27/02/04

BILÚ, BILÚ, BILÚ..., por SimplistaPrateado

“Eu devia ter uns 7 ou 8 anos. E foi um regalo quando o descobri. Acompanhava o meu tio Marcolino na poda da vinha da Lameira e brincava na ribeira com o meu primo. Mais em baixo numa cascatazita o meu primo, de idade semelhante, fazia azenhas de cana e vime. E foi quando o descobri, numa regueifa de ervas e a tentar fugir, estava um Cágado. Carapaça dura, verde escura e quatro pernitas a pedalar. No ar, porque de imediato o levantei. A cabeça recolheu à armadura e o meu primo acorreu de imediato com os meus berros de júbilo. Um cágado e meu, só meu. Vingava-me ali e pra sempre, da maior habilidade do meu primo em apanhar grilos, cega-regas e demais bicharada campal. O rival ficou aniquilado. Um cágado dava pra milhões de grilos e cega-regas.
- Tá morto estúpido, deita fora!, dizia o bruto do meu primo a julgar que colava.
- Morto o caralho, ólha aqui, bilú, bilú, bilú...
E o cágado, sentindo o apelo do bilú e algum conforto instintivo pela ternura da criança, lá pôs a cabecita de fora, como que a investigar o futuro...
-Tás a ver, animal, morto estás tu!
- Ó pai, ó pai, ólhó co primo agarrrou!, berrou de imediato o meu primo.
O meu tio Marcolino, que entretanto tinha terminado a poda e andava na apanha da caracolada, logo veio ver a coisa.
- É lá rapaz, um cágado, ganda apanha, isso é uma coisa muito rara, antigamente é que havia muitos, nino.
E enquanto eu continuava a segurar firmemente o cágado, com medo de alguma manobra paterna que mo tirasse pró meu primo, o meu tio Marcolino, começou a gesticular e a imitar a voz própria da meiguice:
- Bilú, Bilú, Bilú...,
Mas o cágado não respondeu à meiguice de falsete e a cabecita continuou fechada no cofre.
- Faz tu, nino!
- Faço o quê, tio?
- O Bilú, a ver se ele põe a cabecita de fora!
E eu, inocente e contente, lá fiz:
- bilú, bilú, bilú...
E o cágado meiguinho lá pôs a cabecita de fora. Num ápice, o meu tio, com uma rapidez impressionante que nos apanhou a todos desprevenidos, cágado incluído, afinfou-lhe uma castanhada na cabecita, com os nós dos dedos virados pra baixo. Deixei cair o cágado no chão e só tive tempo de lhe ver a cabeça de lado, com o pescoço num ângulo impossível, porque logo o meu tio Marcolino o apanhou e nos fez segui-lo, dizendo:
- Com estes bichos é assim, mocada fulminante e vou sangrá-lo já pra casa, senão depois sabem mal!
A choramingar lá fui atrás dele pra casa, incapaz de reagir à dor imensa e ao ar de gozo do meu primo, que retomou o ar de supremacia de rei do campo e da bicharada.
Meia hora depois, estávamos os três de volta de uma caçoila fumegante, de onde subiam os vapores fortes da assadura de vinho tinto, misturados com a delicadeza da salsa, do tomilho e de algumas malaguetas. A boiar lá pelo meio da caçoila estavam os bocados cortados do meu cágado. Uma pernita assumia ao cimo de vez em quando e a carapaça, reluzente da cozedura ia passando de lado.
Foi uma das melhores caçoilas de carne assada em vinho tinto que jamais comi. Rapámos tudo até lamber os beiços. Embevecido o meu tio elogiava-me:
- Ganda apanha, nino, quando apanhares mais já sabes.
Voltei ainda muita vez à ribeira da Lameira, mas nunca mais apanhei nenhum cágado. E enquanto lá andava, assaltava-me sempre o mesmo dilema: - e se apanho algum, brinco com ele, ou levo-o ao meu tio Marcolino?.
Ainda hoje, quando vejo algum documentário na televisão com tartarugas, fico comovido e vêm-me ao mesmo tempo as lágrimas aos olhos e a saliva à boca. E o dilema continua.

26/02/04

ÓDIO E AMOR, por MANGAS e CHARLES VIDOR

O DESPREZO, por MANGAS

“Desprezo quase tudo em ti. Ainda me falta descobrir o que não desprezo. Desprezo essa tua pretensa cultura intelectualizada que aprendes nos artigos cabotinos sem perceber uma única linha, desses jornais de fim-de-semana, com suplementos para tudo. Ou nesses livros estéreis que lês, escritos por autores estrangeiros, cujos universos criados se identificam com o teu, tanto quanto um elefante tem asas ou o teu sexo é feliz e sobre os quais se escrevem toneladas de papel morto. Não só nunca leste Torga como não conheces Aquilino, vê lá tu...! Desprezo esse teu narcisismo pedante, esses teus gestos de solidariedade natalícia adaptados às circunstâncias e que executas por uma necessidade inabalável de estima pessoal. Pouco me importam esses teus delírios de auto-compaixão que poucas vezes te obrigaram a cometer o sacrilégio de expores os teus medos ou revelares o que te vai na alma. Os teus diálogos são mais chatos que a Roda da Sorte. Se escolheres branco, eu escolho preto. Se beberes esses licores cremosos de aroma meloso, sabor macilento e coloridos de icterícia, deixa-me o vinho, tinto de preferência, carrascão ou a martelo: embebedo-me à tua frente enquanto o diabo esfrega um olho e faço o pino, para mostrar a essa tua imbecil aparência de camaleão amestrado que o olhar tem várias aparências. É tudo uma questão de ângulo. Deixa-me dizer-te tudo isto, para que não haja equívocos entre nós. Para ficar bem claro que não pertenço á tua tribo, nem compartilho os teus ideais de revolução caramelizada.
Se queres saber, prefiro olhar perdido durante horas, do cimo de uma mesquita em Marrakech, para as dunas esquecidas no deserto, do que a tua companhia.
Apesar de não te conhecer. De nunca te ter falado sequer.”
Queens, N.Y. Dezembro/93


GILDA, de CHARLES VIDOR

(...)
- Acho que é uma boa estratégia rodeares-te de mulheres feias e de homens bonitos.
- É verdade. Já o conhecias.
- Quem?
- O Johny.
- O Johny Farrel?
- Sim.
- Não.
- Não me mintas, Gilda. Nunca me mintas.
- Estou a dizer a verdade. Não o conhecia. Acho que nunca o conheci, Ballin.
- Estou a perceber. És uma criança, Gilda, uma criança linda e ambiciosa. Diverte-me dar-te coisas bonitas, porque as aceitas com enorme voracidade.
- Mas não devo cometer erros.
- Não, não deves.
- Se estás preocupado com o Johny Farrel, não estejas. Eu odeio-o.
- Ele também te odeia, como é bem evidente. Mas o ódio pode ser um sentimento muito excitante. Ainda não reparaste nisso?
- Dizes isso como se...
- É um sentimento reconfortante. Não sentiste isso esta noite?
- Não.
- Pois eu senti. Reconfortou-me. O ódio foi a única coisa que sempre me reconfortou.
(...)

25/02/04

Cães Danados, por Gengis Kahn

Este fim de semana estive em Cascais. A última vez que por lá passei, há uns anos atrás, fiquei com a ideia de que aquilo ainda tinha uma certa qualidade de vida. Mas agora, em 2004, passou por lá uma vereação do Judas. O caos urbanístico é já uma evidência. Há ali gente a mais, urbanizações «de qualidade» a mais que eu não distingo de Amadoras sub-urbanas. Resta-lhe o mar, vá lá, vá lá, que os empreiteiros ainda não se lembraram de construir no mar...

