09/03/07

Cinéfilia - o Bruce Lee e a Traci Lords contra o Pasolini, por Kzar

Nas minhas infância e pré-adolescência (e adolescência, já agora), em Coimbra, não havia ponta de coisa nenhuma para fazer. Nas férias, que por essa época eram gigantescas (abençoadas!), os dias sucediam-se, intermináveis, iguais e quentes, como uma fiada eterna de domingos à tarde, céu azul, calor infernal, ruas desertas, eléctricos amarelos e ruidosos, passarinhos a chilrear desde Celas, Lourenço Almeida Azevedo abaixo, Praça da República e Sá da Bandeira todinha. Um tédio de convento trapista.

A pasmaceira insuportável da cidade que é a minha e que agora recordo não ser então mais do que uma infecta e mui provinciana parvónia, era apenas entrecortada por umas quantas festarolas de garagem, umas pielas à socapa com cervejas de garrafa, martinis, vinho do porto ordinário e outras avarias. Mesmo nessas ocasiões, o gajame era constituído quase exclusivamente por umas pindéricas que até davam uns chochos e se deixavam apalpar com maior ou menor esforço, mas na hora da verdade, isto é, de brincar ao esconde-chouriço, que era o que malta queria, como em todos os tempos a malta quer, fechavam-se em copas. Nada destas licenças de hoje em dia e charros só mais lá para a frente e muito à puridade.

Por esses tempos, em faltando o guito, que era quase sempre o caso, dormia-se até tarde, gastavam-se as tardes a ler patinhas em números astronómicos, gastos de tanta troca, e ao fim do dia jogavam-se umas futeboladas com a malta da rua. Por vezes marchava-se até à piscina municipal, onde fora a banhoca sempre se viam umas piquenas em roupa exígua (para os padrões da época); televisão era coisa que ainda valia menos a pena do que hoje.

Com o passar dos anos, começaram a aparecer outros entretenimentos, tipo andar à biqueirada nos cães e gatos que sempre infestaram as ruas da Lusa Atenas, armar cenas de mocada bravia por qualquer pretexto, fanar os carros paternos e fazer slides nocturnos na Praça, correr os poucos bares e xicotecas que começavam a medrar, sei lá, um mundo de cretinices infantis que nem sempre acabaram bem e que qualquer dia hão-de valer uma postada um bocado longa.

O que sempre salvou a situação e foi um elemento constante nessa luta contra o enfado de mais de uma década, foram os cinemas, e é disso que quero falar.
A cidade era pacóvia até fartar, mas lá cinemas havia-os que chegassem e para vários gostos. Gostei de todos, cada um à sua maneira.

Ele era o Avenida, com manias burguesas de grande senhorio e tradição, o Sousa Bastos, popular e rasteiro, o Tivoli, popular e modernaço, o Gil Vicente, académico e intelectual, e enfim o S. Teotónio, intermitente, preservado de poucas vergonhas pela diligente padralhada do colégio. Parece pouco, mas dava e sobrava.
Durante anos a fio, quaisquer vinte paus abonados pela generosidade familiar, fora as semanadas e o mais que aparecesse, nem sempre por modos fáceis de relatar, entravam sôfregos pelos cofres das bilheteiras de tais casas. Não havia critério; nem meu, nem de quem planeava as exibições nesses antros, se alguém era.

Calhou de tudo. Cóboiadas, americanas e italianas, itallianadas soft porno, americanadas de toda a sorte e até películas de bollywood – valia tudo. Fosse lixo, fosse sofrível, fosse bom, se era em cinema marchava, não raro às duas vezes por dia. A coisa envolvia, a princípio, dar a volta a porteiros façanhudos e inquiridores de idades, ajaezados em sobretudos longos, de cor bordeaux e enfeitados de galões e botões dourados; um cinema era um lugar sério, por essa época. Pouco a pouco, esses senhores iam sendo conhecidos e às vezes até viravam a cara a umas entradas à socapa. Cheguei a ver filmes só pela metade do fim, entrando nos intervalos (havia sempre intervalo), fosse de fininho ou fosse com a maior cara de pau, armado do cartãozito que distribuíam e que da vez anterior tivesse conseguido sonegar. Aqui há anos, a remexer papelada velha, encontrei um cartão desses, avermelhado e gasto e com os dizeres “Teatro Avenida”.

