30/03/07

A Beleza Na Escrita, ou Como Descrever a Indizível Superioridade De Um Pãozinho Sem Sal, por Abade Severino

Roland Barthes no seu livro “Sade, Fourier, Loiola” e na parte dedicada ao Sade, levanta uma questão literária interessante. Passamos por ela “n” vezes e nunca nos apercebemos da mesma. Já repararam que é impossível descrever a Beleza? Passamos a vida a ler riquíssimas descrições do Belo e quando vamos a olhar com olhos de ver, o que se lê é adjectivação e descrição por comparação ou remição.

Como é que se descreve por exemplo, o belíssimo rosto do “pãozinho sem sal” aqui da foto ao lado, sem cair na adjectivação profunda ou na comparação remissiva: linhas simétricas? proporções matemáticas, lábios ovais, olhos verdes de traça oblíqua… Impossível. Daqui, desta pena miserável de escriba blogueiro, jamais sairá a descrição da beleza sem recorrer às trôpegas figuras de estilo habituais. Mas da pena dos grandes mestres, a Beleza também nunca saiu de forma objectiva e sem recurso à mais desvairada adjectivação.

Roland Barthes a propósito do Sade diz isso mesmo: “Sade, como qualquer pessoa, não consegue descrever a beleza; no máximo pode afirmar, por meio de referências culturais (“bem feita como Vénus”, “esbelta como Minerva”, “a frescura de Flora”). Sendo analítica, a linguagem só pode apoderar-se do corpo quando o fragmenta; o corpo total não está nos limites da linguagem, a escrita só se apodera de pedaços do corpo; para fazer ver um corpo é necessário deslocá-lo, refractá-lo na metonímia do seu vestuário, ou reduzi-lo a uma das suas partes; a descrição torna-se então visionária, volta a encontrar-se a felicidade da enunciação (talvez porque exista uma vocação feiticista da linguagem): o monge Severino encontra em Justine “uma decidida superioridade no desenho das nádegas, um calor indizível no ânus”.

29/03/07

O Sr Pinto De Sousa, Um Esfolador De Primeira!, por Mameluco

Sou fanático das notas económicas de rodapé dos jornais. Ninguém lê aquilo, mas eu leio e registo. Enciclopedismo de rodapé. Coleccionismo de leituras. E por essas notitas, que nunca dão parangonas de primeira página, fui sabendo da inépcia deste governo no controle da despesa pública. Que permanecia e permanece descontrolada. Isto é, não se limita a crescer, mas cresce como erva daninha por tudo quanto é sitio. E ninguém liga a isto. Apesar de todas as criticas que se fazem, as pessoas continuam a ter por assente que isto é inevitável e que estamos no bom caminho. Errado.

O Sr Pinto de Sousa veio há dias encher mais parangonas com a redução do défice do estado, para além até do previsto. Professoral e gongórico como sempre, o Sr Pinto de Sousa esqueceu-se de explicar duas coisitas simples:

Primeira: a redução do défice dá-se à conta da mais violenta e selvagem sangria dos portugueses e da economia portuguesa de que há memória. A subida exponencial das receitas assenta no mais brutal e descarado dos roubos em tudo o que é imposto e sobre tudo o que mexa. Temos o brutal aumento do IVA para 21%, o mais caro Imposto Sobre Produtos Petrolíferos de sempre, o mais caro Imposto sobre Imóveis de sempre, e as mais caras coimas e taxas sobre tudo e mais alguma coisa. Sintomática é a anedota do Imposto Sucessório, cujo fim foi prometido por Guterres e pelo Sr Pinto De Sousa. Ora, o Sr Pinto De Sousa de facto acabou com o Imposto Sucessório. Agora, sobre as heranças e as Doações as pessoas continuam a pagar Imposto e pagam muito mais do que antes, uma vez que pelo IMI os valores do imóveis foram actualizados, só que o Imposto chama-se "De Selo". Eis como se cumpre a promessa de acabar com um Imposto, na versão Pinto de Sousa.

Segunda: a redução do défice, como e muito bem chama à primeira página o Público de hoje, não se deve à redução da despesa. Essa continua descontrolada. É que o Sr Pinto De Sousa se é muito bom a esfolar os portugueses com o bisturi do seu poder de Impérium, já é muito mau a controlar a dieta do Porco Gordo que dá pelo nome de Estado. A legislação das obras públicas continua na mesma, pelo que o regabofe dos custos inflacionados em mais de 100% em tudo o que seja contratação do estado continua. O pacote anti-corrupção do Cravinho foi convenientemente despachado para a estranja com o seu autor. A doideira do endividamento camarário para construir a enésima rotunda, mailo mamarracho artístico em cima, segue de vento em popa. Os projectos faraónicos continuam a prosperar desde a central de moura, à Ota e ao TGV. A sangria das comissões de estudo, grupos de trabalho, autoridades de acompanhamento e quejandos que diariamente saem em jorro do diário da república é um fartote de riso e dinheiro. A relação da gula e engorda do Porco a que preside o Sr Pinto de Sousa, poderia continua aqui ad nauseam, mas não vale a pena.

O Sr Pinto De Sousa não sabe fazer dieta ao Porco e não sabe curá-lo das suas doenças. Sabe sim e bem, esfolá-lo e esquartejá-lo. E ainda ninguém lhe explicou que depois de matar o Porco e de o comer, deixa de haver Porco. Parece coisa simples, mas não é. E não há maneira de o Sr Pinto de Sousa a perceber.

28/03/07

O Regime E O Ti Armando, ou Salazar, Parte 2, por Porco&Mundo

O Ti Armando foi convocado por nota oficial para se apresentar no prédio da PIDE-DGS, ali por trás da Praça da República, pouco tempo antes do 25 de Abril. Ao Ti Armando, calmeirão e pachola, velho rendeiro de courelas alheias, jamais passou pela cabeça em desobedecer a uma convocatória da polícia. E na data e hora marcada lá se apresentou. Confirmaram-lhe o nome e levaram-no para um dos calabouços.

Aí durante um dia e uma noite inteira levou vergalhada de cavalo marinho, dada por um meia-leca de bigodito que jamais aguentaria uma talochada do Ti Armando, quanto mais criar 8 filhos à força da enxada e farpão. Da vergalhada, o Ti Armando recordava três coisas: a primeira eram as duas costelas fendidas e a lesão permanente num tendão do calcanhar que o meteram a coxear para o resto da vida; a segunda era que só lhe falavam e perguntavam por um tal de “Regime” (diz ele que gostava de lhes agradar e responder, mas não conhecia o moço…), e a terceira era que no dia seguinte o puseram na rua, dorido e manco, explicando-lhe que não era nada, que não ligasse pois que se tratou de um engano. O Armando era outro. Era o de Vilarinho e do mesmo nome. Tinham-se enganado na terreola.

Esta história é verdadeira. Foi-me contada pelo próprio quando em 1978 com 15 anos servia de aguadeiro aos dez ou doze cavadores, que o meu velho trazia de volta dos torrões da vinha. Perante mais um dito que elogiava o bom Salazar-Que-Não-Roubava e que romanceava o antigo Regime, o Ti Armando poisou o tinto e a broa com sardinha, e mostrou as costas tisnadas do sol, mas marcadas com as vergalhadas que um miserável lhe fez em nome de um Regime que ele desconhecia existir, quanto mais ser contra.

José Pinto de Sousa, por Alcibíades


José Sócrates Carvalho Pinto de Sousa, o homem diz chamar-se assim (digo que «ele diz» porque depois do caso da licenciatura e das alterações curriculares no seu próprio site oficial já não tenho a certeza de nada do que ele diz). Então porque é que insistimos em chamar-lhe Sócrates? Convenhamos, este homem não tem nada, rigorosamente nada a ver com o grande filósofo de Atenas. Pessoalmente acho que ele é mesmo a sua mais fiel antítese sob todos os pontos de vista, ético, filosófico, retórico e mais haverá.

Já o nome Pinto de Sousa soa-me parecido com um Pinto de Sousa mais ou menos conhecido. Como é muito maior a semelhança do homem com o nome Pinto de Sousa do que com o nome Sócrates - homonimia manifestamente absurda - eu lanço daqui uma campanha para que a partir de agora ele seja tratado pelo nome que melhor lhe assenta: José Pinto de Sousa e não Sócrates. Sócrates só houve um;José Pinto de Sousa cai-lhe que nem ginjas.

27/03/07

O Maior Português De Sempre, Parte I, por Porco&Mundo

O concurso é meio infantil e vale sobretudo como divertimento televisivo de foguetório colorido e espaventoso. A pose certa seria a dos bonecos do Contra-Informação. E penso até que antes de tudo as pessoas votaram para achincalhar a palhaçada. Mas certo certo, é que em França elegeram De Gaulle, em Inglaterra Churchill, na Alemanha, Adenauer e na Bélgica, Jacques Brel. Aqui, o Maior Português de sempre é nem mais nem menos que Oliveira Salazar. O nosso maior, no querer do povo é Salazar, um ditador infame que censurou, torturou e matou.

Até arrepia. Que raio de gente é esta que ainda hoje elogia o pulso firme do homem, o ser austero, o não ser ladrão – como se o “não ser” fosse uma qualidade sublime -, o ser de poucas falas, o ser professor, sabedor e o grande defensor do ouro aferrolhado. Abençoada cadeira que lhe limpou o sebo!

Não fosse essa heróica cadeira, que devia ser traslada para os Jerónimos, e no querer deste povo português, ainda hoje combateríamos em África pela integridade do Império, ainda hoje estaríamos barricados em Goa a derramar o sangue até ao último Lusitano e ainda hoje andaríamos no beija-mão dos caciques de um país censurado e fechado que de tudo tinha medo desde o Avante à Coca-Cola.