No domingo andei a passear por um sítio dantesco chamado Torre, lá no meio daquilo. Imaginem um espaço relativamente pequeno com prédios atafulhados. Imaginem as 20 000 pessoas que lá vivem. Agora imaginem que, num ratio normal para a população portuguesa, cada famila tem pelo menos um canídeo. A média é, com certeza, mais alta, tendo em conta que há famílias que têm 9 e 10 cães. Mas deve dar qualquer coisa como uns 5 mil cães num espaço super -exíguo.
Resultado: os gajos que lá moram nem devem notar, de tão habituados que estão, mas eu, que andei a passear por lá às 11 da manhã - hora do passeio do bichinho - até enjoei com o fedor pestilento a merda e a mijo de cão! Puta que os pariu! É bosta nos canteiros, bosta nas árvores, bosta ao pé dos prédios... É mijadela em cada roda de carro, é tanto mijo que, todo junto, dava uma piscina para os cabrões dos donos tomarem banho.
Cascais é ao pé do mar. Mas acreditem: para quem está habituado ao ar puro da província, aquele mar não cheira a mar. Tresanda a bosta e à incivilidade dos donos. Que raio de mania de meterem a bicharada a viver no mesmo sítio das pessoas...

23/02/04

LADRÕES DE BELEZA, por S.A.R.danápalo

LADRÕES DE BELEZA

“- Porquê as belas, meus senhores? Porque, contrariamente ao célebre adágio, a beleza não é uma promessa de felicidade mas uma certeza de desastre. Os seres belos, homens ou mulheres, são deuses que desceram até nós e que troçam de nós com a sua perfeição. Por onde passam, semeiam a divisão, a infelicidade e remetem cada um à sua mediocridade. A beleza é talvez uma luz, mas uma luz que torna a noite mais profunda; ela eleva-nos muito alto e lança-nos depois tão baixo que lamentamos ter-nos aproximado dela.” (...)
“- A beleza humana é a injustiça por excelência. Só com o seu aspecto, alguns seres desvalorizam-nos, suprimem-nos do mundo dos vivos: porquê eles e não nós? Toda a gente pode enriquecer um dia; a graça, se não se tem de nascença, nunca se alcança. Agora, meus senhores, raciocinem: se admitem como eu que a beleza é uma infâmia, um atentado contra as pessoas de bem, é preciso tirar daí as consequências, Isto quer dizer que os belos nos ofendem, nos devem uma reparação pelo ultraje cometido.” (...)
“- Os Muçulmanos têm razão ao velar as suas mulheres, ao enclausurá-las. Sabem que a aparência não é inocente.” (...)
“- Não concebe que a beleza possa ser uma tortura? E não apenas as dos ídolos da moda ou do cinema, mas aquela que nos assalta à cara ao virar da esquina e nos deixa anelantes?” (...)
“- Mesmo rara, a beleza está ainda demasiado presente, demasiado insultuosa. A sua astúcia consiste em fazer-nos acreditar que é frágil, quando na verdade desabrocha todos os dias como um escalrracho.”



O texto que acima se reproduz, é um excerto do “Ladrões de Beleza” do Pascal Bruckner, livro que acabei de ler por recomendação do Mefistófeles. É um livro estranhamente belo e ao mesmo tempo terrível e assustador. Genial. A leitura deste “Ladrões de Beleza” fez-me recordar de imediato o “O Perfume” do Patrick Süskind. Em ambos existe a eterna busca do Santo Graal, consubstanciado no belo, em ambos o objecto do desejo tem que ser punido, em ambos o desenho psicológico das personagens é lógico e terrível. E mais não me lembro do Perfume, que vou reler. Sendo obras diferentes e geniais, a semelhança que a leitura de ambas suscita, é enorme. Fui ver as datas do copyright e verifiquei que o Pascal escreveu o “Ladrões de Beleza” em 1978 e que o Süskind escreveu “O Perfume” em 1985. Recordei-me então de toda a polémica que à época, rodeou “O Perfume”, uma obra genial saída da pena de um escritor menor, que nada de semelhante escreveu mais, antes ou depois do cheirinho. Lembro-me que ainda li “A Pomba” do Süskind, à procura de um lampejo do génio que se lia no Perfume, e nada, nada; a Pomba não vale um caracol, quanto mais um rato com asas. Acresce ainda, que pelo meio do “Ladrões de Beleza” há um falhado que escreve livros de sucesso sem uma única palavra da lavra dele, copiando excertos de centenas de clássicos que conjuga e torna coerente. Da minha suspeita sobre o Süskind, já este não se livra, independentemente de ambos os livros serem obras-primas e diferentes entre si, mas ao mesmo tempo, muito próximas, demasiado próximas. Cópia, ou eterna reelaboração como o fez o Balthus em relação ao La Tour?
Ass. S.A.R.danápalo, O Belo

20/02/04

Blog Fiction, in Sexo&Mentiras, por Mangas

"O sublime pecado das tardes em silêncio, mortas de cansaço e calor, à sombra dos abetos. O barulho de fundo das águas na corrente. A ladainha das Mães Santas e os gemidos das mulatas de pele suada. A fornicarem como cadelas com cio sob os cachos de baunilha. Passávamos o tempo todo a beber blue-moons, a fazer apostas e a coleccionar conchas para os colares. Como se de um instinto de auto-preservação se tratasse. Como se as mais claras, as da cor da areia, pudessem atenuar o vermelho das feridas que nos iam na alma. A sangrar por dentro. À noite líamos textos. Chamávamos àquilo uma representação para os alcatrazes que vinham aos restos de comida. Dizíamos coisas no final. Do género, uma boa peça é um acto de agressão!, e outras frases que achávamos muito decadentes. Tentávamos assemelharmo-nos aos personagens do A Noite da Iguana com a alma do Surfista Prateado. Tentávamos olhar para cima. Cada minutos era um adeus. Aquele mundo, por vezes, era mantido por coisas que não se podiam ver."


Descobri finalmente por que é que a AAC passa a vida a ser enrabada e a descer de divisão: é um código!

Li no «Público» de hoje, 19 de Fevereiro de 2004: «A direcção de uma escola norueguesa está a pedir aos seus alunos entre os seis e os 12 anos que deixem de usar as pulseiras de cor que estão a fazer furor entre os jovens e que, sendo aparentemente inofensivas, são utilizadas para fazer passar "mensagens sexuais escondidas". A directora do estabelecimento de ensino de Sotra enviou uma carta aos pais dos alunos, pedindo-lhes que impedissem os filhos de ir para a escola com estas pulseiras coloridas de plástico que, na verdade, funcionam como um "código sexual". As regras do jogo são estas: quando um miúdo tira a pulseira a outro, este último fica obrigado a praticar um determinado acto físico, determinado pela cor do "beijo" estampado. Pulseira rosa significa um abraço, azul é sexo oral e negro implica a obrigação de ter relações sexuais. O último incidente ocorreu quando um miúdo de nove anos foi apanhado a dar um grande beijo a uma colega. De acordo com a directora da escola, "70 a 80 por cento dos 300 alunos usam esta pulseira e a grande maioria está ciente do que ela significa". A loja mais próxima deste estabelecimento de ensino já quase não tem pulseiras pretas, anunciou a rádio pública.» BRIOOOOOOOOOOOOOOOOOSA!
Agora já entendo: é do equipamento. Se uma pulseira dá o que dá, imaginem uma equipa toda vestida de preto. Se querem ficar na 1ª, o melhor é mudarem de cor! Desculpem ter voltado a este tema da sodomia, sexo, enrabadela e tal, mas tinha que ser!

