica já estão em plena floração. Como sempre, a dúzia de venerandos Jacarandás da Rua Leonardo de Almeida Azevedo ainda estão a deixar cair a folhagem. Há que aguardar mais uns dias para o desabrochanço destes. Não percam depois o Jacarandá do Trianon, hoje a mais bela copa da cidade. E lamentemos de novo que com a construção do Fórum não tenham sabido salvar o maior e mais bonito Jacarandá de Coimbra, que era o da Mondorel no sitio onde hoje é a estrada de acesso ao centro comercial.


Enquanto se espera pelo “azul estonteante” da republicana subida, aqui ficam os Jacarandás pela voz de quem sabe: Pablo Neruda no seu Canto Geral abre o poema Vegetação com “O Jacarandá soltava espuma, feita de resplendores transmarinos, (…)”, e Manuel Vazquez Montalban no As Termas mostra-nos um Pepe Carvalho rendido: “Um microclima, diz repetidamente para si Carvalho, quando quer explicar o milagre dos Jacarandás,(…). Rafael Alberti no poema Vaivém, fala da “neve azul do Jacarandá”


Coimbra está cheia deles. Abram esses olhos com olhos de ver e levantem a cabeçorra, que há desabrochanços mais bonitos nas copas do que nos passeios!

20/05/07

Delibes em Tierra de Campos, por Mau

Há uns dias escrevia o Mangas de Revenga e sus muchachos, despertando alguns doces arrepios. O post foi leve e esquecido com o Barão mas sabemos que foi de boa vontade. E o Barão bem se lembra, que o espectáculo, não ficou só nesses simples estertores. E não digo mais, por que em Revenga rolou muita coisa e se continuarmos a discussão ainda perco o pio.

Agora, vamos ao o que interessa. Miguel Delibes poeta de prosa quotidiana, escreve e muito de Tierra de Campos. Para o Télurico ler de Tierra de Campos, é sonhar com Revenga, com aromas e memórias de um tempo de rebeldia imberbe e de descobertas. È por estas coisas que a leitura dos relatos de Delibes, lhe são tão entranháveis. Nos relatos de Delibes, há uma personagem que é quase uma constante da sua obra. O caçador é uma das figuras mais carismáticas, eloquentes e românticas da paisagem castelhana.

Delibes descreve fielmente, essa antagónica dualidade do caçador, de carácter tão hermético como efervescente, um carácter crescido nas mãos dum território severo e extenuante como é Tierra de Campos.

Miguel Delibes, enorme escritor, também foi caçador e sem duvida o escritor que mais nos aproxima a essência do caçador de Tierra de Campos, uma forma própria de viver e amar o campo.

Em 2005, última publicação de este relato – Diário de un Cazador – com mais de 50 anos de história, Miguel Delibes nos deleita com um texto alegórico a este espírito télurico e cinegético:

El 5 de Marzo de 1955 nació en Barcelona este libro. Vázquez-Zamora me llevó el ejemplar número uno a Barajas y mi primer viaje a América lo hice inevitablemente ojeándolo, lo que equivale a decir que llegué a Buenos Aires y a Santiago de Chile con El cazador recién nacido y, tras unos meses, ya de regreso a Madrid, embarazado del Emigrante.

A Vergés, que era un hombre de negocios muy literario, fue ésta la novela que más le gustó de las publicadas por mí hasta la fecha: «!qué buen Nadal (Premio Nadal) hubiera hecho este libro!», solía decirme. Y es el caso que, pese a anticipar en el titulo de que iba el asunto, El Cazador gustó y tuvo un movimiento extraordinario que no ha cesado cincuenta años después, edición tras edición.

También hubo movimiento humano. La inolvidable cuadrilla del 55, a la que dedico este libro, se acabó, como suelen terminar los negocios de los hombres, por defunción. Mi padre dejó de «subir gallardamente sus ochenta años ladera arriba» y falleció unos meses después de nacer Lorenzo. También Vicente Presa, mi querido compañero en el crucero Canarias, dejó de existir años más tarde, mientras mi hermano José Ramón, que «solía llevar de postre un tocinillo de cielo» fue más longevo: nos dijo adiós el año pasado, en primavera.

Contra el tiempo nada pueden los hombres, aunque si algunos libros. Y confío que este, cuyo nacimiento comento ahora, sea uno de ellos.

Por que me chamam-me Cão, por Cão

Quando eu era pequenino, quase tão pequenino quanto as carraças que já então, penduradas de meus lóbulos, me faziam parecer com o Johnny Depp em pirata, as vizinhas chamavam-me muito assim

– anda cá meu menino

Vai daí, eu ia. Elas davam-me biscoitos, mas só se eu os apanhasse debaixo da mesa de camilha que elas todas tinham, devia ser sempre a mesma, mudada de andar para andar.
Lá debaixo, depois era assim: os biscoitos tinham pêlos, eram cortados de alto a baixo e escorriam.

Eu lambia.

Modos que me chamam Cão por causa disso.

Ou então é por causa das dívidas.

De qualquer maneira, deixei crescer o pêlo e nunca mais mapareci ao Johnny Depp.
Seu voltar a ter um cão chamo-lhe isso, Depp.

18/05/07

Os Cães, por Zézinho

Os animais são nossos amigos. Os porcos são muito mas os cães são bastante. Os animais servem para muitas coisas e alguns são muitos engraçados. Mas há animais que não têm graça nenhuma. Como as aranhas e as cobras. As tartarugas são muito giras porque andam muito devagarinho e parece que estão sempre a rir. Eu gosto muito de tartarugas. Mas gosto mais de cães. Há cães que são mais giros do que outros. Há cães grandes, há cães peludos, há cães carecas, há cães pequenos e há cães muito pequenos, há cães assim e há cães assado. E há cães mais ou menos e cães assim, assim. Os cães são animais muito inteligentes e fazem muitas habilidades. Na selva não há cães. Os cães vivem nas cidades e nas casotas deles, comem ração e às vezes carne crua. Há cães que roem ossos e há cães que roem tudo. Há cães que não roem nada porque já estão velhinhos e não têm dentes coitadinhos. Os cães cheiram tudo e fazem xixi nos postes. Os cães encontram pessoas enterradas na neve e dão-lhes aguardente. E agora uma poesia:

O cão é bicho amigo,
Brinca com o neto e brinca com a avó,
Brinca comigo e brinca contigo,
Quem tem cão nunca está só.

Pronto.
Fim.