26/03/07

Qual Sibéria!, Socras Pra Massamá!, por Kzar


Prá Sibéria o carago! Isso queria eu ir e ninguém me paga as viagens ou dá licenças com vencimento. Aquilo da Sibéria deve ser fabuloso! Os grandes espaços, a estepe ou a taíga, as montanhas, os rios, eu sei lá, um rol infindável de maravilhas. Olha que nisso de exílios pra castigo estás desactualizado, méne.

O gajo devia era ir para viver para um T2 com 35 anos, nos arredores da Amora, trabalhar em Massamá, como porteiro, ganhar 422 € por mês, pagar de prestações ao banco 271 € mensais, ter um corsa de 1989 pra passear quando o rei faz anos e sempre a avariar, aos domingos ir lavá-lo à beira de um ribeiro mal cheiroso e aos sábados passear no Almada Fórum, em fato de treino.

Ser adepto do benfica, comer caracois com a rapaziada nos dias de festa, beber Sagres, usar Old Spice, peúgas brancas e nas férias passar as noites pelo Parque Eduardo VII, à procura de adolescentes pretos para o sodomizarem. Votar religiosamente no PS ou no PSD, ser delegado de um sindicato, fumar português suave e achar que um bom vinho é o Monte Velho.

Uma vez por ano ir para o campismo na Caparica, a mulher ser gorda, feia, peluda e saloia até mais não e sempre a gritar, os filhos uma cambada de madraços ignorantes, paneleiros e reprovados anos a fio. Gostar de telenovelas e mamar as patacoadas do Daniel Sampaio e dos psicólogos todos que infestam este mundo, coleccionar recortes de revista das estrelas saloias da televisão, ver o big brother, os morangos e a florbela.

E ainda por cima estar com uma inspecção das Finanças à perna e à beira de perder o emprego por ter sido apanhado pela Dona Ermelinda da limpeza a ver sites gay no computador do chefe.

Isso meus amigos, é que era uma vida à medida do Socras, do que ele vale e do que o governo dele reserva à generalidade dos portugueses que ainda a não padecem. Agora Sibérias... Já agora cruzeiros ao Alaska ou à Patagónia, não...?

23/03/07

Brown Sugar, por Out Of Time


Boas, más e péssimas notícias. Primeiro as boas: tá confirmado, é já no dia 25 de Junho no estádio de Alvalade, os Rolling Stones vêm a Portugal!

Agora as más: li no público que os bilhetes custam entre 70 e 99 euros! Fónix, tá tudo doido?

E as péssimas: como não quis acreditar nos preços que o Público divulgou, fui confirmar no site da digressão da banda e afinal, o que lá vem, é pior ainda: preços de 175, 185 e 195 euros!!!! E ainda dizem que o golf é caro. Fónix!

Licor, Sabão e Sapatos – novo buque do Cão

Abrir o Livro

Receio bem que o todo deste livro seja inferior à soma das suas partes. Dito isto, vamos por partes.
A parte inicial chama-se Licor, Sabão e Sapatos. É uma colecção de histórias, não mais do que isso. Alguns dos textos foram já publicados no Cronicão, em 2003. Outros viram a luz na internet e outros, ainda, em partes outras. Não são histórias da minha vida, mas histórias que a minha vida deu. É diferente, embora não seja importante. Como curiosidade, sublinho apenas que a personagem de uma das histórias se chama Camilo Ardenas. O texto nada tem a ver com o meu próximo livro, mas a figura tem: assim se chama o tipo central de um romance que ando alinhavando num universo paralelo a este(s).
A parte seguinte chama-se O Cedro e a Lua. É coisa completamente diferente no meio de tudo o que já escrevi até hoje, publicado ou não. Esse texto, sim, devo-o àquela dimensão da vida a que se chama “(auto)biografia”. Como O Cedro e a Lua tem nota prévia própria, mais aqui não adianto.
Segue-se Uma Quinta ao Fundo com Cavalos. É uma narrativa em onze momentos. Teve origem numa fotografia de 1967. Estamos a minha irmã e eu. Ela tem 23 anos. Eu tenho três. Ao fundo, onde ainda hoje é a tal quinta, já não há cavalos.
Depois, vem uma coisa talvez imperdoável. Armei-me em dramaturgo e, em coisa de duas semanas, escrevi uma peça de teatro. Chama-se O Último Dia. Espero ser perdoado por este texto, que eu tenho já perdoado também muita coisa a muita gente.
Em penúltimo lugar na estrutura deste volume, está Gente do Touro de Ouro. Tal como Cronicão e o texto final, foi publicado em 2003 em edição de autor de curta circulação. Trata-se de uma narrativa-espelho. Quero dizer: é composto de duas partes com exactos 25 parágrafos cada. Como então referi na contracapa desse livro justamente esquecido, “o primeiro parágrafo da primeira parte haverá de reflectir-se no primeiro parágrafo da segunda parte. E assim sucessivamente, até 25. O leitor experimente ver se a reflexão (essa palavra de espelho que pensa) resultou ou não”.
O texto final chama-se Noite de Homens-Cantores. Publicado em conjunto com o Cronicão e a Gente do Touro de Ouro, foi vivido e escrito no Inverno de 1998. É um texto que alia a prosa ao verso numa espécie de entrecho dramatúrgico.
Posto isto, resta tão-só o derradeiro sacrifício: a leitura propriamente dita. É minha esperança que, ao leitor, tal sacrifício resulte benigno.

Caramulo, 7 de Fevereiro de 2007

Notas: 1 - Os lançamentos do livro terão lugar, de certeza, em Pombal e Coimbra; talvez também em Leiria e Viseu. Quando tiver datas e sítios marcados, aqui vos darei conta.2- Mais informações podem ser pedidas à editora por correio electrónico (info@imagenseletras.pt) ou correio de papel (Imagens & Letras), Rua D. Carlos I, nº 2, 2405-415 LEIRIA. O senhor Fernando Mendes é a pessoa indicada.

22/03/07

Zé Socras E As Grandes Abstracções, por Inginheiro


O Socras dizia há pouco tempo numa entrevista que desistiu das Engenharias e foi para a Política porque descobriu que a sua verdadeira vocação eram As Grandes Abstracções e não as piquenas. As miudezas. Compreende-se. Como por exemplo essas minudências como estudar, exames e licenciaturas. O homem das Grandes Abstracções foi assim para o PS e o Governo. Onde apesar de tudo, conseguiu tempo para fazer uma licenciaturazita num curso nocturno especial de 7 pessoas leccionado quase só e ao que parece pelo reitor. Em Grande é assim. Feita a pequena abstracção o Grande Homem usou-a na Grande Abstracção, e sempre que se tratou de apresentar o animal, lá estava a pose e o canudo. E no site do Governo até ontem, lá estava também o "Licenciado em Engenharia". Agora já não está. Agora já só está Inginheiro.

O jornal Público de hoje, traz uma investigação profunda à dita “Licenciatura” em engenharia por parte do Socras na Universidade Independente. A Ordem dos Engenheiros não reconhece a pequena abstracção, digo a “licenciatura” do Socras, e muito menos reconhece a Grande Abstracção que é a licenciatura em engenharia da Independente.

Pelo meio, há umas fotocópias avulsas, deslavadas e rasuradas, porque os originais não podem ser vistos por problemas de logística, essa maldita e pequena abstracção!. Nas várias cópiazitas aparecem notas diferentes a três disciplinas pelo menos. Há documentos de que nem cópia, porque desapareceram por completo, desde as fichas de alunos aos pagamentos das propinas. Fala-se me caruncho essa pequena abstracção, mas há quem prefira abstrair em grande e fale da culpa da empregada de limpeza ucrâniana. KJB, claro, Grande abstracção.

Há uma disciplina essencial que reconhecidamente o Socras não fez, há um assistente de uma das cadeiras de 18 do Socras que jura não o ter visto ou examinado, embora tenho visto aparecer na pauta por artes mágicas a dita nota. Mas parece que isso são abstracções de rodapé. Depois, há um reitor e a filha, ambos do PS que se contradizem, desdizem e quando confrontados, alegam falta de logística e a abstracção documental, desaparecida, como é evidente e faz parte das Grandes Abstracções. Tá bonita a procissão. E acabou de sair do adro. Ca Grande Abstracção. Ou não.

21/03/07

O Maestro Tinha Razão! por Zé Critério


Domingo passado, quando estávamos na doideira habitual do torneio de mini-golf, à Ucal por fora, e no meio da discussão dos melhores tascos de Coimbra, o Maestro sai-se com a Sereia. Olá, temos aqui alguém a meter a cabecita de fora. É que aqui e em coisa de comer não basta “abanar a batuta”, há que explicar muito bem a sinfonia inteira.

Mas perante a barragem de perguntas, onde?, como? o quê? e a que preço? etc, tal e coiso, o Maestro não só se aguentou à bernarda, como reafirmou a cozinha da Sereia como a do melhor tempero de Coimbra. Ainda desconfiei de uma tal coisa de “meias sopas” e “mini-doses”, mas prontos, quem não sabe é como quem não vê, e desconhecendo eu a música da mulher do tritão, amochei.

Nesta semana encornei o Tritão e logo segunda, penetrei na Sereia. Passa-se uma sala de balcão quadrado de snack-bar (arrrghhh!) e abanca-se em sala pequena tipo bunker de sete mesas e 24 comensais. Aquilo é um tugúrio escondido e mal amanhado. Das três vezes que lá fui nunca encheu. Maestro, tás fodido. Ia para afiambrar, obviamente, e lá estavam as meias-sopas e as mini-doses. O empregado é daquelas pessoas de grande deferência com os doutores habituais, mas indiferente com a estranja. Boa. Isto promete. Vai haver tourada.