19/02/04

O Archie da Lousã, por Tinóni

Ora ainda bem que falaste no Archie Bunker! Mas vamos primeiro ver uma coisa: onde é que eu disse que o Warhol está próximo do realismo soviético?! eu disse precisamente o contrário! Quem está próximo deles é o outro, o Norman! Com as devidas adaptações, claro, que não quero que o bom do Norman me venha assombrar. E quanto ao sagrado, eu falava do sagrado do homem comum, o cowboy, o pioneiro, o redneck, aqueles que enrabaram os outros no "Fim de Semana Alucinante" (pronto, pronto, é a última vez...), os que quando se dirigem para os subúrbios começam a engordar e se tornam archies bunkers. Para esses o Warhol não diz grande coisa; e quando algo não diz grande coisa ao Archie, não diz grande coisa à América, se entendermos a América como aquele 99,9% por cento de território que sobra dos States quando lhe retiramos as galerias e apartamentos finos de Nova Iorque (não levar isto à letra). Quanto ao John Waine, eu até te podia dizer que ele de facto disse que não gostava do outro; que uma cunhada de uma amiga da sogra da mulher-a-dias dele me disse. E tu népias, engolias depois de estrebuchar mais um bocadinho. Mas não digo, porque o que ele terá dito não é relevante. O meu comentário está ao nível do “está bem visto”, capice? A propósito, sabes o que diria (diria, cá está!) o Archie sobre o Warhol e a malta dele? “those pinkies...”, o que traduzido dá paneleiros e comunistas, duas coisas que a religião dos archies não suporta (episódio 3345). E a religião dos archies (mas porque foste tu falar no archie?) tem os seus ícones: pinturas do Grand Canion e das great boobies das estrelas de cinema, bem dispostas e bem nutridas. Pouco a ver com o que faz o Warhol, que fez uma leitura em segundo ou terceiro grau da coisa e, portanto, bem longe do seu sentido original. E porque é que ícone é o contrário de uma paisagem? Porque quando pensas em ícones só te vem à cabeça uma pintura em madeira do São Estanislau feita pelo Rubliov? É que ícone vem do grego eikón, que significa imagem, e portanto dá para tudo, até para paisagens, desde que tenha uma carga representativa e simbólica suficiente, o que é o caso. Assim como quando falei em sagrado não estava propriamente a pensar nas homilias da catedral ortodoxa de São Basílio em Moscovo. Por exemplo, para os parolos da Lousã, sagrado é o Licor Beirão e ícones são aqueles saudosos cartazes de beira de estrada que o anunciavam. Tás a ver? E quanto a altares... pronto, imagina o resto.

18/02/04

Tinóni e Archie Bunker

Os parolos do Kentucky até podem saber, o pior é os da Lousã! Esses é que me preocupam, pois não só não são do Kentucky, como vêem tudo ao contrário e ainda acham que os outros é que estão de pernas ao ar. Dizes tu que o Warhol banalizou o sagrado. Mas qual sagrado? Uma lata de sopa era sagrada? Uma caixa de Brillo? Uma garrafa de Coca Cola? Isto é que era o bom velho sagrado americano? Atina Tinóni? Depois, todos os artistas são delicados e submissos a quem lhes paga bem. Está certo! Também ainda não é com esta que o Mundo ficou espantado com a Lousã. A começar na Grécia de Péricles, a passar pelos mestres todos do Renascimento e a acabar, p. ex., em Dali ou noutro qualquer, sempre foi assim. Depois, prosseguimos com afirmações tão banais quanto discutíveis: arte da Paisagem? Onde? Na América, em Inglaterra, no Romantismo, Impressionismo, Naturalismo, etc. etc. etc. Depois, quer-me parecer que não sabes o que é um ícone! Primeiro defines a arte americana como da paisagem e dizes logo de seguida que essa arte da paisagem é o ícone americano. Caro Tinó, lamento informar-te que um ícone é o contrário de uma paisagem. Logo, nem um ícone pode ser paisagem, nem a paisagem pode ser um ícone! O Warhol está próximo do realismo soviético por pintar heróis? Brada aos Céus! O herói soviético não tem nada, mas mesmo nada, nem no conceito nem na forma, com a futilidade do herói de Warhol, individual e efémero, enquanto o soviético é colectivo e dono da história! Em que altares se colocam os ícones de Warhol? Ó rapaz, em todos os altares da sociedade de massas, desde as revistas, às capas de disco, do cinema aos museus, da Tv à internet, das histórias da arte aos suplementos domingueiros dos jornais, galerias, nas canecas de café, nas T-shirts, nos porta-chaves e etc. etc. etc. E sempre que vires Wayne, Marilyn, Liz, Elvis, etc. etc. etc. De preferência com olhar trágico que é como ficam bem, pelo menos desde Escopas. Até chateia ter que dar tantos exemplos. E acabamos da melhor maneira: que o Wayne não gostava do Warhol (mas porquê? Quando é que ele disse isso? E se não gostava mesmo, por que é que isso se torna relevante?), que o Warhol era paneleiro ( sim senhor, muito pertinente) e acabamos com graçolas! ?!? O Rockwell pode ser um dos autores representativos da América, da América do Archie Bunker!

A América de Norman Rockwell, por Tinóni

Para começar, o Warhol é um demiurgo mas é o tanas. Tudo ao contrário. O Warhol não sacralizou nada a banalidade. O que ele fez foi banalizar o sagrado, o bom velho sagrado americano, e qualquer parolo do Kentucky sabe isso. O gajo é o anti-Rubliov, capaz de realçar o buço da Virgem Maria e borratar a pintura da Marilyn, fazendo-a parecer um palhaço triste (é claro que era delicado e submisso com quem lhe pagava bem). A arte americana sempre foi figurativa, de uma figuração realista e ao mesmo tempo idealizada. A abstracção e a arte conceptual, de que a pop é bastarda, só chegaram ao outro lado do atlântico no pós-guerra, com o Pollock, o Rothko e outros estrangeirados. A arte original americana sempre foi a arte do quotidiano e da celebração da paisagem, herança do puritanismo dos founding fathers, gente prática pouco dada a expressionismos e estilizações irónicas. E são esses quotidiano e paisagem, habitados por heroísmos vários, que constituem a religião americana. Os ícones americanos são os quadros do Norman Rockwell, com famílias felizes a sorver campbell, acabadinhos de sair de um ritual de masturbação secreta e silenciosa com pin ups de corpo inteiro. E representações de vidas de outros santos, por santeiros anónimos. Heróis do desporto e das telas de cinema. Nisso está muito perto do realismo soviético. Como se pode celebrar a Marilyn com aquelas representações frias, mais do que trágicas? Em que altar se penduram? Para que quer um americano (um americano americano) uma pintura de uma lata de sopa, se já tem as prateleiras cheias com o autêntico e as paredes ocupadas com calendários da Betty Grable nas alturas. Para que quer um americano patriota um quadro do Jasper Johns com a stars and stripes pintada? Que não esvoaça, que não se ergue, que de tão realista se torna cínica? Esses ficam para nós, os que também compram réplicas de ícones do Rubliov para gozo estético ou para entreter a vida com réplicas de misticismo. Dois testes finais: o John Wayne gostava do Warholl? É claro que não! Tivesse ele tido forças e tê-lo-ia chutado para fora do templo, a esse paneleiro vendilhão. E o Warhol lançou o Springstein? Pois não, lançou o Lou Reed, o que não é bem a mesma coisa. E pronto, é isto ou o seu contrário. Mas gosto mesmo é dos Malevitch da fase azul electrolux, bons para relaxar ao som de trinados de periquito. E bacalhau.