Um Cão Pode Ou Não Ser Usado Pela Dona Para Serviços Sexuais?, por Minetauro


Série Cão – Parte 3

Os Chineses gostam do Cão com rebentos de soja e bambu. Os Vietnamitas preferem-no lacado no forno. Depois, há um montão de países ocidentais e degenerados, em que mulheres e homens preferem o Cão para outras coisas. Apenas assim se explica o sucesso dos lulus bem tratados e melhor alimentados que por aí andam à fartazana. Não é assim de estranhar que um dos extreme porn que mais cresce seja a zoofilia, com os holandeses, alemães e brasileiros a darem cartas. Os americanos e os ingleses em função do crescimento da indústria e dos actos canídeos que começam a aparecer pelos jornais e hospitais resolveram actuar. Os Americanos discutem a lei, e os Ingleses já a aprovaram.


A malta dos direitos dos animais atinge aqui um extremo interessante e que importa aqui discutir no Porco – sempre atento a estas coisas -, uma vez que o resto da sociedade portuguesa cala o assunto!


No Reino Unido, o idiota do Blair sempre pronto a cavalgar qualquer tema que lhe dê a primeira página dos tablóides, já fez aprovar a Sexual Offenses Act 2003, cuja Secção 66-71, proíbe a relação sexual com um animal vivo. E define que tem que haver penetração do animal na vagina ou ânus humano ou penetração humana na vagina ou ânus do animal. Ora, isto deixa-nos desde logo com muitas considerações interessantes. Pode-se comer o Cão, mas não sodomizá-lo. Pode-se fazer um arroz de miúdos com o galináceo, mas vai-se preso se houver penetração do orifico. Atão e o gajo que só quer ver se há ovo? Tem que matar em primeiro para penetrar? A morte serve aqui de charneira para a licitude. Pela simples razão que não se pode comer o animal vivo, e os Ingleses comendo mal ainda não deram em vegetarianos.


Os vizinhos ingleses suspeitando agora que o musculado Grand Danois serve para fins mais recreativos que a mera passeata para a Dª Harriett, podem agora telefonar para a polícia e denunciar a violação do abuso do animal. Mas isto levanta questões chatas, mesmo para a polícia. Suponhamos que a policia rebenta com a porta da Dª Harriett e dá com ela de quatro a aguentar o Grand Danois, que satisfeito faz o serviço intensivo. Qual é o policia que vai lá tirar o monstro e explicar-lhe que estão ali em defesa dos seus direitos? Olha lá!


E quem diz o Cão, diz tudo. Atão pode-se torcer a pescoceira ao Perú e cozinhá-lo recheado a 200 graus no forno, mas não se pode sodomizá-lo? E se se provar que o Peru provocou? Que diabo um homem não é de ferro!

Outras esPiscies, por Mangas




Uma bela manhã,
os peixes apareceram todos a boiar no cimo do aquário.
Ele andou a magicar naquilo tudo
durante muito tempo.

Mesmo depois do veterinário lhe ter falado
na contaminação das águas.

Foi então que começou a ter dores no dente.
Havia momentos em que as dores eram mais intensas
do que outros.

Mas estavam sempre presentes.

Mesmo depois do médico lhe ter receitado
o analgésico,
as dores nunca abrandaram.

Decidido, resolveu arrancar o dente.
Sem anestesia.

Mas as dores continuaram.

Nessa altura,
concluiu não ser possível ter-se tudo na vida
e compreendeu claramente que a morte dos peixes e as dores do dente,
eram efeitos da mesma causa
que, de forma evidente,
tinha a ver com alguma doença incurável que lhe envenenava a alma.

17/05/07

A Avis, Um Anúncio de Matemática Livre E A Balsa do Giz, por Inginheiro

Abaixo De Cão – Série Cão – Parte 2


Eu sempre gostei da Matemática. Infelizmente, a minha matemática não era a matemática da professora. À pergunta 8x8 a resposta nunca era um número simples, mas sim o produto composto de duas ou três páginas de livre expressão artística e puro artesanato, onde abundavam as repetições libertárias do enunciado, alguma bonecada para enfeitar e sobretudo muita palha interrogativa sobre o sentido da vida e porquê da não existência duma árvore leitoeira no paraíso bíblico.


Invariavelmente, acordava destas divagações de olho fechado, com o lançamento certeiro do giz do quadro pela professora Balsa, que não só mandava o bocado de gesso com força superior a MC ao quadrado, como o pedaço de giz ainda ricocheteava na minha cornadura e ainda ia acordar o amigo Picareta, que atrás de mim não só dormia como roncava. MC ao cubo!


Perante o relatório do giz, o meu pai que contava com um Engenheiro, pôs-me a mão no ombro e disse-me com os olhos postos no horizonte (eu não vi bem que tinha um olho negro, mas o velho falou do futuro, pelo que devia estar a olhar pra longe): - Meu filho, desisto, como ainda não abriu a Independente não vale a pena insistir na Engenharia, a Filosofia também era desgraça demais, pelo que, olha vais pra Direito que ainda se poupa uns dinheiritos da avença do Dr Abranches, que me custa os olhos da cara!


Ora, isto tudo para dizer o quê? Simplesmente que para mim, a matemática é um espécie de free jazz, é um território de liberdade criativa, de poesia e de profunda divagação, uma espécie de terra dos livres e pátria dos bravos. É território onirico e só lá entro de noite.


A Avis, esse grande colosso multinacional do aluguer de biaturas, descuidou-se e contratou para fazer um anúncio publicitário com matemática, não um matemático diurno, mas um adepto da free math como eu. E vai daí saiu uma coisa deste género:


- Já sabes da fórmula das viagens?; - Não!; - Conheces a fórmula de Einstein E=mc2?; - Sim.; - Então neste caso, a fórmula é A igual a MT ao cubo!; - Ah, isso é muito complicado!; - Não é nada. A de Avis, M de milhas e T de Tap e 3 de milhas a triplicar, tááraááá, é o Programa Avis que te dá milhas a triplicar, damos 500 milhas e com o programa a Tap dá-te 1.500 milhas.


E termina o anúnciozinho radiofónico com um gongórico: “- Nunca A Matemática Foi Tão Simples!”. Nem mais. E pra mim adepto da Matemática Onirica não havia nada de mal. Tava tudo bem. Free Jazz. Só que a minha filha chegou-me a casa a queixar-se de que a professora de matemática lhe chamou “Menina da Avis”.


