31/03/04

"OLÉ TUS COJONES !"
EL TORO DE OSBORNE, por AlquimistaDaDor

O animal vê-se de longe, de muito longe. Sempre ao cimo de um monte, sempre a abarcar a plenitude do horizonte. O bicho é altivo, soberbo, um miúra de força e pujança. Um toiro de colhões salientes e bem salientes. Um Toro de Cojones, de raça. Na planície que galgamos, o Osborne cresce para nós e investe destemido. A negra e colossal presença é enigmática e ofuscante. Um colosso de 14 metros de altura e 4.000 kg de chapa negra. Politicamente incorrecto, quer pela cornadura publicitária e arrogante, quer pelos cojones avantajados. Não tem olhos, mas enfrenta-nos com o olhar mais poderoso de que há memória. Um caso feliz de síntese entre o ícone publicitário e o sentir das gentes de españa.
Estou a falar obviamente dos 91 "El Toro de Osborne" que estão plantados ao longo de toda a tierra de nuestros hermanos. Passamos por eles a alta velocidade e muitas vezes não pensamos sequer na renhida luta que o Toro teve que travar para ali estar a pastar. Belo, belíssimo. Poderoso e misterioso.
El Toro Osborne viu a luz em 1957, como suporte publicitário do brandy espanhol Veterano, do grupo de bebidas Osborne, que faz brandys, jerez, faz uma marca do nosso vinho do porto e há pouco tempo comprou também a marca de presunto pata negra Sanchez Romero Carvajal, de Jabugo. Um mimo, mas larguemos o pata negra para outra altura, que hoje é só toiro.
A partir de 1957 a Osborne espalhou os toros por toda la españa e a manada engordou até aos 91 exemplares.
Ao início El Toro não era todo negro, mas a negritude vinha a caminho. O animal magnífico tinha pintado no corpanzil as referências ao brandy Veterano e à Osborne.
Mas El Gobierno, essa besta infame, veio em 1988, com a Ley General de Carreteras ordenar a eliminação de toda a presença publicitária en las carreteras e fuera de los tramos urbanos.
El Toro tremeu, mas não caiu. A Osborne vai de pincel e tinta e zás, pintou de negro toda a manada, apagando os vermelhos das referências publicitárias. Logo nesse cerco, sucumbiu a restante zoologia estradal. Mas o animal magnífico, agora pleno de negritude e mistério, aguentou-se.
Mas a besta infame voltou à carga e em 1994, el Gobierno (hay Gobierno? soy contra!) mandou publicar el Regulamento General de Carreteras que veio apertar a malha e ordenar a eliminação de toda a manada. El Toro era claramente o visado nesta ley de perfídia.
Mas já era tarde. El Gobierno descuidou-se. Já eram muitos os anos de presença do animal magnífico pelas carreteras hermosas. Nuestros hermanos, ao fim de 37 anos de lide tinham-se afionado à presença do miúra. Já não era uma marca, um brandy, mas sim um compadre! Era Espanha, OLÉ! Com Cojones e tudo. E la gente d`españa, d`afició (em valenciano no original!) com los cojones en su sitio, gritou "OLÉ TUS COJONES !". Povão e classe artística partiu em defesa da manada. Houve petições, manifestações, lutas de rádio e tv e a coisa chegou aos média internacionais e ao Tribunal Supremo.
El Gobierno acagaçou-se, que diabo era só um Toro e nem sequer votava, e suspendeu a morte da manada, a aguardar a decisão do Supremo.
E el Tribunal Supremo, outros toros de cojones, vieram a criar o que hoje é conhecido como "El Indulto D`El Toro", criando uma excepção à Ley e determinando que o Osborne "tinha superado o inicial sentido publicitário e tinha-se integrado na paisagem"
A manada salvou-se a afirmou-se como símbolo de toda a Espanha. Mas também permanece como imagem de marca da Osborne, cumprindo assim o sonho de qualquer publicitário, de transformar em mito reconhecível por todos o logotipo do produto.
Hoje, El Toro aí está como símbolo das gentes de Espanha, afirmando-se mais do que tudo, como um traço de união de um embrião de nação, que a Espanha ainda não é. Não são nação ainda, mas têm Toros e Toros de Cojones.

"Ólha pai, ólha ali outro, estes gajos que falam mal, gostam mesmo de toros pai, não é?"

29/03/04

Santa Fé, de Robert Frank
Por Olho Vivo

Que vêm aqui? Será uma simples foto de bombas de gasolina numa estrada secundária, algures na América profunda (Santa Fé)?
Só aparentemente estamos perante uma imagem banal. O cenário lembra vagamente um pequeno cemitério, cujas campas seriam as bombas de gasolina. Curiosas campas, que mais parecem robôs mecânicos a imitarem homenzinhos com cabeças ocupadas a marcarem os preços e os litros da gasolina.
Ao alto, num estandarte que lembra vagamente a meta de uma corrida, a palavra-chave: Save. Perturbação irónica que mistura deliberadamente a metáfora religiosa (salvação) e económica (to save = economizar, poupar, amealhar). A sugestão da mortalidade implícita na lembrança das tumbas, cruza-se assim com a promiscuidade semântica economia/religião, materialismo/espiritualismo. Será por isso que esta imagem é um ícone da América capitalista e materialista. O dinheiro e, mais remotamente, o petróleo, são a Nossa Senhora de Fátima dos Americanos.
Hoje, quando as cruzadas parecem ter voltado e se fala cada vez mais no «choque das civilizações», esta foto de Robert Frank tem ainda mais força do que quando foi feita. Quem sabe se não foi assim que Moamed Ata viu a América na noite de 10 de Setembro de 2001 quando foi festejar num bar de de estrada o dia do juízo final… Só é pena que o Robert Frank nunca se tenha lembrado de ir tirar fotos para a Arábia Saudita.

26/03/04

Vamos escolher um chinês (democraticamente), por Tó Guterres


Em face da polémica instalada quanto à selecção da imagem para ilustrar o post do confrade Joaquim Alberto sobre os chineses, decidi auscultar as bases e buscar a via do diálogo e do consenso. O caso resume-se em poucas palavras: o autor do post abdicou do direito de seleccionar um chinês para ilustrar o seu texto, encarregando-me dessa tarefa. Sucede que os chineses são muitos e eu vi-me em dificuldades para, de entre tantos, escolher apenas um. Receio cometer injustiças e acho que não está certo destacar apenas um chinês dando-lhe a honra de figurar no Tapor. Vai daí, o Grunfo Sardanápalo tomou a dianteira e enviou-me uma lista de 12 chineses para eu escolher um. Eu acho que está mal. Em primeiro lugar, ninguém atribuiu ao Grunfo o pelouro da selecção de chineses. O Grunfo não é, contrariamente ao que ele possa pensar, o escolhedor oficial de chineses da RS.T. Em segundo lugar, o Grunfo não indicou quais foram os critérios de pré-selecção. Em terceiro lugar, eu sou um democrata. Gosto de ouvir as bases. Acho o povo muito engraçado e dotado de uma sabedoria adquirida ao longo de séculos de experiência. Decidi portanto, promover um debate alargado relativamente a esta matéria com o objectivo de encontrar uma plataforma de entendimento tendo em vista uma estratégia de desenvolvimento sustentado. Deixo assim à vossa consideração a escolha do chinês para ilustrar o texto do Joaquim Alberto. A figura A mostra o rosto de Sun Tzu, o B é o Mao, o C é o gorila Chuvukukulu do Zoo de Xangai, já nascido na China e filho de pais Quenianos. A figura D, embora não pareça, é chinesa e natural de Xung Buen Lai. É filha do cônsul venezuelano que morreu num desastre de viação e foi adoptada por um casal de cultivadores de arroz da pequena aldeia de Xung Buen Lai. estudou na Universidade de Beijing onde se doutorou em Física Atómica. Actualmente desempenha as funções de vereadora do pelouro da cultura da Província de Tung Chun Sei.