16/02/04

Kasimir Malevich e Andy Warhol

Alcançar um superlativo sintético absoluto foi o desafio estético de Kasimir Malevich. Partindo do cubismo e de uma atitude racionalizadora do espaço e das suas figuras, numa estratégia de depuração progressiva, foi eliminando o pormenor e o acessório na busca de uma essencialidade geométrica. Este ascetismo essencialista começou por negar o tecnicismo perspectivista e a tirania do belo herdados do Renascimento, por reduzir a técnica à infimidade do estritamente necessário, limitar a plasticidade à condição mínima capaz de conter a síntese suprema, de tal modo que a arte se cumpriu ao atingir a essência irredutível: um quadrado negro sobre fundo branco. Sem cor e sem profundidade, sem significado, sem temporalidade, sem referentes, sem tradição e sem continuidade possível. A estabilidade final equiparável à morte. Daí que o cume sintético do conceito artístico de Malevich tenha figurado sobre a sua urna funerária, em 1935, a seu pedido. E porque a abstracção pura é irmã gémea da metafísica, o regime soviético baniu ambas. Os sovietes, apostados numa estética propagandística, não podiam deixar de reprovar a ambição espiritualista de Malevich.
Fornecer valor estético ao objecto vulgar que assim se torna ícone civilizacional, foi o processo inverso de Andy Warhol. Se Malevich se viu comprometido entre uma herança iconográfica profundamente enraizada na tradição russa ortodoxa e o figurativismo do realismo soviético, recusando ambos, Warhol construiu, por via de uma plasticidade cromática, uma estética iconológica, desespiritualizada mas sacralizadora do banal. Malevich é um iconoclasta que não pode ser entendido fora da tradição russa que teve em Andrei Rubliev o expoente máximo. A iconoclastia chegou à abstracção máxima e descobriu que este extremo é equiparável à religião e à metafísica. Por isso acabou amaldiçoado por uma ideologia que exigia um comprometimento da arte na realidade. Por outro lado, Warhol afirmar-se-á como o maior iconista contemporâneo. Foi mesmo mais do que isso, uma vez que as personagens não eram sagradas, não eram deuses, nem santos, nem mártires. Marilyn, Liz, Elvis, Mao, Bowie, Jagger, Jackie Kennedy ou mesmo o Rato Mickey tornaram-se símbolos culturais e referentes estéticos, sacralizaram-se depois de serem iconografados por Warhol. Este, mais do que um retratista, é um demiurgo, criador de ícones que oferece a uma sociedade de massas idólatra, carente de imagens e adoradora do efémero. O supremo absoluto e ascético de Malevich e o banal iconografado de Warhol são justamente as duas modalidades da intemporalidade. Um quadrado negro ou uma caixa de detergente, ou uma lata de sopa, feitas obras de arte. Malevich iludiu-se com a crença na síntese absoluta, e acabou anulado pela arrogância do materialismo histórico. Warhol criou uma ilusão e estimulou uma mentalidade individualista, consumista e liberal. Warhol, que nunca deixou de ser um homem profundamente religioso, sacralizou a banalidade ao conferir aos objectos comuns valor estético e às personalidades famosas estatuto sobrehumano. Warhol é pois o Andrei Rubliev americano. Marilyn é a sua Virgem, e está para a América do pós-guerra como a Virgem Maria dos ícones do monge russo estavam para a Rússia ortodoxa do século XV.

LAMPREIA-2004

LAMPREIA-2004
34ª PROVA CEGA DE TINTOS
06ª EXPEDIÇÃO PUNITIVA À LAMPREIA DO BERNARDES
46ª NAVEGAÇÃO TERRESTRE PRÓ-EXTINÇÃO DAS ESPÉCIES

1º CLASSIFICADO-76pontos-VALE MEÃO, 2000 (DOURO)-LE VICE-Prémio MALIGNO
título- FALCÃO DA CEPA, de grau 3
2º CLASSIFICADO-70pontos-GOUVYAS, VINHAS VELHAS, 2001 (DOURO)-GALGO
3º CLASSIFICADO-69pontos-CALLABRIGA, 1999 (DOURO)-HOMEM DO CACHIMBO

4º CLASSIFICADO-69pontos-HERDADE DO ESPORÃO, TRINCADEIRA, 2001 (ALENTEJO)-PRESTES JOÃO
5º CLASSIFICADO-68pontos-ESPORÃO, GARRAFEIRA, PRIVATE SELECTIONS, 2001 (ALENTEJO)-TÓZÉ
6º CLASSIFICADO-65pontos-QUINTA DA LEDA, 1999 (DOURO)-F. MARQUES
7º CLASSIFICADO-63pontos-JOÃO PORTUGAL RAMOS, SYRAH, 2002 (ALENTEJO)-NESTUM

8º CLASSIFICADO-62pontos-CORTES DE CIMA, SYRAH, 2002 (ALENTEJO)-O MAU-Prémio VINAGRE


Nota: Segundo a Autoridade o Syrah do Mau era mesmo mau, o pior Syrah do Cortes De Cima dos últimos anos, corrido a nota 4 pelos graúdos do reino vínico. está muito bem em último lugar.

MELHOR NOTA DE PROVA- O HOMEM DO CACHIMBO, com + 17 pontos

PIOR NOTA DE PROVA- PRESTES JOÃO, com - 5 pontos

ass: S.A.R.danápalo

15/02/04

Heroes (1977) e Quinta de Vale Meão (2000)

Dedico Heroes de David Bowie a mim próprio por ter ganho a Milésima Centésima Expedição Punitiva à Lampreia que teve lugar ontem na Catedral do Bernardes. Este hino é também dedicado ao meu amigo Paulo, que foi quem me ofereceu o fabuloso Quinta do Vale Meão/2000 com que me sagrei vencedor. Bem hajas, Paulo!
We can be heroes
Just for one day
Se há coisas raras de conseguir nesta vida efémera, uma delas é, certamente, um Maligno, o Óscar Negro da Esseponto, pintado e decorado pelas mãos exímias e pela cabeça perversa do nosso pintor, O Artista Anteriormente Conhecido Pelo Nome de Pilas. Ontem foi uma dessas noites raras em que tive os tais 5 minutos de fama e glória de que falava Andy Warhol. Ontem ganhei o meu terceiro Maligno, depois de volumosos anos a meter vinhos de excelência em Provas Cegas ainda mais excelentes.
I, i will be King and you, you will be queen
Though nothing will drive them away
we can beat them just for one day
We can be heroes just for one day.
Heroes começa com a guitarra espacial de Robert Fripp. Brian Eno – outro monstro visionário, acentua o efeito nas teclas e sintetizadores e já estamos em Andrómeda antes do refrão. Heroes é uma viagem interestelar, produzida em plena época do ácido. Quinta do Vale Meão/2000 é um vinho de excepção, um Ambrósio, na terminologia criptográfica da Esseponto. Não é para me armar aos cágados mas todos testemunharão que eu tinha a vitória de ontem como certa. Foi só pensar: já tínhamos provado o Vale de Meão/99 noutra ocasião e considerámos que necessitava de tempo para apurar as potencialidades. Assim, pensei que esta colheita de 2000 estaria agora, quatro anos depois, em condições óptimas, ainda por cima, sendo a lampreia um prato muito forte, a exigir tanino. Foi em cheio! Obviamente os vinhos apaneleirados do João Portugal Ramos e as castas Syrah lixaram-se. E bem – dois vinagres! A lampreia não quer sabores florais, quer alguma adstringência, quer tanino redondo, que não excessivo. Passámos toda a noite à procura dessas qualidades nos vinhos presentes. É certo que as encontrámos noutros vinhos e faço aqui jus aos 4 convidados que estiveram à altura do acontecimento.
I, i wish you could win
Like the dolphins, like the dolphins can swim.
Though nothing, though nothing will keep us together
We can beat them for ever and ever
Oh we can be heroes just for one day
A voz de Bowie começa a impor-se pela calma, pela tranquilidade. Há um momento na música de perfeita fusão entre o som espacial dos sintetizadores e a placidez de Bowie. Mas depressa se quebra esse oceano da tranquilidade e a música torna-se instável, nervosa, cada vez mais rock, cada vez mais dura… Gradualmente, a guitarra de Carlos Alomar faz-se notar como metal no meio do som planante da dupla Eno / Fripp. A voz de Bowie torna-se cada vez mais agressiva, agora é um grito de raiva, um grito de fé, sim, é verdade we could be heroes…