O pior foi quando veio a comida. Na segunda-feira, comecei com uma sopa alentejana e uns carapauzinhos fritos com arroz de couve, maila sobremesa em forma de crepe queimado. Tudo excelente. Sopa irrepreensível, carapauzinhos ilegais de frescura imaculada e fritura estaladiça e o crepe é simplesmente das melhores coisas que já comi em doçaria. Na terça, saltei para o caldo verde e umas ovas douradas em polme de ovo, com arroz malandrinho de tomate, terminando em grande, com uma tarte do caçador. Nem vale a pena elogiar mais. Simplesmente soberbo. Tudo. Pura coincidência e sorte na praça e no tempero, pensei eu. Só podia ser.

Hoje, fui à prova dos nove. E havia feijoada. Ora aqui está, vão-se espalhar. A feijoada parecendo coisa fácil, é dos pratos mais difíceis de conseguir. O feijão tem que cozer no ponto certo, obter aquela molhaca de ligação, e enrodilhar-se devidamente com a couve, o chispe e a orelheira cozida no ponto certo. Acolitar depois a coisa com enchidos que fujam ao industrial da Probar e da Isidoro não é fácil. Comecei assim por uma sopa de couve-flor com ovo – magnifica -, e fui-me à feijoada. Meus deus, há quanto tempo não ferrava o dente em morcela tão boa e em chouriço tão telúrico que até cheirava a campo. Coisas boas, de rebentar e chorar por não caber mais. E desisto da adjectivação para as azeitonas, a broa e a tarte de morangos.

Rendi-me ao encanto do peixuço. A coisa não é barata, uma mini-dose que dá para uma pessoa vai pelos 6/7 euros e com a ida a todos, facilmente se sai de lá com 13/14 euros pessoa e para a meia-dose e ida a todos com 15/16 euros por pessoa. Mas o Maestro tem razão. Aquilo ali é uma Sereia de Luxo e trata-se sem dúvida do melhor tempero e da melhor cozinha tradicional de Coimbra. Amanhã, Quinta-Feira, há Açorda de Sável. Infelizmente tou pró Porto e prá Adega do Olho. Perdão Maestro! Afinfe no Sável por mim, que no Domingo que vem pago eu a Ucal!

PS: Restaurante Sereia do Mondego, rua Dr António Henriques Seco, Coimbra, (ao fundo das escadas do José Falcão, ou ao cimo do Jardim da Sereia) telefone 239.824.342. Fecha ao Sábado ao Jantar, aos Domingos e aos Feriados. Se puderem não falhem amanhã ao Sável do Almoço.

20/03/07

O meu Disco Sound, por Travolta do Tovim


Eu sempre gostei do disco sound. Daqueles pianos transformados em sintetizadores, das guitarradas sacudidas à Shaft, dos ritmos wah-wah, das percussões tribalistas-electrónicas a marcar o ritmo numa caixa de sons. Naquele tempo e tardiamente, chegava cá um programa à televisão uma vez por semana com as novidades vindas directamente dos States – começava com a voz de feirante do DJ: “…from Miami, Florida, the capital of disco-sound…. DISCOOOOO SEVENTY SEVEN!”. Depois era um desfile de meia hora numa pista acetinada com loiras boas e sorridentes acabadas de sair de um anúncio da Pepsi, e negras amulatadas com cabeleiras Hair e lábios de broche-batôn-brilhante, calças de ganga apertadinhas no cu e bainhas à boca de sino, a dançar sob as luzes de bolas de espelho e a bombar ancas em close-up volumétrico ao som dos lendários Rasputine e Daddy Cool dos Boney M, do frenético Le Freak dos Chic, e por aí fora, de Love to Love You, Baby, da Donna Summer a Staying Alive dos Bee Gees, sempre a dar-lhe!

E depois, havia toda aquele armário de adereços que fizeram moda, hoje absolutamente caricatos e de gosto duvidoso, kitsch, démodé, obsoletos, ou o que lhes quiserem chamar, mas que atire a primeira pedra quem nunca, uma vez pelo menos, calçou um sapatão de tacão arranha-céus, ou nunca vestiu uma daquelas camisas com colarinho asa delta, os três botões de cima desapertados a mostrar a pelugem na peitaça Macho Man!

Sim, bem sei, ouvia-se o Live in Tokyo dos Deep Purple em cassetes piratas e aquilo era do outro mundo, o Sammy Hagar rasgava a guitarra como só o Jimmy Hendrix o tinha feito até então, os AC/DC regressavam melhores do que nunca no Back in Black, já com o Brian Johnson aos berros como se tivesse um ataque de apendicite, depois da overdose do Bon Scott, e os Led Zeppelin eram a melhor banda de sempre…! Mas, num sábado à noite, quando a febre dos bailes de garagem enroscava uns slows à socapa e uns copos de Macieira à descarada, o que é que se dançava no entremeio? Pois.

Para mim, foi de transição breve, contudo, o disco sound. Os oitenta rebentaram em cena com o rock futurista dos Duran Duran e dos Classic Noveaux, evoluções electrizadas que beberam na caixa de ritmos do disco-sound – subtraíram-lhe os coros, esticaram as batidas, centraram o efeito dramático na voz do vocalista. E resultou muito bem. Foi a morte anunciada do disco-sound e o prenúncio de uma safra de enorme riqueza no advento de estilos desde o Punk ou a New Wave - com a exuberante Lena Lovich à cabeça-, até à evolução disco-pop dos Pet Shop Boys, passando pelos ABC, Tears for Fears, Blondie, Ultravox, Bronski Beat, Soft Cell ou Frankie Goes to Hollywood, para citar apenas uns poucos quantos.

Mas foi no disco sound que tudo começou. Na dance-music de refrão fácil e fatos de lantejoulas, piruetas em palco e berimbaus com efeitos espaciais. Nas vozes apaneleiradas dos Village People e na dor de corno da Gloria Gaynor quando abria I Will Survive: “first I was afraid, I was petrified…” Desde o Tony Manero que engolia o spaghetti católico em casa de segunda a sexta, e depois arrasava a pista na noite de todos os sábados ao som dos Bee Gees, para se manter vivo. Passando pela catedral Studio 54 em N.Y. onde eu nunca fui, até à garagem do Esgalhão, cujo pai era peixeiro e, com a venda do peixe no Tovim do Meio, deu para comprar uma aparelhagem Sharp com colunas, subwoofer e leitor de cassetes. Aí é que eu fui sempre. E aquilo é que era curtir, Meu Deus!

Alarvidades, por Sotavento

Parece que o ministro da economia, o inefável Manel Pinho, lá atacou de novo. Agora resolveu enterrar uns milhões de todos nós numa campanha de marketing em que se decide promver o Algarve no estrangeiro com o sugestivo nome de Allgarve. Mas porque é que não mudam o nome ao país para soar melhor em Inglaterra? Bananaland era uma boa sugestão. Os gajos passavam a saber ao que vinham. E, ao menos, o termo ainda fazia algum sentido, coisa que não acontece com o espantoso neologismo Allgarve. Em termos semânticos isto quer dizer o quê, Allgarve? Que somos todos Garves? E o que será um Garve, o ministro não explica? Allgarve? Isto parece-me é alarve!

19/03/07

Um pintor suíço e um enigma português, por Fritz Lopes

Em 1444, um suíço que provavelmente nunca viu o mar pintou uma das mais importantes obras da história da pintura: A Pesca Milagrosa. O quadro, pintado sobre madeira e hoje no museu de Arte e História de Genebra destinava-se ao retábulo da catedral genebrina e é medíocre, não fora a fisionomia judaizante com que ainda retrata Jesus Cristo e, principalmente, o facto de se tratar da primeira pintura de paisagem da arte ocidental. Este facto é extraordinário, pois que a paisagem de fundo que enquadra o milagre bíblico ocorrido no Mar da Galileia é uma paisagem real e local, é o lago de Genebra.

Só o facto de fornecer à narrativa bíblica um fundo paisagístico já é em si uma novidade protorenascentista, pois que o mundo natural reclama, pela primeira vez, o protagonismo à narrativa sagrada, anunciando a disputa entre o sagrado e o natural que constituirá a principal linha de ruptura da cultura do Renascimento. O humanismo renascentista define-se na apropriação do mundo pelo entendimento, resultando, desse processo de conquista do natural pela razão quantificadora, a divinização do Homem, emancipado em relação à Providência e destinado ao domínio universal pelo exercício e pleno desenvolvimento da sua potencialidade cognitiva.

Para os homens da Renascença, mormente para Leonardo, posto que o estético e o científico são indestrinçáveis – isto é, o belo é científico e o científico é belo –, a pintura considera-se uma ciência, e já não um simples ofício mecânico, pois que a arte da pintura supõe o conhecimento das leis universais que regem o mundo, assim se elevando o pintor ao estatuto de Criador.