Fui investigar e de facto parece que elevar a “potência ao cubo” não é pôr aquilo a triplicar, mas sim a multiplicar. As prometidas 500 milhas, não dão 1500, mas sim 125.000.000 de milhas. É muita milha pra prometer. A matemática é lixada.


A Avis concordou e já refez o anúncio. Agora quando o ouvem já não dizem ao cubo, mas só a triplicar. No meio disto há um matemático onirico da Independente que foi ao cubo à Avis. Avis e Matemática, land of the free, home of the brave! Abaixo de Cão!


PS: Na foto, perscruta-se o horizonte à espera das 125.000.000 de milhas da Avis.

16/05/07

As Bananas, A United Fruit e Um Gajo Que Eu Conheço Que Lhes Tira O Caroço, por Plátano

Série Frutas – Parte 7 – As Bananas
(A Série Cães Seguirá Dentro De Momentos)

As Bananas quando chegaram à Europa vindas dos trópicos, constituíam à mesa dos europeus o máximo de requinte e exotismo, um símbolo absoluto de riqueza. E ao contrário do que muita gente pensa, a banana não é originária da América, mas sim da Ásia. Só que devido à grande facilidade de cultivo da planta herbácea que a dá, a coisa expandiu-se por mais de 130 países, sendo que a América é por natureza o expoente máximo da produção bananeira. Foram os portugueses que levaram a banana da Ásia para o Brasil, de onde se americanizou.

Aí na América Central e Caraíbas reinam os grandes impérios multinacionais americanos da Chiquita, Dole, Fyffes e da Del Monte que produzem e exportam o bananame em quantidade tal, que a coisa desde há décadas que se vende por aqui ao preço da uva mijona.

Gabriel Garcia Marquez revoltou-se com as bananas e berrou bem alto a miséria da exploração bananeira. O Cem Anos de Solidão bebe muito da escravidão amarela. E o Pablo Neruda nunca perdoou também aos impérios bananeiros. Embora não deixe de ser esquisito que ao ler o Canto Geral se tropece num poema intitulado United Fruits Corporation. Garcia-Marquez, Neruda, Angel Astúrias, Fuentes e outros deram-lhes com força tal, que algumas multinacionais tiveram vergonha na cara e foram obrigadas a mudar de nome. Assim onde lerem em Neruda ou Garcia-Marquez, a referência à ignóbil United Fruits, saibam que é a mesma das bananas Chiquita que vocês comem hoje.

A Banana, entre os muitos símbolos iconográficos de que se foi imbuindo ao longo dos anos, teve um que foi esquisito, que é o de estar associada à queda do muro de Berlim. Por incrível que possa parecer, a banana foi um dos factores dessa mesma queda. Os alemães de leste que à sorrelfa e com perigo de vida, viam a televisão da Alemanha Ocidental estranhavam a abundância de bananas na sociedade capitalista. Na RDA e no Leste em geral não havia bananas, a não ser à mesa do “aparelho”, da casta superior (há sempre uns porcos que são mais iguais que outros). Apesar de esclarecidos pela propaganda de leste que aquilo era pura propaganda do oeste, certo é que a malta perdia por completo o norte com a abundância de bananas vindas do sul.

Quando caiu o vergonhoso muro, a Alemanha Ocidental resolveu dar uma oferta de boas-vindas a todos os irmãos da RDA na forma de um pequeno valor em capital da ordem dos 100 a 150€ pessoa. E foi ver as gentes do leste a correrem às frutarias e supermercados e a afogarem-se em bananas. Para eles, era a ascensão ao Olimpo, ao néctar dos deuses que lhes estava a ser negado à décadas. Haja bananas, haja fartura.

E termino com uma coisa verdadeira. E digo verdadeira, porque de tão esquisita que é, vocês podem pensar que é galga. Não é. É verdade, verdadinha e quem não acreditar que diga, que eu vendo bilhetes. É que eu tenho um amigo que tira o caroço às bananas! Já era mau e vinham as empregadas todas ver, quando ele armado em cirurgião tirava as espinhas aos peixinhos do rio torrados, pior ainda quando insistia e insiste em descascar os morangos com faca e garfo, mas o cúmulo do requinte circense é com as bananas. Quando vem o caroço bananeiro para a mesa, o verdadeiro artista pega de faca e garfo e longitudinalmente corta o bicho em quatro partes, e em cruz, com o centro virado para cima. Depois segurando com o garfo o talo tenrinho, o cirurgião corta com a faca e retira para o lado a película de 2 ou três milímetros que a banana tem no centro. Aquela coisinha mais escura com grainhas microscópicas. É um espectáculo digno de reis. E eu tenho bilhetes.

O Yorkshire Terrier do Mourinho, por Kãotraste

Ciclo Cães, Parte 1


Dizem as notícias de hoje, que o Mourinho foi preso na velha Albion, porque se opôs a que a polícia inglesa lhe levasse de casa o canídeo de estimação por violação das regras de quarentena. Segundo rezam as crónicas, o perigoso Yorkshire Terrier terá sido reintroduzido no país sem a vacinação completa. Assim um bocado à lá ganso patola carregadinho de vírus h5n1. A Scotland Yard que deixa que lhe escorram entre os dedos 70.000 crianças desaparecidas por ano, não perdoa nestas coisa dos Terriers e actua com eficácia.

Ora isto é perseguição, pura e dura. O Yorkshire Terrier é inglês, inegavelmente inglês, e o que traz no pelo inglês é e de lá o trouxe! Jamais um bicho daqueles poderia ser português. Falta a queda de pelo, falta o ranço e a frieira, e falta sobretudo o coelho, o gato da vizinha ou perna do carteiro a pender da dentuça ferrada. O Yorkshire não tem que ser apreendido porque é de lá, não é de cá, aliás como o próprio nome, a raça e o estilo indicam. Ainda se fosse um perdigueiro, um serra da estrela, um fila dos açores, um cão-de-água, que devia mudar o nome pra cão-de-pato, um podengo ou um rafeiro, ainda vá que não vá, quarentena que ali há piolho, pulga e carraça latina. Mas um Yorkshire Terrier, pelo amor de deus!


No final, o Mourinho foi preso, mas o Yorkshire ficou. A Yard foi ao que queria e trouxe. Eficácia.

15/05/07

Ciclo Fruta


Maçãs, por Big Apple

De toda a fruta a maçã é a mais ambivalente. Para mim, a maçã é a antítese simbólica da cereja. A cereja é o fruto mais positivo de todos, o mais intenso e forte, o que tem o vermelho mais vivo da natureza. Mas como todas as paixões dura pouco, uma primavera, se tanto, e definha.