Que imagem deve ilustrar o post do Quim Berto?
A
B
C
D



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24/03/04

Coisas da China – Parte II

PROTOCOLO

(Ou de como é difícil pedir qualquer coisa ao Imperador da China)

Por Joaquim Alberto


E um dia Sun Tzu chegou-se ao pé do Imperador Pu Hi, e assim começou: Saudações, ó querido imperador, que mil sóis te iluminem; que mil virgens te aqueçam os pés nas noites frias; tu que és a glória da terra, um formoso nenúfar que desabrocha em flor e cobre os oceanos; tu, que reinas sobre os homens, que és a fonte suprema da sabedoria, a quem os mais sábios deuses pedem conselhos; tu que comandas os astros; que com um olhar apagas o sol e iluminas a lua, óóóó que grandioso que és, ó imperador, como eu me sinto insignificante ao pé de ti, que se fossemos animais eu seria metade de um gafanhoto paralítico e cego e tu um dragão vermelho do tamanho do firmamento; óóóó imperador, és deveras o maior; que vivas mil anos, um milhão de anos, uma infinidade de séculos, ó imortal entre os imortais; eu, uma pequena formiga entre as mais pequenas formigas, que não sou digno de te dirigir a palavra, que não ouso sequer olhar os teus pés ou lamber a sola resplandescente das tuas sandálias, vinha aqui... vinha aqui... bom, eu vinha aqui ó querido imperador... eu queria dizer qualquer coisa importante, mas esqueci-me o que é... qualquer coisa muito séria, uma coisa que só a enormidade da vossa sabedoria poderia abarcar e resolver... eu peço infinitos perdões e apresso-me a voltar para a minha toca imunda onde vou espetar alfinetes nos olhos , se o amado imperador, grande fecundador do universo, pai dos povos e mãe também, me quiser dar esse prazer... E foi assim. Na verdade, nunca se soube o que queria o pobre do Sun Tzu pedir ao imperador da China. É preciso ver que uma pessoa naquela altura tinha imensas dificuldades em falar com o Imperador da China, por causa, precisamente, do complicado protocolo que tal tarefa implicava. Mesmo actualmente ainda não é fácil.

22/03/04

“O Génio é incompatível com o Bom Gosto”, por Goethe

Sun Tzu, natural de Ch`i, conseguiu, graças ao seu livro sobre a "Arte da Guerra", chamar sobre si a atenção de Ho-Lu, rei de Wu.

Ho-Lu disse: “Li, Senhor, os seus treze capítulos completos. Será capaz de me fazer uma pequena demonstração de controlo de tropas?”

Sun Tzu respondeu: “Sou sim.”

Ho-Lu perguntou: “Poderá a experiência ser feita com mulheres?”

Sun Tzu assentiu: “Pode, sim.”

Concordando, o rei mandou que do palácio viessem cento e oitenta belas mulheres.

Sun Tzu dividiu-as em duas companhias, colocando à frente de cada uma delas uma das favoritas do rei. A todas ensinou como empunhar alabardas. Perguntou-lhes então: “Sabeis onde estão o coração, as mãos, direita e esquerda, e as costas?”

E as mulheres afirmaram: “Sabemos.”

Sun Tzu explicou-lhes: “Quando eu der ordem “Em frente”, virai-vos para onde o coração está virado. Quando mandar “À esquerda”, voltai-vos para o lado da mão esquerda. Quando mandar “À direita” voltar-vos-eis para o da direita. Finalmente, quando ordenar “À retaguarda”, virar-vos-eis na direcção das vossas costas.”

E as mulheres tornaram a afirmar: “Entendemos.”

Uma vez feitas estas recomendações, informou-as estarem os instrumentos do carrasco prontos a funcionar.

Sun Tzu proferiu as ordens três vezes e explicou-as cinco vezes mais, após o que ordenou ao tamborim que rufasse “Direita volver”. As mulheres escangalharam-se a rir.

Sun Tzu comentou: “Se os regulamentos não são claros e as ordens não são perfeitamente explicadas, a culpa é do comandante.”

Assim repetiu as ordens mais três vezes e explicou-as mais cinco vezes, após o que fez o sinal ao tamborim para que rufasse “Esquerda volver”. De novo as mulheres rebentaram de riso.

Sun Tzu comentou: “Se as instruções não são claras e os comandos pouco explícitos, a culpa é do comandante. Mas quando foram claramente postos e não são executados de acordo com os ditames militares, então o delito é da parte dos oficiais.”

Logo a seguir, ordenou que as mulheres no comando das divisões esquerda e direita fossem decapitadas.

O rei de Wu, que do alto do seu terraço assistia aos exercícios, viu que as suas duas queridas concubinas iam ser executadas. Aterrado, enviou a toda a pressa um ajudante-de-campo, com a mensagem seguinte: “Já verifiquei ser o general capaz de lidar com tropas. Sem aquelas duas concubinas, a minha comida perderá o seu sabor. É meu desejo que não sejam executadas.”

Sun Tzu respondeu-lhe: “Este vosso servo foi por vós nomeado comandante-chefe, e quando um comandante-chefe encabeça as suas tropas não é obrigado a obedecer totalmente ao seu soberano.”

Como exemplo, fez levar para diante a sua ordem de decapitação das duas mulheres que haviam comandado as duas divisões e nomeou as duas que se lhes seguiam em categoria como novas comandantes.

Repetiu as ordens através do tamborim e as mulheres viraram à esquerda, à direita, em frente, à retaguarda, ajoelharam-se e ergueram-se, todas em total acordo com as instruções que lhes havia dado. Nem sequer ousaram produzir o mais leve ruído.

Sun Tzu enviou nessa altura uma mensagem ao rei informando-o de que “as tropas estão agora em condições. O rei poderá descer e inspeccioná-las. Estão prontas a serem utilizadas de conformidade com os reais desejos, pelo meio do ferro e do fogo, se for preciso”.

19/03/04

Oh Captain, my Captain!