O lago de Genebra das tábuas de Witz anuncia, deste modo, a submissão da Natureza ao domínio do Homem e é uma amostra do Mundo cujas verdadeiras dimensões são descobertas pelas viagens portuguesas dos séculos XV e XVI. Na verdade, desde a segunda década do século de Quatrocentos, e pelo menos durante a centúria e meia seguinte, os navegadores portugueses desbravam todos os continentes e oceanos. O que, a este propósito, constitui um mistério inexplicável, de tal monta que se pode mesmo falar num enigma, é como é que os descobrimentos não deram origem a uma pintura de paisagem! Nenhum artista português pintou paisagem. Desenharam fortalezas e drogas exóticas, estudaram os astros e fixaram as tabelas de declinação solar, descreveram o regime dos ventos, das correntes e das marés, negociaram tratados e apuraram a arte da guerra, fundaram missões e preçaram todas as mercadorias, mas nenhum se deslumbrou com a paisagem dos novos mundos ao ponto de pintá-la! Não serve sequer de escusa a tradicional ausência de talento à altura do empreendimento, pois que Nuno Gonçalves colocara a pintura portuguesa na vanguarda estética da Europa. Além do que outros grandes nomes possuem justa dimensão internacional, como Álvaro Pires de Évora que merece a atenção de Giorgio Vasari ou Grão Vasco, apenas para citar estes. De entre todos, nenhum se lembrou de fazer dos vastos e exóticos espaços descobertos um tema de pintura. Exceptue-se uma Adoração dos Magos de Grão Vasco em que aparece representado um índio brasileiro pouco tempo após a viagem de Cabral. Esta excepção atesta como os artistas estavam atentos às novidades e se não encontraram nos relatos dos descobridores motivo de inspiração, a razão tem que se buscar nos factores culturais e mentais. Tanto mais quanto Witz era tecnicamente medíocre e a mediocridade não lhe toldou o sentido da modernidade. Tanto mais ainda quanto, em 1515, o genial Albrecht Durer, na longínqua e continental Nuremberga, desenhava, inspirado apenas num relato escrito indirecto, um rinoceronte que chegara a Lisboa e que causara espanto, sem que a distância lhe limitasse a percepção da espantosa novidade.

Em suma, Konrad Witz, que provavelmente nunca viu o oceano e para quem o lago de Genebra era o que de mais próximo conhecia da imensa vastidão oceânica, celebrizou-se ao levar a Natureza para o mundo da representação artística. Durer que só conheceu o mar na limitada visão da exígua varanda holandesa ou na mansa versão mediterrânica, interessou-se suficientemente pela descoberta dos novos mundos ao ponto de os desenhar a partir de um relato distante e avulso.

Quanto aos exploradores portugueses que desvirginaram terras exóticas, que se embasbacaram com as maravilhas da Criação, que calcorrearam o interminável Pacífico onde cabem milhares de Lagos genebrinos e Mediterrâneos amontoados, que foram ao Japão e ao Pegu, a Timor e ao Brasil, que viram índios e converteram o rei do Manicongo, que demandaram a Etiópia e o rio das Pérolas, que gesticularam com indígenas de todas as cores e religiões, que mataram e escravizaram gentios, tanto quanto os baptizaram e introduziram no estudo das letras, que navegaram em largos rios e viram animais fantásticos, selvas intermináveis e céus infinitos, riquezas indescritíveis e palácios esplendorosos, não se lembraram de transferir para o campo da representação estética esta ímpar experiência do fantástico.

Mas não é tudo. O maior de todos os enigmas o notou António José Saraiva, citado por Vitorino Magalhães Godinho que me suscitou esta reflexão. É que, nota Saraiva, Fernão Mendes Pinto, talvez o mais extraordinário dos viajantes, a par de Marco Pólo, não se sentiu impelido, ao contrário do veneziano, a redigir uma única linha por onde descrevesse as terras por onde andou! Incrível! Inexplicável! Enigmático! Tal é o enigma que nos define enquanto povo.

18/03/07

Será Isto Arte? por El Bosco

Só com o título já cacei duas ou três bestas apocalípticas, que vêm já por aí a baixo, de foice em punho e aferradas à goela do escriba: cá está o gajo outra vez!, cá está o gajo outra vez!

O assunto já andou por aqui e regressará certamente muitas mais vezes. A velha discussão sobre o que é arte ou não é. Uma discussão conceptualista que atravessará para sempre o porco e os tempos. A polémica já aqui reinou a propósito das “latitas de merda” do Piero Manzoni (primeira foto e vide posta anterior aqui), do roubo da massa do povo pela escuridão do “Branca de Neve” do João César Monteiro (segunda foto) e ao que me lembro do Urinol de Duchamp (terceira foto). Será isto Arte??

Nelson Goodman, no seu livro “Modos de Fazer Mundo” (Edições Asa, 1995(Esgotadíssimo), no original “Ways Of Worldmaking”-1975-1977), tem um capítulo delicioso e fundamental que aborda o assunto de forma quase definitiva.

Segundo o professor de Harvard, a pergunta “O que é arte?”, à qual e ao longo dos tempos inúmeros autores se têm dedicado a tentar responder em ensaios estéticos, esconde uma outra, com a qual se confunde muitas vezes e que é a sua pergunta corolário: “O que é boa arte?”

Goodman não responde a isto, nem vai por aí. Segundo ele a questão é errada. A resposta não reside na definição de “arte” ou de “boa arte”, onde reinará sempre o perigo e a idiotia, mas encontra-se num momento conceptual imediatamente anterior, e que Goodman traduz numa outra pergunta, essa sim fulcral: “Quando É Arte?”

E aí, Goodman responde: “Há arte quando lhe estão associados símbolos.” O que é símbolo e deixa de ser é outro capítulo extenso e denso que não importa trazer aqui. Basicamente é isto: um calhau do jardim, passa a ser arte quando o artista o leva para uma galeria e lhe atribui outra função ao retirá-lo do jardim. Atribui-lhe um significado. O calhau, como o Urinol de Duchamp ou Merda de Manzoni, deixam de ser meros objectos e passam a ser arte, quando adquirem uma simbolização, uma função de arte.

A simbolização, que pode ir e vir, colar-se ou desaparecer de um objecto, é inerente a toda a arte e não há arte sem um significado simbólico associado. Se lá chegamos ou não, se gostamos ou não e sobretudo, se estamos dispostos a pagar por aquilo ou não, essas são outras questões e conceitos.

Mesmo um colosso como A Vista de Delft de Vermeer, quadro que toda a gente reconhece como grande arte (todos não, há um irredutível gaulês aqui no Porco, que acha isso mais do que discutível), pois mesmo o Vermeer, pode deixar de ser arte ao ser-lhe retirada a simbologia. Se a Vista de Delft passar a ser usado para tapar uma janela (alteração de função e símbolo) ele deixa de funcionar com arte para funcionar como vedante.

O anterior símbolo e função de arte passaram a vedante. Deus nos livre. Já as latitas de merda do Manzoni e o urinol do Duchamp deviam deixar a galeria e passar à casa de banho e ao alegre convívio com a mãe sanitas e o pai autoclismo.


16/03/07

Menos Do Que Tudo Não Satisfaz O Homem, por Rip


“Que Deus é este, que escreve leis da paz
& se veste de tempestade?
Que Anjo condoído anseia por lágrimas,
e se abana com ais?
Que vilão rastejante prega abstinência
& se engorda
Com o melhor dos cordeiros?
Não mais seguirei,
não mais obedecerei.”

William Blake, America a Prophecy
(gravura 12(parte))
Sete Livros Iluminados

15/03/07

Uma Pequena História do Mundo de Ernst Gombrich, por Enfant Sauvage


Podia chamar-se A História do Mundo Explicada às Crianças porque no fundo é disso que se trata. Uma Pequena História do Mundo é uma síntese genial do que de mais importante se passou no planeta nos últimos milhares de anos. Do ponto de vista, claro (há sempre um ponto de vista), de um historiador de nacionalidade austríaca. Por isso são naturais algumas omissões como, por exemplo, a do fundamental papel que o povo Português teve nos Descobrimentos ou da nota de rodapé a que é reduzida a independência dos Estados Unidos... Mas uma pequena história do mundo é necessariamente omissa e sofre sempre da perspectiva do seu autor. Mas isso é que é bom – há que valorizar o que lá está e não o que lá falta.

Gombrich escreveu este livro a pensar nos seus netos, mas o mesmo tornou-se um clássico da história contemporânea, como milhões de exemplares vendidos em todo o mundo. Para um leigo, mas muito interessado em História (uma disciplina fundamental a que cada vez se liga menos) o livro é simplesmente soberbo. Porque é que os nosso historiadores não escrevem textos assim em vez de se perderem com bizantinices tecnicistas que ninguém lê? E eu que já nem me lembrava de que era possível ler um livro de História por prazer…

Gombrich fez-me sentir de novo como a criança que ouvia, encantada, as histórias que os mais antigos contavam. É um grande comunicador, escreve com uma simplicidade magistral. Depois de ler este livro fiquei a pensar que foi ontem que Napoleão invadiu o Egipto (imagine-se, o avô de Gombrich viveu naquele tempo) que os avós dos avós dele assistiram ao triunfo da guilhotina na revolução francesa e que os avós dos avós dos avós dele ouviram falar da descoberta da América praticamente em directo… Se pensarmos bem, D. Afonso Henriques não viveu assim há tanto tempo como isso, foi só há cerca de 10 gerações atrás… Gombrich mostra-nos como a história é importante, dá-nos a consciência de como estamos tão profundamente ligados ao passado e de como isso é importante para nos compreendermos agora. Este livro devia ser obrigatório para todas as crianças que, ao fim e ao cabo, somos todos nós…

12/03/07

As Sincronizadas Morreram. Rest In Peace!, por Caliquenho


Cheguei aos Puros já tarde e pela mão de um basco vicioso, que introduziu os terríveis Caliquenhos de Valência no final dos jantares da Confraria. Os Caliquenhos, tortos em meia lua e impregnados de alcatrão, deixavam um fumador com uma sensação de torpor e tontura, tal era a brutidade da coisa. Davam mais pedra do que muitos charros que circulam por aí. Depois os Caliquenhos abandonaram a clandestinidade, a luta anti-tabágica acirrou-se e mesmo dentro da Confraria, pessoas houve que dum momento pró outro passaram do mais aceso Caliquenho ao mais feroz do corte. Dos públicos Caliquenhos passei aos puros em privado.