A maçã não. É uma fruta híbrida que tanto é amarelada, como avermelhada, como esverdeada. Note-se o pormenor: amarelada, esverdeada, avermelhada, digo bem. Verdadeiramente não há maçãs amarelas, nem verdes nem vermelhas. É uma fruta assim, uma aproximação a uma cor ou a um sabor, quando muito. Há umas maçãs que até têm umas pintinhas castanhas como se fosse sardas do tempo. Não sei porque raio é que um fruto como este não é cinzento que é a única cor que merecia ter.

Ao contrário da cereja que é breve e intensa, a maçã é sensaborona e dura o ano todo. De Janeiro a Dezembro, há sempre maçãs nas prateleiras da fruta dos hiper mercados. Ao pé das cerejas que têm o melhor sabor que pode ter um fruto, as maçãs sabem a coisa nenhuma.

Fico lixado quando penso em maçãs porque quando era pequeno o meu pai tinha uma pequena horta no quintal onde se entretinha a plantar umas árvores. Eu sempre quis ter uma cerejeira ou umas nespereiras, até uma simples romãzeira, mas não, o meu pai embicou que havia de ter um pequeno pomar de macieiras. Tivemos. Durante anos verguei a mola a apanhar as putas das maçãs e foi assim que me tornei um bom aluno, porque o meu pai só me dispensava da apanha da maçã se eu dissesse que tinha que estudar. Estudei, pois. Mas fiquei a odiar maçãs para sempre. Um dia deu-lhes o míldio e o pomar foi todo a vida, graças a Deus. O meu pai não voltou a plantar macieiras no quintal lá de casa, mas também nunca plantou nenhuma cerejeira. Mas vá lá, ainda ganhei uma pequena estufa de morangos, que é da fruta que mais se parece com as cerejas.

Por mistérios insondáveis, a Bíblia fez desta fruta o símbolo do pecado e da tentação. Não faz qualquer sentido. O símbolo do pecado devia ser a cereja. Ou, quando muito, a manga, como muito bem explica o Mangas, uns posts mais abaixo. Adão e Eva deviam ser uns patetas – não há ser humano que, no seu perfeito juízo, arriscasse o Jardim das Delícias, onde devia haver boés de cerejas, possivelmente durante todo o ano, por uma dentada numa miserável maçã. Ainda por cima oferecida por uma serpente. Burros! Foram expulsos e bem expulsos…

Seja como for, daí em diante a maçã ficou sempre associada á desgraça. Os Beatles, por exemplo, afundaram-se completamente quando resolveram deixar a Parlophone e fundar a Apple Records. A editora foi um fracasso, houve conflitos entre os membros da banda que nunca mais recuperou. Para nosso castigo tivemos que aturar décadas de Paul Mcartney a solo e a cantar com os Wings. Um horror! Quando penso na porcaria das maçãs e no mal que causaram aos Fab Four e a nós todos que ficámos impedidos de curtir os Beatles durante mais tempo, ainda fico possesso. Já nem digo que até comia umas cerejas, mas ao menos uns morangos. Sim, uns morangos. Strawberry Fields Forever.

14/05/07

Morangos – Ciclo da Fruta, por Mal Gore

Augusto, gordo atrás do balcão, fixa o nada de olhar perdido para as bandas difusas do outro lado da montra. O merceeiro silencioso reflecte nas contingências da vida e espera vagamente pelo próximo cliente. A mercearia de Augusto, homem de 54 anos e alguns meses, abarrotava de mercadoria diversa à maneira das velhas mercearias de bairro de outros tempos, como se houvera parado no tempo. À excepção de alguns melhoramentos cromados aqui e ali e das novas gamas de mercadoria mais colorida que noutros tempos, tudo permanecia como dantes na mercearia Mimosa, apenas mais gasta, como Augusto, que envelhecera atrás do balcão de madeira coberto com plástico de padrão aos quadrados. Estamos em finais de Abril e Augusto dá consigo a pensar que é quase época do morango. Um frémito de prazer lúbrico percorre-lhe o corpo gelatinoso e Augusto antecipa orgias vermelhas.
Junho. Augusto, gordo atrás do balcão, fixa o nada de olhar perdido para as bandas difusas do outro lado da montra.
- Boa tarde senhor Augusto!
O fornecedor de morangos irrompe espalhafatoso pela mercearia e Augusto desperta do torpor com um arrepio na espinha. Começou.
Como sempre, Augusto compra cinco grandes caixas de morangos. O fornecedor já nem pergunta para que quer ele tanto morango. Já se habituara a este estranho pedido. Normalmente as mercearias compram uma, quanto muito duas caixas, de cada vez e mais bastas vezes, devido à rápida degradação do fruto exposto. Mas na Mimosa, não obstante a fraca freguesia, era sempre assim no princípio da época morangueira e o fornecedor já desistira de perguntar ou aconselhar.
Augusto colocou uma das caixas à porta com preçário toscamente manuscrito e guardou as restantes quatro no pequeno armazém das traseiras. Regressou pesadamente para trás do balcão pensativo, agora com um sorriso enigmático no rosto que lhe dava um certo ar de imbecil contente. Ao fim da tarde baixou as grades das montras, carregou a Kangoo com as caixas de morangos garridos e abalou de sorriso idiota para a casa térrea e isolada nos arrabaldes semi-rurais a norte de Coimbra, onde morava na companhia de dois cães, quatro coelhos, dois pombos e quatro gatos.
A cave de Augusto fazia lembrar uma enorme casa de banho sem o respectivo mobiliário, completamente branca, forrada de cima a baixo com azulejos brancos, asséptica e sem qualquer decoração. A um lado da divisão estava uma banheira branca das antigas, vitoriana, com pés de ferro e cerca de metro meio de comprimento, sob a qual pendia uma roldana. No tecto alto, apenas uma lâmpada nua pendurada por um fio cru.
Depois de ter arrastado as caixas de morango para a cave, Augusto encheu a banheira com os frutos e saiu.
Interlúdio contextual: Todos os anos era assim, há mais de trinta anos. Os primeiros morangos do ano motivavam este estranho comportamento do solitário merceeiro que fora, em criança, sodomizado repetidamente por um agricultor dono de um campo de morangos onde Augusto trabalhava nas férias escolares. De modo que este ritual anual era fruto de um trauma de infância de natureza anal.
Rapace, Augusto percorreu nessa noite as ruas sombrias de Coimbra. Acabou por estacionar a carrinha na avenida ribeirinha paralela ao estádio Universitário, na margem esquerda do Mondego. Não esperou muito. Com sinais de luzes atraiu um dos jovens que por ali se prostituíam.
- O que é que você quer? Perguntou o rapaz já dentro da carrinha.
- O que é que havia de ser? Respondeu Augusto, adiantando 20 euros para a mão do prostituto. Vamos para um sítio mais discreto. Em minha casa dou-te mais 20 euros.
O rapaz concordou com um encolher de ombros e seguiram os dois para a velha vivenda isolada. Ao entrarem na casa, Augusto agarrou num cacete encostado atrás da porta e desferiu uma pancada sem cerimónias na cabeça do rapaz, que caiu redondo no chão sem um ái, inconsciente. Augusto arrastou o corpo para a cave, despiu-o e amarrou-lhe os pés e as mãos. Enquanto o jovem despertava, gemendo confuso, Augusto içou-o pela roldana, fixando um gancho no nó que lhe atava os tornozelos. Horrorizado, o rapaz debatia-se de cabeça para baixo gritando inutilmente, cerca de metro meio acima da banheira de morangos, enquanto o merceeiro se despia impávido de sorriso imbecil nos lábios.
Alheio ao terror histérico do rapaz, Augusto entrou na banheira. Sensivelmente à altura do seu peito, a cabeça do rapaz agitava-se freneticamente. O merceeiro agarrou-lhe então firmemente pelos cabelos, imobilizou-o e, com um golpe certeiro e silencioso, cortou-lhe o pescoço atingindo a carótida. A artéria rasgada começou a jorrar como uma mangueira descontrolada, espirrando vermelho pelo chão e pelas paredes imaculadas da cave e por todo o corpo obscenamente nu de Augusto, que entretanto se deitara naquela imersão de morangos e sangue. À medida em que se esvaia, o rapaz pendurado pelos pés foi-se imobilizando e o sangue começou a cair em duche de borbotos, num fio de liquido quente e rubro constante, em cima da banheira onde Augusto se espojava e se masturbava no intenso vermelho da papa de morangos e sangue.
O festim durou perto de meia-hora. O jovem não demorou muito a morrer e Augusto ejaculou três vezes em poucos minutos. Depois deixou-se ficar deitado na banheira, refastelado na polpa de sangue e morangos, olhando com uma expressão de intenso prazer para o corpo do cadáver dependurado por cima de si.
Uma hora depois, enterrado o cadáver no quintal e limpa a cave, Augusto já a cheirar a shampoo de rosas, preparou um chá quentinho com biscoitos, afundou-se no sofá e ligou a televisão, onde começava um episódio do CSI Las Vegas.