Com um Quinta da Leda, um Callabriga, um Reserva do Esporão e um Trincadeira (da herdade do Esporão?), os quatro convidados foram quatro magníficos. Estiveram à altura! Mas estiveram abaixo, mesmo assim, do excelente Gouvyas do nosso regressado Lampião e ainda mais do Vale Meão.
And the shame was on the other side
Oh we can beat them for ever and ever
We could be heroes just for one day
We can be heroes
We can be heroes
Até por isso mereço a música do Bowie – fomos ameaçados pelas excelentes escolhas dos convidados, mas mais uma vez o Maligno não saiu do Universo Confradal. Não sei se repararam que nunca, em 200 anos de Provas Cegas, um convidado logrou ganhar um Maligno. É obra! Ainda está para nascer o convidado que no arrebate um Maligno – e já muitos, um exército deles, o tentaram. Hoje, lá jazem todos, no pó da arena dos vencidos! Para mim (e para o Paulo) cá vai pois em altos berros:

We can beat them for ever and ever
We could be heroes
We could be heroes…

Le Vaice e Os Mistérios de Uma Vitória, por Mangas

Aos que cá vêm mandar as bojardas que a gente agradece; aos que por cá aparecem para se rirem dos desconcertos, excomungarem as esplêndidas bacoradas ou acrescentar trajectórias aos caminhos do Porco; aos que vêm uma vez e voltam nunca mais e aos que vêm à festa e ficam por cá porque perderam o autocarro; aos que só visitam as fotografias porque são de borla e aos que sofrem do baço também; a todos os leitores do Tapor, informo em primeira mão e em exclusivo, by cable, long-distance, e em pay-per-view, que o Le Vaice ganhou a prova cega na Catedral da Lampreia! Lamento não possuir mais informações sobre o magnífico tinto ou o detalhe da peleja. Muito em breve, serão respondidas questões fundamentais e de interesse público. Tais como: o lobby do escritório estaria a dormir? O D. Corleone perdeu finalmente os três e atreveu o palato? O Mau adormeceu antes ou depois da lampreia? O Xeco apareceu? Se sim, é bem-vindo. Se não, pó caralho! O Sardanápalo borrou a pintura na nota de prova? Quantos sms recebeu o Capitão Nemo das bielorussas? A esta hora, já está na Passerelle? Se não, já vai a caminho? Se não vai a caminho ainda, estará com alguma ciática, cólica renal ou doença prolongada? Os convidados, foram ilustres e espirituosos? Juraram pra nunca mais? O João Pedro, aguentou-se à brocha? Decidiu aumentar a mensalidade do ginásio depois de ver a conta? O Luzi, vai aguentar uma caipirinha ao lado de um gajo a mamar néstum com chocolate, sem vomitar? O Cordeiro ainda se tá a rir? O Vaice ainda está a cantar o Start Me Up?
Enfim, estas e outras fundamentais respostas serão dadas muito em breve, para que tenhamos uma percepção aproximada do que, de facto, aconteceu esta noite pelos lados da Ereira. Seguem-se actualizações desta notícia em "X-Files".

13/02/04

CATEDRAL DA LAMPREIA

E uma vez que alguma confradaria da Câmara-Baixa não vai estar amanhã na Lampreia, aqui se informa que por decisão da Sereníssima Presidência e do Alto Conselho de Sábios e a anuência silenciosa da Guilda dos Senhores da Guerra, será entregue ao Bernardes da Ereira, uma moldura com o reconhecimento confradal da sua Lampreia, ajeitado como se Louvor fosse, embora denominado Catedral, com direito a moldura, demónio, louros e o habitual arranjo destas coisas:

CATEDRAL

REAL Sponto do TINTO
CONFRARIA BRIOSA DE TINTOFILIA & ALAMBAZANÇA

Jesus Cristo Também Bebia O Seu Copito


Às vezes há temíveis sensações de bem-estar
capazes de derrubar montanhas;
há que lutar contra elas com coragem,
como contra um inimigo.

Mas, pensando nas gloriosas jornadas anteriores,
remorde-nos na consciência apenas a ideia de que,
com um pouco mais de aplicação,
ter-nos-ia cabido mais Lampreia no corpo.

Com a gratidão a bailar-nos no olhar
e os recantos do ventre a transbordar das luxurias que levam ao Inferno,
esta confraria,
que pensa que com coisas de comer não se deve brincar,
ajoelha-se perante o Solo Sagrado desta Catedral do Bernardes,
e presta as honras devidas a esta abençoada Lampreia do Mondego!


Palavra do Cela, Palavra nossa.
Palavra da salvação!

Passos da RS.T, 08 de Fevereiro de 2003
pela RS.T,
o Alto Conselho de Sábios,



“O Único Pecado Capital É A Estupidez”

"EMBRIAGAI-VOS", de Charles Baudelaire, por Gótika

Isto é, descaradamente e sem perdão possível, roubado do melhor blog depois do Tapor, que é o blog da ilustre e atenta Gótika, por onde estes estapores também mandam bacoradas. Assim, salvo o devido respeito e com a devida vénia:

"Embriagai-vos!"

É necessário estar sempre bêbedo.
Tudo se reduz a isso; eis o único problema.
Para não sentirdes o fardo horrível do Tempo,
que vos abate e vos faz pender para a terra,
é preciso que vos embriagueis sem cessar.

Mas - de quê?
De vinho, de poesia ou de virtude, como achardes melhor.
Contanto que vos embriagueis.

E, se algumas vezes,
nos degraus de um palácio,
na verde relva de um fosso,
na desolada solidão do vosso quarto,
despertardes,
com a embriaguez já atenuada ou desaparecida,
perguntai ao vento, à vaga, à estrela, ao pássaro, ao relógio,
a tudo o que foge, a tudo o que geme, a tudo o que rola,
a tudo o que canta, a tudo o que fala,
perguntai-lhes que horas são;
e o vento, e a vaga, e a estrela, e o pássaro, e o relógio,
hão de vos responder:

- É a hora da embriaguez!
Para não serdes os martirizados escravos do Tempo,
embriagai-vos sem tréguas!
De vinho, de poesia ou de virtude, como achardes melhor.