Mas recordo com saudade as Sincronizadas. Na altura, não havia jantar onde não abundassem os Caliquenhos e no final impunha-se quase sempre uma Sincronizada. Esta começou como um acto de vingança. Certa noite no restaurante Batina do Pinhal de Marrocos, onde pairávamos extasiados sobre paisagens tão variadas como arroz de línguas de bacalhau, polvo à lagareiro e raia suada, fomos abruptamente abatidos em pleno voo por espingardaria de tiro cerrado. Ao lado, uma tropa fandanga de enfermeiros e demais aves de arribação hospitalar, desatava a jantar, berrar, gargalhar, fumar e sobretudo, a cantar. Não tivemos qualquer hipótese ou aviso. De um momento para o outro as hordas bárbaras invadiram a sala e dominaram a coisa. Deixámos de nos ouvir a nós próprios, o polvo passou a saber a SG Gigante e fomos obrigados a tapar os ouvidos perante o faduncho atroz de uma perua de crista lacada, que há muito devia anos à cova.

Não se sabe bem como e de quem partiu a ideia, mas nesse dia estávamos bem municiados de caliquenhos e a coisa parece que nasceu de geração espontânea. De um momento para o outro, os dez ou doze confrades presentes na altura, interromperam a janta e acenderam as tochas da vingança. E depois de umas baforadas esparsas, alguém falou em sincronia. Acabava de nascer a Sincronizada. Dez ou doze bocarras from hell expeliam ao mesmo tempo a mais feia, porca e má das baforadas de fumo e alcatrão de que há memória desde os primórdios da revolução industrial a carvão.

A perua emproada começou a pigarrear, calou-se e sentou-se. Os enfermeiros e massagistas começaram a barafustar perante a névoa negra que começava a baixar do tecto, mas de nada lhes valeu. A sala voltou a ser nossa e se nós não podemos comer, ninguém come. Foi imparável, em poucos minutos o ar era irrespirável. O estalajadeiro ainda veio a correr abrir janelas e maximizar o ar condicionado, mas já era tarde. Enfermeiros, massagistas e fisioterapeutas batiam em retirada a resmungar ameaças de bisturi e clisteres, mas as Sincronizadas mantiveram a cadência acesa como se não fosse nada connosco. Daí em diante, criámos mesmo um código: nunca éramos os primeiros a puxar da fumaça intensa, pedia-se sempre ao estalajadeiro por ordem de fumo e esperámos pelo final da refeição; mantinham-se os olhos baixos e nunca se olhava nos olhos quem que fosse da mesa ao lado, para evitar os pedidos de piedade. Éramos implacáveis e impiedosos. Certa janta, no Peleiro do Paião, sentimos mesmo nas costas o mais feroz e mortal dos ódios que uma sala de restaurante pode votar a uma única mesa. Se alguém tivesse a coragem de gritar Jerónimo!, éramos de certeza chacinados. Abençoadas Sincronizadas. Rest In Peace.

10/03/07

David La Chapelle, A Arte do Cliché, por Menino D`Oiro


O fotógrafo americano David LaChapelle chamou-me recentemente a atenção pela exuberância do seu trabalho. La Chapelle trabalhou para as principais revistas internacionais de referência; da Interview (fundada por Andy Wharol) à Face, passando pelas incontornáveis Vogue, Vanity Fair, Rolling Stone, I-D ou Vibe não houve uma que lhe tivesse escapado. Somou a isto o seu trabalho no mundo da publicidade da moda: L’Oreal, Iceberg, MTV, Ecko, Diesel Jeans, Sirius, Ford…


Esta foto não é exemplicativa do trabalho de LaChapelle. Creio que lhe falta a exuberância habitual e é circunspecta na cor. Mas acho-a um bom exemplo de como um cliché pode ser bem dito, melhor dito do que até então. A foto tem o título da modelo: chama-se Elisabeth Hurley e é da série Heaven and Hell. É uma interessante «imagem narrativa» quer dizer, possui o condão de nos fazer efabular como os quadros do Balthus, do Hopper ou da Paula Rego. Olhamos e ficamos a pensar o que se terá passado…


O homem foi expulso do Céu e vai para o Inferno? Ou depois de se ter servido da mulher, abandona-a, o ingrato? Nesse caso é ela a vítima que se agarra desesperadamente à criança e é o homem o vilão…
Mas ela está vestida. Não significa esse facto uma superioridade evidente sobre o homem nu e de costas? Qual dos dois corporiza o Poder? Qual, a Submissão? E quem é o bom e o mau nesta história?
E qual é o papel do bebé no meio disto tudo? É só um inocente, um ser angelical ou é um daqueles querubins demoníacos usados e abusados nos filmes de terror (John Carpenter, A Cidade dos Malditos, Poltergeist, Shining..). Não será ele a personagem mais poderosa do quadro?

Será tudo isto uma alusão a uma espécie de complexo de Édipo invertido – o pai, vê o seu lugar (o Céu) ocupado pelo filho (no seu antigo lugar sobrou uma estátua orgulhosa e imóvel, símbolo do seu passado glorioso) e sai para as trevas (o Inferno), derrotado e enciumado, expulso do Paraíso…


As obras de arte só valem a pena quando mexem assim connosco. De outro modo são borboletas mortas que positivistas castrados guardam em vitrines em classificas por ordem alfabética.Já sei que o David LaChapelle não suscita grande simpatia à intelectualidade dominante. Mas lá que as suas fotos têm qualquer coisa, isso é verdade…

09/03/07

Cinéfilia - o Bruce Lee e a Traci Lords contra o Pasolini, por Kzar

Nas minhas infância e pré-adolescência (e adolescência, já agora), em Coimbra, não havia ponta de coisa nenhuma para fazer. Nas férias, que por essa época eram gigantescas (abençoadas!), os dias sucediam-se, intermináveis, iguais e quentes, como uma fiada eterna de domingos à tarde, céu azul, calor infernal, ruas desertas, eléctricos amarelos e ruidosos, passarinhos a chilrear desde Celas, Lourenço Almeida Azevedo abaixo, Praça da República e Sá da Bandeira todinha. Um tédio de convento trapista.

A pasmaceira insuportável da cidade que é a minha e que agora recordo não ser então mais do que uma infecta e mui provinciana parvónia, era apenas entrecortada por umas quantas festarolas de garagem, umas pielas à socapa com cervejas de garrafa, martinis, vinho do porto ordinário e outras avarias. Mesmo nessas ocasiões, o gajame era constituído quase exclusivamente por umas pindéricas que até davam uns chochos e se deixavam apalpar com maior ou menor esforço, mas na hora da verdade, isto é, de brincar ao esconde-chouriço, que era o que malta queria, como em todos os tempos a malta quer, fechavam-se em copas. Nada destas licenças de hoje em dia e charros só mais lá para a frente e muito à puridade.

Por esses tempos, em faltando o guito, que era quase sempre o caso, dormia-se até tarde, gastavam-se as tardes a ler patinhas em números astronómicos, gastos de tanta troca, e ao fim do dia jogavam-se umas futeboladas com a malta da rua. Por vezes marchava-se até à piscina municipal, onde fora a banhoca sempre se viam umas piquenas em roupa exígua (para os padrões da época); televisão era coisa que ainda valia menos a pena do que hoje.

Com o passar dos anos, começaram a aparecer outros entretenimentos, tipo andar à biqueirada nos cães e gatos que sempre infestaram as ruas da Lusa Atenas, armar cenas de mocada bravia por qualquer pretexto, fanar os carros paternos e fazer slides nocturnos na Praça, correr os poucos bares e xicotecas que começavam a medrar, sei lá, um mundo de cretinices infantis que nem sempre acabaram bem e que qualquer dia hão-de valer uma postada um bocado longa.

O que sempre salvou a situação e foi um elemento constante nessa luta contra o enfado de mais de uma década, foram os cinemas, e é disso que quero falar.
A cidade era pacóvia até fartar, mas lá cinemas havia-os que chegassem e para vários gostos. Gostei de todos, cada um à sua maneira.

Ele era o Avenida, com manias burguesas de grande senhorio e tradição, o Sousa Bastos, popular e rasteiro, o Tivoli, popular e modernaço, o Gil Vicente, académico e intelectual, e enfim o S. Teotónio, intermitente, preservado de poucas vergonhas pela diligente padralhada do colégio. Parece pouco, mas dava e sobrava.
Durante anos a fio, quaisquer vinte paus abonados pela generosidade familiar, fora as semanadas e o mais que aparecesse, nem sempre por modos fáceis de relatar, entravam sôfregos pelos cofres das bilheteiras de tais casas. Não havia critério; nem meu, nem de quem planeava as exibições nesses antros, se alguém era.

Calhou de tudo. Cóboiadas, americanas e italianas, itallianadas soft porno, americanadas de toda a sorte e até películas de bollywood – valia tudo. Fosse lixo, fosse sofrível, fosse bom, se era em cinema marchava, não raro às duas vezes por dia. A coisa envolvia, a princípio, dar a volta a porteiros façanhudos e inquiridores de idades, ajaezados em sobretudos longos, de cor bordeaux e enfeitados de galões e botões dourados; um cinema era um lugar sério, por essa época. Pouco a pouco, esses senhores iam sendo conhecidos e às vezes até viravam a cara a umas entradas à socapa. Cheguei a ver filmes só pela metade do fim, entrando nos intervalos (havia sempre intervalo), fosse de fininho ou fosse com a maior cara de pau, armado do cartãozito que distribuíam e que da vez anterior tivesse conseguido sonegar. Aqui há anos, a remexer papelada velha, encontrei um cartão desses, avermelhado e gasto e com os dizeres “Teatro Avenida”.