Little Oral Annie, The Queen Of Deepthroat, por Sardanápalo

Para o porno-analfabeto mais comum pode parecer esquisito que a grande campeã do Deepthroat não seja a Linda Lovelace do Garganta Funda! Pois não é! The Big Queen Of Deepthroat é a LOA, Little Oral Annie, de seu nome real Andrea Parducci, neta dos Parducci dos tintos californianos, que entendeu largar os vinhos e dedicar-se aos leites. Perdeu-se uma enóloga, mas ganhou-se uma engolidora de espadas.


É certo que o Deepthroat e a ex - stag movies star Linda Lovelace (qual violação, qual carapuça), são as grandes referências do sexo oral profundo. Contudo, ninguém aprofundou tanto tal ciência como a sex star Litle Oral Annie. Esta senhora era uma perfeccionista e depois do lançamento da moda pela Linda Boreman, foi ela quem investigou a fundo o problema larinjo-esófágico. Isto é: Como engolir o Sardão até mais Não!


Dirão vocês, pois então o que fez a Linda? Certo, também o fez, mas o Harry Reems do Deepthroat, apresentava uns míseros 17 a 18 cms, ao passo que o John Holmes amandava-se com 34 cm de comprido por 6 de diâmetro e a Little Oral Annie regurgitava aquilo tudo até bater Beiçola com Barrigola. Do Rei, claro. The King. Haja respeito e Paz à sua alma. Que a Força esteja com ele!


Já imaginaram 34 cms lá para dentro? E mais 6 cm de diâmetro! Irra! É preciso amor à arte. E dirá o estimado leitor: Impossível! Não, não é, e a Parducci, também ela defensora do Não há Impossíveis, fez Eureka dando com a maneira de esófagar o menir. O melhor exemplo é o filme “Thunderland In Wonderland”, onde a Little Annie contracena com Holmes. Como não se pode mostrar aqui o filme, a gente passa a explicar: basta meter a mão num boião de Vaselina e rechear a boca e garganta com doses generosas da viscosa e milagrosa pomada, que tão altos e profundos serviços tem prestado à humanidade. A menina Loa, fazia-o e em abundância. Fazia e ainda faz um bocado de impressão, mas que diabo os porcos comem coisas bem piores e andam gordos.


A Little Oral Annie, nascida em 1960, vive hoje em San Jerónimo na Califórnia onde vive com o músico Buddy Owen e dois filhos. Retirou-se das lides de engolidora de espadas, no final dos anos 80 com cerca de 35 filmes no curriculum, por onde passaram sardões bem aviados como John Leslie, Jamie Gillis, Tom Byron e Ron Jeremy. Haja vaselina que a coisa vai.


Mas também aqui há um episódio caricato. A polémica instalou-se na indústria e a coisa acelerou o fim da carreira da santinha, quando esta teimava e se recusava sucessivamente a contracenar com actores negros. Nem curtos nem compridos, nem largos nem estreitos. A menina que até fez filmes de bondage arrepiantes de dor, que engoliu o mastodonte do Holmes, que empalou o eucalipto do Jeremy, que encantou a cobra cuspideira do Byron e que engoliria o mundo desde que lhe dessem um bojão de pomada, recusava a negritude. Traçou a sua linha na cor da pele e dali não passava Pretos é que não. Nem com vaselina.