Charles Baudelaire

12/02/04

O País da Canela e a descida do Amazonas, por Mangas

Conta-se que o "País da Canela", era uma terra situada do outro lado da muralha dos Andes na selva Oriental, governada por uma linda índia chamada Gabriela Cravo, e foi o motivo que reuniu os espanhóis Francisco Orellana, na época governador de Guaiaquil e veterano da guerra do Peru, o seu companheiro de armas e matanças Gonzalo Pizarro e o irmão deste Dom Francisco Pizarro, vice-rei do Peru, tão facínora quanto o mano mais velho. Ao ouvirem falar desse fantástico país, onde a canela crescia por todo o lado até mesmo sem fertilizantes nem adubos, os manos Pizarro congeminaram logo ali romper o monopólio dos portugueses sobre as especiarias das Índias Orientais, isto porque os cabrões sabiam que a canela era a especiaria mais procurada na Europa e seu comércio dava muito bago dourado. Conscientes das dificuldades que encontrariam para vencer terras desconhecidas e hostis para chegar ao País da Canela, os Pizarro prepararam-se em terra e montaram uma expedição com 5000 homens, entre índios e espanhóis, 250 cavalos, 4000 lhamas e 900 cães. Durante todo o mês de Fevereiro de 1541, o exército de Pizarro deixou Quito rumo aos Andes, e de lá prás selvas do Oriente que se faz tarde. Orellana, armado em forte e chico esperto, saiu de Guaiaquil com um grupo reduzido de homens para se encontrar com o exército de Pizarro. Mas fodeu-se porque quando chegou a Quito, não encontrou Pizarro, que se cagou literalmente para ele e partiu sozinho à procura País da Canela, pra ser o primeiro a mamar! Encontrar-se-iam quase 10 meses mais tarde, já o frio, a fome, as tempestades, os ataques dos índios, a diarreia e os insectos e as telenovela mexicanas haviam quase dizimado o exército de Pizarro. A ganir de fome e com os expedicionários magros como cães e mortinhos pra lhe fazer a folha, Orellana decidiu descer o grande rio a que chamou Rio das Amazonas, com 57 homens, em busca de qualquer coisa comestível, e regressar logo que a tivesse encontrado. Pizarro, que foi enchertado em corno de cabra e que pra passar o tempo se divertia em moço a rapar pêlos aos porcos com um corta unhas, apesar da péssima situação dos seus soldados, decidiu avançar a pé, mata adentro, com 80 espanhóis. Valente! Após mais dois meses de sofrimento inenarráveis encontraram algumas árvores de canela. Pizarro que assinava de cruz e de biologia conhecia apenas a bolota e o doce de alfarroba, não sabia que aquelas árvores não eram o verdadeiro cinamomo, de onde se extrai o aldeído cinâmico, o constituinte principal do óleo de canela. Tratava-se da laurácea Aniba Canelilla, um arbusto que cresce em vários pontos da região Amazónica. Por seu lado, o comparsa Orellana, analfabeto e de geografia tinha apenas por certo ser o Danubio o maior rio da Europa, também não sabia que graças à sua incursão rio abaixo, em busca da paparoca para matar a fome, passaria à história como o primeiro homem branco a descer o rio Amazonas.

LE TRICHEUR, de Georges de La Tour

O quadro do Balthus, do jogo de cartas, que o Sofista Prateado aqui veio colocar, sempre me fez lembrar de imediato um outro que me despertou as mesmas sensações, nomeadamente um quadro do La Tour. Vi-o uma vez no Louvre e de vez em quando tropeço nele numa colectânea qualquer. É das melhores coisas do La Tour, que ao que me lembro é um daqueles cultores dos efeitos dramáticos do claro-escuro. A associação entre os dois quadros parece-me que resulta evidente, e tanto quanto me lembro é uma associação minha, e se calhar é calinada prós experts, mas se repararem, temos o mesmo jogo de cartas, o mesmo acto de esconder cartas nas costas, personagens jovens também, e sobretudo a atmosfera que transborda de ambos os quadros de engano, perfídia e maldade. A coisa é mais forte no La Tour, até porque o plano e o pormenor das expressões é outro, mas a coisa é quase similar. Parece-me assim evidente que o Balthus se inspirou neste La Tour, o que não lhe retira qualquer valor, para mais quando em arte e sobretudo em pintura é tradicional a reelaboração contínua das obras. São ambos quadros geniais.
ass.S.A.R.danápalo
PS: e já agora que alguém veja o que é que quer dizer Le Tricheur.

11/02/04

HISTÓRIA DOS "ÉFES", por Dog

Há quase vinte anos, o meu enorme amigo António Cação, de Trouxemil, Coimbra, contou-me uma historieta que tem sido uma das mais seguras alegrias da minha vida. Sempre que, em ambiente de amigos, a conto, o êxito é limpinho. Vou narrá-la pela primeira vez sob a forma escrita. Lembrei-me de o fazer porque esta é também a minha última crónica “Ouro e Sal”. No momento da despedida dos meus muitos e muito caros leitores de “O Eco”, quero, com a história dos “éfes”, deixar-vos o firme e luminoso sinal do melhor dos sentimentos: a Amizade. Obrigado, Amigos. E cá vai a história.
Fulano vai almoçar a um restaurante. É a primeira vez que lá vai. O empregado de mesa, que nunca o viu na vida, desconhece que o tipo só fala por éfes.
-Boa tarde. O que deseja almoçar?
-Frango frito frio.
-E para beber?
-Fundação Fina Flor.
-Como deseja o vinho?
-Fresquinho.
Nesta altura, o empregado, já meio à rasca com a fala do cliente, faz mais perguntas a ver se o tipo se descai com uma palavra que não comece por F.
-E deseja pão?
-Faça favor.
-E como quer o pão?
-Faça fatias fininhas.
O empregado, sem saber o que fazer á vida, continua a tentar.
-E sobremesa, vai querer alguma coisa?
-Fruta, fruta fresca, faça favor.
-Que tipo de fruta?
-Figos. Fresquinhos...
-Figos não temos. Só se for pudim...
-...flanzinho, faz favor!
Completamente enrascado, o empregado deixa-o a comer e a beber e vai fazer queixa ao patrão. O dono do restaurante aproveita para prègar um sermão ao empregado. Diz-lhe que, numa casa aberta ao público, o mais natural é que entrem todos os tipos de pessoas. Mas que ele patrão, lhe vai mostrar como se dá a volta a um tipo esquisito como aquele.
Pensava o patrão...E lá foi ele falar com o cliente dos éfes.
-Boa tarde, caro senhor. Nesta casa, gostamos de praticar uma política de bom acolhimento do cliente, de tal modo que, comendo aqui, todos se sintam como se comessem em sua própria casa. De maneira que gostaria de falar um pouco consigo.
-Francamente! Faça favor! Fale, fale...
-Como se chama o senhor?
-Francisco Ferreira Fagundes Fernandes.
-E é de onde?
-Fortaleza Franca.
-Isso é de que freguesia?
-Freguesia? Figueiró.
-E que faz o senhor na vida?
-Fui ferreiro.
-O senhor fala de uma maneira que deixa pensar que deixou a profissão...
-Fui forçado!...
-E foi forçado porquê?
-Faltou ferro.
Também já completamente à toa, o patrão da casa percebe que o homem é rijo, que não é fácil dar-lhe a volta. Mas, ainda assim, continua a tentar.
-Ouça, mas enquanto ainda era ferreiro, fazia o quê?
-Ffff...fazia facas, farpas, ferraduras, foices, farpões, fogões,...Ferramentas!...
O dono do restaurante aceita a derrota. Percebeu que não é possível dar a volta ao prego a um tipo daqueles. Numa última tentativa, diz:
-Amigo, nunca vi nem ouvi nada como o senhor. Mas digo-lhe: se me fizer mais uma frase de cinco ou seis palavras todas começadas por F, ofereço-lhe o almoço á borla!
-Todo feliz, diz o cliente:
-Foi formidável: fazendo fiado, fiquei freguês!

Como devem calcular, esta história já foi por mim contada muitas vezes. Mas, em Dezembro de 1985, aconteceu-me, por causa dela, uma coisa engraçada. E juro que aconteceu mesmo. Foi assim: estava num jantar entre amigos. Era uma festa de Natal. Eu tinha ido tocar viola, a coisa tinha corrido bem. Pela hora dos digestivos, o pessoal começou a contar anedotas. Eu, é claro, contei a dos éfes. Fartaram-se de rir. E reagiram de uma maneira curiosa. Toda a gente começou a tentar falar por éfes. Mas é difícil. De modo que começaram a adulterar os nomes uns dos outros. O senhor Coelho transformou-se em fenhor Foelho. O Cabanas virou Fabanas. O Zé tornou-se Fé.
Às tantas, uma rapariga (e jeitosa ainda por sinal...) chamou-me:
-Oh Faniel!
Sem pensar no que dizia, chamei-lhe o nome também adulterado pela inicial F. Sabes, querido leitor, como se chamava, para minha vergonha, a rapariga? Juro por Deus que é verdade: chamava-se Judite...
E eu juro que nunca fiz tal coisa à moça.