Desses sítios já só restam memórias, com honrosa excepção do Gil Vicente. Do Sousa Bastos, piolheira infecta e quase a cair, nem sei o que é feito (há uns anos uma rapaziada dessa da “cultura” queria salvar esse pardieiro, não sei porquê nem para quê, mas certamente esquecida que foi edificado em cima de uma igreja românica do melhor que havia, demolida previamente para o efeito...). No Tivoli vendem-se hoje trapinhos da Zara. No sítio do Avenida fizeram um mamarracho hediondo, em cujo interior deixaram, umas saletas de ver filmes. O S. Teotónio, foi um ar que lhe deu – não deu mais filmes, que eu saiba. Apareceram depois o “Girassolum” e agora há pela cidade salas em barda, dessas de shoping, mas não é a mesma coisa...

Como já disse, via-se de tudo, era o que aparecia. No meio de coisas muitas, boas e más, correu-me pelos olhos o cinema italiano, o cinema alemão (cheguei a gostar do Fassbinder, e hoje não consigo perceber como foi isso possível) e tudo quanto possa imaginar-se.
Não vale a pena particularizar actores e/ou realizadores que ao longo desses anos foram ficando gravados nas minhas memórias cinéfilas. O essencial é que fiquei a gostar muito de cinema, em salas de cinema, não nessas merdas que hoje há por aí – para isso mais vale um ecrã de plasma ou LCD em tamanho aceitável e um aparelho de home cinema com som surround.

Quero todavia abrir excepções, sem recordar nomes, o que aliás não conseguiria. Os que são de Coimbra e orçam pelos quarenta, quarenta e coiso, recordam de certeza, além daquela instituição que eram as “sessões clássicas” do Avenida (de Segunda a Sexta, às 18.00 horas), a outra menos recomendável que o Tivoli prodigalizava: as sessões da meia-noite, de Quinta a Sábado. A coisa incluia invariavelmente um filme de Kung Fu, ministrado à malta pela indústria de Taiwan, logo seguido por um de cus e mamas com fartura. Gajos de capacete debaixo do braço e Zundapp à porta, vindos dos confins de Casais do Campo, ciganada saída da sala de bilhar do Internacional, velhotes pervertidos, mancebos que as parvónias lançavam em inspecção sobre o quartel de Santa Clara (com a fitinha de “aptos” à lapela e em busca de inspiração para uma visita ao largo do Paço do Conde), estudantes olheirentos, putalhada barulhenta, a clientela era catita, havia gritos, “bocas”, risota alarve e, não raramente, arraiais de bofetada tesa, daqueles de parar as exibições.

Isso, meus caros amigos, é que era cinema; o meu “Cinema Paraíso”, que tal como os verdes anos já não volta. Desse tempo, desse tempo a tantos títulos feliz, guardei muito em matéria de cinema. Coisas sérias, que me fizeram reflectir e crescer; coisas cultas, eruditas e intelectuais, cujo conhecimento cai sempre bem quando exibido aos bons esprits, mas sobretudo as coisas divertidas, aquelas que arregalam os olhos aos miúdos e aos graúdos.
Podia falar da maravilha de ver pela primeira vez a “Guerra das Estrelas” (sim, sei que muitos vão já dizer que é uma pepineira), ou, mudando de registo, o “Andrei Rubliev”, mas já nem aí quero chegar: o Bruce Lee aos gritos farçolas e a distribuir mocada em saltos inverosímeis, isso é que era diversão; e então quando esse gajo largava a teorizar sobre como a sua técnica, aprendida pela observação do tigre, era melhor que a de um sequaz qualquer de Saholin, que a desenvolvera estudando o gafanhoto, aí é que era rir. E isso não é nada, comparado com os azeiteiros da margem sul a enfardarem mocada uns nos outros com sucedâneos desses truques – meto aqui à martelada o facto de muitos deles se inscreverem anualmente no Karaté da AAC, desistindo de frequentar o pavilhão (no estádio universitário) logo que percebiam não haver golpes mortais para aprender, muito menos em três tempos...

Bom, chega de divagação. Onde quero chegar é ao seguinte: ao longo da vida, aprendi a gostar demasiado do cinema para ter pachorra de aturar filmes com mensagem, em especial se forem franceses – e também muitos do Pasolini.
Desculpa Mangas, mas é assim; não é nada intelectual da minha parte, mas não me incomodo nem envergonho com isso – sou burro, não sou esperto e culto militante como o Cão.

Um Gajo Julga Que Anda Incógnito E Tunga, Aparece Um Mangas Qualquer, por Ali, O Químico


Estava eu a percorrer as prateleiras do clube de vídeo, no andar de baixo, aparece-me o Mumbly a descer as escadas com as duas manápulas enroscadas em sete ou oito caixas de dvd para aluger, vindas lá de cima, pois claro, da secção Cinema Perdido & Porco! Sorriso franco na bocarra escancarada, o marfim brilhante na saudação, Olhó Mangas…!, poisa a merchandise no balcão enquanto o empregado segue a árdua tarefa de ir buscar os filmes e registar o aluguer de tamanha catrefada no computador.

- Então o que é que vais levar, Mangas?
- He pá, se calhar vou rever alguma coisa. Não há nada de novo que mereça a pena…
Atira-me um estalido displicente com as bochechas, como uma bordoada seca de desprezo e compaixão, e suspira:
- Eu já não tenho paciência para andar aí a procurar desse cinema….!

Teria sido uma tirada de bronco corrompido ao porno, não soubesse eu que o Mumbly, na realidade, é um cinéfilo, vê filmes desde que aprendeu a dar aos maxilares e tem uma colecção de VHS gravados que pede meças a qualquer catálogo Fnac actualizado. Rimo-nos os dois, conversámos mais uns minutos e ele lá foi embora com um saco plástico na manápula pendurado ao peso de 1001 horas de perdição.

Quando saiu, o dono do clube que entretanto chegara e teria ainda vislumbrado a nossa conversa perguntou-me:
- É seu amigo, o Dôtor?,
- Sim, é meu amigo.
- Um excelente cliente… - murmurou ele.

Achei que aquilo merecia algo mais. Que tinha ficado alguma coisa por acrescentar ao saco a abarrotar de produções triple X (Devo dizer que o dono é um tipo do melhor, um verdadeiro personagem, pescador nas horas livres, vivaço, contador de histórias, antigo amigalhaço do Álvaro Cunhal, vai todos os anos à festa do Avante como as promessas vão de penantes esfolados a Fátima, possui um sentido de humor cortês e delicado para o cliente em geral, mas também tem sempre uma piada porca pronta a disparar na ponta língua aos que, como eu, lhe foram ganhando amizade e estima ao longo dos anos). E então lá lhe expliquei dos vinhos e das provas cegas, dos livros, das capitais e dos confrades à mesa; resumi-lhe também o Porco na blogosfera e as expedições a Espanha atrás do letchazo, do Romerijo ou do Guggenheim. Tudo isso ele ouviu com atenção e genuíno entusiasmo. Em continuação:
- A pornografia é apenas uma das cordas que o animal toca e retoca. Tem milhares de livros e álbuns de BD numerados e catalogados por tema e autor - na lombada cola-lhes uma etiqueta com um número e as letras iniciais do seu nome, assina-os depois na primeira página, a meio, no canto superior direito e no canto inferior esquerdo; mais acima, regista o preço que o exemplar custou, a data e o local de aquisição.
- Não me diga…?!
- Ah, pois!! E ainda por cima rubrica-os outra vez na contra-capa e de x em x páginas, no branco dos cantos. Sabe as capitais todas deste mundo e de todos os mundos - políticas e financeiras -, dos países descobertos e por descobrir, os PIBS e as densidades demográficas. Conhece as estradas secundárias entre Alcarraques e Pequim, as obras todas do Louvre e, sabe lá!... é capaz de lhe indicar pelo telefone o restaurante mais próximo para comer túbaros ou iscas de cebolada se você estiver perdido nos confins do cu do mundo…!
- Incrível….!
- Ah poiiiiiiis!

O «excelente cliente» ganhava agora o respeito digno a um letrado da Encyclopedia Britannica, versão, Uncensored…

- Aquilo é que é uma cabeça…!
- Se é! Uma cabeçorra! Aqueles filmes que ele ali levava…
- Sim…?
- Até domingo estão todos vistos e classificados, e na próxima prova cega temos um teste de quatro páginas dactilografadas a dois espaços sobre momentos clássicos da pornografia para nos foder a cabeça! Entrega prémios e tudo! E se houver empates na pontuação, ele já vai preparado com um par de perguntas para desempatar a coisa!

O homem deliciado, num canto isolado do balcão, ouvia e espoja-se. Contou-me depois alguns episódios biográficos no mesmo registo confidencial. Antes de me vir embora com o tal filme para rever, ele volta à carga e atira-me em tom de arremate composto:
- Mas sabe? Ele também leva daqui muito bom cinema…!
- AHAHAHA. Sim, eu sei.

08/03/07

Uma Menina De Peito Feito, por Stagliano


A menina era conhecida por duas características base. Os peitinhos em forma de pêra pronunciada e os gemidos sonoros e diferentes de tudo quanto se ouvira até então. Depois, ainda ficou mais conhecida. Meteu tudo dentro da prisão, desde a gerência da agência de modelos Jim South's World, bem como a gerência, staff, actores e actrizes da X-Citement Vídeo, Inc. Foi tudo dentro. Dezenas e dezenas de pessoas, arrastadas num processo que durou anos e anos com acusações federais de violação de menor. Os próprios Ron Jeremy e Tom Byron tiveram que assentar o cu no mocho e defenderem-se numa de Chuck Berry: "Well She Did Looks Old Enough For Me!"