Cheguei a Madrid de manhã cedo e, depois de um sólido pequeno – almoço, enfiei-me no Prado a ver a exposição de um dos meus pintores – fetiche, que eu tinha como um segredo bem guardado: Caspar – David Friederich, um romântico alemão, meticuloso, alucinado e luminoso. E, porque nunca o verei vezes que cheguem até que a morte nos separe, gastei ainda meia – hora, entre encontrões, excursões e raros momentos de trégua, diante do mais fantástico quadro que alguma vez alguém pintou ou pintará: As Meninas, do Velásquez.
Junto à Plaza Mayor, procurei e descobri um restaurante basco cuja recordação guardava num canto da memória. Comi o que eles chamam de “besugo” e que eu chamo de pargo e a que os deuses chamarão milagre. Esta, para mim, é a melhor cozinha do mundo e este primeiro dia “na Europa” começara esplendorosamente: Velásquez, Caspar – David Friederich, besugo à basca e, a seguir, um Partagas Lusitano, de uma caixa de 25 que comprei à saída do restaurante e que fumei sentado na mala que carregava comigo desde que saíra do comboio, encostado a um muro da Plaza Mayor, sob um céu finalmente cinzento e prometendo chuva.
(excerto de “Viagem”, do livro “Não te deixarei morrer, David Crockett”, de Miguel Sousa Tavares)

15/03/04

O amor, segundo Hannibal Lecter e Vlad O Empalador, por Mangas

O encantamento de alguns filmes vai para além do enredo desenvolvido, ou do fascinante universo criado pelos personagens que o compõem. A importância do que se não vê mas adivinha, o pressentimento de uma emoção encoberta, ou a disponibilidade para sermos tocados pelas palavras que nunca foram proferidas, são muito provavelmente, as causas que transformam a composição, ou parte dela, em fábulas, dramas ou lendas que sobrevivem à história contada.

A sequência final de Hannibal de Ridley Scott (2001), é o desfecho lógico - ainda que as paixões não sobrevivam da coerência de conceitos ou acções -, de um amor condenado desde o primeiro encontro entre Clarice e Hannibal Lecter, em O Silêncio dos Inocentes (1991). Com um cutelo na mão livre, e preso com a outra às algemas que o impedem de fugir, Dr. Lecter não hesita em sacrificar a sua própria mão acorrentada para escapar e, dessa forma, preservar a integridade física de Clarice. A fascinante mente deste homem de paladares requintados, amante de arte sacra e música clássica e que, por contingências do destino, encontra um raro sentido de prazer e justiça nos mistérios de cortar às postas e temperar com folhas de louro outros homens de mesquinhos apuros éticos ou estéticos, fazem dele um verdadeiro herdeiro do espírito renascentista até na capacidade infinita de amar com altruísmo. Mais tarde, quando Clarice detém a sua perseguição junto ao rio, não é por acaso que o céu negro é pincelado por um fogo de artificio que rasga as trevas da noite. A explosão multicolor acontece também no seu coração ao confirmar a fuga do homem que, por amor a si, amputou o punho direito. Se olharmos com atenção, podemos ver os olhos com um brilho diferente e mais cristalinos do que o habitual na agente do FBI.

Antes de cair em desgraça, Vlad, O Empalador, foi um cruzado da igreja, membro da Ordem do Dragão, uma ordem sagrada que jurou proteger a Igreja de todos os inimigos da cruz de Cristo. A abertura do filme de Coppola, integra uma sequência de batalha em que Vlad defende a pátria cristã da invasão dos turcos muçulmanos. No regresso a casa, descobre que a esposa se suicidou ao ser erradamente informada da morte do seu amado. Como consequência deste acto desesperado, a sua alma jamais poderia cruzar os portões do céu tendo sido eternamente amaldiçoada pelas leis da mesma Igreja que o seu Príncipe defendeu com o sangue de milhares de infiéis tombados a golpes de espada. É possuído pela dor irreparável desta perda sem igual que Vlad, o grande guerreiro, jura regressar dos mortos e vingar a morte do seu único e grande amor. Na pele de um anjo negro em guerra com Deus, castigado a percorrer séculos no exílio dos vivos, Vlad alimenta-se de sangue até reencontrar o verdadeiro amor em Mina, 400 anos depois em Londres vitoriano, junto ao Animatógrafo, no ano de estreia de todos os sonhos do celulóide. Bram Stoker`s Dracula de Coppola (1992), é a mais triste e maldita história de amor jamais contada.

A agente Clarice Sterling e Mina Murray são imagens duplas reflectidas num espelho, almas gémeas de dois condenados à solidão sem fim. A carne e o sangue, para Hannibal Lecter e Vlad Drakul, são as razões últimas de viver, consolações absolutas que alimentam a eternidade aprisionada, metáforas de um amor poderoso e até sexual, condenado, mas imortal, porque “love is stronger than death”.

THE BITCH IS BACK, por Simplista

The Bitch Is Back. O Mal regressou. De novo num dia 11, de novo num ritual de coincidências e mortandade, como o Mal gosta. Mais um vez, apanhou-nos desprevenidos. E mais uma vez choramos inocentes. Carne viva, humana, que ia trabalhar. Só isso. Morreram, não por qualquer culpa especial, mas apenas porque tropeçaram no Mal.
A besta, essa, fugiu e não ficou para ver o inimigo retorcido e destroçado. Porque é uma besta cobarde e nojenta, que seja na fuga viva ou na fuga morta, não aguenta ver a sua própria obra. Ou se calhar aguenta, o que ainda é pior.
É-nos sempre difícil, senão impossível conviver com o mal. E à força toda queremos explicá-lo, entendê-lo e digeri-lo. De modo a poder viver com ele. Erro. Dizemos que são os pobres a lutar. Errado. Que são os injustiçados a gritar. Errado. Que são os esquecidos a clamar. Errado. Aquilo é pura e simplesmente o Mal Absoluto. É o lodo mais negro e o poço mais fundo da alma humana, que se mostra em toda a sua plenitude e infinita capacidade maligna. Só isso. O Mal Absoluto. Impossível de ser explicado. Insusceptível de ser digerido. Está no meio de nós, sempre cá esteve e sempre cá estará.
Temo-lo cá dentro, como Ripley o tinha no filme “Alien 3”. Ripley, humana e besta ao mesmo tempo, fez o último sacrifício na fornalha infernal, onde mergulhou para matar a recém nascida besta, o seu próprio filho. Mergulhou e agarrou-o com carinho e enlevo de mãe, mas ao mesmo tempo com a força humana de quem sabe que o não pode deixar escapar. No Alien 3, o humano venceu a besta. Em Madrid, para já, venceu a besta.
O Mal não pode ser explicado, digerido ou aceite. Apenas podemos agarrá-lo com quanta força temos e lutar. Enfrentá-lo de frente e de peito feito. Como carne para canhão e com a normalidade possível após o impossível.
Mas o combate só pode ser vencido, se a distinção fundamental nunca se perder de vista. Porque nós não somos eles. Porque nós não somos iguais a eles. Somos diferentes. Somos humanos. Em nós, a besta não vence. E é isso que nos distingue deles. Dos aliens. Da monstruosidade insuportável do mal. Somos diferentes. Somos Humanos. Por oposição ao Mal. Aos filhos da puta.
Todos temos a Besta cá dentro, mas não somos A Besta. Somos Ripley.