13/05/07

MANGAS, por MANGAS

“Vinha passar os fins de semana a casa. Todas os sábados, às três da manhã, ele acordava com a garganta seca, levantava-se, caminhava pelo corredor escuro em direcção à cozinha e descascava uma manga sumarenta. Senti-a escorregar nas mãos, cortava-a às fatias e chupava o caroço. Depois, dirigia-se outra vez para o quarto, deitava-se com o cabeça no colo dela, besuntava-lhe o sexo com o sumo de manga, chupava-o delicadamente e só então, vinte e quatro horas depois de ter chegado, é que lhe enterrava o pénis nos lábios frutuosos. Ela, durante muito tempo, pensou que havia uma relação metafísica entre as mangas e a felicidade de uma boa foda e que, por qualquer motivo, cada homem encontraria, eventualmente, um sabor estimulante no seu fruto de eleição. O do marido, descobrira por mera casualidade, era a manga. Por esse motivo, nunca deixou que faltassem mangas lá em casa durante todo o ano. Havia subtileza naquela cumplicidade. Nunca falhava. Era troca por troca. Lavava a loiça depois do jantar, fazia-lhe companhia em frente à televisão, duas ou três perguntas triviais e outros gestos de rotina a que se habituaram à falta de melhor, apercebia-se bem que tão depressa podiam pisar a mesma terra que os separava como levantar voo um dia destes em direcções opostas, quando menos se podia supor. Retirava-se para o quarto com um beijo, despia a roupa, enfiava-se dentro do robe transparente, esperava por ele acordada, esperava o fecho da emissão, esperava o tempo que fosse necessário, adivinhava-lhe os passos na escuridão a caminho do frigorífico, pressentia o gume afiado da faca a deslizar na manga, e sentia-se a escorrer enquanto pensava naquelas coisas que iriam fazer quando ele se enfiasse na cama. Uma transacção de sabores com consentimento mútuo de ambas as partes. Ela dispunha-se a encher o frigorífico de mangas frescas e ele retribuía-lhe com estocadas sumarentas em cima e fora da cama, até ela se fartar. A fixação dele, pelos frutos, era recíproca nela pela vontade em se desarticular todos os sábados de madrugada numa espargata insaciável, deixar-se atropelar contra o soalho do chão e acordar no dia seguinte com nódoas negras por todo o corpo.
Algum meses mais tarde, fazia precisamente nesse sábado duas semanas que ela começara a ter lições de piano lá em casa, com um professor italiano, para ocupar o tempo, (incentivara-a o marido no sofá da sala sem desviar o olhar da Big Show Sic), ela foi deitar-se mais cedo do que o costume sem se despedir com o beijo habitual. Ele estranhou esta quebra no protocolo, foi espreitá-la e estranhou outra vez quando a viu adormecida. Profundamente adormecida e sossegada como não se lembrava de a ver desde que casaram. Sem perceber muito bem o que se estava a passar, dirigiu-se à cozinha, tacteou a porta do frigorífico, a luz acendeu-se e na prateleira onde habitualmente encontrava as mangas com a pele verde sarapintada de pontinhos castanhos, encontrou uma boa meia dúzia de maçãs avermelhas e carnudas.”

Nêsperas, por Dog

Não. O problema é todo masculino. A gente gosta de cerejas e mudas de estações. Depois, porém, casamos, com surdas de estações.

Vivam as cerejas, por Cardeal Cerejeira

Chegaram as cerejas, yupiie! Ontem pela primeira vez este ano vi as vendedoras de cerejas à beira da estrada. Comprei logo dois quilos! Ando o ano inteiro a sonhar com Maio por causa das cerejas. Começou ontem e no próximo mês vai ser um regalo.

O Elogio de Lourenço

Vitorino Magalhães Godinho, Vasco Pulido Valente, Fernando Catroga e Eduardo Lourenço são, na minha opinião, os mais brilhantes intelectuais portugueses vivos. Todos têm em comum a portucalidade como objecto, o discurso histórico reflexivo como método, o género ensaístico como forma preferida de expressão, a pedagogia indissociável do discurso ideológico, a desmistificação e dessacralização da memória colectiva, o descomprometimento em relação a qualquer ortodoxia, o rumo errante que não compromete a coerência da obra e a profundidade do pensamento.
Filiam-se numa tradição que remonta ao idealismo racionalista e que vê no exercício da crítica um caminho de libertação e afirmação da subjectividade que se compromete, contudo, com a História e com as grandes ideias enformadores da Humanidade. Uma tradição que, em Portugal, recolhe raízes em Verney e prossegue a memória de Herculano, da inquietação da geração dita de 70 e de Antero, o seu vulto cimeiro, de António Sérgio e do seu magistério reformador, para citar apenas algumas referências. É o melhor que Portugal tem.

Vem isto a propósito de uma imperdível entrevista que Lourenço dá à revista «Pública» de hoje. As suas origens, a ruralidade beirã, a memória vaga do Porto, difusa na névoa da primeira infância, a formação em Coimbra e o contacto com os neo-realistas, Torga, Régio, Paulo Quintela, Carlos de Oliveira e outros. O seu catolicismo matricial, o elogio de Bento XVI, o iberismo com fundamento de uma identidade, o contacto com a cultura francesa, a vivência do Maio de 68, o comunismo ortodoxo e o papel da Rússia na relação com a Europa, o juízo que faz sobre Steiner, as suas leituras, Pessoa e muitos outros temas que fazem de Lourenço o mais brilhante analista da portucalidade. Conhecê-lo é conhecermo-nos. Sobre poucos se pode dizer semelhante coisa.

12/05/07

Carta de Amor, por Dr. Desincha e Passa phd

Contribuição documental para a História dos Hábitos e Costumes: Folha encontrada abandonada numa rua da Figueira da Foz no dia 11 de Maio de 2007, exemplar notável de romantismo epistolar contemporâneo:

"Olá querido tás bem? Já não te dói tanto? Eu estou assim, assim, é como o tempo. Amor eu estou um pouco triste e contente ao mesmo tempo contigo, eu nunca supunha que tu com 19 anos, ainda fosses virgem. Amor tu já sabias que eu não era, já me tinha tirado os 3, o rapaz que eu namorei, como eu te tinha informado, quando começa-mos o namoro, mas também podias ter sido correcto, a contares-me o mesmo de ti, eu nunca acreditei nisso palavra. Eu como sabes com o outro, que foi um ano, fazia-mos muito sexo, espeçialmente no cú e na boca, na paxaxinha, era dia sim dia não, ele tinha um bom comprido e grossão pichotão, lá nisso era bem aviado e até demais.
Estou feliz, por ter desonrado um rapaz, qualquer mulher gosta, assim como o vice-versa. Amor o problema não foi na paxaxinha, nem na boca, foi me teres introduzido no meu cú, é mais apertado e tu já devias ter arrebentado, esse veio, que vai até à cachola, alguns até fazem a circunssizão, tu enfias-tes tudo de uma vez. Claro rebentas-tes com ele, era só sangue, ainda me sujas-tes toda amor, quizes-tes fazer tudo ao mesmo tempo, é assim. Agora amor, 2 a 3 dias isso está bom, vai pondo betadine, isso desincha e passa. Querido tu tens cá também um martelo, cuidado com ele, isso tem alguns 24 centimetros e parece que foi mordido por um abelhão, tão grosso é. Amor liga-me logo.
Tá bem amorzinho as melhoras, tenho que te dar beijinhos na cachola.
ass."