É que a cachopinha mentiu. Fugiu de casa dos papás e mergulhou de peito feito no mundo porno com uma certidão de nascimento na mão que lhe garantia os vinte e dois aninhos. Depois de ter actuado em mais de 107 filmes porno, vem-se a descobrir que a certidão de nascimento era da irmã do namorado e que a cachopa quando começou a contracenar, apenas tinha 15 aninhos. Em 1986 a bomba estourou e só se safou a criancinha. Que em 1986, já tinha 18 anos. E diga-se que o estouro da bomba partiu da cruzada anti-porno do segundo mandato do Presidente Reagan, que em vez de marrar logo com o Muro, resolveu marrar antes com o Porno.

Falamos obviamente de Traci Lords, de seu nome Nora Louise Kuzma. A Indústria sofreu aqui o mais grave dos seus reveses, já que foi obrigada a retirar do mercado todos os filmes que envolviam a menina das peras. Até os milhares de exemplares da revista Penthouse onde se estreou tiveram que ser recolhidos. E os prejuízos acumulados revelaram-se brutais com os custos dos julgamentos.

No entanto, quando já se adivinhavam multas estratosféricas e várias prisões perpétuas consecutivas para metade da indústria porno (afinal, sempre eram dezenas de violações de uma menor), a coisa ruiu como um castelo de cartas e foi tudo arquivado. É que pelo meio dos julgamentos, veio-se a provar que a menina enganou a Indústria, não com uma certidão de nascimento, mas sim com um passaporte do Departamento de Estado Americano. Ora, se o próprio governo foi enganado ao emitir-lhe o passaporte, como é que se poderiam assacar culpas à Indústria? Se não há culpa, não há Crime. Reagan desistiu e foi marrar com o Muro e o Império do Mal. Fez Bem.

07/03/07

Pêra-Manca, A Morte de Um Ícone Do Tinto Português, por Vampiro da Uva



Em primeiro lugar desfaça-se desde já a voz corrente de que o rótulo do Pêra-Manca era da autoria do José Malhoa. Não era. O rótulo resultava da adaptação de parte de um cartaz publicitário da autoria de Roque Gameiro. E digo, resultava, porque já não resulta, o rótulo mudou. A mais famosa imagem iconográfica do vinho português foi-se!

A imagem clássica e colorida do Pêra-Manca, com a moçoila folclórica a ofertar um copo ao cavaleiro, morreu e deu lugar a uma gravura a preto e branco da autoria do ilustrador inglês Bill Sanderson, com a renovação do rótulo a cargo de Pedro Albuquerque.

E está mal. Não, porque o novo rótulo não vá resultar ou não seja bonito, mas porque há um ícone poderoso que se perde e é preciso não esquecer que foi ele que fez o Pêra-Manca. O facto de o vinho ser bom, também ajudou claro. Mas o rótulo era um prazer para a vista. Saia da normalidade cinzenta e austera da rotularia vínica e afirmava-se como coisa única. Fazia a diferença. Paz à sua alma. Os ícones também se abatem.

Morreu Miguel Baptista Pereira, por S. & ZG

Abro o porco e dou com a notícia... Fiquei-lhe para sempre ligado por razões pessoais, que não importam para aqui. Foi um intelectual brilhante, a pessoa mais erudita que alguma vez conheci. Mas era ao mesmo tempo uma pessoa afável e extremamente humana. Já depois da faculdade encontrava-o regularmente no Zé Neto, um clássico da Baixinha, onde ele tinha lugar fixo na mesa junto à janela. O professor Miguel era uma máquina, um velhote que parecia nunca envelhecer, um homem que gostava da vida...

O problema dele foi Portugal. Infelizmente nasceu português. Se fosse alemão, francês, inglês ou americano seria conhecido mundialmente como um grande da filosofia. Infelizmente viveu por cá. Nunca o vi na televisão, nunca esses programas infectos que poluem o nosso cenário audio-visual teriam espaço para a sua sabedoria, incómoda que era... As pessoas preferem o lixo. Raramente os jornais lhe pediram opiniões. Nunca foi colunista nem opinion maker nem teve nenhum programa de rádio onde pudesse conversar em directo com os amigos do Zé Neto. Viveu em Portugal,pois.

Apesar disso foi um homem fundamental que marcou gerações e gerações que passaram por Coimbra e tiveram a oportunidade de frequentar as suas aulas. Ainda me lembro de quando não havia lugar nos seus seminários de Antropologia porque vinha gente de todos os cursos - de Direito, de Medicina, de Letras - para ouvi-lo falar de Filosofia. Naquelas aulas não havia participação, mas isso não era um defeito, pelo contrário. Ninguém intervinha simplesmente ninguém ousava interromper o Mestre. Ouvíamos apenas, hipnotizados durante duas horas o que ele tinha para nos dizer. Falava-nos de Heidegger (tinha sido seu aluno), de Sartre e de Camus e das coisas da nossa vida, falava de amizade, de turismo, de viagens, de dança, de música e do resto...No fim daquelas aulas ficávamos a conversar uns com os outros longamente e sentíamos uma urgência enorme de ler de repente tudo o que ele tinha citado e que nos levaria uma vida inteira a ler. Se não é isto um Professor...

Tive o prazer e a honra de ele ter aceite ser orientador da minha irrelevante tese de mestrado há uns anos atrás. É uma pessoa marcante na minha formação, deu-me a enorme lição que espero ter aprendido (mas não sei, não sei...)de que não há donos da verdade, de que é na pluralidade e na divergência que melhor crescemos, que o maior risco do dogmatismo é o definhamento.

Acho que me vai custar muito a próxima vez que voltar ao Zé Neto e não o ver na mesa ao pé da janela. Aquela mesa devia ser declarada dele, como a camisola 10 alvi-celeste foi declarada a camisola do Maradona (sim, ele também gostava de futebol)...
Obrigado por tudo professor Miguel. Até sempre.
Morreu Miguel Baptista Pereira

06/03/07

E Agora Para Algo Verdadeiramente Perverso…, por Heresiarca

O fenómeno vem-se agravando e a malta assiste impotente à catástrofe. A coisa atinge Coimbra com particular gravidade. A calamidade tem sido muito discutida, mas sem grande consenso. Falo obviamente do sucessivo e misterioso encerramento das secções de golf das Sport Zone cá do burgo.

Coimbra conta com umas três ou quatro lojas da Sport Zone. Para quem não sabe, são lojas de desporto do grupo Belmiro. E as Sport Zone contavam todas com uma boa secção de material de golf. Mesmo ao lado da secção de material de hipismo.

Acontece que de há uns tempos a esta parte as Secções de Golf de cada uma das Sport Zone têm paulatinamente fechado. Acabou-se o material de golf. Contudo, todas as Sport Zone mantêm, e em força, a secção de material de hipismo. Quem quer comprar esporas, botas de montar, calças de montar, chicotes, pingalins, arreios, selas etc, é na Sport Zone!

Ora, como o Belmiro não brinca em serviço, isto só pode querer dizer que o Golf não vende e que o Hipismo vende com força. Mas, e aqui é que o Porco torce o rabo, que diabo, o que mais se vê por aí, é malta do golf. A malta dos cavalos não se nota e não pesa. Coimbra tem um centro hípico às moscas e uma ou duas quintarolas afastadas que metem os putos a dar voltas de burro. Mas no Golf a malta é pra cima de uma multidão. Na cidade e região, os clubes já são mais que muitos e os filiados somam milhares. Somos certamente muitos mais que a malta dos burros e da mulas. Mas sendo assim, porque raio fecha o Belmiro as Secções de Golf?

A explicação é simples. O Belmiro quer é cifrão e a secção de Hipismo vende muito mais que a de golf. E isto porque a secção de hipismo alimenta um outro tipo de mercado. Muito mais vasto. Mais sedento e mais investidor. O mercado da tara. O pingalim, o chicote, as botas, as calcinhas justas e as selas não saem pró cavalo, mas sim pró forrobodó lá de casa. É a tara, o mercado dessa secção e não o deporto hípico, embora ele possa ser praticado com azémolas variadas.

É isto que prejudica o Golf. Só os gajos do Golf é que compram material de golf. Não há taras da órgia que passem pelos putts, chips ou ferro 7. Não se faz nada com um drive, as bolas são muito duras e não estou a ver um tarado qualquer a excitar-se com umas calças bombachas de xadrez escocês. Os tees picam, as luvas aleijam e os sapatos com rebites dão cabo dos lençóis de cetim. Um Drive não se consegue enfiar em lado nenhum. É isso que nos falta e é isso que nos mata. Assim não vamos lá. Há que inventar e desenvolver aqui na Net meia dúzia de taras sexuais a partir do material de golf. Dão-se alvíssaras a novas ideias. Tarados deste país, vinde a nós e salvai-nos!

05/03/07

Pasolini, por Mangas


Se fosse vivo, Pier Paolo Pasolini, o homem que acreditava no Sagrado, faria hoje 85 anos. Quase como um martírio, Pasolini acreditava que o conceito de santidade, erradamente associado pelo senso comum à fé, poderia ser libertado do contexto meramente religioso e incorporado nos pequenos mistérios e maravilhas que a vida nos oferece: Pasolini, o paradoxo ateísta, na busca da beleza natural do Todo e do Sagrado. E é por esta atracção pelo abismo em corte radical com o convencional, que expressa a sua linguagem de autor – o cinema, foi um mero veículo que o ajudou a lá chegar.