11/03/04

A Mulher da Vida do Super Homem, por Red Kryptonite

No que toca a gajas, o Super Homem sempre foi um ratão. Ele passou a vida toda sem nunca se comprometer, bandarilhando alegremente, primeiro a Lana Lang, uma loura espampanante, ainda na fase de Super Boy, quando vivia em Smallville (Pequenópolis na tradução portuguesa da saudosa editora Ebal); e depois a verdadeira Penépole da saga, Lois Lane, eterna noiva do Super Man, já crescido.
Mas, nem todos o sabem, houve outra mulher na vida do Super. E esta fê-lo mesmo perder a cabeça. Por ela, o kriptoniano esteve disposto a abdicar de ser herói. Lori Lemaris era o nome dessa mulher. Ainda me lembro, era miúdo, do dia em que li The Girl in Super Man´s Past, história de Bill Finger e arte de Wayne Boring. Deixou-me comovido até hoje.

Clark Kent conheceu Lori na faculdade em que ambos estudavam. A jovem é bonita, claro, tem olhos cor do mar, é inteligente, corajosa e brilhante. Um problemazito, apenas: é paralítica e vive numa cadeira de rodas. Isso não impede que o jovem Clark se apaixone por ela. Vivem ambos um romance – platónico – e Clark toma, um dia, a mais séria decisão da sua vida: pede Lori em casamento, num cenário fantástico, junto ao mar. E não pára aqui: confessa-lhe a sua super-identidade secreta e comunica-lhe que, por ela, está disposto mudar de vida e ser só um simples pai de família.

Neste ponto o enredo comove-me. Clark recorda-me o drama do Cristo filmado por Scorsese (The Last Tentation of Christ). É um Cristo angustiado, dilacerado pela imensidão da sua missão divina que hesita em morrer na cruz para nos salvar ou viver a sua vida comum com Maria Madalena. Pela sua omnipotência, Super Homem é um Deus semelhante a Cristo. Mas pelo seu amor por uma simples e frágil mortal, de cadeiras rodas, ele torna-se um de nós. Neste momento Clark decidiu descer da sua cruz - como o Cristo de Scorsese - e rejeitou o seu super estatuto divino para escolher o destino comum de qualquer homem vulgar.

Mas, surpresa das surpresas, a rapariga deficiente responde-lhe que, embora o ame, não pode casar com ele. Que coisa espantosa para o leitor desprevenido – pensávamos que o Homem de Aço é que se poderia dar ao luxo de recusar quem quer que fosse! Mas é uma jovem deficiente quem recusa o homem mais poderoso do universo. Super Homem torna-se assim um Deus rejeitado. Aquele que nunca foi vencido, nem pelos mais perigosos e poderosos criminosos do universo, acaba de ser rejeitado por uma rapariga de cadeira de rodas. O amor (por Lori) foi afinal mais poderoso que o ódio (dos super vilões como Lex Luthor) e a fraqueza que a força.

Super Homem desvendará o mistério da recusa de Lori numa visita furtiva ao quarto desta: em vez da cama onde a rapariga devia dormir, o que lá está é -imagine-se!- uma banheira. Uma banheira em vez de uma cama, é verdade…
Tudo se tornou, então, cristalino. Lori é, afinal, uma sereia vinda da Atlântida para aprender com o povo da superfície. Ela não tem pernas – nem o resto – é um peixe da cintura para baixo. Na vinheta em que o Super Homem a atira da cadeira de rodas para o mar, o que vemos é terrível. Lori é um ser monstruoso, de certa maneira, o seu corpo causa-nos repulsa.
Mas é curioso como ela recusa ficar com o Super Homem não devido à irredutível diferença física que os separa, mas em nome de um dever que invoca – o mesmo que o Super estivera disposto a renegar por ela. «Tenho que regressar para junto do meu povo para partilhar os conhecimentos que aprendi na superfície», diz a sereia!

A despedida entre eles faz-se no mar com um beijo e lágrimas à mistura. É comovente. Mas para mim, aquela justificação de Lori Lemaris soou-me sempre a um álibi de quem sabia que as relações entre os Super Homens e as sereias estão condenadas ao fracasso. Na verdade recordo esta história – uma das mais fabulosas que já li – como uma metáfora dos amores impossíveis e das incompatibilidades inultrapassáveis. O romance impossível entre Lori e o Super Homem é mais carnal do que parece – apesar de todo o platonismo que os une, deve ser difícil amar alguém que em vez de pernas e pés e sexo, tem escamas e barbatanas. Até mesmo quando ambos são telepatas…

Por isso, embora Lori se despeça com o pretexto do dever, aquele final não me faz lembrar Casablanca - metáfora da tensão entre o desejo e o dever - quando Ingrid Bergman voa para o dever e abandona um Bogart, que subitamente se descobriu bom cristão. Soa-me antes a pretexto, para justificar a oportunidade perdida por dois seres feitos um para o outro mas que tiveram o azar de se conhecerem enquanto habitavam os corpos errados. É por isso que esta história é tão profundamente triste – Lori e o Super Homem parecem vítimas de uma comédia trágico-cómica criada por um qualquer Deus superior que resolveu colocar as pessoas certas nos invólucros errados.

Não foi, pois, a deficiência de Lori que os separou – nunca os separou - mas a descoberta de uma incompatibilidade ainda mais terrível e visceral. Tão humano, tão infimamente humano! Lori, ou um Deus cruel e cómico por ela – Bill Finger -, fez descer, pela primeira vez – e única? – o Super Homem ao reino miserável da mortalidade. Humanizou-o, tornou-o comum, matrimoniável… Sensível, ia eu a dizer… Será então isto, a sensibilidade?...