11/05/07

Ah Ganda Pedagoga, por Sinistro da Educação


O novo mega sucesso do you tube é este vídeo http://www.youtube.com/watch?v=W9mU22TOLfs&mode=related&search=.
Também podem digitir Milu que vão lá ter. A Milu é a Ministra da Educação deste governo. Já lá temos o inenarrável Pinho da Economia, temos o Mário Lino da piadola sobre o Socras (pois, esse mesmo Lino que disse que ele era engenheiro, «mas a sério» (risos!). E a Milu é aquela senhora seráfica cuja foto já não conseguimos olhar sem ouvir um coro de apupos que parecem acomapnhá-la peermanentemente onde quer que vá.
Neste vídeo podem ver a ministra ao desafio com os alunos que a apuparam. Ai ele é buu? Pois eu tenho microfone e ainda faço buus mais sonoros que os vossos, diz ela. Depois é deliciarmo-nos com um concurso de buus entre a ministra de um lado e os estudantes do outro. Parece que, apesar do microfone na posse da ministra, ganharam os alunos! Isto é que é pedagogia, carago, se a moda pega... Vão lá ver ao youtube. É tudo verdade, juro!

Os anos 70 no cinema americano - epílogo: o duelo final

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Em 1969, Charles Manson mata barbaramente Sharon Tate, a jovem esposa de Roman Polanski, grávida e no recato do seu lar. Manson julgava-se uma encarnação de Jesus Cristo, reclamava-se em comunicação directa com a fonte mística inspiradora dos Beatles e supunha-se destinado a travar um combate final. Pelas paredes do cenário do crime deixou marcas de sangue e crueldade e escritos que encerravam ameaças terríveis, insultos e referências a músicas de Lennon e McCartney. É o fim traumático do sonho hippie e do psicadelismo onírico dos anos 60. Findam os tempos dionisíacos, a consciência parece retomar o seu domínio, Scott Mckenzie já não pede para virem a S. Francisco com flores no cabelo. A cidade é agora o palco de Scorpio, o tarado assassino que usa o símbolo pacifista na fivela do cinto, e do seu antídoto, Dirty Harry. É um duelo final, quase bíblico, entre as forças opostas.

Harry Callahan usa o cabelo comprido simplesmente porque não tem tempo para o cortar, não usa jeans nem camisas indianas, prefere um discreto tweed com gravata e calça de fazenda vincada. Fala pouco, não tem família nem amigos, é viúvo [saravá, Mangas] é anti-social. Harry é o último guardião da lei e da ordem. O poder está enfraquecido, o hipócrita, temeroso e potencialmente corrupto Mayor é uma caricatura, incapaz de enfrentar a ameaça psicopática. Resta Callahan.
O filme começa com um plano do memorial aos polícias de S. Francisco mortos no cumprimento do dever. É pois um filme ideologicamente comprometido com o resgate de uma memória esquecida. Ainda que, e a título de exemplo somente, pela lista surja um tal Gordon J. Olivera, cujo apelido me suscitou a atenção. Na busca, descobri um Gordon Oliveira que morreu vítima de um lamentável acidente de viação, deixando viúva e órfãos, e não por qualquer acção criminosa. Se é certo que a personagem de Scorpio se inspira num obscuro Zoodíaco, figura sinistra e nunca capturada que, em 1968 e 1969, aterrorizou a população de S. Francisco com uma série de assassínios, também não é menos verdade que o agente Oliveira morreu num desastre de viação. A evocação da sua memória, ainda que fugacíssima, em relação, ainda que não explícita, com um psicopata ficcionado no mesmo filme é uma realidade desmentida nos factos. Mas isso é o que menos importa, Oliveira poderia ter sido uma vítima do Zodíaco, tal é o que vale no plano ficcional, e é este o eixo que se deve considerar como alicerçando toda a trama narrativa.

A personagem do psicopata é representada por Andy Robinson, um tarado que, do telhado de um arranha-céus atinge uma vítima inocente, a primeira de uma série com que aterroriza a cidade. Num segundo ataque, rapta uma outra jovem, exigindo um resgate. O Mayor cede e é a partir daqui que se desenrola toda a história, expondo-se a incapacidade, derivada da falta de firmeza, a ineficácia e o excesso de contemporização da autoridade, da Justiça e da Ordem, para capturarem Scorpio. Este, em face desta incompetência, torna-se mais ameaçador, raptando uma jovem inocente que mantém cativa, fazendo exigências que, invariavelmente e para desespero de Callahan, merecem a anuência das autoridades. Callahan decide-se então a agir por conta própria, sem mandato judicial e com o desconhecimento dos seus superiores, completamente só. Como no Oeste. Persegue Scorpio à revelia, sem mandato judicial encurrala-o, domina-o, fere-o e tortura-o até lhe extorquir a informação que deseja, o paradeiro da rapariga raptada. Scorpio exige um médico e um advogado, o que mostra como está bem ciente dos seus direitos, não é um lunático e tira partido do excesso de liberalidade do sistema americano. Harry despreza-o e tortura-o ainda mais, calca-o na perna esfacelada, provocando-lhe um esgar imenso de dor que ecoa pelas arquibancadas desertas do estádio. A estratégia de Dirty Callahan produz efeito, Scorpio confessa. O facto, porém, é que a moça é encontrada morta e o raptor é libertado, posto que o formalismo da lei declarou nulo todo o processo que conduziu à captura do criminoso. A lei, mais uma vez, protege os criminosos, enquanto as vítimas inocentes desfalecem sem protecção e o próprio Harry se vê a braços com a Justiça que o acusa de haver desrespeitado os direitos de Scorpio. Uma lei que não presta, indigna-se Harry, mas apesar de tudo lei. Tal é, em suma, a tese de Clint Eastwood, a tese que a América sempre gostou. O que resta afinal? Posta a questão nestes termos, ou nos conformamos com a situação, ou regressamos ao modelo das origens: um homem, uma moral e uma arma. Lembremos que Eastwood é amigode Charlton Heston da NRA, National Rifle Association e tem posições próximas desta associação.