Desses sítios já só restam memórias, com honrosa excepção do Gil Vicente. Do Sousa Bastos, piolheira infecta e quase a cair, nem sei o que é feito (há uns anos uma rapaziada dessa da “cultura” queria salvar esse pardieiro, não sei porquê nem para quê, mas certamente esquecida que foi edificado em cima de uma igreja românica do melhor que havia, demolida previamente para o efeito...). No Tivoli vendem-se hoje trapinhos da Zara. No sítio do Avenida fizeram um mamarracho hediondo, em cujo interior deixaram, umas saletas de ver filmes. O S. Teotónio, foi um ar que lhe deu – não deu mais filmes, que eu saiba. Apareceram depois o “Girassolum” e agora há pela cidade salas em barda, dessas de shoping, mas não é a mesma coisa...

Como já disse, via-se de tudo, era o que aparecia. No meio de coisas muitas, boas e más, correu-me pelos olhos o cinema italiano, o cinema alemão (cheguei a gostar do Fassbinder, e hoje não consigo perceber como foi isso possível) e tudo quanto possa imaginar-se.
Não vale a pena particularizar actores e/ou realizadores que ao longo desses anos foram ficando gravados nas minhas memórias cinéfilas. O essencial é que fiquei a gostar muito de cinema, em salas de cinema, não nessas merdas que hoje há por aí – para isso mais vale um ecrã de plasma ou LCD em tamanho aceitável e um aparelho de home cinema com som surround.

Quero todavia abrir excepções, sem recordar nomes, o que aliás não conseguiria. Os que são de Coimbra e orçam pelos quarenta, quarenta e coiso, recordam de certeza, além daquela instituição que eram as “sessões clássicas” do Avenida (de Segunda a Sexta, às 18.00 horas), a outra menos recomendável que o Tivoli prodigalizava: as sessões da meia-noite, de Quinta a Sábado. A coisa incluia invariavelmente um filme de Kung Fu, ministrado à malta pela indústria de Taiwan, logo seguido por um de cus e mamas com fartura. Gajos de capacete debaixo do braço e Zundapp à porta, vindos dos confins de Casais do Campo, ciganada saída da sala de bilhar do Internacional, velhotes pervertidos, mancebos que as parvónias lançavam em inspecção sobre o quartel de Santa Clara (com a fitinha de “aptos” à lapela e em busca de inspiração para uma visita ao largo do Paço do Conde), estudantes olheirentos, putalhada barulhenta, a clientela era catita, havia gritos, “bocas”, risota alarve e, não raramente, arraiais de bofetada tesa, daqueles de parar as exibições.

Isso, meus caros amigos, é que era cinema; o meu “Cinema Paraíso”, que tal como os verdes anos já não volta. Desse tempo, desse tempo a tantos títulos feliz, guardei muito em matéria de cinema. Coisas sérias, que me fizeram reflectir e crescer; coisas cultas, eruditas e intelectuais, cujo conhecimento cai sempre bem quando exibido aos bons esprits, mas sobretudo as coisas divertidas, aquelas que arregalam os olhos aos miúdos e aos graúdos.
Podia falar da maravilha de ver pela primeira vez a “Guerra das Estrelas” (sim, sei que muitos vão já dizer que é uma pepineira), ou, mudando de registo, o “Andrei Rubliev”, mas já nem aí quero chegar: o Bruce Lee aos gritos farçolas e a distribuir mocada em saltos inverosímeis, isso é que era diversão; e então quando esse gajo largava a teorizar sobre como a sua técnica, aprendida pela observação do tigre, era melhor que a de um sequaz qualquer de Saholin, que a desenvolvera estudando o gafanhoto, aí é que era rir. E isso não é nada, comparado com os azeiteiros da margem sul a enfardarem mocada uns nos outros com sucedâneos desses truques – meto aqui à martelada o facto de muitos deles se inscreverem anualmente no Karaté da AAC, desistindo de frequentar o pavilhão (no estádio universitário) logo que percebiam não haver golpes mortais para aprender, muito menos em três tempos...

Bom, chega de divagação. Onde quero chegar é ao seguinte: ao longo da vida, aprendi a gostar demasiado do cinema para ter pachorra de aturar filmes com mensagem, em especial se forem franceses – e também muitos do Pasolini.
Desculpa Mangas, mas é assim; não é nada intelectual da minha parte, mas não me incomodo nem envergonho com isso – sou burro, não sou esperto e culto militante como o Cão.

1 comentário:

Rodrigo Hass disse...

quem e a gaja da foto?