Pastéis de Belém e Tentugal, por Mangas

Confesso que nunca fui especialmente amante de doçaria, conventual ou regional. Os meus gostos são simples e não exigem requintes elaborados de ovos e açúcar, para além do arroz doce submerso em canela feito pela minha mãe, ou de uma mousse de chocolate que ela faz todos os natais absolutamente soberba, camadas finas de natas cobertas de outras mais espessas e duradouras de chocolate até ao topo, e pelo meio, escondidas entre duas bem aventuradas colheres de paraíso, amêndoas torradas, cortadas a meio ou inteiras que conferem aos maxilares, ao palato e ao gosto, breves, mas inextinguíveis razões de existência. Abro aqui uma excepções para os meus dois doces regionais favoritos e dos quais nunca me abstenho, assim essa oportunidade venha ao meu encontro, de comer e saborear meia dúzia ou os necessários até consolar a pança. O pastel de Belém e o pastel de Tentugal. Sobre o primeiro não me vou alongar muito, pois é sobre o segundo que vos queria falar. Conheci os pastéis de Belém quando era estudante e fui estagiar para o Hospital Egas Moniz em Alcântara, em 1986. Recordo-me bem que saía do hospital às 3h da tarde, em Março já o sol me apanhava na rua a espreguiçar os apontamentos e os processos dos doentes, mortinho para me pôr dali a andar em direcção a Carnaxide estava eu!, apanhava o eléctrico até Belém numa viagem curta sem pausas e com Tejo a poente, descia em Belém e passo acelerado entrava na Antiga Confeitaria de Belém (penso que é assim que se chama), e já saía dali aviado. Nada de açúcar em pó! O pastel de Belém já tem doce quanto baste e o único complemento que admite é a canela! Não precisa, nem deve levar açúcar correndo o risco de se tornar excessivamente adocicado e ser cortado naquele travo único do creme macio e sereno ao paladar, quando saboreado abundantemente com dentadas frugais mas respeitosas, porque majestoso é o pastel. A besta que considera um pastel de Belém igual ou uma variante do pastel de nata, é bronco ao paladar, simplista na apreciação e ofensivo à verdadeira essência das coisas, da vida e dos deleites que a sustentam. Adiante. O pastel de Tentugal chegou ao meu conhecimento pela televisão. Era eu miúdo e via sempre um programa chamado Sopa de Pedra, com um fulano gordo e barbudo que vestia o hábito de monge e visitava as capelinhas gastronómicas deste país. Lembram-se? O tipo aparecia nas cozinhas, falava com os cozinheiros das iguarias, dos pratos que celebrizaram cada região ou ermo perdido e alambuzava-se no final, antes de seguir caminho de rota batida para outro paraíso à mesa. Um desses episódios foi filmado em Tentugal. Muitos anos mais tarde, comi finalmente um desses pastéis. Hoje, esse gesto tornou-se uma rotina mais ou menos desprezada. Não terá em si, o mesmo significado místico de provar um vinho ou saborear um cubano, mas continua a ser uma invocação de prazer e bem estar. Um dia destes, estava eu sentado a ver o GNT, quando sou surpreendido com uma reportagem sobre os pastéis de Tentugal. Os brasileiro vieram cá e pasme-se, demoraram três quartos do programa a mostrar passo a passo a feitura, não do recheio ou do pastel no seu todo, mas do folhado que o cobre. E fiquei a saber o que até então nunca eu tinha imaginado. A coisa faz-se assim: no centro de uma sala enorme e preparada para o efeito, coloca-se sobre um tecido branco com a largura e comprimento da sala, um bloco de massa feita exclusivamente com farinha e água, segundo a D. Fátima que até tem nome de santa e abençoadas devem ser as suas mãos. Depois, de forma progressiva, firme, e segura, vai-se esticando essa massa do centro para a periferia. Movimentos a duas mãos, sincronizados para não abrir brechas na elasticidade da massa, no sentido dos ponteiros do relógio. Estica, puxa, estica, puxa. A massa vai-se tornando cada vez mais fina e extensa, como devem calcular. A certa altura, após uma ou outra esticadela, o ar invade o espaço entre a massa e o chão criando um efeito de balão: a massa chega quase a tocar o tecto, como um enorme pára-quedas a abrir-se para logo a seguir, descer quando o ar se escapa, muito lentamente, até ao pano branco outra vez, onde assenta. Incrível! Nem um golpe na sua integridade, nem uma brecha por ali se mostra. No final, a massa ocupa agora todo o perímetro da sala. Não imagino, mas seguramente alguns 10mx10m, talvez. Está agora reduzida à espessura de uma folha de papel transparente. Literalmente! É então que os bordos irregulares são cortados de forma geométrica, para em seguida se proceder ao corte de pequenos quadrados, centenas deles, que sobrepostos em quantidades proporcionais vão receber o recheio de ovos, ser enrolados e acabar no forno. Achei aquilo tudo de uma mestria absolutamente única. A manualidade, a simplicidade e ao mesmo tempo a complexidade do processo, fizeram-me achar que era algo digno de pertencer a este espaço e olhar para os pasteis de Tentugal com outros olhos, ainda que com a mesma boca.

10/02/04

Balthus, La partie de cartes, 1948-50, 55 x 76 in. / 140 x 194 cm (Thyssen-Bornemisza), Por Olho Vivo

Gosto particularmente de Balthus. Partida de Cartas que está no Thyssen-Bornemisza em Madrid é um dos meus quadros preferidos. Leva a um expoente máximo algumas das qualidades que aprecio neste pintor. A obliquidade de um mundo que nunca é o que parece, uma desordem e uma tensão latentes, prestes a explodir num mundo aparentemente banal... Faz lembrar uma orelha cortada que, subitamente, aparece na calma verde da relva de um jardim (Blue Velvet, lembras-te Mangas?)...

Este é um quadro oblíquo - a aresta da mesa é que parece estar em primeiro plano, como o joelho do rapaz empoleirado no banco. Quando vemos o quadro, parece que estamos com um defeito nos olhos, as arestas impõem-se sobre as formas das coisas, e o olhar dos personagens foge do quadro e foge-nos a nós. E porque é que temos a sensação de que ambos, o rapaz e a rapariga, estão a fazer batota no jogo de cartas? Neste quadro, nada é o que parece ser e é esse o seu mistério e o seu encanto.

09/02/04

TANTO MAR, por Cão

Nunca percebi muito bem por que razão trabalham as pessoas que vivem ao pé do mar. Como conseguirão elas, dentro dos locais de trabalho, ignorar que ali tão perto vive e respira essa descomunal fonte de toda a nostalgia? Como? Eu não sei. Sei apenas que, se me fosse dado viver na vizinhança do oceano, descuraria tudo e todos, passando a viver os meus dias na contemporaneidade do sal, na lição melancólica das ondas, na dulcíssima tristeza das madeiras náufragas. Juro.
Como não posso viver assim, vivo assado. De manhãzinha, acordo para um mundo repetido. Meto-me no meu carro velho, paro para uma chávena de café e um comentário sobre futebol, chego à secretária, mexo em papeis, vou almoçar sem graça nem glória a uma pensão com quadros de barcos sem mar na parede, volto aos papeis, volto ao carro velho, volto a casa, janto sem glória nem graça numa cozinha que me viu crescer, vou sorver outro café e outro comentário sobre futebol e pronto: estou pronto para a morte diária do sono.
Adormeço. E lá está ele: o mar. Na minha cabeça, ondas, sal, barcos e madeiras, gaivotas e crianças, cores e muito mar. Atiro-me à água, nado olimpicamente, chego a uma ilha, estendo-me na areia. O sol desenha uma sombra nova junto de mim. É a de uma rapariga. A coisa melhora. Mas a rapariga é afinal a minha mãe, que tem setenta e cinco anos e não perde a mania de me acordar cedo para que me deixe de navegações e vá trabalhar, que se faz tempo.