É este o caminho de Harry que, daqui em diante, retirado da polícia e por conta própria, será a sombra de Scorpio que é restituído à liberdade. Persegue-o pelo sub-mundo de S. Francisco, pelos bares penumbrosos, pelas vielas sórdidas. Gonzalez, o parceiro, abandona a polícia, será professor, Harry é o último guardião da moral e da rectidão. Numa encenação extrema, a cidade depende dele, mesmo que não tenha inteira consciência do perigo. E quando Scorpio volta a atacar, porque o Mal é incorrigível, tomando de assalto uma carrinha escolar carregada de crianças inocentes, - quão ingenuamente maniqueísta é a encenação -, resta Harry. 

A perseguição é hollywoodesca e famosa. Dirty Harry persegue-o até uma velha mina, ainda em laboração. Quando Scorpio avista Harry, anunciando o duelo, balbucia: «Jesus». Justamente a primeira palavra do filme, quando Harry lê o pedido de resgate que o assassino deixara no primeiro crime. O duelo final é bíblico, mas na variante western spaghetti adaptada, chegando mesmo a ser patético, de tão sentimental, previsível, encenado e maniqueísta. Mas a verdade é que, apesar de todos estes impiedosos defeitos, a cena é magistral, e aqui reside o profundo fascínio das personagens de Clint Eastwood. O criminoso é morto, a tiro de Magnum, o seu cadáver flutua no charco abandonado, ninguém acorre ao local, estranhamente, e Harry guarda o pistolão.

No fim, retira o distintivo da carteira, contempla-o entre as mãos e interroga-se silenciosamente. A consciência da América fica em suspenso. A pergunta é para toda a América e, de tão poderosa, dispensa as palavras. Harry levanta o olhar, com uma dignidade insolente e incompatível com a lei, que não presta. Decide-se. Lança o distintivo da polícia para o lago. É um manifesto de recusa e protesto. Vira costas, e vai-se embora. À maneira de John Ford, a câmara sobe e fixa-se no cenário imenso da mina abandonada. Mais do que uma renúncia, a retirada de Harry é o nascimento da reserva moral da América. Scorpio, isto é, Charles Manson, jaz morto flutuando num pântano. Como deveria ter sido.

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09/05/07

Maddie, por G3

Portugal comoveu-se com o caso do desaparecimento da Maddie. Oxalá a encontrem e seja punido o criminoso que a raptou. Mas há uma questão que não pode deixar de ser colocada: a da quantidade dos meios envolvidos na operação de localização da miúda, em contraste com outros casos de crianças portuguesas raptadas. É claro que está muito bem que se mobilizem todos estes meios para encontrar a pequena britânica. Certo. Mas a questão que fica é: porque é que não se mobilizaram meios idênticos para se recuperar o Rui Pedro, por exemplo, desaparecido há 4 anos? E todas as outras crianças portuguesas desaparecidas ao longo dos últimos anos?

O normal devia ser o que acontece actualmente, a mobilização social, policial, política, institucional e mediática em torno do desaparecimento de uma criança. Nenhuma sociedade devia tolerar calmamente casos como este. Mas, infelizmente, salta à vista de todos que assistimos à excepção e não à regra. Se não fosse inglesa, mas portuguesa, a pequena vítima, ainda seria assim – é a dúvida legítima que subsiste? E se fosse uma criança portuguesa a desaparecer em Inglaterra – comportar-se-iam as autoridades britânicas como as portuguesas se estão a comportar? Sinceramente, a julgar por algumas manifestações chauvinistas, mais ou menos habituais nos ingleses, tenho as minhas dúvidas.

Foto: David Hamilton, Pureza

Os anos 70 no cinema americano - III: Callahan na Cidade do Vício

O novo psicopata que Callahan combate é um novo tipo de criminoso que, na tese de Eastwood, resulta da liberalidade consentida nos costumes pela década do flower power. Todos os excessos têm o seu reverso e quando a norma moral é quebrada, mesmo que em nome dos melhores princípios como o amor livre e o pacifismo militante, abre-se também a via à infracção de sentido contrário, isto é, a violência gratuita.

A liberdade sexual que caracterizou os anos 60 merece a reprovação de Harry. Ela é a causa de todos os males. Harry Callahan representa, no seu modo muito peculiar, a América puritana. No filme, o irlandês Callahan tem um quase-alter-ego, um sacerdote católico que é dado como alvo e usado como isco. Scorpio, o criminoso psicopático, prepara-se para actuar à porta de uma igreja. Sob um anúncio de néon que anuncia «Jesus Saves», Harry está vigilante, qual arcanjo, trocando, na sequência, um violento tiroteio com Scorpio. O realizador Don Siegel divaga aqui em torno do famoso esquema da «Janela Indiscreta» de Hitchcock, pondo Callahan a vigiar com um par de binóculos, a partir da rua, o que se passa no interior das habitações. A intimidade dos jovens inquilinos é assim publicamente escrutinada, e o que Harry vê merece censura moral e adivinha-se logo quando se admite que a privacidade possa ser escrutinável: é sexo não convencional. O olhar moralizador da América que Eastwood representa exige a admissibilidade da perversão privada, e atalha-a pela devassa, ao mesmo tempo que julga assim garantir a ordem pública.

Há, neste sentido, uma cena no filme que revela como o abandono dessa moralidade matricial esteve na causa do vício, da perdição e do crime irracional, quando Callahan segue no carro patrulha, noite alta, acompanhado peloo seu parceiro, um hispano-americano de nome Gonzalez formado em Sociologia, ciência que Harry considera completamente inútil. Seguem pelas ruas da depravação e do pecado, pela baixa da cidade. Os néons anunciam casas de streep tease e peep shows, as prostitutas exibem-se, S. Francisco é a moderna versão americana da Cidade do Vício. Enquanto deambulam, o rádio policial descreve um suspeito de homicídio, estabelecendo-se assim uma relação entre a desregulação sexual, o crime violento e a insegurança pública. Callahan comenta com o parceiro: «These loonies. They ought to throw a net over the whole bunch of them.» É ele o detentor da semente da virtude, inseparável da moral e da autoridade, e por ele se fará o regresso à ordem. Callahan aparece deste modo como um novo profeta do Antigo Testamento que anuncia um tempo novo, evangélico, de inauguração de uma nova ordem construída sobre a salvaguarda da autoridade. Antevê-se um duelo bíblico.