SAÚDE, PROST, CHEER`S E NAZDRÓVIA!, por SimplistaAvinhado

Há dias perguntava a Gotika pelo Vinho do Porto australiano. Ao mesmo tempo no seu blog, questionava-se em que é que Portugal era grande. Mata-se assim dois cágados, digo, dois coelhos de uma só cajadada.
Entre outras coisas, Portugal é excelente no seu Vinho do Porto. O Vinho do Porto é no estrangeiro uma vaca mítica e sagrada, que é sacrificada regularmente aos deuses do Olimpo. Mas atenção, que o nosso bom Vinho do Porto e que reconhecidamente goza de prestígio e estatuto de raridade gourmet in all the world that mater`s, não é a mistela de 4/5 euros que os gajos de fato-de-treino, se afadigam a comprar ao domingo nos Continentes, para os anos da sogra. Esses “lágrimas”, “rubys”, “tawnys”, “crusted” e quejandos, são parentes muito distantes do verdadeiro néctar do Douro, destinados a alimentar a esperança lusa de um ataque fulminante nas sogras ou a distrair os comparsas da bola das poucas cervejas que restam lá em casa. Essa tropa nefanda, vende-se por cá e não se vende para lá. Para lá vai a nata, os Vinhos do Porto “Vintage” e os “LBV” ou “Late Bottled Vintage”. E aqui importa descer ao mundo da precisão. Os “Vintage” são Vinhos do Porto, de uma única colheita (ano), considerada excepcional, que depois de um pequeno estágio em madeira, é engarrafado entre o Segundo e o Terceiro ano, após a vindima. Enquanto o tawny envelhece em madeira por anos e anos ou mesmo, dezenas de anos, até ganhar aquela cor amarelada e o sabor de “vinagrinho” característico, o “Vintage” ao invés, é engarrafado praticamente de imediato e vai envelhecer em garrafa, se o deixarem claro!
Este é o topo de gama do Porto, a categoria especial, a quinta-essência da coisa.
O “LBV” é a segunda categoria especial de Vinho do Porto, também de um só ano, identificado na garrafa, de uma colheita considerada muito boa, mas que não atingiu o nível de excepção, e que após um estágio em madeira mais prolongado que o Vintage, foi engarrafado entre o Quarto e o Sexto ano, após a vindima.
Estas duas categorias de Vinho do Porto, como não são sujeitas a estágios de madeira prolongados, são engarrafadas com uma força e uma riqueza aromática e gustativa, que nada tem a ver com as mistelas destinadas a cumprir a função de vinho doce nos aniversários. No essencial são vinhos tintos, só que mais alcoólicos (20%) e pujantes que o tinto normal. O doce está lá, mas abafado por uma complexidade e distinção aromática que nos deixa de rastos. Para quem, até agora, só andou pelas mistelas e vem meter os queixos, num Porto Noval, LBV, 1996 (14€), 97 (15€), ou mesmo num Warre`s, LBV, 92 (15€) ou no 94 (10€), só para falar dos três ou quatro que ainda me perduram na memória papilar, a coisa é um autêntico murro no estômago de contentamento e uma explosão no cérebro de admiração.
Infelizmente, os Vintage não são da nossa divisão. Jogam com os Châteaux Margaux, Haut-Brion, e Yquem`s nas major league inglesa, americana e japonesa, ao preço de 2.000,00€ a colheita do ano do Porto, Noval, Vintage, Nacional, ou ao preço de 20.000,00€ pelo mesmo Nacional de 1931, eleito pela Wine Spectator como um dos Cem Melhores Vinhos do Século. Tais belezas, (vintages da Noval, Dows, Niepoort, Graham`s, etc) estão todos os anos nas listas dos melhores do mundo da Wine Spectator, do Robert Parker ou da Challenge. Vão para lá e nós por cá se queremos ferrar o dente num Niepoort, Vintage, 1997 (98 pontos em 100 da Wine Spectator de Fevereiro de 2000), já temos que esportular 200,00€ e é encontrá-lo, que o animal já hiberna nas caves dos tascos e investidores de Nova Iorque e Tóquio.
Os autralianos, sul-africanos e californianos, obviamente querem uma fatia do bolo, mas só a conseguem junto dos gajos de fatito-de-treino dos antípodas que ainda tentam despachar a sogra.
Mas atenção, que os japões, britts e os yankees, esses capitalistas de merda, não o levam todo, não senhora! Há uma categoria especial, que resiste ainda e sempre, ao avanço das hordas bárbaras, que é o LBV. O LBV, tem a vantagem em relação ao Vintage de não se ter que esperar por ele, uma vez que já vem pró mercado com o estágio completo feito e está pronto a ser consumido. Obviamente, como tem menor potencial de envelhecimento, é menos apetecido pela corja monopolizadora.
E pra gáudio nosso, acontece que os brutos também se enganam. Como é que se distingue um colheita “excepcional” de uma “muito boa”? Por vezes, os rapazes lá do douro falham e fazem LBV de coisas excepcionais, que só por engano deles ou por imprevisível evolução no estágio, é que para aqui vem, em vez de ir pra Vintage. É o caso do Noval, LBV, 1997 que a 14,00€ euros, é ambrósia roubada aos deuses que nos aplaca a fúria anti-capitalista no final de uma boa refeição!

10/03/04

O MEU PAI É UM GÉNIO, by The Godfather

- Ó mãe, ó mãe, o meu pai é um Génio! - gritava o puto para a mãe, afogueado e esbaforido, depois de entrar de rompante na cozinha. A mãe, que se atarefava de volta de uma tijelada tamanho-família de Estrelitas Super Power e Chocapic, e que conhecia bem o animal em questão, não ligou.
Mas o miúdo, transbordante dos seus quatro anos de entusiasmo, insistia e puxava pelos jeans da mãe:
- Um Génio, mãe, o meu pai é um Génio!
A Glória Ventura, que ao marido conhecia poucas glórias e já se escaldara com muitas desventuras, puxou pela cabeça e tentou encontrar a centelha do génio nos labirintos da memória. Nada. A imagem que lhe saltava aos olhos, era a do marido espojado no sofá a coçar a barriga com uma mão, a fazer piretes com a outra ao árbitro da Sport Tv, que lhe roubava mais um penalty lampião, enquanto imitava raivoso o grito do macaco para o negro de azul ás riscas, que derrubara a nova pantera negra.
- Nah, não é nada filho, é impressão tua, chama-o que o almoço está pronto.
- Não mãe, anda ver ao terraço, o que o pai fez, é um Génio o meu pai!
Curiosa, a Ana lá foi ao terraço ver o génio em acção. O génio, parado no meio do terraço, de braços cruzados ao peito, olhava estupefacto e indeciso, para uma enorme Ratazana morta, que balouçava pendurada pelo meio do corpo no fio da linha telefónica, que passava ao lado do terraço.
- Ó génio, tira-me já dali aquela porcaria nojenta!
- Ó pá, nem sei comé que fiz aquilo, o teu filho descobriu a ratazana morta e eu joguei-a fora e fui acertar na merda do fio e agora ali está aquilo a balouçar ao vento!
- Um Génio mãe, o meu pai é um Génio!