04/02/04

Be hot. Be cool. Just be

As minhas amigas da escola estão a participar no Campeonato Mundial de Escolíadas que será disputado no mês de Março. Para quem não sabe, as escolíadas é uma espécie de Jogo da Cornélia - aquele concurso dos anos 70 com o carlos cruz - esse.. - e o tal de solnado, cuja filha anda metida com Deus. Elas têm que preparar e apresentar performances várias de teatro, de dança, de música, de poesia e outras actividades cultas.
Hoje as minhas amigas da escola pediram-me ajuda. Pedem-me elas que invente slogans, frases, ditos e aforismos, até poemas, se for capaz, acerca do tema que elas escolheram. Eu não sou capaz, mas lembrei-me que a malta aqui do tapor, os crónicos, os menos crónicos e os visitantes, todos podíamos ajudar. O tema delas é mais ou menos isto «não somos anjos nem demónios, somos como somos». Eu já as adverti que vai sair esterco no tapor, mas também sei que passado o gozo ritual inicial, sobra sempre alguma coisa. Ou se calhar não e sai só bacorada... Em todo o caso vá lá pessoal vejam se sai alguma coisa de jeito.

NOSTALGIAS, by Grão dos Invinófilos

Mensagem enviada pelos Infamigerados à Sponto algures em 2003, agora recuperada poque estava a ocupar muito espaço na memória do pc:

Caro Vice da RS.T
Venho, na qualidade de Grão da RCI, destruir-Vos algumas ilusões e tranquilizar-Vos quanto às preocupações Estético-Ideológico-Filosóficas.
Todos nós temos colecções consideráveis de vinil sagrado nas prateleiras empoeiradas na nossa adolescência. Para alguns de nós, o John Lennon não é um mito, era um gajo muito pedrado que comia japonesas em directo, gostava de "morangos" e de "mulheres". É certo que nas fantasias juvenis, substituímos o nariz fálico da Barbara Streisand pelos "talentos" da Samantha Fox, mas também, quem é que pode condenar...?
Para nós, a Madonna chegou a ser virgem e o Sá Carneiro foi obviamente um Primeiro-Ministro vivo! As primeiras miúdas foram seduzidas em festas mal iluminadas em garagens escondidas, ao som do vinil ou de cassetes com gravações mal sobrepostas. Para nós, a Abelha Maia não é um insecto de uma civilização perdida nas américas, mas uma estrela de TV. Todos aprendemos que os telefones são uns grandes monos pretos presos às paredes e todos nos lembramos do momento mágico em que lá em casa se fez a substituição da televisão a P/B pela TV a cores. Todos terminámos a licenciatura sem conhecer a Internet e fomos grandes especialistas em computadores Spectrum e Timex, com jogos sofisticados gravados em cassetes que comprávamos em lojas que só os entendidos conheciam. Todos nós provámos as moelas do Arco-Bar às 4 da manhã e chorámos no cinema quando o E.T. não conseguiu ligar para casa .
Quando queremos um TWIX, continuamos a pedir um SNICKER. HAL-9000 é a personagem principal do 2001 - Odisseia no Espaço, e não um nickname dos chats online. O Star Wars é um clássico e a Galáctica também. A Quinta Dimensão era um culto e o John Wayne um herói. Para nós, não há pastilhas elásticas depois das GORILA. Os piercings são ultramodernices que provocam electricidade estática e a Manuela Moura Guedes é uma cantora frustrada que agora é jornalista.
Assim, caro Vice, como podeis achar-nos tão diferentes de Vós? Somos o fim da Vossa geração, mais novos é certo, mas ainda a tempo de salpicar a adolescência com as mesmas referências e de ter muita dificuldade em compreender a linguagem desta gente mais nova...
Levaremos Vinil para sofisticar os decibéis, MPB por certo, Smiths também, e outros mais inesperados. E prometemos ainda levar o melhor tinto!
Cumprimentos Invinófilos

02/02/04

JESUS CRISTO TAMBÉM BEBIA O SEU COPITO, por Sardanápalo

A propósito de um post publicado no Blog Espectadores, a coisa parece realmente especulativa. Mas a análise que feita nesse blog também abusa do simplismo da coisa. O que o programa fez e fê-lo declaradamente, e se é que estamos a falar do mesmo programa, até porque acho que vi aquilo no Odisseia, foi pegar nas partes obscuras e não documentadas, nem referenciadas com clareza, da vida do JC, e assumindamente fazer várias conjecturas especulativas. Vale o que vale, mas que tem piada e interesse isso tem.
E a relação do JC com a Madalena nunca me enganou. E fica-se sempre na dúvida onde andou o manganão dos 14 aos 20 e tal anos. Assim como a história da ressuscitação levanta as maiores dúvidas, e isto dando de barato a fé-zada de que o gajo se levantou e fugiu do túnel branco. É que os vários apóstolos apresentam versões diferentes. Os primeiros relatos não falam de ressuscitação nenhuma, só dizem que chegaram lá depois e o corpo népias. O primeiro texto a falar de ressuscitação surge 200 anos depois da diat cuja. E a ressuscitação como hoje a conhecemos é mais uma elaboração medieval a partir dos relatos desencontrados, que outra coisa.
Mas enfim, eu falo do programa mais como efabulação do que outra coisa. O JC é um gajo catita, teve a sua piada e até bem aos pobres fez. Bebeu uns tintóis como nós e se cá andasse ainda estava nesta Confraria de santos a fazer o milagre da multiplicação dos leitões e das lampreias. Aí é que eu acreditava em tudo e até na pureza da Madalena.
E atenção que eu gosto da Biblia, é um dos meus livros de cabeceira e de casa de banho preferidos. Mijo-me a rir com aquilo. Atão com o velho testamento é um fartote. E as órgias que prá-li-vão? as escravas a rodos, as esposas submissas e a chicote, o sangue com fartura, cow-boys e far-westes, incestos e sodomias, taradeiras, vinhaças, mariscos e bebedeiras. Uns pandegos aqueles apóstolos, juro pelos doze, que salvo a melhor blasfêmea inclui o Judas, o gajo das anedotas. Já o Apocalipse do João é um delirio tremens completo. O eremita tava cuma pedrada terrível quando fez aquilo e pra mim que gosto das bestas todas à desfilada pelo vale das sombras da morte por onde caminham os abençoados que protegem os seus irmãos das iniquidades dos homens maus (esta última parte não é do apocalipse mas sim do Pulp Fiction, com base no Ezequiel, mas já li o Ezequiel todo à conta do cabrão do Tarantino e num tá lá isto), mas como ia a dizer, o bom do joão só foi bem interpretado na idade média, quando rotulavam o seu escrito de herético, loucura e ganza total e obviamente mandavam prá fogueira os gajos que se entretinham a ler aquilo.
Agora vê lá, não metas isto no Tapor, que ao ler isto há muita gente por aí a que começa logo a acender fósforos e eu gosto é de leitão assado, não é de porco queimado. Já a Lampreia pode ser de vinagreta, ó JC, se faz favor!
ass: o amigo das albizzias