Contestatário, activista político, homossexual, ofensor da Igreja dogmática, inimigo de um estado a que chamou novo fascismo mascarado e vazio de poder, Pasolini o artista maldito que atravessou o destino com sangue, violência e sexo: denúncias por corrupção de menores, processos pela obscenidade do conteúdo considerado pornográfico no romance Regazzi di vita, detenção por embriaguês, acusação de assalto à mão armada numa bomba de gasolina, queixa contra o filme Una Giornata Balorda, queixa contra o filme Accatone por obscenidade e ultraje dos bons costumes, processado pelo produtor pelo carácter escandaloso do filme La Ricotta, apreensão do filme La Ricotta, processo do filme La Ricotta a que se seguiu a sua condenação com o corte de algumas sequências, suspensão da carta de condução, agredido por um fascista no círculo cultural Francesco de Santis sobre o qual Pasolini não apresentou queixa, ocupação do Palácio do Cinema em Veneza, processo e apreensão do filme Teorema, queixa contra o filme Decamerone, apreensão do filme Decamerone, apreensão do filme Os Contos de Cantebury, assassinado no Dia dos Mortos de 1975, numa praia de Óstia. No mesmo ano é dada ordem pela Comissão de Censura que proíbe a exibição de Saló ou os 120 Dias de Sodoma, que seria anulada dois anos mais tarde.

Nas suas palavras: "Não pretendo ser advogado dos que iniciaram a interminável campanha de incriminação que há trinta anos me excluiu da sociedade dos senhores e dos bem-pensantes sexuais. Se têm razão em ter terror pelo que sinto e sou, eu reivindinco, perante a sua abominável autoridade, a de poder escolher a via problemática do erro."

Pasolini poeta, escritor, actor, argumentista, realizador, o talento marginal que proclamava: "Eis o dia do Juízo Final", na abertura de Accatone. Os filmes, é vê-los. Goste-se ou deteste-se, ninguém lhes ficará indiferente.


Referências Biográficas - Quo Vadis? The Cinema and Fate of Pier Paolo Pasolini

04/03/07

Escadas do Gato, com Cão ao Cimo (uma Elegia do Largo da Portagem, Coimbra) por Cão

“Só aquilo que no fim achamos ridículo é que nós dominamos.”
Thomas Bernhard, Antigos Mestres, pág. 117
Um sábado, anoitecendo, estou ao cimo de uma escadaria. Estou a olhar para baixo. Os degraus enegrecem em segundos sucessivos: o tempo desce-os. Nas minhas costas, o largo perde sangue: o sol é uma granada de groselha que já não aquece ninguém.

Posso descer, posso não descer. Ainda sou livre e ridículo: rio-me sozinho e livro-me sozinho.

Tenho dado por mim, na montanha, saudando a cidade. Se eu for à cidade, perco a montanha: como a perdi à outra, vindo para esta.

À esquerda, era o Pinto. À direita, o Correia. Zonas de sombra, ossários, capelas, tabernáculos. Mas também era, à direita como à esquerda, a minha mocidade improvável.

Tenho-me sempre deixado viver. É o meu luxo e o meu lixo. Está correcto, assim.

Fica, por vezes, a boca, grená. E não é do frio.

Não foi então nem fui.

Eu digo metais preciosos e não os possuo. Não em casa. Não nos apetrechos. Dizer é mais que possuí-los, pois que é sê-los.

Recordo sempre para a frente: amanhã não me lembrei.

Estou de frente para baixo: as escadas. Sim, o tempo.

As pessoas, rápidas: demoram tão-só oitenta anos (67, 17, 4, 24, 80).

As pessoas nas minhas costas, cor da groselha.

À minha direita, em frente à loja das máquinas de costura, onde o MRPP fez em 1974 uma vozearia que deu porrada com os comunistas oficiais, um louco manso tenta vender um bilhete da lotaria de Natal de 1973.

À minha esquerda, o Banco de Portugal dá o flanco ao Astória, que dá a cara a Santa Clara-a-Nova, que ainda olha para a Mãe, em baixo, os pés da Velha frígidos de cheias do rio com nome de cão, as sandálias todas sujas de laranjas.

Não é o fim, Jim. É só quase domingo.

Balcão em U, churrasqueira, homens desirmanados. Adivinho-os além, descendo, dando a esquerda. A breve alegria da comida, o rito da ração. Carvão vivo, frango morto: cinzas, brasas.

S. Bartolomeu; a das Cebolas; a Velha (outra); a do Comércio.

De tão ridículos, tão sérios; de tão sérios, tão ridículos – todos os nós e cada eu.

Não me importa: tenho pequeninos amores que duram muito. Gosto da churrasqueira com homens sós comendo o próprio silêncio. Gosto da fusão pombastátua. Gosto da cidade que resiste à cidade nova. O MRPP que resiste a 1975. A loja de máquinas de costura que resiste ao MRPP.

Decisões – a porra das decisões. À esquerda, em frente, atrás, à direita, lembrar, saber, esperar um pouco, escrever depois. Ser depois. Mas não é possível.

Fatos-de-macaco. De facto, macacos: os operários. Cada vez menos na cidade, os operários. A indústria foi toda para Aveiro, Marrocos, Polónia. O União, assim, não sobe.

Nem eu desço, para já.

03/03/07

Resolvi o Enigma Islâmico, por Segismundo I


O islamismo é a religião que mais cresce no mundo. Apesar do cristianismo ser a religião com mais fiéis, o potencial de crescimento do islamismo é superior. Basta pensar que é na Ásia, o continente mais populoso, que o Islão tem o seu grande mercado de expansão. E a pergunta urge: mas o que é que leva tanta gente a aderir a uma religião que nos é apresentada no Ocidente como uma colecção meio absurda de regras tribais, as quais devem fazer da vida de um homem um verdadeiro suplício? Ele é reza diária, reza semanal, reza mensal, ele é jejum, ele é Ramadão… Serão todos masoquistas, os muçulmanos?


Talvez aquilo, afinal, não seja assim tão mau como nos dizem. Talvez não seja o martírio que nos parece. Ontem vi na TV uma reportagem sobre o estatuto da mulher no Islão e houve uma coisa que me chamou a atenção. É que os homens entrevistados não pareciam nada chateados, muito pelo contrário. E porquê? Porque podem ter quatro mulheres e quando se fartarem de alguma, podem, pura e simplesmente, rejeitá-la e arranjar mais uma, mais duas ou mais quatro… Bingo!- pensei. Talvez isto explique muita coisa. Os homens sentem-se bem numa sociedade que permite esta abundância de fêmeas, ainda por cima reduzidas à condição de servas destinadas à satisfação pessoal do marido. Compreende-se que os homens queiram manter o seu estatuto. Nada de monogamias, quatro de cada vez e quando estas chatearem mandam vir mais quatro…


Conheci um árabe que me disse um dia que «gostava de vir para a Europa para viver durante uns tempos como um bom cristão». Ou seja, para poder ver mulheres em biquini e trajes menores, filmes pornográficos e os vídeos da Madona. Mas que não entendia o monoteísmo, como é que se pode possuir uma só mulher, ainda por cima para toda a vida? Não admira, pois não, a infidelidade no Ocidente… É o monoteísmo e a igualdade entre o homem e a mulher que fazem do Ocidente um mundo depravado e mentiroso, concluía o meu interlocutor.


Assim, sob a capa do conservadorismo e do ultra-clericalismo das sociedades islâmicas esconde-se realmente um mundo-sombra erótico e lascivo. Publicamente prega-se a virtude e a castidade, mas desde que enquadrada e legitimada social e religiosamente, toda a luxúria é bem vinda e bem vista. No recato do lar é um forró do caraças, é o que é… Para o macho isto é fantástico: não só garante a sua satisfação sexual, como, não menos importante, ganha um acréscimo de segurança ao reduzir a mulher ao estatuto de serva e objecto de desejo (sem desejo). Impedindo a constituição da mulher como sujeito de desejo, o homem tem todas as condições para poder viver perfeitamente seguro e tranquilo. A mulher pode e deve ser uma amazona na intimidade, dedicando-se exclusivamente ao marido; mas publicamente deve cobrir-se da cabeça aos pés pra não suscitar a cobiça do macho alheio. Depravados nós?


Para certos machos isto pode muito bem ser o paraíso na terra e justificar as rezas, os ramadões, os mulás, as jiahds,as peregrinações a Meca e a bomba atómica...Para as mulheres, impedidas de serem gente é que um bocado chato. Mas não há nada que umaa boa educação e um sopapo firme de um homem não resolvam, ou não é assim?...

01/03/07

As Aulas e Notas de Ginástica Num País de Cómicos, por Batatoon

A idiotice reinante no Ministério da Educação, estipulou agora que as notas da disciplina de Ginástica, passam a contar para a média geral do aluno e para a média de acesso ao ensino superior. As associações de pais comem e calam, a malta não se atreve a protestar e dos professores de ginástica nada dizem.

Já nem discuto a idiotice de andar a ensinar e a fazer testes sobre a medida exacta da marca de penalidade à baliza no futsal. Ou o terem de saber a medida exacta da largura e comprimento de um campo de futebol. O Zinedine Zidane chumbava de certeza. Pobre burro, não vê um boi de futebol!

Mas obrigar os putos a terem de fazer um salto mortal na saída das paralelas e a terem de fazer uma cambalhota à retaguarda, e a serem avaliados por isso, é uma norma perfeitamente insana e perigosa. É evidente que um dia destes, há um puto que vai morrer numa aula de ginástica com o pescoço torcido e o prof. vai-se defender com a obrigatoriedade do programa e da avaliação. Nesse dia acaba esta cegada.

Até lá vamos matar qualquer Einstein que apareça nas nossas escolas, porque o burro, sendo genial em matemática ou física, não sabe fazer o pino. E depois temos os profs de ginástica que embandeiram em arco com este circo e gerem as notas como a Nasa selecciona astronautas e os outros, que pura e simplesmente dão ao aluno a nota de 18 ou 19 que ele precisa para não estragar a média. Um país de cómicos.