09/03/04

OS COMEDORES DE BATATAS, por Simplista Complicado

Há muitos anos, sempre para mais de 16, quando andava eu nas minhas rondas de paquete jurídico, pelas aldeias dos arredores de Coimbra, dei comigo numa saleta de agricultor, modesta e apertada, onde pontificavam quatro reproduções de pinturas conhecidas. Obviamente más reproduções. Além do eterno e sempre presente Menino a Chorar, com a lágrima a escorrer, uma coisa em forma de assim, que ainda ando para descobrir de quem é, lá estava também a sempre presente Menina a Ler do Fragonard e o eterno Carro do Feno do Constable. Coisas apelativas e sempre presentes neste tipo de saletas rurais. Destoava do conjunto a presença d`Os Comedores de Batatas de Van Gogh. O quadro é uma brutalidade de negritude, rudeza e pessimismo. É uma ode ao negro, é tudo menos apelativo e destoava dos outros três. Cumpridas as formalidades do trabalho jurídico e em plena feitura das honras da casa, com o sempre presente copázio de carrascão, a que era impossível dizer não, lá expus a minha curiosidade:
- Ó Ti Custódio, aqueles três quadros são o oposto daquele ali, aquilo até mete medo, home!
- Ó Dr. aquilo é tudo coisas que nós trouxemos da Bélgica. Aqueles três “xaropes” são da minha mulher e da minha filha. Este aqui é meu. Está aqui desde que a gente regressou e é uma guerra permanente com “as minhas mulheres” mantê-lo ali. Mas dali aquilo não sai. Já me disseram que é de um tal Van Gogo e que é horrível, mas horrível ou não, aquilo é a miséria da minha família em pequeno, que eu bem me recordo de como jantávamos. Aquele é o meu pai, ali a minha mãe e só falta o número certo de filhos, porque nós éramos 9, mas aquilo é a miséria que eu passei antes de ir prá Bélgica e daquela parede aquilo não sai, doa a quem doer!
Nunca mais encontrei ninguém que gostasse tanto d`Os Comedores de Batatas comó Ti Custódio da Zouparria do Monte, e muito pouca gente é capaz de gostar de um quadro tão directo, crú e rude, brutal mesmo. Estava ali, porque o tocou e o emocionou, na sua rudeza de camponês em Portugal e de pedreiro na Bélgica. E dali não saía.
Ao contrário do pensamento comum, só muito raramente os grandes da pintura atingem o nível de obra-prima. Daquelas que basta olhar e nos fulminam a todos, pedreiro ou catedrático. Gauguin das centenas de quadros que fez, ponderava ter realizado 4 ou 5 obras-primas. O resto eram primas da obra. Com os Comedores de Batatas, Van Gogh atingiu o Ti Custódio da Zouparria e atingiu pela primeira vez a Obra-Prima.

JOHN WATERS, MESTRE DO TRASH, por Mangas

Entre a provocação assumida de Pink Flamingos que a Variety classificou como um dos mais vis, estúpidos e repulsivos filmes jamais feitos, e o seu último Cecil B. Demented, Waters estabelece o percurso de radical cronista do bizarro, do Gore, do mau gosto e da indecência em 14 filmes nos quais, entre outros elementos de exaltação visual, não esconde a sua preferência por sexo animal, vómitos e coprofagia. Divine, uma esponjosa drag queen de 150kgs, cujo verdadeiro nome é Michael, está para a obra de Waters como Dietrich estava para a de Sterneberg. O glamour mede-se ao peso e o talento não vacila quando, sob a superior direcção artística de Waters, se lhe exige fazer sexo oral ao próprio filho/personagem numa insuperável sátira aos clichés do cinema porno.
A primeira longa metragem de John Waters é Mondo Trash (1970), produzida com um simbólico orçamento de 2000 dólares emprestados pelo pai. Sem diálogos do primeiro ao ultimo take, contempla uma banda sonora em rock-n-roll-vinyl-riscado e algumas voicecovers para anestesiar os espectadores e tornar a coisa mais suportável. A protagonista surge morta mais de dois
terços do filme, depois de atropelada por uma Divine que se distrai com um tipo nu à boleia, dá uma de boa samaritana, recolhe o cadáver e, pela sua boa acção, Divine é visitada pela Virgem Maria. A morta é levada a um médico louco que lhe substitui os pés por outros, feios e grotescos. Aos corajosos curiosos, aconselha-se a procura imediata de uma cópia (o que será complicado encontrar), para saberem como acaba este chorrilho de absurdos e disparates. Para os fãs convertidos, descobre-se parcialmente o véu nas palavras de Waters: "Naquela
altura, dependíamos muitos de batedores de locais. Na última cena do filme, quando a Divine está numa pocilga a morrer no meio da merda dos porcos, nunca perguntei ao fazendeiro se podia filmar ali. Nem hoje ainda sei se estaria alguém na quinta. Simplesmente estacionamos do lado de fora, saltamos a cerca, filmámos a cena e fugimos." Nota de pós produção: na estreia do filme projectado numa igreja, Cookie Muller, que acabara de ter alta de um hospício local, ganhou o prémio de entrada que consistiu numa jantar à borla no restaurante Little Tavern. Consta que ficou desde esse dia amiga pessoal de Waters.
A amoralidade ideológica de Waters ganha outros requintes criativos em Hairspary, (1988) a história de uma tipa obesa com uns pais tiranos, - interpretados por Sonny Bono e Debbie Harry -, com um sub-argumento encaixado nos males da segregação social. Ric Ocasek e Pia Zadora são os beatniks de serviço cuja obsessão maior é engomar a ferro o cabelo. Uma banda sonora desencantada no pop obscuro dos anos sessenta e alguns rythman/blues especialmente arranjados para a ocasião, ajudam a compor a festa. Rapidamente
adquiriu o estatuto de filme de culto na filmografia de Waters, contudo, é bem menos denso do que Roman Candles onde a blasfémia segundo Waters assume contornos pictóricos bem definidos: três projectores usados em simultâneo com um gravador de cassetes para exibir uma freira drag-queen pendurada num cigarro, um padre a beber uma cerveja, uma mulher a ser atacada por uma ventoinha eléctrica, uma outra drag-queen montada numa moto e a sublime Divine a jogar às escondidas, tudo isto ao som dos Shangri Las.
Recordando ainda com orgulho algumas manifestações públicas pouco recomendáveis aos olhos do moralismo vigente, que lhe valeram frequentes visitas a prisões estatais por conspiração e exposição corporal considerada indecente, Waters viveu as primeiras contestações ideológicas nos setenta quando, assumindo as suas tendências de esquerda, fazia-se passar por punk numa época em que hippie
era o que estava a dar. Waters considera que aqueles tempos eram efectivamente uma guerra cultural. Nós contra eles, entendendo-se por eles a América conservadora ilustrada no stablishment politicamente correcto produzido nos grandes estúdios. Pink Flamingos é a obra-prima de Waters. Personagens centrais: Divine, sempre ela, interpreta Babs Jonhson, uma baleia intratável,
obcecada pelo estilo e pela moda; a mãe mentalmente estorpiada; o filho delinquente. Objectivos de vida: chupar ovos e foder galinhas. Esta balsâmica beatitude é posta em causa quando os Marbles, (no argumento original de Waters descritos como "jealousy perverts"), tentam conquistar o título da «Pessoa Mais Imunda de Sempre» e abrem as hostilidades enviando um monte de merda pelo correio a Babs, para a seguir lhe incendiarem a caravana onde vive com a família. Numa lógica sequencial de tomada ao poder, os Marbles raptam algumas
mulheres à boleia, solicitam a colaboração do seu criado para as engravidar e alguns meses mais tarde, vendem os bebés a casais lésbicos. O final tem créditos firmados numa demonstração clara de imponência artística aos prazeres gastronómicos - Divine, a musa imunda, passeia um poodle, espera que ele cague, apanha do chão alguns cagalhões, e engole-os com particular avidez e prazer
lambareiro, provando ser rainha indestronável da imundice. Aviso: as cenas dos ovos são desaconselháveis a mentes facilmente sugestionáveis ou estômagos particularmente sensíveis. Questionado sobre o facto do filme conter material extremamente explícito e ainda assim, 25 anos depois da sua estreia, conseguir criar repulsa nos espectadores, Waters respondeu que tal facto não o surpreendia porque é tudo real. "As galinhas foram mesmo enrabadas e nós comemo-las a seguir. A Divine comeu mesmo merda de cão. Quero dizer, hoje em
dia ninguém arreia a carga em cima do cabelo da Cameron Diaz, pois não?! É diferente, ponto final! Pink Flamingos foi um filme anti-hippie, feito para hippies que seriam punks no espaço de dois anos. É um filme de ganzas. «Escrevi-o completamente ganzado», acrescentou.
Hoje em dia, Waters aparentemente já não se deixa seduzir por cenas em que a sublime Divine mata o seu marido e outra rapariga, num ataque de fúria, esquarteja-os para em seguida lhes comer as entranhas. Cecil B. Demented (2000), com Melanie Griffith e Stephen Dorff está para a sua obra como Unforgiven para a de Clint Eastwood, mostrando se tal ainda necessário que o
seu grande mérito foi nunca se ter vergado durante todos aqueles anos. Nunca o seu manifesto esteve tão actual: «Poder para o povo que castiga o mau cinema! Terroristas do cinema: juntem-se à revolução contra os filmes de Hollywood! Dos lugares vazios de cada cinema na América, erguer-nos-emos e tomaremos de volta o ecrã. Não mais remakes em língua inglesa de filmes estrangeiros! Acabemos com os filmes baseados em estúpidos jogos de vídeo! Acabem com as sequelas fastidiosas de grandes orçamentos e êxitos de bilheteira! Sejam os anjos vingadores do cinema independente. Quando dizemos "Acção!", queremos dizer acção! Tragam de volta os filmes de guerra às salas de cinema de bairro e castiguem aqueles que se manifestam contra o vosso próprio entretenimento. Isto é um aviso a todos os fãs de cinema comercial: Vamos enterrar-vos! O cinema independente não tem limites! O sistema de Hollywood retirou-lhe o sexo e agregou a violência e já nada resta ao cinema, por isso, tragam de volta o sonho. Parem a distribuição em massa de filmes medíocres! Façam sabotagem ao cinema, resgatem o ecrã! Vandalizem os filmes, tragam de volta o sonho! Lunáticos do celulóide e sobreviventes do cinema, façam bons filmes ou morram! Morte a todos os que são cinematograficamente incorrectos! Estamos vivos e a fazer filmes!» O momento mais simbólico de Cecil B. Demented é-nos mostrado por um ganzado assistente de produção, a amarrar o executivo de smoking com metros de celulóide. É o fuck the system político de Waters, de quem Burroughs disse ser o Papa do lixo. E, embora ele nunca tenha amarrado o sistema, esteve-se na verdadeira acepção da palavra, sempre a cagar para ele.

03/03/04

A Girl and a Dog de Lucien Freud, por Andy Cap

É triste. Mas gosto da ambiguidade deste quadro de Lucien Freud. Nele tudo é ambíguo. A mulher é tão vagamente velha como nova, parece e não parece um objecto de desejo. Não sabemos bem se é uma mãe ou uma mulher da vida. Mas se é uma mãe é profundamente provocador o seio que mostra, também ele pairando algures num limbo feito de desejo e da falta dele.

O cão adormecido, tranquilo e dócil é um símbolo masculino. A sua inércia satisfeita pode ser lida como uma espécie de rendição viril. O cão é feliz, tudo o que deseja é estar ao pé desta mulher, seguro e protegido como uma criança pequena. Metáfora de uma felicidade contraditória e doméstica que se consuma na apatia do sofá, tão próxima da morte. A felicidade do cão – vê-se-lhe nos olhos baços - é uma felicidade triste, pesada como o tempo.

Reparo ainda na corda do roupão que mais parece a serpente bíblica, mas estranhamente caída, vergada como o cão e como a própria mulher. O cordão é a chave do corpo da mulher, escondido e revelado – tenuemente revelado, mais uma vez – pelo roupão. O cordão/serpente é ainda a continuação do corpo dela, a serpente é ainda a mulher, de certa maneira, e daí aquela cumplicidade latente. Mas também a serpente está como que abatida. Não há aqui indícios de vitalidade. Todos – o cão, a mulher, a serpente - parecem ter desistido, no mundo amarelado deste quadro, em que até os sofás estão protegidos do pó por grossas tecidos, dos que se usam nas casas abandonadas. Gosto deste quadro de Lucien Freud. Gosto da sua ambiguidade sem fim.

02/03/04

Pseudónimos, alcunhas e heterónimos: um esclarecimento

Uma vez que alguns leitores têm feito chegar até à redacção do Tapornumporco a sua perplexidade quanto à identificação do nosso corpo redactorial, decidiu o nosso Grão-mestre confradal emitir uma nota oficiosa com o objectivo de esclarecer a identidade dos confrades que se escondem por trás de uma variadíssima gama de pseudónimos, lançando a confusão sobre todos os que aqui encalham, tornando praticamente impossível a identificação dos autores dos posts deste blog. Tarefa tanto mais complexa quanto é frequente a usurpação de identidades e pseudónimos e não menos raro é o anonimato absoluto. Apesar disso, o espírito sistematizador do nosso Grão, um autêntico Lineu das alcunhas, procurou clarear as identidades, comprometendo-se todavia o intuito, dado o facto de a identidade autêntica estar substituída por um pseudónimo! Apesar disso, procurou respostas para as seguintes magnas questões: Quem são os gajos? Quantos são? Quem é quem? A isto decidiu o nosso responsável maior e máximo dar resposta definitiva, para justa satisfação e esclarecimento dos nossos leitores, bem como dos seus correligionários que são igualmente assaltados por dúvidas do mesmo teor. Em vão, deve acrescentar-se, pois o que texto abaixo prova é uma coisa só: o nosso Grão também não faz a mínima ideia de quem é quem! É o que se depreende dos esclarecimentos anexos no final. Passo então à transcrição do post do Grunfo, também conhecido por Spock, Grão, Grundig, Sardanápalo e mais o que lhe apetecer.

«Explicando aos caros leitores a coisa toda como ela é, é assim:

Vice = a Mefistófeles, Lady Madona, Sofista Prateado, (não confundir com o Simplista Prateado que esse é o Grão) por vezes Milupa ou Milu. Também conhecido por Adérito, Senhor Adérito, o Pai do Senhor Adérito e ainda por O Verdadeiro Senhor Adérito. Tem dias que usa o nome da Martins, ou Marteens, ou o Verdadeiro Martins de Fronteira. Spitfire também é o Vice. Também usa Genghis Khan, embora não se deva confundir com o Cão, embora o Cão tanto possa ser o verdadeiro Cão como o Grão em nome do Pai, digo, o Grão em nome do Cão. Não confundir o Cão com a Cadela assanhada que essa é o Grão. Já o Sardinha não é o Grão, nem o Cão nem o Nini, mas o Vice, que também usa o Sid Vício e The Private Joke Killer. Usa ainda Il Martini.

Nini = Milos Forman, Milupa ou Milu, a menos que seja a Lady Madona. Também conhecido por Vrumm. Por vezes assina como o Verdadeiro Senhor Adérito. Quando aparece o Verdadeiro Milú não é o Nini, mas o Vice. Já quando aparece Eu é Que Sou o Verdaeiro Milú, esse é que é o verdaeiro Milú, isto é, o Nini. Também assina Teresa ou Teresa Ferreira. Já a Verdadeira Teresa Ferreira, tanto pode ser o Vice como o Luzi. A Teresa isto é, o Nini, também assinaTeté, embora isso ainda esteja sujeito a investigação.

Grão = Nazi dos Pastéis, Martins, O Pai do Martins, (Não confundir com o Martimns, Marteens ou Martins de Fronteira que esse é o Vice), Rasputin, O Pai do Rasputin, Emiliano Zapata, Simplista Prateado, ( Não confundir com o Simplista Urbano, que esse é o Vice), (Não confundir o Simplista Urbano com o Simplista dos Pastéis, que este último sou eu mesmo, embora já não esteja muito bem a ver quem sou eu, mas prontos é assim) Amigo dos Animais (não confundir o Amigo dos Animais com o S. Francisco de Asssis que esse é o Groucho). Usa por vezes o Pig In Space ou Sun Tzu. O Chinês Culinário também é ele, mas já O Verdadeiro Chinês Culinário tanto pode ser o Grão, como o Vice como o Nini. Em coisas especiais assina Nabocudonosor, Faisalabad, Rawalpindi. Muito conhecido por Sardanápalo ou S.A.R.danápalo, mas é preciso não confundir com o Sardão (Vice) o Sarda (Nini) ou o Sardanisca (Luzi). Já o Sardanisca Prateado é o Mangas. Também usa Gavião e Sarça Ardente e Aleixo das Rimas.

Luzi = Groucho, Xiita, S. Francisco de Assis, Lápis Azul. Por vezes assina Tio Marcolino (não confundir com o Tio Marcolino do Grão, que esse existiu mesmo). Assina Pitágoras. Esporadicamente usou Tampu e Eu É Que Sou o Tampu. Já usou o Cardoso que era Lui même, mas cansou-se.

Tóká = Concelhia da Lousã ou Rapaz das Motas.

Tinó = Tinódio, Tinóni, Satan, Grande Satã, Concelhia da Lousã, A Verdaira Concelhia da Lousã, Genro do Archie, (espero ter esclarecido quem tu és?)

Mangas = Sardanisca Prateado, O Pai do Sardanisca Prateado,

Espero que tenhas percebido. Nos próximos episódios mando-te os pseudónimos do Capitão Nemo.

ass: o verdadeiro Sardanápalo Prateado»

Face a isto, o Vice sentiu-se no dever de prestar o seguinte esclarecimento:
«Só tenho uma coisa a dizer: pelo menos no meu caso e de mais um ou dois que reparei, o Grão não faz a mínima ideia dos pseudónimos das pessoas. Continua rapaz, talvez um dia lá chegues.»
Ass: Karzan»

A única certeza parece ser que o Karzan é o Vice. Mas não é de fiar. No mesmo sentido, o Luzi emitiu também uma nota oficiosa que se transcreve:

«Grunfo, pela minha parte, corrigindo-te e para correcto esclarecimento de todos os eventuais interessados declaro que não sou, nunca assinei, nunca me fiz passar, nem nunca ninguém me apelidou, senão tu agora, por: Tio Marcolino, Eu É Que Sou o Tampu, Cardoso. Conclui-se pois que pior do que a ignorância é a presunção da sabedoria. Atina, man. Andas a ficar baralhado e ainda te dá uma coisa má! Quanto ao Groucho, Xiita e Lápis Azul, são pseudónimos que tu, só tu, apenas tu, me atribuiste e que eu nunca usei. Por isso, presumo que te refiras à minha pessoa, embora ignore as razões dessa obsessão em atribuir ou decifrar pseudónimos e alcunhas. Há taras piores, p. ex., usar roupa interior feminina.»

Ass- Anónimo»

Restam duas conclusões, caro leitor:
1- Ao pé de nós, Fernando Pessoa era um amador dos pseudónimos e heterónimos.
2- Desista.

Ass.: Miguel Torga

01/03/04

O SENHOR DOS ANÉIS, por Senhor dos Pasteis

Óscar de Melhor Filme? Que diabo, será que sou só eu a achar que o Senhor dos Anéis não vale um caracol. A coisa está longe de ser uma obra-prima e está longe de ser o melhor filme do ano.
Até o João Pereira Coutinho embandeira em arco. Não há pachorra. Sim senhora, grandes cenários, grandes merdas técnicas, etc, etc. A cena da batalha, é alucinante de ritmo, efeitos especiais e grandiosidade. A mensagem de que o mal existe e sempre existirá e é preciso combatê-lo, com mais umas moralidades pelo meio sobre o poder e o seu poder de corrupção, ainda é a única coisa que por ali se salva. Mas para isso não eram precisos três filmes e quase quatro horas neste último. E valha-me Deus, a cena do casório no final nem nas novelas da Corin Tellado e a cena dos Hobbits a subirem o vulcão, brada aos céus de seca e inanidade. Todas as cenas são de uma previsibilidade sequencial atroz, do género, tá-se mesmo a ver que ainda não é desta que chegam lá, agora vão aqui mas vai ali saltar outro mau, e ali aparecem imensos maus mas vão todos levar no toutiço. Mesmo descontando o que já se sabia desde o inicio, de que o bem ia triunfar, e que o que interessa é a união de todos, blá, blá, aquilo é sobretudo um bom filme de desenhos animados. Nem lhe falta a saída do casal em barco ao pôr-do-sol, direitos à felicidade e bem-aventurança. Xaropada nefanda, de que só se safam as magníficas paisagens da Nova Zelândia. O melhor filme do ano, dos que vi, devia ser o Mystic River, e mesmo esse, que é bom, fica longe da obra-prima.

MACACO, por CÃO

MACACO

Tirei um macaco do nariz e disse-lhe:
- Chama-me Tarzan.
Não, isto não começou bem. Vou começar de novo.
Tirei um macaco do nariz e disse-lhe:
- Sou o teu senhorio Deves-me três meses de renda.
Pior. Esta crónica não tem concerto. Tentemos outra vez.
Tirei um macaco do nariz e disse-lhe:
- Faz as malas. Está-me a chegar a mostarda.
Meu Deus. As coisas que tenho de escrever por dinheiro. Terei remédio, doutora? Outra Vez.
Tirei um macaco do nariz e disse-lhe:
- Pira-te. A banana não é aí.
Felizmente, o telemóvel toca. Atendo. É a minha santa Mãe. Transcrevo o diálogo:
- Então filho, nunca mais apareces porquê? Que andas tu a fazer?
- Nada de especial, Mãezinha. Estou a tirar macacos do nariz.
- Porco!
- Obrigado, Mãezinha, obrigado!
Desligo o telefone e escrevo:
Tirei um porco do nariz.
Muito melhor.
A minha Mãe é única.